amar uma mulher

o amor dos meus amores, pela sua doçura, paciência e dcompanhia

…para a mulher que trata de mim… ela sabe quem é

 

Não é simples definir a palavra amor. Ainda mais, se estamos apaixonados por ela.

Por ser um sentimento, é capaz de não precisar definição. Os sentimentos vivem em nós, multiplicam-se em nós, fuzilam-nos sem morrer e fazem de nós seres felizes, especialmente se tratam da nossa saúde, não no sentido calão de ironia, mas na realidade tomam conta de nós e ficam tristes se vêm que nos próprios, aparentemente, não cuidamos estes corpos doentes e envelhecidos, que, não entanto, ainda têm a força de trabalhar com ímpeto e gracejo.

Amar uma mulher hoje em dia, e que o amor permaneça ao longo do tempo, com a fiel companheira da nossa cronologia, que apenas tem um homem, esse que a ama e mais nenhum, que eu saiba. Não pior felonia que as mulheres que amamos, por causa da sua libido, andem também com outros, esse amor que em todos os meus textos, denomino amor de meia hora, que não exprime sentimentos nem apoio. Se assim for, seria uma prostitua e era mais fácil pagar às senhoras de rua que amar a nossa

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para os amigos que se importam comigo

mãos amigas

..para a minha  Graça Pimentel, que tem tomado especial conta  de mim….

A lista de pessoas que denominamos amigos parece-me que deve ser muito curta. Se assim não for, ficamos desiludidos quando, nos dias de mais urgência por causa de doença ou de solidão emotiva, essas pessoas não se lembram de nós. Defini amigo pela negativa no meu ensaio de 28 de Setembro último. Até acabar na parte positiva, na frase em que digo: Os amigos são os que não nos conhecem e, no entanto se interessam por nós. Os que nos acompanham sem pedir nada em troca. Eis porque prefiro esta definição: esse que vem do latim, latim amicus: adj. s. m.

que ou quem sente amizade porque está ligado por uma afeição recíproca = companheiro ≠ inimigo. Que ou quem está em boas relações com outrem ≠ inimigo, que ou quem se interessa por algo ou é defensor de algo (ex.: amigo dos animais). Como os do Aventar, que sem nunca me terem visto nem em fotos, são capazes de enviar mensagens de ânimo para arrebitar-nos.

No entanto, podemos parecer injustos. Deve haver muitas pessoas que nos fazem bem e não o divulgam. Agem em silêncio a nosso favor, mas não divulgam o bem que nos fazem entre outras pessoas. Eu diria que agem em silêncio, apesar o nosso reclamar

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os amigos

mãos solidárias e recíprocas, símbolo de que dá e nada solicita

Amigo é um substantivo muito usado nas conversas do dia-a-dia. Apesar de estar definidos en todos os dicionários, acaba por ter uma séria de significados. O que me parece menos meigo, é quando a palavra é usada em detrimento de outras pessoas: oiça meu amigo, é melhor ir embora e deixar-nos em paz. Ou, se o substantivo é usado como apelativo: hei amigo, ande cá…. Ou, mais grave ainda, se referimos alguém de importância na vida social, na sua ausência: esse deputado é muito meu amigo, confie em mim… Ou o candidato a Presidente da República, o Primeiro-ministro, o nosso chefe, são incluídos na conversa como pessoas da nossa intimidade. Durante uma época da minha vida, fui enviado ao Chile pelo meu Catedrático da Universidade inglesa onde estudava e ensinava, houve um alçamento militar e o nosso Presidente foi assassinado, como tenho referido em outros ensaios de este sítio de debate; o meu Chefe, sabia o que era um campo de concentração, tinha passado quatro anos em Auschwitchz, (Auschwitz-Birkenau é o nome de um grupo de campos de concentração localizados no sul da Polónia, símbolos do Holocausto perpetrado pelo nazismo. A partir de 1940 o governo alemão comandado por Adolf Hitler construiu vários campos de concentração e um campo de extermínio nesta área, então na Polónia ocupada. Houve três campos principais e trinta e nove campos auxiliares). Bem sabia Sir Jack Goody o que eu [Read more…]

Gainsbourg, Serge

A publicidade, por vezes, roça o genial. É o caso desta imagem dedicada a Serge Gainsbourg, possivelmente o mais fantástico compositor de música popular francesa do séc. XX. Isto, para além do provocador, boémio, polémico, bon-vivant, alcoólico, dissoluto & etc. cidadão público. Se esta ou esta canções excitaram o mundo no seu tempo e se adequam mais à imagem publicitária que o homenageia,

eu escolho outra canção, cuja letra só por si é música, para relembrar Gainsbourg, o poeta. Os menos fluentes em francês que me perdoem, mas só por isto valeria a pena terem-se esforçado um pouco mais.

Aventador Expõe na Maia

Assim reza o press:

José Magalhães nasceu no Porto em 1952. Escreve e fotografa desde a adolescência.
Fez diversas exposições de fotografia, colectivas e individuais, em inúmeras cidades portuguesas (Porto, Braga, Coimbra, entre outras) e chega agora à Maia onde vai apresentar um conjunto de dezasseis trabalhos fotográficos intitulados “Imagens e Bocados”.
A exposição estará patente no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Vermoim, a partir de hoje 25 de Setembro, data da sua inauguração (pelas 21h30). A entrada é livre.

Pois, mas agora vamos falar de um amigo. O José Magalhães é meu companheiro de blogosfera aqui no Aventar e um tipo cinco estrelas. Como se tal não fosse pouco, ainda consegue ser um fotógrafo e peras! Ele diz que é amador. Pois. Amador? Não! Quem consegue fotografar o Porto como ele o faz não é amador. É um Poeta.

Eu vou lá estar. Orgulhoso por o contar entre os meus amigos.

a amizade é uma relação cultivada

as mãos do Joquer quem toma conta de mim

… para Joker, quem me tem curado…dedico este reedição…

Escrever sobre um sentimento, não precisa citações. A amizade é uma   afeição recíproca entre duas pessoas que cultivam boas relações. É a sinceridade entre essas duas pessoas que sabem partilhar sentimentos e calar. Em uma palavra, é a confiança mútua entre pessoas de qualquer idade que sabem tomar conta uma da outra, sem entrar pela vida privada do outro. É um sentimento de nunca abandonar a pessoa por quem se sente afectividade Os gregos clássico definiam a amizade como Aristóteles Assim como os motivos da Amizade diferem em espécie, também diferem as respectivas formas de afeição e de amizade. Existem três espécies de Amizade, e igual número de motivação do afecto, pois na esfera de cada espécie deve haver afeição mútua mutuamente reconhecida.
Aqueles que têm Amizade desejam o bem do amigo de acordo com o motivo da sua amizade; desse modo, aqueles cujo motivo é a utilidade não têm Amizade realmente um pelo outro, mas apenas na medida em que recebem um bem do outro.
Aqueles cujo motivo é o prazer estão em caso semelhante: isto é, têm Amizade por pessoas de fácil graciosidade, não em virtude de seu carácter, mas porque elas lhes são agradáveis. Assim, aqueles cujo motivo da Amizade é a utilidade amam seus amigos pelo que é bom para si mesmo; aqueles cujo motivo é o prazer o fazem pelo que é prazenteiro a si mesmo; ou seja, não em função daquilo que a pessoa estimada é, mas na medida em que ela é útil ou agradável. Essas Amizades são portanto circunstanciais: pois que o objecto não é amado por ser a pessoa que é, mas pelo que fornece de vantagem ou prazer, conforme o caso. A fonte de esta ideia é o livro Ética a Nicômaco de 333 antes de nossa era, versão francesa de 1992, Presses Pocket, Paris.
Texto que define não apenas uma intimidade entre duas pessoas, bem como o interesse ou despertar a simpatia de outra pessoa sobre nós, e de forma recíproca da outra pessoa sobre nós, que não nos abandona e não espera nada de nós, excepto essa mutua confiança

. Falar de amizade tem muitas palavras para serem usadas, é todo um tratado como os dos filósofos ou o interessante livro de Marguerite Yourcenar:  O tempo, esse grande escultor, de 1994 a primeira edição, 2006, a segunda, publicada por Difel, Paris e Lisboa. Defende a ideia que serve de entrada a este curto texto.

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médico

el trabajo más abnegado y sacrificado del mundo

….para Joker….

Este substantivo adjetivado, es siempre atribuido a una persona masculina. Pero, por las nuevas leyes que nos rigen, médico puede ser masculino o femenino. Nos curan, saben de nosotros más do que lo que nosotros de ellos, la conversación es siempre la misma: como está nuestra salud, como nos sentimos, si estamos alegre  o no, si seguimos sus orientaciones para mejorar nuestros males, si…si…, tantas interrogaciones, que nos sentimos pequeños, casi bebés, aun cuando seamos adultos mayores. [Read more…]

O Xarajib de Silves

Santi Palacios

Uma visão das “Mil e Uma Noites”. foto Santi Palacios

“O palácio do Xarajibe, de Silves, foi, no Ocidente, uma autêntica visão das “Mil e uma Noites”. Cantaram-no os poetas com o mais alto requinte, adornaram-no os artistas com obras de estranho lavor, celebraram-no os historiadores, como encantadora residência principesca. Dessa harmonia chegam até nós os ecos apagados, num suave murmúrio…E o Xarajibe esplende, de novo, rebrilhando em vivos fulgores. Ficaram célebres as suas noites de festa e de música, de poesia e de dança, de encantamento sem par; as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, de reflexos violetas e de branda penumbra; os seus dias claros e ardentes de tragédia e de luta, em que os pátios e os mosaicos das salas se tingiram do sangue da vingança e do crime; as suas madrugadas de terrores, de suspeitas e de alucinações; as suas manhãs de iluminura, aureoladas pela esperança de novas e felizes alianças; as suas horas de fogo e de guerra, em que tudo se joga e tudo se ganha ou perde. Evocar o Xarajibe é evocar uma época, um estilo de vida _ a época e o estilo de vida dos luso-árabes.”

In “Atlântico” por José Garcia Domingues (DOMINGUES, 1997, pág. 155) [Read more…]

Barclay James Harvest em Vila Nova de Gaia

Por esta não esperava eu, Barclay James Harvest nas arribas de Gaia. É hoje às 22h, oferta gentil da autarquia. Eu vou de metro.

Gostei muito deste bocadinho

A experiência de participar no Aventar, um bom esforço para tentar criar um blogue de topo a partir das caixas de comentários, e uma melhor tentativa de inventar blogues políticos plurais, foi gratificante, palavra a usar sempre nestas ocasiões.

Agradeço ao Ricardo o convite e aos aventadores a diversão conjunta enquanto a houve.

É realmente possível criar blogues onde se escreva sobre política sendo os participantes adversários políticos. E fazê-lo despreocupadamente com uma escrita popular, se quiserem meio tablóide, à velha imagem dos jornais, que a roda foi inventada antes da pólvora mas continuamos a usar as duas.

A minha capacidade de convivência com o analfabetismo é que é, até por deformação profissional, limitada. O resto é choque de egos, e escrever é sempre egocêntrico senhores, mais duas ou três trapalhadas, e para já levo a minha parte dessas coisas para a liberatura em formato blogue, regressando à primeira coisa que fiz quando aprendi a palavra html, na altura apenas uma sigla.

Acima de tudo,  e o que vale mesmo e sempre a pena, levo daqui amigos com quem na política nada tenho, mas ficaram meus camaradas na mesma. Colegas são as putas, como se sabe.

ADÃO CRUZ Um gesto de silêncio

         III VOL.

Caros amigos

 Acaba de ser editado o meu sétimo livro, o quarto de pintura e o terceiro deste conjunto de três, com o mesmo formato mas com subtítulos e cores diferentes.

 O livro teve o apoio da Fundação Ilídio Pinho, da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Ordem dos Médicos.

 Gostaria muito de o oferecer a todos os amigos, mas, como devem compreender, isso não é viável, pois são edições que ficam muito caras.

 Se, eventualmente, o quiserem adquirir para vós mesmos ou para oferecer, o que muito prazer me dá, podem pedi-lo a edicoes.engenho@gmail.com

 Como o livro não tem fins lucrativos, foi estabelecido o menor preço possível, de 30 euros.

 Um grande abraço do amigo

 Adão Cruz

o processo masculino feminino

o processo do amor correspondido

como era quando eramos novos...

O grande debate da actualidade é: ser homem, ser mulher, namoro heterossexual, namoro do mesmo sexo, namoro entre um mais novo e um mais velho. Enfim, namoros que nem precisam acabar numa relação íntima de dois no mesmo leito, ou nas últimas filas de um cinema de bairro. Namoros de flirt, como diria Georg Simmel (1917, Fundamental Questions of Sociology), que soube retirar da construção da sociedade civil a heterogeneidade da interacção emotiva, como lembra nos seus textos Josepa Cucó. A procura da denominada liberdade feminina a par da masculina, tem sido o discurso que ao longo dos Séculos perpetuou a ideia de que a masculinidade tem sido a espada de Damocles, que parece guardar a feminilidade para a masculinidade. Dois conceitos muito falados e definidos por John Locke desde 1666, e anteriormente, por Aristóteles, recuperados por Avicenas no Século IX, ao modificar as teorias muçulmanas de Fathoma, a filha de Mohamed, a quem ele ditara o El (al) Corão para orientar o comportamento não cristão entre homens e mulheres. E por Tomás de Aquino em 1256, ao usar Avicenas para escrever o seu famoso tratado de Suma Teológica, texto que ia queimando por heresia o acreditado pensador da divindade, do lucro de homem e mulher (à laia da Shakespeare e os seus Montagius e Capulletos), da poligamia e as suas inconveniências pelos ciúmes entre as mulheres deste tão alto marido, incapaz de poliandria. Avicenas e Aquino, falam de paixão, falam da relação entre homem e mulher, da solidão que subordina a segunda ao primeiro, e da vida pública que define o macho como entidade masculina, um pater famílias que sabe mandar e comandar, muito embora, não saiba cozinhar ou remendar roupas. Esses dois elementos do processo masculino – feminino, fundamentais para um ser humano se manter na História. Masculino e Feminino, também abordados por Freud em 1885 e 1906, ao definir a sexualidade como o motor do desenvolvimento da vida, com uma parte a evitar: thanatos, a morte material eterna, ou em vida ao ficar fora da História, fora da memória das pessoas.

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a morte do avô

O que o avô faz em vida

Não é em vão que Alice Miller recomenda, no seu texto de 1999, que a verdade liberta os seres humanos, as pessoas. Mas liberdade para quê? Talvez para o caminho do engano e da falsa verdade que o adulto tenta transferir aos pequenos, por causa do seu próprio temor. Ou, por causa da sua própria dor. [Read more…]

Duas palavras a Saramago

    

(Peço desculpa de estar a meter, tantas vezes, a família ao barulho. Se os digníssimos responsáveis pelo Aventar discordarem, agradeço que me digam e acatarei todas as indicações. Desta vez é um pequenino poema de minha irmã, a escritora e poeta Eva Cruz).   

(adao cruz)

                                   Duas palavras a Saramago   

    

Levantado do chão   

como só os Homens de sonho se erguem  

não há vida que te deite nem morte que te leve.   

A lucidez esparsa em luz nas páginas dos teus livros   

de mão dada com a terna dureza do teu carácter    

há-de curar os olhos da cegueira   

e abrir as palavras do teu Evangelho   

às correntes límpidas dos rios   

 que regam a terra de sabedoria.

In memoriam a José Saramago: O Serralheiro/Escritor

Insubmisso.
Interventivo…
Jamais Omisso,
Genuflectido!

Homem de Crenças
Homem Sofrido
Nas Desavenças
Sempre Temido…

Homem do Povo
Sua Condição
Sempre e de novo
Homem do Não…

De Proletário
A prémio Nobel
Tão Solidário
Quão admirável

Génio das Letras
Obra que medra
Sem meias Tretas
“Jangada de Pedra”

Palavra em riste
Sempre em peleja
Fácies Triste
Postura castreja

Com Portugal
Palavra ao vento
“Memorial
“De” um “Convento”

“Pequenas Memórias”
De tão ruim
Velhas histórias
Desse “Caim”

Adeus, José
Lá nesse assento
Retoma o pé
Para novo alento!

Que contributo
Ante o fastio
Preenche o luto
Deste vazio?

(Mário Frota)

José Saramago…..esgotaram-se as palavras

silêncio, Saramago está a dormir...

As palavras  leva-as o vento.  As lembranças ficam com nós.

Não faz muito tempo, tive a honra de jantar com ele na casa de Belém. Partilhámos a mesma mesa.

José Saramago era um Abel

Silêncio! Está a dormir até o seu próximo romance….

a ingratidão da tristeza

o seu filho morre, o pai apoia a mãe, esquecendo a sua tristeza

1. Não procuro um inimaginável mundo novo, como Aldous Huxley pretendeu em 1932. Quero lembrar uma espécie de código para a criança. E reconhecer a existência da tristeza no mundo em que vivemos para o que basta ouvir as notícias que nos atingem e nos deixam…tristes. Tristeza que a infância não compreende. A criança usa outra epistemologia para classificar o mundo. Não há os de cima e os de baixo, os da direita e da esquerda. A criança está a aprender. Os conceitos não são um peso para elas. A criança é um conjunto de sentimentos. Se compararmos a sua atitude com a do adulto, entendemos a diferença: o adulto raciocina, escolhe, opta, respeita as hierarquias ditadas pela lei ou pelo costume. Ordem cultural para ser obedecida se quer interagir e ser aceite na sua interacção social. Como Adam Smith formulou em 1759 na sua teoria dos sentimentos morais: para sermos aceites, é preciso sermos simpáticos. Foi nesta base que organizou em 1777 a sua teoria da riqueza das nações. Teoria formulada para proveito pessoal, individual. Teoria que ainda hoje nos governa,

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Ref: E se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Camões e a Tença

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invoscaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Luís Vaz de Camões

E indaha quem faça propaganda d’isto:

a patria onde Camões morreu de fome

e onde todos enchem a barriga de Camões!

Almada Negreiros, A Cena do Ódio

imagem Magnus Muhr

Desejosamente…fugazmente viva

(pormenor - adao cruz)

 

Dizem as noites sem olhos que estás morta, excessivamente morta, provisoriamente fugazmente morta.

O electrocardiograma parece uma linha isoeléctrica, mas o coração pulsa. Há corações vivos que não pulsam!

O pulso do morto é o pulso de quem palpa o pulso do morto, todo o médico e enfermeiro sabe disso, mas ninguém lhes tira da cabeça que a morte ainda há-de oferecer, um dia, a alguém, um cálice de Porto.

O salto da neurobiologia ao pensamento está dentro da biologia evolucionária, e a morte que se acautele, porque o pensamento poderá libertar-se e marimbar-se para as suas ameaças.

Não esquecer, contudo, que a prenhez do pensamento pode tornar-se um suplício quando o défice do “ser” ultrapassa o voluptuoso incremento do “parecer”.

Dizem as madrugadas sonhadas que estás viva, fugazmente viva, provavelmente não excessivamente morta.

O orgulho da própria morte pode transformar-se numa embriaguez perigosa, que faz trocar a “velhice” dos vinte pela “juventude” dos cinquenta.

Traumatismos e superações são rosário de todas as vidas, plasticizadas ou não.

Pena é que o facilitismo da gestualidade se sobreponha à interpretação das matrizes da vida e redunde em arremedos de paraíso.

Dizem as manhãs acordadas que estás morta, excessivamente morta, desejosamente…fugazmente viva.

Rudyard Kipling por Dennis Hopper


If, de Rudyard Kipling por Dennis Hopper

lembranças de antropólogo em trabalho de campo

O Angelus,pintura ao óleo de Jean François Millet,1859,museu Orsay, Paris

Em lembrança da minha mama Esperanza…

É-me impossível não lembrar a família Medela Dobarro do Lugar de Lodeirón, Paroquia de Vilatuxe, Província de Pontevedra Alta, sem lembrar a sua gentileza, a sua doçura, o seu acolhimento, o seu bom trato. O pai da casa é Hermínio Medela Taín, hoje com 82 anos, viúvo recentemente da sua querida mulher Esperanza Dobarro. Ele pertencia a família dos ricos y proprietários, do Lugar de Gondoriz Pequeno. O conheci em 1974, éramos novos. Tinha 47 anos certos, como digo num livro em que falo da sua vida, eu, 33. Era o ano de 1974. Tinha sido enviado pelo meu director de estudos e trabalhos, Sir Jack Goody, Catedrático de Antropologia da Universidade de Cambridge, o meu sítio de trabalho, para entender o pensamento das crianças dessa parte do Estado Espanhol, denominado Galiza. Para o meu espanto, havia duas: a de Polónia, da qual eu nada sabia, e a do Estado mencionado. Sem pensar mais, escolhi a Galiza Lusa, ao Noroeste da Península Ibérica. O problema era encontrar casa onde habitar, Vilatuxe, com a colaboração do Pároco, Luís Vázquez Lamela, ofereceu-me uma casa fria, cozinha de lenha, imensos quartos, no Lugar da Carreteira que unia Vilatuxe com Compostela, cidade, y Lalín, Concelho. Assunto tratado. A seguir, seduzir aos vizinhos para saber deles e escrever um livro. [Read more…]

O rei vai mesmo nu

 
 

  

 

(pormenor - adao cruz)

 

O rei vai mesmo nu 

 Há muito tempo que ando com vontade de desancar nos poetas, nos pseudo-poetas, nos pretensos poetas, entre os quais me incluo. 

Lembraram-se de criar um dia mundial da poesia. Como se coubesse na cabeça de alguém que a poesia se poderá enclausurar no irrisório tempo de 24 horas. 

Além disso, convenceram-se de que é possível criar canais por onde pretendem deixar fluir aquilo a que chamam poesia: poesia à mesa, poesia no eléctrico, poesia na rua etc. 

A poesia existe, a poesia está entre nós, a poesia é. Os grandes predadores da poesia poderão ser aqueles que destroem e matam a poesia, ao tentarem traduzi-la por palavras, ao pretenderem trazê-la para as palavras, ao julgarem que a prendem nas palavras, mesmo que as palavras possam ser o que Marcos Cruz diz neste pequeno texto: [Read more…]

Ontem à noite…quem diria!

(pormenor - adao cruz)

Ontem à noite…quem diria!

 A poesia era o espaço entre a inocência e o dia, uma espécie de alforria e resgate da cidade, redimindo às portas da sorte o silêncio de mil noites. Vago sentimento de uma consciência acordada pelo gemido do vento, poesia real fundida e refundida, sensual e nua.

 A vítima que há dentro de nós procura sempre o amor na oculta complexidade dos processos, na constante empatia do sofrimento. Nada mais relativo do que o sofrimento, movimento de tudo, senhor do silêncio vivo que arde dentro do poeta.

 A poesia distorce a relação com a vida, abraça o sonho parasita do amor verdadeiro e cada um tem dos restos de si próprio a elegante ideia de uma identidade interior.

 A poesia é assim!

 Ontem à noite…quem diria!

Um amigo

(pormenor - adao cruz)

Um amigo

Ambos somos a maior cidade, o seio cálido e palpitante, o êxtase da geração, a excitação amolecida desta idade de volúpia e de efusão.

Moderado, claro!

Estando sempre à mão, sendo um abraço supremo, não deve curvar a gente a qualquer tipo de sensação.

Há os que vêem nele um grama a mais que na gordura. Não bebam, ele não é dieta, é ternura, afeição criada no destino humano para musicar a vida e fazer dela uma canção.

A medida é o espírito de cada um e não o balão.

Se é trágica a sua acção, pena de morte! Proscrito seja a quem da vida não tem questão, a quem o fluido calor da crença enche de momentos incolores que mais não fazem do que criar cataras na razão. Ele é sagrado, poético, linguagem de horizontes que não pode ser bebida aos copos, mas em gotas de emoção. O abuso é uma metáfora da natureza criadora e tem de ser internado. [Read more…]

Na noite da música

No sofrimento da noite da música enrosquei meus ramos de árvore seca no sono do teu regaço, nascido de um tempo sem tempo, tão perto e tão distante do peito amante na hora do desejo.

Por dentro da noite fechada e muda, aberta a sonhos que desmoronam tectos e paredes, de que servem rostos sem palavras, e o fruto maduro dos teus lábios caído na noite deserta?

Que amor de liberdade, que liberdade de amor, se todos os caminhos não passam de caminho sem regresso?

Metamorfoses de paz e desejo apenas multiplicam falsificações eróticas em urdidura de novela.

A força do piano de Pletnev acordou-me. Não há “interrupted dreams” dentro de mim, pois já não crescem “dreams” no meu jardim.

Teu sorriso de vento forte que ainda me ergue das águas fundas num impulso de mil ventos, já não abre a todo o pano as velas do meu barco, perdido no mar, muito longe de voltar.

Foi-se embora em boa hora


Para D. Regina Dias

Muito falamos, pouco de nós. Empresto a minha vida e mãe, para homenagem a si.

Não importa a idade. Fazem falta. Lembramo-las. Rezamos por elas porque já não estão connosco, embora sintamos a sua presença. Como é público, eu não sou crente, mas a minha mãe era imensa na sua beatitude, por isso, em sua honra, no denominado dia da Mãe, mandamos rezar uma Missa pela sua alma. E sentimos, em silêncio, com respeito que ela nos acompanha. [Read more…]

Dentro dos meus olhos

Dentro dos meus olhos uma tela azul enorme, como a luz dos teus olhos onde encerrei todo o céu que pude.

Um mar imenso de mil cores, mil jardins de flores, mil flores à minha escolha, ao critério dos meus dedos, ao sabor dos meus segredos e dos medos de não ser capaz.

Azul e mais azul de amarelo fustigado, um rasgo genial de vermelho, um reflexo de sol e de céu.

Nada te dizem as cores da minha mão se tento escrever-te numa tela ou pintar teu rosto na letra de um verso.

Tu não queres puxar os cordéis das minhas pernas em sentido de fuga. Não deixas abrir as janelas do vagaroso comboio translúcido, carregando ruas estreitas e novas lojas de palavras velhas.

Nas estreitas ruas das minhas mãos há longuíssimas raízes que te prendem a um labirinto de espelhos.

Grande como o céu, tão alto e tão à mão, não sei pintar-te assim. Vou recriar-te dentro de mim em projectada incandescência de quadros brancos, sem palavras, sem fundo e sem fim.

A Maria

A Maria

A Maria nunca mais apareceu.

Os olhos, vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência, casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não conseguia. O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos errantes fugiam da testa, cada pedaço para seu lado. A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem baça do avesso da vida.

Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente trémulos, como se estivessem prestes a chorar. Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo. Apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade. [Read more…]