O sofá de pedra

(adão cruz)

(Um texto de Marcos Cruz)

O SOFÁ DE PEDRA

A história que vos vou contar podia sair-me das mãos numa rajada, mas eu não nasci para ir directo aos assuntos. Percebi isso quando perdi a virgindade. Foi estranho. Os meus amigos tinham-me pressionado tanto a invadir a minha namorada que, na hora h, parecia que o meu pénis ia às finanças. Claro que ejaculei precocemente. O que vale é que não culpei o acto em si, culpei-o em mim, isto é, compreendi que sem sol não se faz praia, que cada prazer pede o seu clima. Com essa namorada, porém, o destino estava escrito. Como Deus, quando fecha uma porta, abre uma janela, o mesmo destino quis que, antes de conhecer a minha terceira namorada (e não a segunda porque à segunda nem as mamas lhe apalpei, apesar de ter andado dois meses com ela), eu descobrisse um sítio mágico, hoje dir-se-ia um spot, numa zona rochosa da praia de Cabedelo, para lá do Hotel Casa Branca, quem vem do Porto. [Read more…]

Mais um 2010

(adão cruz)

O mais recente trabalho, que eu dedico à dignidade do ser humano.

Uma história antiga

 
 
 

( Pormenor - adão cruz - )

 

Uma história antiga

 Foi há muitos anos, quando eu era estudante do segundo ou terceiro ano de medicina. Estava no velho Café Progresso a estudar, ainda me recordo, umas coisas de embriologia, a estúpida abordagem da embriologia de então, que nada tem a ver com as maravilhosas lições de Richard Dawkins. Estava sentado numa daquelas pequenas mesas quadradas, mesmo junto à porta que dava para a Travessa Sá Noronha.  [Read more…]

Dois extra-catálogo

(adão cruz)

(adão cruz)

 Dois quadros feitos um tanto à margem (“adão e eva” e “a mãe dos periquitos”).

Mais dois 2010

(adão cruz)

Como prometido, cá estão dois pós-férias. Embora eu não goste de títulos, dado que os títulos podem ser redutores e empobrecer a obra, anulando, por vezes, a sua própria hermenêutica, podemos chamar-lhes, “luar de sonho” e “sonho de verão”. Com todo o gosto, dedico-os ao Nuno Castelo-Branco.

(adão cruz)

Um simples periquito

(adao cruz)

Um simples periquito

Não sei muito bem o que fazer nas férias. Não gosto de praia, não gosto de viagens programadas em grupo, não gosto de cruzeiros, enfiarem-me num resort qualquer é pior do que me enfiarem em Custóias. Só gosto de viajar, mas de carro, sem destino, ao deus-dará. Foi o que fiz na passada semana. Vi, por acaso, uma exposição de André Brasilier no Chateaux de Chenonceaux, e mal cheguei, fiz dois quadros, mais ou menos dentro da sua linha, a qual tem algumas semelhanças com a minha, ou melhor, a minha tem algumas semelhanças com a dele. Provavelmente, amanhã farei deles um post. Cheguei de férias. [Read more…]

Mais um 2010

(adão cruz)

Com um abraço a todos

Materialismo e Espiritualismo (3)

(adão cruz)


Materialismo e Espiritualismo (3)

Conheço Jean Pierre Changeux desde a década de oitenta, não pessoalmente, embora tenha assistido a uma conferência sua, nessas alturas, em Paris, salvo erro. Mas conheço-o através de alguns dos seus livros, como “Homem Neuronal” de 1980, e “Razão e Prazer”, livros que li e reli. Muita vontade tenho de ler outras obras suas como “Fundamentos naturais da ética”, “A verdade e o cérebro”, “O que nos faz pensar”, etc., mas não consigo a benevolência do tempo. Hei-de conseguir. [Read more…]

Saúde, o que é isso?

(adão Cruz)

 Quando somos consultados e o doente nos diz que tem uma Médica de Família que é um amor, poeque todos os anos lhe pede, no mínimo, sete exames, e receita para tudo, ficamos parvos. Perguntamos-lhe se ela o examina, se o observa. Não, não é de fazer isso, embora lhe veja sempre as tensões.

 No fim da consulta, chegamos à conclusão de que o doente não apresenta qualquer problema cardíaco, pelo que não carece de qualquer medicação nem precisa de andar a fazer tantos exames. Além disso, verificamos que toma, no mínimo três medicamentos “para o coração”. [Read more…]

Materialismo e Espiritualismo

(adão Cruz)

O mal do homem não está em pensar e ter ideias, o mal do homem está em não pensar e não ter ideias.

Por isso, na sequência de um artigo anterior aqui publicado, sinto necessidade de correr um pouco mais atrás de ideias e de fazer mais algumas reflexões em relação a este tão aliciante tema. Os que acham que sou tolo e desprovido de senso têm uma solução fácil, não leiam. Mantenham as suas valiosas ideias fechadas no cofre do deixa andar e não te rales. [Read more…]

Permitam que transcreva

Livro

“Vaticano funciona como ‘offshore'”

por JOANA EMÍDIO MARQUESHoje

 Obra de jornalista italiano revela os esquemas corruptos que se escondem sob a gestão financeira da Santa Sé

 Num cruzamento, perto de uma auto-estrada, do cantão suíço de Ticino, uma camponesa idosa guardava na sua cave duas malas Samsonite cheias de papéis arrumados em pastas de cartolina amarela. Durante quase trinta anos, recebeu aquelas pastas, sem nunca saber que o que guardava eram documentos que abriam a porta para um dos segredos mais bem guardados do mundo: as finanças do Vaticano.

 No Verão de 2008, coube a um jornalista italiano da revista Panorama, Gianluigi Nuzzi, ir buscar estas malas que continham o arquivo secreto de monsenhor Renato Dardozzi, que, entre 1974 e o final da década de 90, foi uma das figuras mais importantes do Instituto das Obras Religiosas (IOR), o banco do Vaticano. Dardozzi, falecido em 2003, manifestou no seu testamento a vontade de tornar públicos estes documentos. Foi a partir deles que o jornalista escreveu o livro Vaticano S. A., que veio agora apresentar a Portugal.

 Esta obra, frisa Gianluigi Nuzzi, “não é mais um livro de teorias da conspiração mas o resultado de uma investigação de dois anos, em que todos têm nomes e tudo o que é dito é baseado em provas e não em fantasias”.

 Na sala de um hotel de Lisboa, o jornalista lembra os meses passados numa sala “pequena, abafada, sem ar condicionado nem casa de banho”, a percorrer “um labirinto de cerca de cinco mil documentos que reconstroem, a partir do interior do Vaticano, acontecimentos financeiros duvidosos, ligações inquietantes à Mafia, a Giulio Andreotti (dirigente da Democracia Cristã italiana) ou ao sindicato polaco Solidariedade.

 Monsenhor Renato Dardozzi tinha acesso aos círculos mais restritos e fechados da Santa Sé, às saletas de “portas duplas, onde se edificavam operações financeiras arrojadas, onde se abafavam escândalos, ou se afastavam pessoas”, explica Nuzzi. Os documentos que Dardozzi guardou provam que “o Vaticano funciona como uma offshore. Para lá da Colunata de São Pedro e sob a capa de obras de bem, cometem-se crimes financeiros e não só”.

 Este livro dá conta dos acontecimentos que se seguiram aos escândalos do banco Ambrosiano e da Banca Privata Italiana, bem como às mortes misteriosas das figuras de proa dessas instituições Michele Sindona e Roberto Calvi, ou ainda a de Albino Luciani (Papa por 33 dias). Pois, como explica Nuzzi, estes escândalos não impediram que o Vaticano prosseguisse com “manipulações políticas, subornos, pagamentos a políticos corruptos e elementos da Mafia, burlas e até mesmo um elaborado sistema de lavagem de dinheiros, só possível porque o Vaticano é um Estado com leis e um estatuto próprios. É um mundo inexpugnável em pleno coração da Europa”.

 Em Vaticano S. A., pessoas, instituições de caridade, fundações (como a Fundação Spellman, que faz a gestão dos dinheiros de Andreotti) vão entrando e saindo de cena como se de um palco de teatro se tratasse. Cruzam-se relações de poder de indivíduos e grupos interiores e exteriores à Santa Sé.

 Há, porém, um que sem aparecer está omnipresente em toda a narração: Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II. O jornalista reconhece que ” Wojtyla era apenas a cúpula de uma gigantesca engrenagem que ele não controlava. Até porque no Vaticano “a verdade nunca é só uma”, afirma Gianluigi Nuzzi.

Lítio no Afeganistão

(adao cruz . democracia americana)

A minha empregada diz-me assim: o sr.doutor é o máximo. O sr. dr. é que dava uma boa empregada. O sr. faz tudo, seja de homem ou de mulher (salvo seja, penso eu no meu íntimo!). Mas ela tem razão, e eu não digo isto para armar nem com presunção. Mas tanto avalio e preparo um doente para uma intervenção ao coração, como prego um botão numa camisa ou levanto a bainha da calça, (melhor seria levantar a bainha da saia!). Várias vezes tenho dito que me encontro, por vezes, no computador, com os pincéis na tinta, a ler uma revista de cardiologia e a fazer um estrugido. Sou assim e assim serei enquanto os olhos e a mente mo permitirem. Mas, sendo assim, vejo-me por vezes à rasca para cumprir os meus deveres de aventador, pelo que peço desculpa ao amigo Ricardo e outros que tiveram e têm a gentileza de me querer nas colunas do blogue que em boa hora criaram. [Read more…]

Os pés pelas mãos

(texto de Marcos Cruz)

OS PÉS PELAS MÃOS

A minha filha está na cozinha, em bicos de pés, a tentar chegar com as mãozitas a um pacote de bolachas que eu afastei o suficiente, julgo, da borda do balcão. Afinal, julgo mal: ela fez cair o pacote. Ponho-me a imaginar o que pensará ela sobre a conquista – se achará que foram as mãos as responsáveis, se atribuirá o mérito à inclinação dos pés, se premiará o conjunto ou se nem perderá tempo a reflectir sobre isso, que é o mais provável. O meu pai está na cozinha, sentado, a dizer-me que a ciência, mesmo sendo um cemitério de hipóteses, é o único caminho para a verdade, ao passo que a filosofia é, na generalidade, um amontoado de disparates. Segundo ele, a filosofia é apenas um degrau, um degrau que está abaixo da ciência. Eu pergunto-me, e pergunto-lhe por outras palavras, sem que ele mostre vontade de me ouvir, se esse degrau não estará para a ciência como os pés da minha filha estarão para as suas mãos na abordagem ao pacote de bolachas.

Passar à História

(adão cruz)

Texto, sempre oportuno, de Marcos Cruz

PASSAR À HISTÓRIA

Há coisas em nós que são extremamente difíceis de trabalhar. Tomamos consciência delas e achamos que, cumprida essa etapa, vai ser fácil repô-las no lugar. É, eventualmente, um efeito perverso dos comprimidos, cada vez mais comuns ao nosso quotidiano, sejam para uso pontual ou crónico: se temos qualquer variação nos níveis considerados normais disto ou daquilo, metemos uma ou várias pastilhas e, em mais ou menos tempo, a regularidade está de volta. Até pode ser que um dia haja comprimidos para a inveja, por exemplo, mas não creio que a raiz de onde ela vem possa ser moldada sinteticamente, que possa ser convertida por um corpo externo. O efeito desses comprimidos será, em princípio, paliativo, no sentido em que, deixado o seu uso, a inveja regressa, a menos que, como acontece nomeadamente com os fármacos antidepressivos, a pessoa aproveite as consequências anímicas da toma para trabalhar, ela mesma, a verdadeira causa da depressão. [Read more…]

É preciso arrojo, eu sei!

(adão cruz)


É preciso arrojo, eu sei!

Nestes tempos futebolísticos, nomeadamente neste malogrado Portugal-Espanha, assunto de que não percebo nada, nem estou interessado em perceber, é preciso muita coragem e muito arrojo, para vos vir falar de Materialismo e Espiritualismo. Precavi-me no entanto, com a ingestão de uma boa dose de ameixas vermelhas, pequeninas, pouco maiores do que cerejas, deliciosas, do quintal de minha saudosa mãe, regadas com meia garrafa de Mouchão tinto. Dizem que tais frutos, com um bom tinto, produzem um belíssimo resultado em termos de equilíbrio metabolismo-catabolismo, e, por conseguinte, de homeostasia, termo que já aqui tenho utilizado várias vezes, e que significa uma total harmonia do todo do ser humano. [Read more…]

S. João

(adão cruz - S.João - mais um 2010)

(Texto de Marcos Cruz)

S. JOÃO

João estava são, mas não tencionava ir ao S. João. Era uma contradição quase evidente, pois, no Porto, só não vai ao S. João quem estiver em má fase, morto ou doente. Mas João tinha uma explicação assaz convincente: o seu cão, pouco paciente, não lhe daria paz em noite tão exigente. Uma solução era deixar o cão na vizinha, mas esta, tripeira dos quatro costados, queria também ir à festa, e sozinha, sem atrelados. O que fazer, então? Das tripas coração? Talvez não. Afinal, o S. João não valia tanto, para o João, como aquele espanto de animal. No entanto, mais do que ninguém, estava o dono seguro de que quem troca o pão, mole ou duro, e a sardinha na brasa por passar, com o cão, em casa, um serão distinto, sem um grãozinho na asa, não sabe o que perde, pois como isso não há nada, nem o chouriço, o vinho, verde ou tinto, a martelo, nem a própria martelada. Bailarico popular é o S. João, e só ficam a ganhar os que lá vão. Foi já resignado à desdita que o João, acabrunhado, teve súbita visita de uma cantora de fado. Ainda ela lhe dizia que viera de Lisboa rever uma velha amiga mas não a tinha encontrado, logo o João, animado, deu corda à imaginação, pensando se não seria a sumida rapariga a sua vizinha do lado. Era mesmo, pois então, e foi em tom de cantiga que o bom do João propôs à querida fadista condição oportunista para lhe dar guarida até ao regresso da amiga: tomar-lhe conta do cão. Ela ficou convencida e, pronto, missão cumprida, lá foi ele, feliz da vida, cumprir também a tradição.

Mais um 2010

(adão cruz)

 Tantas vezes o silêncio tem vontade de fugir e necessidade de gritar!

ADÃO CRUZ Um gesto de silêncio

         III VOL.

Caros amigos

 Acaba de ser editado o meu sétimo livro, o quarto de pintura e o terceiro deste conjunto de três, com o mesmo formato mas com subtítulos e cores diferentes.

 O livro teve o apoio da Fundação Ilídio Pinho, da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Ordem dos Médicos.

 Gostaria muito de o oferecer a todos os amigos, mas, como devem compreender, isso não é viável, pois são edições que ficam muito caras.

 Se, eventualmente, o quiserem adquirir para vós mesmos ou para oferecer, o que muito prazer me dá, podem pedi-lo a edicoes.engenho@gmail.com

 Como o livro não tem fins lucrativos, foi estabelecido o menor preço possível, de 30 euros.

 Um grande abraço do amigo

 Adão Cruz

Duas palavras a Saramago

    

(Peço desculpa de estar a meter, tantas vezes, a família ao barulho. Se os digníssimos responsáveis pelo Aventar discordarem, agradeço que me digam e acatarei todas as indicações. Desta vez é um pequenino poema de minha irmã, a escritora e poeta Eva Cruz).   

(adao cruz)

                                   Duas palavras a Saramago   

    

Levantado do chão   

como só os Homens de sonho se erguem  

não há vida que te deite nem morte que te leve.   

A lucidez esparsa em luz nas páginas dos teus livros   

de mão dada com a terna dureza do teu carácter    

há-de curar os olhos da cegueira   

e abrir as palavras do teu Evangelho   

às correntes límpidas dos rios   

 que regam a terra de sabedoria.

Ler como ser

    (adao cruz – o eco) 

(Em tempo de livros parece-me útil este texto de Marcos Cruz)

Ler como ser

Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. [Read more…]

Amigo Saramago

Amigo Saramago

 Recebi, desde há umas horas atrás, alguns telefonemas e mensagens de amigos meus espanhóis que te adoram. Uma amiga minha dizia que a qualidade ou virtude que mais admirou em ti, e que mais a marcou, foi a lucidez. Concordo absolutamente com ela. E disse-lhe que tu morreste, segundo me informaram, em plena lucidez e consciência, sem qualquer medo ou surpresa em relação à morte. Foi assim e não podia ser de outra maneira, porque tu tinhas da vida e da morte o conceito antropológico, filosófico e de liberdade com que vivem e morrem os homens que não são homens vulgares.

E tu não foste um homem vulgar. Por isso me afligem as pessoas que te ignoram e odeiam, como ignoram tudo o que está para além da fronteira onde a sua mente não consegue chegar ou não quer chegar. Do ponto de vista literário, tu fizeste o que, até aí, ninguém fez, talvez depois do Padre António Vieira. Revolucionaste a literatura, quebraste a cristalização da literatura clássica como se tivesses feito explodir um fogo de artifício ao fim da página trinta ou quarenta do teu “Levantado do chão”. Criaste uma profunda influência na maior parte dos escritores portugueses actuais. E não só portugueses. Eu não sou nenhum especialista em literatura nem pretendo arvorar-me em tal, mas como tu pensavas, e bem, a literatura é uma espécie de “Casa de Deus” onde todos cabem e têm o seu lugar. Claro que “Casa de Deus”, aqui, a terás entendido como casa da arte. Deus nada tem a ver contigo nem comigo. [Read more…]

Homens – entulho

 

(adao cruz)

Homens – entulho

 Para além de nós há o mundo, e durante muito tempo ignorei o mundo.

 Esqueci as valas comuns que toquei ao de leve, muito ao de leve, não fosse os mortos magoar.

 Nas margens verdes do Dniepre, regadas de lágrimas, onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar.

 Umas de sal e água no mar quente de Bissau bordando a lodo o cais de Pidjiguiti, outras de sangue esguichado das cabeças à tona de água em último respiro, outras de terra ensopada em rios de morte.

 No ventre de um Wiriyamu fuzilado, na penugem de Chinteya, nas balas de Vaina, no esventrar de Zostina.

 Nos gestos de um vulcão de raiva, em cada taça de vingança que nem a morte amansa nos túmulos da Palestina.

 Sangue de Cristo – In Nomine Patris – mártires sem martirológio, corpos fecundos erguei bem alto os ossos descarnados que a morte é de acordar e semear flores na aposta de outros mundos. Erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra, dos homens-entulho da grande vala comum, cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos pelos homens sem rosto, rasgada no ventre dos Condenados da Terra pelos homens sem alma.

Alastramento oceânico

alastramento oceânico

(Tentativa de resposta a uma questão do Luís, não por um especialista, como já disse, mas por um curioso como eu)

A costa oriental do continente sul-americano e a costa ocidental do continente africano, encaixam-se perfeitamente como se de duas peças de um puzzle se tratasse. Um facto que toda a gente observa. Diz o Luís que dá que pensar, e dá. Todavia, a explicação, do ponto de vista teórico, parece óbvia e interessante, e denomina-se “alastramento oceânico”. Um ovo de Colombo, que, como todos os ovos de Colombo, só se abrem na cabeça dos génios. [Read more…]

A tectónica de placas

 

(pormenor- adao cruz)

Tenho novamente entre mãos o magnífico livro “O Espectáculo da Vida”, de Richard Dawkins. Diz-me a minha filha, da área das bioquímicas e das físicas, que este livro é dos mais fascinantes que já leu, e aconselha-o vivamente a todos os amigos. Concordo plenamente com ela, e, por isso, voltei a lê-lo. Mesmo relido, cada página é uma surpresa e um hino à sabedoria.

Claro que as pessoas especialistas nestes assuntos da evolução, poderão rir-se da minha ignorância e da minha surpresa perante factos e fenómenos que eles conhecem bem. Não são coisas da minha esfera científica. Mas eu não me importo. [Read more…]

Freios, porcos e maus

( Pormenor - adao cruz)

(Estive fora e depois de regressar adoeci. Por isso, esta ausência do Aventar. Peço desculpa de preencher o vazio ( ou talvez não), com um texto que não é meu. Nestes tempos um tanto conturbados, dentro e fora do Aventar, em que vêm à tona, com muita facilidade, valores e desvalores, eu penso que este texto do Marcos Cruz pode ser interessante).

Freios, Porcos e Maus

Devia haver um Dia Mundial do Desenfreado (pela piada fonética, até merecia ser feriado), em que todos despejássemos indiscriminadamente o que trazemos dentro, o lixo orgânico e anímico no mesmo saco, no saco do Dia. Eu, cá por mim, vou fazer de conta que é hoje e, daqui para a frente, o que este texto contiver já terá de ser lido à luz dessa ausência de critério. Normalmente, o que me acontece é pegar numa ideia mínima e desenrolá-la, como se faz à massa de rissóis. Só que depois não vou lá com os copos, aliás, se lá fosse com os copos não escreveria nada de jeito, ou às tantas até era assim que arranjava maneira de o fazer, pois quem sabe se as minhas coisas são ou não de jeito é quem as lê, incluindo eu quando assumo esse papel. Nesta última frase, confesso já, quebrei as regras, porque onde escrevi “assumo esse papel” pensei antes escrever “o faço”, mas como tinha escrito, um pouco acima, “arranjava maneira de o fazer”, achei melhor não repetir o verbo. Mas continuemos: não vou lá com os copos, em vez disso junto a massa toda e chapo-a no blogue, menos bruta, concerteza, mais espalmada, mas para vocês fazerem dela o que quiserem. Porque é que me sai das mãos, ou do rolo, menos bruta do que a ele chegou, eis a questão. Em todo o caso, é uma questão que hoje, por ser, para mim, Dia Mundial do Desenfreado, não poderei explorar, ou melhor, poder explorar até posso, mas não poderei esclarecer, porque não garanto coerência ou consistência na abordagem, ou então não seria Dia Mundial do Desenfreado e sim Dia do Freio, a que levanto desde já o dedo do meio, porque esse é todos os dias. [Read more…]

Desilusão

(adao cruz)

 (Dedicado ao Joaquim Quicola, amigo que eu sei que me entende) 

Desilusão

Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso. Minha voz de gravador que outros ouvem, só eu não, tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor, invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino, destino essencial, quem subia ou descia, afinal…era eu.

Nos gestos por dentro, nos jardins de contraste da natureza fecunda, no penoso brio de um curriculum lavrado na areia, meti as mãos na areia e palpei o futuro.

Palpei a filosofia dos cadáveres, e em febril pulsação, espremi a vida dentro de uma mão cheia.

Enchi de virilidade a cidade, a cidade e o lixo, o lixo e o luxo, a luz e eu.

No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo, feito de tempo gasto e de nojo.

Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso, que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.

A verdade era uma mesa, a vida os dados, e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.

Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe, não há sim nem não entre passado e presente, e o futuro é o deserto que temos à frente.

Neste chão de lama, na ejaculação abortada, nos restos de orgia da orgia de restos, em ritmo de coração moribundo, sobra o tremor da carne adormecida.

A arte, o sonho, a verdade, o viço e a cor perderam o brilho, e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.

Texto para um amigo

(jaime casais)

(Este meu amigo, arquitecto e pintor galego que vive na Corunha, pediu-me para escrever um pequeno prefácio ou texto de apresentação para um livro seu a sair em breve. Transcrevo-o aqui para aqueles que, eventualmente, se interessem por estas coisas da pintura).

JAIME CASAIS

 Este livro, há muito tempo esperado, sobretudo a partir do dia em que tivemos o privilégio de ver o volte-face da pintura deste grande artista e amigo, Jaime Casais, está para breve. O amigo Jaime quis dar-me a honra de o prefaciar. No entanto, como na altura em que escrevi este texto ainda o livro estava em projecto, eu preferi dar-lhe não o título de prefácio, propriamente dito, o que implicaria uma abordagem da obra nas suas diversas vertentes, mas o nome do autor. Até porque, para mim, é mais grato falar do autor e da sua obra, mesmo sem livro, do que propriamente fazer a clássica análise de um livro. E quer o autor quer a obra são do meu profundo conhecimento. Para felicidade minha. [Read more…]

Disfunção eréctil

Para aliviar um pouco a tensão (não quero tirar o “n”) dos últimos dias, queria dizer algumas coisas sobre a disfunção eréctil.

Não é assunto da minha especialidade, mas como ultimamente há estudos sobre a etiopatogenia da disfunção eréctil que sugerem que esta alteração representa uma manifestação precoce de aterosclerose, pensa-se que a disfunção eréctil poderá ser um marcador precoce de doença cardiovascular, nomeadamente coronária. Por isso gostaria  de deixar aqui umas breves notas.

Nos países industrializados a prevalência de disfunção eréctil tem vindo a aumentar, em paralelo com todas as doenças cardiovasculares. O facto destas doenças se associarem a uma grande morbilidade e mortalidade cria um enorme peso na sociedade. Daí a necessidade de se obterem métodos de prevenção e detecção precoce. O estudo da disfunção eréctil, dado que esta pode corresponder a uma aterosclerose ou arteriosclerose, como queiram, das artérias penianas, tem levado urologistas e cardiologistas (duas especialidades aparentemente tão distantes), a convergirem esforços no sentido do diagnóstico, identificação e prevenção precoce da doença cardiovascular.

Neste sentido, tem vindo a ser proposto aos doentes com idade superior a 45 anos, que referem disfunção eréctil, sem outra sintomatologia cardiovascular, a avaliação para os factores de risco cardiovascular, na tentativa de detectar a presença de doença coronária assintomática ou numa fase sub-clínica.

Aqui fica a informação, que pretende ser um pequeno alerta, e nunca um factor de preocupação e pânico, que desses já estamos fartos e cheios através da espectacularidade que os meios de comunicação social  fazem quando se põem a falar destas matérias.

Uma pergunta sem maldade

 Uma pergunta sem maldade

Se algum dos amigos que tão acerrimamente defende a conduta de Israel, fosse israelita ou a sua família vivesse em Israel, teria a mesma posição que tem? Acredito que sim. Se esse mesmo amigo fosse palestiniano ou a sua família vivesse na Palestina, teria a mesma posição que tem? Acredito que não.

No entanto, eu, se fosse palestiniano ou a minha família vivesse na Palestina, não tenho dúvidas de que teria a mesma posição que tenho. Se fosse israelita ou a minha família vivesse em Israel, tanto quanto me conheço, tanto quanto respeito a forma idónea como tentei personalizar a minha vida, estruturar o meu pensamento e desenvolver a minha razão, sem certezas absolutas, como é óbvio, acredito que a minha posição seria a mesma. Há aqui alguma diferença significativa, não entre bons e maus, não entre sérios e não sérios, mas entre razões.

PS: Agradecia que fizessem um esforço para não escreverem comentários insultuosos.

Terroristas assassinos

(adao cruz)

“WASHINGTON, EUA — O ataque de comandos israelenses contra a frota internacional que levava ajuda humanitária ao território de Gaza – no qual morreram 19 pessoas – foi alvo de críticas de toda a comunidade internacional.”

“O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou estar chocado com o sangrento ataque israelense e pediu ao Estado hebreu que realize uma investigação a fundo sobre o fato.”

“Os Estados Unidos lamentam profundamente a perda de vidas humanas e o saldo de feridos, e atualmente tentam entender as circunstâncias nas quais aconteceu a tragédia”.

Paleio, paleio e mais paleio! Ninguém de bom-senso acredita em tais lamentações. A vergonha já não cobre a cara de ninguém. Lamentações, inquéritos, punições são fórmulas mais do que gastas na voz dos falsos moralistas e dos hipócritas que protegem e dão apoio aos assassinos de Israel.

Morte aos assassinos terroristas nazis de Israel.