Hoje, quinta-feira, 29 de Dezembro de 2022,

o Presidente da República promulga o OE2023. Mas faz mal. Faz muito mal.

A São solidária e a função diacrítica

Este recheio também é óptimo para tartes.
O Livro de Pantagruel

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Os excelentes Tradutores Contra o Acordo Ortográfico encontraram um belíssimo exemplo das consequências da base IV do Acordo Ortográfico de 1990. Ainda por cima, com potencial crase — não ocorrida e ainda bem. É a prova do crime (aliás, uma das provas do crime), ao cuidado dos incréus por conveniência.

Para quem não tiver Facebook, eis o vídeo publicado pelos Tradutores.

Muitos e bons (e.g., Castro, Duarte, Delgado Martins, Emiliano — e, deste rol, estou intencionalmente a excluir autores de ortografias autênticas, como os maravilhosos Gonçalves Vianna e Rebelo Gonçalves) indicaram a função diacrítica das letras c e p. Há uns anos, além de também me caber o papel de a indicar, dediquei algumas páginas a explicá-la, em publicação de referência, com revisão por pares (pdf). Desde então, até no Ciberdúvidas a função diacrítica (da letra c) chegou a ser mencionada. Mas sem consequências.

Fica o registo e ficam também os meus votos de uma óptima semana.

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O Diário de Notícias armado em Folha de S. Paulo

In all of his wonderful meditations upon the ruefulness of our lives, there is always the spirit of laughter beckoning us in the art of somehow going on. His achievement is one of the enlargements of life.
Harold Bloom

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Como é sabido, quer a Folha de S. Paulo, em particular, quer os falantes de português do Brasil na função de escreventes, em geral, escrevem *’objeto’ e é-lhes autorizada pelo AO90 a manutenção do ‘aspecto’. Pelo contrário, os escreventes de português europeu que se deixaram levar pela onda AO90 escrevem *’objeto’ em vez de ‘objecto’ e estão proibidos de escrever ‘aspecto’: escrevem *’aspeto’ (uma espécie de ‘espeto’ com <a> inicial).

Todavia, como o caos veio para ficar, o Diário de Notícias decidiu, a propósito deste excelente livro, armar-se em Folha de S. Paulo.

Por isso, *’objeto’ e ‘aspecto’, em vez de *’objeto’ e *’aspeto’. Obviamente, tudo se resolveria, resolvia e resolve com ‘objecto’ e ‘aspecto’. Em ortografia portuguesa europeia, com certeza.

Desejo-vos uma óptima semana.

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Jorge Miranda esqueceu-se do Acordo Ortográfico de 1990

For the heuristic purposes of analyzing learners’ L2 performance and L2 proficiency in SLA research, we argue that the broader notion of L2 complexity minimally consists of three components: propositional complexity, discourse-interactional complexity and linguistic complexity.
— Bulté & Housen (2012)

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Efectivamente, Jorge Miranda esqueceu-se de mencionar o AO90, ao apresentar a lista de “muitos e muito graves problemas que a Assembleia da República deveria discutir e obrigar o Governo a enfrentar: a inflação, a lentidão da justiça, a crise nos hospitais, as distorções de serviços públicos, grandes zonas de pobreza“.

Portanto:

  • inflação,
  • lentidão da justiça,
  • crise nos hospitais,
  • distorções de serviços públicos,
  • grandes zonas de pobreza,
  • Acordo Ortográfico de 1990.

Porque Miranda não sabia, mas já sabe. No entanto, se, passado um decénio, ainda não souber, convém perguntar a quem saiba e não ao colega que fala muito, mas sabe pouco.

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Susana Peralta pergunta:

Sabia que o Parlamento não conhece o OE que hoje vota?“.

Sim, sabia. Aliás, toda a gente sabe. Nem o que hoje vota, nem os que votou para 20122013201420152016201720182019, 20202021 e 2022 [1] e [2].

E gostei do conceito “cacofonia orçamental”: proponho que abranja os “tetos de despesa”, mencionados pela Autora. Os vinculativos, sim, mas também os indicativos.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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A sério, Expresso? Pára para?

We have to be more cautious in describing quantitative relationships. The one thing that we were just looking at, the interactive things we can do with the new methods, and we have a figure that we will keep, which shows the inflation unemployment counterclockwise spirals in the 70s and the 80s where you have to go through this bulge in unemployment to get inflation down… I mean… clockwise spirals…. Anyway… Like that ⮏. Or, from your point of view, like that ↺.
Paul Krugman

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Pára para? Não era para para? Como em “uma lagosta para para me ver“? Ah! É pára para. OK.

Mais uma recaída. Exactamente. Efectivamente.

E qual é a explicação para factor?

Recaída? Deixaram de adoptar o AO90?

As duas coisas? Nem por isso? Que grande confusão. Tantas hipóteses, Expresso. Apesar de tanta conversa.

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Hoje, quinta-feira, 24 de Novembro de 2022, jogam

a selecção e a seleção. Efectivamente. Porque ‘selecção’ ≠ ‘seleção’.

«Os alunos de língua portuguesa e a língua portuguesa»:

os comentários.

Ninguém PÁRA este Benfica

Ninguém para? Não! Ninguém pára. Efectivamente. Na primeira página, para que não haja dúvidas.

Ex-governador do Banco de Portugal não tirou uma selfie “nem pediu desculpas”, revela António Costa

Ex-governador do Banco de Portugal “não se retratou nem pediu desculpas”, revela António Costa.

Foto: E. Vives-Rubio (https://bit.ly/3GnsOhZ)

Eu e Pinto da Costa: a mesma luta

“Rejeito qualquer ato de violência“. Exactamente. Contra atos de violência e, já agora, também contra aCtos de violência.

Sobre o novo álbum de Alexandre Soares,

eis um artigo bem escrito: projectos, Um Projecto Global (tenho-o em vinil), colectivo, eléctrica e electrónica.

Há um problema no Spotify (e outro, mais grave, no Diário da República)

In that summerRoll back to mother
IA/BD

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O problema no Spotify é o seguinte: o Sea and Sky dos The Cult está no Go West (crazy spinning circles) do Rare Cult e o Go West (crazy spinning circles) está no Sea and Sky do single e do Rare Cult. Já agora, o novo álbum dos The Cult (aqui anunciado há poucas semanas e presente na epígrafe) é excelente.

Agora, vamos ao que interessa.

Efectivamente, como é dia útil, há festa. Porquê? Porque há Diário da República.

Exactamente.

Aliás, a formulação “não dispensa o contacto regular do trabalhador com o serviço” está padronizada e encontra-se há muitos anos consagrada em diplomas portugueses.

Encontra-se? Encontrava-se!

Desejo-vos uma óptima semana.

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O fato e o fat

The popular view that scientists proceed inexorably from well-established fact to well-established fact, never being influenced by any improved conjecture, is quite mistaken. Provided it is made clear which are proved facts and which are conjectures, no harm can result. Conjectures are of great importance since they suggest useful lines of research.
Alan Turing

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Imaginemos que estamos a deliciar-nos com um artigo científico em língua inglesa. Subitamente, damos de caras com o seguinte trecho:

The fat that the dip does not go to zero is fully accounted for by the fat that in the pair creation process there is some amplitude to have 2 atoms rather than 1 in an elementary mode.

O artigo é este (pdf) e o autor, além de ser dono de um invejável apelido (Alain Aspect) e de ter sido um dos vencedores do Nobel da Física deste ano, não escreveu obviamente a barbaridade que indiquei ali em cima, deixada à nossa fértil imaginação colectiva. Efectivamente, aquilo que Aspect escreveu foi isto:

The fact that the dip does not go to zero is fully accounted for by the fact that in the pair creation process there is some amplitude to have 2 atoms rather than 1 in an elementary mode.

Se Aspect tivesse grafado fat em vez de fact, teria tanta credibilidade como aquela que o Diário da República vem demonstrando desde Janeiro de 2012, ao grafar (grafar e não gralhar, como alguns querem fazer crer) as asneiras habituais. Eis um exemplo fresquíssimo:

No sítio do costume.

Desejo-vos um excelente FC Porto — Benfica (viva o Benfica!), um maravilhoso novo álbum (o segundo deste ano) dos Chili Peppers e, claro, um óptimo fim-de-semana.

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Associação de Professores de Português reconhece que o AO90 falhou

Nota inaugural: no final do texto, há hiperligações gratuitas.

Uma vez que há alunos brasileiros que têm sido penalizados na classificação de exames de Português por escreverem de acordo com a variante que aprenderam, a Associação de Professores de Português (APP) defende a criação de um grupo de trabalho para discutir aceitação de variedades de português em exames.

Não vejo mal nenhum em reflectir sobre o assunto, porque devemos defender o elo mais fraco, que, neste caso, é o aluno imigrante. Haverá várias questões a ponderar, mas a preocupação é legítima, embora não me pareça que o problema seja assim tão fácil de resolver. O que me traz hoje aqui, no entanto, é outra coisa.

Convém lembrar que a APP esteve sempre do lado da defesa do chamado acordo ortográfico (AO90), essa oitava maravilha do mundo que, segundo os seus diversos apóstolos, iria contribuir para a tão desejada «unificação ortográfica» que resolveria problemas que nunca existiram. Resolver problemas que não existem é, aliás, uma característica talvez tipicamente portuguesa. [Read more…]

Contra o Orçamento do Estado para 2023

Mantém-se um mistério o motivo pelo qual gente alfabetizada votou favoravelmente documentos redigidos nos termos de 20122013201420152016201720182019, 2020, 2021 e 2022 [1] e [2]. Uma hipótese que me parece plausível é a de estes documentos não terem sido lidos por quem os votou. E isso, a ser verdade, é grave. Mas não sabemos se é verdade. Só sabemos que é uma hipótese.

Debrucemo-nos então sobre o documento hoje depositado por Fernando Medina nas mãos de Augusto Santos Silva.

Foto: Nuno Ferreira Santos (https://bit.ly/3CpJfXc)

Vejamos, pois, uma amostra do conteúdo do Relatório (pdf): [Read more…]

Royale with cheese

La langue, un français écorché, mêlé de patois, était indissociable des voix puissantes et vigoureuses, des corps serrés dans les blouses et les bleus de travail, des maisons basses avec jardinet, de l’aboiement des chiens l’après midi et du silence qui précède les disputes, de même que les règles de grammaire et le français correct étaient liés aux intonations neutres et aux mains blanches de la maîtresse d’école.
Annie Ernaux (efectivamente)

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Por causa da Mary Royall /rɔɪəl/, lembrei-me do royale /rɔiˈæl/ (with cheese). Trata-se sobretudo de tonicidade, sim, por isso, muito mais do que da velha história da selecção e da *selessão, perdão, da *seleção, lembrei-me da facção e do façam. É exactamente por isto que a linearidade não pode — não deve, OK — servir nem como forma de orientação nem como princípio norteador. Por falar em nortear e orientar (todavia, go west, porque the west is the best), há álbum novo dos The Cult e, na segunda, tereis os GNR de há 30 anos na rtp memória.

No sítio do costume? O costume.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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Sem rumo

“Don’t argue with me, Hemingway,” Miss Stein said. “It does no good at all. You’re all a lost generation, exactly as the garage keeper said.”
— Hemingway, “A Moveable Feast

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Felizmente, o jornal A Bola deixou de ter Vítor Serpa ao leme dos seus destinos. De facto, não lembra a um cacodemónio ter como timoneiro, num Portugal moderno, uma pessoa que faz a apologia da resistência silenciosa como forma de luta: quer em abstracto, quer, obviamente, no caso concreto, em relação ao AO90.

Além disso, trata-se de alguém que interpreta como geracionais comportamentos sui generis de indivíduos também eles, no seu direito, peculiares. Ora, o comportamento de Bruno de Carvalho é exclusivamente dele e não conheço estudos com amostras da população nascida em 1972 (da qual também faço parte) através dos quais se demonstre que os actos concretos indicados por Serpa relativamente a Carvalho sejam representativos de um comportamento geral da nossa geração.

Quanto à lógica dos raciocínios de Serpa, divirto-me, confesso, no labirinto do texto de despedida. Sabemos que eterno significa aquilo que não há-de ter fim, que dura sempre (se teve principio ou não, essa é outra questão). Todavia, no tal Portugal moderno há pouco mencionado, ler no mesmo texto “nenhum poder deve ser eterno” e “mais de trinta anos depois de ter assumido o cargo” dá-me tanta vontade de rir como a diferença entre a grafia anunciada e a grafia adoptada pelo jornal A Bola.

Serpa deixou de ser director, é certo, mas as recaídas, graças a Zeus e a todos os deuses, mantêm-se.

Desejo-vos uma óptima semana.

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O que é a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos do Ministério do Mar?

É um serviço central da administração directa do Estado, dotado de autonomia administrativa.

Ninguém para Porro e Nuno Santos faz o terceiro em Frankfurt?

Não! Ninguém pára Porro e Nuno Santos faz o terceiro em Frankfurt.

Efectivamente, há  resistência, mas não é silenciosa.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, há professores racistas e xenófobos entre nós:

«não vale a pena negar que há, infelizmente, setores racistas e xenófobos entre nós». Pois. Efectivamente. Exactamente.

Os One *Diretion e os *Artic Monkeys

Exactamente. Acabado o reinado dos One Diretion, os Artic Monkeys são os candidatos naturais à sucessão.

Pois é.

Don’t believe the hype.

Horta pára o estágio? Porquê?

Já somos dois

«Costa rejeita “ceticismo”».

O caminho para o OE2023 pode estar

apenas a começar“, mas o resultado será certamente o do costume.

Niemand ist vollkommen

„Sie sind ein Monster!“
„Und Sie sind Anwalt! Niemand ist vollkommen.“
Dracula

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No tal artigo do “nobody is perfect”, Cavaco grafa 30 de Janeiro. Muito bem. 30 de Janeiro. Lindo menino. Mas Cavaco grafa perspetivas (muito bem, dirá um adepto português do #AO90, muito mal, dirá um homólogo brasileiro e muito mal, direi eu também, obviamente). Cavaco grafa diretamente (muito mal, direi eu, muito bem, dirão os nossos amigos de há pouco). Logo nos primeiros parágrafos do artigo de hoje, Cavaco explica-nos as virtudes do #AO90. Cavaco mandou. Santana cumpriu. Por isso, por haver tanta sabedoria e sensatez, tivemos há uns anos o “agora facto é igual a fato (de roupa)” de Santana. Quod erat demonstrandum. Agora, vou mas é trabalhar.

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Marcelo Rebelo de Sousa não adopta o Acordo Ortográfico de 1990

I hate rock stars.
Phil Anselmo

Still, some target language phones may in fact be sufficiently close to L1 counterparts that their perception and production in terms of the L1 category may be undetected by native listeners (Flege, 1992). These can be referred to as identical or near identical L1-L2 pairs and would not require a separate L2 category (e.g., Spanish and English [f]).
— Cebrian, Gorba & Gavaldà (2021)

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Efectivamente, Marcelo Rebelo de Sousa não adopta o Acordo Ortográfico de 1990. Mas isso já sabíamos.

Aquilo que não sabemos é, por um lado, porque é que o caro leitor, sim, caro leitor, porque é que continua a adoptar o AO90? Se nem sequer o Presidente da República adopta o AO90, por que motivo continua o caro leitor a adoptá-lo? Deixe de andar por aí a adoptar o AO90 e faça o favor de seguir os bons exemplos ortográficos.

Por outro lado, continuamos sem conhecer a razão que leva Marcelo Rebelo de Sousa a continuar indiferente, letárgico e hiperpassivo, enfim, a não fazer nadinha de nada para acabar, de uma vez por todas, com esta mixórdia acordesa e esta hipocrisia ortográfica. Efectivamente, Rebelo de Sousa, além de nada fazer, continua calado, sim, calado, perante esta vergonha constante, diariamente apreciável, por exemplo — e que exemplo! — no sítio onde os cidadãos portugueses alfabetizados tomam conhecimento dos actos que regem a vida da sociedade portuguesa: [Read more…]

E faz ele muito bem

Sérgio Conceição não quer *distrações. Contra tudo e contra todos.

A legitimidade do projecto europeu

implica a ilegitimidade do projeto. O Acordo Ortográfico de 1990, efectivamente, não existe.

Contra o Orçamento do Estado para 2022 (2/2)

Didion also employs continuous repetition of the prefix “mis-” in “misplaced ,” “misspelled,” and “missing.” This repetition dramatically reinforces her point.
Colleen Donnelly

Ja! Woher kommst du denn?
Bei welchen Heiden weiltest du,
zu wissen nicht, daß heute
der allerheiligste Karfreitag ist?
Gurnemanz

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Peço imensa desculpa pelo atraso na habitual demonstração prática da inexequibilidade do Acordo Ortográfico de 1990, teatralizada há demasiados Orçamentos do Estado (2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, 2021 e 2022 [1/2]), através da entrega da proposta de OE ao presidente da Assembleia da República pelo ministro das Finanças. A culpa é da Páscoa.

Em finais de Outubro do ano passado, o OE2022 foi chumbado, embora por motivos diferentes dos aqui aduzidos para a rejeição. Entretanto, muito Douro correu debaixo da Ponte Luiz I e tivemos agora dois novos protagonistas, curiosamente, ambos ligados ao problema ortográfico em curso: Santos Silva (directamente, por razões óbvias) e Medina (indirectamente, porque, enquanto durar esta tourada, os conceitos massacre contínuo e repetição contínua continuarão passe a redundância a ser aplicados).

© Manuel de Almeida/Lusa [https://bit.ly/3JPr0vW]

Mas centremo-nos no assunto que aqui nos traz.

Quanto ao documento que Medina entregou a Santos Silva (pdf) e que foi «elaborado com base em informação disponível até ao dia 13 de abril [sic] de 2022», eis uma pequeníssima amostra daquilo que já é o pão nosso de cada ano: [Read more…]