Salazar vive!

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Eu já não sou do tempo em que, no Minho, famílias inteiras sobreviviam única e exclusivamente daquilo que a terra dava.

Nos tempos do outro senhor, dizem-me, os caseiros habitavam umas casas rodeadas de muita terra arável. Tinham como posses algumas juntas de bois, algumas vacas leiteiras e muitos filhos – uma benção, porque alguém tinha que trabalhar as terras e os filhos não regateiam salário e outros luxos. Deixá-los ir para a escola era perder de amealhar umas arrobas de batata e milho, uns carros de pão. Dócil o gado e os filhos assim educados para o trabalho.
No final de cada temporada, o servo da gleba entregava ao senhor metade ou dois terços da produção da terra. Batata, cereal, vinho. Era dele para comerciar o restante.
Noutros contratos de sobrevivência, o caseiro comprometia-se entregar ao senhor dadas quantidades de produtos agrícolas. Havia anos maus, com uma produção abaixo do estipulado e havia senhores que não perdoavam os seus servos. A miséria perpetuava-se.
A miséria e a subserviência medievais duraram para lá de muito. No Minho, somos todos filhos ou já netos desse tempo.
No Minho isto é passado. No Alentejo, parece que ainda dura o regime do trabalho em troca da luz do dia seguinte.
Atente-se no anúncio da Associação de Defesa do Património de Mértola. [Read more…]

Lettres de Paris #49

L’amour gagne toujours

estava escrito ontem (hoje também deve lá estar e deverá continuar por muito tempo, presumo) numa parede da Rue Guy Môquet. Paris é uma cidade romântica ao que dizem, é natural que assim como ‘l’amour court les rues’, como escrevi numa carta anterior, se pense por aqui que ‘l’amour gagne toujours’. Mas ganha sempre sobre o quê, afinal? O que há a ganhar ou a perder, senão, neste caso, um pouco de romantismo. E falo de romantismo naquela acepção lamechas, ‘boy meets girl’ e por aí a fora. Sendo certo que, nesta acepção, o amor não ganha nunca. Porque não há nada a ganhar primeiro, outra vez e depois, porque o amor acaba, como é evidente e próprio das coisas, acabar. Mais tarde ou mais cedo, há-de acontecer. Antes tarde que cedo, é preciso que se acrescente. Na outra acepção mais abrangente do amor, também é verdade que ele não ganha sempre porque, mais tarde ou mais cedo, também, morreremos.
 
Não estou muito bem disposta como se notará. Estou mesmo rabugenta, como os que me conhecem melhor, repararão certamente. Adormeci às 5 da manhã, sonhei que a sanita começava a deitar cada vez mais água até acordar com a cama a boiar no quarto e com a Maison Suger alagada de água sanitária, mal cheirosa. Acordei com pessoas a baterem-me à porta ainda não eram 10 horas. Era o senhor da manutenção. O tal que ontem devia ter vindo, mas não veio porque morava longe. Estava o diretor da Maison e a secretária e entrou tudo pelo estúdio adentro, mais exatamente pela casa de banho adentro. Monsieur le directeur propôs-me mudar para um estúdio gigante, aqui no mesmo patamar. Fui ver o estúdio e só de pensar que tinha de lavar a louça toda outra vez antes de a usar se me revoltou o meu estomago ainda sem pequeno almoço. Disse-lhe que sim, bom, se não houver outra solução, claro. Não podia ficar num sítio onde não se pode usar a sanita, bem entendido. Resta dizer que tirando isso, o resto da casa de banho estava perfeitamente funcional.
 

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Sangue – Por Clara Ferreira Alves, Expresso

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Existem artigos que deviam estar públicos nos respectivos sites dos jornais. Para que possam ser partilhados por todos e para todos até à exaustão. Porque são de leitura obrigatória. Como este não está, tive de andar a fazer “truques” meios foleiros para o conseguir partilhar aqui no blogue e dessa forma os leitores deste nosso e vosso espaço terem a possibilidade de o lerem. Aqui fica:

Lettres de Paris #48

Une journée de merde

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pardon my french. O dia não começou mal. Levantei-me tarde, dormi bastante e acho que não muito mal. Mas acabou de uma forma muito desagradável e continua a ser desagradável. Até quando não sei, sendo certo que haverá coisas piores, mas há transtornos um bocado mauzinhos, sobretudo quando se paga uma pequena fortuna para se estar num sítio onde tudo parece estar caquético. Saí de casa por volta das 3 da tarde, deixei tudo impecável e bem. Entrei em casa quase às onze da noite e mal abri a porta ouvi água a correr. A casa de banho estava toda inundada, a sanita cheia de água de aspecto duvisdoso e eu fiquei perfeitamente azamboada com aquilo. Liguei para o o número ‘da noite’ aqui na Maison Suger. Nada. Desci outra vez ao átri de entrada e o homem lá apareceu. Contei-lhe. Veio ver. Fechou a água do autoclismo e preparava-se para ir à vida dele, quando eu lhe disse que nem pensar, que ligasse ao diretor ou a quem fosse.
 
Saiu. Passado um bocado regressou, que o não tinham atendido de um sítio, e que o colega que faz os arranjos na casa não podia vir, porque morava longe. Eu perguntei-lhe se ele achava que isto eram condições, que chamasse um canalizador. Que não estava autorizado. Bonito. Saiu outra vez e passado um bocado ouço alguém na porta ao lado. A vizinha – que descobri depois que é brasileira – exatamente com o mesmo problema. O faz tudo da Maison tinha ido de manhã arranjar-lhe a sanita e agora estava tudo inundado também. O senhor que fica aqui à noite saiu outra vez para ligar a não sei quem. Voltei a dizer que chamasse um canalizador. Que não. Regressou com uns tubos a casa da vizinha. Passou quase uma hora e eu sem saber de nada. Fui lá. Tudo na mesma. O problema é na casa ao lado e não aqui, mas a verdade é que isso me interessa pouco, visto que não posso usar a sanita. Digo-lhe isto. Ele diz que já vem cá. Passa mais um grande bocado e nada. Vou lá outra vez. Afinal parece que chamou alguém, um homem, que aparece dali a um bocado. Ficam os dois na casa ao lado e de vez em quando vêem ver o que se passa deste lado. A sanita acaba por se esvaziar e o chão por secar, mas cheira mal. Tenho vontade de ir à casa de banho e tenho de ir à cave, descer até ao átrio e depois descer umas escadas estreitas até lá. Rica solução.
 

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Lettres de Paris #47

Nom, prénom

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Uma coisa que me escapa e que me faz enganar imensas vezes é que os franceses usam ‘Nom’ para o apelido (sobrenome, surname, etc…) e ‘Prénom’ para o nome próprio. Quando me perguntam em algum sítio pelo ‘Nom’, é certo que respondo Elisabete. Não raras vezes me têm dito: ‘ça c’est votre prénom’, como se eu tivesse algum problema mental, ou assim. Também é certo que quando me perguntam o ‘Prénom’ – se antes não tiver ocorrido a conversa anterior – eu fico dois segundos a pensar, antes de dizer Figueiredo. Claro que olham para mim ainda com mais cara de caso, porque evidentemente são incapazes de pronunciar o meu apelido e, porque, também evidentemente, me tinham perguntado o nome.
 
Portanto é uma trapalhada, com muita frequência entre o meu ‘nom’ e o meu ‘prénom’, em que quase sempre os franceses acabam a corrigir-me, claro. Quase toda a gente me trata por ‘madame’ coisa que também tenho dificuldade em assimilar que é a mim que se estão a referir. ‘Madame, moi?’. Bem, há bocado um bêbado passou aqui debaixo da janela e estando eu a fumar um cigarro debruçada na dita, com a escuridão e a bebedeira, referiu-se a mim, como ‘jeune dame’. O que é, convenhamos, menos mau que madame. Madame ‘Figuêredô’ mais ou menos isto. E portanto eu ando sempre num virote, sempre a certificar-me que sou eu, a madame, sempre a certificar-me que o meu ‘nom’ é Figueiredo’ e o meu ‘prénom’ Elisabete.

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Cidadania em Acção: Fábrica de Alternativas de Algés

Inauguramos a rubrica Cidadania em Acção com a Fábrica de Alternativas de Algés.

Fábrica de alternativas de AlgésA Fábrica de Alternativas nasceu da vontade de um grupo de residentes em Algés criar uma rede local de apoio e solidariedade para fazer face às adversidades dos dias que correm. Uma forma de incentivo à participação cívica e promoção da cidadania activa, valorizando as competências de cada um, juntando todas as gerações, na convicção de que todas as pessoas têm muito a aprender umas com as outras! O seu fim é social, recreativo e cultural, de acordo com as capacidades e conhecimentos profissionais, artísticos ou culturais que os seus associados queiram e estejam em condições de partilhar. Para além do desejo de recuperar os elos de vizinhança há muito perdidos, queremos que a comunidade em conjunto seja mais crítica, consciente e ética, incentivando os valores da partilha, da responsabilidade e da inclusão. Apesar de a nossa matriz recusar qualquer apoio partidário ou religioso, acreditamos que toda a pessoa é válida, independentemente da sua faixa etária, classe social, orientação sexual, raça, credo religioso, convicção política, etc… O Banco do Tempo surgiu como plataforma ideal para materializar essa partilha: Propomos aos nossos associados que ofereçam 2 horas por semana à Fábrica, ou à Comunidade. Em troca, podem usufruir de todas as outras 2 horas cedidas pelos outros sócios. [Read more…]

Cidadania em Acção

Cidadania em Acção
Compromisso com a solidariedade para além do círculo estreito da família e dos amigos… Salto do sofá e da zona de conforto…Trabalho voluntário e empenhado por uma causa… Capacidade de conexão e união num grupo…

Convicção da supremacia dos valores éticos nas sociedades… Procura local de soluções mais justas e sustentáveis, que ultrapassem as baias dos caminhos sem futuro já traçados… Vontade de agarrar a vida e configurá-la…

De tudo isto é feita a rubrica do Aventar “Cidadania em Acção”, que apresenta sucintamente iniciativas desenvolvidas por gente generosa, com coragem e auto-determinação, por esse Portugal fora. São pequenos nós de uma rede que resiste à resignação, ao cepticismo, e que torna a vida mais humana e mais valiosa. Uma rede que liberta em nós o que de melhor temos para dar uns aos outros e a todos.

Lettres de Paris #46

Et maintenant pour quelque chose de complètement différent…

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… comi verdadeiro frango assado português acompanhado por uma mini super bock, um cafézinho delta e um pastel de nata. Onde? Em Paris, bien sûr, Rue de l’École Polytechnique, perpendicular à Rue Valette e a que nunca tinha dado atenção. Bem sei que pareço uma verdadeira emigrante ultimamente com o tema da comida. Disse-me outro dia a Mónica que estes desejos são o primeiro sinal que nos estamos a tornar em emigrantes. Pois que seja. Quase 2 meses em Paris, com ligeiras interrupções, dão nisto. Falei-vos do desaire do poulet rôti há dois ou três dias. Le pire poulet rôti au monde. Na verdade fiquei mal disposta desde que o comi. Já devia ser frango velho, ou melhor, frango envelhecido no frigorífico ou no forno do lamentável restaurante da Rue Saint-Séverin. Mas eu não sou pessoa de desistir assim facilmente, sobretudo se o assunto envolve comida. Também sou de dar segundas oportunidades aos meus desejos, vá. E terceiras e mesmo quartas.
 
De modo que, quando me lamentei ao André da minha pouca sorte com o poulet rôti, o rapaz (aka #pingaamor) pôs-se em marcha. Bom, não veio até Paris com um frango assado na mala (coisa que, convenhamos seria ‘the ultimate romantic move’, especialmente se ao frango se juntassem umas batatinhas fritas e uma salada temperadinha ‘façon portugaise’ e umas duas ou três minis, pronto), mas pôs-se em marcha sobre o google (coisa que, obviamente eu mesma poderia ter feito) e anunciou-me triunfante passado um bocado que, mesmo na rua ao lado do Ladyss, havia uma churrasqueira portuguesa, justamente chamada ‘a nossa churrasqueira’. Não lhe dei grande crédito, confesso. Mas hoje, depois de um dia que começou bastante cedo (devido a um seminário na EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, por um lado e, por outro, devido ao barulho que fizeram logo de manhãzinha os homens das obras do prédio aqui da frente) e de estar 10 horas quase a trabalhar, ou enfim, qualquer coisa de muito parecido, quando saí do Ladyss às oito da noite, vi a Rue de l’École Polytechnique ali mesmo à minha direita e, considerando tudo mais o facto de nunca ter ido para aqueles lados, lá entrei na rua, bastante pequena, que desemboca numa praça muito bonita – a Place Larue – onde, justamente, fica a École Polytechnique.
 

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Lettres de Paris #45

Au claire de la lune

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‘mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu (…)’
 
Não foi a primeira canção que aprendi nas aulas de francês, no então chamado 1º ano do ciclo preparatório. Mas deve ter sido das primeiras. Já agora, a primeira, que ainda sei de cor note-se, como se fosse a mesma miúda de 10 anos e longas tranças e meia pespineta que se sentava nos bancos da escola preparatória para aprender – entre outras coisas igualmente espantosas – francês, foi ‘Un, deux, trois, je vais dans les bois
quatre, cinq, six, cueillir des cerises
sept, huit, neuf, dans mon panier neuf
dix, onze, douze, elles sont toutes rouges!’
 

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Deixaste-nos, Laura

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Ana Barros

Relembro, agora, a primeira vez que nos encontrámos. já lá vão longínquos 30 anos.
as duas “velhotas” numa turma de garot@s, uma a aprender, outra a re_aprender, alemão.
tu a aprendê-lo porque, na altura, querias ler Nietzsche no original para as tuas provas na universidade; eras assistente estagiária. eu, porque, à falta do que fazer, queria ocupar algum do meu tempo a relembrar uma língua que sempre me cativou.
foi instantânea a empatia que se criou entre nós. assim foi durante este tempo todo. e eu sempre a admirar a mulher brilhante que eras.
fui às estantes procurar os teus livros. no meio do caos, encontrei o “Variações sobre o entre-dois” e o “Alteridades feridas”, os marcantes dois volumes do teu “Diário de uma mulher católica a caminho da descrença” e o “Ajudas-me a morrer?“. neste último, releio a tua dedicatória: “Para a Ana Paula, a amiga de todas as ocasiões”. tenho consciência que o não fui. poderia ter sido muito mais presente e nunca te pedi desculpa por isso.
sentia já a tua falta durante estes anos em que tanto sofreste; neste momento, sinto que foi a libertação que te chegou na forma que nos (os outros) dói mais.
descansa, agora, em paz e em liberdade total, minha amiga.

Não há tréguas enquanto vivermos nas trevas

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Existe, neste país, um único jornal de esquerda, que não podendo ser considerado um jornal, mas antes um órgão de comunicação partidário, não entra nas contas da imprensa convencional. Qual é a diferença? A diferença é que o Avante! assume a sua parcialidade. Tal como qualquer publicação que emana de um partido político, com a excepção do blogue disfarçado de jornal que a extrema-direita do PSD e a ala anti-democrata-não-cristã do CDS criaram para manipular o país. [Read more…]

Mais uma mentira descarada (e conjunta) do SOL e do I

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Ainda que se venham a retractar, este tipo de lixo jornalístico proliferará pela internet, transformando-se em verdade absoluta para uns quantos, os tais que condenam violentamente o Bloco por não aplaudir o monarca espanhol ao mesmo tempo que assobiam para o lado quando o PSD falta às comemorações da Restauração da Independência. Fica o comentário, objectivo e absolutamente claro, da Uma Página Numa Rede Social. Lembrem-se disto da próxima vez que os abutres vos bombardearem com o discurso imbecil da imprensa controlada pela esquerda. [Read more…]

Lettres de Paris #44

Le pire poulet rôti au monde

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faz-se em Paris, no OComptoir, escrito assim mesmo, que fica na Rue Saint-Severin. Portanto, se vierem a Paris e vos apetecer de repente comer frango assado procurem outro sítio. Não sei porquê hoje apeteceu-me comer frango assado e lembrei-me que tinha passado num sítio onde o faziam. Até pensei trazer um para casa e comê-lo com uma saladinha. Por isso, quando saí do Ladyss, num dia sem grande história, dirigi-me para a Rue San Severin em busca do frango assado. Que não vendiam para fora. Resolvi então comer ali mesmo. O restaurante é um desses sítios que não se compreende bem o que é, ou seja, de que tipo é. Anunciava, no entanto, cozinha francesa. Sentei-me longe do piano e da rapariga que até nem cantava mal os ‘greatest hits’ da canção francesa. Aquilo devia ter-me dado algum sinal, mas lamentavelmente não deu. Lá pedi o frango assado e uma cerveja, apesar de tudo antecipando o bem que me iria saber o dito frango.
 
Quando o frango chegou fiquei logo preocupada. Mal assado e com umas batatas igualmente assadas que, visivelmente se tinham visto ‘negras’ para ali chegar. Era tudo. Nem uma saladinha, nem um arrozinho. Provei o frango e nem vos seis dizer como era horrível. Juro que havia partes que sabiam a mofo, ou a alguma coisa que parecia mofo e que não sei definir. Comi as batatas e um bocadinho de pão. Pensei refilar mas considerei que não valia a pena. Para me trazerem outro ainda pior? Nem bebi café nem nada e pus-me andar, depois de pagar uma quantia exagerada por umas batatas e pão afinal. Vinha furiosa pela Rue Saint-Severin fora, a pensar porque raio me haveria de ter apetecido frango assado e porque raio tinha eu trocado os únicos quatro restaurantes de Paris de que gosto genuinamente (bem, há um quinto, mas fica um bocadinho longe daqui, no Marais) por um totalmente novo. Não duvido que haja outros restaurantes bons em Paris, claro, sobretudo caros, sem dúvida. Mas aqui no bairro, gosto destes quatro e nunca fui mal servida em nenhum deles.
 

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Maria Luís faz merda e o culpado é o Centeno

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É o que retiro da escolha da redacção do Público para a fotografia que ilustra este “desce”. Podia ter escolhido a senhora Arrow Global? Podia, mas não era a mesma coisa. É que, quando penso em swaps, não sei bem porquê, não me ocorre o nome do ministro das Finanças. Ocorre-me a bela merda que Maria Luís Albuquerque, e outros como ela, andaram a fazer em empresas públicas. Diz o Viriato que, ainda Sòcrates mandava nisto tudo, e já a Dona Maria andava a dar cabo dos cofres públicos. A levar o país a sério à moda do PSD.

Fonte: Os truques da imprensa portuguesa

Plasma, suborno e tráfico de influências

Lalanda de Castro, até ontem responsável máximo pela Octapharma em Portugal, apresentou a sua demissão na sequência de buscas que tiveram lugar nas instalações da farmacêutica, relacionadas com a investigação sobre o negócio do plasma, esmiuçado pela jornalista Alexandra Borges (TVI), há pouco mais de um ano, na peça que podem ver em cima, cuja visualização é altamente recomendada. [Read more…]

Ontem senti-me representado no Parlamento

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Luaty Beirão não é nem nunca quis ser uma vítima. Não foi apanhado desprevenido a cometer um crime. Luaty Beirão desafiou uma ditadura, jogou com a coragem para demonstrar ao mundo que Angola é uma ditadura brutal, cleptocrática, sem liberdade, corrupta e que goza da subserviência de quem beneficia da sua caraterística ideológica real: O dinheiro.

Isabel Moreira subiu ontem ao púlpito da Assembleia da República para, de forma clara e objectiva, chamar os bois pelos nomes. Perdão: os ditadores cleptocratas pelos nomes. Já era tempo de se constatar o óbvio, na casa da Democracia. Ontem senti-me verdadeiramente representado no Parlamento. Não é algo que aconteça muitas vezes. Um forte aplauso, senhora deputada!

Foto: Paulo Novais/Lusa@Esquerda.net

Lettres de Paris #43

L’amour court les rues

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Hoje não fui para o Ladyss. Tinha trabalhos para ler e em casa achei que estava mais sossegada. Fui, no entanto, beber um café ao Saint-André e caminhar um bocadinho, pequenino, aqui no quartier. Gosto da Place Saint-André des Arts, aqui ao fundo da estreitíssima Rue Suger. Sempre gostei. Não sei porquê, mas acho que concentra a essência de Paris. A estação do metro, os cafés com as suas esplanadas em anfiteatro, a tabacaria, a loja de ‘souvenirs’, as livrarias e o modo como se alarga à medida que vamos chegando à Place Saint-Michel, com a sua fonte imponente e mais cafés, livrarias, lojas e o Sena logo ali, ao atravessar a rua e a Notre Dame vista da Pont Saint-Michel.
De maneira que me pus a apreciar a pequena praça onde Paris se concentra, a partir da esplanada do Le Saint André. Nem a Julie, nem o empregado que fala português (e mais 6 línguas, disse-me ele outro dia), embora seja albanês (também me o disse outro dia) estavam hoje no café, mas o empregado que lá estava deu-me na mesma os bons dias. Depois do café e da contemplação da praça, decidi ir passear o tal bocadinho, pequenino, e meti pela Rue Saint-André des Arts, de que também gosto, com as suas creperies boulangeries, cafés, restaurantes, lojas de bric-a-brac, uma livraria da Actes-Sud, boutiques de roupa, ervanárias, e – descobri hoje – uma deliciosa ruazinha, cheia de cafés e galerias e restaurantes e encanto – o Cours du Commerce Saint-André. Tirei poucas fotografias porque só tinha a máquina fotográfica pequenina comigo. Numa dessas fotografias, que tirei na ruazinha que vai desembocar no Boulevard Saint-Germain, reparei só há bocado quando passei as fotos para o computador, via-se um escrito vertical numa parede: l’amour court les rues. Quando tirei a fotografia não reparei no escrito. O amor corre as ruas ou corre nas ruas ou pelas ruas.

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Vladimir Putin, o novo presidente dos Estados Unidos da América

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Segundo a revista Forbes, Vladimir Putin é, pelo quarto ano consecutivo, o mais poderoso do mundo. Senhor absoluto do seu país, resistiu à farsa das sanções, financiou movimentos de extrema-direita um pouco por toda a Europa e é admirado, dentro e fora do país, onde continuará a dar cartas até que outro Putin lhe tire a tosse.  [Read more…]

O estranho caso da destruição de documentos do processo Gaianima

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A insólita inundação na CM de Gaia, relatada ontem no Aventar pelo Bruno Santos, que praticamente só afectou documentos referentes ao processo Gaianima, um processo de tons alaranjados com os barões partidários, capos e homens de mão à mistura, é tão conveniente que parece retirada de um filme. Água a 80 graus, proveniente de uma conduta que rebentou, de uma repartição selada por ordem de um tribunal, tresanda a Hollywood por todos os lados. A Hollywood e a esturro. [Read more…]

Lettres de Paris #42

Swagger

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“What hempen home-spuns have we swaggering here, so near the cradle of the fairy queen?”** pergunta Puck, em a Midsummer Night’s Dream, de Shakespeare. Atribui-se a Shakespeare a introdução de mais de 20 palavras completamente novas no léxico inglês, e, no caso de algumas delas, no léxico global. Swagger é exatamente uma dessas palavras. Descreve alguém que tem atitude, que caminha e fala e age com confiança e acredita que é importante, em suma, um bocadinho fanfarrão, até. Num certo sentido devíamos ser todos swaggers, creio eu, que, dependendo dos contextos, também faço um bocadinho de swaggering, como quase todos nós, suponho.
Vem isto a propósito do filme que fui ver hoje à tarde, no Mk2 – coté Saint-Michel. Um documentário chamado exatamente Swagger*, de Olivier Babinet, que nos mostra o que se passa na cabeça de 11 crianças e adolescentes que vivem nos bairros pobres e suburbanos de Paris onde, apesar de se avistar a Torre Eiffel, Paris chega apenas dificilmente. Uma das adolescentes diz que nunca viu um francês de gema, mas acrescenta ‘que é isso, um francês de gema?’, cheia de swagging, claro. Outra confessa ter uma amiga mesmo francesa, mas depois reflete melhor e conclui que afinal não, ‘elle est portugaise’. Não aparecem jovens de origem portuguesa no filme, mas há algumas menções, como esta e a de outro adolescente que conta estar apaixonado de ‘une belle fille, elle a les yeux verts, elle est portugaise’. Supõe-se que estas ‘portugaises’ frequentem o mesmo liceu que estes 11 rapazes e raparigas – o Claude Debussy, em Aulnay-sous-Bois .

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O fosso salarial

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Segundo dados revelados ontem pelo Eurostat, referentes a 2014, Portugal é o país da União Europeia onde o fosso entre os salários mais altos e a média é maior. Em sentido inverso, ocupamos o topo da lista no que diz respeito à diferença entre a média e os salários mais baixos, a par dos países escandinavos e de potencias como Itália e França. [Read more…]

Lettres de Paris #41

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De 7 à 77 ans…

Lembro-me bem de ser pequena e durante a maior parte da minha infância e juventude, do meu pai nos trazer quase todas as semanas a Revista Tintim, a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos. Eu e a minha irmã devorávamos aquilo e ficávamos à espera da próxima. Creio que essas revistas já não existem lá em casa. Deveria tê-las guardado, muito provavelmente, mas não nos ocorre guardar muitas coisas quando somos muito novos, porque quando somos novos o tempo não acaba nunca, nem as revistas do Tintin. Quando cheguei à Gare du Midi em Bruxelas há uns dias, encontrei numa das saídas da estação dois paineis enormes com cenas do Tintin. Em algumas ruas voltei a encontrá-lo, assim como em algumas montras de lojas daquela cidade. Uma instituição, o Tintin, para quem o tempo não acaba nunca.

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Lettres de Paris #40

Collecting money for…

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travel around the world. Sigo o exemplo deste rapaz que encontrei na Grand Place, em Bruxelas, antes de ontem. Amanhã vou passear pelas ruas de Paris com um cartaz destes ao pescoço. Mas em vez de pedir dinheiro (money, portanto, e não mooney como ele escreveu) para um iphone 7, pedirei dinheiro para viajar à volta do mundo.
 
E além desta ideia que roubei a este moço, hoje não tenho grande coisa a dizer. Dormi que nem uma pedra. Acordei tarde. Fui trabalhar. Fui pelas ruas do costume, mas não atravessei a estrada para cumprimentar de perto Monsieur Montaigne. Acenei-lhe do outro lado da rua, espero que tenha visto. No regresso passei por ele e voltei a cumprimentá-lo, desta vez tocando o seu pé dourado, embora sem pedir nenhum desejo, nem sequer o dinheiro para a volta ao mundo.
 

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Lettres de Bruxelles #2

La Tour de Babel et ‘l’événement jumelage’

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Hoje não tive tempo para tirar fotografias. Além de não ter dormido praticamente nada, estava a pé às 7 e um quarto da manhã em Bruxelas, 6 e um quarto da manhã em Portugal. A um dia feriado, enfatize-se, de onde se conclui que não há – pelo menos hoje não houve, de certeza – justiça no mundo. Foi isto que eu pensei exatamente, ainda a dormir, quando tomei banho e me vesti e comi o pequeno almoço no The Augustin, na Avenue de Stalingrad. Paguei o hotel e pedi ao senhor da receção que me chamasse um táxi para ir para a Place Madou, nº 1. Fez cara de caso e disse que um táxi, antes das nove horas, em Bruxelas, podia ser um problema. Foi a minha vez de fazer cara de caso, ou melhor, de surpresa. Um problema, porque? Explicou-me que o táxi podia levar vários (e longos) minutos a responder e depois a chegar e, ainda depois, a levar-me ao meu destino. Devo ter feito um ar ligeiramente desesperado, porque o senhor ligou para três companhias de táxis até que uma lhe disse que um táxi estaria ali em 15 minutos.
 
Sosseguei. O táxi apareceu ainda nem 10 minutos haviam passado. O motorista conduzia como um louco, sem necessidade, pensava eu, já que não estava atrasada. Como ainda ia meia a dormir, lá aguentei os improprérios que ele dirigia aos outros condutores e os solavancos. Em pouco tempo estavámos em frente à Torre Madou, no número 1 da praça com o mesmo nome, um dos edifícios da Comissão Europeia, em Bruxelas. Entrei no edifício e fiquei pasmada. Uma fila gigantesca de pessoas para passar o controle. Obviamente não me havia ocorrido tal coisa. Passar no controle. Ainda que faça sentido que assim seja, a situação dentro do edifício estava absolutamente caótica. Lá me meti na fila, que havia eu de fazer. Ouvi falar português e travei conhecimento com um compatriota muitíssimo simpático, cuja mulher há-de ter sido minha aluna, na Universidade de Aveiro, nos idos de 1990 e troca o passo. Descobrimos conhecimentos comuns, falámos disto e daquilo e a fila não andava nem desandava. Estavamos nisto e ouço alguém dizer ‘Madame Figuêredo’, ‘Madame Figuêredo’… ‘C’est moi’, disse eu, diante da menina que por mim chamava. Embrenhada na conversa com o compatriota simpático não me apercebi que desde que tinha chegado tinham já passado uns bons 15 a 20 minutos e estava na hora, não da minha conversa, mas de dar início à primeira sessão em que eu nem sequer devia estar, mas aparentemente alguém tinha decidido que todos os oradores deviam estar sentados na mesa, desde o início.
 

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Falemos de refugiados

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Helena Ferro de Gouveia

No mundo quase perfeito de Freiburg, uma pequena cidade estudantil alemã conhecida pelo seu activismo anti-nuclear e pro direitos civis, uma jovem estudante de medicina de 19 anos foi violada e assassinada.
Maria era voluntária, como muitos outros universitários, num centro de acolhimento a refugiados e estes eram a sua causa.
Maria nasceu no seio de uma família culta, o pai é jurista , consultor da Comissão Europeia, e um dos autores da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia.
A jovem foi morta por um afegão de 17 anos, que chegou à Alemanha como menor não acompanhado.

Este crime suscitou de imediato uma tentativa de aproveitamento político pela extrema-direita. Tentativa que fracassou por três motivos: o comportamento responsável dos media alemães no tratamento deste caso (faça-se uma análise da linguagem utilizada e descobre-se objectividade, factos e não sensacionalismo); a intervenção dos partidos políticos democráticos à direita e à esquerda e as declarações da família da jovem.
Logo após ser conhecido quem é o presumido autor a família de Maria apelou a quem estivesse solidário a dor que sentiam que doasse para uma iniciativa de apoio à refugiados. Essa seria a vontade de Maria.

O ódio combate-se com Amor.
Este é um dos muitos momentos em que tenho tanto orgulho em ser também alemã.

Lettres de Bruxelles #1

Nationalité: indeterminée

A menina da recepção do hotel estendeu-me um papel que eu devia assinar e completar com o meu endereço de email. Assim fiz e quando ia devolver-lhe o papel reparei que na nacionalidade estava escrito ‘indeterminada’. Risquei aquilo e escrevi ‘portugaise’, mas depois fiquei a saborear, por um instante, a minha ausência de nacionalidade momentânea e perguntei à menina porque tinha ela escrito aquilo. Ela respondeu que não sabia, de facto, a minha nacionalidade e depois que eu falava tão bem francês que era difícil perceber de onde eu era. Agradeci-lhe o elogio, mesmo se não é verdade que fale assim tão bem francês, já sabemos. E acrescentei que tinha gostado daquilo da nacionalidade indeterminada, que era a primeira vez que me acontecia e que me soube bem, mesmo se por breves momentos, não ter nacionalidade. Claro que pensei de mim para mim que soube bem porque foi por momentos e porque, claro está, eu tenho uma nacionalidade, por muito que pudesse ter outra qualquer. Mas o facto de eu ter sentido a necessidade de escrever ‘portugaise’ em vez de deixar estar ‘indeterminée’ revela mais sobre o que me sinto, afinal, do que aquilo que gosto de pensar ou expressar que sinto.

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Lettres de Paris #39

Les gens heureux lisent et boivent du café

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foi o título de um livro, na montra da Compagnie, que me despertou a atenção quando passei por lá a caminho do Ladyss. As pessoas felizes lêem e bebem café. Juntar-lhe-ia um cigarro e o título do livro que, pesquisei depois, foi escrito por Agnès Martin-Lugand, que não conheço (apesar do livro estar traduzido em português e editado pela Guerra & Paz) faria todo o sentido para mim. Pelas críticas que li, quando pesquisei, acho que também não vou querer lê-lo. Fico-me pelo título na montra da Compagnie que me fez parar hoje a caminho do trabalho.
 
Tenho bebido mais café e, sim, fumado mais cigarros, do que tenho lido, por estes dias. Gasto os dias não sei bem em quê (enfim, aparte as horas em que estou no Ladyss ou a passear) e acabo por ler pouco, ultimamente. Longe dos tempos em que lia compulsivamente tudo o que apanhava, muita porcaria incluída neste tudo. Agora leio menos, não só aqui em Paris, como em casa, na minha vida normal. Faço isso, mas ao mesmo tempo lamento não ler mais. São já raras as vezes em que atravesso a noite até de manhã agarrada a um livro, como fazia há uns anos – não assim tantos – muitas vezes. A culpa não é dos livros, evidentemente. Há milhões de livros por ler que me fariam – se os lesse – ficar agarrada a eles noite fora. O trabalho, desde logo. Uma pessoa vem para Paris cheia de planos de melhor gestão do tempo e acaba por ter menos tempo do que tem em casa. Paris tem muitas distrações e estar longe de casa, da minha rotina também me distrai, é a verdade. Desconcentra-me até, se querem saber. Depois convidam-me para coisas (de trabalho) e eu não sei dizer que não. E é assim que me vejo a responder a solicitações intermináveis. Quando pensamos que uma tinha acabado, aparece logo mais uma, ou mais duas, ou as que forem, em catadupa.
 

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Lettres de Paris #38

Vivre à Paris c’est très bon, oui, surtout si vous n’y vivez pas…

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Paris tem 20 arrondissements e muitos mais quartiers. Cada bairro tem as suas características e há para todos os gostos. Os mais comerciais como Terne, Rue Clerc, Poteau, os mais turísticos como – claro – o da Torre Eiffel, Saint-Michel, Montmartre… os mais animados como o Quartier Latin ou République, os mais ajardinados – Luxemburgo, Monceau e os mais ‘fashion’ como o Marais ou o Canal Saint Martin. Seja como for, como disse, há bairros para todos os gostos. Uma coisa têm todos em comum, no entanto (ou quase todos): o preço das casas, quer seja para comprar ou alugar. Outro dia fiquei embasbacada diante de uma montra de uma imobiliária em Montmartre onde um anúncio dizia que um ‘estúdio’ com 10 metros quadrados custava, por mês, 440 euros. 10 metros quadrados tudo, o estúdio, a casa de banho e a cozinha. Pergunto-me como seria viver em 10 metros quadrados, tipo o tamanho da minha casa de banho grande e, sinceramente, ou sou eu que tenho uma casa de banho mesmo grande ou não sei.
 
Nos primeiros dias que aqui cheguei, desta vez, via também os preços de casas para comprar, por curiosidade, obviamente, que não tenho dinheiro para isso nem sou o Engº Sócrates, bem entendido. A verdade é que as casas mais baratas que vi, com 50 ou 60 metros quadrados, deve dizer-se, custavam mais de 1 milhão de euros. Eu repito: mais de um milhão de euros. E havia muitas que custavam perto de 2 milhões com umas áreas um pouquinho maiores, tipo 80 ou 100 metros quadrados! Por falar em Sócrates…. afinal os 2,25 milhões de euros que se diz que valia a casa onde vivia em Paris, no quartier Passy no 16º arrondissement, não são assim tantos como isso atendendo a que se diz também que o apartamento teria 225 metros quadrados e o 16éme é um dos bairros mais chiques de Paris. Só compreendi isto depois de ver aqui os preços das casas, claro está.
 

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Lettres de Paris #37

Au Portugal la vie est plus facile

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disse-me um senhor francês, ao jantar, no Le Saint-André. Apesar da gripe das aves que tem afetado milhares de patos no sul de França, comi ‘magret de canard’. Gosto de pato, que querem? Não são uns milhares de patos mortos que me vão afastar de um dos meus pratos preferidos da cozinha francesa. O outro são as vieiras que, lamentavelmente só comi ainda uma vez, no Le Centre du Monde, já há umas boas semanas. No Le Saint-André não há vieiras, infelizmente, de modo que quando lá vou como pato frequentemente. O empregado simpático que fala comigo em português do Brasil e parece que me quer arranjar amigos disse ao casal sentado na mesa em frente da minha, estava eu a levar uma batatinha assada à boca, que eu era portuguesa. A seguir anunciou-me que os senhores viviam ‘à Lisbonne’. Sorrimos uns para os outros. O homem era francês, a mulher irlandesa e vivem em Lisboa na maior parte do ano. Trocámos palavras de circunstância ao princípio. Confesso que estava mais interessada no pato e nas batatinhas assadas que na conversa dos habitantes de Lisboa, mas assim mesmo lá fui falando com os senhores, quase sempre em francês. Gostam muito de viver em Portugal, conhecem Aveiro, ‘trop petite’, e adoram – que surpresa – Lisboa, onde vivem há já bastantes anos.

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Lettres de Paris #36

‘De ma naissance a ma mort, j’ai trouvé le temps beau’

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Na lápide da sepultura de Regina e Abel Taïbi, na divisão 18 do grande Cemitério de Montparnasse, está escrita esta frase. Não sei quem foram os ali sepultados, ao contrário de muitos que ali repousam o que se diz ser o sono eterno, Regina e Abel são totalmente desconhecidos. Mas ao passar, já de regresso à entrada principal do cemitério, pela sua sepultura, não pude deixar de sorrir ao ler a frase. Uma coisa tão simples, achar sempre o tempo belo, desde que se nasce até que se morre. E, no entanto, passamos a vida atormentados por mil coisas sem importância e mais algumas que terão importância, mas não apagarão jamais a beleza que há em toda a parte. A beleza que há em tudo o que há. O tempo belo que vivemos enquanto somos vivos.
A beleza do enorme Cemitério de Montparnasse, com 18,72 hectares, 42 mil sepulturas, 1244 árvores de 40 espécies diferentes é inegável. Mais ainda nesta tarde muito fria, com sol e um céu talvez demasiado azul para se fazerem visitas a cemitérios. Visitei pela primeira vez (e única, até hoje) o Cemitério de Montparnasse há mais ou menos 20 anos, num tempo seguramente belo, em que eramos novos, eu e o N. e ninguém que conhecessemos, incluindo nós mesmos, estava morto. Lembro-me de ter posado, sorridente, atrás da campa de Sartre e Beauvoir, que estão sepultados logo à entrada, na divisão 20. A lápide era diferente, entretanto alguém a terá mudado. Esta é mais alta e branca e hoje estava particularmente bonita com a luz e as sombras que havia. Prestei-lhes a minha homenagem em silêncio e voltei para trás um pouco comovida, não pela sepultura, mas pelas coisas de que me lembrei à sua frente. Passei de novo a entrada e continuei pela Avenue du Boulevard até à divisão 21, onde está sepultada Marguerite Duras. A campa de Duras é justamente o oposto da de Sartre e Beauvoir. Marguerite Duras está sepultada com o seu último amor, Yann Andrea e em cima da pedra rasa estão rosas vermelhas, cactos, conchinhas, um vaso enorme onde estão enterradas centenas de canetas e de lápis. Não me lembrava da campa de Duras, penso. Mas, claro, ela morreu em 1996, depois de eu ter visitado o cemitério, lembro-me logo a seguir. Deixo um pequeno lápis de madeira enterrado no vaso e volto outra vez para trás, pelo mesmo Boulevard, em busca da campa de Durkheim, na 5ª divisão.

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