Pronto, já não há dúvidas: Passos Coelho reafirmou o seu apoio a André Ventura na sua candidatura à Câmara de Loures. Junta-se, assim, ao já declarado apoio do PNR. Por escolha própria; depois não se queixe dos compreensíveis adjectivos que aí vêm.
Portugal é um país racista?
Está por todo o lado a pergunta: Portugal é um país racista? Lamento a pergunta e lamento as respostas, sejam afirmativas, sejam negativas, já que nem a pergunta nem as respostas permitem aprender e compreender nada. Porque a pergunta não tem sentido. Mas se a pergunta for: há racismo em Portugal? – já a resposta afirmativa é evidente e se entende, até como ponto de partida para uma maior compreensão da situação. Desse racismo resta saber qual o grau e a natureza. Porque preconceitos como o racismo avaliam-se em escalas de atitude, como qualquer psicossociólogo saberá explicar. Esta observação pode não ser simpática, mas o rigor raramente o é. Em questões como esta, se queremos aprender e transformar, temos de evitar o maniqueísmo e a popularidade dos juízos fáceis. Acho eu.
O Ventura
Pensar que as declarações racistas e xenófobas do Ventura do PSD são uma gafe, um lapso, é uma ingenuidade perigosa. Aquilo é mesmo uma proposta de linha política, que busca apoios e tenta sondar tendências. O facto de o partido apoiante não ter tomado uma atitude de rejeição só pode ter um de dois significados: simples indigência política ou, o que é muito pior, concordância.
Isabel de Aragão
A minha cidade festeja agora Isabel de Aragão à qual concedeu a condição de padroeira com o título de Rainha Santa. Das coisas do céu e da santidade, nada tenho a dizer, senão que respeito os meus concidadãos que nelas crêem. Porém, queria aqui confessar, com a humildade de quem muito ignora, que nunca me entendi com esta necessidade de, para elevar uma personagem feminina, lhe atribuir dotes sobrenaturais. Como se fosse estranho que a história de uma grande mulher – que indiscutivelmente Isabel foi – só fosse compreensível – digo mesmo, suportável -elevando-a à santidade e nesta lhe subsumindo a humanidade.
Isabel de Aragão foi uma mulher de dotes invulgares. Invulgarmente culta para o tempo – pelo menos tanto como o seu ilustre marido – foi firme, inteligente e hábil na sua acção política, diplomática e social, tal como foi sagaz e competente na administração das suas inúmeras propriedades. Interveio sem tibiezas, sem meias-tintas, escolhendo causas, mesmo que isso implicasse tomar partido na luta entre D. Dinis e seu filho, o futuro Afonso IV, coisa que fez de modo muito mais assertivo do que contam as piedosas lendas da doce esposa e mãe que, num burrinho, se interpõe entre as hostes de pai e filho. Com ela, aprendemos que bondade não é tepidez, que a coragem tem muitos rostos. [Read more…]
Síndrome do sobrevivente – a culpa de continuar a existir
Alguns amigos discordam do tom cáustico que muitos de nós têm usado na crítica à cobertura televisiva da tragédia de Pedrogão Grande. Por mim, admito que algumas das abordagens que aqui tenho feito têm sido algo duras, já que considero esta questão fundamental, e de um alcance que está longe de se limitar a estes eventos. Nesse sentido, julgo, até, ter sido contido. Para além de a maioria dos repórteres fazer um trabalho de manipulação das consciências na mais grosseira linha tablóide – enquanto nos estúdios se trata das tarefas de manipulação mais tecnicamente política – quase todos jogam um jogo muito perigoso ao insistir em remexer nas emoções e feridas emocionais das vítimas com, por vezes, o entusiasmo de um torturador. [Read more…]
As notícias e as coisas
As notícias das sarjetas televisivas centraram-se, sobretudo, na busca dos lugares onde não havia bombeiros. “Está aqui o corpo de uma mulher”, zurra uma, “então os bombeiros não lhe ligam nada, não vem cá nenhum?”, relincha outro, “a culpa foi dos bombeiros?”, grunhe outro, “não acha que o primeiro ministro é que devia estar aqui? e o presidente?”, ladra o seguinte. Vamos ligar aos estúdios. Lá, além dos cachorros de regaço habituais, que destilam as segregações opinativas do costume, falam – raras – pessoas que ganharam a legitimidade de quem há muito propõe soluções pertinentes. Volta ao terreno.
Parece que há centenas de bombeiros no terreno, pelo que é cada vez mais difícil aos repórteres encontrar sítios onde não estejam bombeiros, para poderem proclamar que não estão lá bombeiros, sim, onde estão os bombeiros? “A senhora não se sente abandonada?”, guincha o do microfone.
Começam a passar imagens de arquivo, repetindo cenas já dadas e baralhando completamente a percepção da linha temporal dos acontecimentos. Continua a não haver bombeiros. Ouvem-se “personalidades”. Mas não havia bombeiros em lado nenhum, pelo que se pode concluir que os repórteres é que são o heróis destes acontecimentos. Pois se não há imagens de bombeiros em acção, só há sítios onde não há bombeiros… [Read more…]
Ouvidos e esquecidos
(aviso: isto parece, mas não é sobre futebol)
Passa hoje o 30º aniversário da vitória do F C Porto na Taça dos Campeões Europeus. As televisões e os meus amigos portistas narram de muitos modos esta efeméride. Reportagens, memórias, festejos, palavras de exaltação clubista e portista. Tudo isto se compreende. Mas, mais uma vez – com excepção das vozes dos jogadores do tempo ouvidos – a figura de Artur Jorge parece esfumar-se. Era interessante percebermos porquê. É que há muito penso que, a dar um exemplo de desportista profissional, escolheria, entre muito poucos, Artur Jorge. Então por que razão este país que tão depressa incensa gente da bola como se fossem exemplos de excelência nacional e vértice da magnificência humana, esquece tal figura? É que os atributos do Artur Jorge estão nos antípodas do perfil que a imprensa e a opinião publicada “desportivas” sacralizam. Quer dizer: as qualidades de um dos maiores jogadores e treinadores da história do desporto português são exactamente o que o desqualifica para ser ídolo nacional-futebolista.
Artur pertenceu à última geração do futebol da Académica antes do cilindro da hiper-profissionalização alterar completamente as condições do desporto, sobretudo do futebol, e transferiu-se para o Benfica perante uma proposta irrecusável. Todavia, apesar do cepticismo dos seus amigos, ia decidido a completar a sua licenciatura em Filologia Germânica. Sei disto porque, involuntariamente, assisti à conversa – não ia deixar ia bife a meio, não é? – entre Artur Jorge e Toni sobre o tema, ao balcão do Tropical; com as dúvidas, as importâncias em causa, as condições oferecidas. Sobre tudo isto guardarei silêncio, como é óbvio, mas compreendo o que o levou a decidir como decidiu. [Read more…]
Parolos pos-modernaços

Exposição de carros no Museu dos Coches! Prafrentex, man ! Bué radical etc e tal. Para sensibilizar a malta, afirmam.
O que se segue? Exposição de molduras digitais – em 4k! – no Museu de Arte Antiga? E que tal uma mostra de cozinha gourmet no Museu de Arte Moderna? Ou talvez uma versão de disc-jockey da Traviata no S. Carlos. Não faltam possibilidades. Até que alguém vos pare, parolos pos-modernaços.
ANA
A dos aeroportos: subidas de preços, falhas na manutenção de sistemas fundamentais, erros de gestão, desorganização. Então eram estas as prometidas maravilhas da gestão privada?
Atenção
Quero uma paragem do Metro de Lisboa aqui na minha rua.Em Coimbra.Ouviste Cristas?
Milagres
Sinto hoje a necessidade de manifestar a minha solidariedade aos meus amigos médicos – e, através deles, à comunidade médica em geral – pelo modo como, nestes dias, são e serão insultados em todos os tons pela crendice milagreira – que pouco tem a ver com a crença religiosa; séria, profunda ou cândida que seja – e seus parasitas profissionais. O desfile já começou. As histórias dos “desenganados dos médicos”, contadas em imaginários diálogos, completamente inverosímeis, em que os técnicos de saúde fazem sempre o papel de vilões sem alma, são obscenas. [Read more…]
Prognóstico
De França, hoje à noite, pode vir algum alívio. Mas nunca uma boa notícia.
Em Fátima

Foi instalado um terço gigante da autoria de Joana de Vasconcelos. Mesmo assim, Francisco mantém a visita programada.
Au secours!

“Bonsoir, boa tarrde. Je suis um crapeau français, pardon, sapo frrrancês. Eu fugirr e emigrrar para o Porrrtugal du Geringonce. Ici em France, la gauche, pardon, esquerrrrda, ir engulirr muitos crapeaus, sapos, dans la deuxiéme, segunda volte das eleccions. Sauvez moi! Bonsoir, merci et à tout à l’heure”.
A bem da economia
Os santos portugueses precisam sempre de milagres ocorridos pela entranja. Pelo que se vê, já somos auto-suficientes em azeite, tomate, frutas sortidas, vinho, legumes. Mas não em milagres. Esses, temos de importar.

Zita recomenda…

Miséria do marketing é chegar ao ponto de pensar que a recomendação – com rosto! – da Zita Seabra faz alguém comprar um produto.
AI !

Vejam como ele se comove! Vejam como ele lamenta “aquelas lindas criancinhas”, enquanto, rastejando, os amigos, lá atrás, fazem contas aos lucros emergentes. Vejam como se esforça por produzir uma piedosa lágrima, como se esforça por criar um esgar de dó, como não consegue evitar uma pequena e jubilosa libertação de urina. Ai que pena que ele tem dos infelizes, ai que sacrifício que representou ter de atacar a Síria por quem seu coração extremoso sofre. Ai como ele lamenta subir na popularidade entre os seus concidadãos, por ter, por eles, atacado um país soberano e derramado o sangue dos humanos alvos. Ai como ele chama, fraternal e desinteressadamente, os seus aliados para o seu lado, exortando-os à cruzada contra os infiéis, juntando as forças às benfasejas e agora abençoadas e perdoadas hostes da AlQaeda e do Daesh que, afinal, não são assim tão maus rapazes. Ai como é bonito ver esta chamada às armas a caminho do supremo prémio do petró…, perdão, do céu! Ai como é comovente, após milhões de anos de evolução e dezenas de milhares anos de história, ver o pináculo do poder da maior potência militar mundial ser ocupado, graças à esclarecida escolha do seu dotado povo, por tão elevada personagem! Ai, como é possível que haja por aí quem não consiga ver a luz que emana deste rosto alaranjado, deste vingador ungido pelo alto!
Numa palavra: AI !!!
Gibraltar é nossa

A patética declaração de Boris Johnson, ministro dos negócios estrangeiros de sua majestade, sobre Gibraltar, dá o tom em que decorre esta tragicomédia. Agitando as louras melenas e fazendo aquele ar que inspiraria, decerto, o grande Jim Henson a produzir o correspondente “muppet”, proclamou um sonoro “Gibraltar é nossa (…) e a decisão sobre o seu futuro cabe ao governo e ao povo Britânico”.
Está bem, ó Boris, será assim. Mas que é um cómico remate no habitual estilo imperial inglês, lá isso é. Lembra-me, já lá vão muitos anos, aquele etilizado compatriota penicheiro que, no rescaldo da nossa descolonização, declarava, naquele tom pomposo que só o bom tintol confere: “levem lá o que quiserem, mas as Berlengas são nossas! Mai’ nada!”.
verdade = ƒ(x), x ∈ {tempo, espaço}
A solução encontrada para o Novo Banco é questionável? Claro que é. Mas o modo como Montenegro e Cristas abordaram a questão é intelectualmente miserável e eticamente repugnante. Quanto ao grau de amnésia patenteado, trata-se já de um problema médico, pelo que não me vale uma palavra.

Cassandra Vera

A condenação a uma pena de prisão imposta por um tribunal à jovem Cassandra Vera, sob a acusação de os seus comentários sobre a morte, por atentado atribuído à ETA – quando a ETA era guerrilha – , nos idos anos 70, de Carrero Blanco terem um “carácter de descrédito, gozo e escárnio a uma vítima de terrorismo”, é inquietante. Blanco, um brutal ditador fascista, vítima?! Até os autores do atentado foram, depois da democratização de Espanha, amnistiados. E quero ser claro: um ataque a um 1º ministro fascista, isto é, um objectivo politico-militar de uma implacável ditadura – não esqueçamos que Franco, já depois do 25 de Abril português, promoveu fuzilamentos “preventivos” em Espanha – é resistência, é guerrilha, coisa muito diferente de terrorismo.
Não conheço todos os comentários irónicos de Cassandra, se são de bom ou de mau gosto. Sei que foi condenada a uma pena de prisão por delito de opinião. Ainda por cima, por ter má opinião de um tirano.
Assalto ao (nome do) aeroporto
Claro que, quanto ao caricato disparate do aeroporto da Madeira, poderíamos desejar que Cristiano Ronaldo recusasse a honra. Porém, apesar de um génio da bola e um sobredotado em vários aspectos, no fundo é ainda um garoto imaturo e deslumbrado demais para perceber a armadilha que lhe ficará amarrada aos pés. Quanto ao presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, seria esperar demais vê-lo abdicar do seu rasteiro oportunismo e populismo barato e perceber que um jovem ainda tem muito tempo – e direito – para desgostar – por razões respeitavelmente humanas – quem o homenageia com um cheque de confiança absoluta no futuro. Não é por acaso que gente bem mais sábia que Albuquerque espera pela maturidade ou morte do homenageando para o honrar na toponímia. É porque, na velha tradição positivista, estes homenageados se constituem em referências cívicas e culturais que podem servir de exemplo aos vindouros. Homenagear deste modo após a morte não é sinal de morbidez, mas de sabedoria. Claro que o governante madeirense já refutou esta ideia, debitando as tolices apropriadas ao tema naquele tom modernaço e négigé tão grato aos neo-reaccionários.
Suponho que quem faz o favor de me ler está, neste momento, a pensar em vultos madeirenses de indiscutível grandeza, como Herberto Helder, ou em grandes figuras ligadas à aviação e ciência como Gago Coutinho. Qualquer deles seria mais adequado. Mas duvido que o primeiro desejasse tal honra e o segundo a quisesse vinda de quem vem e, de resto, já tem o seu nome espalhado por toponímia dos quatro cantos do mundo.
Finalmente, já o escrevi aqui, não me parece que os que dão o nome a aeroportos venham a ter uma memória alegre. É que não há boas notícias relacionadas com esses lugares. Só más. E, se tudo corre bem, notícia nenhuma.
O vinho, as mulheres e o coiso
A metafísica é coisa complicada, pelo convém respirar fundo – e talvez beber um copo – para nos aventurarmos nas suas profundezas. É que a tese de Jeron Dijsselbloem segundo a qual os habitantes dos países do Sul – nós, portanto – andam de mão estendida à caridade dos povos superiores do Norte por estoirarem a massa toda em mulheres e vinho, levanta sérias perplexidades. É que “os do Sul” só podem ser, por razões que decorrem da mais elementar e hermenêutica, os homens, os varões. Isto porque andam a gastar dinheiro em vinho e mulheres. Para o Coiso, eles são o sujeito, elas e o tintol o objecto. Ora, sendo assim, fica-me a dúvida: o que andam a fazer as nossas compatriotas além de serem objecto da nossa meridional lascívia? Será que elas são ontologicamente diferentes, quiçá superiores a nós? Na verdade, lá dizia lord Byron que, entre os portugueses, as mulheres pareciam pertencer a uma espécie diferente dos homens, já que elas eram bonitas e eles feios. Claro que não se pode excluir a hipótese de algumas delas andarem também a beber uns copos e a gastar numerário com outras mulheres, que isto ou há igualdade ou comem – e bebem…- todos. Mas persiste a dúvida que nos atormente a alma: será que o ranhoso flamengo pensa que o mal é só dos homens sulistas e se propõe resgatar as respectivas mulheres das suas latinas garras? É que sabemos bem o que significa para esta corja “resgatar”.
Banho turco

É comovente ver o proto-fascista Erdogan preocupado e, até, indignado com o que ele diz ser a falta de liberdade e democracia nos países da Europa que lhe recusaram espaço para seu número de circo político. Na verdade, a criatura não queria, bondosamente, levar a sua campanha referendária aos seus compatriotas espalhados por esses países. Fosse esse o caso e a oposição turca também se poderia movimentar à vontade sem receio de ser presa ou morta. Erdogan investiu, sobretudo, sobre os países que atravessam processos eleitorais, tentando neles intervir de vários modos, influenciando as decisões políticas dos cidadãos – nomeadamente os de origem turca, mas não só – e procurando caçar a oposição turca exilada ou pressionado os governos desses países para que lhe fizessem o trabalho sujo. Não por acaso, a acusação de a Alemanha ter um regime nazi seguiu-se à exigência – recusada, e bem, pelo governo alemão – de prisão dos “terroristas” turcos residentes na Alemanha que são, do ponto de vista de Erdogan, os opositores ao seu regime, nomeadamente os curdos.
Só a França cedeu na importação da “campanha” do governo turco, autorizando um comício no seu território. E a grosseria agressiva e belicista do discurso do ministro turco destacado para a função foi a merecida paga que os anfitriões receberam por terem patrocinado essa imitação grotesca de “liberdade de expressão”, por essa patética insegurança na defesa de princípios fundamentais. A violência do último discurso de Erdogan – para consumo interno e externo – não devia, penso eu, deixar dúvidas quanto à natureza do seu projecto e aos riscos que aí vêm. [Read more…]
Computemos
Fartos de estar no fim da cadeia de culpados, decidiram inventar uma máquina a que pudessem atribuir, também eles, culpa. Estava inventado o computador-máquina.







Recent Comments