A Troika deveria ser investigada

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Depois da transmissão pública da reportagem “Puissante et incontrôlée: la troïka” pelo canal ARTE (ainda disponível no site da televisão franco-alemã) espero bem que a Procuradoria Geral da República se digne a investigar todos os elementos da Troika que estiveram em Portugal, em particular os responsáveis pela iniciativa da venda do BPN ao BIC. O que se passou foi um crime e esta reportagem dá-lhe o enquadramento que faltava para percebermos que foi de facto um crime.

Realizada pelo alemão Harald Schumann esta excelente reportagem  debruça-se sobre o falhanço e as consequências sociais das políticas de austeridade implementadas pela Troïka. A reportagem demonstra também que é falso que se trata apenas de semântica quando Tsipras recusa negociar com a Troika, mais do que isso demonstra que o governo de Tsipras está bem consciente dos estragos e das negociatas ilegítimas da exclusiva responsabilidade dos burocratas da Troika. A autonomia sem escrutínio, a falta de legitimidade democrática, as decisões criminosas impostas ao sistema de saúde grego, bem como as suspeitíssimas ordens de venda urgente de bancos falidos em Portugal (BPN ao BIC), na Grécia e em Chipre provam que a Troika não passa de uma negociata, que só não é uma negociata como qualquer outra porque é responsável por mortes no sistema de saúde grego e muito provavelmente por crimes de corrupção e tráfico de influências. Entre os entrevistados nesta reportagem, estão Krugman, Varoufakis, Louçã, Elisa Ferreira e João Semedo. A não perder.

Que a Alemanha reembolse a Grécia já!

Kai Littmann

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© Bundesarchiv via Wikimedia Commons

[Nos anos 1980, o alemão Kai Littmann passou um ano na ilha grega de Creta, numa aldeia recôndita onde não havia electricidade. Um dia, um velhote grego mostrou-lhe um cemitério onde haviam sido enterrados 150 resistentes gregos, fuzilados pelos nazis durante a Segunda Grande Guerra, e explicou-lhe alguns factos da História. As gerações alemãs (mas nem só) nascidas depois da Grande Guerra ignoram muita coisa que aconteceu, incluíndo os crimes de guerra perpetrados pelos nazis na Grécia, que não figuram nos manuais escolares de História. Não admira por isso que ninguém perceba muito bem do que falam os gregos quando agora, pela mão do Governo recentemente eleito, reclamam o pagamento de uma dívida que os alemães têm para com eles. Uma dívida que, ao contrário do que tem sido sugerido pelos media que chegam a Portugal, não corresponde a reparações de guerra. S.A.]

Para perceber de que dívida se trata (essa mesma cuja urgente liquidação o actual Governo grego reclama) é preciso saber que em 1942 os nazis obrigaram o Banco da Grécia a acordar-lhes um “crédito” de valor equivalente a 476 milhões de marcos da época, o que hoje, acrescido de juros de mora, soma algo que pode ascender aos 70 mil milhões de euros. Uma dívida que a Alemanha afirma ter honrado em 1960, quando transferiu para os cofres do Tesouro grego a quantia de 115 milhões de marcos. Sucede que esse valor foi na verdade pago a título de indemnizações às vítimas do nazismo na Grécia, que foram muitas, e não tem nenhuma relação com a dívida de que aqui é questão. [Read more…]

Com o PSD e o CDS nunca nos veremos livres da austeridade

Com o PS não sei o que aí virá, apesar de achar que a política será de continuação do programa PSD/CDS, como de resto tem acontecido na alternância deste bloco central. Mas, quanto a estes dois, é claro como água:

Logo na sexta-feira, dia do acordo com o Eurogrupo, jornais gregos, mas também outras publicações, como o britânico The Guardian, noticiaram que a maior oposição ao entendimento entre os parceiros do euro e a Grécia veio dos ministros ibéricos. O jornal alemão Die Welt escreveu depois que a governante portuguesa pediu “pessoalmente” firmeza ao homólogo de Berlim, Wolfgang Schäuble. [PÚBLICO]

Repetindo-me, a vitória de uma alternativa, qualquer que ela seja, é a derrota da base ideológica deste governo: a política do “não há alternativa”. Por isto, não esperemos destes protagonistas uma inversão de política, nem agora, nem no futuro. Agora, porque isso seria a negação do que têm feito e tal inversão conduziria à aniquilação eleitoral destes dois partidos. E nem no futuro, já que reformar, para PSD/CDS, consiste em baixar salários, aumentar impostos, baixar pensões e desmantelar serviços públicos.

Os pompeus

Quando eu andava na escola primária, na primeira parte do século passado e em África, havia sempre em cada turma um Pompeu (ou uma Pompeia). Que vinha a ser um ser sisudo, penteadinho, que não se misturava nas brincadeiras do recreio, que mirava com olhos de detective todos e cada um, que denunciava e fazia queixinhas, e que sobre isto mal o professor perguntava quem sabe? se levantava logo de mão no ar. Oferecia-se para ir ao quadro, lambia os pés dos professores. Tinham estas qualidades todas, ninguém os suportava e, sempre que podíamos, enfiávamos uns bofetões naquelas caras estanhadas Ninguém os convidava para nada, nem na escola nem fora da escola. Eram tão excepcionais que nos ficaram na memória, como exemplo de lástima. Estou em crer que todos rezávamos para nunca termos um irmão Pompeu.

Pela vida fora ainda fui encontrando uns quantos Pompeus, incluindo na minha profissão. Sempre que tinha de lidar com eles, lá me vinha aquele desejo nascido na remota infância de lhes ir à fuça. Fiquei-me sempre pelo sensato conselho das terras ribatejanas: trela no lombo e campos da Golegã com eles. [Read more…]

“Espanha e Portugal tentaram bloquear o acordo”

Tal como a Carla noticiou em primeira mão, a Skai TV, que faz parte de um dos maiores grupos de media da Grécia, afirma que “Espanha e Portugal tentaram bloquear o acordo” da Grécia com o Eurogrupo.

Aqui fica o link e uma captura de ecrã para que esteja documentada a canalhada a que estamos sujeitos.

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Tradução Google, fraquita, mas pode-se sempre ler o original em grego.

PS: o fuso horário da Grécia é Lisboa + 2 horas.

Adenda: Ouça os comentários dos intervenientes no vídeo seguinte:

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Os pulhas

Corre no Twitter que a televisão estatal grega noticiou que Portugal e Espanha tentaram bloquear um acordo do Eurogrupo com a Grécia. Esperemos que seja só rumor.

Nem o vice-chanceler alemão concorda com Schäuble

Sigmar Gabriel, líder do SPD, defende que a carta grega é um primeiro passo numa boa direcção.

Correspondência entre Atenas e Berlim

varoufakis-schauble
A carta de Varoufakis a pedir mais seis meses de financiamento.
Schäuble diz que não.
[em Inglês]

Oremos

Pecamos contra a dignidade” (de Portugal e Grécia)

As manobras do poder

À hora a que escrevo, a Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt e o artigo Não há tempo para jogos na Europa somam entre si 12 mil partilhas no Facebook. Outros textos sobre o que se passa na Grécia são também habitualmente populares aqui no Aventar, indicando, claramente, que os portugueses não estão desatentos quanto ao desenrolar desta crise política europeia.

Há uma bola de neve que começou na Grécia e, tal como aconteceu com a expansão das revoluções da Primavera Árabe, pode tornar-se na avalanche que derrube a hegemonia nórdica, alemã, sobretudo. A popularidade destes textos, bem acima do habitual não só deste blog mas também do panorama nacional, aponta para que não estejamos apenas perante wishful thinking.

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Squealers

Vassalos

Montados nos seus unicórnios cor-de-rosa e financiados pelos interesses que sustentam o regime através dos vários meios que usam para disseminar propaganda orientada para a promoção do liberalismo selvagem e da extrema-direita disfarçada de conservadorismo responsável, onde governos desonestos como o actual vão recrutando mercenários como forma de pagar os serviços prestados na área da “corda” e da manipulação de fóruns da TSF, os ideólogos do regime congratularam-se pela decisão do social-democrata que exerce funções de Provedor do Telespectador da RTP e que saiu em defesa do fundamentalismo jornalístico de José Rodrigues dos Santos e da sua anedótica cobertura das eleições gregas, tão conveniente para com os interesses do seu próprio partido e das pessoas que o colocaram lá. [Read more…]

A funda

david e golias
Não faltam, nestas e noutras páginas, referências comparando o confronto entre a Grécia e o directório comandado pelo governo alemão ao mito de David e Golias, usado como atraente metáfora. Acontece que a lenda do Livro de Samuel passa-se depois de a conversa ter acabado. Já não havia negociações. Era o momento. Por isso, o jovem David não perdeu tempo e partiu, com sucesso, para a calhoada. Quer dizer, se nos agrada a imagem, fiquemos cientes de que ainda não chegamos a esse ponto. Mas não faltará muito. A ver se o nosso David consegue.

O ultimato alemão

Conferência de imprensa de Yanis Varoufakis depois da reunião do Eurogrupo (16/02/2015). Em vez de se ler recortes criteriosamente seleccionados pela comunicação social, é de ouvir as declarações integrais do próprio (em inglês), bem como a sessão de perguntas e respostas.

Ouvir por exemplo que o governo grego estava pronto para assinar um documento de extensão do programa a troco de algumas condições, tais como não haver mais cortes das pensões mais baixas e não haver aumento do IVA durante esse prolongamento.  Mas esse documento foi retirado minutos antes da reunião do Eurogrupo começar, tendo sido trocado por uma versão anterior, da passada quarta-feira, no qual os gregos estavam a ser pressionados para assinar não uma extensão mas sim um novo programa, onde era pedido “alguma flexibilidade” nos cortes, sem explicitar.

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SSchäuble, ordem para matar

E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.
E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas.

Apocalipse 8:10-11

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E à terceira semana cessou o fogo de artifício (do cachecol à ausência de gravata, passando pela mentira dos arbustos), e a extrema-direita apontou a artilharia pesada. Paulo Rangel explica tudo hoje no Público, com uma franqueza exemplar: “O caso mais glosado, mas que não é sequer o mais iminente, é o do contágio dos extremismos de esquerda“.

Traduzindo: há que dar uma lição à esquerda grega, antes que pela Europa fora, a começar no estado espanhol, a esquerda comece, ó horror, a ganhar eleições. A ser irresponsável, como já afirma um monte de excrementos chamado SSchäuble, decidido a brincar à blitzkrieg sem força aérea.

Assim se demonstram vários factos, para os quais muito distraídos andamos: quem governa a Europa não é a direita, mas uma extrema-direita, ordo ou neoliberal, que quando sente ameaçado o edifício totalitário que subtilmente construiu e se chama federalismo, não hesita em mandar às urtigas o direito dos povos ao voto livre, que já não o era numa sociedade onde a informação é controlada pelo poder económico, mas fica assim bem claro como nunca o foi. [Read more…]

Era uma vez um primeiro-ministro desorientado

Manif Grécia

Foto@Expresso

Quando questionado pelo jornalista Rui Pedro Antunes (DN) no rescaldo da vitória do Syriza nas legislativas gregas, a eurodeputada do BE Marisa Matias referiu que “finalmente Portugal terá um primeiro-ministro que o defende no Conselho Europeu“. Concordo com esta premissa e só lamento que esse primeiro-ministro não seja o português. Esse já há muito demonstrou que as suas prioridades são a Alemanha, a corte e os boys do seu partido e a sua agenda ideológica além-Troika. E à medida que o cerco anti-austeridade se aperta e o vazio de ideias se avoluma, pouco mais restará a Passos Coelho do que esconder-se debaixo das saias de Angela Merkel, refém da sua própria inércia.

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Na Grécia do Syriza

o fim está próximo. Tenham medo…

Grécia, Portugal – A Luta É Internacional #2

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15 de fevereiro, domingo, jornada internacional em resposta ao apelo lançado a partir da Grécia, pela realização de manifestações de solidariedade com o povo grego e de repúdio pela hostilidade das instituições europeias.
Lisboa – 15h Largo de Camões

Mais informações aqui

“Regras são regras”, diz Merkel…

… mesmo quando são arbitrárias. «O senhor Abeille inventou este número [défice de 3%] “em menos de uma hora, nas costas de um envelope”».

Caloteiros

O que a Alemanha deve à Grécia.

Vejo-me grego!

Expressão que servia para indicar que se estava com dificuldade em resolver um problema. Agora, poderá ser utilizada por alguém que quer que os problemas dos seus concidadãos sejam resolvidos.

A solução grega

Se tudo o resto falhar, estou em crer que o governo grego faz um calendário solidário com fotos ousadas e refinancia o país até 2020.

Grécia, Portugal – A Luta É Internacional

Grécia, Atenas, vista da janela do meu quarto, em Agosto de 2011. A Acrópole.

Grécia, Atenas, vista da janela do meu quarto, em Agosto de 2011. A Acrópole.

Guardo desses vários dias na Grécia (Santorini, Creta e Atenas), em Agosto de 2011, a melhor das lembranças. Lembro-me de mal chegada a Atenas ter ido à Praça Sintagma à procura dos indignados (obviamente, a primeira coisa a fazer mal pousadas as malas no hotel) e, nesses dias, não estar lá ninguém. No hotel perguntei. A senhora respondeu-me em espanhol: ‘los indignados se han ido de vacaciones‘. Natural, era Agosto e o calor era insuportável mesmo para os indignados.

Lembro-me da melancia fresquinha e muito doce, oferecida no fim de todas as refeições, gratuitamente, e do bem que (me) sabia. E do café forte. E da vista do meu terracinho em Santorini e do iogurte grego (entre outras iguarias) que a senhora me deixava sempre na mesinha com vista para o azul impossível. E de todos os pores do sol nesse terraço, como noutros. E das amizades inauguradas em Creta, algumas que haviam (hão-de) durar porque feitas do comércio puro dos afetos, entre aqueles que se reconhecem sempre, seja qual for a distância e o lugar, como iguais.  [Read more…]

Armados em chico-espertos

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Alguém pode explicar, muito de-va-ga-rinho, aos governos de Portugal, da Espanha, da Itália e da Irlanda, que essa do “se houver para a Grécia, também queremos” só faria sentido se estivessem dispostos a acabar com a austeridade, os cortes na dívida por si só não chegam?

Claro que eles não entendem: a austeridade é um meio para o neoliberalismo assente em salários baixos, privatização do estado, liberdade mínima e lucros máximos. Mas que ao menos se assumam, e ficamos todos esclarecidos.

Paralíticos Gregos vs Donas de Casa da HSBC

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Ouvimos José Rodrigues dos Santos a fazer eco das vozes que apontam como principal problema da crise grega exemplos como o dos falsos paralíticos. O argumento cola bem quando se quer atiçar pobres contra pobres, mas a verdade é que o subsídio atribuído aos falsos paralíticos que enganavam fisco grego não se compara nem de perto nem de longe com o roubo gigantesco das “donas de casa” da HSBC. Dona de casa era uma das profissões virtuais declaradas por clientes do HSBC que na verdade eram industriais, artistas, jornalistas, princesas, traficantes de armas ou de droga. É esta diferença de campeonatos entre os paralíticos e as donas de casa que ajuda a compreender melhor a crise grega. As contas “especiais” (contas artilhadas para fugir ao fisco) do HSBC relacionadas com a Grécia ascendem a mais de 2,3 mil milhões de euros (~2,6 mil milhões de dólares). Por exemplo, um dos apanhados, o grego Lavrentis Lavrentiadis tinha sete contas no HSBC com ligações a outras contas bancárias (paraísos fiscais) onde detinha 4,6 milhões de dólares. O senhor Lavrentiadis não era paralítico, mas em 2012 foi acusado de fraude, lavagem de dinheiro, participação em associação criminosa e de emprestar a si próprio, cerca de 600 milhões de euros, através de um banco do seu próprio grupo. Esteve 18 meses em prisão preventiva e vai ser julgado em março deste ano.

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A Grécia escuta a segunda trombeta do apocalipse

Depois o segundo anjo tocou a sua trombeta e uma grande montanha de fogo abrasador foi lançada ao mar. Uma terça parte do mar transformou-se em sangue, uma terça parte dos animais do mar morreu e uma terça parte dos navios naufragou.

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E ao final da segunda semana de governo de esquerda, radical, comunistas, vade retro tarrenego Tsipras belzebu, ainda há gregos, ainda comem e dormem, e o mundo não acabou.

Mas treme. Vítor Bento, esse acérrimo defensor da austeridade e um dos seus teórico-filósofos viu as trevas e cegou. Na senda de uma Ferreira Leite, mais sério que um Carlos Abreu Amorim.

A Áustria, pátria dos hayekes, dos mises e de seu pai Adolfo, critica a Alemanha e encontra lógica na proposta grega (por menos que isto já foram anexados uma vez, devem querer repetir a dose). Já não tinha chegado a recepção de um ministro do partido da Margaret  Pinochet ao Varoufakis, meu deus? [Read more…]

2000 famílias possuem 80% da riqueza da Grécia

Ouvir ao minuto 12, no canal 1 alemão, dito por Michalis Pantelouris, jornalista greco-germânico. Uma apropriação de riqueza desta grandeza não terá acontecido por via legal. Mas pode  resolver-se legalmente, basta o estado querer.

Soluções BCE

Não aceita títulos de dívida grega como colateral. Autoriza empréstimos de emergência à banca grega até 60 mil milhões de euros.

“A austeridade e a dívida são o ovo da serpente”

À saída de um encontro sem acordos, Varoufakis falou claro, e sem medo das metáforas, a uma Europa que tem de respeitar compromissos “mas sem esmagar a democracia com uma marreta”.

Ui que radicais que eles são, tenham todos muito medo!

Alexis Tsipras, o Fidel Castro das alucinações mais profundas e patetas de Paulo Rangel, continua a fazer amigos. É tudo por hoje. Boa noite Castelo de Vide.

Mais uma lição a Passos Coelho

“Os contos de crianças trazem sempre esperança.” – do gabinete do Ministro das Finanças da Grécia