A mulher que amanha o peixe

A mulher que amanha o peixe

Sempre que a vejo no supermercado onde vou, reconheço que não é por acaso. Muito bonita a mulher que amanha o peixe – não sei se amanha se amanhece! -.

Rosto combatido, dorido, olhar sofrido e manso, não sei o que faz desta mulher um poema, se os olhos negros e fundos, se o desenho rasgado da face, se um gesto brusco da natureza revoltada de cansaço. [Read more…]

Momento Ratzo-Canónico da Semana

Música para fins-de-semana e tolerâncias-de-ponto. Legendado em brasileiro. Sejam tolerantes. Peace.

Vida = Ciência e poesia

(Não tenho escrito nada para o Aventar nestes últimos dias. Apetecia-me desancar na mentira e hipocrisia da igreja, na continuação da escamoteação dos seus crimes e na descarada visita papal, assim como me apetecia pertencer a um grupo que eu designaria, por exemplo, de “Terrorismo Selectivo Benigno” (TSB), que fosse capaz, não de matar os ladrões de colarinho branco, mas de os fazer vomitar até ao último tostão, a massa que roubaram e continuam a roubar a todos nós e ao país. Apetecia-me, mas não ando com vontade de mexer na trampa. Assim sendo, viro-me para coisinhas inofensivas, como a que se segue). [Read more…]

A força das palavras estranguladas

(Com especial abraço aos amigos aventares)

Mal-aventurada palavra, bem-aventurada palavra, espectaculosa ou mal-entendida, repentina, abandonada, terrosa ou etérea.

Penoso viver do lado direito, com obtuso cérebro que irradia uma luz cor-de-rosa de banal bom-senso, ridícula, religiosa e fria, estranho conúbio de cálculo e simetria.

Do lado esquerdo, vestígios de terra seca, retocados de sol e água, húmida palavra em secreta transição da estreiteza da vida para a infinita margem do sonho.

(Palavras tépidas, impuras, laterais, resplandecentes nas vitrinas de luxo, insalubres, umbrosas, sepulcrais).

(monumentais, desdobráveis, descobríveis, maduras de oiro e trigo e penoso desejo de céu azul no imenso tossir da poeira dos ideais insubmissos).

(Jactância lodosa, leitosa, grudada a translúcidos horizontes, respirando asfixia na secura de todas as fontes).

Dúctil criatura de aço e pés pequenos, em largos sonhos de vibração das manhãs de rosto alvo, sem distâncias nem delírios.

Bem-aventurada palavra (mal-aventurada palavra), viva (morta), sensual (fria), erecta (impotente), ofegante (sibilosa), rotunda (famélica), fremente.

Eu temo muito o mar, o mar enorme, solene, enraivecido, turbulento…se a minha amada um longo olhar me desse dos seus olhos que ferem como espadas, eu domaria o mar que se enfurece, com a força das palavras estranguladas.

Numa de ciência e poesia

 (Poema de Ofélia Bomba, minha colega, não de cardiologia mas de psiquiatria) 

 

O ninho

É do azul que parto

Para o percurso único da poesia

Do azul do mar imenso

Do azul intenso

Que banha o meu país

E a minha fantasia

E segue solitário até ao infinito.

Passo pelo roxo da saudade

Nos lírios imortais de Van Gogh

Mistura de óleo e eternidade

De espanto e grito.

Passo, depois, no amarelo vivo

Dos girassóis de Julho em Portugal

E brindo à vida, ao amor cativo

Único, intemporal.

Navego no vermelho. Lume e fogo

Aurora boreal do meu percurso

Em que me perco e quase afogo

E desço à terra, ao castanho baço

Força telúrica a lembrar o curso

Do passado e do presente, num abraço.

Continuo no preto. Tinta-da-china.

Ou numa nuvem carregada de água

Na viuvez duma tarde chuvosa.

Liberto-me no branco em que assisto

À neve, à cal, aos vestidos de noiva

À bata da escola de menina

E paro p’ra pensar. Duvidosa.

Que importa se o teu olhar

É verde ou dourado

Bordado de sol ou de luar

Que importa se o teu sorriso

É um poente

Tinto de promessas quase a naufragar.

Se este poema é um caminho

Tecido de arco-íris e de asas

Onde me aventuro e ouso

E todas as cores do mundo

São o ninho

Em que eu repouso.

Ciência e poesia

(Com especial abraço ao amigo Raul Iturra)

Encontrava-me num café de Paris, na Place de Contrescarpe, onde Edith Piaf (un petit oiseau) iniciara a sua carreira como cantora de rua.

Eu sonhava…nessa altura não era proibido sonhar, pelo contrário, era obrigatório sonhar.

À medida que a luz da manhã crescia, insubstancial e fria, eu descia a Rue Mouffetard. À minha direita descia Tchaikovsky e à minha esquerda subia Van Gogh. Madrugavam ambos as suas inquietas e inflamadas personalidades nessa horizontal e fresca manhã do século dezanove. [Read more…]

Somos tão parvos…

… todos os “portugueses” que vivem para cá de Almada e Vila Franca de Xira…
Dia 8 de Abril chega aos cinemas de bom gosto Pare, Escute, Olhe de Jorge Pelicano.

A minha menina

May Malen, Cambrige, 240310

A neta ri com brincadeiras do avô

Ou talvez, o meu bebé? Menina define uma criança já crescida, que fala, tem uso de razão, sabe usar a sua inteligência, enquanto um bebé apenas quer comer e dormir e estar no colo dos seus pais, especialmente nos braços da sua mãe. Para um bebé, essa mulher adulta que amamenta, é o mel dos seus olhos. Como são de mel, na permanente carícia, as palavras que me são impossíveis de descrever. São apenas sons, quase em silêncio, palavras doces, um permanente olhar para o fruto da sua criação, resultado de dois que se amam com imensa paixão. Nem podia ser de outra maneira. Referi num outro texto meu como os seus pais se tinham conhecido aos cinco anos de idade. Trinta anos depois. Passara um tempo, o rapazito de cinco anos teve de se ausentar da escola onde os dois estudavam as sua primeiras letras, por causa do trabalho dos seus pais e pelo mesmo motivo, voltaram a reencontrar-se já mais crescidos, na mesma escola que lhe transmitira os primeiros saberes. [Read more…]

Ao soar das horas mortas

 

Ao soar das horas mortas, nest’outro modo de ser hoje, recolho as asas tombadas à saída do corpo, asas de voo natural, sublime, acima das coisas.

Para lá do nevoeiro, sei que moram os dias claros e as nirvânicas noites. Apetece-me gritar: Menino, pastor da noite! Menino, pastor da noite!

Vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo, tento fundir a neve com o calor da nudez. O cansaço e a ideia, do lado de fora de uma teia sem olhos, são fios que tecem, mais tarde ou mais cedo, o mundo das sombras.

A respiração acabou e o poema nasceu fechado, cianótico, asfixiante. No imediato corpo, tão longe e tão perto, um frio azul anidrido carbónico encharca as palavras secas.

Velha semente sem terra, nova terra sem semente, um tal dizer feito de gestos, e o prazer de supor que a água ainda corre nas entrelinhas da secura.

Poemas do ser e não ser

Delicadamente

ela abriu a blusa e levantou os olhos

decidida.

Era uma mulher de guerra combatida

daquelas cuja face conta a história.

Mansamente baixou a medo as alças do soutien

inclinou a cabeça e fechou os olhos

à espera da minha mão.

Depois

comemos pão de centeio molhado num golpe de azeite

bebemos um capitoso vinho

e fomos à procura de uma paisagem com cegonhas.

Dia mundial da poesia?

Dia mundial da poesia?

Comemora-se hoje o dia mundial da poesia. Não é coisa que eu engula facilmente.

Por todo o país e, provavelmente, por todo o mundo há tertúlias e coisas mais ou menos engraçadas. Algumas coisas boas, e outras de pouco ou nenhum valor. A pergunta mais corrente será: O que é a poesia? O que é ser poeta?

Daniel Barenboim, um dos maiores pianistas e maestros da actualidade, diz que é impossível falar de música, e que são muitas as definições de música, mas que, na prática, se limitam a descrever uma reacção subjectiva. Todas elas parecem dizer muito e não dizem nada.

Sem querer pôr-me à ilharga de Barenboim, eu também digo que não sei o que é a poesia, e duvido muito de quem diz que sabe. Desde a respiração de Deus à depuração absoluta da palavra, já ouvi de tudo.  Parecem dizer muito e não dizem nada.

Isto, porque a poesia é um sentimento, o sentimento poético, como o sentimento do amor, o sentimento da alegria, o sentimento da tristeza, o sentimento do medo. O mesmo acontece na arte, ou sentimento artístico, seja qual for a expressão artística, plástica, musical etc. E o sentimento é um fenómeno muito complexo. [Read more…]

não repares que tremo

andy goldsworthy

não repares que tremo

se me tocas. que a pele

se eriça sob os dedos.

não repares que morro

se me tocas. o corpo

esvai-se sob o toque.

não repares que tremo.

toca-me. é pelos dedos

que melhor me matas.

.

A Primavera no coração dos homens: Chaplin e Yeats

Chaplin tinha 63 anos quando filmou “Luzes da Ribalta”.

Mas reparem na candura infantil com que vai saltitando enquanto canta: “É o amor, o amor, o amor, o amor, o amor”.

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Coisas & Olhos

“jetzt
schreibst du.”
Paul Celan

Desobedece
traça e sega
sob um coração
a nudez das coisas

agora. As coisas que só tu habitas
deflagram sem, a rigor, nada de ti
te obrigar a entregá-las
puras

agora. Há um riso
clandestino
deduz os olhos
embriaga o amor

agora. Reconheceste só
os olhos apodrecem-te
pássaros em metal
asas de cinza

agora. Ultrajadas as coisas habitam-te
tu dentro delas conflagras
poeira e sol

agora. O breve amor
ainda te pendura
no vento
gomos de sangue

agora. Faz uma lotaria
nos sentidos que dás
às coisas
armadilhas
a tua língua

agora. Dói beijar respirar
a boca sobre as coisas
útero de mel

agora. Não morras
sem me desprezar
remo na face
inundada

agora. Ninguém sabe
os nossos olhos
no corpo o desejo
do sexo

agora. Lavras os olhos
no fio a que atas as coisas
a cicatriz é varanda
molhada delas

agora. Sentir ciúme é fácil
nos olhos
perco o pranto mergulho
na piscina de pulgas

agora. Espesso das coisas
admito o coração
no salto
da carne

agora. Não há aquilo
a amizade um bem uma coisa
é uma coisa um bem a amizade

agora. Para não perder
as coisas mais pequenas nos olhos
vejo melhor

agora. Amo-te só
só te amo
aqui
só a morte
chega
amar-te

agora. Um disparate a lembrança
no coração
dilacera-te

agora. Lado a lado
sem esquecer
todas as coisas
prolongam-nos uma distância

agora. O amor sempre
doente
eu amei sempre
a imperfeição

agora. Sou simples
complico-te
tal como és

agora. Agora mesmo passa
por aqui entra fica,
guarda
os olhos
blindados

agora. Brinca com as pedrinhas
azambrado sob a lua
a concha na mão
o vazio a suster

agora. O frio delicadamente
revira dentro das camisolas
o corpo só isso

agora. Faço amor
dou contigo
corpo adentro
persigo-te

agora. Ajeito as lágrimas
ligeiramente feridas
ficam a jeito

agora. Tudo
dorme comigo
antes despenhando-se
contigo

agora. Apanho tudo
o fundo a pé-coxinho
cabra-cega a infância

agora. O véu cicatriza
a ignorância a justiça
o teu sexo crescendo
cerejeira

agora. Ultrapassa a loucura
escreve a vaidade
ultra-light

agora. Perdi o medo
custa-me andar
por aí
onde estás?

agora. Um desprazer
o elmo durando face
anagrama o ódio
gorila

agora. Desvio até
os olhos
que te viram dentro
segredos

agora. Passas tempo
sei aí
beber
para saciar
dói

agora. Faz o desespero
absoluto
não voltes
volta

agora. Essa densa apoderação
alarga a presença das coisas
os olhos HI-FI
recuperam-se

agora. Se a morte fosse uma flor
seria buganvília –
folha denuncia a delicadeza
em que dissimulas a vida

agora. Um sentido
partilha e esconde
a colheita a identidade
só o lume pulsa intacto

agora. Funâmbulo
no débil leme onde embriagas
a noite – escreves: antes pétala
embrumada num final perplexo.

era uma cidade ateada pelo branco

.

era uma cidade ateada pelo branco.

tu praticavas a leveza de ser bela

e jovem e rejuvenescias a cada dia,

dir-se-ia. não se trata aqui poesia.

suponhamos que voavas. voavas

e perdias-te em todas as direcções,

como as crianças. havia nisso alma,

quero dizer, havia nisso um ar, uma

candura, uma certa dose de malícia.

ateavas de brando a cidade ao passar

e praticavas a beleza de ser leve.

.

praticavas (e isso eu não podia saber)

a inesperada beleza de ser breve.

.

.

PAI

.

.

Vida fora tu correste

Passo lento, certo, seguro

Nunca foste uma alma errante

Eras fácil de encontrar

E agora que já morreste

De ti digo e asseguro

Nem todo o bom mareante

Se encontra no alto mar

.

Agora, és rio, és calma

Nada te fere ou ofende

Já não tens frio

É branca e pura

A brisa que afaga a tua alma

E te acaricia com doçura

Transparente

.

Já nada nos separa

Aguarda por mim

Tranquilamente

És eterno

Eu estou só de passagem

.

Vou ter contigo

Repara

E nesse dia, por fim

Espera por mim

E, enquanto o relógio não pára

Guarda-me um lugar para a viagem

.

.


Breves discursos sobre a Primavera (Poesia & etc.)


Primavera, de Picasso.

Assinalemos a chegada da Primavera através de algumas vozes privilegiadas. Picasso viu-a assim. Vejamos agora como Pablo Neruda saúda a mais poética das estações (Excerto do poema Oda a la Primavera, de «Odas Elementales»):

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carta verde
que los árboles leen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen,
todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera (…)
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"A meus filhos" – António Osório

A meus filhos
desejo a curva do horizonte.

E todavia deles tudo em mim desejo:
o felino gosto de ver,
o brilho chuvoso da pele,
as mãos que desvendam e amam.

Marga,
meu fermento,
neles caminho e me procuro,
a corpo igual regresso:

ao rápido besouro das lágrimas,
ao calor da boca dos cães,
à sua língua de faca afectuosa;

à seta que disparam os ibiscos,
à partida solene da cama de grades,
ao encontro, na praia, com as algas;

à alegria de dormir com um gato,
de ver sair das vacas o leite fumegante,
à chegada do amor aos quatro anos.

A Raiz Afectuosa (1972)

O Douro, não uma coisa qualquer

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Eu, eu ainda sou do tempo de se chegar e partir de Barca d’Alva

de comboio pela manhã cedo e nevoeiro e mais ninguém naquela

carruagem, era pelo natal e ardia vai para três dias uns grandes

cepos de eucalipto ali mesmo na estação. Está tudo à espera.

Mãe

 

 

(adão cruz)

Mãe

 Mãe. A palavra universal, a palavra mais consensual da humanidade. Nem Deus. Deus é de uns e não de outros. Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos. A mãe não. A mãe é de todos sem excepção. A mãe é de todos e é só nossa. A mãe é do crente e do ateu, a mãe é do pobre e do rico, do sábio e do ignorante. A mãe é dos poetas, dos filósofos e artistas, dos bons e dos maus. A mãe é do amigo e do inimigo. Não há mãe de uns e não de outros, não há ninguém sem mãe, não há mãe de ninguém. A mãe é de toda a gente, a mãe é de cada um, a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto. A mãe é do longe e do perto, da água e do fogo, do sangue e das lágrimas, da alegria e da tristeza, da doçura e da amargura, da força e da fraqueza. [Read more…]

De Tanto Olhar

De tanto olhar

Tanto olhar

Olhos perdidos

Na lonjura das águas

Vejo-me nos tempos idos

E recordo as minhas mágoas

.

De tanto olhar

Tanto olhar

.

(Poema e fotografia da exposição “Água e Palavras”)

.

A poesia do neo-realismo (Poesia & etc.)

Há críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. Há quem seja mesmo da opinião de que não existe uma poesia neo-realista (Mário Sacramento, por exemplo) É uma questão de perspectiva. Caso se esteja a falar numa forma tipicamente neo-realista de fazer poesia, então talvez essa forma não exista. Porém, para lá da tessitura formal, há outros aspectos a considerar.

O fulcro vital do neo-realismo não reside na forma. Encontra-se na denúncia da injustiça social e da repressão política, típicas dos regimes autoritários de direita que governavam uma parte substancial da Europa no final da década de 30, quando o movimento começou a afirmar-se em Portugal. A depressão económica, a Guerra Civil de Espanha, preanunciando a II Guerra Mundial, a dicotomia fascismo-marxismo, constituem elementos indissociáveis da génese do movimento que, definido sinteticamente, constituiu uma transposição para a arte em geral e para a literatura em particular de uma dinâmica subsidiária do materialismo-dialéctico. No plano histórico, representa, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno semelhante ao da Geração de 70. Porque as épocas de grandes clivagens políticas e sociais, desencadeiam geralmente novas formas literárias e artísticas.

A Geração de 70, ou geração de Coimbra foi como que um eco da grande crise europeia gerada pela guerra franco-prussiana e pela Comuna de Paris. Nas suas formulações, os escritores dessa geração, ultrapassando o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, revolucionaram várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do Realismo. [Read more…]

antropologia da criança.o que era já não sou, ou torne a ser

o autor do texto, em bebé

Porquê falar de família hoje? A resposta é simples: temos em frente de nós o começo dum século. E o começo dum século que é um milénio, conforme as contas que os humanos fazemos. Já temos pensado, desde antigamente, que mil anos íamos viver, mas nunca dois mil. E a dois mil entramos, ainda ao 2010. Porém, quais, as perspectivas? Milhentas, como costumamos dizer; em todos os aspectos: nos trabalhos, nas leis, nas uniões associativas dos governos, na nova tecnologia. Será porque o milénio começa que há tanta mudança, ou calhou que, na altura do milénio, mudanças históricas estavam a acontecer? Pelo menos no elo para o qual virei o olhar do leitor, a família. Elo que mais nos interessa por causa de ser base da interacção de pessoas que reproduzem, transferem, duma geração a outra, a forma de viver. [Read more…]

o pecado de masculinizar a mulher

a mulher pensada por vários homens

Grande surpresa a minha! Os meus colegas ensaístas tinham reservado um dia especial para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Solicitaram-me que não escrevesse a 8 de Março porque a escrita, nesse dia, era apenas para senhoras. No entanto, tornei a ver o texto escrito a 7 de Março, reproduzido no dia proibido.

No entanto, muitas mulheres escreveram nesse dia, as do nosso grupo e outras convidadas. E vários de nós, homens, que tínhamos escrito, no dia prévio, sobre a mulher. A frase desse dia, o slogan ou estandarte por falar assim, é retirada de uma Canção dos Beattle You can work it out. Por outras palavras, podes fazer crescer ou podes conseguir. A intenção do slogan desse dia, que nem devia existir, porque somos todos iguais, é humilhar a mulher ao dizer que ela também pode crescer, também pode trabalhar, também tem forças para conseguir ser um outro ser como os homens. O mais irónico é a palavra blog, um caderno de rascunhos, de ideias novas de apontamentos para não esquecer. Mas a palavra blog numa frase como esta, refere a capacidade adquirida pelo sexo feminino de ser capaz de desenvolver as suas qualidades como os outros fazem. Aliás, a frase foi colocada por um grupo de homens que deu licença às mulheres para, nesse dia especial, poderem demonstrar que eram pessoas de poder, como os homens pensam que são. Salientem-se ainda, que o sítio em que a frase foi escrita, é denominado blog e é gerido ou administrado por homens. Há uma ou duas mulheres que, timidamente, acompanham essa gestão, excepto duas de apelido semelhante, mas que são convidadas a participar na escrita desde outro blog.

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A conheci e nada pedi. Um poema

a mulher do meus sonhos

Entrei na sala de aulas. Era o meu dia de proferir uma lição. A lição da semana. Não olhei para sítio nenhum, conforme meu hábito, nem falei. Distraia-me. Distrair-se no começo da elocução, era um pecado. Um grave pecado. O meu dever era ensinar. Para ensinar, deve-se estar concentrado. Todos o sabiam e por isso não me falavam. Era sabido por todos que no meio da conferência, ia parar, calar e dizer, caramba, estava tão dentro dos meus pensamentos, que me esqueci de cumprimentar. Todos riam. Mas ninguém falava. Conhecido era que qualquer frase ia danar-me, perdia o fio da memória, esquecia a frase seguinte. A prova era dura. Era meu costume enviar as habituais seis páginas da temática que ia proferir, vários dias antes. Todos liam e sabiam do que eu ia tratar. Carregado de textos, enquanto falava, procurava citações em livros sinalizados por mim com pequenos colantes amarelos escritos com a ideia central para desenvolver ao longo de 45 minutos. Nenhum minuto mais, nenhum minuto menos. O título da aula era a minha hipótese, e os pequenos colantes que marcavam diversos sítios dos vários textos, as ideias substantivas para provar a central. Esses 45 minutos voavam como borboletas, com os meus olhos fixados em cada flor que ai estava. Olhava-as, mas não as vias. Bem sabiam as minhas borboletas que um pequeno sussurro delas, encurtava o meu pensamento e não ia saber como continuar. Cada dez minutos, contava uma anedota para aligeirar a lição e aliviar a forçada concentração a que as obrigava. Borboletas femininas, borboletas masculinas, de curta idade, à tarde e à noite, adultos que trabalhavam durante o dia e apareciam às 18.15 – a minha lição devia começar às 18, mas eu dava quinze minutos de tolerância, porque, em hora de ponta, as deslocações eram cumpridas e pesadas, porque um café para estarem acordados, porque um queque para entreter a fome. Porque a conversa de corredor era obrigatória. Porque milhares de motivos entretinham as minhas borboletas.

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Poesia – Não Tenho Princípio Nem Fim

Não tenho princípio nem fim

Não principio nem acabo

.

Sou o rumor das pétalas a abrir

Sou o grito das cores berrantes

O vestígio de beijos a florir

A noite a cair em instantes

Sou o sangue a correr em mim

Sou vida e morte por um bocado

.

Sou o som da semente a nascer

Sou o que sou, de minha autoria

Volto amanhã se hoje morrer

Sou o rumor do nascer do dia

.

Não tenho princípio nem fim

Não principio nem acabo

Anseio por ser eterno,

Ao fim e ao cabo.

Poesia no feminino (Homenagem a Lurdes Rocha Girão)

O meu amigo de infância, Luis Moreira, conhecedor do quanto admiro a MULHER, pelo amor que recebi de minha mãe e irmã e pelo mistério que a envolve, desafiou-me a escrever um texto no dia que alguém entendeu designar como “O DIA MUNDIAL DA MULHER”.

Para mim todos os dias, tal como para o Homens, é dia da mulher e por isso considero um absurdo e um símbolo da discriminação que a sociedade continua a fazer quando já estamos no século XXI.

Decidi por isso aproveitar o desafio do meu amigo para revisitar legados da minha querida mana, falecida em Novembro do ano passado. Encontrei um livro “Janela Indiscreta” de uma poetisa (Paula Salema), sua amiga, onde ela escreveu o prefácio que a seguir transcrevo:

Prefácio
Apesar da Idade que nos separa, somos amigas de longa data, e foi por isso que acedi a escrever este prefácio, no entanto tentei ser imparcial e isenta. [Read more…]

Conheço algumas mulheres fortes


Mulheres que sabem dar.
Mulheres que sentem.
Mulheres que nunca recebem.
Mulheres que gostam de viver.
Mulheres que não têm medo.
Mulheres de poucas palavras.
Mulheres que caem e levantam-se.
Mulheres que passam despercebidas.
Mulheres que estão sozinhas porque são fortes.

Tindergirl

Renascer

Para Alejandra, el el día de su cumpleaños…

Nascí, es primera palabra del libro de Charles Dickens, David Copperfield, escrito entre 1849 y 1850. Esa palabra que da título al primer capítulo del libro.

Tu también, apenas que muchos años después, casi ciento y sesenta e cinco años después, más o menos. La edad de una Señora nunca se dice, especialmente si es Toro Iturra de Iribárren. Las Toro adoran quitarse la edad, las Iturra, no podrían hacerlo mejor. Tú, no serás igual, eres demasiado moderna, fuerte y valiente [Read more…]

Poesia – Vem Por Aqui

.

.

Vem por aqui

Desenhar meus pés

E derrubar obstáculos

Vem para aqui

Apreciar as marés

E curar meus cansaços

.

Vem amar o longe

A minha loucura

A minha ironia

E o mundo a que subi

Faz de mim um monge

Deseja-me

Como à fruta madura

Enche-me de amor e sabedoria

Vem comigo

Não vás por aí

.

.