As perguntas do dia são…

1 – Quantas vezes vai Manuela Ferreira Leite (economista, ex-ministra das Finanças) confundir a taxa de IRC com a de IRS? Mais ou menos que no debate anterior?

2 – Quantas vezes vai José Sócrates (líder do PS) referir propostas do programa eleitoral da adversária?

O debate de hoje promete.

Navegação sem GPS

Aqui há uns tempos soube-se que Bob Dylan estava a ponderar aceitar a oferta de uma das muitas empresas que produzem GPS para ser uma das vozes disponíveis para os ditos aparelhos. Dylan brincava com a possibilidade dizendo “acho que seria bom se estivessem a precisar de indicações e ouvissem a minha voz a dizer algo como: ‘à esquerda na próxima rua… Não, direita… Sabes uma coisa? Vai sempre em frente’. Provavelmente eu não deveria fazê-lo porque, para onde quer que vá, acabo sempre no mesmo sítio – Avenida Solitária”. Os seus fãs adorariam, suponho, mas Dylan e as suas errâncias contrariam a essência do GPS e da sua perfeita e eficientíssima acção: fazer-nos chegar o mais depressa possível ao destino e assim livrar-nos dos atrasos e do inesperado. E tudo o que hoje tem por destino a poupança do tempo e a obtenção de resultados tem sucesso garantido, mas não vejo em que medida se poderá coadunar com o espírito dylanesco. Não encarem isto como o ataque de uma tecnofóbica ao GPS, só faltava. Que é muito útil, que avisa onde estão os radares, a bomba de gasolina mais próxima, etc, tudo muito benéfico e prático e meritório. Mas não estaria mal desligá-lo de vez em quando e deixar-se errar.

Há um poema muito famoso de Robert Frost, citado como justificação de variadas e espantosas borradas, no qual o poeta descreve como, perante duas estradas que divergiam num bosque, e lamentando não poder percorrer ambas, escolheu a menos percorrida e que isso fez toda a diferença. A estrada menos percorrida é para os bravos, claro, e nada garante que não termine apenas na Avenida Solitária. Mas em alguém momento, ainda que seja um único, seria bom, digo eu, poder apontar no nosso diário de bordo que escolhemos essa estrada. Há uns anos, uma grande amiga contou-me, sem perder tempo com lágrimas, que tinha ficado sem emprego e que, estando num momento de desorientação e incerteza, tinha decido usar a indemnização que recebera, e que era o único dinheiro que lhe restava para os tempos de desemprego, numa viagem à Patagónia. Eu contive-me a custo porque o que me apetecia era gritar-lhe que estava louca e que esse seria um disparate do qual se arrependeria para sempre. Antes de abrir a boca ouvi a descrição que ela me fez das expectativas que tinha para a viagem, e admirei a sua bravura. Sim, era insensato, era de loucos, ninguém no seu perfeito juízo o faria. Mas por que não? Aquela viagem acabou por ter o seu cariz iniciático e transformou-se num momento de reencontro e de crescimento. E quando regressou arranjou um novo trabalho e tudo se normalizou sem mais dramas. Perdemo-nos, reencontramo-nos, passamos pela Avenida Solitária e com um pouco de sorte temos um vislumbre da rua central, onde estão todos e a vida palpita.

HOJE, TORÇO INTEIRAMENTE PELA DRA MANUELA

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ASSIM COMO PASSO A SER BENFIQUISTA OU SPORTINGUISTA NOS JOGOS INTERNACIONAIS NOS QUAIS ELES CONCORRAM

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Não é difícil de entender.
É um imperativo Nacional.
O sr Pinto de Sousa é a modos que um estrangeiro que só nos quer levar de vencida, seja de uma maneira, seja de outra.
Qualquer voto, num partido qualquer que não seja o do ainda nosso Primeiro, é um não voto no partido do governo.
Hoje, voto PSD. Amanhã não sei, mas sei que não voto PS.

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JM
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Debate Manuela Ferreira Leite – José Sócrates

Paris Hilton no Dicionário de Citações da Oxford University Press… Sim, da Oxford University Press

Que há coisas estranhas, há. Esta é uma delas. Paris Hilton tinha apenas uma virtude: ser a socialite (seja lá o que isso for) mais famosa do mundo. Agora passou a ter outra: está, pelo menos num aspecto, ao lado de verdadeiras personalidades, como Confúcio ou Oscar Wilde. Juro.

Este estranho encontro ocorre nas páginas da mais recente edição do Dicionário de Citações, publicado pela Oxford University Press. Sim, não é engano. Pela Oxford University Press. É verdade. E com este primor de frase: “Veste-te bem onde quer que vás, a vida é demasiado curta para passar despercebido”. Hein, que tal? É ou não uma frase brilhante?

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Pois claro que é, terão pensado os editores ingleses, que a escolheram para figurar no palco das frases dos maiores pensadores de todos os tempos.

Como é evidente, qualquer um de nós poderia figurar no dicionário, com frases até mais inúteis que aquela, mas não somos socialites.

Voltando a Paris, Hilton…

Em todo este processo, os autores terão registado severas dificuldades em não incluir outras frases geniais, o que soa a injustiça. Poderiam integrar, por exemplo, estas: “A Barbie sempre foi uma das minhas heroínas. Ela pode não fazer nada, mas está sempre deslumbrante”; ou “Nada do que eu escreva num e-mail tem significado. São só palavras que eu escrevo”.
Paris Hilton reagiu no seu Twitter: “É tão fixe que eu tenha uma citação no dicionário”. É fixe não é? Não sei é se é assim tão fixe para o tal dicionário.

Legislativas – Sondagens:

PS: 37%
PSD: 35%
BE: 11%
CDU: 8%
PP: 6%
(cesop)

PS: 33,6%
PSD: 32,5%
BE: 9,6%
CDU: 9,4%
PP: 8,0%
(Expresso)

PS: 35,3%
PSD: 32,4%
BE: 16,2%
CDU: 6,9%
CDS-PP: 5,2%
(Marktest)

PS – 39,5 A 41,5%
PSD – 33 a 35%
Bloco – 10 a 12%
CDU – 8 a 9%
CDS – 7 a 8%
(FMSá)

PORTAS – 6, LOUÇÃ – 3

PORTAS GANHA

Portas quer formar governo. Louçã não quer.
Portas trabalha para convencer as pessoas que merece sê-lo. Louçã só lhe interessa poder atacar quem governar, e poder dizer mal de tudo e mais alguma coisa.
Só por isso, o discurso de Portas é superior.
Hoje, neste debate, ninguém queria parar. Por eles, ficavam ali toda a noite.
As ideias não convergem de modo algum. Estes dois não se entendem, nem se entenderão nunca.

O debate Paulo Portas – Francisco Louçã, no dia em que o Bloco aparece com 16% no Barómetro da TSF

Para o inefável Mário Bettencourt Resendes, o vencedor da noite foi… José Sócrates. Assim mesmo. Para alguns, José Sócrates ganha sempre, mesmo quando não está presente. Quanto ao resto, foram bem visíveis as diferenças entre uma Direita muito Direita e uma Esquerda a sério. Mais uma vez, Paulo Portas veio com a treta do Rendimento Mínimo financiar a preguiça. Curiosamente, nunca se vê o líder do CDS a vociferar contra os milhões que o Estado andou a injectar nos Bancos. Ainda assim, teve o desplante de dizer que foi o seu Partido que mais fez pela pobreza em Portugal.
Francisco Louçã, mais agressivo do que contra José Sócrates (por que será?), acabou por ganhar o debate contra um contendor que cada vez mais representa menos no espectro político português. Logo no dia em que o Barómetro da TSF/Marktest dá ao Bloco de Esquerda 16% das intenções de voto. Pode parecer exagerado, mas atenção! Esta sondagem não é da Eurosondagem, é da Marktest – a mesma que acertou nas Europeias.

Sócrates e a família política

Ficamos sem saber se Sócrates se esqueceu da sua militância na JSD, ou se se sente da  família (política) de Manuela Ferreira Leite.

Eu acho que ele nunca saiu da JSD, limitou-se a perceber que o PS lhe facilitava a carreira de desenhador de mamarrachos. Mas isto sou eu a achar, claro.

No 11 de Setembro, falemos do sistema educativo do Chile (ainda) de Pinochet e das assustadoras semelhanças com o sistema educativo português (ainda de Sócrates)


Ao contrário do que muitos pretendem fazer passar, o Chile não é um modelo no que diz respeito ao sistema educativo. Daí que não se perceba muito bem por que razão, ao implementar um novo modelo de avaliação de professores, o Ministério da Educação português foi copiar o modelo chileno.
Nada me move contra o Chile. Pelo contrário. No que me toca, admiro os escritores chilenos e toda aquela atmosfera – cores, sons e cheiros – que nos é transmitida pelos livros de Isabel Allende ou de Luis Sepulveda. Aliás, a página 73 da «Casa dos Espíritos» de Allende (edição Difel) nunca me saiu da cabeça. Um «guisado afrodisíaco» que um dia – prometo a mim mesmo há anos – ainda hei-de experimentar, nem que para isso tenha de deixar de ser vegetariano por um dia.
Uma questão diferente é considerar que o Chile é um país-modelo nestas questões. Pessoalmente, continuo a pensar que, em termos de educação, os países da Europa desenvolvida são o exemplo a seguir. O próprio Governo o admitiu, ao falar no fim das retenções até ao 9.º ano, como acontece na Finlândia.
No que respeita à avaliação de professores, por exemplo, o modelo de avaliação chileno é de inspiração clara da ditadura de Pinochet. As medidas de fundo começaram a ser esboçadas ainda durante o seu Governo, como refere Raul Iturra na carta aberta à Ministra da Educação.
Aliás, seria ingénuo pensar que os tentáculos e as influências de Pinochet terminaram no momento exacto em que ele entregou o poder. É elucidativo que, até 1998, Pinochet tenha continuado a ser o mais alto responsável pelas Forças Armadas do país, altura em que passou a ocupar o lugar de Senador no Congresso chileno.
E basta ver que o poder passou de Pinochet para Patrício Aylwin, que apoiou o golpe contra Salvador Allende em 1973. Durante muito tempo, no Chile, o Regime Militar é que continuou a dominar. A administração local estava ainda nas mãos de pessoas designadas por Pinochet e o próprio continuava a ser o chefe das Forças Armadas.
Aliás, Francisco Rojas, director da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e um dos mais importantes analistas políticos do país, dizia em 1998 que, «para chegar à democracia plena, o Chile ainda precisa de uma reforma constitucional, além de superar a vocação autoritária, enraizada não só nas Forças Armadas, mas em toda a sociedade chilena» e que «as paixões estão envolvidas em certos simbolismos vinculados à situação actual, que mostra que a figura do general Pinochet continua influenciando os chilenos.»
Como referiu em 2007 Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, «o Chile ainda adopta o modelo educacional criado no final da década de 80 pelo ditador falecido Augusto Pinochet, com pequenas alterações.»
Em Julho de 2008, Juan Guzmán, o juiz que processou Augusto Pinochet, afirmou que «mesmo depois de 18 anos do fim da sangrenta ditadura, tem-se avançado muito pouco na direcção de uma verdadeira democracia, porque ainda hoje se mantém vigente a Constituição de Pinochet e uma Corte Suprema que colaborou com a ditadura militar.
O juiz declarou que o Chile ainda se rege pela “constituição elaborada pela ditadura de Pinochet, que cria instituições pinochetistas e permite que uma minoria autoritária continue ditando leis na República democrática”. Segundo Guzmán, desde 1990, quando Pinochet deixou o poder depois de 17 anos no comando do Estado chileno, muito pouco se transformou na estrutura jurídica e legislativa do país.»
Notícia de Junho deste ano publicada no MNN: «Há mais de dois meses estudantes e professores chilenos têm-se mobilizado numa luta incessante contra a aprovação da reforma educacional proposta pela presidente Bachelet. A Lei Geral da Educação (LGE), que vem sendo discutida desde 2006, foi aprovada pelos parlamentares na última semana. Essa nova legislação surge para substituir a Lei Orgânica Constitucional da Educação (LOCE), que vigora no país desde a ditadura de Pinochet.
Como já explicitado em artigos anteriores, os protestos dos estudantes e professores têm ocorrido constantemente desde o final de Abril. Eles acusam a nova legislação de ser apenas uma adaptação da velha lei de Pinochet. Com a reforma educacional, Bachelet estaria, então, apenas dando continuidade ao projecto do ditador.
Entre os dias 16 e 19, ocorreu a segunda greve dos professores chilenos. O objectivo da paralisação era evitar a aprovação da reforma educacional no parlamento. Segundo os organizadores, 80% dos professores teriam aderido à greve. Jaime Gajardo, presidente do Colégio dos Professores, afirmou que: “Estamos falando de milhares e milhares de pessoas. Reunimos facilmente 15 mil na Plaza de Armas, além de estudantes e de outros grupos, mas apenas 10 mil professores se mobilizaram”.
Diante da grande mobilização, a Ministra da Educação, Mónica Jimenez, afirmou que foi baixa a adesão dos professores à greve. Todavia, desmentindo a ministra, as estatísticas do secretário regional ministerial da educação (SEREMI), Victor Schuffeneger, confirmaram que 80% das escolas metropolitanas não tiveram aulas.
Combatendo as críticas da ministra, Gajardo afirmou que: “O pior caminho que a ministra pode seguir é o de continuar insistindo que estas mobilizações almejam outros fins, e o de não reconhecer que o que temos aqui é uma reivindicação generalizada da sociedade para que se realizem mudanças substanciais no sistema de ensino. Existe um consenso, porque nós temos feito consultas com líderes regionais e as mobilizações têm o objectivo de retirar a LGE do parlamento, de modo a superar as limitações do actual projecto em discussão”. Contudo, mesmo diante das grandes mobilizações, o parlamento aprovou a reforma que agora segue para o senado.
Ou estoutra notícia: «Como noticiamos em edições anteriores, há mais de dois meses o Chile vem sendo palco de manifestações e protestos de estudantes e professores contrários à reforma educacional. Segundo os manifestantes, a legislação educacional de Bachelet não atende as reivindicações para que se construa uma educação pública e de qualidade. A nova legislação seria apenas a continuidade da lei educacional de Pinochet, que vigora no Chile desde 1990.
Mesmo após o parlamento chileno ter aprovado a nova legislação educacional, estudantes e professores chilenos seguem em luta nas principais cidades chilenas. Colégios e universidades continuam ocupados, assembleias com centenas de estudantes têm sido realizadas e muitas avenidas tomadas pela marcha contra a Lei Geral da Educação de Bachellet.»
Ou ainda esta: «Os estudantes lutam para que a Lei Geral da Educação não seja aprovada pelos parlamentares e para que ela seja revista em diversos pontos fundamentais. Segundo o presidente do Colégio dos Professores, Jaime Gajardo: «Esperamos que no dia 21 de Maio, os deputados digam que vão rever este projecto e que vão ter mais tempo para debater e discutir um novo projecto educacional para o Chile. Pois, este projecto actual em vários pontos é igual ao projecto da Lei Orgânica Constitucional de Ensino (LOCE).” Esta lei foi outorgada pelo ditador Augusto Pinochet, um dia antes de deixar o poder, em 1990, consagrando a educação privatizada.»
Semelhanças com Portugal?
Uma das maiores polémicas no actual sistema educativo do Chile, esclareço eu, prende-se com o facto de os alunos e as suas famílias receberem um «voucher», que lhes permite optar entre escolas públicas e escolas priva
da
s. A pura e clara privatização do ensino que, mais uma vez, vem dos tempos de Pinochet. E não é também isso que está por trás das reformas educativas de Portugal? A entrega das escolas às autarquias prevê-se para breve, e este é só um primeiro passo para o que virá a seguir.
As repressões de que os manifestantes têm sido alvo mostram à saciedade que existem ainda fortes resquícios do Chile de Pinochet. Até nas comemorações do 1.º de Maio 122 trabalhadores foram presos e a polícia lançou gás lacrimogéneo. «O secretário do Interior, Felipe Harboe, disse que as 122 detenções foram muito inferiores às realizadas no ano passado», refere uma outra notícia, como se isso fosse motivo de grande orgulho.
Tudo isto para concordar com Francisco Rojas quando diz que, ainda hoje, a sociedade chilena é profundamente autoritária. E era-o mais ainda em 1998, e mais ainda em 1990.
E quanto ao actual modelo de avaliação de professores no Chile? Como instrumentos de avaliação, utiliza-se como fonte de informação, no Chile, o portefólio do professor com descrição de actividades e planificações, pautas de auto-avaliação, entrevista ao avaliado e relatórios dos órgãos de direcção e coordenação da escola.
Actualmente, a compra e venda de portefólios tornou-se um negócio muito rentável no país. É a pura mercantilização do processo de avaliação de professores.

Debate Manuela Ferreira Leite – José Sócrates

O "Centrão" foi à vida (se o BE quiser…)

As eleições servem para indicarem o que os eleitores querem e pensam que seja melhor para o país. Se os eleitores não querem uma maioria absoluta é porque perceberam que um tal cenário dá no que se vê. Prepotência, autismo, quero, posso e mando e com os resultados que estão à vista.

Contrariamente ao que nos querem fazer crer, normal é não haver maioria absoluta. A Democracia tem essa capacidade de permitir arranjos, cenários deferentes de governação, de incentivar a “cultura do consenso”.

Tudo aponta que seja essa a intenção de voto nas próximas eleições legislativas, e neste contexto, o mais natural é que o BE possa ter uma percentagem de votos que permita uma maioria com o PS. Mais, como a maioria parlamentar se obtem à volta dos 42% dos votos é até aritmeticamente possível que possa alcançar a maioria parlamentar tambem com o PSD.

O BE , como partido responsável, pode furtar-se a negociações para se alcançar um governo estável à volta de consensos sobre os grandes problemas da nação? Pode, porque partidariamente lhe é mais confortável, eximir-se às responsabilidades que o povo com o voto livre e democrático, lhe cometeu?

Não pode, porque isso seria a sua morte a prazo. Afinal para que serve o voto no BE?

Este raciocinio aplica-se da mesma forma quer ao PS quer ao PSD. E se estiverem reunidas as condições necessárias para se conseguir uma maioria parlamentar, os partidos têm que encontrar uma forma de estabelecer cenários para a governação do país. Ou uma fórmula de governo estável ou consensos parlamentares com vista à solução dos grandes problemas nacionais que duram há décadas , atrasando o país inexoravelmente, empobrecendo gerações de cidadãos.

Uma coisa é certa. O “centrão” foi à vida!

Turquia #2:

Já agora e desta vez a propósito deste desafio, aqui fica a posta principal:

“A propósito da visita do Presidente da República à Turquia vou ressuscitar uma posta que coloquei em tempos na blogosfera sobre a pátria de Ataturk – foi a 14 de Maio de 2007 e como resposta a um Amigo. Por acaso desconheço a posição do nosso PR sobre a matéria. Aliás, desde a sua célebre declaração aos portugueses sobre o Estatuto dos Açores pouco sei das suas opiniões sobre o que quer que seja.

Meu caro Amigo,

As últimas eleições francesas foram disputadas por dois candidatos, Segolenè Royal e Nicolas Sarkosy. A primeira representava a esquerda francesa e o segundo, a direita. Isto em termos muito simplistas pois, como bem sabes, Segolenè não representava assim tanto a esquerda socialista tradicionalista (que a detesta, profundamente, por a considerar demasiadamente liberal) nem Sarkosy representa certas franjas mais moderadas da direita francesa. Era o que tinham e a mais não estavam obrigados.

O Povo francês, de forma esmagadora, decidiu votar e com o seu voto fez uma escolha clara: Sarkosy. Como já escrevi antes, espero que não se arrependa. Entendo o voto francês: a insegurança que se vive nas grandes cidades francesas (que eu próprio sou testemunha no caso de Paris ou Marselha); o “papão” Europa provocado por aqueles que não querem respeitar o “Não” francês à Constituição Europeia e o desemprego crescente dos licenciados (lá como cá), sem esquecer alguma intolerância religiosa da comunidade Árabe residente em França. A tudo isto se soma a intranquilidade provocada por uma certa esquerda radical que não sabe respeitar a vontade da maioria – como, aliás, se viu posteriormente. Foi um voto profundamente “nacional”. O que se entende.Contudo, desconfio muito das intenções de Sarkosy.

Desde logo, porque entendo que violência gera mais violência e não resolve problemas de segurança. Temo que se resvale da “força da autoridade” para a prática do “autoritarismo”. A seguir, não esqueço que Nicolas Sarkosy não nasceu ontem, esteve no governo francês nestes últimos anos – mais dedicado a cimentar uma posição forte como candidato da inevitabilidade do que a governar. Mas, mais grave, considero perigoso (no mínimo) a sua posição face a uma integração da Turquia na UE. Como bem sabes, Sarko, é completamente contra. O que, a meu ver, é uma estupidez e um erro trágico para a segurança da Europa e do Mundo.

Não sendo um “turcófilo”, como se afirma Pacheco Pereira num lúcido artigo de opinião do Público (Sábado, 12 de Maio/2007), considero a Turquia como um país europeu. Mais, é fundamental para a Turquia e para todos nós, um forte apoio da Europa aos enormes movimentos “pró-europa” existentes nas classes intelectuais e nas elites turcas. Os povos Árabes sofrem às mãos de tiranos sem escrúpulos, refugiam-se no verdadeiro ópio do povo que é o fundamentalismo religioso (todo ele, seja qual for a crença) e vivem desgraçadamente – experimentem visitar um qualquer país árabe, mesmo aqueles aqui ao pé da porta como o Magrebe e facilmente compreendem esta minha afirmação, basta olhar-lhes nos olhos. Os povos Árabes só se vão libertar deste ofensivo colete-de-forças quando, tal como nós, tiverem acesso a liberdade de expressão. Quando conseguírem ter aquilo que nós temos e que nem sempre sabemos valorizar. Ora, a Turquia, não é apenas uma das portas da Europa, é também uma importante porta na Ásia e nos países Muçulmanos. Com o desenvolvimento económico que uma entrada na UE acarreta (como connosco antes e agora nos países do leste), a Turquia seria um motor de desenvolvimento e uma alavanca democrática para todo o Mundo Muçulmano. Sabes porquê, meu caro PJ, porque todos nós, queremos o melhor para os nossos filhos e os Árabes (como antes os Russos, pegando numa célebre canção de Sting) também amam os seus filhos.

É esta a tragédia de uma certa direita quando na mão dos “Sarkos” deste Mundo.Pode ser que eu esteja enganado. Deus queira.

Julgo que, agora, percebes melhor as minhas profundas reticências e até alguma rejeição a Sarkosy. A mesma que tenho para com certas franjas da nossa direita, agora entretidas com a “perseguição” aos estrangeiros que querem vir trabalhar para Portugal (cuja resposta dos Gatos Fedorentos foi absolutamente genial), que não entendem a importância desta força de trabalho e acréscimo cultural. Não entendem hoje, como ontem e nunca entenderão. É preciso conhecer Mundo, compreender a natureza humana e não confundir casos de polícia com problemas de segurança (que sempre existiram). Como não entenderam nem reconhecem a importância “dos de fora” na nossa epopeia dos descobrimentos – o período mais áureo da nossa história. Coincidência? Não me parece”.

(mais tarde escrevi ESTE em resposta a comentários de leitores).

Cartazes das Autárquicas (Vendas Novas)

vendas_novas-PSvendas_novas-PSD

O regresso de Jorge de Sena

jorgedesena01m

Não, não, não subscrevo, não assino

que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas – armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos queiram secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de falácia imensa.
E todos eram povo e em nome del’ falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e á inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois quedo lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Africas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o Otelo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocratado oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).
Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa – defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte.
Não é tempo para tratar de poéticas agora.

Jorge de Sena, Fevereiro 1976.

E a Turquia na UE? Avente a sua opinião

turquiaAí está um assunto que divide muita gente e que anda desaparecido há muito tempo. Entra? Não entra? Qual é a sua opinião?

A Alemanha e a França vão estar de acordo em deixar entrar um país com 80 milhões de habitantes que passaria a ser o segundo mais populoso? E Muçulmano? E até onde vai a Europa em termos territoriais? Vamos importar toda a conflitualidade de territórios tão longinquos?

No entanto, pode vir a ser uma ponte importantíssima de diálogo entre a UE e os países muçulmanos mais moderados, o que seria uma contribuição muito grande para a pacificação e para a integração dos 50 milhões de muçulmanos que já vivem na UE.

Avente sobre este assunto tão importante. Envie os seus comentários ou os seus textos que serão publicados.DSC01555DSC01557
Nas fotos:
Em cima, Mercado das Especiarias em Istabul.
Em baixo, exterior e interior da Mesquita Azul.

NOVAS SONDAGENS. RESULTADOS "À LA CARTE"?

 

Não sei como acreditar nesta sondagem.
Acredito nela da mesma forma que deveria ter acreditado naquelas que davam 2% ou menos ao CDS antes das eleições europeias.
De qualquer forma, se estas sondagens forem a real intenção dos Portugueses, vamos ter um problema bicudo. Ninguém se vai entender.
Um empate entre PSD e PS, sem se saber quem vai ficar em primeiro. Vai ser um bico de obra.
Há meia dúzia de dias atrás, o cenário era um pouco diferente, também com uma sondagem fidedigna.
Outras se seguirão, com outros resultados “à la carte”.

Ainda a Social – Democracia

Continuação daqui

Continuando a conversa com o meu estimado aventador Adão Cruz o sistema político capaz de sobreviver em Liberdade tem que ser :

Um Estado de Direito (primado da lei )

Democrático – (um homem, um voto )

Economia – (social de mercado)

Dando de barato que estamos todos de acordo com as duas primeiras resta o sistema económico. O sistema tem que assentar no livre jogo da oferta e da procura, com a mão da regulação do Estado, impedindo ” a mão ínvisivel” de o transformar numa selva. E tem que ser porquê ? Porque a realidade mostra que, até ver, é o único sistema que consegue ,sustentadamente, criar riqueza suficiente, para:

Fazer crescer o país no seu todo (há cincoenta anos que as economias de mercado sustentam a melhoria de vida das populações, embora de forma muito desigual ); sustentam o sistema público de saúde e o sistema público de segurança Social ; e um Estado que administra a Justiça , a administração da coisa pública, a Segurança e a Defesa.

Nenhum outro sistema económico foi capaz de criar riqueza a longo prazo por forma a sustentar a paz, o bem estar e a propriedade. Todos os outros, desde o “capitalismo escravidão até ao capitalismo de Estado ” ruiram com fragor por não conseguirem dar resposta às necessidades básicas da população.

Mesmo os sistemas não inteiramente capitalistas, como é a China, introduzem cada vez mais os mecanismos de mercado de criação de riqueza mantendo, na posse do Estado, os grandes meios de produção. Diz-se socialista por esta última razão, mas com enormes sacrificios de grande parte da população que não tem oportunidades na área da Educação, da Saúde e de auferir um vencimento condigno ( para não referir a “escravatura infantil”).

A injustiça social, a injusta distribuição de riqueza e a incapacidade de criar iguais oportunidades para todos, resulta do egoísmo dos homens, da ganância individual e não do sistema, que só por si não impede uma mais justa repartição.

Mas isto leva-nos ao conceito do “homem novo” que há dois mil anos Jesus anunciou!

PS: quando Hengel, Rosa de Luxemburgo e Markx (para falar dos que li com atençao) falam dos “exércitos de esfomeados” referem-se aos que assim tinham atravessado toda a idade média até ao século XlX, o da industrialização. Depois ,pela pena de Markx passaram “a reserva de mão de obra miserável” mas o capitalismo e a industrialização têm pouco ou nenhuma culpa nessa condição.

11 de Setembro

1973: choveu em Santiago.

A máscara do Louçã

Cuidado com o Francisco Louçã. Finalmente deixou cair a máscara de bom samaritano e revelou-se finalmente como o verdadeiro anti-cristo dos PPR’s e dos benefícios fiscais.  Quem o diz é o Aparelho de Estado. E eu que estava tão enganado, a pensar que o BE era um simpático e jovem partido anarquista que apenas queria distribuir drogas leves por todas as minorias e ocupar casas abandonadas. Mas não! É um partido obscuro, revolucionário, extremista e com um agenda escondida de radicais nacionalizações e ataque violento à classe média e às suas poupanças. Sinto-me muito mais seguro, agora que fui elucidado.

O Aparelho de Estado continua e avisa-nos para ter cuidado com o BE que “tem um projecto económico e social que visa destruir a nossa economia de mercado,  o que teria a consequência de fazer com que Portugal deixasse de ser democrático.

“As propostas económicas do BE são uma ofensiva sem tréguas à liberdade económica de todos os indivíduos, assente no princípio da propriedade privada. Que caracteriza não só os bens dos “ricos”, sejam eles quem forem em linguagem bloquista, mas também os bens de todos nós. As nossas casas, o nosso carro, a nossa mobília.”

Aliás, agradecendo mais uma vez, já me precavi e cravei toda a mobília ao chão, não fosse aparecer por aqui algum militante do BE.

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Soares e Cunhal no I Governo Provisório

(continuação daqui. explicação da iniciativa aqui. para ver todos os «posts», carregar na imagem da capa do livro na barra lateral)

Valerá talvez a pena analisar aqui, tanto quanto é possível a mais de vinte anos de distância, se a ideia da inclusão do Dr. Álvaro Cunhal no I Governo Provisório parte realmente do general, como ele próprio admitiria em entrevista de fim de carreira (e já admirador do Dr. Mário Soares), em 1984, ao historiador e jornalista José Freire Antunes,ou se ela parte do primeiro encontro com Mário Soares. Ora, dados os sentimentos anticomunistas do general Spínola, dada a sua amplamente demonstrada ignorância
política e o facto de se saber que Mário Soares teria dito ao general que se Cunhal não entrasse ele também não entrava para o Governo, parece evidente que a decisão foi influenciada decisivamente pelos socialistas. Aliás, Soares diria a Dominique Pouchin de forma peremptória que Spínola não era então favorável «à presença dos comunistas no governo». Também me parece duvidoso, e nenhum registo existe que o confirme, que tenha sido o próprio secretário-geral do PCP a reivindicar tal lugar! O que implica que estando à partida excluída a hipótese de terem sido os comunistas a insistir na sua participação – e não devemos esquecer que o PCP em Abril de 1974 ficaria satisfeito com a sua mera legalização – estamos perante a probabilidade de ter sido o próprio Mário Soares, na sua primeira entrevista com Spínola, graças ao apoio de Raul Rego, quem lançou Cunhal para o I Governo, a fim de ele próprio se tomar indispensável na pasta dos Negócios Estrangeiros!
O ex-embaixador de Portugal em Washington, João Hall Themido, confirma que Mário Soares «não inspirava confiança» ao general Spínola, que terá simplesmente comentado que Soares não era «um génio» mas daria «um ministro aceitável». «Sá Carneiro estava no Governo, como ministro sem Pasta, para acompanhar de perto os problemas da política externa» necessitando o general apenas de alguém para abrir «as portas» do reconhecimento à Revolução, convencido das «ligações europeias do líder do PS». Do ponto de vista do Partido Socialista – tanto quanto me seria dado a conhecer posteriormente – não havia nenhuma vantagem em que a pasta dos Negócios Estrangeiros fosse ocupada por Mário Soares, havendo outros dirigentes, como por exemplo Ramos da Costa, que não tendo que se ocupar com a organização do Partido, era quem melhores relações internacionais detinha no PS de então, além de dominar razoavelmente o idioma inglês! Não seria essa, evidentemente, a opinião do próprio Mário Soares, que considerava que «ninguém mais do que [ele] tinha então a possibilidade de conquistar rapidamente a simpatia da Europa e do Mundo para uma
revolução tão repentina, que inquietava o estrangeiro». Contudo só Mário Soares teria essa opinião, com a falta de modéstia que todos lhe conhecem. O mundo inteiro recebera o anúncio do 25 deAbril com grande regozijo e quem dava garantias e tranquilizava os
governos aliados de Portugal na NATO era exactamente o general Spínola e não o socialista Mário Soares, co-signatário de um «inquietante» acordo de governo com o Partido Comunista. Teremos contudo que admitir que o 25 de Abril encontrara o País e os seus dirigentes (quer os cessantes, quer grande parte dos emergentes) num estado de grande provincianismo e isolamento internacional, o que explicaria a grande necessidade que Spínola sentia de ter alguém que lhe abrisse portas e alguém que controlasse as actividades do «porteiro»! O Partido Socialista achava o seu secretário-geral fundamental paraorganizar um partido que a 25 de Abril não existia «de facto»e que, como se veria alguns meses depois, ia sendo «entregue» ao PCP no seu I Congresso. Os socialistas, em 1974, não só não queriam que Soares fosse o ministro dos Negócios Estrangeiros do general Spínola como exigiam «que ficasse em Lisboa a fim de organizar o mais rapidamente possível as infraestruturas do Partido». Este, no entanto, não seguiria os conselhos dos amigos, admitindo mesmo que nenhuma atenção dava ao seu partido pois «as raras semanas que passava em Lisboa eram absorvidas por Conselhos de Ministros interrnináveis». Mas, mais uma vez demonstrando aquela vaidade que Tony
Benn diz ter encontrado no líder do PS, este explica o seu «sacrifício» pela Nação em detrimento do seu partido, perguntando-se «quem era suficientemente conhecido deWilly Brandt para lhe pedir uma audiência no próprio dia? Quem é quepodia organizar,
à pressa, um encontro com o Presidente Senghor, de passagem por Paris? Quem é quetinha a possibilidade de reunir em Helsínquia com um simples telefonema, os líderes da social-democracia escandinava? Quem é que Harold Wilson esperava para reconhecer, sem mais demora, o novoregime português?». Mas, acrescentaria, é evidente que o meu partido tirou proveito dessas viagens».
A necessidade de angariação de fundos para o PS, embora fundamental naquela fase,também não justificava quefosse o secretário-geral a ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros.
Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais tinham sido no passado, e continuavam então a ser, não só angariadores de fundos como elementos bem creditados junto da Internacional Socialista, a quem tinham apresentado Mário Soares,anos antes. Por outro lado, para além da ridícula vaidade demonstrada, a sua autopromoção não passaria de uma operação de branqueamento que só o provincianismo reinante deixaria passar em claro.
De facto, Willy Brandt, que à semelhançade qualquer outro chefe de governo socialista receberia com o maior prazer qualquer enviado especial do novo regime português, estava demissionário após a prisão, a 24 de Abril de 1974,do seuconselheiro
Gunther Guillaume, acusado de ser espião do KGB. Seria já Helmut Schmidt, que Soares não conhecia, a reconhecer o novo regime português. Senghor, embora ainda não ligado à Internacional Socialista, ao que parece receberia com igual prazer qualquer enviado do general Spínola. E só por grande pretensão se poderia imaginar que o telefonema do MNE português levaria os líderes da social-democracia escandinava a reunir em Helsínquia para um encontro com ele. Acontece que quando Mário Soares pediu para ser recebido pelo então primeiro-ministro sueco, Olof Palme, lhe foi dito que seria melhor deslocar-se a Helsínquia, onde os quatro primeiros-ministros dos países nórdicos estavam reunidos numa das habituais reuniões do Conselho Nórdico.
Eram eles o sueco Olof Palme, o dinamarquês Anker Joergensen, o norueguês Trygve Brattelli e o anfitrião, Kalevi Sorsa. Todos sociais-democratas ansiosos por ter notícias do que se passava em Lisboa. Toma-se mais credível que ao insistir junto de Spínola na inevitabilidade da presença do Dr. Cunhal no Governo se estivesse ele próprio a tomar inevitável como sendo, na altura, o socialista e, provavelmente, o português mais bem credenciado para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros, de que necessitava para se autopropulsionar internacionalmente.
Político comprovadamente astuto, sabia que em Portugal os próximos anos passariam pela vertente internacional e que o seu futuro político teria que passar pelas Necessidades. Também sabia que no Partido Socialista não existia na altura «um centavo» e que o controlo dos financiamentos representaria igualmente o controlo do partido.

Hoje há sondagens

Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica:

PS: 37% … PSD: 35% … BE: 11% … CDU: 8% … CDS-PP: 6%

Marktest:

PS: 35% … PSD: 32% … BE: 16% … CDU: 7% … CDS-PP: 5%

Poemas com história: Canto da cela 10

Em Janeiro de 1965, envolvido na grande vaga de prisões que afectou estudantes e intelectuais das duas organizações clandestinas existentes – o Partido Comunista e a Frente de Acção Popular – fui preso e, antes de ir para a sede da polícia política onde, durante muitos dias, fui interrogado da forma que se sabe ou imagina, estive uns dias encarcerado na cela nº 10 do Aljube, num daqueles desumanos cárceres a que se chamava os «curros», celas estreitas e insalubres onde a luz filtrada através das grades e atravessando o corredor, era a única coisa agradável que acontecia. Quando, três meses depois, fui libertado, a recordação daqueles dias num «curro» do Aljube (que nem foram os piores…), ditou-me este texto que depois publiquei em A Voz e o Sangue. De notar, e não me canso de insistir neste tópico, que a Liberdade que invoco não é esta que vivemos – muito feita de «liberdades» – mas sim aquela que, há mais de 40 anos, eu e muitos sonhávamos alcançar.
Canto da cela 10

Sem título

Este esquife de pedra e de aço em que viajo,
onde navego as horas e as constelações do ódio,
é uma cela imóvel plantada no coração do medo.
Um manto de argamassa e ferro cobre a minha voz.
Não mais a mordaça invisível da falsa liberdade
que ante o Sol floresce impudicamente: agora
a voz abafada por sucessivas grades e paredes,
submersa sob este céu de estuque, sem estrelas;
agora, esta feia gaiola pintada de desespero,
em cujo dorso vai cravada a aranha possessiva
da lâmpada gradeada sempre acesa sobre a porta,
feroz sentinela da noite eterna. E, todavia,
para lá das grades, do corredor, do carcereiro,
a minha face adivinha o hálito fresco da madrugada
e eu navego a madrugada sobre o meu bailique,
sobre este corcel rescendente a suor e a sangue.
Durante as refeições abrem a porta e eu vejo
uma estreita fatia da janela do corredor:
são cinco grades de sé e três de céu
e estes são os melhores momentos do dia.
De pé, como a sopa do estado e olho a catedral –
– tive sorte – fiquei em frente a uma bela rosácea
(o quotidiano de um preso constrói-se
de factos humildes e pequenos).
Na parede cinzenta tatuaram um camelo sem pernas,
Um perfil de mulher com longos cabelos,
Uma estrela, nomes e riscos, muitos riscos,
sulcos no tempo, dias rasgados a golpes de solidão
pelos muitos camaradas que já aqui estiveram
e deixaram a sua passagem impressa nas paredes,
no chão, nas mantas e no ar, neste odor,
escandindo angústia e dolorosa expectativa.

Já não olho a parede – conheço-a de cor –
gasto as horas passeando nestas estreitas tábuas,
quatro metros para lá, quatro metros para cá.
Lá fora
passam eléctricos e os pombos rufam as asas.
………………………………………………………
À noite a prisão é um corpo pétreo, mas que pulsa,
As suas velhas empenas vibram sob os nossos dedos,
levam e trazem palavras fraternas.
Com o amor com que Ísis juntou o corpo de Osíris
disperso ao vento, junto letra a letra
uma mensagem que palpita aos meus ouvidos
– coragem companheiro – coragem companheiro.

Ah Companheiros,
nem a pedra e o aço conseguem esmagar as nossas vozes,
elas virão um dia como um rio impetuoso e forte
rasgar a noite em que as querem aprisionar,
destruir as grades da tirania, a opressão
e a crueldade – tudo isto derrubarão
na corrida para o seu oceano – a Liberdade.

Isto ouve-se?

Nos bastidores do debate Sócrates-Louçã.

LEITE – 4, PORTAS – 5

.
SÓ NÃO É EMPATE PORQUE NÃO ACREDITO EM COISAS DESSAS
.
. .
Com a necessidade que MFLeite tem de não assustar eleitorado à sua direita e à sua esquerda, o seu discurso foi feito um pouco a medo. Já Portas, que só tem de captar eleitorado, sem se preocupar com o assustar alguns à sua esquerda, entrou de peito feito. Para ambos, o inimigo a abater é o PS de Sócrates, e deixaram isso bem claro.
MFL fez um bom ensaio para o debate decisivo com Sócrates.
Portas fez um bom debate como é seu timbre.
Impostos e segurança social, serão os pontos principais em que se separam.
Ficou para mim, claro, que só em conjunto poderão formar maioria.
Só porque não aceito empates, dou a vitória a Portas, já que MFL ainda tem falhas na dureza do discurso.
A moderadora, fez um bom trabalho.
.
JM
.

visões estéticas contemporâneas

597_42Oskar Schlemmer
Manifesto da primeira exposição da Bauhaus
1923

«A Staatliches Bauhaus de Weimar é a primeira e, até agora, a única escola estatal do Reich – se não do mundo inteiro – que convida as forças criativas das belas artes, enquanto conservem a sua vitalidade, a actuar. Ao mesmo tempo, mediante a instalação de oficinas sobre bases artesanais, se impôs como tarefa uni-las num todo, numa compenetração frutuosa para as fazer convergir com a arquitectura. O conceito de arquitectura deve restabelecer a unidade que feneceu no envelhecido academismo e nos afectados ofícios artísticos, e tem que restabelecer a grande relação com o todo e possibilita, no sentido mais apurada, a obra de arte total. O ideal é velho, mas a sua aparência é sempre nova. O seu culminar é o estilo e a vontade de estilo nunca foi mais poderosa que na actualidade. Mas a confusão dos espíritos e dos conceitos causaram conflitos e disputas sobre a natureza desse estilo que deve aflorar como a nova beleza dessa confrontação de ideias. Semelhante escola, animadora e animada em si mesma, converte-se num barómetro das convulsões da vida pública e intelectual do seu tempo e a história da Bauhaus converter-se-á na história da arte contemporânea.


A Staatliches Bauhaus fundada depois da catástrofe da guerra e no caos da revolução e na era do florescimento de uma arte explosiva e emocionalmente cheia de pathos, vem a ser o ponto de reunião de todos os que, com fé no futuro e um entusiasmo transbordante, querem construir a catedral do socialismo. Os triunfos da indústria e da técnica antes da guerra e as orgias sob o signo da sua destruição despertaram aquele romantismo veemente que era uma proposta ardente contra o materialismo e a mecanização da arte e da vida. A miséria da época era também a miséria dos espíritos. O culto do inconsciente e do indecifrável, a propensão ao misticismo e ao sectarismo brotaram na procura das últimas coisas que estavam em perigo de perder todo o seu significado num mundo pleno de vacilações e rupturas. A ruptura dos limites da estética clássica fortaleceu a preeminência da emoção que encontrou o seu alimento e confirmação na descoberta do Oriente e da arte negra, dos camponeses, das crianças e dos doentes mentais. A origem da criação artística foi, assim mesmo, tanto mais investigada quanto os seus limites se extenderam mais audazmente. O uso apaixonado dos meios expressivos florescia como nas imagens dos altares. Foi no quadro, sempre no quadro, que se refugiaram os valores decisivos. Ele tem que assumir a sua divida com a síntese proclamada, independentemente da unidade do mesmo quadro, como a conquista mais elevada da exaltação individual.
A inversão dos valores, as mudanças dos pontos de vista, o nome e o conceito dão como resultado a imagem oposta, o novo credo. DADA, o buffon da Corte neste reino joga à bola com os paradoxos e liberta e purifica a atmosfera. O americanismo transposto para a Europa, cunho novo no velho mundo, morte ao passado, a luz da lua e a alma, assim avança o tempo presente com traços de conquistador. A razão e a ciência, os poderes supremos do homem, são os guias, e o engenheiro é o executor imperturbável das possibilidades ilimitadas. As matemáticas, a construção e a mecanização são os elementos. O poder e o dinheiro são os ditadores destes fenómenos modernos de ferro, cimento, vidro e electricidade. Velocidade da matéria rígida, desmaterialização da matéria, organização da matéria inorgânica, todos produzem o milagre da abstracção. Baseados nas leis naturais, são a obra do espírito para dominar a natureza. Apoiados no poder do capital, convertem-se em obra do homem contra o homem. O tempo e a hipertensão do mercantilista convertem-se na utilidade e finalidade na medida de toda a actividade, e o cálculo apodera-se do mundo transcendente: a arte converte-se num logaritmo. A arte, até há pouco desprovida do seu nome, vive a sua vida depois da morte no monumento do cubo e no quadrado colorido. A religião é o processo mental exacto e Deus está morto. O homem, o ser consciente de si mesmo e perfeito, superado por qualquer manequim na exactitude, aferra-se aos resultados da fórmula do químico até que seja encontrada também a fórmula para o espírito.
Goethe: Quando se realizarem as esperanças de que os homens se unam e se conheçam mutuamente em toda a sua força, com a mente e o coração, com o entendimento e o amor, ninguém poderá imaginar o que ocorrerá. Nesse momento já não necessitará de criar pois nós criamos o seu mundo. Esta é a síntese, o resumo, a intensificação e a densificação de tudo o que é positivo para formar um poderoso centro de forças. A ideia do centro, alheada da mediocridade e debilidade, entendida como balança e equilíbrio, converte-se na ideia da arte alemã. Alemanha, país central, e Weimar, o seu coração, não são pela primeira vez o local eleito de decisões espirituais. Trata-se de reconhecer o que é apropriado para nós com o objectivo de não ficarmos sem objectivo. No equilíbrio das oposições polares, amando tanto o mais remoto passado como o mais remoto futuro, conjurando tanto a reacção como o anarquismo, avançando desde o fim em si mesmo, desde o eu singular até ao típico, ao problemático, ao válido e seguro, chegaremos a ser os portadores da responsabilidade e a consciência do mundo. Um idealismo da actividade que abarque, penetre e una a arte, a ciência e a técnica e que incorpore a investigação, no estudo e no trabalho, realizará a construção artística do homem que, no que respeita ao sistema cósmico, é somente uma metáfora. Hoje apenas podemos avaliar o plano de conjunto, colocar os fundamentos e preparar as pedras para a construção.
Mas,
Somos, Queremos, e Criamos ! »

oskar schlemmer, escritos sobre arte: pintura, teatro, danza. cartas y diarios, paidos estética, barcelona, 1987.

comentário: a Bauhaus (1919-1933) criada por Walter Gropius contou com importantes ideólogos e mestres, para além deWassily Kandinsky e do próprio fundador. Entre eles contava-se O.S.  A sua contribuição foi decisiva, por exemplo, nos ateliers de teatro. Este pequeno texto – diferente dos manifestos bem mais conhecidos e técnicos de Gropius, Kandinsky ou Albers – resume, em última instância, o ideal técnico-prático bem conhecido da escola mas também o misticismo estético que, por exemplo, J. Itten e J. Albers desenvolveram a partir da teoria das cores e da oposição «método/intuição» no ensino artístico.

Berlusconi – 0, Sócrates – 1

www.elpais.com "Sou o melhor primeiro-ministro de Itália nos seus 150 anos de História", disse hoje Berlusconi na cimeira bilateral com Espanha, sob o olhar estupefacto (e um nadinha invejoso) de Zapatero. Desta vez fiquei muito desiludida com o Silvio. Tão passadista, tão voltado sobre os tempos que já lá vão, ainda a olhar para o Risorgimento, e para os estadistas de antanho. O nosso primeiro, ao contrário, tem os olhos postos no futuro. Ele sabe que nem as criancinhas que ainda estão agarradas à mama da mãe o poderão superar. "Ainda está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu", dizia ele aqui há tempos no Porto. Caro Silvio, podes ser o rei das noites loucas da Sardenha mas nisto da vaidade política ainda és um principiante.

CARTA ABERTA À MULHER DO PRESIDENTE

Carta aberta à mulher do Presidente

Minha Senhora
estava eu a jantar quando vi no telejornal
as imagens do bombardeamento
sobre a aldeia de Korisa.
Imagens da vossa bravura
imagens da coragem
e determinação do seu marido.
Corpos carbonizados
dilacerados
fumegantes
esventrados
cabeças estouradas
pedaços de vida
feitos em pedaços de carne morta.
Cem pessoas abatidas
e muitas outras feridas
gravemente
enquanto o diabo esfregou um olho!

Cem inocentes que Deus sacrificou

às mãos de quem tanto reza!
Cem refugiados
a caminho da longínqua esperança
olhos postos no fictício horizonte
da solidariedade humana!
Cem pares de olhos
brutalmente arrancados à luz
entre eles olhitos de crianças
com corações pequeninos
a bater dentro do peito
iguais ao coraçãozito da sua filha
quando batia mais apressado
lembra-se?
Mal vi estas imagens
corri ao quarto dos meus filhos
e dei com eles todos esquartejados
cabeças para um lado
pernas e braços para outro.
O quarto era um mar de sangue!
Felizmente
o pesadelo durou apenas alguns segundos
mas fiquei com o cérebro esburacado
durante toda a noite.
Nunca tinha reparado bem
mas os meus filhos eram iguaizinhos
a todas aquelas crianças.
Não sei o que me deu
mas fiquei aterrorizado.
Tive tanto medo
minha Senhora!
É que a seguir a estas tenebrosas imagens
aparece de imediato
na TV
posando sorridentemente
para uma espécie de retrato de comunhão solene
uma catrefa de monstros
e eu pensei que estava no inferno
rodeado de demónios.
Aquele medonho friso de máscaras humanas
tendo como sombria antecâmara
a ignara maciez da face
de um tal porta-voz
isolado
a garantir a divulgação do resultado
de uma investigação em curso!
Deu-me a impressão
de que ele estava em minha casa
que tinha arrombado a minha porta
ali na minha frente
minha Senhora!
Mas o pior é que aparece
logo a seguir
o seu marido
com aquela cara de…
como lhe parece a cara do seu marido?
A mim
não é bem a cara que me mete medo
mas a prepotência
o descarado unilateralismo
e a já bem adulta supremacia militar permanente
que ele esconde por detrás daquele ar
um tanto despeitado
talvez
por não o terem deixado acabar as suas tarefas.
Mas não se preocupe demasiado
minha Senhora
ele está arrependido do seu miserável pecado
e faz por cumprir religiosamente a penitência
bombardeando de outro modo
e bombardeando bem.
Minha Senhora
num daqueles momentos mais íntimos
– esqueça lá o que se passou –
pergunte ao seu marido
quantas criancinhas é preciso matar
para atingir o desenvolvimento tecnológico
que permita assegurar
que as forças de amanhã continuarão a dominar
qualquer tipo de operações militares.
E se
com umas pitadinhas daquela coisa
que vocês inventaram
e transformaram num monumental barrete
para os desiludidos da disfunção eréctil
puder arrancar-lhe uns segredozitos
veja se sabe
quantas aldeias é preciso arrasar
para enfrentar
as ameaças contra a segurança da nação
quantos estropiados é preciso fabricar
para atingir os tais 331 mil milhões de dólares
necessários ao reforço da tendência
para a acção unilateral.
Quantas Sérvias é necessário sacrificar
para preservar a supremacia militar
face a todos os adversários
possíveis e imagináveis
e considerar
que as forças armadas estão prontas
para enfrentar os desafios do próximo século
continuando a ser
as mais bem sucedidas do mundo.
Quantas televisões é necessário silenciar
quantas megabombas
bombas inteligentes
bombas de fragmentação
e bombas de grafite
(o novo lápis da megacensura)
é preciso lançar sobre a Sérvia
sobre a Europa
sobre o Iraque e sobre o resto do mundo
para atingir a suprema censura planetária.
Ao lado dele
o inglês!
Brrr!!!
O canal da Mancha tão perto!
Como é que eu não haveria de correr
ao quarto dos meus filhos?
Eu não tenho medo dele
propriamente dito
nem das suas metralhadoras.
Até me parece uma daquelas pessoas
que ao descongelarem
isto é
ao perderem o poder
se desfazem em merdífera cobardia.
Eu tenho medo
é da monumental carapaça de ódio
cinismo
crueldade
arrogância e desumanidade
com que ele abastece os aviões
que lhe puseram nas mãos.
Minha Senhora
quando estiver com ele num daqueles chás
em que vocês falam dos 10,5 mil milhões de dólares
necessários à pesquisa
do sistema de defesa nacional antimíssil
entre 2000 e 2005
e passam a mão pelo lombo dos cãezinhos
numa manifestação de sensibilidade e ternura
lembre-lhe o pequenino dorso das criancinhas
que ele ajuda a queimar todos os dias
em bombardeamentos como os de Korisa.
E faça-o ver
ainda que ao de leve
a imagem virtual dos seus próprios filhos
– aqueles que lhe dão um beijinho todas as noites –
no meio dos ensanguentados destroços
da caravana de refugiados
– o diabo seja surdo cego e mudo -.
A vossa Secretária vem logo a seguir na foto.
É-me extremamente difícil
não ter medo desta mulher.
Não é fácil manter-me sereno
porque ela encarna perfeitamente
o papel que me parece ser o da mulher do diabo.
O diabo tem mulher
ou não seja ele o pecador major.
Não é como Deus!
Diga-me se eu tenho ou não tenho razão
mas sempre vi a mulher do diabo
com uns olhos e um sorriso assim!
Não sei o que ela tem dentro do peito
se é uma pedra
um escorpião
ou se não tem mesmo nada.
Mas é da sua eventual relação com o diabo
que eu tenho medo
da autoridade com que o diabo a possa ter investido
na planificação da fábrica de vítimas
da esterilização de sentimentos
a que ele a submeteu
e dos estratagemas
que na sua cartilha se destinam
a tornar adversários políticos e militares
do próximo século
todos os povos que não se submetam
nomeadamente a China.
Tudo isto porque
enquanto única nação
capaz de montar operações em grande escala
em teatros muito distantes das suas fronteiras
o Estado ocupa uma posição única!
Minha Senhora
dá-se bem
penso eu
com esta Secretária da desgraça
– ao lado dela o seu marido não corre perigo
descanse!-
Pergunte-lhe
em tom de curiosidade
quantos kosovares
quantos sérvios
palestinianos e iraquianos
é preciso massacrar ainda
para atingir o tal patamar essencial
para assegurar
que as forças de amanhã continuarão a dominar
qualquer tipo de operações militares
unilateralmente.
O Secretário inglês
sempre sorridente para o parceiro do lado
numa obtusa postura de marioneta
aparente guardião das consciências podres
causa-me repugnância
pela chocante transparência da sua estrutura
que permite ver
– ainda que a gente não queira –
dentro da sua pessoa
aquilo que mais se assemelha
a uma total ausência de moral.
Reforçar a capacidade
para conduzir à escala mundial
com o seu patrão
operações militares de forte intensidade
no século XXI
deve ser o seu lema e o seu sonho.
Ca God o save!
O Secretário espanhol é terrível
porque não mete medo a ninguém.
Parece não ter cérebro.
É uma espécie de alínea de um artigo condenatório
de que o algoz
d
eita mão
naquele fatídico momento em que dela se lembra.
Apenas vai alinhando os vivos
para que morram melhor.
Se o dono manda matar
ele ajeita a vítima e chega a arma.
Se não é para matar
ele recolhe a arma
e diz à vítima que aguarde um pouco mais.
Minha Senhora
eu tinha muito mais coisas a conversar consigo
até porque
– a despeito do seu papel e da sua posição
nesta guerra miserável e nauseabunda –
me custa
perante a sua simpática figura
aceitar que faz parte duma família de monstros.
Naquele momento do telejornal
pensei dirigir-me a si
pois convenci-me
de que eu e a Senhora
éramos ambos vítimas
ou melhor
pensei que os nossos filhos
se encontravam esfacelados
no meio dos destroços
causados pelas bombas dos vossos maridos
e daqueles hediondos amigos
que eles arranjam.
Já pensou
minha Senhora
o que era ver a sua filha esquartejada
cabeça para um lado
membros para outro
esventrada
exangue
sem qualquer brilho nos olhos
nem sopro de vida
com o tal coraçãozito palpitante
que tantas horas de felicidade lhe deu
golpeado irremediavelmente
parado para sempre
e sem nunca mais poder dizer:
“mãe, gosto tanto de ti!”.

QUADRA DO DIA

Ao ensinar tantas coisas
Nomeadamente a roubar
Se o sprito santo falasse
Onde ia a igreja parar.

ETICA E EDUCAÇÃO (7)

ETICA E EDUCAÇÃO (7)
Binómio Ética-Educação
A ordem ética inicia-se no núcleo familiar. Na educação familiar nasce o primeiro alento e reside o primeiro impulso ético para a conquista da vida. O juízo ético, baseado em emoções, sentimentos e raciocínios produzidos pelo cérebro, não pode ser considerado independente da história evolutiva deste órgão dentro da nossa espécie. Biliões de neurónios, seiscentos milhões de conexões por milímetro cúbico de cérebro que se multiplicam constantemente e configuram as estruturas funcionais do cérebro, constituem a base fisiológica das formações psíquicas condicionantes das aprendizagens, nomeadamente da aprendizagem ética. Dado que o crescimento de sinapses neuronais é quase ilimitado na infância, anulando-se por volta dos sete oito anos, e dado que em adultos vivemos as conexões formadas na infância, já podemos avaliar a importância da construção dos princípios éticos desde que nascemos. Esta educação visa estabelecer os alicerces fundamentais para a edificação do carácter, da responsabilidade dos actos, da consciência e do desenvolvimento das faculdades críticas. É fundamental os pais serem capazes de ajudar os filhos a aprender a valorizar, a criticar e a pôr em prática as suas capacidades de discernimento, como espectadores, ouvintes ou leitores, tentando evitar o caminho fácil da passividade, da ausência de espírito crítico e da permeabilização à exploração mental. Os pais têm de ver nos filhos uma semente de educação para a liberdade. Tenho muita dificuldade em lidar com normas morais, pelo seu relativismo e por causa das suas, por vezes perversas, contingências. Dentro do multiculturalismo e mesmo dentro da nossa cultura, há comportamentos que parecem moralmente justificados, quando nada têm de ético ou moral se olhados de um ponto de vista racional. Todos nós estamos cheios de ver a enorme falsidade e hipocrisia de que se faz o tecido de tantas instituições tidas como sacrários da moral. Daí eu pensar que a virtude é a capacidade permanente de fazer bem feito o trabalho da liberdade, e o bem é aquilo que essa virtude elege livremente no seio deste trabalho. (Continua)

                                ( manel cruz)

( manel cruz)