Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (III)

(continuação daqui)

A. Que voz é esta?

Na nota introdutória a Cantares (1ª edição, Tomar, 1967), Manuel Simões interroga-se: «De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: – ‘Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se nos torna familiar? ‘. De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou». Escritas estas palavras, ainda antes do Maio de 68, a voz do Zeca iria acompanhar-nos ainda pelos vinte anos que se seguiram e durante os quais tantas coisas mudaram nas nossas vidas. Agora, mais de vinte anos após se ter fisicamente silenciado, ela continua a viver dentro de nós, acompanhando-nos como um imperecível eco de expectativas iludidas, de aspirações não realizadas e de persistentes injustiças. Continua sendo a nossa voz.

Infância – «uma larva branca»

Ao evocar o nascimento e a infância, Zeca refere «uma luz láctea; uma luz imanente, uma luz muito vital (…) uma larva branca». Em termos menos poéticos, digamos que nos três primeiros anos de vida, enquanto os pais vão para Angola, por uma questão de saúde, ficará em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, deixado ao cuidado do tio Chico (republicano e anticlerical) e da tia Gegé. Em 1933, somente com três anos e meio, vai para Angola, para onde seus pais tinham ido já em 1930. Seu pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto (actual Menongue). Ficará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. África surge aos seus olhos de criança como «uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim» (…) «as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças.» Em 1936 regressa a Aveiro, onde ficará ao cuidado de umas tias «afáveis», usando uma expressão do próprio Zeca. No ano seguinte, já com oito anos, irá para Moçambique: «Pouco tempo ali estou, mas é de novo o paraíso» (…) «Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra». Mas a itinerância continua: em 1938 volta a Portugal, ficando em casa de seu tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Comandante da Legião e salazarista, homem que gosta muito de dançar a valsa e o tango. Em Belmonte conclui a instrução primária. Segundo o Zeca, este é o pior ano da sua vida.

B. Coimbra – das serenatas aos primeiros discos

Em 1940 vai para Coimbra ao cuidado de uma tia paterna, a tia Avrilete, matriculando-se no Liceu D.João III. Neste liceu conhecerá António Portugal e Luiz Goes, futuros companheiros de andanças musicais. Entretanto, seguindo novamente a itinerância profissional de seu pai, a família vai de Moçambique para Timor, que em 1942 é invadido e ocupado por forças japonesas. Até 1945, ano em que termina a II Guerra Mundial, Zeca ficará sem notícias dos pais e da irmã Mariazinha (João, seu irmão, viera também para Portugal). Por volta de 1945, começa a cantar serenatas. Gozando do estatuto de «bicho-cantor», não sofre os tormentos praxistas que as trupes reservam aos estudantes liceais. Não sendo demasiado aplicado, é reprovado dois anos e só em 1948, com quase 19, conclui o curso dos liceus. Nesse mesmo ano, casa com Maria Amália de Oliveira. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica de Coimbra.

Em 1949, dispensa no exame de aptidão à Universidade, matriculando-se na Faculdade de Letras, no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. Na Universidade convive com os cantores Augusto Camacho, Fernando Machado Soares e Napoleão, com o guitarrista António Brojo e com os seus companheiros do liceu Luiz Goes e António Portugal. Contacta também duas figuras cimeiras do fado coimbrão – os guitarristas Artur Paredes (pai do grande Carlos Paredes, que virá a conhecer em Grândola, na memorável sessão da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964) e Flávio Rodrigues, o famoso «guitarrista-barbeiro». Em 1953, nasce José Manuel, seu primeiro filho. Para sobreviver, dá explicações e faz a revisão ortográfica do Diário de Coimbra. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.).

C. Militar «sem aprumo» e professor «indisciplinador» – cantautor genial

Começa a cumprir em Mafra, no C.O.M., dois anos de serviço militar obrigatório. Mobilizado para Macau, salva-se desta viagem por motivos de saúde, vindo depois a ser colocado num quartel em Coimbra. «Fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». Em 1954, nasce a sua filha Helena, e Zeca tem grandes dificuldades em sustentar a família. Em 1958, dadas essas dificuldades económicas, envia os dois filhos para junto dos avós, então de novo em Moçambique. Em 1956 é editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra. Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées», acompanhado por Fernando Rolim, pelas guitarras de António Portugal e de David Coimbra e pelas violas de Sousa Rafael e David Leandro. Ainda estudante, dá aulas num colégio particular de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, leccionará na Escola Industrial e Comercial de Faro: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Um «indisciplinador de alunos», é como Zeca se auto classifica e sintetiza a sua acção docente. É também neste ano que começa a cantar em colectividades populares. Em Faro convive com o casal de poetas Luísa Neto Jorge e António Barahona da Fonseca e ainda com António Ramos Rosa. É, em 1960, colocado por alguns dias num colégio de Aljustrel, sendo posteriormente transferido para a Escola Comercial e Industrial de Alcobaça onde permanecerá até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta), o quarto na discografia de Zeca. Sobre a Balada, diz: «Dominada ainda pelo velho espírito coimbrão, é o produto de um estado perpétuo de enamoramento» (…) uma espécie de revivescência tardia da juventude».

Cartazes das Autárquicas (Matosinhos)

(explicação da iniciativa aqui)
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Honório Novo, CDU, Matosinhos (referência à guerra entre os socialistas Guilherme Pinto e Narciso Miranda).

A Confederação

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A Confederação, banda sonora de um filme que não vi, é uma das minhas obras favoritas  do José Mário Branco.  É um disco de Novembro, de ressaca, do povo que vi a lutar, e agora não vejo nada e não estou a precisar de óculos.

Claro que é um LP riscado o que tinha em casa, além de não ter agulha no prato vai para anos. Acabou agora de sair do sono, e de entrar na pasta dos mp3’s. Não percam.

A quem faz este serviço público, recuperar vinil que nunca foi digitalizado, os meus agradecimentos. Em particular no que toca aos LP’s que destruí ao longo da vida dá cá um alívio auto-desculpabilizador…

QUADRA DO DIA

Se não lanças à fogueira
Esta corja de bandalhos
Qualquer dia é só loureiros
Neste país de cangalhos.

Promessas e Dívidas socráticas não cumpridas

O DN trás hoje na primeira página a toda a largura. Estado deve 102 milhões a fornecedores ! Dívidas vencidas, claro está, porque o que deve no seu conjunto é muitissimo mais.

Em vez de promessas diárias que todos sabemos não estar em condições de cumprir, bastaria pagar o que deve, que é muito e que atira muita gente para o desemprego e muitas empresas para a falência. Mas a verdade e a realidade são dificeis de entender para este governo.

Este dinheiro, que é devido, não se trata de subsídio nenhum, há que notar, íria direitinho para as tesourarias das empresas apoiando a maior dificuldade que as empresas enfrentam nesta altura. Desde o principio da crise que muita gente anda a dizer isto mas o governo não houve e tem mesmo raiva a quem diz isto. Esta coisa da tesouraria das empresas é coisa de somenos, não tem dignidade de Estado, é assunto de mercearia. Os investimentos que só darão fruto daqui a um ano ou dois, os negócios internacionais que vêm cá sacar subsídios e os contratos tipo Contentores de Alcântara, esses sim, interessam ao governo.

Mas a economia tem regras que nenhum PM, por mais único que seja, não pode mudar, o dinheiro tem que circular, tem que chegar à economia real, às pessoas, às empresas, não pode ficar nas mãos dos bancos que retraem o crédito nas situações dificeis.

Mas que seja o próprio Governo a não entender este principio tão importante e que seja ele próprio, um dos causadores da paupérrima situação em que as PMEs se encontram, é coisa que custa a entender.

Mas vêm aí mais promessas …

Vale e Almeida e a tralha do Jugular

Muitas das pessoas que estão no Jugular são, bloguisticamente falando, tralha da pior espécie. Na sua vida pessoal, serão, não sei, pessoas muito estimáveis, mas na blogosfera não passam de tralha.
Falo em especial daqueles senhores que, há meia dúzia de meses (fazendo crer, para quem olhar para os Arquivos, que foi há dois anos), abandonaram o «5 Dias». Curiosamente, quase todos eles estão desde há uns dias num novo blogue de apoio ao PS. Curioso como a tralha se junta sempre! Quanto às senhoras que fizeram o mesmo trajecto, umas não são nada tralha, como é o caso da Palmira Silva, outras tem dias. Quanto aos fantasmas que por lá andam, não sei, não os conheço.
Acabo de descobrir, no entanto, que a maior tralha de todos, nesse blogue, dá pelo nome de Vale e Almeida. Não gostou de uma série de «posts» meus com frases ditas por ele sobre o PS nos últimos meses e vai daí, toca a atacar-me no blogue dele e a insultar-me. Com esta pequena «nuance»: não cita nomes, não especifica o alvo, não diz quem é o blogue e quem é o autor desse blogue.
A isso, eu chamo cobardia.
Ainda por cima, à acusação de censura por causa da demora na aprovação de um comentário (a única forma de esse comentário ser mesmo aprovado), não responde e pede que vá em seu socorro uma senhora do blogue – uma a quem, por sinal, o pé foge demasiadas vezes para a chinela.
O mesmo aconteceu-me nesse mesmo dia no comentário a um «post» de outra tralha, João Galamba, o mesmo que, um dia, me chamou filho da puta.
É assim o Jugular. Um blogue que censura comentários só porque não lhe agrada o seu teor. Um blogue que censura comentários só porque não gosta da pessoa que os escreveu. Um blogue que faz acusações a outro blogue sem especificar o alvo. Um blogue que insulta outros «bloggers» sem dizer de quem se trata.
Quanto a Vale e Almeida, só mostrou que não é homem nem é nada. Porque um homem ataca e tem a coragem de o assumir. Porque um homem não se esconde atrás de uma mulher, mostra-se e dá a cara.
E é por isso que não tenho qualquer problema em dizer o que penso de si, Vale e Almeida: nisto de se candidatar à Assembleia da República por um Partido e por um Primeiro-Ministro do qual disse pior do que o Maomé disse do toucinho, o senhor mostrou ser um oportunista, um ganancioso, um incoerente e um vendido. Sem espinha, sem valores, sem ideais, sem vergonha. Sem nada.
As almas puritanas que me poupem. Nunca falei assim de ninguém na blogosfera e, se estou a fazê-lo agora, é porque tenho motivos. Não se fala assim de um futuro representante da Nação? Para dizer a verdade, estou-me a cagar para que Vale e Almeida venha ou não a ser um representante da Nação. Meu representante é que não será de certeza.

Cartazes das Autárquicas (Vila do Conde)

(explicação da iniciativa aqui)
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Mário Almeida (actual Presidente), PS, Vila do Conde

Parabéns Carlos

Todos temos modos pessoais de iludir o medo. De vencer os fantasmas que persistem dentro de nós e que nos querem abalar nas horas “em que um frio vento passa por sobre a fria terra“.
A maioria recorre ao sobrenatural. Faz promessas a divindades e a santos. Até há quem use amuletos, confiando que um objecto lhe dê aquilo que só pode vir dentro de si.
Para um pobre incréu, como eu, essas tácticas não resultam. O medo, nas suas infinitas variações, tem de ser vencido interiormente. É em cada um de nós que reside o Deus dos medos e quem tem de o suplantar, o Deus da nossa vontade.
Por isso, evoco sempre Pessoa no poema que tem o seu nome próprio: “Cheio de Deus, não temo o que virá, / Pois venha o que vier, nunca será / Maior do que a minha alma.

* Correio da Manhã, 23.VII.2009 (escrito na véspera das minhas provas de doutoramento em Direito)

Para o CAA: ESTA pérola.

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (1)

Com este título, “AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE”, recebi, em tempos, um texto enviado pelo Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas, solicitando a discussão do documento, a fim de que ele pudesse constituir um instrumento útil de reflexão.
Li e reli o texto com toda a atenção. Reconheço e aprovo os valores fundamentais que constituem o seu núcleo, mas não acredito que ele tenha significativa eficácia na consciência dos médicos. Como parte da população pertencente aos mais diversos sectores profissionais e sociais, uma boa parte de nós, médicos, não tem formação, não é dona da estruturação exigida para exercer a tal Ética em Saúde – a ética da relação e a ética do comportamento. A ética não é um parâmetro com medida universal, está dentro de cada um de nós, que a tem de aprender e apreender. Não acredito na reflexão e na renovação dos ideais de muitos médicos, de forma a entenderem que “O médico que aceite o encargo ou tenha o dever de atender um doente obriga-se, por esse facto, à prestação dos melhores cuidados ao seu alcance, agindo com correcção e delicadeza, no exclusivo intuito de promover ou restituir saúde, suavizar os sofrimentos e prolongar a vida, no pleno respeito pela dignidade do Ser Humano”. Isto não é um mandamento do código da estrada, nem uma alínea do articulado de qualquer lei. Este Artigo 26º do Código de Deontologia Médica implica, antes de tudo, que o médico tenha respeito por si próprio, e reconheça a sua dignidade como pedra fundamental da vida e da profissão. De outra forma, todos os códigos são letra morta e só servem para enfeitar, durem o tempo que durarem. Dito por outras palavras, todo o Homem tem de ser global e estruturalmente bem formado. Especialmente se lhe é destinada a nobre e digna missão de lutar pela vida dos outros.
A humanidade, como conjunto crescente de todos os homens a caminho da perfeição, ao invés de humanizar as leis vai-as subvertendo no dia a dia, ao tecer a corda cada vez mais forte com que enforca cada vez melhor os mais fracos. A este fenómeno, infelizmente, não são alheios os médicos e a medicina. Permanece há muito tempo em mim a grande dúvida quanto ao empenhamento, verdade e honestidade dos meios e processos de que a sociedade dispõe e utiliza para isto combater e para atingir a correcção e a justiça na formação global do Homem. (Continua)

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Cartazes das Autárquicas (Porto)

(explicação da iniciativa aqui)
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Rui Rio (actual Presidente), PSD, Porto

A Joana já namora

O PS anda num frenesim a prometer casamentos para a vida. Com grandes dotes para os prometidos. Lugares no aparelho de Estado, bem remunerados e sem ter que trabalhar muito. Nem convem que o Sócrates sabe tudo e não precisa de ajuda para nada.

Diz que é para “cobrir” à esquerda, salvo seja, que isto de “cobrir ” nao pode ser só de um lado. O Miguel Vale de Almeida jura que o que escreveu há meses sobre o PS, e que o Ricardo mostrou em toda a sua grandeza, aqui no aventar, era antes da reconversão.

A Inês de Medeiros não diz nada o que é de extrema argúcia não vá o pessoal pensar que estamos perante uma emigrante “com mala de cartão”, aterrada há dias aqui no rectângulo.

Mas a Joana é que não foi em cantigas, ela sabe muito bem o tormento que foi ter que aguentar os xuxas na campanha do Mário. Com o PS não coiso nem se sai de cima, é usar e deitar fora, que ainda há-de estar para nascer um PM que faça melhor.

Agora, como dois amantes enganados, andam a chamar mentiroso um ao outro, que não, diz o PS nunca a quiz para nada, era para Coimbra para segunda na lista diz a Joana. Como no Bicho Carpinteiro não se fala na coisa inclino-me para a Joana, e parece que na Jugular e no Simplex o assunto tambem não é tema.

O Programa do PS é extraordinário, por acaso como não me lembro de nenhuma medida, até estava para pedir a algum aventador mais crédulo que avance com um poste sobre o assunto.

Depois travei, porque vendo bem as coisas até posso ser eu a fazer isso o que dá para falar com a Joana, que com aqueles olhos (e outros atributos) até merece que me mexa um bocado para conversar sobre o programa que há quatro anos nos anda a desgraçar.

Uma mente sem mácula

Por fim vi o filme que já tantas vezes me tinha sido recomendado e que, por uma razão ou por outra, sempre estava indisponível quando eu tentava consegui-lo. Em Portugal, onde as traduções de títulos parecem ser feitas pelo método “abramos este livro e usemos a primeira frase que nos apareça”, chama-se “O Despertar da Mente”, o que soa a algo semelhante a um livro de auto-ajuda. No original chama-se “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, algo como “Luz do sol eterna numa mente imaculada”, título inusitado mas que se entende quando se vê o filme, e que é um verso de um belo poema de Alexander Pope. Em síntese, este filme conta a história de um homem que, após uma ruptura amorosa, descobre que a sua ex-namorada recorreu aos serviços de uma empresa especializada em apagar memórias indesejadas para apagá-lo a ele e à sua história em comum.

A empresa, adequadamente chamada de “Lacuna”, efectua os seus serviços com discrição e bons resultados. Ante a perda de um ser querido (num dos casos vemos uma senhora chorosa, segurando no colo os pertences do seu cão morto), uma relação falhada, qualquer desfecho que produza sofrimento, a solução oferecida é a de apagar as memórias e “seguir em frente”. Num momento particularmente delicioso, ouvimos uma chamada de alguém a quem educadamente é recusada uma “intervenção” por ter atingido o limite de três por mês. Os interessados em contratar os serviços da Lacuna reúnem todos os objectos materiais que podem evocar a pessoa ou situação que pretendem esquecer – fotografias, desenhos, presentes, passagens dos seus diários, músicas, filmes, etc. -, entregam-nos aos cuidados dos técnicos, que nessa noite visitarão o cliente em casa, onde, devidamente ligado às máquinas de “apagamento”, dormirá um sono do qual acordará com uma mente sem mácula do sofrimento passado. Não é impunemente que se apagam as memórias, vê-lo-emos. E nos casos que o filme nos permite acompanhar verifica-se que as pessoas seguem percursos que as conduzem à repetição dos actos que deram origem às situações dolorosas apagadas anteriormente, numa espiral de repetição sem fim. Casais desavindos preferem esquecer-se às primeiras querelas. Lutos, fracassos, humilhações… uma passagem pela máquina que tudo apaga e virá a paz de espírito que o esquecimento traz. Talvez não haja ninguém que não tenha sentido alguma vez o desejo de esquecer certos momentos, e quanto do que fazemos se destina a evitar memórias dolorosas… Quantas ruas se evitam, quantos lugares, quantas melodias? Mas até que ponto estaríamos dispostos a ir nessa supressão das memórias dolorosas? Nesta fábula dos nossos dias que é “Eternal Sunshine…”, a memória, tornada descartável, deixa em seu lugar o vazio e a ausência de sentido. Com o apagamento das experiências de vida que terminaram mal desaparecem os fracassos e o sofrimento que eles geraram, mas também esse registo de unidade e de crescimento interior que dá sentido à vida. Fragmentados e perdidos, vagueiam os desmemoriados sem rumo, à luz do sol eterna de uma mente sem mácula.

Poemas do lusco-fusco

Há muito que não se via o sol
assim
impensado
temperado
macio
assim de amor
e de cio.
Uma aragem leve
de maresia
morna
sensual
passa por cima das algas
e das ideias
e traz ao pensamento
o sono das palavras.

      (adao cruz)

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Ministra da Educação: nem a Diana Chaves

A Srª Ministra da Educação dá uma entrevista ao DN.

Para início de papo e para tornar o Aventar uma revista de Domingo resolvi ir buscar a única novidade de toda a entrevista:

O seu nome surge em 598 mil referências na Net. É a portuguesa mais comentada, supera Ana Malhoa e Luciana Abreu juntas. O que sente ao ter tanta visibilidade?

Não procuro o meu nome na Internet e não sinto nada de especial em relação a isso.”

AnamalhoaLuciana Abreu

E de facto os número não mentem. Uma pesquisa no Google feita agora mesmo mostrou os seguintes resultados:
– Ana Malhoa: 267 mil; Luciana Abreu 404 mil e, imaginem só, Lurdes Rodrigues 986 mil.

Bem vista a coisa não entendo o critério do Google porque sempre pensei que havia por lá gente da área do SILICONE valley, mas afinal parece que não.

Continuei a minha intensa pesquisa científica e resolvi acrescentar o nome Maria ao dois restantes da Srª Ministra e…
Surpresa, os resultados descem para 676 mil – isto leva-me a pensar na influência que o divino tem nestas coisas da matemática.

E para tornar este post um sério candidato ao troféu “Post dos Carvalhos, pré-Argoncilhe” do aventar (depois de todos os posts Dalbyanos) eis que fui comparar os números com a Diana Chaves.

Dianachaves
E… Sim. Isso mesmo. Nem a Diana Chaves (808 mil) .
É verdade que se lhe juntar os do César (294 mil) podemos ultrapassar a Ministra…
Mas e se lhe juntar o Valter Lemos (867 mil) e o Pedreira (653 mil)?
Uma equipa imbatível. Sem dúvida.

Duas notas de rodapé que me parecem óbvias:

– o título do DN, ao associar a Ministra ao Sócrates e a trazer o Sócrates para o primeiro plano do conflito na educação é um desastre para o inginheirú!
– Está descoberta a próxima primeira capa da Playboy. E, desta vez, sem silicone!

Cartazes das Autárquicas

A partir de hoje e até 9 de Outubro, o Aventar vai publicar fotos dos cartazes eleitorais das próximas Eleições Autárquicas. Sem qualquer regra pré-estabelecida a nível d Partidos, sem regularidade fixa e sem juizos de valor. Apenas e só cartazes de alguns dos 308 concelhos do nosso país (já contando com a Trofa e Odivelas e sem contar com Olivença, que se encontra sob administração espanhola).
Para que todos nós saibamos o que se vai passando no resto do país em termos de campanha para as Autárquicas.
Como é óbvio, e porque nós, aventadores, não estamos em todo o país, pedimos a colaboração dos nossos leitores para que nos enviem fotos dos cartazes dos seus municípios. As fotos podem ser enviadas para blogueaventar@gmail.com

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (3)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (3)

Algumas das melhores e mais lúcidas pessoas que conheço cresceram sem que lhes fosse imposta qualquer ideologia ou religião. Quando muito foram-lhes ensinados alguns dos princípios consagrados na sociedade, elementos indispensáveis para o equilíbrio individual e colectivo: a lealdade, a integridade, a honestidade, o sentido de justiça, a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros. Dispensam Deus, seja ele qual for, mas não abdicam destes princípios que integraram a sua formação, feita essencialmente de lúcido querer e liberdade responsável.
Dizia-me o meu amigo que não escolhendo a vida nem a morte lhe foi dado viver, e se foi apenas para aproveitar a vida ao máximo porque ela é breve, então os pretos que vão para o inferno, dos fracos não reza a história, os pobres que trabalhem, não importa o abate de crianças para lhes roubar os órgãos, a escravatura, o prazer a qualquer preço, a exploração dos menos hábeis… para quê pruridos morais? Assim sendo, respondi eu, a fé parece não passar de uma atitude oportunista, de uma estratégia egoísta, de um cartão de crédito, uma espécie de Banco da fé onde se vai depositando o que se convencionou ser as nossas obras morais, a fim de garantir a entrada no céu, no país das maravilhas onde só cabem os eleitos, os que melhor rechearam os cofres de uma questionável moralidade, à boa maneira capitalista-aforradora. Sem Deus e sem fé como pode conceber-se a ausência de espírito racista, elitista, classista de muitas das mais nobres pessoas que conheço? Como é possível que tantos homens na História, sem qualquer tipo de crença religiosa nem esperança de se sentarem à mesa de Deus, tenham praticado em elevado grau a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros? Com Deus e com fé, como é possível ter-se cometido e continuar a cometer-se tantos crimes repugnantes? Ainda bem que, como diz Saramago, os rios de lágrimas chorados pelas vítimas do catolicismo Vaticano empaparam as lenhas dos seus arsenais inquisitórios. Mas aqui se engana – ou talvez queira parecer que se engana – Saramago. A morte aos infiéis é muito mais evidente do lado do cristianismo, na medida em que as imundas baratas são esmagadas diariamente às centenas pelos chinelos de todos aqueles que têm o sagrado direito e o sacrossanto dever de as esmagar nos momentos e nas alturas próprias. Simplesmente, os infiéis não são apenas os que não rezam, nem são propriamente definidos como os que não têm fé, mas são todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem e criam obstáculos à fé, que o mesmo é dizer, a todos os interesses que se servem da fé e a quem a fé serve e sempre serviu. Por outro lado a fé já não é bem o que era, nem são os mesmos os servidores da fé. Hoje, a fé talvez não passe do anestesiante rótulo de uma gigantesca garrafa planetária cujo conteúdo é diariamente destilado na base de ingredientes como exploração, dinheiro, poder e domínio. (Continua).

        (adao cruz)

(adao cruz)

QUADRA DO DIA

Na festa do S. João
Nosso santo milagreiro
Come a sardinha depressa
Se não come-ta o loureiro.

Eles querem pagar impostos sobre o que consomem

Na Califórnia consumidores de marijuana pedem para que lhes seja cobrado o IVA da legalização. Cobrem-me, dizem eles. Num estado falido, mais uma batalha na guerra das drogas.

Agora que se coloca a discussão em termos financeiros, e  não esquecendo que os gastos dos estados nesta guerra perdida estão do outro lado da balança pesando para o mesmo lado, parece que muito conservador levanta a cabeça, e começa a farejar: impostos? onde? onde?

Salivam sempre quando cheira a dinheiro.

.

Chico Júnior – Entre Impérios e Repúblicas*

Há muitos séculos, o Imperador Calígula provocou a ira dos senadores romanos ao tentar fazer do cavalo Incitatus um membro da Casa. Como se não bastasse a bravata, o imperador ainda quis que o animal viesse a ser um cônsul. Disseram que Calígula era louco. E de fato ele tinha alguns desvarios.

Distante em tempo e espaço, a crise no Congresso brasileiro – ou talvez a crise brasileira do Congresso -, é tão próxima da insanidade quanto a indicação de um equino ao Parlamento. Arrastadas há meses, as séries de escândalos e denúncias que envolvem favorecimentos a familiares e amigos tendem a degenerar a insustentável credibilidade das instituições políticas do País.

O presidente do Senado, José Sarney, está com a imagem desgastada assim como a Casa Legislativa. Aliás, um dos pivôs desse efeito é o próprio senador, ladeado de possíveis e prováveis deslizes administrativos com recursos públicos e de problemas de ordem fiscal, com bens não declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há mais de uma década.

Veiculadas tais notícias dentro outras que o expõe, o maranhense eleito pelo Amapá diz estar acuado pela grande imprensa que promove contra ele uma verdadeira perseguição. Apresenta como argumento uma suposta campanha para prejudicar o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Leva-se em consideração que, segundo pesquisa recente, a popularidade de Lula está acima de 80% – apesar das turbulências por que ele já passou.

O que se observa é que a jovem democracia brasileira, cercada de Estados ideologicamente instáveis, precisa de zelo incorruptível senão, as energias políticas e o dinheiro do povo vão se esvair enquanto, na mesma medida, a população se desanimará diante de intenções e decisões nefastas que destoam das propostas de interesse do povo que não tramitam.

O Imperador Calígula teve suas sandices, mas não votou no senador José Sarney.

* Chico Junior é brasileiro, formando em jornalismo, autor do blog Polipensamento (http://polipensamento.blogspot.com) sobre política e cotidiano e colaborador da página virtual Jornalismo Político (http://jornalismopolitico.com).

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (II)

(continuação daqui)

1973: Em Abril, é detido, pela PIDE/DGS, 20 dias na prisão de Caxias. Em Dezembro sai o álbum Venham Mais Cinco.
1974/75: Em 29 de Março de 1974, realiza-se no Coliseu dos Recreios um «Canto Livre» onde, além de Zeca, participam outros cantores. Acabam, interpretando Grândola, Vila Morena. Oficiais do MFA que assistem ao concerto, escolhem nesta altura a senha para o arranque do levantamento militar. É editado o álbum Coro dos Tribunais.

Após o 25 de Abril, Zeca entra numa fase de intensa intervenção em festivais e sessões de esclarecimento. Canta em quartéis, em fábricas, em escolas, em colectividades, em serões de solidariedade internacional; apoia o MFA na animação cultural junto da emigração e na recolha de fundos para a Reforma Agrária… Actua em Angola. Em Itália, organizações de esquerda editam o álbum República. 1976: Apoia a candidatura de Otelo à presidência da República. Edita o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. Pelo seu álbum Cantigas do Maio, recebe o Prémio Alemão do Disco (da Academia Fonográfica Alemã). 1978: Edita-se o álbum Enquanto Há Força. 1979: Sai o álbum Fura Fura. 1981: Grava Fados de Coimbra e Outras Canções. Realiza um espectáculo no Théatre de la Ville, em Paris. 1982: Sente os primeiros sintomas da doença degenerativa que o virá a vitimar. 1983: Em Janeiro actua no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Em Dezembro, sai o álbum Como Se Fora Seu Filho. 1984: Em Abril, em Questões e Alternativas, é publicado um depoimento de Zeca sobre o balanço de dez anos de democracia.

1985: Sai o álbum Galinhas do Mato. 1986: Apoia a campanha presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo. 1987: Em 23 de Fevereiro, no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, com 57 anos, José Afonso morre. 1992: Sai a 3ª edição de Cantares. 1994: o Presidente da República, Mário Soares, quer condecorar postumamente José Afonso com a Ordem da Liberdade. Tal como Zeca fizera a igual proposta de Ramalho Eanes, Zélia recusa. 1996: Coordenada por José Niza, é reeditada em CD uma colecção de toda a obra de José Afonso. 1997: Em 23 de Fevereiro, é inaugurado na Baixa da Banheira um monumento a José Afonso. 1999: Em Grândola e na Amadora são inaugurados monumentos em sua homenagem.

(continua amanhã)

Traidor e Mentiroso! Sócrates foi à vida!

Podem crer, quando um personagem com o peso político e económico do Cordeiro das Farmácias se sente à vontade para chamar traidor e mentiroso ao Primeiro Ministro, isto só tem uma leitura. O PM já foi à vida!

Não contente com isso, diz com a maior das calmas que o acidente em oftalmologia em Santa Maria, se deve à política que permitiu a concessão da farmácia a gente que não pertence à ANF!

Isto é, o responsável é o governo, o Ministério da Saúde e o traidor e mentiroso que não cumpriu o que havia acordado com ele, Cordeiro!

O Francisco Ramos, meu colega na faculdade já foi lançado às feras, e veio dizer que não senhor, todos os acordos estão a ser cumpridos. Isto é ,o secretário de Estado é que veio apanhar com o impacto porque quer a Ministra quer o primeiro Ministro estão de rastos. Onde está o animal feroz?

O Primeiro Ministro de rabinho entre as pernas só agora é que percebeu, que aqueles episódios da sua vida particular podem não ir a julgamento ou ficarem esquecidos numa gaveta, mas qualquer Cordeiro lhos pode atirar à cara. Como se vê!

Não gosto do Cordeiro, nem um bocadinho, é um dos rostos dos muitos e poderosos interesses instalados que vivem á sombra do Estado e que condicionam as políticas que nos colocam na cauda da UE, mas de burro não tem nada. Fez uma declaração de guerra e está à espera que Sócrates se renda ou que apresente armas.

Nada pior para Sócrates ! Não gosto nada que um PM do meu país se atemorize diante de um lobo disfarçado de “capuchinho vermelho”!

Bienal de Cerveira


O Veado, vencedor da I Bienal de Cerveira – Foto de Carla Rebelo

Começa hoje na vila das Artes, Vila Nova de Cerveira, uma das mais belas terras portuguesas. A primeira sem Jaime Isidoro. «Site» oficial aqui.

Fartos

No Irão morreram mais de 20 pessoas em protesto contra os resultados eleitorais e exigindo mais democracia. As liberdades fundamentais foram suspensas. Nas Honduras, militares golpistas extraditaram o presidente democraticamente eleito. Os protestos já geraram duas vítimas mortais. As liberdades fundamentais foram suspensas. Na China, 140 pessoas morreram em protestos contra a suposta hegemonia de uma etnia. 1400 pessoas foram presas e as liberdades fundamentais foram suspensas.

Estamos fartos disto! Estamos fartos de repressões e ditadurices. Estamos fartos de desrespeitos claros aos mais básicos direitos fundamentais. Estamos fartos de ver a liberdade ser suspensa. Estamos fartos de ver a democracia ser adiada em tantos países. Estamos fartos da paz ser constantemente hipotecada. Não pode ser! Estamos fartos e, dentro das possibilidades de cada um, vamos fazer barulho por isso! Temos dito!

fartos.net, uma iniciativa da ATTAC Portugal

A SENHORA NÃO SE VENDE

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OFERECERAM-LHE TUDO, E NADA!


.A senhora não pensa do mesmo modo que eu, politicamente falando. A senhora foi posta fora do que eu considerava ser o partido dela em Fevereiro último. Na altura pareceu-me mal, mas nem me deu para comentar. Era mais um caso num partido pelo qual só nutro curiosidade, e nem sequer é muita.
Entretanto, para obter ganhos políticos, e porque o partido da senhora anda a subir nas sondagens e nas votações, o ainda nosso Primeiro, grande irmão e admirável líder, ofereceu-lhe tudo e de tudo para que ela integrasse as listas do partido dele. Um lugar num eventual (mesmo muito eventual e nada provável) futuro executivo, altos cargos na administração pública, lugar elegível nas listas (segundo ou terceiro em Coimbra), e por aí fora, num churrilho e crescendo da qualidade do que oferecia.
Em vão! A senhora, mostrou ao ainda nosso Primeiro, o que é a moral e a defesa das suas convicções. A senhora mostrou-lhe que nem toda a gente se vende, que nem toda a gente tem um preço. A senhora mostrou-lhe que não alinha com os da laia dele.
A senhora mostrou-nos que ainda há gente séria naquela profissão.
Por outro lado, o piscar de olhos à esquerda, surtiu efeito com Inês de Medeiros e com Vale de Almeida (primeiro homossexual assumido com entrada na AR, e que não é um dissidente do BE, apesar de o querer fazer crer). Estes independentes de esquerda, aceitaram as ofertas do sr Pinto de Sousa e vão integrar as listas em lugares elegíveis. A cultura e a questão dos casamentos de homossexuais ficam assim defendidos. Pelo menos será esse o pensamento de António Vitorino, coordenador do programa.

Muito bem Joana Amaral Dias!

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Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (2)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência (2)

Deus continua a ser um grande problema, ou melhor, o homem continua a ser incapaz de resolver o problema de Deus, a equação cujo resultado estabeleceu como certo sem conhecer os dados que a compõem.
Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente. Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes. Sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade de um certo obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice. A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectora da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez.
Como acontece a Saramago, também a mim me acusarão de impiedade, sacrilégio, blasfémia, profanação, desacato. De tudo isto é capaz quem não tem o mínimo pejo em aceitar e colaborar nos tais espectáculos estilo cecil b. de mille, como foi o revoltante show do funeral daquele que deveria ser o representante da humildade e da pobreza, sobretudo quando comparado com o funeral do rei da Arábia Saudita, um dos homens mais ricos do mundo, esse sim, um deus terreno cuja riqueza mundana e fraqueza humana lhe permitiriam, sem escândalo, um sepulcro de ouro em vez da campa rasa. (Continua).

       (adao cruz)

(adao cruz)

DEUS COMO PROBLEMA OU A COMPLEXA SIMPLICIDADE DA EVIDENCIA (1)

Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência

Ao ler na revista Visão um artigo de José Saramago, Deus como problema, fui repescar um texto meu, escrito há alguns anos, baseado na resposta que dei à carta de um amigo e cujo tema era o problema de Deus. Com algumas considerações desse meu amigo e com o texto de Saramago tentarei uma reflexão que possa constituir uma espécie de calibração para todos aqueles a quem a lastimável situação do mundo em que vive não é de todo indiferente.
A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil – ou não se quer – entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar. Por isso o texto de José Saramago me impressionou, ao mostrar que o mundo é muito claro, pelo menos até onde nos permite que o seja.

      (adao cruz)

(adao cruz)

Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (I)

Nota: No dia 2 de Agosto, completam-se 80 anos sobre o nascimento de José Afonso. Para assinalar a data, o Aventar vai publicar diariamente, a partir de hoje, no dia em que é inaugurada a Exposição «José Afonso 80 Anos», um «post» sobre a vida e obra do mais genial dos nossos Cantautores. Porque, se hoje fosse vivo, o Zeca teria certamente muito a dizer sobre aquilo que é hoje Portugal. A falta que o Zeca nos faz…

1929: Em 2 de Agosto nasce em Aveiro José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, filho do juiz José Nepomuceno Afonso e da professora do ensino primário Maria das Dores Dantas Cerqueira. Virá a ser conhecido por José Afonso, por Zeca Afonso ou, ainda apenas por Zeca. 1933: Com três anos e meio, vai para Angola, (os pais tinham ido já em 1930) – o pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto. Estará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. 1936: Regressa a Aveiro. 1937: Vai para Moçambique, para onde seu pai fora transferido. 1938: Regressa a Portugal, ficando em casa de um tio, presidente da Câmara de Belmonte, onde conclui o ensino primário. 1940: Ruma a Coimbra, matriculando-se no Liceu D.João III. 1945: Começa a cantar serenatas.1948: Conclui o curso dos liceus, casando depois com Maria Amália. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica. 1949: Matricula-se em Letras, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique. 1953: Nasce José Manuel, seu primeiro filho. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.). 1953/55: Cumpre em Mafra dois anos de serviço militar, sendo depois colocado em Coimbra. Em 1954, nasce a sua filha Helena. 1956: É editado o seu primeiro LP – Fados de Coimbra 1957/59: Em 4 de Dezembro de 1957, actua em Paris no Teatro «Champs Elysées». Ainda estudante, dá aulas num colégio de Mangualde e, depois, como professor-provisório da Escola Industrial e Comercial de Lagos. Em 1959, ensinará na Escola Técnica de Faro. Começa a cantar em colectividades. 1959/60: Por alguns dias, ensina num colégio de Aljustrel, sendo depois transferido para a Escola Técnica de Alcobaça onde estará até ao final do ano lectivo. Em 1960 é editado o disco Balada de Outono (Menino de Ouro e Senhor Poeta) 1962: Nos Estados Unidos sai o álbum Coimbra Orfeon of Portugal, que inclui duas baladas de Zeca: Minha Mãe e Balada Aleixo. Participa em digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia. 1963: Conclui o curso, com uma tese sobre Sartre. Divorcia-se de Maria Amália, casando depois em Olhão com Zélia. Sai o LP Baladas e Canções (Ronda dos Paisanos, Altos Castelos, Elegias…). É editado o disco Baladas de Coimbra que inclui Os Vampiros e Menino do Bairro Negro.
 

1964: Sai um novo disco – Coro dos Caídos, Maria, Vila de Olhão, Canção do Mar. Em Maio, actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, à qual dedica Grândola, Vila Morena. É editado o EP Cantares de José Afonso. Sai também a público o álbum Baladas e Canções. Neste ano parte para Lourenço Marques, aqui leccionando e, depois, em 1966 e 1967, na Beira. 1965: Nasce a sua filha Joana. 1967: Regressa a Portugal. É colocado como professor em Setúbal. Adoece e é internado numa clínica. Quando sai, fora expulso do ensino. Mais tarde é readmitido, mas opta por se dedicar à música. É publicado o livro Cantares, que depressa se esgota. Sai uma segunda edição que será apreendida pela polícia política. 1968: É editado o álbum Cantares do Andarilho. Zeca participa na CDE de Setúbal durante a campanha para eleição de deputados à Assembleia Nacional que se segue à morte política de Salazar. 1969: Saem o álbum Contos Velhos, Rumos Novos e o single Menina dos Olhos Tristes e Canta Camarada. Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco. Nasce o seu filho Pedro. 1970: É lançado o livro Cantar de Novo e editado o álbum Traz Outro Amigo Também. Em Cuba participa num Festival Internacional de Música Popular. Em Dezembro, sai o álbum Cantigas do Maio.
 

1971: É, pela terceira vez, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. 1972: É eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio» e actua no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid Eu Vou Ser Como a Toupeira. É editado o livro José Afonso.

“Sei como posso fazer mais com menos”

“Sei como posso fazer mais com menos”.

Quem disse esta frase é candidato. Quem disse esta frase aposta num programa minimalista, de contenção, de rigor e tem a sincera convicção de que pode fazer um trabalho decente, bem feito utilizando parcos recursos. Não foi Manuela Ferreira Leite.

Quem disse esta frase foi Robert Burck. Mais conhecido como The Naked Cowboy, é já um ícone de Nova Iorque, em concreto da famosa Times Square. Burck, perdão, The Naked Cowboy apresentou a sua candidatura ao cargo de Mayor da ‘big apple’, concorrendo contra o actual presidente, Michael Bloomberg, que tenta o terceiro mandato.

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Na sua conferência de imprensa, para anunciar a candidatura, Burck apresentou-se como sempre: quase despido, utilizando apenas um chapéu, cuecas, botas e a inseparável guitarra. Será desta forma despojada, sem gastos excessivos, que The Naked Cowboy vai fazer campanha. O programa político, se o houver, será exibido a cantar, de forma humorística como sempre.

O homem, de 38 anos, ganha a vida através das gorjetas que os turistas lhe dão, para tirar fotografias com ele. Num dia normal, trabalha entra as 11h00 e as 2h00. Ganha, em média, mil dólares por dia. Sim, por dia. Alguns dos seus rendimentos, oferece-os a obras de caridade, num gesto que é bem recebido. Já foi contratado para trabalhos extra, como aparecer em programas de televisão ou campanhas de publicidade.

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Se for eleito, promete empréstimos de mil dólares a 10 mil jovens empresários e quer botões para chamar os táxis em cada esquina. O programa político não tem muito mais. Burck quer, claro, obter mais protagonismo. É mais um que ‘está na política’ para se servir. Não vai longe mas pode ser divertido.

E como estamos necessitados de diversão na política…

QUADRA DO DIA

Neste país de loureiros
Já o alho porro não presta
Só ladrões e caloteiros
Invadem a nossa festa.

Gente jovem abandona paraíso socrático

Há cada vez mais gente jovem e qualificada a abandonar este país madrasto. A capacidade de atracção do país está em queda.

Já nem sequer conseguimos ser atractivos para os imigrantes que zarpam para outras paragens.

Estmos a perder população jovem, em idade activa, e isso é grave para o país, diz no Público a demógrafa Filomena Mendes. A degradação do mercado de trabalho é a principal razão diz a economista Natália Simões.

Entre os novos emigrantes há cada vez mais gente qualificada, e este é o fenómeno mais preocupante, porque são as pessoas com mais capacidade para promover o desenvolvimento económico. Simultâneamente não estamos a conseguir atrair gente.

Dada a melhoria das condições de vida dos países de leste esta imigração praticamente desapareceu, estando a regressar as origens tradicionais, os países de expressão portuguesa.

O nosso déficite demográfico era corrigido com esta gente jovem que agora nos abandona.

O lamaçal socrático em todo o seu esplendor!