Por Noémia Pinto
Sinto-me insultada.
E não devia sentir-me assim.
Tentaram ser pedagogos e chamaram-me cigarra. Com toda a razão. Talvez tenha sido isso que me ofendeu mais. Chamarem-me preguiçosa, mandriona, gastadora, irreflectida, pouco previdente e tudo o mais implícito no termo e terem razão para o fazer.
Neste momento sou, como infelizmente o são milhares de Portugueses, uma cigarra. Vivo da ajuda de terceiros. Não sou capaz de prover ao meu sustento e ao sustento dos meus dependentes, a saber, duas crianças, dois cães e quatro gatos. Não soube poupar os ganhos exorbitantes (!!!) que tive até há algum tempo atrás e agora estou na penúria, a viver da caridade do Estado, ou seja, a viver da caridade de todos os meus compatriotas.
Mas deixem-me contar a história desta cigarra.
Comecei a trabalhar com 17 anos de idade. Como operária numa fábrica. Tinha reprovado na escola e, depois de completar o 9º ano de escolaridade, a minha mãe pôs-me a trabalhar. Já aí se notava a minha «costela» de cigarra. Eu não queria ser operária. Não queria trabalhar. E a minha mãe, formiga muito trabalhadora, obrigou-me. O Director-Geral da fábrica, também ele um homem de trabalho, uma grandessíssima formiga, disse à minha mãe que eu não queria trabalhar e, por isso, ia pôr-me na linha de produção, apesar de os meus testes psicotécnicos terem sido os melhores de todos os candidatos.
E lá comecei eu, mas como boa cigarra poliglota que sou, evidenciei-me pelos conhecimentos de Inglês. Vá-se lá saber como é que num departamento de produção se repara que uma formiga fala línguas estrangeiras… Fui observada frequentemente e prolongadamente e o novo Director-Geral achou que eu era mesmo o insecto perfeito para ser sua tradutora/ secretária. E esta formiga lá saiu do carreiro… [Read more…]





















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