Os pobres de Portas

Foto: http://tiny.cc/6rge5w

Um destes dias, num noticiário da hora de almoço, numa das agora frequentes reportagens sobre populações a quem encerram mais um serviço essencial, apareceu,  numa localidade do interior, um grupo de gente a grandolar pelas ruas. Ouvi ao lado o comentário: “Têm cara de quem nunca cantou isto antes”. E tinham, é verdade, com tudo o que de preconceituoso, e como tal possivelmente falso, que isso implica. Tinham essa cara tão portuguesa de quem nunca se quis meter nas coisas da política, de quem nunca quis confusões, de quem acreditou nas promessas repetidas ano após ano, e logo década após década, e se vê agora, envelhecido e desalentado, a sentir como lhe foge o chão debaixo dos pés e como a ideia de futuro faz o estômago apertar-se de angústia.

Fecham-lhes o centro de saúde, as urgências nocturnas, a estação de correios, o balcão da segurança social e das finanças, e a alternativa está a uma distância incomportável para quem tem de deslocar-se em transporte público, sem dinheiro para pagar o bilhete da camioneta da carreira, quanto mais o táxi. [Read more…]

A câmara do Porto tem vergonha de si mesma

A companhia de teatro Seiva Trupe foi despejada de madrugada.

A fome de uns é a fome de todos

Foto: Carla Olas

Passei o mês de Agosto a ir ao hospital todos os dias. E em cada um desses dias veio um enfermeiro ou auxiliar ter comigo à porta do refeitório para lembrar-me que eu não podia entrar ali. Eu ia de braço dado com o meu pai e só queria garantir que ele chegava inteiro à cadeira, e preparar-lhe a comida, como se faz com as crianças, tirar as espinhas do peixe, descascar-lhe a laranja. Com bons modos, mas sem deixar margem para protestos ou pedidos especiais, apareceu sempre alguém para mandar-me sair porque só os doentes podem entrar no refeitório, as visitas estão proibidas de fazê-lo. A proibição justifica-se por razões de organização interna, espaço, ruído, etc. A razão principal só se sabe ao fim de alguns dias a passear pelos corredores: enquanto puderam entrar no refeitório, era frequente as visitas comerem as refeições destinadas aos doentes. Sentavam-se ao lado dos pais, avós, irmãos, maridos ou mulheres e iam debicando do seu prato, ou ficando com a parte de leão. [Read more…]

Os operários têxteis do Bangladesh sonham com 74 euros por mês

Mais ou menos o que custam, nas grandes capitais da Europa, umas calças de ganga produzidas por eles (artigo em castelhano).

A austeridade viola os direitos das crianças

Perda do abono de família, carências alimentares, restrições no acesso à saúde, à educação e à protecção social. A UNICEF enumera, no relatório de 2013, os efeitos dramáticos deste governo na vida das nossas crianças.

A empreitada que lesou o Estado em 20 milhões

Uma história exemplar: de abuso por parte da Somague/Bascol e de cidadania do fiscal João Costa da Silva.

Como cão e gato

A minha cadela aceitou partilhar casa com um gato. Eu não tive nada a ver com o assunto, nem fui consultada, o que me pareceu normal porque a Rita já é uma cadela menopáusica, com idade suficiente para saber o que quer. O gato é novinho, suponho que um dos muitos órfãos que vagueiam pelo bairro, e começou a rondar o pátio com passinhos furtivos, olhos vivos de pequeno reguila, e aquele ar de desamparo que os gatos podem ter mas só quando querem. Começou por roubar pedacinhos de comida, foi ganhando coragem, aproximou-se dela e, como ela permanecesse refastelada, a fazer de conta que não o via, ele fez-se atrevido e não só comeu tudo o que estava no prato dela, como lhe foi dando pancadinhas leves com as patas, esfregando o dorso na sua barriga, roçando a cabecita no focinho indolente dela. [Read more…]

Uma cidade a cair para cima

Rua de Santa Catarina

Rua de Santa Catarina (Porto)

Sou uma pessoa a quem caem coisas aos pés. Já me caiu uma telha, com um grande bloco de cimento abraçado a ela, e ainda hoje se pode ver, no prédio devoluto do qual ela se lançou, o buraco que ficou em seu lugar. Já me caiu um gato, que se desequilibrou da janela. Já me caiu um pedaço de persiana, arrancada pelo vento. Já me caiu uma cobra, tombada do cimo de um muro numa ruela de Paranhos. Já me caiu uma cobertura de plástico, que a julgar pelo ruído devia pesar muito, e que se abateu de um prédio de Gonçalo Cristóvão à minha passagem.

Caem-me coisas e a minha sorte é que, até à data, caíram-me sempre aos pés, e nunca na cabeça, caso contrário o Aventar teria menos uma autora, sobretudo naquele dia da telha. Caem-me coisas e eu resignei-me à ideia e as pessoas a quem, ao longo dos anos, fui contando estes episódios também se resignaram e apenas foram comentando “Olha se te acertava na cabeça”, hipótese para a qual fiquei, de facto, a olhar durante um bocado, porque há um certo prazer macabro em deleitar-nos no horror quando sabemos que nos livrámos dele. [Read more…]

Manuel António Pina

Esta noite vale a pena ligar a televisão.

Futurologia

Daqui a muitos anos, um concidadão meu lá do futuro (há palavra para tal?) há-de desencantar, de algum arquivo, as actas da reunião de ontem da Assembleia Municipal do Porto, e descobrir, porventura com um esgarzinho irónico do canto do lábio, que no ano de 2013 havia, nesta nossa comum cidade, um autarca de nome Rui Rio (quem?) que, na despedida, informou a cidade, o país, quiçá a galáxia, ser “possível pôr as contas em ordem e ao mesmo tempo fazer obra”.

Mas se este meu concidadão for um amante da cidade e conhecedor da sua história, há-de soltar uma risada e comentar, só para consigo, com esse distanciamento que só se pode ter com as coisas do passado:  “Olha que pena não teres feito nem uma coisa nem outra”.

Qualquer semelhança com a realidade é pura sorte

Montou-se a confusão no bairro e o epicentro foi a loja do Mukta. Quando vamos à loja dele tentamos incomodar o menos possível porque ele está a falar no skype com uma multidão que se sucede a um ritmo estonteante. Homens, mulheres, crianças, quiçá parceiros de negócio, primos, irmãos, sobrinhos, antigos vizinhos, vendedores de automóveis, cobradores de impostos, velhos amantes.

Falam todos muito depressa, como se pressionados pela fila que se vai formando atrás. E apesar de não entendermos uma palavra do que dizem, não podemos deixar de sentir que viemos interromper uma conversa e intrometer-nos em assuntos onde não eramos chamados.

É capaz de ser pelas constantes interrupções que o Mukta mostra sempre um rosto tenso quando nos atende, e uma certa expressão de censura pelos nossos hábitos descomedidos. Entrega o cigarro comprado avulso como quem lhe apetece dar-nos uma descompostura por sermos viciosos. O mesmo com a cerveja, o mesmo com a embalagem de gomas reluzentes de E-226 e açúcar.

Eu tinha acabado de entrar e a miúda já lá estava, a remexer na arca dos gelados, e logo avançou para a caixa com ar enojado e uma coisa verde nas mãos. [Read more…]

Margem de incerta maneira

Foto: Carla Olas

Não vou dizer onde fica, não. Mas sempre posso contar que tem uma varanda para o rio, e uma esplanada que cresceu à volta da imagem de um Cristo que o povo traz apaparicado, sem que nunca lhe faltem as velas acesas e os ramos de cravinas.

É um desses sítios em que é necessário entrar sóbrio e sair um pouco ébrio. Não demasiado, que aqui não há passeio e há que caminhar sem ziguezagueios pela marginal. Ébrio o suficiente para segurar-se à mesa e ver erguer-se, como se pelas ondas, as paredes cobertas por lanternas, arpões, lemes, sextantes, bóias, sinetas, cordames, remos, reproduções de barcos, gravuras antigas, o emblema do FCP.

O peixe assa à porta, os pimentos começam a queimar-se, o sal dos robalos há-de cair aos pés do Cristo, da cozinha saem os primeiros mexilhões, vêm num embalo de salsa e cebolinha, um consolo para eles depois de uma vida de embates do mar. [Read more…]

Seamus Heaney (1939-2013)

Talvez seja um pouco cruel que ele parta no fim de Agosto, e não em Setembro ou Outubro, quando ao longo da costa Flaggy, no Condado de Clare, há dias em que o vento e a luz se desprendem um do outro, e se pode parar frente ao mar e deixar que as rajadas de vento nos apanhem o coração desprevenido e o abram de um sopro. Mas é certo que ele também nos ensinou que não se está aqui nem lá, não se é mais que uma pressa atravessada por coisas estranhas e outras já conhecidas.

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Túnel da Ribeira

Foto: José Magalhães

O túnel da Ribeira é curto, uns duzentos metros, se tanto, mas caótico, à maneira latina.

É um túnel de outro tempo, trânsito nos dois sentidos e corredores para os peões, por onde se caminha depressa para fugir aos tubos de escape, ao calor e às buzinadelas amplificadas. É por causa dos peões, e não pela vaga infracção de trânsito, que eu nem sempre buzino no túnel e se o faço não é mais que uma vez, mas buzinar no túnel da Ribeira é uma tradição da cidade, toda a gente sabe.

Na segunda passada – era 12 de Agosto e foi um dia aziago – entrei no túnel vinda da ponte, encandeada pelo sol baixo do fim da tarde, demasiado ocupada em não atropelar os magotes de turistas que desciam a cada instante o passeio e pousavam imprudentemente as pernas escaldadas na faixa de rodagem, alterada pelo caos da cidade e pelo meu, e foi como se entrasse por uma passagem desconhecida, para um outro mundo (paralelo? perpendicular?) onde as regras só podem ser outras. [Read more…]

Enquanto os pássaros visitarem as cidades

"A Balada do Mar Salgado" - Hugo Pratt

“A Balada do Mar Salgado” – Hugo Pratt

Deu a certa imprensa, aqui há dias, um arrebato de histeria contra as gaivotas. Chamaram-lhes ladras, acusaram-nas de roubar peixe e pão aos distraídos, de assustar os turistas nas esplanadas, de acordar a vizinhança quando gritam de fome nos telhados. Foram ouvidos os especialistas, que explicaram tratar-se de uma “espécie oportunista”, por adaptar-se às pessoas e aos ambientes urbanos.

Devem ter sido os primeiros rebates da época tola, que este ano parecia mais arredada da imprensa, não fosse o Verão estar a ser quente em todas as acepções da palavra. Mas é certo que todos os anos se recuperam notícias alarmistas sobre a “praga” de gaivotas, os perigos das bactérias que as bichas carregam, e até se lamenta, muito hipocritamente, que elas ataquem as pombas, as mesmas pombas que são também uma praga a exterminar em nome da saúde pública.

Levo anos a ter as gaivotas como inquilinas no telhado, a sofrer os seus ataques de cada vez que há crias nos ninhos e eu tenho o atrevimento de querer sair para a varanda, a descobrir cagadelas diárias nos vidros das janelas. [Read more…]

Má sorte ter sido cagarra

Hoje os meus pensamentos estão com a cagarra da Selvagem Pequena. A criatura escolheu o sossego de uma ilha virgem para nidificar, ela que pertence a uma espécie que passa boa parte do tempo a voar sobre o mar.

A ilha, garante o director do Parque Natural da Madeira, estava “como veio ao mundo”, um pequeno éden sem sombra de intervenção humana.

Nenhum chefe de Estado alguma vez pisara o areal. Nem sequer o Alberto João.

Aí escolheu a cagarra nidificar e quando estava aconchegada no calor do ninho, chocando amorosamente o seu ovo, abriu os olhinhos piscos e – o horror, o horror – descobriu Aníbal Cavaco Silva a olhar para ela. Sem mais preâmbulos, e com a falta de jeito que podemos imaginar, o presidente pegou nela e colocou-lhe a anilha L88327, ficando assim “para sempre ligado à ave”, já que no cadastro do bicho ficará indelevelmente registado que foi o presidente da República a anilhá-la.   [Read more…]

Estás a ver, Assunção?

Carrascos são estes. Por exemplo.

O patriota

José Miguel Júdice oferece hoje um importante contributo para a empreitada de refundação da língua portuguesa actualmente em curso. Propõe o magnata da advocacia nacional que “revolução”, “golpe de estado” e “ruptura” passem a ser lidas como sinónimos de implantação de um regime presidencialista, convenientemente chefiado por banqueiros como Artur Santos Silva (se para tanto se achar “com pachorra”) e “homens moderados”, como António Pires de Lima, e que possa enfim providenciar o clima favorável ao “business as usual ” de que a pátria tanto precisa. [Read more…]

Morreu o café mais feio do Porto

Nunca entenderei como pôde estar aberto tantos anos, sendo, como era, o café mais feio da cidade, mas certo é que durou muito e sempre preservando as características que o tornavam distintamente horrendo e seguramente o mais feio da cidade. Não sei se mais alguém o tratava por esse título e adivinho que estão por esta altura a pensar que semelhante afirmação é muito subjectiva. Claro que é. Mas se o vissem concordariam comigo. E espero que sim, que tenham chegado a vê-lo, porque agora já não terão essa sorte.

Não vou dizer, claro está, que café era, porque até os cafés têm pai e mãe. Quero dizer, gente que gosta deles e os mantém, gente que se calhar fez daquele lugar a sua vida toda, e teve orgulho na luz pardacenta, nas paredes manchadas, nos pires esbotenados e até no zumbido atordoador da máquina para electrocutar mosquitos. Onde passamos as nossas horas faz-se casa antes do diabo chegar a esfregar o olho. E já sabemos que se pode amar o feio e encontrar-lhe uma nova graça a cada dia. [Read more…]

Espero que não seja do Excel

Passos: “Foi encontrada uma fórmula de manter a estabilidade do Governo”

 

Jaburu, o Flecha Negra

A memória guarda o que verdadeiramente importa? Estamos sentados frente ao mesmo bife grelhado, ele porque precisa da dieta e eu por solidariedade. Aconteceram-lhe muitas coisas nos últimos anos e não é que ele não se lembre delas, claro que se lembra, não pode esquecê-las, mas também não convém lembrá-las todas. Queremos que a conversa seja banal, o banal reconforta, traz-nos a vida de todos os dias, sem os grandes sobressaltos. Eu fico com as batatas fritas, ele com o arroz branco.

O puto, ao lado, explica-nos a sua preocupação, o único cromo que lhe falta na caderneta, o 117. As cadernetas de cromos são boas para ensinar-nos que é possível viver com a incompletude, que se sobrevive à frustração e se pode aprender a apreciar o que é imperfeito. Falta-te um cromo, há-de faltar sempre pelo menos um cromo em todas as cadernetas, paciência, rapaz, é a vida. Anda, pai, come o bife, que tens que fazer subir essa hemoglobina. E de legumes salteados, gostas? Ó mãe, o pai gosta destes legumes? Olhamos todos para ela porque é ela que sabe. O seu nariz franzido diz-nos que nem por isso. Adiante, arroz branco não faz mal a ninguém. [Read more…]

Jovens folhas

Se a tivessem conhecido, a primeira pergunta que ela vos teria feito, aposto convosco, seria:

– Quantos anos me dá?

E enquanto vocês atiravam números errados – 70, 73, 77, 80 – ela ficaria a olhar-vos com olhinhos matreiros, antegozando a vossa surpresa quando ela vos dissesse a verdade.

– Pois tenho 86, feitos em Janeiro.

E percebendo a alegria que lhe davam, vocês haveriam de exagerar o vosso espanto, que, não sendo pequeno, porque ela sempre aparentou menos idade, podia bem ser aumentado para alegria e orgulho da D. Carmen.

Assim foi a primeira conversa com a nova vizinha, quando há anos mudei de casa. Passei as semanas seguintes a vê-la saltar pequenos muros, a passear-se pelo bairro com grandes passadas e o andar sacudido de um basquetebolista, um caminhar de rapaz reguila que contrastava de forma bizarra com as ondinhas brancas do seu cabelo e os travessões de menina. Via-a nua muitas vezes, ou não gostasse ela de saudar o sol pondo-se em pelota à janela a cada manhã, ou porque achava que ninguém a via ou porque tanto lhe dava. [Read more…]

Para acabar de vez com o Porto

foto: ionline

Reconheçamos-lhe a coerência.

O homem destruiu a Avenida dos Aliados, impondo um projecto arquitectónico sobre o qual os portuenses não foram consultados. Arrasou com os bairros de S. João de Deus e do Aleixo ainda antes de ter uma solução alternativa para os moradores. Hostilizou instituições da cidade, não apenas o F. C. Porto, mas igualmente as companhias de teatro TEP e Seiva Trupe, a quem quis impor a lei da rolha. Trocou uma política cultural pelo patrocínio de eventos desportivos como a Corrida da Boavista. [Read more…]

James Gandolfini (1961-2013)

«Bella Ciao» na Praça Taksim

De canto de trabalho rural a hino da resistência partigiana, «Bella Ciao» já conheceu versões em dezenas de línguas e tornou-se um hino dos povos oprimidos.  Na noite passada, ao piano de  Yiğit Özatalay e David Martello juntaram-se as vozes dos cidadãos  turcos que, com máscaras de gás e armaduras improvisadas, têm dançado no centro de uma praça em chamas.

Una mattina mi son svegliato / o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao! / Una mattina mi son svegliato,  /e ho trovato l’invasor.

Portas, o tempo está a contar

Governo tem até 15 de Julho para encontrar substituto para a TSU dos pensionistas.

Televisão pública grega, a partir de hoje

ert

(www.ert.gr)

2.656 funcionários públicos despedidos da noite para o dia. O primeiro país da União Europeia a perder os serviços de rádio e televisão públicas, financiados pelos cidadãos com uma taxa mensal de 4,3 euros. Uma emissora nacional com 70 anos de história encerrada até ordem em contrário. Em nome da redução de gastos e do superior interesse dos credores. Bem-vindos à Europa pós-troika.

Entretanto, a emissão continua aqui.

Banksy – Pinta a Parede!

Primeira e multipremiada incursão de Banksy na realização de cinema, este documentário centra-se na figura de Thierry Guetta, um  francês radicado em Los Angeles, às voltas com o projecto de filmar uma história da street art e de alguns dos seus autores, entre eles o próprio Banksy.

Ficha IMDB. Legendado em português.

O filisteu

A biografia de Rui Rio já inclui os seus últimos feitos.

Afinal quem é que foi agredido na Fontinha?

Tribunal absolveu activistas de agressão à polícia.