Contos Proibidos: Angola, Manuel Alegre e a visão pró-americana de Soares

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Reunimos durante quatro dias no Palácio Presidencial com Agostinho Neto, o então  primeiro-ministro, Lopo do Nascimento e o então ministro dos Negócios Estrangeiros, José Eduardo dos Santos. A reunião, que tinha uma enorme cobertura mediática internacional, começou com o pé esquerdo.
António Macedo que antes de partir para Angola se encontrara como o presidente Ramalho Eanes, transmitira a Agostinho Neto um convite do presidente português para visitar Portugal.
Tal convite não era oficial, não existiam relações diplomáticas entre os dois países e não fazia parte da agenda socialista. Nem o Tito de Morais nem eu tínhamos sido avisados, nem sabíamos que antes de partir para Angola, António Macedo se tinha encontrado com o presidente português. Naquela altura, dada a grande hostilidade que certos sectores, sobretudo entre os retornados, sentiam pelo MPLA um tal convite era altamente inconveniente para o PS. [Read more…]

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. A independência de Angola


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Em meados do mês de Agosto de 1976, estava eu na Suécia a acompanhar Olof Palme e em colaboração com a campanha eleitoral do Partido Social-Democrata daquele país, quando recebi uma chamada urgente de Mário Soares com instruções para ir imediatamente para Luanda, onde me deveria juntar ao presidente do Partido António Macedo e a Manuel Tito de Morais, ainda formalmente responsável pelas relações internacionais do PS. Portugal reconhecera a República Popular de Angola a 22 de Fevereiro de 1976, mas as relações diplomáticas entre os governos dos dois países seriam suspensas dois meses depois, em Maio, pelo Governo Angolano. Este, depois de não respeitar os acordos que tinha assinado em Alvor, consideraria serem as atitudes do VI Governo Provisório inamistosas. Esta atitude derivava essencialmente da enorme e compreensível campanha na comunicação social contra Angola, naquele difícil momento das relações entre os dois países, quando centenas de milhares de portugueses regressados de Angola acusavam o MPLA de responsabilidades pelo seu dramático êxodo.
Entretanto, apenas dois meses após o corte de relações com Portugal, Agostinho Neto compreenderia que tal acto acabaria por atirar ainda mais o seu país para uma quase total dependência da União Soviética. [Read more…]

Contos Proibidos: O I Governo de Mário Soares. Dividir para reinar numa corte de intrigas. O Secretário de Estado Manuel Alegre.

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«Conforme prometera antes de ser eleito, o general Ramalho Eanes convidaria o secretário-geral do Partido Socialista para formar o I Governo Constitucional após o 25 de Abril. Tomaria posse no dia 23 de Julho de 1976 e duraria pouco mais de um ano, caindo precisamente no dia em que Mário Soares celebrava os seus 53 anos de idade. No dia em que chegara ao governo, Soares «não percebia nada de economia, podia ser um ás na política mas na economia era um zero» e dada «a forma displicente com que [tratava] dos números que traduzem a realidade económica, trocando os milhões e os milhares», muitos se perguntavam se «deveria ter sido [ele] o primeiro-ministro do I Governo Constitucional, apesar de o Partido Socialista ter ganho as eleições?»
Muito provavelmente, se Portugal vivesse num regime democrático normal, a resposta seria não mas, em 1976, considerando que o secretário-geral do PS rejeitara a proposta de Sá Carneiro, só existiam dois homens com autoridade política para chefiar o governo de Portugal. Mário Soares e Salgado Zenha. [Read more…]

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Da reunião de Caracas da Internacional Socialista à fusão do PSP com o PSOE


Carlos Andrés Perez, Presidente da Internacional Socialista em 1976

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«Atento à evolução política na Península Ibérica, o Presidente da República da Venezuela, Carlos Andrés Perez, cujo partido, Accion Democrática, era observador da Internacional Socialista, percebeu que a «Revolução Portuguesa» e a evolução democrática em Espanha iriam ter enorme impacto na América Latina, onde ele, chefe de Estado de um país produtor de petróleo, pretendia ter um papel de relevo. O presidente venezuelano, que tinha sido eleito em 1974, acompanhava de perto a crescente importância da Internacional Socialista e, como tal, desenvolveu todos os esforços para reunir em Caracas uma cimeira semelhante à que acabara de ocorrer em Portugal. Mas, enquanto em Portugal a iniciativa partira de Olof Palme, a ideia da reunião de Caracas partira de Klaus Lindenberg, representante da Fundação Friedrich Ebert naquele país. Esta fundação já na altura investia consideráveis meios naquele subcontinente e tinha escritórios e representantes alemães em quase todas as capitais latino-americanas. [Read more…]

Contos proibidos – O ficheiro completo

O Aventar começou a publicar em Setembro de 2009 os «Contos Proibidos» de Rui Mateus, o livro proibido que revela as «façanhas» de Mário Soares e seus acólitos entre as décadas de 70 e 90 do século passado.

No entanto, deparámo-nos desde o início com um problema: a forma como o grande Ferrão digitalizara a obra, página a página em formato PDF, não permitia o copy + paste habitual nestas circunstâncias. A única solução era transcrever manualmente o conteúdo do livro, tarefa morosa para quem não tem os blogues como fonte de rendimento.

Mão amiga, mas anónima, fez-nos chegar uma versão leve do livro, que permite copiar e colar do princípio até ao fim. Fica mais fácil o nosso trabalho. Passaremos a publicar diariamente um excerto do livro, mas não queremos deixar de disponibilizar desde já a totalidade da obra neste formato, bem como os anexos e as fotografias. [Read more…]

Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido. Sá Carneiro e as «grosserias» de Mário Soares

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Sá Carneiro ficaria extremamente desiludido com a atitude de Mário Soares, que considerara irresponsável. Para ele a consolidação do regime democrático, então ainda tutelado pelos militares e sob enorme influência político-cultural do PCP, passava pela cooperação entre os dois partidos do centro, que se reclamavam da família social-democrata. Uma cooperação que poderia mesmo conduzir à fusão do PPD no PS. As bases de ambos, afinal, eram idênticas e os princípios semelhantes. Para Sá Carneiro seria difícil compreender a arrogância dos socialistas, convencidos que estavam de que Eanes era parte do seu património político. Acusaria então o PS de «tentação mexicana», o que não foi completamente destituído de razão, dada a sobranceria com que pretendia aliar-se a Ramalho Eanes para governar o País em minoria. Por outro lado, Soares considerava que «objectivamente, o regime do México não é de partido único».
Da parte do PS não seriam invulgares as manifestações de grosseria para com Sá Carneiro. Desde referências à sua estatura física, à sua situação familiar e até à colaboração em campanhas pouco dignificantes que visavam atingir a sua honorabilidade. [Read more…]

Linguinha "Uiquiliques"


Há coisas do diabo. Até há uns dias, andava o mundo inteiro num fri-ó-fró de gozo, lendo as piadosas novidades proporcionadas pelas indiscrições da “uiquiliques”. Os americanos eram uns perversos da pior espécie, maltratavam gente de tão fino recorte social como Sarkozy, Putin ou Berlusconi. Radiantes, aí estava mais um motivo de gáudio para os teóricos da “conspiração mundial yankee-sionista”, sempre pronta a devorar povos, ouro e terra alheia.

Entretanto, algo parece estar a mudar, pois inopinadamente, começaram a surgir assuntos pouco tranquilizadores para um determinado tipo de agentes do politiquês de Expresso de fim de semana. “Más” novas em Cabora-Bassa – insisto em escrever o nome tal como me ensinaram em 1972 -, entregas de dinheiros em termos de “compensação por serviços (?) prestados”, depósito de 9.000 milhões na conta do risonho Al-Bashir do Sudão e com alguma sorte, talvez conseguiremos saber algo mais. Num ápice, a perfída dos embaixadores estadunidenses, transforma-se noutra coisa mais refinada, porque afinal, é “muito estranha” e …“o que é curioso é que tudo aquilo que se passa e tudo aquilo que se diz nada é contra a América, é tudo contra os outros”. Não nos admiremos se dentro de dias o Dr. Almeida Santos disser uma ou outra chalaça acerca do assunto.

É esta a posição que agora, o sempre atento Dr. Mário Soares vem defender no Público. A isto chama-se ataque preventivo, ou gestão de possíveis danos colaterais que estarão para vir.

Não sei porquê, de repente comecei a prestar mais atenção à tal paródia “uiquiliques” que afinal, não passa de “mais uma manigância da CIA”…

É raro mas desta vez concordo, no essencial, com Mário Soares

"A UE corre o risco de afundar-se por os dirigentes e as instituições não demonstrarem capacidade nem estarem à altura para gerir a actual crise (…) Os dirigentes da UE já não falam de projetos globais, não têm visivelmente nenhum, apenas falam entre eles de dinheiro".

Mário Soares ao Expresso

Eu sei que não sou ninguém mas há muito ando a dizer isto mesmo. A quem me quer ouvir, para ai uns dois ou três que não têm alternativa quando os apanho a jeito.

Certo é a maior parte dos países da União Europeia não têm políticos a sério há uns anos, têm apenas uma comissão de administração.

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. As más relações de Mário Soares com Felipe González


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O secretário-geral do PS estava eufórico com a ocasião [Conferência «Europa Connosco» no Porto], ao lado dos grandes da social-democracia mundial. Estatuto que considerava não poder ser atribuido a Felipe Gonzalez que, além de usar blusão de cabedal na cerimónia, não era reconhecido na Espanha pelo Partido Socialista Popular, chefiado por Tierno Galvan. E no que respeita a Espanha, em 1976, as preferências de Soares eram claramente a favor do partido dos seus amigos Raul Morodo e Fernando Moran, estando mesmo convencido que, eleitoralmente, até o PCE de Santiago Carrilho teria mais votos do que o «grupo» de Gonzalez.
Assim, numa das crises de «enfant gatê» que ocasionalmente o assaltavam, não queria que Gonzalez discursasse no grande comício que teve lugar no Palácio de Cristal, no dia 13, encarregando-me a mim da desagradável tarefa de explicar a Gonzalez que só um número restrito de oradores estava previsto. Um pequeno número que incluía só os «grandes» líderes. Tanto quanto me pude aperceber então, a ideia era excluir Zenha, cuja reputação nacional, popularidade e estatura moral lhe começavam a fazer sombra. E depois, quando já fosse tarde demais, seria eu responsabilizado, por ter sido eu a organizar a conferência. (…) Mas, como já tinha explicado inicialmente, as relações do PS com o PSOE não eram exactamente as melhores, se bem que, da parte de Felipe Gonzalez, todos os esforços fossem feitos para um bom relacionamento connosco. (…)
Começa aqui a explicação da deselegância da cimeira do Porto. Soares não queria Gonzalez nessa cimeira e seria o chanceler Bruno Kreisky quem insistiria para que o jovem líder espanhol estivesse presente. (…) Mário Soares cumprimentaria sem grandes cerimónias os «convidados» espanhóis, que nunca lhe perdoariam a altivez e a frieza da recepção. E apesar de todos os esforços que eu desenvolveria nos anos seguintes, as relações de Mário Soares com Felipe Gonzalez seriam sempre pouco calorosas.

Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido. A CIA financia o PS em 1976

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Grande parte do apoio [ao PS] vinha em notas e cheques em moedas estrangeiras e, apesar dos contactos que o PS detinha na Banca, sempre que o tesoureiro, Fernando Baroso, procedia a operações cambiais, saíam notícias e circulavam rumores. (…) As notícias inicialmente difundidas pelo «New York Times» de que o PS estaria a receber avultadas quantias da CIA e do estrangeiro «obrigariam» Mário Soares a veementes desmentidos e a uma conferência de imprensa, a 8 de Fevereiro, não só para desmentir o que era verdade mas, sobretudo, para camuflar esses apoios, anunciando o lançamento pelo PS de uma campanha de angariação de fundos. Diria então que «o nosso Partido é um Partido de trabalhadores, é um Partido de Esquerda e, como tal, um Partido pobre. Têm-nos sido dirigidas muitas calúnias por parte dos que nos acusam de recebermos fundos estrangeiros. Essas calúnias nunca foram provadas, nem o poderiam ser, porque são efectivamente calúnias. Estamos no início desta campanha, que vai ser extremamente dinâmica e esclarecedora para o país, com grandes dificuldades financeiras, porque a campanha eleitoral é efectivamente dispendiosa. Por isso rewsolvemos iniciar a nossa actuação, neste período pré-eleitoral em que nos encontramos, por uma campanha de recolha de fundos. (…)
Nesse ano eleitoral de 1976, vários Partidos e entidades estrangeiras entregariam avultadíssimas somas em dinheiro, por todos os meios, as quais a Administração Financeira ia classificando como campanha de «angariação de fundos». Só os recibos que me foram entregues ultrapassariam, então, os 40 mil contos, embora à medida que iam sendo entregues na rua da Emenda a Fernando Barroso fossem, inadvertidamente, sendo classificados em moeda estrangeira e, às vezes, referindo mesmo a entidade doadora. O Partido Trabalhista, segundo me foi comunicado, tinha unicamente enviado, em 1975, para a conta da Holanda, a quantia de 4108 libras, o que equivalia a 240 contos na altura. Os «pacotes de biscoitos» do M 16, «CH», o último dos quais seria entregue em 7 de Abril de 1976, representavam a extensão do conceito político da «Europa Connosco» ao outro lado do Atlântico! (…)

Mário Soares: «Cavaco não é de Direita e pode causar surpresas»

UMA ENTREVISTA HISTÓRICA AO «LA REPUBBLICA»*

«Como homem e como político, Cavaco Silva não é de direita e poderá reservar algumas surpresas», afirma Mário Soares, em entrevista publicada no jornal «La Repubblica», de Roma. A entrevista foi feita pelo enviado do jornal a Lisboa, Sandro Viola. (…)
Viola afirma ter achado Mário Soares «sereno e bastante optimista» e cita o presidente português como tendo negado que «a espectacular vitória do PSD e de Cavaco Silva constitua um perigo para a democracia, como vêm repetindo os comunistas e alguns expoentes do Partido Socialista.
«Trata-se de uma derrota das esquerdas, mas não me parece que tenha sido uma derrota da democracia», argumenta o presidente.
Na opinião de Viola, a atitude de Mário Soares em relação a Cavaco Silva «é de estima». [Read more…]

A sensualidade plena de Mário Soares em pijama sedutor (exclusivo Aventar)


No novo programa da TSF, «Gente que Conta», o entrevistado de hoje foi Mário Soares. Entre outras coisas interessantes, o antigo Presidente da República disse que anda de pijama pela casa fora até à uma da tarde. Não vai comprar o pão de pijama, como o João Manzarra dos Idolos, mas trabalha de pijama. Não esclareceu se também almoça assim.
Pois bem. O Aventar porfiou e conseguiu em exclusivo fotos de dois dos pijamas preferidos de Mário Soares. Ao que parece, foi com estes dois modelos que o antigo Presidente promulgou muitos decretos e que recebeu Carlos Melancia aquando do regresso de Macau e o procurador Cunha Rodrigues quando este fazia de Pinto Monteiro.
Como nota final, se o programa da TSF se chama «Gente que Conta», teria sido bom que ele tivesse contado melhor os célebres negócios da Emaudio, a forma como despachou Rui Mateus para a Suécia e como conseguiu que os «Contos Proibidos» nunca mais fossem publicados. Ou ninguém lhe perguntou?
Já em relação aos elogios a Cavaco se percebe bem por que não perguntaram. Soares faz de tudo para ajudar à derrota de Alegre. Até elogios a Cavaco.

De um ersatz para outro ersatz


Admirável, a forma como se analisam as situações, dependendo de quem exerce o poder. Mário Soares que é, de longe, do melhor que o regime ainda pode apresentar, discursou uma vez mais. Numa conferência inserida na comemoração do glorioso golpe de Estado que deu a Portugal o progresso, democracia e paz, o ex-presidente abordou as questões mais prementes da actualidade. O emprego, ou melhor, a falta dele, mereceu umas tantas palavras que serviram como aviso. Assim, foi dizendo que a propósito dos “gritos” por mais salários, ……”é preciso também saber de onde é que ele (o dinheiro) vem. Não basta pedir e descer uma avenida a gritar para julgar que o dinheiro vai cair, pois não vai”. O conforto auto-confiante dos aposentados de cinco estrelas, dá-lhes uma certa autoridade para increpações a quem se atreve a “não compreender” uma “conjuntura grave e que veio de fora”.

Não deve ser o mesmo Mário Soares do “direito à indignação” dos tempos de Cavaco Silva, hoje seu sofrível ersatz belenense. Este círculo vicioso do “Chefe de Estado supra-partidário” que faz os favores ao seu Partido, conduz ao completo descrédito dessa raridade que se limita a uns tantos países do planeta. De facto, a democracia não se extingue na formalidade dos grandiloquentes enunciados e das formalidades eleitorais que a legitimam. Significa antes do mais, o sacrifício pessoal daqueles que a defendem, ordenam e conduzem. Isto é precisamente, aquilo que tem faltado. Uma política de Estado que se sobreponha à de grupo e que noutros países, é nitidamente extensível à educação, relações externas, defesa e economia.

Quando o optimista Mário Soares afirma que …”a situação é grave, mas é uma situação que tem saída. Nós temos de lutar e não estarmos sempre a dizer que queremos isto e que queremos aquilo”, bem podia iniciar um aturado período de circunspecta autocrítica.

Qual é a saída?

Mário Soares, um vómito

Mário Soares não gostou do «reaparecimento público» de Fidel.
Porquê?: porque Soares não gosta de Fidel – e muito menos de o ver vivo…
Soares não gostou do discurso de Fidel.
Porquê?: porque Fidel «não disse nada de importante» – e Soares só gosta dos discursos que digam coisas importantes, como os do Obama e os dele próprio…

Para além disso, pergunta Soares, do alto das suas bochechas flácidas, «Em que qualidade falou? Como velho líder, há meio século, ou como proprietário de Cuba?» – e responde: «Não o disse. Porque realmente não disse nada».

Posto isto, Soares embala na espiral de provocações em que é exímio praticante, ao mesmo tempo que recorda «Fidel há cinquenta anos»; recorda a viagem que fez a Cuba, em 1964 e que o deixou «pessimamente impressionado» com aquele «comunismo à soviética, puro e duro».
E recorda que «muito mais tarde, bastante depois da normalização democrática portuguesa, que se seguiu ao delírio do PREC» – ou seja, depois de ele, Soares, ao serviço da CIA, ter encabeçado a contra-revolução que liquidou Abril e recolocou Portugal nas garras do imperialismo norte-americano – encontrou-se com Fidel «numa reunião da Comunidade Ibero-Americana», na qual também participou Cavaco Silva, então primeiro-ministro.
Diz Soares que, no decorrer da reunião, «Fidel queixou-se da falta de solidariedade para com Cuba, dos países presentes. E citou Portugal, cuja Revolução ele disse ter ajudado».
Ora, perante isto, a «coragem» do Soares não se fez esperar – como é sabido, Soares sempre foi muito «corajoso» no combate aos comunistas e não tão corajoso no combate aos fascistas (talvez por saber que os comunistas não lhe faziam mal e que os fascistas eram capazes de lhe mandar umas taponas ou até mais…).
«Coube-me responder-lhe», declama Soares.
E respondeu assim a Fidel: «O Senhor não ajudou a Revolução, ajudou o PCP, o que é diferente, porque quis fazer de Portugal uma Cuba europeia» – e acrescentou mais umas quantas provocações típicas de um agente da CIA em exercício.
Ora, perante tanta «coragem», Fidel ficou sem palavras… ainda tentou responder-lhe, «mas o Rei de Espanha resolveu interromper a sessão e convenceu Fidel a não responder…»
E pronto, a «coragem» de Soares venceu a «cobardia» de Fidel…

Criado para todo o serviço do capitalismo explorador e opressor, Soares é assim: uma criatura repelente, nojenta, execrável, abjecta – um vómito.

Fernando Samuel, publicado no blogue Cravo de Abril

Mário Soares entre o PS e Fernando Nobre

Mário Soares não é de perdoar, longe disso, há muito que se sabe, um a um foi afastando quem se intrometia no seu caminho, incluindo “compagnons de route” de há muito tempo.

Agora a questão já não é entre Alegre e Nobre, é entre o PS e Nobre, Alegre já não conta para Soares o que não quer dizer que não dê a volta, mas vai manter-se nesta posição ambigua desgastando Alegre. Hoje apareceu com Nobre elogiando o discurso e o homem mas não dando apoio explícito, fica há espera do PS, sabe que há gente no PS que não está com Alegre, por isso só joga as cartas quando perceber o que vai acontecer no PS!

A sua candidatura de há quatro anos contra Alegre e com o apoio do PS redundou num fiasco e numa humilhação que Soares não esquece, vai contar os apoios e depois vai jogá-los quando se colocar a questão da substituição de Sócrates.

O socialismo morreu? (Memória descritiva)

No pórtico do seu livro “O Pós Socialismo” (“L’Après socialisme”) que recentemente reli, quase trinta anos depois de ter sido editado em Portugal), dizia Alain Touraine: «O Socialismo está morto. A palavra figura por todo o lado, nos programas eleitorais, no nome dos partidos e mesmo dos Estados, mas está vazia de sentido». Este reputado sociólogo francês, criador do conceito de sociedade pós-industrial, propõe uma acção apoiada, não em partidos ou em sindicatos, mas sim em movimentos sociais.

Note-se que Touraine fazia esta afirmação antes de, na Europa, a grande ofensiva dos partidos socialistas ter tido lugar – em 1981, François Miterrand vencia as eleições presidenciais francesas e Andreas Papandreu as legislativas da Grécia; em 1982, Felipe González ganhava as eleições legislativas em Espanha e em 1983, Mário Soares, as de Portugal. Embora em Itália, o Partido Socialista de Bettino Craxi não conquistasse votações significativas e o seu nicho no ecossistema político italiano fosse, desde 1976, preenchido pelo euro comunismo do Partido Comunista de Enrico Berlinguer, o socialismo parecia estar vivo. A realidade contrariava a tese de Touraine? Foi precipitada a sua afirmação?

Ele falava de uma coisa diferente – do ideal que com Saint Simon e Owen deu os primeiros passos, acertando depois a respiração pelo resfolegar das máquinas com que o capitalismo inaugurava a era industrial e, com Marx e Engels, passou da fase utópica à fase cientifica. Filtrado pela revisão leninista, definido como ponte entre o capitalismo e o comunismo, após o pesadelo estalinista, entrou na senda do «socialismo real».

Num livro mais recente, “Un nouveau paradigme” (2005), Touraine analisou o percurso histórico das difíceis relações entre política, economia e sociedade, assinalando três etapas na laicização e privatização da economia europeia. Na Idade Média, séculos XI e XII o poder político fugia à tutela da Igreja. Os senhores feudais e as casas reinantes começavam também a sacudir o jugo religioso e a consolidar as fronteiras e soberanias. Deu-se depois uma aliança entre o poder político e económico. Nobres e mercadores conciliaram interesses Os príncipes patrocinaram grandes empreendimentos mercantis (nomeadamente os descobrimentos). Só, séculos mais tarde, com o advento da era industrial e do liberalismo, o poder económico ganhou vida própria, fora da esfera do poder político. A economia de mercado faz a sua aparição e estabeleceu o seu império. [Read more…]

Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares nos Estados Unidos

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«Mas se a 17 e 18 de Janeiro Mário Soares tivera ensejo de agradecer na Dinamarca o apoio recebido da famíia socialista, logo a seguir, a 19 de Janeiro, seguiria comigo para os Estados Unidos, para uma visita de duas semanas. Apesar de a visita ter um carácter privado, uma vez que, em Janeiro de 1976, Mário Soares não era membro do Governo, viagens e estadias seriam pagas pelos Estados Unidos. O convite partira de Frank Carlucci e o programa da visita seria preparado em pormenor pelo conselheiro da Embaixada, Richard Meton. Incluía o primeiro de uma série de «doutoramentos» políticos na Universidade de Yale, sob os auspícios do prgrama Chub Fellow, visitas às comunidades portuguesas de Massachussets, um encontro com o senador Ted Kennedy, encontros com o New York Times e o Washington Post para conversas «off the record», uma (então) inédita entrevista numa cadeia de televisão traduzida em simultâneo e um encontro no Departamento de Estado com Henry Kissinger, a 26 de Janeiro. [Read more…]

As nobres vinganças do Dr. Mário Soares

Antes do mais, é imperioso tornar claro que este texto não visa beliscar, e ainda menos criticar, o Dr. Fernando Nobre, homem que eu e muitos portugueses se habituaram a admirar pelo humanismo e altruísmo ao serviço da AMI, nos sete cantos do Mundo. O nome do médico – cirurgião, agora candidato à Presidência da República, teve necessariamente de ser requerido à minha memória, para ser usado na qualidade de peça colateral – perdoe-se-me o termo. O centro da história é ocupado por outra personagem a que associo o frequente e torpe gosto da vingança.

O País e a Democracia Portuguesa beneficiaram de acções políticas do Dr. Mário Soares, mas é exagerado considerar-se que se contraiu com ele uma dívida de valor incalculável, ao ponto de nos obrigar a aceitar tudo quanto o citado decida, declare ou ‘decrete’ de modos e em formatos diversos; em particular, os artigos do DN de divina presciência dedicados ao Zé-povinho, gente acéfala ou de pensamento indigente.

O género de comportamento actual do Dr. Mário Soares é, de resto, recorrente em líderes políticos auto-classificados de retirados. Trata-se de um afastamento fictício, não eliminando, portanto, tentativas de influenciar as escolhas políticas dos concidadãos.

Consideremos, pois, toda a prática enunciada como coisa normal; e não é por aí que caminhamos para qualquer recriminação a Mário Soares. O que é verdadeiramente peculiar, nele, é a aberrante reacção de vingança sobre os camaradas que ousem contrariá-lo. Aí sim, o patriarca socialista desfere a desforra. A arma de arremesso, agora, foi Fernando Nobre e o alvo Manuel Alegre, ex-amigo e velho camarada de duras caminhadas.

Todavia, este é o capítulo mais recente de uma história antiga. Primeiro exemplo: Dr. Vasco da Gama Fernandes (1908-1991), 1º. Presidente da Assembleia da República (1976-1978), personalidade afastada da renovação para um 2.º mandato, por Mário Soares ter imposto a atribuição do lugar ao Dr. Teófilo Carvalho dos Santos. A humilhação pública do Dr. Vasco da Gama Fernandes, distinta figura humanista e tolerante, foi um acto persecutório grave, estando na origem da demissão do visado, em 1979, do PS, partido de que era fundador. Segundo exemplo: Dr. Francisco Salgado Zenha (1923-1993), natural de Braga, católico, lutou ao lado de Mário Soares desde a segunda metade dos anos quarenta (1947); foi fundador da Associação Socialista Portuguesa (1965) e também do PS; era-lhe reconhecida uma inteligência invulgar, e um espírito de combate contra a ditadura que implicou várias prisões pela PIDE. A ruptura com Mário Soares teve como causa o apoio de Salgado Zenha a Ramalho Eanes nas presidenciais de 1980. No inicio da década de 1980, Soares não está com meias-medidas: manda instaurar um processo disciplinar e expulsa Zenha do PS. Mais tarde, António Guterres, cujo ingresso no PS foi promovido por Salgado Zenha, ainda tentou convence-lo a voltar; mas em vão. Salgado Zenha recusou e viria a falecer em 1993.

Em jeito de resumo, concluo que parece haver demasiadas coincidências e reincidências de vinganças e prepotências no percurso político do Dr. Mário Soares, em momentos de eleição para altos cargos do Estado (Presidência da República, da Assembleia da República e eventualmente outros órgãos). E certamente vários episódios abundam por aí. A História, um dia, recontará tudo com pormenor e precisão – espero.

Fernando Nobre, o independente

Nutro por Fernando Nobre um respeito que apenas concedo a homens-livres, a livre-pensadores, a criadores e artistas, a pessoas não enfeudadas a interesses partidários e corporativos, a quem não dá tréguas às iniquidades e injustiças do mundo, a humanistas e independentes.

Tenho seguido com atenção e admiração – e confesso que não sou dado a grandes admirações – o percurso da AMI, o seu foco e prontidão para responder a catástrofes em qualquer parte do mundo, independentemente de crenças e alinhamentos políticos, religiosos ou outros. E admiro, entre outras qualidades, a sua capacidade de mobilização e de implementação de medidas em terrenos adversos, às vezes inóspitos e hostis, sempre precários. Não há organização portuguesa que se assemelhe a esta, nascida de quase nada, pioneira entre nós na ajuda humanitária internacional, respeitada mundialmente, sem a mácula de negocismo, mercantilismo, oportunismo e o despesismo sumptuário que hoje minam a credibilidade de grande parte das ONGs que por aí pululam.

Já aqui disse que Fernando Nobre abrange transversalmente parte da sociedade portuguesa. Divide a esquerda? Não mais do que a esquerda política sempre dividiu a esquerda. Peão de Mário Soares? Eu acredito no que escrevi no primeiro parágrafo e não respeito paus mandados. Agradará a Soares, mas Soares é um político de carreira, esculpiu o PS à sua imagem, joga num tabuleiro que evita o surgimento de independentes e que os cidadãos livres sucedam na política. Ajuda Cavaco? Não acredito, contra o que tenho lido, que esta candidatura agrade a Cavaco. Primeiro porque lhe retira também votos, segundo, porque estou convencido – e o actual PR também estará –  de que Alegre, sozinho, não terá condições para evitar a reeleição de Cavaco, terceiro, porque é precisamente de uma reeleição que se trata e a tradição diz que presidente em exercício é presidente reeleito, excepto, talvez, se um dado novo vier baralhar os cenários. [Read more…]

Manuel Alegre e Fernando Nobre: Um choque inevitável

Manuel Alegre entende que a apresentação da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República é uma manobra de Mário Soares para lhe roubar espaço à esquerda do eleitorado. Provavelmente terá razão.

Desde as últimas eleições para a presidência que os dois velhos amigos e rivais socialistas deixaram de se entender. Aliás, o conflito estava mais ou menos latente há uns bons anos. Como desta vez Soares não pode avançar, o presidente da AMI acabou por ser motivado a dar o passo em frente, com a tarefa de disputar o mesmo espaço político e acabar por facilitar a reeleição de Cavaco Silva.

Hoje, quando Nobre apresentar a sua candidatura, Alegre vai reagir. Uma coincidência. Resta saber onde andou o político – poeta nas últimas semanas e porque não lhe ouvimos qualquer opinião sobre o caso Face Oculta e as mais recentes escutas.

Da Emaudio à TVI


Os socialistas no poder são useiros e vezeiros na «arte» de controlar ou tentar controlar a Comunicação Social portuguesa. É curioso que, agora que se sabe os contornos exactos desse controle, seja precisamente Mário Soares a defender o primeiro-ministro, dizendo que, no seu tempo, nunca foi tão atacado como ele.
Mário Soares que esteja calado e que deixe de alardear aos quatro ventos a sua senilidade: ao lado da Emaudio, um grupo empresarial com «testas de ferro» no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais, o negócio da TVI é uma brincadeira de crianças. E nisto dos negócios esconsos, Sócrates nunca conseguiu chegar aos calcanhares de Soares.
Mais: nos tempos em que, como primeiro-ministro, Mário Soares telefonava para os Telejornais aos gritos sempre que qualquer notícia o incomodava, só havia dois canais de televisão do Estado, meia dúzia de rádios e jornais, não havia internet e podia-se facilmente comprar toda a tiragem de um livro incómodo para que ele não chegasse ao grande público.
Claro que Mário Soares não foi tão atacado como José Sócrates.

Manuel Serra (1932 – 2010) e as batalhas campais no PS de 1974


Morreu no Domingo Manuel Serra, um histórico do PS. Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril, foi protagonista, no Partido Socialista, de alguns dos momentos mais quentes, liderando uma ala que defendia a aproximação ao Partido Comunista. Foi eleito para o primeiro Secretariado Nacional do Partido em Dezembro de 1974, mas acabaria por abandoná-lo poucos dias depois.
Nos «Contos Proibidos», num episódio que já se publicou por aqui, Rui Mateus descreve esses momentos quentes do PS: ««Entretanto, o tempo se encarregaria de revelar novos episódios em matéria de financiamentos. Vinte anos após o 25 de Abril, ao ser preso por alegado desvio de fundos públicos, o ex-presidente da Venezuela, Carlos Andréz Perez, declararia que uma parte desses fundos teria sido entregue a Mário Soares. Foi a primeira vez que eu ouvi falar do assunto, que foi confirmado à Agência Lusa por uma fonte não identificada do Palácio de Belém («Público», 22/05/1004). (…)
Os trabalhos [do I Congresso do PS depois da Revolução] iniciaram-se com a leitura de um telegrama de saudações enviado por Mário Soares ao Presidente da República Costa Gomes. O mesmo, segundo os joranis da época, foi vibrantemente aplaudido de pé pelos congressistas.
Logo no início foi aprovada uma moção subscrita por Manuel Serra e Maria Barroso em que se afirmava que «o PS defenderá o modelo constitucional democrático que melhor consolide a aliança do Povo e das forças democráticas com o MFA. Depois, tendo em conta que a ratoeira comunista passava por sensibilizar o seu conhecido egocentrismo, Mário Soares foi reconduzido na Secretaria-Geral sem qualquer oposição, o que já não aconteceria com a orientação do Partido.
Para a Comissão Nacional, Manuel Serra não preconizou tal unanimidade e, depois de uma autêntica guerra campal, a lista da direcção histórica do Partido sairia vencedora pela escassa margem de 94 votos, tendo a lista de Manuel Serra obtido quase 44% dos votos dos congressistas. O nome de Mário Soares aparecera nas duas listas concorrentes, por ordem alfabética na lista da direcção histórica e à cabeça da lista que o PCP promovera por meio de Serra. Aliás, só por milagre Mário Soares não sairia daquele Congresso como secretário-geral de dirigentes afectos a Manuel Serra e ao Partido Comunista. [Read more…]

Centenário da República: os posters comemorativos (1)

1. A DOCE MÃEZINHA

Mário Soares anda todo ancho, já perspectivando o ciclo de forró comemorativo que se avizinha. Assim, vai avisando que apenas serão comemoradas as duas repúblicas do imaginativo esquema vigente, deixando a mais longa e duradoura, como coisa esquecida no limbo da conveniência. Olvida assim, aquela que foi precisamente a 2ª República, – a actual, queira ou não queira, é mesmo a terceira – quem solidificou a instituição, tornando-a corriqueiramente respeitável e alçando os Venerandos à semi-divina condição de entes intocáveis, de que aliás, Mário Soares muito beneficiaria.

A sua questionável coerência, deixa-nos por vezes pérolas de inestimável valor republicano e nos meandros do texto que hoje o Diário de Notícias publica, encontra-se esta saborosa justificação para o dinástico alçar do sr. Artur Santos Silva à presidência da Comissão Oficial do Centenário:

“O Governo decidiu – e bem – constituir uma Comissão Nacional para as Comemorações, presidida pelo Dr. Artur Santos Silva, bisneto de um dos heróis do 31 de Janeiro de 1891 (…), neto de um ilustre médico, várias vezes ministro da 1ª República (…) e filho do ilustre advogado e resistente antifascista (…) de quem tive a honra de ser amigo.”

A plutocracia tem destas coisas. Os amigos são para as ocasiões, mesmo sendo santos entre silvados.

Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Mário Soares e o 25 de Novembro.

continuação daqui

O antigo chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros e secretário-geral do PS, Vítor Cunha Rego, tivera contacto anteriores ao 25 de Abril com o chefe da CIA em Lisboa, John Morgan. Após o assalto ao «República» e quando Carlucci adquirira a certeza de que Soares entrara no «bom caminho», seriam designados Cunha Rego e Bernardino Gomes para veicular os futuros contactos e o apoio da CIA ao PS.

Com o caso «República» ainda fresco e tendo em conta que aquela organização considerava prioritárias as acções na imprensa e em editoras, como o senador Edward Boland de Massachusset apuraria no final dos anos 70, foi decidido combater a predominância do PC nestes sectores. Assim nasceria a editora «Perspectivas Realidades», ao mesmo tempo que era adquirido o edifício onde iria funcionar a CEIG, Cooperativa de Edições e Impressão Gráfica, com a finalidade de imprimir o diário «A luta» em substituição do «República». O contacto americano era um «operacional» das chamadas «covert operations», ou operações clandestinas, da CIA, a que chamarei apenas KC. (…)

Em entrevista à TVI e a Miguel Sousa Tavares na SIC [1994], o Presidente da República [Mário Soares], para além de se colocar no papel de principal líder da resistência à tentativa comunista de 25 de Novembro, adiuantaria que, de facto, «conspirara» com Callaghan e os serviços secretos ingleses, embora negasse qualquer apoio dos norte-americanos. (…) Mas o general Ramalho Eanes, um pouco esquecido pelos media, viria a contestar o paperl de Mário Soasres no 25 de Novembro, afirmando poder «garantir que a versão dos mesmos apresentada pelo Dr. Mário Soares contém algumas inverdades». Chegaria mesmo a acusar o seu sucessor de pretender adulterar a história, de não ter lido os documentos oficiais sobre o 25 de Novembro e de ter tendência para valorizar os seus contactos internacionais. Mas, segundo refere, «a verdade é que os militares trabalharam essencialmente com matéria-prima nacional». [Read more…]

Quando se aproximam os Magos, nada como recordar como foi o caminho para Belém

Quando vejo os socratistas tão azucrinados com o Presidente da República em versão Cavaco, lamechinhas de choro e ranho, dá-me uma coisa na puta da memória e a gaja cospe esta lembradura: mas quem é que foi buscar Mário Soares à senilidade e à reforma só para impedir que Manuel Alegre tivesse disputado pelo menos a 2ª volta das presidenciais com o sr. Aníbal? Quem é que acreditou na coabitação pacífica com o homem de Poço de Boliqueime?

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Os três magos, mosaico séc VI, Basílica of S. Apolinário, Ravena

É certo que o vate de Águeda até podia ter tido, se eleito, condições para acabar com o socratismo depois do cavaquismo, o que era obra épica demais para ele, desconfio, e falamos de ses, e nesse caso andariam agora  os choramingas com problemas no emprego.

Mas um bocadinho de vergonha. Eu sei: perderam-ma toda, que a vida está difícil. Mas disfarcem.

O princípio socrático encavacado

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O Partido Socialista declara estar o presidente Cavaco ao serviço da oposição.

Diz-se que em política ou história, a memória é curta. Durante anos a fio, o país soube e gozou com as quase públicas desavenças entre o 1º ministro Cavaco Silva e o presidente Soares. No seu segundo mandato, Mário Soares tornou-se no promotor da alternativa ao desgastado governo do PSD e as “presidências abertas” nada mais foram, senão uma clara demarcação de Belém em relação ao governo de maioria absoluta. Inventaram-se direitos à indignação, Soares falou “privadamente em público” – até alto e em bom som diante de quem o quis ouvir, em pleno restaurante Bel Canto (1992, eu próprio escutei as suas palavras) – e todos conheciam a profunda aversão mútua que se foi criando entre os dois homens. Mais tarde, quando Cavaco quis tornar-se presidente – a velha historieta do grão-vizir que se quer tornar califa no lugar do califa – e alijou o PSD como …” esse partido”…, Sampaio surgiu na corrida a Belém e proporcionou-se ainda a alegria a Mário Soares, de “acabar o mandato dando posse a um governo socialista”. Assim, sem qualquer tipo de equívocos. É esta a alegada presidência de todos os portugueses.

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Os Telhados de Vidro

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HÁ QUEM OS TENHA, MAS SE ESQUEÇA
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É o caso do ex-presidente da Remario soarespública que ontem fez anos, oitenta e cinco. Embora muito bem para a idade, anda muito esquecido. Não se lembra já do tempo em que esteve com «ambos os dois pezinhos» fora do PS. E vai daí, vai de acusar Manuel Alegre de estar com um a apanhar frio. Claro que essa atitude motivou uma resposta do poeta, que delicadamente, como se faz aos velhinhos por quem temos algum carinho, começou por lhe endereçar os parabéns, antes de falar do assunto que lhe dizia respeito.
Ora, em dia de aniversário, o simpático senhor deveria, antes, dedicar-se a comer um bolito, receber a família e alguns amigos mais chegados, e deixar-se de se armar em pensador e educador da classe política do seu partido. Só lhe teria ficado bem e evitaria que fosse quem fosse lhe lembrasse pecados passados.
Quem tem telhados de vidro, deve abster-se de atirar pedras aos vizinhos.

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Buíça (1) aí uns cobres!

 

 

Segundo o Público, Mário Soares está raladíssimo com a crise em que o PSD se afunda. Sabedor como poucos do tipo de contratempos que a travessia no deserto da oposição significa para um Partido, M.S. diz que é necessário dar uma ajuda ao grémio laranja. No mundo onde roda a engrenagem das rotativas – na imprensa e no Parlamento -, são sempre necessários dois comparsas para a dança do costume. É que todas as precauções são poucas, pois embora o colega Silva Lopes, jovenzinho de setenta e sete anos – proveniente do caetanismo pró-terceira via – tenha cometido a proeza de se fazer nomear para a gestão de uma grande empresa "com ligações ao Estado", estes lugares jamais poderão deixar de ser cativos: "ou são para vós, ou são para nós, nada de penetras!"

 

E agora, só para irritar os do falso mas miliardário Centenário, aqui vai mais um naco de prosa de um ex-republicano, que em 1912 decidiu dizer (2):

 

"Com a República não há salvação possível. Uma esperança! Uma única! A restauração monarchica poderia trazer uma reacção benefica. Uma salutar licção para monarchicos e para republicanos. Talvez retardasse um pouco, pelo menos, a queda rapida, escorregadia e lobrega em que vamos para o abysmo. Mas com a república, está inteiramente, e desde já, tudo perdido."

 

Homem Christo, in Banditismo Político, Madrid, 1912.

 

(1) Buíça: em dialecto do sul de Moçambique, quer dizer "dá cá". Nada de confusões, p.f.

 

(2) isto não foi escrito após o debate do Prós e Contras de segunda-feira. O Português escrito é pré-Costa/Formiga Branca/Camioneta Fantasma/Leva da Morte.

 

Contos proibidos: Memórias de um PS desconhecido. A editora «Perspectivas & Realidades» e a resistência ao Partido Comunista

continuação daqui

 

«A editora Perspectivas & Realidades, hoje propriedade de João Soares, foi constituída por escritura notarial de 24 de Setembro de 1975, com um capital de 300 contos dividido em partes iguais entre João Soares e Victor Cunha REgo. Era inicialmente co-dirigida por Bernardino Gomes e Ivone Cunha Rego, sendo o seu primeiro lançamento «O Triunfo dos Porcos», de George Orwell. Mas quando este conhecido livro foi publicado, já o PCP estava em declínio e as «P & R» acabariam por se transformar essencialmente, nos anos seguintes, na editora dos livros sem mercado dos principais dirigentes do PS, com destaque para os de Mário Soares. (…)

No seguimento da Conferência de Estocolmo, aumentaram as delegações que vieram a Portugal exprimir o seu apoio ao PS, sendo os apoios financeiros normalmente canalizados através da já referida conta na Holanda. Por vezes, contudo, o dinheiro vinha das maneiras mais improvisadas, tendo eu assistido, em casa de Tito vde Morais, a uma entrega por parte de uma delegação sueca que acabara de chegar e que, de repente, começou a triar maços de notas dos bolsos de cada um dos membros da delegação. Nessa altura ainda Carlos Carvalho era tesoureiro do Partido, mas era assessorado por José Manuel Duarte. A partir de certa altura, Carvalho, que fora fundador do PS em Bad Munstereifel, desapareceria para sempre da cena política, passando essa tarefa para Fernando Barroso, que acabara de chegar de Moçambique, onde vivera durante muitos anos. A partir de então Fernando Barroso ocupar-se-ia desse cargo, assim como da administração financeira das Fundações ligadas ao Partido, até ao IV Congresso em 1981. O secretário-geral tinha entretanto saído do Governo e ao ocupar-se do dia-a-dia do PS, compreendera a importância das finanças, que controlaria rigorosamente através do seu cunhado. Uma das medidas adoptadas nesta área seria a progressiva descapitalização da conta na Holanda, movimentada por José Neves e a abertura de uma conta pelo próprio secretário-geral no Bank fur Gemeinwirtschalf em Frankfurt. Esta conta a que Gunter Grunwald chamaria «contas especial do Mário»  só seria encerrada anos mais tarde e, pelo que consegui apurar, movimentaria somas consideráveis. (…)

Naquele período, a resistência ao PCP representava um verdadeiro sorvedouro de dinheiro, que Mário Soares ia mandando entregar  por intermédio dos seus colaboradores. 

E bem melhor do que a minha memória, os meus registos mostram as seguintes entregas em dinheiro para acções de resistência ao PCP: a 23 de Setembro, 300 contos depositados na conta da Associação António Sérgio e, nesse mesmo dia, 1000 contos entregues a Gustavo Soromenho para o jornal «A Luta». No dia 27 de Setembro, 1000 contos entregues ao cunhado de Mário Soares, José Manuel Duarte. Depois, ao tesoureiro do PS entregaria 1000 contos a 30 de Setembro, 2000 contos a 28 de Outubro e 500 contos a 11 de Novembro. A 20 de Novembro, seriam entregues quinhentos mil escudos mais. No rescaldo do 25 de Novembro, certamente para pagar despesas pendentes, seriam entregues a 1 de Dezembro 1800 contos à Administração Financeira do PS e, a 4 de Dezembro, mais 500 contos ao tesoureiro Carlos Carvalho.

Evidentemente que não conheço a totalidade do conteúdo das caixas de biscoitos, nem os movimentos das contas de Frankfurt e da Holanda, nem, tão-pouco, outras verbas relacionadas com este período, oriundas dos americanos ou as que o ex-presidente Carlos Andres Perez disse ter entregue a Mário Soares.  Consegui, contudo, apurar que antes da reunião de EStocolmo Rolf Theorin mandaria transferir para a conta na Holanda mais meio milhão de coroas suecas. Também o PSD da Dinamarca enviaria mais 304 690$00 em Março e 29 734 coroas em Setembro.

 

 

Armando Vara era a pessoa que tinha o pelouro do Sol

“Uma pessoa do círculo próximo do primeiro-ministro e que conhecia muito bem a situação do jornal e a nossa relação com o banco BCP disse-nos que os nossos problemas ficariam resolvidos se não publicássemos a segunda notícia do Freeport”, assume à SÁBADO o director do Sol, José António Saraiva – não revelando, porém, a identidade do autor da proposta. “É evidente que Armando Vara era a pessoa que tinha o pelouro do Sol no BCP e que todos os assuntos relacionados com o Sol passavam directamente por ele, e isso nós sabíamos”, acrescenta José António Saraiva.

 

Na Sábado, via Facebook

 

É por estas e por outras que a dimensão jurídica destes casos, onde ganham a vida os melhores advogados portugueses, tem pouca ou nenhuma importância. É por estas que as fugas de informação e violações do segredo de justiça valem mais  do que os processos em tribunal. É pelas outras que o estado de direito me dá vontade de rir, embora fosse mais apropriado chorar.

 E isto não é de hoje, tem exactamente a idade do estado de direito, e não sei porquê mas faz-me sempre lembrar esse grande mestre de seu nome Mário Soares.