Soares, o optimista

ng1779000

©LEONARDO NEGRÃO / GLOBAL IMAGENS (http://bit.ly/15Sodjd)

Ao contrário daquilo que por aí se escreve, Mário Soares nunca foi um ‘otimista’. Aliás, basta uma pequena consulta (aqui, ali e mesmo acolá) para rapidamente se perceber que a palavra é optimista. Exactamente: optimista, como eléctrica. Efectivamente.

Quanto ao optimismo que por aí anda acerca da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, uma leitura do Diário da República de hoje conduzirá a um estado de profundo pessimismo.

Lamentamos imenso, mas a culpa não é nossa. Não, não é nossa. Obrigado, Nabais.

dre 5122014Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Diálogo sobre a intervenção directa no processo de avaliação

sam shepard

© 2006 La MaMa production (http://bit.ly/toothofcrime1)

Hoss: How could this happen?
— Sam Shepard, The Tooth Of Crime

 ***

– Explique-me, por favor: quem é que intervém directamente na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL?

– É muito simples. Na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL, intervêm directamente quer o Avaliado, quer…

– O Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho?

– Sim, o Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho. Leia o Regulamento de avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL e perceberá: “Intervêm directamente no processo de avaliação do desempenho: a) O Avaliado; b) O Diretor do Departamento…”…

– O Diretor?

– Exactamente: o Diretor.

director

– Está a insinuar que o Diretor do Departamento intervém directamente na avaliação do desempenho? O Diretor intervém directamente? Desde quando é que um Diretor intervém directamente? Qualquer dia, temos [Read more…]

Viva a facultatividade!

Viva!

dre 01102014

Fatos, fatos, fatos: muitos, muitos fatos

 "Any minute now I’m expecting all hell to break loose"
Bob DylanThings Have Changed

António Costa aceitou o desafio do jornal Observador, respondeu às perguntas do Political Compass e, aparentemente, não terá pestanejado quando leu esta tradução de “It’s a sad reflection on our society that something as basic as drinking water is now a bottled, branded consumer product”:

O fato de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Aliás, este “fato de a água” nem sequer é uma tradução: é o produto de uma deturpação da versão portuguesa, criada pelo Público:

O facto de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Sim, o problema é grave. Efectivamente, este fato é um triste reflexo da sociedade em que vivemos. Considerando a gravidade do problema, prometo aos leitores do Aventar alguns meses de descanso sobre este assunto.

Em 21 de Março de 2013 (ou seja, há cerca de ano e meio), o ILTEC pronunciou-se nos seguintes termos [Read more…]

Metro de Lisboa para todo o dia

metro

Aparentemente, segundo este título, o metro de Lisboa passará a funcionar 24 horas por dia. Lembrei-me imediatamente de uma notícia recente acerca do metro da minha terra: “O metro do Porto começa na sexta-feira, dia 11 de Julho, a funcionar 24 horas diárias nos fins-de-semana”.

Contudo, algo de extremamente grave terá acontecido entre o momento da redacção do título e o primeiro parágrafo do texto. Afinal, depois de nos darem a entender que o metro funcionaria durante todo o dia, agora dizem-nos que “O Metropolitano de Lisboa tem o seu serviço suspenso entre as 23h00 de ontem e as 00h15 do dia 26 de setembro [sic], sexta-feira“. Entendamo-nos: é para todo o dia ou está suspenso?

Ainda por cima, no Diário da República, a enxurrada de contatos e fatos não pára. Efectivamente: pára. Sim, hoje, no sítio do costume:

Na apresentação dos documentos comprovativos dos requisitos referidos nas alíneas a), b), c), d) e e) do n.º 9 do presente aviso, devem os candidatos declarar no requerimento, sob compromisso de honra e em alíneas separadas, a situação precisa em que se encontram, relativamente a cada um dos requisitos, bem como aos demais fatos constantes na candidatura.

(….)

Domicílio ou sede do requerente e contatos

(…)

Identificação completa, domicílio do requerente e contatos

(…)

A identificação completa, a residência do requerente e contatos

O fato da ata

einstein malk

© Arthur Sasse/ AFP (http://bit.ly/1nr6nXc)/© Sandro Miller courtesy Catherine Edelman Gallery, Chicago (http://bit.ly/1C21BaE)

O Dario Silva decidiu trazer-nos o Guevara/Malkovich. Por razões óbvias, prefiro a do Einstein. Graças ao fotógrafo Sandro Miller, o Malkovich e o Einstein regressam ao Aventar, num dia sem grandes surpresas, no sítio do costume:

De tudo o que ocorrer nas reuniões será lavrada ata que contenha um resumo do que de essencial nela se tiver passado, indicando, designadamente, a hora, a data e o local da reunião, os membros presentes e ausentes, os assuntos apreciados, as decisões e deliberações tomadas e a forma e o resultado das respetivas votações, bem assim, o fato da ata ter sido lida e aprovada.

(…)

A Câmara Municipal de Porto Moniz em colaboração com a Escola Básica e Secundária do Porto Moniz, promoverá o apuramento de todos e quaisquer fatos que requeiram esclarecimento no ato de análise das candidaturas.

 

Laggiù tutto continua come se nulla fosse accaduto

Leon Foucault e il pendolo

AP Photo/Francesco Bellini (bit.ly/1rfYDdV)

É verdade, admito: não acredito em milagres. Por esse motivo, não fiquei surpreendido com as ocorrências de fatoseção no Diário da República de hoje. Na sexta-feira, aquilo. De permeio, o fim-de-semana e os respectivos hífenes. Hoje, isto:

Nos termos dispostos da alínea d) do n.º 1 e do n.º 2 do artigo 37.º do capítulo V da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro, torna-se pública a lista nominativa do pessoal não docente cuja relação jurídica de emprego cessou por motivo de aposentação, conforme refere a alínea c) do artigo 251.º anexo I (regime) — Capítulo VII — Seção II da Lei n.º 59/2008, de 11 de setembro, no período compreendido entre 1 de janeiro e 31 de agosto de 2014.

(…)

Os proprietários, usufrutuários, arrendatários ou qualquer indivíduo ou entidade que disponha de título válido, que legitime o uso e fruição do local de ligação, ou aqueles que detêm a legal administração dos prédios devem efetuar a mudança de titularidade dos contratos de recolha sempre que estes não estejam em seu nome. E sempre que os contadores registem a primeira contagem no prazo de 15 dias úteis, contados da data de verificação do fato, sob pena da interrupção de fornecimento de água.

Entretanto, laggiù (ou seja, no IILP e na AR), efectivamente, tutto continua come se nulla fosse accaduto.

Continuação de uma óptima semana.

***

La Manuzio era una casa editrice per APS.
Un APS, nel gergo Manuzio, era – ma perché uso l’imperfetto? gli APS sono ancora, laggiù tutto continua come se nulla fosse accaduto, sono io che ormai proietto tutto in un passato tremendamente remoto, perché quello che è successo l’altra sera ha segnato come una lacerazione nel tempo, nella navata di Saint-Martin-des-Champs è stato sconvolto l’ordine dei secoli… o forse è perché di colpo, dall’altra sera sono invecchiato di decenni, o il timore che Essi mi raggiungano mi fa parlare come se ormai facessi cronaca di un impero in sfacelo, disteso nel balneum, le vene ormai lacerate, attendendo di annegare nel mio sangue…

Un APS è un Autore a Proprie Spese e la Manuzio è una di quelle imprese che nei paesi anglosassoni si chiamano “vanity press”.

Umberto Eco, Il pendolo di Foucault

Estupefacção

58 52

Ontem, alguns habitantes do planeta Terra terão ficado estupefactos com esta sondagem da CNN. São coisas que acontecem — ou, como diz o Guardiola, “son cosas que pasan. Contudo, ao contrário dos espectadores da CNN, os leitores do Diário da República já estarão tão habituados a estrangulamentos e constrangimentos, na forma de contatos, fatos e seções, que muito provavelmente já não há estupefacção que os afecte. No entanto, como o Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa garante não ter identificado nem estrangulamentos nem constrangimentos, é porque eles certamente não existem.

Sim, hoje, no Diário da República:

Curriculum Vitae atualizado, detalhado, datado e assinado, acompanhado dos documentos comprovativos dos fatos naquele descritos, nomeadamente em que contem a formação e experiências profissionais, respetivas áreas e duração (os fatos curriculares não acompanhados dos correspondentes documentos comprovativos não serão considerados);

(…)

A lista unitária de ordenação final dos candidatos, após homologação, é afixada no placard da seção de recursos humanos desta Autarquia e disponibilizada na sua página eletrónica em http://www.cm-castroverde.pt, sendo ainda publicado um aviso no Diário da República.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

De *fato e de direito, hoje, no sítio do costume

2. Self-Portrait-Strangulation 1978.jpg

Andy Warhol. Self-Portrait (Strangulation), 1978. © 2010 The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts/Artists Rights Society (ARS), New York (http://nyti.ms/1CiBv4d)

Pois, no Diário da República.

Sim, hoje:

Os agravamentos às taxas pelo deferimento dos pedidos previstos na presente disposição são sempre cumuláveis entre si ainda que sejam justificados por idênticas razões de fato e de direito.

(…)

O pedido de emissão de certidão que comprove a legalidade de determinada operação urbanística deve ser formulado sob a forma de requerimento escrito dirigido ao presidente da Câmara Municipal onde se indique os fundamentos de fato e de direito que justificam a pretensão e deve ser instruído com os meios de prova que revelem a data da construção, designadamente prova documental cartografia ou fotográfica.

Claro, o *contato não podia faltar:

Do requerimento deverão constar os seguintes elementos:
Identificação (nome, filiação, estado civil, naturalidade, nacionalidade, data de nascimento, número e data do número de identificação pessoal e data de validade, número de contribuinte, residência, código postal, número de telefone e contato/endereço eletrónico), as habilitações literárias, a situação profissional (serviço a que pertence, natureza do vínculo e carreira e categoria detida, organismo a cujo mapa de pessoal pertence, com indicação da unidade orgânica de afetação e, ainda, organismo onde exerce funções, também com indicação da respetiva unidade orgânica, caso os organismos de origem e de exercício de funções não coincidam, e natureza do vínculo à Administração Pública) e a identificação do procedimento a que a candidatura diz respeito.

(…)

Formalização da candidatura: A candidatura deve ser formalizada, através de requerimento dirigido à Inspetora-Geral da Administração Interna, Rua Marténs Ferrão, n.º 11, 3.º piso, 1050 -159 Lisboa, com menção expressa do vínculo, da carreira/categoria que detém, da posição e nível remuneratórios e a correspondente remuneração mensal e do contato telefónico e e-mail.

 

Enfim, os estrangulamentos e os constrangimentos do costume.

Exactamente, aqueles estrangulamentos e constrangimentos que o Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa garante não terem sido identificados na aplicação do AO90.

Efectivamente.

Continuação de uma óptima semana.

A grafia Schweinstnegger e o Record

O Record decidiu atribuir importância a uma amálgama de Edson Arantes do NascimentoSchweinsteiger & Schwarznegger → Schweinstnegger. É pena que o pioneiro Record – sim, se bem se lembram, já lá vão cinco anos (cf. Emiliano, 2009, p. 4) – ande tão preocupado com um lapso de Pelé e tão indiferente à mixórdia adoptada nos textos que publica.

Repare-se quer neste belo e recente exemplar de grafia Schwarzenegger

amalga1

quer nestoutro exemplar (dos tempos do pioneirismo) de grafia Schweinsteiger

amalga2

quer neste fresquíssimo e emblemático exemplar de grafia Schweinstnegger

amalga5

À segunda-feira, cultivo o doloroso hábito de ler o Diário da República. Ontem, por mero acaso, reparei em [Read more…]

Os contactos que se perderam

Há três anos, garantiram-nos que

A adopção do Acordo Ortográfico pelos órgãos de comunicação social tem vindo a contribuir, numa base quotidiana e de forma progressiva e natural, para a familiarização da população com as novas regras ortográficas.

Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, Diário da República, 1.ª série — N.º 17 — 25 de Janeiro de 2011, p. 488

Mais recentemente, ficámos a saber que

A verdade, porém, é que, apesar de o final do período de transição ainda se encontrar distante, ao nível do ensino, das instituições oficiais, nacionais e internacionais, e das restantes entidades públicas, o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior

ILTEC, Lisboa, 21 de Março de 2013

“A verdade, porém”? Salvo melhor opinião, a “verdade, porém” é a “familiarização da população” com o contato. O resto é superstição.

record

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana, efectivamente “sem problemas de maior”.

O meu Lamborghini e os *artefatos *piroténicos

Há poucos dias, fiquei a saber que ‘co-adopção’ (à qual já dediquei umas linhas aqui e ali) conseguiu uns miseráveis 2% numa iniciativa da Porto Editora — confesso que acabei por não perceber qual das grafias foi a concurso. Aliás, tenho algumas dúvidas acerca da elegibilidade para uma competição deste tipo de uma palavra que, como é do domínio público, é actualmente grafada de três formas diferentes: a da Bayer, a do AO90 e a outra.

Durante as (sempre, sempre) curtas e (infelizmente) chuvosas férias em Portugal, soube também (obrigado, J. Manuel Cordeiro, pelo pertinente apontador) que “a inserção do número de contribuinte na fatura [sic] permitirá a qualquer consumidor final habilitar-se a ganhar um carro por semana”. O tema da *fatura é fascinante e já surgiu por estas bandas. Conceptualmente, “fatura simplificada” é redundante. E “fatura com inserção do número de contribuinte” é um paradoxo, pois, sendo ‘fatura’ o mesmo que ‘factura simplificada’, aquilo que efectivamente acabamos por obter é “factura simplificada com inserção do número de contribuinte”. Como sabemos, ”factura simplificada com inserção do número de contribuinte” não faz qualquer sentido e quem escreveu a legenda da foto que ilustra o artigo apontado concordará comigo.

Contudo, admito, ao ler a notícia, a  dúvida que imediatamente me assaltou foi a de saber se é possível, ao pedir uma factura, ganhar um Lamborghini. Para mim, o conceito “um carro” é extremamente vago. Se querem mesmo oferecer-me um carro, era este Lamborghini Aventador, sff.

A propósito, ontem, ao chegar a casa, deparei-me não só com os habituais “fatos constantes da candidatura”, mas também com uma salada mista de gosto bastante duvidoso. Sim, no sítio do costume:

DRE 712014

Foi em Março do ano passado (para os mais distraídos, convém lembrar que nos encontramos em Janeiro deste ano) que o ILTEC nos garantiu

o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior.

Variação sobre um tema conhecido: *contatar/*contatando

Se lerem atentamente o Diário da República de ontem, alguns defensores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990 terão a oportunidade de verificar o estado a que isto chegou e, provavelmente, irão reflectir acerca de determinados aspectos que, porventura, nunca lhes terão merecido a devida atenção.

Claro que não se trata do já conhecido *contato — nesta altura do campeonato, toda a gente conhecerá o *contato: aliás, ontem, houve mais três ocorrências. Infelizmente, o *contato já não impressionará ninguém. Hoje, por exemplo, não há qualquer *contato, mas temos a “eventual responsabilidade civil ou criminal emergente dos *fatos praticados”. Actualmente, os “fatos praticados” só poderão surpreender aqueles que fazem da distracção uma forma de vida.

1312

Contudo, aquilo que deve(ria) ou pode(ria) impressionar quem encolhe os ombros perante o espectáculo da página 6 são as ocorrências de *contatar

1312a

e a ocorrência de *contatando. Sim, *contatando. Apesar dos ‘contactos’.

1312b

Sim, ontem, no Diário da República.

Aproveito o tema ‘variação’, para vos desejar um óptimo fim-de-semana, na companhia do centenário Britten.

A regularidade do *contato

Depois de ontem termos ficado com uma imagem bastante nítida da forma como o Acordo Ortográfico de 1990 tem “entrado inteiramente” no “sistema nacional de educação”, regressemos ao Diário da República.

Na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, “solicita-se” a quem envia actos (reparem na barra de endereço: exactamente, actos) para publicação o “melhor empenhamento” no cumprimento da  RCM n.º 8/2011. Fiquei igualmente a saber, por exemplo, que a “grafia nova” de ‘dáctilo’ é ‘dáctilo’. Admito que não fazia a mínima ideia.

dáctilo

Como sabemos, o “empenhamento” não é suficiente, principalmente quando a opacidade das regras nem permite que os promotores as compreendam.

Quando tudo se resume à leitura de algumas sínteses do AO90, pedindo-se depois o “melhor empenhamento”, o resultado é este e a actualização lá se vai fazendo, com episódios lamentáveis como o de hoje (sim, hoje, terça-feira, 10 de Dezembro de 2013). As ocorrências de *contato, essas, sim, vão “entrando inteiramente” no “sistema”.

contato regular

Efectivamente: ‘selecção’

expresso seleccao

Aproximamo-nos muito rapidamente dos três anos e meio da adopção prometida, mas efectivamente não cumprida. Como se sabe, *seleção não reúne condições para reflectir a realidade grafémica do português europeu. Aliás, um título que hoje surge na RTP (Seleção desfalcada corre Europeu de corta-mato) é, como “fatura simplificada”, redundante, pois *seleção já tem implícita a noção ‘desfalcada’ ( do c). No L’Équipe, sabem que assim é. Curiosamente, no Expresso, também. Contudo, o L’Équipe não anuncia adopções de grafias executadas por conversores. Sim, porque no Expresso quem adopta o AO90 é o conversor. Quando dão folga ao conversor, o resultado é este. Evidentemente, alhures, a mesma prática e, consequentemente, os mesmos resultados. Enfim, pano para mangas, mas hoje é domingo.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

O L’Équipe: efectivamente, o melhor jornal desportivo português

Play-off 2014 World Cup - Portugal vs Sweden

© Gustavo Bom/Atlantico Press/Corbis (http://bit.ly/1dCxHNM)

Não é novidade, mas a vitória de ontem frente à Suécia veio mais uma vez provar que, hoje em dia, para se encontrar ortografia portuguesa europeia na imprensa desportiva, só recorrendo a jornais franceses.

équipe

De vez em quando, claro, além de se compreender que o Acordo Ortográfico de 1990 é um instrumento inadequado, percebe-se que nem a hipocrisia ortográfica é um exclusivo do Expresso, nem a grafia à escolha do freguês é uma coutada do Diário da República.

abola13112013

Obrigado, L’Équipe.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

Actualização: *impato

3lands10

Paul Cézanne
A pedreira de Bibémus (http://bit.ly/1bhb2GZ)

Sim, em princípio, serão dezasseis (16) os *impato ocorridos no Diário da República desde 22 de Março deste ano — trata-se de resultados preliminares, podendo sempre haver alguma ocorrência escondida, mas, na devida altura, apresentarei os resultados definitivos e aproveitarei para actualizar a tabela da página 6. Se me perguntardes o porquê de me referir a ocorrências de *impato (16) de 22 de Março de 2013 até anteontem, responder-vos-ei: pois, evidentemente, porque foi no dia 21 de Março de 2013 que o ILTEC nos garantiu

o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior [Read more…]

Um *fatos, dois *fatos, três *fatos

Ontem, no sítio do costume.

DRE 24102013 Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Post scriptum: Segundo leio na comunicação social, o “Facebook volta a permitir publicação de imagens e vídeos violentos“. Óptimo. Esta imagem pode ser publicada no Facebook.

Sim, de fato

A verdade, porém, é que, apesar de o final do período de transição ainda se encontrar distante, ao nível do ensino, das instituições oficiais, nacionais e internacionais, e das restantes entidades públicas, o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior

— ILTEC, Lisboa, 21 de Março de 2013

No entanto, passados seis meses:

  • “Discriminação do ato, fato ou contrato sujeito a liquidação”.
  • “As dívidas por taxas prescrevem no prazo de 8 (oito) anos a contar da data em que ocorreu o fato tributário”.
  • “A paragem dos processos de reclamação, impugnação e execução fiscal por prazo superior a 1 (um) ano, por fato não imputável ao sujeito passivo”.
  • “No âmbito do Capítulo VI, Seção IV do anexo I da Tabela de Taxas do presente Regulamento (…)“.

Peço desculpa pela interrupção.

Agora, já podem continuar a encolher os ombros e a achar que isto não está a acontecer.

O fato do ano letivo

Ia debruçar-me sobre mais esta prova da grafia hipócrita por aí aplicada – e dedicar umas linhas ao “A Horſe, a Horſe, my Kingdome for a Horſe”–, quando, subitamente, me deparei com uma imagem que reflecte bem o estado da grafia actualmente adoptada no Diário da República: uma salsada com ortografia portuguesa europeia (‘selecção’), ortografia brasileira (‘fato’) e AO90 (‘setembro’ e ‘letivo’). 

DRE 1892013

Sim, está tudo a correr bem e sem problemas de maior”. “État anarchique”? De l’orthographe”? É verdade: até dizem que foi há 110 anos

Post scriptum: Sim, reparei na contracção e indiquei-a (), mas por descargo de consciência, pois nada tem a ver com o AO90 — já agora, voltando ao Shakespeare, convém sempre lembrar que ſ ≠ f.

Em princípio, também me oponho ao Orçamento do Estado para 2014

Segundo a Lusa, o Bloco de Esquerda deverá votar contra o Orçamento do Estado para 2014 (OE2014), pois prevê que este irá seguir a mesma linha dos anteriores (OE2012 e OE2013). Sendo esse o caso, apoio a iniciativa do Bloco de Esquerda: não me parece que “o terceiro OE de Pedro Passos Coelho vá ser diferente dos anteriores” e, lembro-me bem, até cheguei a recomendar o chumbo quer do OE2012, quer do OE2013.

Por seu turno, Marco António Costa lamenta que o secretário-geral do Partido Socialista ameace votar “contra um orçamento que ainda nem sequer conhece”, apelando “a que, em sede parlamentar, e depois de conhecido o texto concreto do OE [2014], o PS possa definir a sua posição”.

Aceito o desafio, em forma de apelo, lançado por Costa e garanto que, se o OE2014 respeitar o estipulado na lei, ou seja, o preceituado quer no Decreto n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945, quer no Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, com o concomitante abandono da vergonhosa anarquia causada pela inacção de quem manda (para juntar ao rol, no Diário da República de ontem, lá vinham “documentos comprovativos dos fatos indicados no currículo” e duas ocorrências de “contato telefónico”, no de hoje, de novo, os “fatos indicados no currículo”), aí, sim, já terei condições para reflectir acerca de uma revisão da minha posição.

Sem problemas de maior: o contato, o diretivo e a recepção

DRE 692013

Não constitui segredo que, independentemente da declaração de intenções, o Expresso é adepto da ortografia portuguesa europeia — só os mais distraídos poderão acreditar que o Acordo Ortográfico de 1990 está a ser aplicado e, ainda por cima, “sem problemas de maior“.

Ontem, por exemplo, através do Diário da República, soubemos que existem candidaturas “formalizadas mediante requerimento dirigido ao Sr. Presidente do Conselho Diretivo [AO90]”, podendo estas “ser entregues diretamente [AO90]” ou pelo correio, “com aviso de recepção [✓]”, devendo, no requerimento, indicar-se o “contato [???] telefónico”.

Efectivamente, tudo corre bem e sem problemas de maior.

Continuação de um óptimo fim-de-semana.

Setembro, fatos ortográficos e abstenções técnicas

Decifremos a grafia de Rui Oliveira e Costa: por um lado, ‘efetuados’ em vez de ‘efectuados’, ‘objetivo’ em vez de ‘objectivo’, ‘exceção’ em vez de ‘excepção’; por outro, ‘Setembro’, sem pestanejar. Enfim, há quem garanta que o Acordo Ortográfico de 1990 “já foi quase plenamente aplicado (…) sem problemas de maior”, acrescentando que “esse movimento de aplicação tem sido amplamente acompanhado pela comunicação social”.

Nota-se.

Efectivamente, depois do “fato imputável”, do “conhecimento desse fato”, da “gravidade do fato”, dos “documentos comprovativos dos fatos”, dos “outros fatos previstos na lei”, dos “pontos de contato das réguas com o tronco da árvore”, do “contato das réguas com a árvore”, da “Seção de Recursos Humanos” e da “Seção de Expediente e Arquivo”, tudo no Diário da República de sexta-feira (sim, a saga continua), só nos faltava mais esta. Sim, de facto, “sem problemas de maior”.

Em vez do êxito deste Verão, recordemos o “Walk Like an Egytian”… Perdão: Egyptian. Pois. Com pê. Ägypter? Sim, também serve.

Sezon ogórkowy

1307449167_jpeg-147D8E008C1FDFFF-20110607-img_30783026_1633789_2_dpa_Pxgen_r_Ax541

Francisco Sosa Wagner (Reuters/UE: http://bit.ly/1cngda6)


Revejam o primeiro ‘Machete’, por favor: é um péssimo filme, mas tem uma cena em que Danny Trejo abre a barriga a um tipo e usa os seus intestinos para fugir pela janela de um hospital. É a imagem perfeita deste país: esquartejado e, ainda assim, cheio de penduras. Não admira que o Portugal de hoje dê a volta à tripa a qualquer pessoa de bem.

João Miguel Tavares, Público, 30/7/2013

Em trânsito para voluntário retiro nas margens do Neckar e depois de reflectir profundamente acerca de alguns dos episódios mais interessantes deste Verão (como as linhas em epígrafe), confesso a minha indecisão entre redigir uns dois ou três parágrafos sobre esta excelente série, com desnecessária incursão por memórias das minhas peregrinações a Tormes e a S. Miguel (se Seide ou Ceide, lá mais para a frente, passada a época dos pepinos, falaremos), compor umas nótulas soltas acerca da surpreendente querela Chomsky / Žižek  – a propósito, ofereço-vos quatro episódios (Chomsky Ataca, Žižek Responde, Chomsky Contra-Ataca  e Žižek Volta à Carga) e dois bónus (Afirma Thompson e Investigações Starkianas) – ou tecer umas inoportunas e estivais considerações, depois de conhecido este momento histórico (vale a pena ler o artigo de Teresa Firmino, no Público).

No entanto, em vez de redigir, compor, tecer, ou de me deixar enredar no espírito época dos pepinos ou serpientes de verano, preferi debruçar-me sobre outro assunto importante (sim, aquele) e a culpa é da minha Ministra da Educação. [Read more…]

Requisitos de higiene e limpeza: o Acordo Ortográfico de 1990

A saga continua. Os *contatos instalaram-se.

Podem continuar a encolher os ombros, a assobiar para o ar e a tapar o sol com a peneira.

Por mera curiosidade: quem terá sido o malandro que, “por má-fé”, “distorção propositada” e “mera vigarice intelectual”, se terá entretido a “instilar” tamanha “falsidade”?

Quem terá veiculado esta inexactidão? Quanto aos *fatos, estamos conversados. Agora, debrucemo-nos sobre os *contatos — depois de resolvidos os *contatos, poderemos passar às *seções e assim sucessivamente.

DRE 472013

Pela suspensão imediata do Acordo Ortográfico

Há dois anos, João Roque Dias, António Emiliano, eu próprio e Maria do Carmo Vieira escrevemos uma carta aberta – que pode ser lida quer na Biblioteca do Desacordo Ortográfico, quer na página da ILC contra o Acordo Ortográfico – que instava o primeiro-ministro, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o ministro da Educação a corrigirem um erro monstruoso e propunha uma solução simples e eficaz: suspender a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Há três anos – celebremos, por fim e com a devida pompa e a respectiva circunstância – o Expresso começou a adoptar o AO90… A adoptar. Pois… Na carta aberta, indicávamos que o AO90 “não foi objecto de discussão pública”. Se tivesse havido uma discussão pública, serena e esclarecedora, o AO90 teria, provavelmente, regressado definitivamente à gaveta de onde nunca deveria ter saído ou, no pior dos casos, suspendendo-se a aplicação, ter-se-ia evitado esta balbúrdia, da qual *contatos é uma das figuras emblemáticas, quer no Diário da República, quer no Expresso, quer alhures. Na carta aberta, referíamos que «[a] Nota Explicativa do AO (…) “explica” de forma confusa os aspectos mais controversos da reforma, p. ex. a consagração, como expediente de “unificação ortográfica”, de divergências luso-brasileiras inultrapassáveis com o estatuto de grafias facultativas”. Essa explicação “de forma confusa” será porventura a causa de, passados três anos, o Expresso se manter incontactável.

Sim, porque, para se contactar o Expresso, só através dos *contatos — e razão tinha o António Fernando Nabais, quando me dizia: “o Expresso emigrou para o Brasil”.

Depois, os *contatos conduzem-nos através de “contactos” que são “directos”, com o endereço electrónico do “director” e a referência a uma “Direcção Comercial”. O problema do Expresso – e não só – é que, como “poupa letras” onde não deve, depois gasta-as onde não pode. Mas até se percebe que, de vez em quando, as mantém. Enfim, é muito confuso.

22 tempos e 50 minutos

Caro leitor, se me permite uma pausa, desta vez escrevia directamente para os Profs. Aqui vai:

Meu caro, Concordo contigo! Já está a valer a pena a GREVE!

O Despacho  não impede as aulas de 45 minutos, sendo que continua a referência genérica aos 50 minutos. Mas, mais importante: os 1100 minutos do horário lectivo são para continuar, isto é, 22 tempos de 50 ou 24 de 45.

O corte maior vem por via da Direcção de Turma: 1,5 tempos por cada turma que passam para a componente não lectiva. Em cada 17 turmas, mais coisa menos coisa, vai um horário ao ar.

E por agora, o que me ocorre dizer é que valeu mesmo a pena marcar estas GREVES! Mais um bocadinho e a Mobilidade desaparece!

Descubra as diferenças

Encontrava-me ontem, encafuado no sofá, a folhear a segunda edição do Morphology de P.H. Matthews e a recuperar de (‘de’ e não ‘do’) obstinado resfriado na companhia dum magnífico Vox Sana. O televisor aceso, esquecido na RTP Internacional, o som muito lá no fundo, quase imperceptível. Subitamente, três palavras-chave (leitura, Morais Bruxelas) enunciadas pelo locutor desviaram a minha atenção da encantadora página 214, onde Matthews ataca o duplo diminutivo.  Hoje, vi o programa.

Recentemente, a propósito de depoimento escrito apresentado aos membros do Grupo de Trabalho – Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico [AO90] da Comissão de Educação, Ciência e Cultura  da Assembleia da República, dei a conhecer graves problemas na redacção do Diário da República (DR) desde o fatídico início do mês de Janeiro de 2012. Verdade seja dita, e embora a base XIX do AO90 não tenha sido o meu Leitmotiv (sim, em itálico e com maiúscula, e o meu favorito é este),  que nesta edição a ocorrência de Dezembro em primeira página só aparece aqui (c’est très grave, c’est excessivement grave!, como diria o Steinbroken) . Daí, ter ficado surpreendido com a imagem da esquerda. Verifiquei na gaveta onde guardo as edições do DR desde Janeiro de 2009 e a imagem da direita é a da primeira página da edição apreciada pela RTP. Não percebo por que razão no original aparece (infelizmente) ‘dezembro’ e na imagem que a RTP apresenta aos espectadores (mesmo que episódicos, como eu) surge ‘Dezembro’. Sim, pois, as páginas não coincidem. Pronto, dito isto, regresso à página 214 do Matthews.

Aventar 2322013

33% das indemnizações compensatórias 2010 vão para RTP e LUSA

Indemnizações compensatórias 2010

Neste gráfico, feito com os dados publicados hoje no Diário da República, vemos que o grosso das indemnizações compensatórias para 2010 vai para duas áreas principais:

  1. Comunicação social (RTP e LUSA): 32,90%
  2. Empresas de transportes públicos (Carris, STCP, CP, ML, REFER, Metro do Porto, SATA, TAP, SOFLUSA e TRANSTEJO): 46.16%

A análise destes números revela alguns aspectos curiosos. É o que se aborda a seguir.

[Read more…]