
Autor convidado – Paulo Guinote
25 de Abril
Paulo Guinote – A Educação do Meu Umbigo
Tinha 9 anos, não pude combater pelo 25 de Abril. Sou apenas um beneficiário da Liberdade e da Democracia que nasceram há 40 anos.
A comemoração do 25 de Abril deveria ser algo consensual, mas, em simultâneo, é impossível que o seja.
Porquê? Porque há muita gente que dele se quer apropriar e outra tanta que o quer esquecer, mesmo se quase tudo lhe deve. Ao fim de 40 anos parece que há quem pareça querer contar os tostões gastos em tal comemoração.
É triste, é mesquinho, é vergonhoso.
O 25 de Abril não é de todos porque há quem dele não goste. Tudo bem, estão no seu direito, mas esse direito só é possível graças a esse mesmo 25 de Abril.
Era bom que disso se lembrassem.
O Rebuliço
Acordo para a semi-escuridão do quarto. Só umas quantas barras da persiana estão descerradas, e pouca luz deixam entrar. O meu quarto é ao fundo do corredor, e todos os sons da casa parecem viajar até à minha porta entreaberta, acidentalmente amplificados por um qualquer jogo de pingue-pongue que persistem em jogar paredes fora pelo caminho. Foi isso que me acordou, em vez do habitual chamamento da minha mãe, São sete horas, anda, levanta-te, ao mesmo tempo que ergue a persiana para deixar entrar as manhãs. Fico por momentos a observar os pontinhos de luz na parede, em fileirinhas alinhadas e bem comportadas, e a tentar decifrar o que se estará a passar. Olho para o meu relógio: o ponteiro ainda nem sequer bateu nas sete.
O bulício desusado chega-me em sussurros e passadas, para cá e para lá e de lá para cá, os chinelos arrastados do meu pai, as chinelitas apressadas da minha mãe, o raspar de dedos na porta da rua que se fecha e se abre de mansinho. Vozes. A primeira coisa que me lembra é que a minha avó terá morrido. Só pode ter sido coisa qualquer assim.
Aproximo-me devagar, corredor fora. É o vizinho de cima. A porta abre-se e fecha-se outra vez. Detenho-me antes de virar a esquina. Reviro as palavras que ouço, sacudo-as e espremo-as, exijo-lhes sentido, respostas. Já sou suficientemente grande para perceber. Há muito tempo que percebo muita coisa, a bem dizer. E fico-me por ali, naquele canto, encostada à parede, especada. Não tanto menina marota a ouvir a conversa dos adultos, quanto jovem estupefacta a tentar fazer sentido da realidade.
40 anos desta espécie de democracia
Já nasci nesta espécie de democracia em que vivemos hoje. Por favor, não me tomem por ingrato: estou eternamente agradecido à revolução e como é óbvio, prefiro viver nesta espécie de democracia do que na ditadura que não conheci (ainda bem) mas sobre a qual li e ouvi inúmeras histórias, de pessoas com diferentes “sensibilidades”, sobre como era, o que aconteceu e o que mudou. Tenho exemplos na família, de um bisavô distinguido pelo seu contributo para o enchimento do Celeiro de Portugal até ao pai da tia paterna que foi perseguido, torturado e assassinado pela polícia política. Estou certo que, se o meu bisavô fosse vivo, seria ainda mais salazarista do que outrora depois de ver o que esta espécie de democracia fez ao seu Alentejo, deixado ao total abandono e progressiva desertificação, onde nem uma auto-estrada que seja chega a Beja, no país com a suposta 4ª melhor rede da estradas do mundo . E como diz o meu avô, seu filho, teria “500 carradas de razão”. Esta espécie de democracia parece ter abandonado o Alentejo à sua sorte e aridez. Da mesma forma, estou certo que o resistente anti-fascista e pai da minha tia ficaria “ligeiramente” desiludido com o resultado daquilo por que deu a sua vida.
Já a seguir: governo concessiona governo
Todos os rios foram dar ao Carmo
*Afonso Brandão
Acabei de chegar do Largo do Carmo.
Tenho 16 anos.
Esperava ter visto um largo em luta, mas vi um largo em festa, com milhares de pessoas e não consigo entender.
Do 25 de Abril – uma época que adorava ter vivido – não posso esquecer que nos trouxe várias coisas de importância extrema como o Salário Mínimo Nacional, o Serviço Nacional de Saúde, a Liberdade de Expressão, o fim da Censura, o fim da Guerra Colonial, o fim das Prisões Políticas, um Poder Local Democrático, mais Direitos das Mulheres.
E numa altura em que todas estas conquistas estão a ser “assassinadas”: com um SNS que não serve a nossa saúde, onde os nossos avós vivem com pensões de fazer corar de vergonha quem lutou para nos dar a liberdade, com um ordenado mínimo que não permite pagar uma casa e meter comida na mesa, todos os dias, pergunto-me: que razões há para fazer a festa?
Para lutar, sim, temos todas as razões. A indignação não a vi lá. E não entendi! Tal como não entendi porque estavam lá tão poucos jovens. Mas entendi e curvo-me de respeito por todos os de “idade maior” que lá vi. A luta e a indignação, espero ver amanhã quando for descer a Avenida da Liberdade!
25 DE ABRIL, SEMPRE!
Florinda Ferreira da Silva
Começa um gajo o seu 24 de Abril com a habitual chuva intermitente e leva com isto na paragem do autocarro:
vulgar publicoisa do mais surpreendente gamador e vencedor do PREC, Belmiro, o verdadeiro continente do sucesso, entre o golpe e a comissão de trabalhadores, de um extinto banco aos aglomerados de madeira ou versa-vice, e logo no rodapé dá o mesmo gajo com o nome da avó. [Read more…]
A véspera (rutilante) do futuro (ainda) adiado
Ela era linda. Morena, como ainda convém hoje aos meus olhos, fiéis a esse tom de pele inultrapassável e absoluto. Tinha 17 anos; eu, 23. Partilhávamos ao jantar a mesma sala, as mesmas mesas (uma em frente da outra) e trocávamos olhares desde o primeiro dia em que entrei na Tubuci para uma das especialidades da sua cozinha. Eu estava fardado, ela vestia de negro. Quando a via de negro, deixando faiscar os seus incríveis olhos verdes num contraste de sonho, todo eu me derramava por dentro e deixava que a minha energia voasse pela sala ao seu encontro.
Decidimos namorar aí por finais de Fevereiro. Exacto, nos meus anos. Ia buscá-la ao liceu, ficávamos a semear beijos e a cultivar a ternura até quase à hora de jantar. Depois, chegavam os meus camaradas de mesa, ela ia deixar os livros ao quarto e descia.
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Já se sabe, sem carta registada com aviso de recepção, não conta
“Autarquia não tinha conhecimento formal de problemas de segurança com a estrutura” [P]. Foram as praxes, que não vão a tribunal.
Não, não, as exportações estão a portar-se muito bem e a recuperação é uma evidência
[A Petrogal ] é o grande exportador por excelência, em peso e em dinamismo anual, mas importa tanto que acaba por quase anular o seu contributo aparente para a expansão anual. [dinheiro vivo]
A esperança na esquerda europeia do Tó-Zé
Continua a dar que falar em França. Desta vez nem foi Hollande, mas alguém que sempre lhe foi próximo. Porque Sarkozy também não deixou muitas saudades, estes pequenos episódios, somados às promessas por cumprir, ajudam a explicar o crescimento da Direita tradicional e até de Martine Le Pen, que agradecem aos socialistas franceses, que desde Mitterrand não têm emenda.
Corramos todos a libertar o Cravo
Que o artista Bordalo II tão bem retratou na Rua José Gomes Ferreira, em Campo de Ourique.
Uma imagem vale mais do que mil palavras? Vale mais do que um milhão e retrata fielmente o que me vai na alma.
Amanhã vou para a rua gritar.
25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!
TSF ocupada

Um grupo de cerca de 50 pessoas ocupa as instalações, e a emissão em directo da TSF, “em defesa do direito à palavra“.
O 25 de Abril dos Aventadores e dos seus leitores

No dia em que a Revolução faz 40 anos, os autores do Aventar que assim o entenderam contam as suas vivências deste dia.
Convidamos também os leitores a publicarem, como bloguer convidado, o seu 25 de Abril, vivido em pessoa ou, para os mais novos, pelos relatos que lhes chegaram. Podem enviar os textos e fotografias para o email seguinte: ![]()
Os artigos sairão ao longo do dia 25. Aqui fica o convite: vá por aqui passando.
O novo Portugal imperial
Portugal tomou de assalto, em 2011, vários países europeus sem que se desse por isso. Fenómeno único na história da humanidade, apenas é conhecido entre os que escutam a propaganda do governo, já que se tratou de uma ocupação silenciosa, discreta, mas oportuna.
Assim, hoje sabemos que a responsabilidade da subida das taxas de juro diligentemente operada pelos míticos mercados nos países assinalados a vermelho só pode ter uma explicação: a política económica do anterior governo, tal como acabamos de constatar que a sua descida é fruto da acção diligente do actual.
Temos assim que José Sócrates, que governava em Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, teve como sucessor Passos Coelho, o milagreiro que hoje celebra uma estrondosa vitória. Governantes de Pigs, diz-se em inglês, e há uma vara que acredita na palavra do seu porqueiro. Aguarda-se o alargamento do nosso novo império, mal para os lados BCE se dê mais uma reviravolta política (será desta que nos vingamos dos séculos de saque britânico?).
Pior do que a imbecilidade, só a estupidez de nos acharem ainda mais imbecis que os próprios imbecis que repetem este mantra em pose de profunda descontracção.
Três mortes em Braga
Queda de muro que pertence a ninguém cai sem avisar e mata três pessoas.
Nenhuma delas sou eu.
Não há problema, abre-se já a caça ao Coelho
«Não se deve esfolar um coelho antes de o caçar», diz Passos Coelho.

O outro candidato da direita portuguesa
Francisco Assis, o homem que catapultou o Renault Clio para o estrelato da showbiz político nacional, aproveitou a Quadra Pascal para nos relembrar, uma vez mais, que o PS de socialista só tem o nome e alguma propaganda, já muito gasta e cada vez menos convincente. Em declarações à Radio Renascença, e imbuído do espirito católico, apostólico e romano que por ali se respira, reforçado pela data simbólica e pelo seu nome abençoado, Assis pregou ao seu eleitorado natural, situado no centro mas inclinado para a direita do espectro, para o informar que está alinhado com Durão Barroso na luta pela ascensão do bloco central.
Cavaco contra intrigas, agressividades, crispações e insultos na política
Diz o homem da presidência que inventou a intriga das escutas em Belém.
O 25 de Abril e a escola de Durão Barroso e Nuno Crato
Santana Castilho *
Tornou-se um lugar-comum dizer que a história da Educação da democracia é a história de sucessivas reformas avulsas, quase sempre descontextualizadas e elaboradas sem o concurso dos docentes. Mas a esta característica consensual veio acrescentar-se a desolação dos anos de Crato. Os constrangimentos impostos pela crise sofreram a interpretação de um fanático dos resultados quantitativos que, incapaz de ponderar os efeitos das suas políticas, está a produzir sérias disfunções no sistema de ensino, que nos reconduzem à escola de 24 de Abril, aquela que Durão Barroso evocou e celebrou há pouco, no antigo Liceu Camões. Porque ambos nos querem fazer acreditar que o sonho de modernizar o país foi um erro, que estava acima das nossas possibilidades, que devíamos ter continuado pobres e sem ambições, a eles e a todos os que olham a Educação como mercadoria, aos que ainda não tinham nascido em Abril de 74 e hoje destroem Abril com a liberdade que Abril lhes trouxe, importa recordar, serenamente, o que Abril fez: [Read more…]
A memória ainda não é assim tão curta
Depois de terem escolhido ir além da troika, optando por metas mais agressivas do que o acordado, e de terem por estratégia equilibrar as contas públicas através a redução de rendimento dos portugueses, vem o PSD/governo/CDS dizer que discorda da troika.
“Nós respeitamos sempre as
opiniões de todas as instituições. É
sabido que eu tenho há muito
tempo uma divergência latente com
muitas das posições do FMI.
Discordo frontalmente dessa
opinião do FMI sobre o salário
mínimo”, declarou Marco António
Costa à Lusa.O chefe de missão do FMI Subir Lall
afirmou na segunda-feira ser
“prematuro especular sobre o
aumento do salário mínimo”. Uma
declaração que mereceu resposta
por parte do vice-primeiro-
ministro, Paulo Portas, ao reiterar
a disponibilidade do Governo para
discutir o aumento do salário
mínimo no momento em que o
programa de assistência financeira
está a terminar. [P]
Acredita quem quer que isto não é conversa eleitoral por parte do partido liderado por aquele que declarou estar-se nas tintas para as eleições.





Comunicado do “



O 25 de Abril na capa do 





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