Burlões competentes

Durante um tempo dirigi um gabinete de imprensa em Lisboa. Um dia o contínuo, o meu fiel e saudoso Alfredo Rodrigues que transitou da France Press para de novo trabalhar comigo, veio dizer que na sala me esperava um antigo aluno do Colégio de Nun´Álvares (CNA). Fui à sala,  curiosa de saber quem seria e deparei-me com um sujeito  vestido de cinzento, todo ele cinzento, que de todo eu não conhecia. Apresentou-se-me como sendo o Durão e mostrou-se  admirado por eu não me lembrar dele. Como havia eu de me lembrar de todos, pensei, se nesse tempo as raparigas andavam pelas 200 e os rapazes para mais de 600? Desculpei-me com a minha falta de memória para  não ser rude. Mas o tal Durão não parou de desfiar memórias, falou do Jenga, do Ti Ilídio, do Dr Raúl, do Dr Quitério, de outros mais, com uma minúcia tal que eu voltei anos atrás.  Não havia que saber, o homem tinha andado mesmo no CNA. E isso era-me simpático. [Read more…]

Tempo de moderação

Em Novembro, mal o comércio começou a expor decorações de Natal, apareceu na internet um leia-e-passe alertando para a conveniência de as pessoas não desatarem a comprar presentes para a família e amigos porque, dizia o lembrete, tudo isso é fabricado na China. Sugeria-se, de modo empenhado, que se desse a preferência a dias de férias, na neve ou nas Caraíbas, a   tratamentos dentários, dietéticos ou outros, a estadias em spas, a cursos de ioga e ginásios, a bilhetes para espectáculos, a jantares em lugares agradáveis, a entradas em programas de museus, a livros e discos.  Insistia-se no facto de aos familiares e amigos serem mais úteis estes presentes do que  objectos que logo enfastiam e se põem de lado. O objectivo era claro: defender a economia canadiana das sinuosas práticas do capitalismo selvagem, esse que se dá como Deus e os anjos com o comunismo chinês, explorando ambos a mão de obra barata e rebentando com o comércio de qualidade que existe no Canadá e um pouco por toda a parte.  Aviso legítimo mas, ainda assim, próprio de país rico no que se refere às sugestões de presentes.

Depois, outro leia-e-passe apareceu aconselhando à sobriedade, demonstrando que é preciso manter o espírito de Natal, o amor da família e do próximo em geral, a alegria que se alimenta de valores espirituais e não de esbanjamentos que confrangem. Ora isto, em país habitado por imigrantes, só pode vir dos canadianos puros e duros, anglo-saxónicos e frugais, modestos e avessos a ostentação. Não são unhas de fome, são educados a não estragarem e esbanjarem. Eles têm razão. [Read more…]

Ouvir a terra

Os portugueses expatriados não são melhores nem piores portugueses do que os que não precisaram de emigrar. São apenas portugueses e é o que basta para os identificar. Embora vivam longe, alguns até muito longe, “no peito vai-lhes um país”, no certeiro resumo de Pedro Barroso.  Mesmo que, por razões práticas, tenham outra nacionalidade alem da portuguesa. Porque mãe há só uma e ninguém a esquece nem lhe é indiferente. É por isso que devoram o que de Portugal se conta nas televisões e rádios, nos telefonemas e e-mails da família e dos amigos. [Read more…]

Virtuais e reais

Foram anos a abrir todas as manhãs o Jornal de Notícias on line para ler a crónica de Manuel António Pina. Era um prazer imenso aquela prosa enxuta, aquele estilo directo, aquela cultura e carácter enroupados de ironia.  Era um conforto de alma ver que, neste naufrágio em que tantos se têm perdido, o Pina era como um farol de coerência, de coragem, de desassombro na luta pela Pátria.Estava do lado certo na batalha e combatia o bom combate. De súbito, no verão, as crónicas do Pina deixaram de aparecer. E eu, cheia de pena, mas a pensar que era tempo de férias, que o Pina bem as merecia. Chegou Outubro e a morte do Manuel António Pina fez a primeira página de todos os jornais. Foi um choque e uma desolação. Nunca vi o Pina, nunca nos falámos, estou certa que ele nem sabia da minha existência, mas para mim era uma pessoa em quem acreditava, que estimava. Um amigo virtual, mas um amigo.

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De pernas para o ar

Os dias que desembocaram no 5 de Outubro de 2012 foram um verdadeiro fim de festa, com acontecimentos e pormenores que por muito tempo ficarão na memória do povo.

Começou com António Borges, um homem de mão do Goldman Sachs, a passar rodas de “ignorantes” aos empresários, com a desfaçatez  de quem considera Miguel de Vasconcelos um menino de coro se comparado com a sua pessoa. Logo depois Victor Gaspar  anunciou medidas de austeridade tais que pulverizam a classe média e empurram Portugal para o abismo. E fê-lo raivosamente, como quem atira pedras aos governados, a dar-se ares de pimpão, respaldado pelo Moedas do Goldman Sachs. Logo depois, no debate parlamentar, quando um deputado do PC lia a carta do líder do CDS aos seus militantes condenando a austeridade excessiva, Passos Coelho e Relvas, ao lado de um Paulo Portas calado e cabisbaixo, e de um Álvaro amarrotado como um papel sem préstimo, riam-se sem pudor nem maneiras. Foi uma cena de inacreditável baixeza. [Read more…]

O Soberano

Quando um dia, de modo sério e limpo, se escrever a história deste ano de 2012 na República Portuguesa,as datas de 15 e 21 de Setembro merecerão estudo aprofundado.
A 15 foi a manifestação nacional da dignidade ferida, do orgulho nacional insultado, do direito espezinhado, da vida destruída, do grito por dar dos que foram esbulhados do que legitimamente lhes pertencia, da impotência face a uma justiça que deixa à solta gatunos e corruptos(chegando ao desvario de negar a sua existência), do imenso nojo pela partidocracia instalada, da indignação pelas seitas secretas e criminosas que estendem os tentáculos venenosos por toda a parte, da imensa raiva contida (por enquanto). [Read more…]

Hoje há bandarilhas – Canadá

11 de Setembro de 1973

Estava em Munique pela segunda vez para voltar a ver a fabulosa pinacoteca. Por um lado, a paixão pela pintura. Por outro, o assombro magoado com que olho para as pedras vivas do nazismo, de todas as brutalidades e crimes hediondos, sejam de direita ou de esquerda. E foi ali, numa taberna de Munique, que Hitler fez as primeiras reuniõs do que viria a ser a legião dos exterminadores. Para alem do genocídio, a grande roubalheira. As paredes do museu bem o demonstram. Ao saír, deparo com um desfile de homens e mulheres morenos, sombrios, alguns chorando, que empunhavam cartazes em alemão, língua que não entendo. Aproximo-me. Oiço que falam espanhol entre si. Pergunto: que pasa? Responde-me um rapaz: mataran a Allende, estan matando como locos, es un golpe fascista de Pinochet.

11 de Setembro de 2001

Tomava o pequeno almoço, em Toronto, olhando pela tv as notícias da manhã. Subitamente, o noticiário é interrompido para, por palavras e imagens, darem a saber que um ataque terrorista estava a atingir as Torres Gémeas em New York. Horrorizada, pensei: estão lá a Susy e o Manny (jovem casal meu amigo). New York aqui tão perto, de repente tão longe. Seguiu-se um dia inteiro de sofrimento e mágoa. Os estados maiores do Estados Unidos da América e do poder islâmico não são flor que se cheire mas, meu Deus, porque têm sempre de ser os mais pequenos e desmunidos a pagar? [Read more…]

Hoje há bandarilhas – Canadá

Num dia a Procuradora, em entrevista a um jornal, fez uma confissão: “eu sou de esquerda”. Dali a poucos dias, fazia o seu número na chamada “universidade de verão” do PSD, que é onde os jotinhas acumulam créditos para um dia pedirem equivalências às lusófonas, obtendo licenciaturas Pepe-Rápido, segundo o egrégio modelo Relvas.

Fico sem saber se a Procuradora pertence à esquerda de quem entra ou de quem sai.
Tomada de imparável verve, animada por uma jotinha que queria Sócrates preso por ter dinheiro para viver em  Paris, a Procuradora, naquele  seu  discurso errático, foi dando os amens ao ódio cego dos jotinhas. Tão cego que nunca repararam nos teres e haveres do Valentim  Loureiro, do Oliveira e Costa, do Isaltino,do Dias Loureiro, do genro daquele senhor que está a fazer de rei em Belém e outras ínclitas figuras da social democracia à portuguesa.
Lançada em órbita, a Procuradora proclamou:”Digo olhos nos olhos:o nosso país não é corrupto, os nossos políticos não são corruptos, os nossos dirigentes não são corruptos”. Dei comigo a pensar, já que a senhora vê sem óculos e parece esperta: Julieta dos Espíritos convertida ao Padre Américo. Não há rapazes maus. É o nacional porreirismo em todo o seu esplendor. [Read more…]

Hoje há bandarilhas – Canadá

Em nome do governo, que de resto ficou mudo como um penedo, Passos Coelho prometeu empobrecer Portugal, cortar a eito entre os mais modestos custasse o que custasse. Cumpriu a promessa e disse, orgulhoso, que ia “além da troika”.

Temos mais de um milhão de desempregados, um número impressionante de falências e de empresas fechadas, há largas bolsas de fome no país, as instituições de beneficência estão a ter a maior dificuldade em acudir a todos os necessitados, muitos estudantes tiveram de renunciar aos seus estudos por falta de meios, é escandaloso o número de professores atirados ao desemprego, é lancinante o número de pessoas que perderam a casa, o rio para e emigração vai caudaloso,etc.etc. etc. Tudo isto foi feito por um governo que se diz português contra Portugal.

E vai agora, a troika faz saber aos parceiros sociais que o memorando não é responsabilidade dela, mas sim do governo, que o mesmo é dizer que não se sente culpada pelo total fracasso deste pouco mais de um ano de governação neoliberal e ignorante.

Das duas uma: ou Passos mentiu (o que não aconteceria pela primeira vez) ou a troika (esperta, batida) adopta teatralmente aquela tirada romana que nos diz respeito por via do Viriato: “Roma não paga a traidores”.

Hoje há bandarilhas – Canadá

Agora dou inteira razão a Don Miguel de Unamuno:  “you no creo en brujas pero que las hay, hay”.   Só pode ser bruxedo o  que se passa com Passos Coelho quando discursa. Coisa de assombração ou de fantasma malandro.
Ainda ontem em Castelo de Vide, por exemplo.  Quando,  todo esticado e à maneira, ia a confessar ao país: “o governo está a caír”,  viram o que aconteceu?  Saíu-lhe a bacorada: “o défice está a caír”.  E é sempre assim, coitadinho,  vai para dizer uma coisa e o mafarrico sopra-lhe outra.
Não se riam  nem escrevam maldades.  Tenham dó.  Chamem a bruxa.

Carta do Canadá: Portugal desamparado

Com a lentidão meditativa  a que obrigam as informações importantes,  acabo de ler  uma obra de Marc Roche que, nestes tempos incertos de Pátria e Europa,  todos devíamos ler:  O BANCO – Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo. Ficamos a saber que, de forma secreta, praticamente de seita, laboriosamente,  persistentemente, ao longo dos anos, o Banco Goldman Sachs adquiriu a configuração de um polvo monstruoso, cujos tentáculos, sob a forma de homens de mão, está infiltrado em toda a parte. Objectivo: empobrecer países mal governados e passar o seu património para o capital selvagem e sem pátria.  Tudo isto o autor denuncia com grande pormenor e acervo de provas.

Na União Europeia, os homens principais do Goldman Sachs são Mario Draghi (presidente do BCE) e Mario Monti (primeiro ministro de Itália). O autor descreve, ao pormenor, as golpadas do banco sobre a Grécia, com a colaboração de governos da direita e da esquerda, para grande proveito e regozijo dos banqueiros alemães.
Em Portugal, segundo Marc Roche, os tentáculos do Goldman Sachs são António Borges, Carlos Moedas e, de forma sonsa, Victor Gaspar. Todos os figurantes da coisa pública  que com eles colaboram servilmente, são a repetição gananciosa e sem escrúpulos dos que, em 1580, entregaram Portugal à Espanha a troco de fortunas e títulos. Toda uma elite negativa e traidora que,ontem como hoje, cabe no grito desesperado de Almada-Negreiros: “maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames”. [Read more…]

O Portugalito dos anões

Nunca senti vergonha de ser portuguesa. Mas algumas vezes, neste regime e no anterior, tenho sentido desgosto pelo excesso de passividade e de espírito acomodatício do nosso povo– como se ele não tivesse sangue nas veias. Várias vezes, também, tenho sentido impaciência, e até desespero, pelo tempo que nos fizeram perder governantes que, à falta de cultura e de civismo, entenderam nivelar-nos todos por baixo. Porque quem tem dado um triste retrato do país ao mundo são esses governantes a martelo, como o uísque de Sacavém.

A notícia, fartamente badalada nos jornais, de que teria sido chumbada a Fundação Casa das Histórias, dedicada à obra da pintora Paula Rego, por um grupo de trabalho (mais um) nomeado pelo governo para avaliar as fundações, com vista a fechar o maior número possível neste tempo de política rapa-panelas, estremeceu-me e fez-me lembrar um outro ataque à cultura no consulado salazarista. Ia eu a caminho da faculdade quando li num jornal pendurado num quiosque: PRIMEIRO PRÉMIO DA BIENAL DE SÃO PAULO – MARIA HELENA VIEIRA DA SLVA (França). Que vem a ser isto?, pensei. Ao fim da manhã já sabia a história toda: o governo da ditadura tinha recusado dar a nacionalidade portuguesa ao marido da pintora, o também pintor Arpad Szenes, judeu húngaro exilado em França devido ao genocídio levado a cabo por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Sendo casado com uma portuguesa, nada de mais natural do que desejar ter a mesma nacionalidade da mulher. Perante a recusa, afrontosa e mesquinha, Maria Helena Vieira da Silva reagiu em conformidade: pediu a nacionalidade francesa para ambos. Bateu com a porta na cara dos anões da (in)cultura oficial. Ficou a França a ganhar e o mundo a pensar que Portugal era um sítio de labregos. Foi preciso haver uma revolução que corresse com essa direita estúpida e ignorante (porque há uma outra direita civilizada e com mundo, mas que não aparece, não se mistura), para que a Pátria recebesse com as devidas honras esta pintora representada nos maiores museus do mundo. [Read more…]

Fartos de Sujeira

Fernanda Leitão

Algumas vezes tenho ouvido e lido pessoas com responsabilidades na vida pública inquietas com o que lhes parece a aversão dos portugueses aos políticos e à política. Nem sempre o que parece é e por isso discordo dessa opinião. E explico porquê.

Os portugueses apreciam a política quanto baste e, em algumas ocasiões,têm mostrado discernimento e maturidade. Uma dessas ocasiões foi quando, nas primeiras eleições livres, rejeitaram a maioria que o PC ambicionava: perceberam que não era inteligente, nem sensato, substituir uma ditadura de 48 anos por outra ditadura que, na altura, já escravizava há dezenas de anos vários países no mundo. Na sua grande maioria, os portugueses apreciam o centro-esquerda e por isso o CDS só tem chegado ao poder como atrelado do PS ou do PSD, para fazer número e negociatas, ao passo que o PC e a extrema esquerda se mantêm numa marginalidade ruidosa mas de utilidade. Reviram-se em Francisco Sá Carneiro e os fundadores do PSD,todos eles de centro esquerda, homens que se pautaram por honestidade e mãos limpas de quem, com verdade, não se pode dizer que usaram a política para encherem os bolsos. E deram o seu apoio eleitoral ao PS sempre que este enfrentou os comunistas ou simplesmente era alternativa de poder.

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O ano em que encarece a palha

Num país estranho de que me falaram, rapazes de vida airada brincavam até aos 40 anos, aprendiam tudo acerca de intriga, manobrismo e rasteiras nos partidos em que, tendo começado a colar cartazes, acabaram por ser dirigentes, passadeira pela qual chegaram a mandantes. Estudar é que não era com eles e nem mesmo trabalhar, porque para isso estavam aboletados na CP (Casa do Pai). Sabiam vagamente do interior do país e do seu povo por serem dados à grande cidade e às delícias que ela traz a quem não sabe quanto a vida custa a ganhar.
Mas um dia perceberam que, na grande cidade, eram olhados de alto por uns barões e marqueses de muito título e pilim. Mudaram de agulha e resolveram ser como eles. Começaram pelo pilim, pelas negociatas proporcionadas por uns bardinas partidários que sabiam da poda. Quando a carteira engordou, trataram dos títulos: como não era possivel ser barão  ou marquês, mesmo rebentando com o Visa e a conta bancária, porque é aquela chatice de haver neste mundo coisas que não se compram, atiraram-se a ser “dótores”. Sem estudarem, porque eles não tinham pachorra para isso.  Que estudassem outros, uns parvos sem o golpe de asa dos ladinos. E era esse país tão estranho que o puderam fazer na mais estrita legalidade, segundo roncaram os donos das escolas por onde saltaricaram.  É que as leis eram cozinhadas no parlamento, sítio esquisito onde os partidos estavam acampados: por fás e nefás eram todos primos e compadres. Tão esquisito, o tal sítio, que nele pai e filho não podiam parlamentar ao mesmo tempo. É que, se ao pai fosse perguntado o que fazia o filho, não podia o progenitor sujeitar-se à violência da verdade: meu filho deputa. [Read more…]

Carta do Canadá: Eleições e Lições

Que a Grécia esteja  a ser governada por dois partidos que obtiveram um resultado tangencial nas eleições, a Nova Democracia e o Pasok, afigura-se tão grotesco como pôr pirómanos a apagar incêndios. Porque foram eles os grandes responsáveis pelo estado a que o país chegou, já que se alternaram no poder por dezenas de anos. Por acção, omissão,cumplicidade e incompetência, foram eles que institucionalizaram a corrupção, a ausência de reformas estruturais atempadas, a completa vigarice nas contas apresentadas a Bruxelas, o mais relaxado deixa andar no abandono da agricultura e pescas, a estúpida indiferença face ao declínio industrial. Desgraçaram o povo e encheram os bolsos aos bancos, aos milionários armadores, aos especuladores desenfreados. Puseram a Grécia de joelhos, à beira da bancarrota e da perda de soberania, quando celebraram contratos ruinosos na compra de submarinos, navios e material de guerra com que a Alemanha os seduziu. Insulto sem perdão a um povo que pagou a invasão do seu território pelas tropas nazis, durante a Segunda Guerra, por um inenarrável preço de sangue e escravidão. Perfeitos traidores. [Read more…]

Carta do Canadá: Umas boas férias

Parafraseando Steinbeck, bem podemos dizer que este é o verão do nosso descontentamento. E porque o inverno que aí vem não se afigura mais prazenteiro, aconselha o senso prático que nos ofereçamos as férias que nos carregarão as baterias de que tanto vamos precisar. Férias simples, modestas, como as de antigamente, no campo, cheias de silêncio e ar puro, sem jornais, rádios  ou televisões. Um tempo de completo pousio e contemplação, rodeado de gente que à terra tem dado a vida por gerações e que tem sempre um jeito saboroso de enfrentar a adversidade. Acrescente-se uma alimentação saudável e uma sesta bem dormida, um longo passeio a pé depois do jantar, que podemos aproveitar para rezar ou meditar, e teremos a receita de que precisa o nosso cansaço e desalento.
E, já se sabe, senso de humor, rir o mais possível. Para o que, sem pretensões, venho contribuir.
No meu tempo de Colégio de Nun´Álvares, em Tomar, tive o privilégio de conhecer João Santos Simões, engenheiro têxtil porque a isso obrigava uma empresa de família que vinha do seculo XVIII, uma fábrica de fiação, mas homem de nata vocação artística. Veio ele a ser o maior especialista de azulejaria portuguesa, devendo-lhe o país e a cultura, entre outras coisas, o levantamento completo do azulejo luso em terras brasileiras. Conversador admirável, generoso e alegre, de uma simpatia irresistível, guardou de rapaz um jeito desligado e boémio que era uma delícia. Porque em jovem pintou a manta. [Read more…]

Carta do Canadá – Universidade e política

Assim como o ensino primário é o sólido alicerce do conhecimento daquele que o busca, a Universidade é a cúpula desse mesmo conhecimento. O primeiro garante bom terreno para o secundário e este, se não tiver qualidade, pode liquidar as esperanças do candidato ao saber de nivel superior. O ensino no seu todo, creio, é uma longa cadeia de indissociáveis elos, firmemente mantida por professores que, salvo lamentáveis excepções, dão grande parte da sua vida à tarefa de formar jovens. É tarefa tão nobre,e tão exigente, que nos parece evidente o  direito que têm ao respeito, ao apoio, às boas condições de trabalho.Infelizmente, quem (des)governa por conta de partidos que só vêem o palmo diante do nariz, fala em conhecimento para ficar bem no retrato eleiçoeiro mas reduz tudo a contas de mercearia. Vivemos a hora do cifrão, da ganância, da mediocridade – basta ler atentamente os curricula académicos e profissionais da generalidade dos políticos. Logo se percebe que,de facto, a ignorância é atrevida. [Read more…]

Notas Soltas

A cinco mil quilómetros de distância, Portugal chega-me pela palavra escrita, pela televisão, pelos telefonemas e e-mails dos amigos. Tudo devoro com ansiedade e uma intensa preocupação.

Até ao dia 30 de Maio de 2012, vários me diziam que Passos Coelho é um “tipo sério”. Pela imagem, pela linguagem corporal, ele parecia-me sisudo, melancólico, com o olhar inteligente do pargo cozido. Como um jerico. A partir dessa data, seguindo o debate parlamentar sobre a convivência negada, e depois confirmada, entre Silva Carvalho, maneirinho e fino como Toni Soprano, e Miguel Relvas, físico e porte de açougeiro, ambos e dois tresandando a Loja, fiquei sem dúvidas acerca do Coelho que passou um cheque um branco de confiança a Relvas. A vantagem é irem os dois ao fundo ao mesmo tempo. Pena é se têm tempo de vender Portugal a retalho, e ao desbarato, RTP-1 incluida.

O coiso de Vancouver é um triste,coitado. Se não consegue a embaixada da UNESCO, o que porá Paris a rir, está feito ao bife com a universidade canadiana: não traz consigo uma estrelinha, ao menos uma, de brilho e justificação. É espantoso como a vaidade ou melhor, como a cagança provinciana, pode levar ao charco.

Quando se pede uma entrevista a uma pessoa é porque se considera importante o que ela tem para dizer. Portanto, é para deixar a pessoa falar. Não o entendeu assim José Rodrigues dos Santos, aquele que pisca o olho a despropósito, quando fez tudo para que Paulo Campos não falasse. Um festival de ignorância e mau jornalismo. O jornalista feito chico esperto. E eu a fazer minhas as palavras dum cartaz de rapaziada: O CHICO É ESPERTO MAS É MALCRIADO.

Já que estou com a mão na massa, pergunto porque é que os contribuintes têm de pagar a clamorosa má criação e ordinarice de Pedro Granger no concurso O ELO MAIS FRACO. Naquela casa náo há chefe,director, provedor?

Tudo somado, no que respeita a humor, salva-se o ESTADO DE GRAÇA, com sabor revisteiro e autêntico.

Carta do Canadá: Fugir ao dever

Que o pagar é certo,  diz o nosso povo.  E diz muito bem, como se verá adiante.
De vez em quando vou a Otava, a capital federal do Canadá, uma cidade pequena, com dois rios, toda rodeada de árvores e parques,  harmoniosa e linda, silenciosa e calma, que se destina a albergar o parlamento e o governo, bem como as representações diplomáticas dos muitos países que mantêm ligações com o Canadá. Há ali duas prestigiadas universidades, a  Univ.de Otava e a Carleton.  Na primeira é professor de Sociologia  Victor Pereira da Rosa,  homem de grande sabedoria e honestidade, com vasta obra publicada. Na Carleton, formou-se em jornalismo Dale Brazão e ali foi pescá-lo The Toronto Star, um jornal generalista nacional que tem um milhão de exemplares de tiragem diariamente.  Brazão, que é algarvio e veio garoto para estas terras, especializou-se em jornalismo de investigação criminal e é um dos jornalistas mais premiados do Canadá. No Supremo Tribunal, é juíza Maria Teresa Linhares de Sousa, nascida na Madeira, a única pessoa de língua portuguesa na magistratura canadiana. Um número apreciável de luso-canadianos trabalha nos departamentos governamentais. [Read more…]

Carta do Canadá: A deferência ministerial

Por entre jactos de  imundice que jorram da sujeira do chamado  “caso das secretas”,  as primeiras páginas dos jornais informam: “Relvas recebia mensagens a que respondia “por deferência”.

Fico pasmada com esta originalidade à portuguesa. Na verdade, num daqueles países democráticos e normais, um ministro que receba mensagens clandestinas dum funcionário pago com os dinheiros públicos, chama a polícia e obtem garantias de o caso ser julgado em sede própria. Isto é, mostra deferência pelo lugar que ocupa e pelo povo que lhe paga a cadeira ministerial e as mordomias inerentes. Numa palavra: respeita e dá-se ao respeito.
Mas também fico edificada com a mensagem que o ministro Relvas fez passar com esta actuação e que o povo unido registará na memória para o que der e vier. Há cerca de um ano morreu subitamente em Toronto um jovem português, o Tiago Lopes, trabalhador que entrou no Canadá  como turista, a exemplo do que largas centenas de compatriotas têm feito movidos pelo desespero de não arranjarem trabalho em Portugal. [Read more…]

Carta do Canadá – As palavras proibidas

Quando assentei  praça no jornalismo, no século passado, a comunicação social era mantida,com trela curta e açaime, pela censura. Esta era uma coisa misteriosa, sinistra e caricata, personificada por uns coronéis tarimbeiros sobrados do 28 de Maio de 1926. Eram engraçados,os coronéis da censura. Um grupo de universitários que eu conheci, pontificado por um que veio a ser médico em Moçambique, resolveu editar uma revista, isto em Coimbra, para o que montou um elaborado plano de pega de cernelha à censura. Como o militar que naquela cidade chefiava a censura ia todos os dias tomar a bica à mesma hora, a rapaziada foi-se-lhe chegando, mansa e sonsa, numa conversa mole que encantava o tropa. Quando acharam que o bicho estava pronto para a pega, apareceram-lhe com as provas da revista para a censura. O coronel passou os olhos pela prosa, achou aquilo inocente como o chá de tília e assinou de cruz. A coisa ia andando neste remanso. A pouco e pouco, como quem não quer a coisa, eles começaram a meter umas poesias, daquelas em que verdade rima com liberdade, pão com revolução, e assim. E o tropa sempre a assinar de cruz.  Até que caiu o Carmo e a Trindade: o coronel foi questionado e apertado pela Pide por causa da revista dos rapazes. Quando eles se abeiraram, prazenteiros, da mesa do tropa, este atirou-lhes à cara: [Read more…]

Carta do Canadá: Cinquenta anos depois

Participei da greve nacional de estudantes universitários,  começada em  Lisboa em 24 de Março de 1962,   lado a lado com  largos milhares de outros estudantes. A greve foi consequência da proibição, pelo governo de Salazar, das celebrações do Dia do Estudante. O aparato policial foi impressionante a cercar a Cidade Universitária. Perante o facto, Marcelo Caetano, então Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, falou aos milhares de estudantes concentrados frente às Faculdades de Letras e Direito: verificava que, lamentavelmente, de novo o poder executivo pisava o poder legislativo e,visto isso, estavam todos  os estudantes convidados a jantar no restaurante Castanheira de Moura, ao Lumiar.  Ordeiramente, muitos estudantes dirigiram-se ao restaurante e, quando ali chegaram, foram violentamente espancados pela polícia de choque. Estava aberta a guerra entre academia e regime, que rapidamente alastrou a outras universidades do país. Como seria de esperar, surgiram líderes: Eurico Figueiredo, Jorge Sampaio, Victor Wengorovius, Joaquim Mestre, José Medeiros Ferreira e outros. [Read more…]