Jornais na madrugada

O cansaço dissipou o sono. É madrugada alta e é quase Natal. Leio jornais on line. Cai-me debaixo dos olhos a notícia da morte do actor António Montez. A memória recua a 1959, ao teatro anatómico da Faculdade de Medicina de Lisboa. Na mesa o corpo pequeno e magro da mulher com o número 36. À volta, um grupo de estudantes de anatomia. O José Gomes Ferreira, afamado locutor da RTP, paralítico das duas pernas, na sua cadeira de rodas. A Virgínia Morais, de Macau, boémia e rabulista, que vivia num apartamento com uma criada oriental a fazer petiscos com que todos nos regalávamos. O José Álvaro Morais, dividido entre a Medicina e o Cinema, acabando por ganhar este e com pompa, em Paris, onde foi realizador de mérito. A Clementina Diniz, elegante e sofisticada, que veio a ser psicóloga de nome feito pelo saber. A Sofia Borges, de Angola, sempre agitada e cheia de pressa. A Zita Neto Raposo, que veio de Minde com o seu sorriso franco e alegre. A Maria José Cardoso, cheia de verve e obstinação. Os manos Chung Kong Sin e Chung Su Sing, vindos da China via Macau. O António Montez, dividido entre a Medicina e o Teatro, e ganhou este fazendo dele um belo actor. O Luiz Frazão, pândego e cheio de piada. E eu, ida de Tomar  sem nada que me distinguisse. [Read more…]

Natal de 2014

Hoje é o meio exacto de Novembro. O dia está cinzento, frio, húmido. Mas as avenidas largas de Toronto, num percurso de muitos quilómetros, estão apinhadas de uma multidão colorida, alegre, calorosa. Carros soberbamente decorados passam. Bandas canadianas, americanas e doutras proveniências, desfilam garbosamente e enchem o ar de música festiva. Lá vem a portuguesa Banda do Senhor Santo Cristo, os músicos com barretes natalícios. Comovo-me. Comovem-me sempre as modestas bandas portuguesas. Milhares de crianças, numa multidão que se estima de um milhão de pessoas, as carinhas rosadas do frio, agasalhadíssimas, riem, batem as palmas na alegria doida de verem as figuras de Walt Disney nos carros alegóricos. Todas numa excitação indescritível porque esta é a centenária parada que traz o Pai Natal à cidade. Quando aparece o enorme carro, puxado a renas, ladeado por carteiros fardados a rigor transportando pequenas caixas de correio, e o gordo mais conhecido do mundo berrando ohohoh, num berro que lhe sai das barbas brancas, é praticamente impossível segurar os pequeninos. Todos eles correm para o carro, de cartinha na mão, a gritar numa emoção que só a inocência pode dar: Santa (Santa Claus, de São Nicolau), eu portei-me bem! Eu fiz os trabalhos de casa! Eu ajudei a minha mãe! Please lê a minha carta, dá-me o que eu te peço Santa, I love you!. [Read more…]

Ódio em nome de Deus

A comunidade islâmica do Canadá está receosa. E tem razão para o estar depois dos crimes cometidos por simpatizantes dos radicais islâmicos no Quebeque e em Otava. Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, ao atropelar dois soldados num parque de estacionamento na província francófona, tendo morto um deles, e Michael Zahaf Bibeau, de 32 anos, ao abater a tiro o soldado que fazia a guarda de honra do Soldado Desconhecido, na capital federal, invadindo depois o parlamento, tendo no final sido ambos abatidos a tiro pelas forças de segurança, quebraram uma maneira de viver nacional feita de respeito pela diversidade e pela tolerância. Segundo país maior do mundo, depois da China, apenas com 35 milhões de habitantes, ocupando lugar de destaque entre os países com melhor qualidade de vida, o Canadá é um país onde têm vivido em harmonia, respeito e dignidade, pessoas oriundas de 190 países. É um país feito por imigrantes, onde tem sido possível respirar em paz e segurança. Ao contrário do melting pot americano (ou mesmo brasileiro), o multiculturalismo praticado pelo Canadá saldou-se pela positiva na inteira liberdade com que cada grupo étnico pode ter as suas escolas, clubes, religiões e culturas.
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Boa vai ela!

Vivo afastada da comunidade portuguesa e porque a idade me tornou preguiçosa, só de vez em quando me dou ao trabalho de mudar de transporte duas vezes para ter o prazer de passarinhar pelo Mercado da Saudade. Isto é, por motivos gastronómicos. É ali que me abasteço do que é regra báseica da cozinha portuguesa.
Foi o caso há dias. E o acaso foi encontrar, à porta do café, um compatriota que não via há muito tempo. Homem estabelecido com negócio próspero. Mal nos cumprimntámos, logo disparou:
– Sabe que esteve aí um milhafre do governo do Passos?
– Qual deles? – quis eu saber.
– O Portas, aquele dos submarinos.
– Ah, mas esse é um milhafrão. E o que é que ele veio cá fazer?
– Veio promover o papel higiénico da Renova. E largar as postas de pescada do costume. Que aldrabão! Isto é sempre o mesmo, e nós estamos fartos de saber: quando estão falidos, vêm à emigração prometer farturas. Devem julgar que somos estúpidos. [Read more…]

O lado sombrio da emigração

Jornais de Lisboa fizeram-se eco do discurso assertivo que o deputado socialista Andrew Cash fez no parlamento federal, em Otava, contra sucessivos surtidas de agentes do CBSA (Serviço de Fronteiras do Canadá) em estaleiros de construção, centros comerciais, bilhares, padarias e cafés, em busca de emigrantes ilegais portugueses. O parlamentar, indignado, atribui estas acções a “discriminação racial” contra os portugueses. Compreendo o seu ponto de vista mas a minha experiência de 30 anos obriga-me a adiantar que o caso é ainda mais grave do que isso.

Na verdade, estas acções de força policial são sempre originadas por denúncias, muitas delas anónimas. E quem faz as denúncias? Pois aí é que está o grave e doloroso da situação: são sempre feitas por pessoas do mesmo país das pessoa que são denunciadas. Portanto, portugueses denunciam portugueses. Há mais mulheres denunciantes do que homens mas em ambos os casos, por infeliz coincidência que psiquiatras e sociólogos haviam de estudar para alertar as autoridades canadianas, trata-se de pessoas que foram sexualmente abusadas por familiares e/ou vítimas de violência doméstica. A perversão moral coze em caldo de inferioridade, despeito e inveja, saltando para o crime da denúncia quando apanha o mínimo pretexto. Vou dar-vos um exemplo. Uma jovem açoriana, a Ana, viu-se coagida pelo mau passadio e falta de trabalho em S. Miguel a entrar em Toronto como turista, deixando-se depois ficar e arriscar. Felizmente, encontrou trabalho de cozinha no restaurante dum português do continente. O processo de emigração foi iniciado, e demora sempre, mas ela trabalhava com gosto e ganhava bem a vida. Um dia, sentiu umas dores esquisitas no peito e como não tinha direito a assistência médica por ser ilegal, o patrão pagou generosamente essa assistência que se saldou, de imediato, por uma biopsia. Nessa mesma altura uma mulher da sua freguesia insistiu para que fosse viver em casa dela e do marido. De boa fé, Ana aceitou. Logo de seguida, a tal encostou-lhe facas ao peito: ia abrir um restaurante e contava com ela para ali trabalhar. Decente e bem formada, Ana recusou alegando que o patrão não merecia uma coisa dessas, pois lhe tinha dado trabalho, pagava-lhe bem e respeitava-a. A resposta da outra veio de recochete: ai era assim?, pois ela ia ver o que era bom. Ao amanhecer, a chamada polícia de imigração apareceu na casa, levou a Ana, em roupão e chinelos, para o hotel-prisão junto do aeroporto e deportou-a. Meia dúzia de dias depois desta brutalidade, o médico ligou para o restaurante à procura da Ana e ficou siderado quando lhe disseram que ela tinha sido deportada. Quis falar com o patrão e pediu-lhe que avisasse imediatamente a moça porque ela tinha um cancro da mama. Ana viveu o calvário da cirurgia nos Açores, da quimioterapia e radioterapia em Lisboa, tem uma saúde precária e vive dum magro subsídio da assistência social e de ajudas de pessoas de boa vontade, entre as quais se contam o antigo patrão e colegas do restaurante. Nada aconteceu à criminosa que a pôs nesta situação e é facil de calcular que esteja muito satisfeita com a façanha. [Read more…]

Das histórias e das memórias

Caro Nuno Feijão

Não se surpreenda com a informalidade do trato: a minha provecta idade tende a considerar jovens todos os que me rodeiam. A juventude é um estado de espírito, mesmo quando as articulações refilam, e o seu livro bem o demonstra. Há nele a espontaneidade, a frescura saudável, a ingénua esperança de quem ainda tem muita estrada à sua frente.

Venho agradecer-lhe o envio de um exemplar, com carinhosa dedicatória, e faço-o publicamente porque é para mim uma alegria imensa ver que, na nossa terra, há cada vez mais pessoas a escreverem com a sinceridade e a modéstia de quem sabe que não nascemos todos Eça de Queiroz. Grande alegria, também, saber que o Nuno é membro da Universidade Sénior de Tomar – uma ideia feliz que defendia e praticava Agostinho da Silva numa garagem perto de sua casa, ao Príncipe Real, sempre apinhada de operários, vendedeiras, caixeiros, funcionários públicos, que ali acorriam com sede de saber. Maravilhoso é o conhecimento, seja qual for a idade. Uma sociedade justa e forte é aquela que garante educação e conhecimento dos 3 aos 100 anos. Muito saboroso o seu livro MEMÓRIAS E HISTÓRIAS. Ninguém devia sair da vida sem deixar escrito o que viveu e sentiu, como viu o mundo à sua volta, assim legando as pedras e as escoras com que se aguenta uma Nação em tempos de perda de identidade e de soberania. Sobre isso, o Nuno pertence às Curvaceiras, a terra do Padre Jerónimo E aqui sou eu a relatar-lhe uma memória bem disposta. [Read more…]

A honra e a bondade

Em memória do General Silva Cardoso

Não sei de nada mais sério do que a terra a que pertencemos, no sentido literal. A terra onde abrimos os olhos para o mundo, aprendemos as plantas e os animais, o sentido do vento, a água que nela brota. Podemos andar pelo mundo, mas aquela terra está-nos gravada no coração. Por ela sofremos e lutamos. Pela terra podemos até matar em situações limite impostas por estrangeiros. E a ela voltamos quando a vida se nos acaba. [Read more…]

Os arrumadinhos e os nem por isso

Nos três dias que antecederam a abertura do Mundial de Futebol, a febre começou a subir na pacatíssima Toronto: muitos carros desfraldaram bandeiras de países vários e, numa terra em que a buzina só é usada in extremis, os latinos começavam a cortar o fluir tranquilo da cidade. E como no dia 12 de Junho foram as eleições para o governo do Ontário, província onde vivem uns milhões de pessoas vindas de 180 países e que goza do estatuto de praça financeira do Canadá, a mistura deu em nervoso miudinho. Daquele que, mesmo assobiando para o lado, se vê à légua. [Read more…]

Memórias com quarenta anos

Era madrugada alta quando acordei, estremunhada, com o telefonema de António Valdemar que, à janela da sua casa na Avenida da Liberdade, estava a ver passar os primeiros blindados. Que ia já ter com ele, respondi. Queria lá saber de recomendações dos militares para não sair: nunca tinha visto uma revolução,nunca tinha votado, nunca coisa nenhuma por causa da ditadura, não faltava mais nada do que não ver como era. Mas antes de sair, telefonei a todos os meus amigos que tinham filhos pequenos: que não deixassem as crianças ir para a escola de manhã cedo e ligassem o rádio. E porta fora. Estava uma madrugada fresca, macia, perfumada, dava gosto subir até ao largo e descer ao saltos as escadas da Praça da Alegria. Eu morava numa rua de fronteira entre o Bairro Alto e o Príncipe Real, a dois passos do SNOB, o bar que era poiso certo de jornalistas, e a casa do Mestre Agostinho da Silva, que pelas sete da manhã era certo a dar milho aos pombos no largo, pretexto meigo para meter conversa com os trabalhadores que partiam para a labuta diária e, sem saberem porquê, adoravam aquele velhinho que falava tão claro quando lhes contava histórias que os faziam pensar. Não era longe, também, do restaurante onde jantava todos os dias, o Rina, que era o nome da patroa, na Travessa dos Fiéis de Deus. Sempre os mesmos, amesendados ali por anos a fio: Edite Soeiro, Acácio Barradas, José de Lemos, Urbano Carrasco, Artur Agostinho, Joaquim Benite, Fialho Gouveia, António Soares, o pintor, malta do teatro e dos fados, com Maria da Fé à cabeça, enfim receita garantida para estarmos ali sem cerimónia, como em nossa casa, até às tantas. Às vezes a Rina chegava-se a nós, mansa, a pedir que nos fossemos embora para outro lugar porque tinha de se levantar muito cedo, e nós obedecíamos. Como naquela noite em que, absolutamente em brasa, todos discutimos a Lei de Imprensa que os liberais, liderados por Francisco Sá Carneiro e Francisco Balsemão, levaram à Assembleia Nacional, na esperança de travarem a censura. José Carlos Ary dos Santos chegou, sentou-se junto a nós e logo entrou na discussão, que prometia entrar pela noite dentro. Lá veio a Rina, com o seu jeitinho maternal, e emigrámos para uma leitaria do bairro que estava aberta toda a noite. E ali voltámos à discussão. A certa altura, o Ary dos Santos levantou-se e foi em direcção aos lavabos, mas sempre a virar o corpanzil para trás, sempre a berrar as suas razões naquela voz (inesquecível). Foi então que o tasqueiro, aflito, lhe gritou: “Oh sor Ary, sor Ary, por ai não, por aí é das senhoras!”. O poeta estacou, pôs a mão à ilharga e perguntou com a cara mais séria do mundo: “E eu sou alguma galdéria?”. Ficou submersa por um mar de gargalhadas a magna discussão. [Read more…]

Uma lição de civismo

Recentemente, teve lugar o funeral do ministro das Finanças do governo do Canadá, Jim Flaherty. O funeral saíu da Catedral (anglicana) de St James, a mesma onde a Raínha Isabel participa da missa quando vem a Toronto. Há pouco mais de um mês Flaherty pediu a demissão do cargo, invocando razões pessoais, e soube-se agora, pelos elogios fúnebres, que desejava ter-se demitido já em 2008, não o tendo feito por imperativo de consciência: estava tão preocupado com a situação internacional que entendeu ser seu dever manter-se no posto e dar tudo por tudo para que o Canadá não sofresse de recessão nem com a crise que abalou tantos países. Conseguiu o que desejava. E assim, o político deixou o governo, em paz com a sua consciência, para se dedicar à família por inteiro. Mas Deus entendeu dar-lhe o eterno descanso. [Read more…]

Riso comovido

GaiolaDouradaPOSTERO Festival do Cinema Francófono deu a oportunidade aos portugueses residentes em Toronto de verem o filme GAIOLA DOURADA, com legendas em inglês. As duas sessões saldaram-se por outras tantas enchentes  e no final, os aplausos foram fartos, sentidos e gratos por haver uma organização a lembrar-se de proporcionar aos emigrantes um bom filme. Porque, como ficou selado por uma secretária de estado das das Comunidades, do PSD, há anos, os emigrantes portugueses distribuem-se pela Europa, África e o Resto do Mundo. [Read more…]

Apontamento em sábado de Carnaval

Se não fosse a RTP nem me apercebia que é Carnaval, tão ausente essa tradição está do Canadá inglês. Assim, tomei o pequeno almoço ao fim da manhã e de seguida fui ao cineminha do meu bairro ver O Filho de Deus, ontem estreado, confesso que curiosa de ver Diogo Morgado num filme sério de grande fôlego. Gostei, da interpretação dele e do filme. É natural, sou cristã, o filme sensibilizou-me. Mas se o não fosse, ninguém me poderia tirar a simpatia e o orgulho  por um compatriota jovem que, a exemplo de milhares doutros, teve de rumar ao estrangeiro porque na Pátria os chamados poderes públicos são exercidos por gente ignara, bronca, tosca, que tem vindo a espezinhar tudo quanto lhe cheire a Cultura, a Ciência, a Pensamento. Oxalá todos os nossos jovens encontrem a sua hora de oportunidade no estrangeiro. Ao menos isso.
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Assobiem-lhe às botas

Não sei o que me surpreende mais: se Miguel Relvas e Passos Coelho indicando a porta da emigração aos que em Portugal são lançados ao desemprego e à indignidade, se Pires de Lima e Poiares Maduro a garantirem que, depois de uma experiência laboral no estrangeiro, o emigrante regressa sem hesitações ao nosso país. A minha surpresa deriva de eu não considerar destituídos de inteligência os personagens apontados e de me repugnar a possibilidade de eles serem uns fariseus desavergonhados. Prefiro pensar que se trata de ignorância no estado puro.

O português, tão visceralmente agarrado ao seu terrunho, tem a emigração por uma fatalidade, uma infelicidade, uma afronta pessoal que não esquece nem perdoa, ressentimento que passa por inteiro aos seus descendentes. Sai por se sentir rejeitado pelos donos da Pátria. Bate com a porta engolindo lágrimas. Nunca mais se cura dessa dor. Por sobrevivência, atira-se ao trabalho que aparece no estrangeiro, seja ele qual for, e em geral é a dureza que os nacionais não querem aguentar, priva-se de muita coisa, anula-se mesmo, para garantir a independência económica com que evitará aos seus filhos as humilhações que os donos da Pátria infligem a quem não faz parte da sua capelinha partidária ou da sua teia corrupta. [Read more…]

O lado errado da história

O Canadá mandou  uma delegação  de grande peso político ao funeral de Mandela:  o actual primeiro ministro, Steven  Harper, e três antigos primeiros ministros, os conservadores Brian Mulroney e Kim Campbell, e o liberal Jean Chrétien. A Mandela, desde que saíu da prisão e acabou com o apartheid, foi oferecida a cidadania canadiana, com passaporte e toda a parafernália burocrática inerente. Era, pois, um homem a quem o Canadá amava  e a quem honrava. O governador geral não foi ao funeral porque a chefe do estado canadiano, Raínha Isabel II,  já  estava representada pelo Príncipe Carlos. O mesmo se diga da Austrália e da Nova Zelandia. A Commonwealth não é uma treta: funciona e tem poder.

Brian Mulroney, em entrevista que todo o país viu, explicou o tratamento dado a Mandela: “em todas as situações, temos de ter o maior cuidado para não ficarmos do lado errado da história”.  E disse bem, porque é importante um país ficar do lado certo. Nenhum povo gosta de ficar do lado errado. Por uma daquelas travessuras em que a política é fértil, depois de Mulroney os barões do seu partido, o conservador, trataram de tornar impossível a eleição da primeira ministra provisória Kim Campbell, uma senhora que teria proporcionado ao país um enorme salto qualitativo, graças à sua notável qualidade política e cultural, o que representou uma garantida e duradoura estagnação. O Canadá não gostou de ter perdido o comboio da história e esse mal estar é cada vez mais evidente. [Read more…]

Carta do Canadá: Dá que pensar

Fernanda Leitão

O funeral de Eusébio, que a RTP-Internacional teve a feliz iniciativa de transmitir em directo para as comunidades de portugueses emigrados, deu que pensar a vários títulos.
Desde logo, porque mostrou, de forma clara, como os portugueses têm fome e sede de figuras públicas honestas e limpas, das que servem uma causa por amor à camisola e fidelidade ao país. Há muitos anos, quase cem, que os portugueses olham de lado, com desconfiança e ressentimento, a maioria das figuras públicas. Os povos precisam de figuras em que se revejam. Foi o caso com Eusébio: menino pobre que, com muito trabalho e sacrifício, com grande talento e bom carácter, com disciplina e bondade, foi um dos melhores futebolistas do mundo e o maior de Portugal. A emoção causada pela morte de Eusébio varreu o mundo de língua portuguesa, transbordou nas ruas de Lisboa e atingiu um pico dramático no cemitério: todos pareciam recusar enterrar o seu herói, todos o queriam por mais um tempo, mesmo debaixo de chuva torrencial. Um povo a reagir como um menino órfão e desamparado.
Se Eusébio deve ser, ou não, sepultado no Panteão Nacional, não sei pela simples razão de nunca ter sido explicado ao povo o que significa um panteão nacional, à luz do estado português. [Read more…]

Premonições

Natália Correia

Recentemente, vários jornais deram grande espaço às premonições de Natália Correia, designadamente aquelas que anteviam a instalação no nosso país dum governo neo-liberal, o esmagamento da classe média e o cair da máscara da União Europeia.

A primeira vez que vi Natália Correia foi nos idos de 1959/60, pela mão de Vasco Lima Couto, poeta e actor que morreu novo. Foi num sarau literário num antigo clube perto do Rossio. Eu era então estudante universitária e os meus olhos deliciaram-se a conhecer outro poetas, outros escritores, que, viciada em leitura desde muito cedo, eu tinha lido. Não fui apresentada a ninguém, não tinha estatuto para isso, mas ainda assim fui brindada com uma briga homérica entre Lima Couto e Natália Correia que, incomodada com a irreverência do jovem do Porto, desfaleceu nos braços de Pedro Homem de Melo. Fiquei pregada ao chão. [Read more…]

O Jornal de Angola

O primeiro jornal que os meus olhos viram foi o Província de Angola, que pontualmente entrava na casa dos meus pais. Parece que havia outro, o Diário de Luanda, tido e mantido pela União Nacional, mas esse não entrava lá em casa. Nem percebo porquê, porque devia ser feito por gente excepcional, a avaliar pelo trajecto de vários redactores. Um deles, Luís Fontoura, hoje figura de proa do PSD e da Maçonaria. Enfim, embirrações que eu não cheguei a entender. Eu fazia o ensino primário na Escola Sousa Coutinho, mesmo em frente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde fui baptizada. Por estar gravemente doente na altura de entrar na escola só o pude fazer um ano depois, mas aprendi as letras e a juntá-las, em casa, nos livros do Hans Christian Andersen e no Província de Angola. A pouco e pouco, fui tendo o prazer de ler a página infantil que era leira lavrada por Lília da Fonseca. Muitos anos depois, já na universidade e ganhando o meu sustento com uma pequena agência literária de exilados espanhóis nos Estados Unidos, herança benfazeja que me foi deixada pela poetisa angolana Alda Lara, eu haveria de conviver com Lília da Fonseca que tanta paixão punha na literatura infantil e no militantismo de esquerda.

Mas quando eu andava de bibe, o Província de Angola, o mais antigo jornal da África a sul do Saara, era propriedade da família Correia de Freitas. Jornal prestigiado, bem escrito, sério e, ao contrário doutros em Portugal, muito mais avesso à autocensura e sempre às turras com os coronéis da dita. Refilava. O seu último proprietário e director foi Ruy Correia de Freitas, engenheiro de máquinas por Londres, um gentleman de grande aprumo moral e bondade. A exemplo de todos nós dessa geração, o Ruy também queria a independência, mas negociada, pelo diálogo, educadamente, como um filho que passa a viver por si mesmo, mas se dá bem com os pais. Uma independência sem ódio nem guerra, para prosperidade dos seus povos. Como nada disto agradava aos serventuários da União Soviética, quando Angola foi entregue ao MPLA, unilateralmente, o Ruy Correia de Freitas só teve tempo de meter a mulher e a filha na sua avioneta e partir para a África do Sul. Dali foi ao Brasil e ao Canadá, mas acabou por viver (e morrer) em Portugal, na maior modéstia mas sempre com imensa dignidade. Foi a “descolonização exemplar” – coisa que é dita por quem a fez mal. [Read more…]

Os onze da fatalidade

11 de Setembro de 1973. Eu estava em Munique pela terceira vez, sem poder resistir a ver de novo certas pinturas de certo museu. Nesse dia vi, desfilando pela rua, um grupo de gente morena exibindo cartazes, em alemão. Vestiam de negro e alguns choravam. Por ter ouvido alguns falando espanhol, abeirei-me e quis saber o que se passava: eram chilenos e contaram-me da morte de Allende, do golpe militar brutalíssimo de Pinochet. Golpe ajudado pelos Estados Unidos da América a pretexto de que estava iminente um regime pró-soviético a partir de Santiago. Por essas, e por muitas outras, é que os americanos são odiados na América do Sul. E não só, mas adiante.

(Por esse tempo, em Portugal, a ditadura continuava a encher prisões e a reprimir o povo de todas as maneiras, agitando o papão do comunismo. Tal como o rapaz da história popular, tanto gritou a esse lobo que, quando ele de facto nos apareceu em força, em 1974/75, o povo levou algum tempo a acreditar. Digamos mesmo que só acreditou quando o PCP, sempre triunfalista e sempre com o pé a fugir para o estalinismo, sem vocação nenhuma para a democracia, começou a fazer tratantadas gravíssimas. Depois foi o que sabe: o povo unido, muito centro esquerda e muito senhor do seu nariz, acabou por aplicar o irremediável xarope de marmeleiro). Por uma noite cálida, dias antes, em Paris, nos jardins do Palais Royal, um poeta exilado há vários anos perguntou-me como ia o regime. Respondi-lhe que estava a caír de podre. Adiantou-me: “É também o que penso. Mas olhe que vai caír nas mãos de uns políticos que enfiarão o país num banho de lama. E depois, será o banho de sangue”. Quando penso na lama em que Portugal está mergulhado, sinto um medo quase físico de que o poeta possa ter sido profeta. [Read more…]

Alto e pára o baile

Vou citar para vós o que, em letras gordas, vinha nos jornais portugueses, e não só, nos últimos dias:

“MERKEL QUER MAIS AUSTERIDADE NOS PAÍSES EM DIFICULDADE”;

“CRISE RENDEU À ALEMANHA MAIS DE 50 BILIÕES DE EUROS”;

“PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DA INDÚSTRIA ALEMÃ, ULRICH GRILLO, PROPÕE COMO ALTERNATIVA NA RESOLUÇÃO DA CRISE GREGA QUE ATENAS TRANSFIRA PARTE DO PATRIMÓNIO NACIONAL PARA O FUNDO DE RESGATE EUROPEU, QUE PODERÁ VENDÊ-LO PARA SE FINANCIAR”.

Esta é uma verdadeira declaração de guerra destruidora, sem tiros nem bombardeamentos, contra a Grécia, Chipre, Malta, Irlanda, Itália, Espanha e Portugal. Que ninguém caia na tola ilusão de pensar que esta ameaça é contra os outros, não contra Portugal. É contra todos estes e, lá mais para diante, atingirá a França e outros mais. Render os países em dificuldade pela fome, criar-lhes uma situação económica e financeira tal que, caídos na miséria, não terão meios de amortizar a dívida e pedirão mais empréstimos aos agiotas. A pouco e pouco, apanhar-lhes tudo o que tiverem de mais valioso no seu património a pretexto de amortizar a dívida. Quem sabe até se as ilhas que pertencem a alguns países em perda de soberania. [Read more…]

Cultura do Respeitinho

Esta designação não me pertence, é do advogado Francisco Teixeira da Mota que defendeu Miguel Sousa Tavares do processo que lhe quis mover o Presidente da República quando se viu chamado de “palhaço” pelo escritor. E vem a terreiro muito oportunamente quando campeia no país a mais absoluta falta de respeito dos poderes políticos pelo povo que é obrigado a sustentá-los.

Sempre que esta falta de respeito se verifica, logo aparece a cultura do respeitinho que, mais do que se pensa, alastra como uma nódoa por todos os que julgam mandar e que é uma herança da ditadura de 48 anos liderada por Salazar e Marcelo Caetano.  É uma cultura cobarde, sonsa, como  pontapé atirado às canelas de quem refila à laia de  aviso para não se meter noutra. Qualquer fulano da situação a pratica, sempre que  é confrontado pelos que pensam pela sua cabeça e não nasceram com vocação para carneiros.  Ainda há dias o ministro Maduro, pequenote, com a sua barbicha à passa-piolho e a vozinha de adolescente a mudar de idade, se empertigou todo para dizer que não se podia aceitar que as pessoas contestassem tudo. Este Maduro deseja governar sem que o eleitor, que com a sua contribuição paga o seu ordenado, o seu carro de estado, as mordomias de que goza, possa contestar as medidas indecentes que este governo faz pesar sobre quem tem menos para encher os bolsos a quem tem mais. Este Maduro é da escola do comer e calar. Com aquele ar espardalado, é bem capaz de nem saber que houve, em 25 de Abril de 1974, a queda dessa escola. [Read more…]

Sejamos sérios

Diz-me o calendário que hoje é dia 6 de Agosto de 2013. Data assinalável a vários títulos.

Neste dia, há 68 anos, acontecia a bomba sobre Hiroshima. Eu era um garotinha atenta ao que ouvia à minha volta: a 2ª Guerra Mundial tinha acabado e em Luanda, onde vivia, tinha havido uma grande manifestação de regozijo, mas eu não percebi porque é que foi preso um homem que deu vivas à Rússia, um país aliado segundo diziam os mais velhos. Muitos anos depois, a conversar com o Raúl Indipo, do Duo Ouro Negro, entrámos nessas memórias e fiquei a saber que também ele tinha ficado confuso: julgou que estavam a dar vivas à Russa, má peça com toda a certeza porque quem a saudava era preso, mas ele nunca conseguiu saber quem era a matrona enquanto catraio. Naquele dia, há 68 anos, eu estava sentada na areia da praia onde vivia mais o Sérgio, o filho do cozinheiro que democraticamente andava na escola pública comigo por decisão da minha mãe. Contei ao Sérgio o que tinha ouvido sobre Hiroshima e adiantei que os americanos iam continuar a deitar bombas por todos os lados. Vem de longe esta desconfiança em relação aos camones e vá-se lá saber porquê. O Sérgio estava de olhos arregalados mas não tugiu nem mugiu. Quem o fez por ele foi o pai cozinheiro que, pelo anoitecer, se plantou diante da minha mãe com o filhote pela mão e declarou que ia dormir ao musseque porque queria morrer ao pé da família. O aranzel que aquilo deu. [Read more…]

Indignação contagiosa

São hoje muitos os países, em todos os continentes, em que imensas massas populares  inundam ruas e praças para exercerem o direito  à indignação. O fenómeno faz lembrar a revolta dos escravos e a queda do Império Romano: contagioso, imparável na sua confrontação com uma globalização perversa, de finanças sujas que pisam a pés os mais elementares direitos humanos e pretendem impor ditaduras que nada ficarão a dever à crueldade de outras que, na primeira metade do século passado, queriam obrigar ao pensamento único, ao racismo criminoso e outras lástimas de minorias acusadas, com razão, de explorarem o povo em seu proveito. [Read more…]

Ou sim ou sopas

Está a ser difícil fazer entender ao governo e ao Presidente da República o repúdio de 75% dos portugueses que as sondagens apontam como estando contra o arbítrio insensato das suas posições.

Nesta altura, o desconcerto não pode ser maior. O FMI, com sinceridade ou cálculo, declara a quem o quer ouvir que se enganou nas medidas tomadas para a Grécia e lamenta os tristes resultados que daí advieram para o povo grego, de passagem dando a entender que haveria culpa também da União Europeia (UE). Os porta-vozes desta vieram a público, em nome da Senhora Merkel e do seu (intragável) Ministro das Finanças, defender a firma em tom abespinhado. Sinal claro que, face à onda que se está a levantar dentro da UE, com os seus fundadores históricos a apontarem a dedo o abuso arrogante por parte dos que, tendo perdido duas guerras militarmente, parecem apostados em ganhá-la por meio da escravatura financeira, leva agora os usurpadores do sonho europeu a tentarem escapar entre os pingos da chuva. No nosso parlamento, o espectáculo dado por Victor Gaspar e Passos Coelho, face a este presumível tsunami político, é apenas grotesco. [Read more…]

Falar claro

Creio que, nos últimos dias, há dois acontecimentos positivos a registar: as declarações de Lobo Xavier e Pacheco Pereira, e a entrada para o secretariado e Comissão Política do PS de António Costa e Francisco Assis.

Lobo Xavier (CDS) e Pacheco Pereira (PSD) afirmaram, na SIC, portanto perante todo o país, que Portugal nunca devia ter pedido o resgate e deixado entrar a troika, o que em sua opinião destruiu o pais, e que não devia ter sido derrotado o PEC IV e com ele o governo anterior (e eu acrescento que o foi com a entusiástica colaboração do PC e do BE, históricos adeptos do quanto pior, melhor). Ninguém que tenha amor à verdade e uma escorreita memória pode negar que José Sócrates se bateu até ao último minuto da sua governação contra a entrada da troika. Com esta pública reposição da verdade dos factos, Lobo Xavier e Pacheco Pereira deram uma estocada mortal num governo desacreditado pelo somatório da incompetência e da mentira, e podem muito bem ter aberto o caminho para profundas depurações no PSD e no CDS. E por tabela, também a deram ao PR que, como está à vista, defende o governo contra a vontade da esmagadora maoria do povo. [Read more…]

De todos os lados

Praticamente não houve lua de mel do povo português com a troika. Pouco depois de a troika ter entrado em território nacional, começaram a chover os protestos e as manifestações em todo o país. Por tabela, o governo nunca teve estado de graça porque cometeu o erro, diga-se que pouco inteligente e muito saloio, de gritar aos quatro ventos que o governo iria “mais além da troika”, que a austeridade iria acontecer “custasse o que custasse” para se atingir o sublime objectivo de “empobrecer o país”. E como assim aconteceu, com tremendo sofrimento do povo e visível regozijo da senhora Merkel, o país atónito passou da desconfiança à rejeição, agravada por observar a olho nu o servilismo, a ausência de coluna vertebral de todo o gang da bandeirinha na lapela. A rejeição passou a ser demonstrada por todos os meios: na rua, nas escolas, nas famílias, nas empresas, nas forças armadas, nos lares, nas galerias do parlamento, em toda a parte. As vaias aos governantes têm-se sucedido, a Grândola Vila Morena passou a ser um hino de revolta de norte a sul do país. Os artistas explodiram ao verem em perigo a liberdade conquistada em Abril de 1974.

Mas havia uma nuvem sobre esta unanimidade popular: as pessoas julgavam-se sós, isoladas do mundo na sua revolta. Daí a desusada atenção com que passaram a olhar para a Grécia, Chipre, Irlanda, Espanha, Itália e França. Os sindicatos, os trabalhadores portuários, os bravos trabalhadores dos estaleiros de Viana do Castelo, a internet, os jovens, os artistas fizeram o resto: começaram a deslocar-se a Portugal figuras desses países para mostrarem a sua solidariedade e acordo. Puseram-se muitas esperanças em François Hollande, presidente da França, mas ele cometeu o erro fatal de ser demasiado bem educado, demasiado cavalheiro e conciliador com uma mulher como Merkel, formatada na arrogância prussiana e no bloqueio totalitarista da antiga RDA de sinistra memória. É um caso perdido. [Read more…]

Os vilões e as varas

Miguel Relvas saiu mal do governo: de sopetão, sem aprumo nem dignidade, sem reconhecer erros cometidos, soltando sibilinas ameaças de quem se sente imaculado, sem o mais leve respeito pelo povo que lhe paga. Fez mesmo o inacreditável no seu discurso atabalhoado: declarou, perante o país inteiro, que gastou cinco anos com o seu amigo Pedro Passos Coelho – três a levá-lo à presidência do PSD e dois a servir-lhe de bengala no governo. Foi a mais absoluta grosseria, mesmo sendo verdade. É o que se chama lavar a cara com o favor àquele que o recebeu. Penso que, politicamente, está arrumado. Vai andar por aí, entre Portugal, Brasil e Angola, a vender influências e cunhas até essa vaca secar. E sobre tudo isto, ridículo de fazer doer. A fazer lembrar aqueles “calcinhas” da Luanda onde viveu em criança, cheios de artimanhas e golpes, que se estabeleciam como “advogados de sanzala”. [Read more…]

Futebol, PREC e as voltas da vida

(na morte de João Rocha)

Em 1975 Portugal era um manicómio sem gerência: cada qual agia como lhe dava na gana. O PC, que sobre ser ditatorial e estalinista, não tem senso de humor nem graça nenhuma, gastava as 24 horas do dia a fazer ensaios, mais ou menos violentos, da revolução bolchevique (com que ainda sonha). Levava a coisa tão à séria que até Cunhal, quando desembarcou em Lisboa, se empoleirou numa chaimite com um um soldado de dum lado, um marinheiro do outro, à Lenine. Transposto no tempo e em Portugal, ficou um quadro de revista a que não faltava o folclore, entre colorido e foleiro, daquele colar de missangas a que se convencionou chamar de extrema esquerda.  O país não comunista, que era a maior parte, gastava as mesmas 24 horas do dia a trocar as voltas aos de obediência soviética e a inventar tudo quando os pudesse avacalhar. A resistência foi sofrida e dura, mas feita com ar de riso e cantigas (como agora). [Read more…]

Coca Cola nas veias

Nos dias que correm tenho-me lembrado de uma alta patente militar, da oposição ao regime de Salazar, com quem tive uma conversa antes de 1974. Tinham ocorrido manifestações de estudantes que, pela primeira vez, partiram à pedrada montras de bancos para os lados da Escola Politécnica. O militar estava contra e achava incivilizado. Eu, subscrevendo Gondi quando afirmou que “quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”, respondi enxutamente que preferia ver as pedras atiradas à cara dos governantes e que me nauseava uma oposição de opereta que não passava de cartas clandestinas e abaixo assinados que a Pide valorizava prendendo os seus signatários. Ele achou, escandalizado, que eu sugeria um desconchavo. Ficámos desentendidos. Mas não havia nada a fazer com um homem que acreditava no Pai Natal e na amantíssima esposa, uma que lhe fazia inenarráveis cenas de ciúmes e o deixou cego e paralítico com umas doses de arsénico quando se apaixonou por outro mais novo. Voltei a encontrá-lo depois do 25 de Abril, muito eufórico e a querer saber se a coisa tinha sido a meu gosto. Ficou fulo quando lhe respondi que tinha preferido uma revolução com grande fartura de pancadaria e contas ajustadas, mais me parecendo aquilo um golpe de floristas a prometer muita cobardia e confusão. Infelizmente, não me enganei. Aquilo que mais abominei no regime de Salazar foi a hipocrisia e a perfídia com que castrou o povo. Quando dali a pouco se cometiam as maiores tratantadas, vi com desgosto que ninguém tinha estaleca para pegar em democratas do 26 de Abril pelos fundilhos e atirá-los de janelas altas, pondo tudo na conta da “justiça revolucionária” propagandeada pelos arautos dos amanhãs que afinal não cantaram. Com isso tinham-se evitados grandes crimes sobre o corpo martirizado da Pátria, porque há uma gentinha neste mundo que só percebe e acorda à estalada. É uma perda de tempo a gentileza e as boas maneiras com tal gentinha.

Na minha geração houve muitos adeptos do politicamente correcto que é como quem diz, muitos com coca cola nas veias, sendo que a coca cola é a água suja do capitalismo. Que a terra lhes seja leve. Felizmente, quase 40 anos depois, há uma geração que se borrifa no politicamente correcto e trata os políticos desavergonhados como eles merecem ser tratados.

Afinal, há motivos para esperança. Bendita juventude!

Os mal amados

Portugal, por incompetência e negligência crónica dos políticos, é um exportador habitual de emigrantes. Ao longo dos séculos, e até ao presente, as crises provocadas pelos maus governos têm lançado o nosso povo na penúria e têm-no empurrado para fora das fronteiras, num sofrimento que “é bom ter pudor / de contar seja a quem for”, como disse o (grande) poeta e (grande) esquecido José Régio. Mais: ciclicamente, maus governos que não aguentam críticas têm obrigado a exilar-se centenas de pessoas a quem foi negado o direito da livre expressão e de viverem na pátria. [Read more…]

Hora de escolher

A Europa sofreu muito até conseguir estabelecer o Estado Social. Portugal, apesar do seu vasto e rico império colonial, não escapou a esse sofrimento por lhe ter faltado o golpe de asa que fizesse o seu próprio sistema de vida.

Através da palavra escrita, pudemos saber como foi o calvário dos povos escravizados por um sistema económico-financeiro que por completo estava nas mãos dos poderosos. Os povos não tinham direitos, apenas podiam beneficiar da caridade que era função da variável do carácter de quem a praticava. O trabalhador, por muito talentoso e esforçado que fosse, era tratado por esmola na hora da doença, do desemprego ou da velhice. A prova de que a situação era insuportável e revoltante está nos inúmeros barcos que levaram milhões de pessoas aos países do Novo Mundo. Talvez esse Novo Mundo construído pelos desesperados e injustiçados seja tão céptico em relação à Europa precisamente por ter recebido os despojos humanos de um egoísmo oligárquico que a História julga sem contemplações nem desculpas.

A miséria deu em revolta. Depois de revoluções, guilhotinas, guerras, prisões, exílios, gulags, a Europa rendeu-se à evidência: os trabalhadores eram seres humanos que não tinham só deveres, também tinham direitos. O Estado Social estabeleceu-se pouco a pouco com toda sua panóplia de salários justos, feriados, férias pagas, fins de semana para descanso, horários de trabalho, pensões de reforma, direito à greve, assistência na doença e desemprego, serviços de saúde universais e gratuitos, etc. etc. A própria Igreja Católica estabeleceu a Doutrina Social, no século XIX, assente na pedra de toque: a economia estava ao serviço do homem e não o contrário. Nenhum país teve coragem para pôr em prática, de forma total, essa Doutrina. Foi pena. Tinham-se evitado muitos dissabores. Mas o preconceito tem força. Em todo o caso, muitos dos fundamentos do Estado Social passaram a ter lugar nas constituições dos vários países europeus. E porque a miséria e tratamento indigno dos povos levou a guerras, um grupo de figuras democráticas lançou as bases da hoje União Europeia para que a paz pudesse ser uma garantia. [Read more…]