HORA DOS PORTUGUESES é um programa da RTP-Internacional dedicado aos emigrantes espalhados pelo mundo. Há dias passou um esboço biográfico do jornalista Dale Brazão, há mais de 40 anos fazendo jornalismo de investigação no Toronto Star e um dos jornalistas mais premiados do Canadá. Vou contar um episódio passado com este algarvio que tanto honra Portugal no estrangeiro.
Bihete do Canadá: Ser português
Bilhete do Canadá: Ginástica do pendura

Autor desconhecido
Um dia destes Passos disse que António Costa ajoelhou diante da Comissão Europeia. Como se não fosse essa a transitória, mas nem por isso menos infeliz posição de todos os estados da Europa do Sul conduzidos à escravatura financeira por uma clique dirigente que se amesendou em Bruxelas sem ter sido eleita.
Passos, a fazer o pino na sua actual carreira de cómico, vê o mundo a partir da sua cabeça para baixo e pés no ar. No tempo em que tinha a cabeça no ar e os pés no chão, esteve gloriosamente de cócoras. Primeiro como gestor dos dinheiros europeus a fundo perdido via Tecnoforma, sempre de braço dado com Relvas; depois, a babar-se, quando foi primeiro ministro para ir além da troika, pondo Portugal na penúria.
Bilhete do Canadá: Perguntar não ofende
Quando foi anunciado que do actual governo faziam parte um homem de ascendência cigana, uma senhora cega e uma senhora negra, um tipo tido por católico, apostólico, romano, pôs a circular entre os amigos, via on line, esta bestialidade: “o cigano roubou a bengala da cega e deu um ensaio de porrada na preta”.
Que se faz a um aleijado de carácter como este? Dá-se-lhe um par de estaladas? Ou dá-se uma condecoração?
Haja quem saiba responder. Entretanto, tudo quanto era saudoso do salazarismo, delirou com o vómito. Que a terra lhes seja leve.
Bilhete do Canadá: Ui que medo

Nas jornadas para lamentar do PSD houve duas tiradas de génio.
Uma foi do podengo da maçonaria que corre ao chamado de Montenegro: se a esquerda falhar, o governo deixa de existir.
Outra foi dum tal Passos que foi empregado duma dita Tecnoforma que pescava dinheiros europeus sem fazer uma única obra, de parceria com o Relvas, tarefa hercúlea que o levou a esquecer-se de pagar à segurança social uns anos. Disse o artista: ninguém acredita que esta maioria dure. E não será por causa do PSD.
Aos dois assenta como uma luva o ditado ribatejano: quem com porcos sonha até o mato lhe ronca.
Bilhete do Canadá: Um patriota
Quinta-feira. No final do noticiário da RTP, Nuno Melo e Carlos HEIL Amorim botaram faladura numa coisa que era suposto ser um diálogo. A dada altura, o Melo do CDS enumerou pausamente todos os ataques que o governo e seu orçamento têm merecido duns figurões de Bruxelas, doutros figurões dos mercados, doutras entidades que, nos dias que correm, andam de calças na mão com o trambolhão financeiro que se avizinha na Alemanha e outros países do clube. O eurodeputado Melo relatou os ataques com grande entusiasmo e uma expressão resplandecente.
Enternece o amor que têm à Pátria estes que vivem dos dinheiros públicos.
Bilhete do Canadá: Prós e contras
Segunda-feira discutiu-se a Eutanásia.
Qual não foi o espanto, aquém e além mar, do lado Contras estavam as mesmas damas que se bateram contra o Aborto. Usaram a mesma argumentação e o mesmo discurso. Não sei se os cabelos são pintados. Só sei que são loiras.
A Direita não aprende nada. E depois, queixa-se. Haja pachorra, Fátinha, haja pachorra.
Carta do Canadá: Os Mastronços

Imagem: Sadi Tekin em “mr. chickpea & friends“
Tenho andado a pensar numas coisas que vi pela RTP/Internacional por me parecerem bons indicadores do que vai pelo rectângulo à beira mar plantado. Deixo já claro que não me sobra a paciência para debates, concursos, comentários e para o zelo com que a estação estadual nos impinge humoristas sem graça, às catadupas, num esforço digno de registo para nos pôr a rir. Sou mal agradecida. Penso sempre o mesmo dos vários programas destinados aos emigrantes: já vi este filme, e não acabou bem. É que nasci e fiz-me gente em Angola, aprendi a ler e a escrever com professores que iam de Portugal. Falavam de azeitonas, de uvas, de pêssegos, de pêras, e também de brócolos e grelos, que nós nunca tínhamos visto. Não falavam dos frutos e vegetais que nós tratávamos por tu dia a dia. Encasquetaram-nos na cabeça os rios portugueses com todos os afluentes, mesmo os mais insignificantes. E também as linhas férreas, com estações e apeadeiros. Foi uma grande chatice. E geral, para as colónias todas. Para quê? Evitaram a guerra colonial? Evitaram o sentimento de profunda maçada que nos provocaram pessoas que não faziam a mínima ideia do que era a nossa terra? Isto tem um nome: colonialismo. Que, pelos vistos, é como o vírus desse mosquito que anda para aí. Para quê tantas sentenças à roda dos emigrantes se não há a decência mínima de eleger um deputado por cada país onde há comunidades portuguesas em número substancial, de modo a constituírem um grupo de independentes, não partidários, no parlamento? Têm medo? Andam a brincar ao nacional porreirismo como outrora com as escolas das colónias?
Carta do Canadá: Não se pode ignorar

Autor desconhecido
As televisões canadianas passam, diariamente, documentários da situação no Médio Oriente e na Europa. Quase todos com uma minúcia e um realismo que chega a ser insuportável à vista por terem dimensão apocalíptica. Pergunto a mim mesma, com inquietação crescente, se não estamos a assistir ao renascer do ovo da serpente perante a indiferença e o desinteresse dos povos cansados de má política. O nazismo e o fascismo não se implantaram de repente, na Alemanha e na Itália, passearam-se em manifestações por alguns anos, fizeram desacatos, puseram bombas, mataram pessoas, formaram partidos, foram a eleições. Deu mais do que tempo para as pessoas os travarem. Parece que só acordaram quando se consumou a tragédia em que morreram milhões de pessoas.
Carta do Canadá: Os exemplos vêm de cima
Quando solicitado por Barak Obama a participar na luta contra o Estado Islâmico, Justin Trudeau, o jovem primeiro ministro do Canadá, foi de meridiana clareza: o Canadá participa recebendo e ajudando refugiados, não entra em bombardeamentos.
(Nem tem que entrar porque, não tendo contribuído para o desastre do Médio Oriente, não tendo pretensões imperialistas, não precisando de petróleo porque o tem de seu, tudo quanto tem a fazer é ajudar quem foi desgraçado pela guerra).
Quando chegou a primeira leva de refugiados sírios a Toronto, nos meados de Dezembro, Justin Trudeau esteve a recebê-los no aerroporto, acompanhado da chefe do governo do Ontário, Kathleen Wynne. Soltos, descontraídos, sem discursos enfadonhos, deram as boas vindas aquelas famílias. O primeiro ministro, em mangas de camisa e revelando bom treino na matéria, ajudou as crianças a vestirem os robustos agasalhos com que por cá se enfrenta um inverno duro.
(Ambos estiveram bem fazendo as honras da casa em nome de todos os canadianos, dando abrigo e passaporte a quem chegou. Ficam os refugiados a salvo e, ao mesmo tempo, sob a lei do país. Se algum desrespeitar essa lei, responde por isso. É simples. O Canadá é um país libérrimo e generoso mas não é o da Joana).
Carta do Canadá: Espectáculo grotesco

Não me parece saudável deixar passar em branco algo que aconteceu dentro do parlamento, no qual trabalham ou simplesmente se exibem pessoas que o povo português é obrigado a pagar. Porque, em meu entender, quem não sabe respeitar instituições merece ser chamado a contas e avisado o povo de que demasiado silêncio é moléstia.
Carta do Canadá: Regresso à normalidade

oto: imago/GlobalImagens
Para compreenderem o orgulho e a alegria que senti ao ver Francisca van Dunen jurando o seu compromisso de honra como Ministra da Justiça do governo liderado por António Costa, vou explicar-vos algumas coisas. E jurou de cabeça levantada, a olhar de frente, em voz forte e serena.
Vivo há muitos anos no Canadá, um país de democracia parlamentar. Por decisão referendada, a chefe do estado canadiano é a Rainha de Inglaterra. O Canadá tem 10 províncias e 3 territórios, vai do Atlântico ao Pacífico, tem ao norte o mar Árctico. Cada província tem o seu parlamento e este elege o governo local. Na capital federal, em Otava, a Rainha está representada pelo Governador Geral, que tem guarda de honra como a soberana. É ali que está o parlamento federal, eleito por todo o país, donde sai o governo federal. Nas capitais provinciais a representação é garantida pelo Governador-Adjunto. Quando os imigrantes, depois duns anos de residência e de provas dadas, requerem a cidadania canadiana, juram respeito ao país e à Rainha. As pessoas com mérito para o cargo, tenham a origem, a religião e a raça que tiverem, podem ser escolhidas.Nos anos que levo deste país, vi como governadores gerais uma senhora francófona, um ucraniano, uma senhora chinesa e outra negra do Haiti. Todos eles cumpriram com brio os seus mandatos, mas devo sublinhar que as cidadãs de Hong Kong e do Haiti, ambas jornalistas da TV estadual, respectivamente Adrienne Clarckson e Michaelle Jean, foram brilhantes e são tidas com respeito e afecto pela população. No Ontário, tivemos um governador-adjunto negro, Sir Lincoln Alexander, um verdadeiro ícone de elegância e popularidade. É comum termos ministros e altos funcionários públicos negros, mestiços, indianos, chineses, índios. O mesmo se diga do jornalismo, audiovisual e escrito, das equipas hospitalares. Em todos os sectores da vida canadiana, há pessoas de todas as raças e credos. Viver no respeito pela diversidade, faz parte do ADN do Canadá. Ninguém refere a raça, a religião, a origem ou a orientação sexual dos outros. Somos todos canadianos, temos todos os mesmos deveres e direitos perante a lei, prezamos a paz e a harmonia.
Carta do Canadá: A sobremesa e o café

É de elementar bom senso e inteligência servir uma magnífica sobremesa e um soberbo café quando a refeição é má ou, pelo menos, de duvidosa qualidade. Porque, se for excelente o que se toma por último, é essa excelência que fica na memória dos nossos convidados.
Não é preciso tirar nenhum curso para saber isto. Basta, repito, ter bom senso e inteligência.
Cavaco Silva, enquanto Presidente da República, e a dupla governamental Passos e Portas, auto-proclamados arautos da direita radical que eles julgam salvar a Pátria, falharam completamente a parte final da sua prestação pública depois de, durante quatro anos, terem servido ao povo uma mistela intragável de incompetência, ignorância, amadorismo, mentira, trapaça, abuso e nepotismo. Em suma, uma refeição que o povo rejeitou em impressiva percentagem. Dizem eles, agora, que a União Europeia assim o quis e a troika assim o exigiu, esquecidos de terem entrado ao som do berro triunfante: vamos além da troika. E assim foi, num desejo canino de lamber os pés à Alemanha. Nisso queriam parecer-se com Salazar.
Carta do Canadá: Maré Alta
Agora foi a Roménia. Acabo de ver a reportagem duma manifestação popular em Bucareste durante a qual milhares de pessoas gritaram que, se foram capazes de lutar contra a ocupação soviética, também o são para liquidar uma classe política corrupta. Porque, de fonte limpa, já se sabe que houve corrupção da grossa naquela discoteca que operava sem licença e na qual um incêndio matou um elevado número de pessoas. O primeiro ministro, um social democrata, teve a decência de se demitir imediatamente.
Nos dias que correm, torna-se cada vez mais grave a fraude cometida pela Volkswagen e outras marcas de renome da indústria automóvel da Alemanha. Passado o pasmo de se saber que, afinal, na pátria de Merkel também há grandes podres, segue-se a revolta internacional por um país arrogante, sobranceiro, que de forma tão cruel tem humilhado os países do sul da Europa e, principalmente, a Grécia. Os réis da competência e da auto-proclamada seriedade, estão aos nossos olhos como vulgares trapalhões. Pormenor que, até agora, só era conhecido pelos coca-bichinhos que se informam: na verdade, a Alemanha colaborou alegremente na corrupção dos partidos gregos do arco da governação lá do sítio e foi por isso que se mandou ao ar quando um atrevido Syriza sacudiu a Grécia pelos ombros e a acordou. Teve, ao menos, essa virtude. A Alemanha é, hoje, um caldeirão em fervura lenta, mas fervura que vai da esquerda à extrema direita. Ainda temos muito filme para ver.
Em Espanha, nossa vizinha, a corrupção tem sido tão grande e tão prolongada que os jovens do Podemos e do Cidadãos tiveram de saltar à rua e mobilizar o povo. Vai ser lindo. [Read more…]
Carta do Canadá: Canadá vira à esquerda
Tem 43 anos, foi professor de matemática e monitor de desportos de Inverno. Em estudante, serviu às mesas como é de uso entre os jovens canadianos durante o verão. É o novo primeiro ministro do Canadá e chama-se Justin Trudeau. Vai, com a sua bonita mulher, criar os seus filhos na mesma casa em que ele mesmo foi criado, na Sussex Ave, em Otava. Porque é filho de Pierre Trudeau, que foi primeiro ministro do Canadá de 1968 a 1984 e deixou uma marca inapagável no país. Homem de esquerda, pôs o Canadá independente com apoio de toda a população, mas manteve a chefia do estado nas mãos da Rainha Isabel II, o que é mais barato e evita as confrontações de tantos em tantos anos. Fixou a construção do Canadá sobre a base do multiculturalismo. Nascido francófono, Pierre Trudeau enfrentou com determinação patriota o movimento separatista do Quebeque. Era superiormente inteligente, culto, idealista e pragmático. Toda a nação se lhe rendeu. O seu funeral foi uma irrepetível emoção colectiva, a que se agregaram Fidel Castro e Jimmy Carter, bem como a hierarquia cristã do país. Impossível esquecer os que, nos campos e nas estações ferroviárias, esperaram horas para poder acenar a despedida ao comboio que levava a urna, de Otava até Montréal, para o seu túmulo.
Carta do Canadá: emigração e eleições
Gostaria de partilhar convosco algumas reflexões sobre este tema, ditadas pelas preocupações que me assaltam e respaldadas por uma experiência de 32 anos a viver fora do país.

Para já, penso que será realista partirmos duma realidade incontornável: a abstenção. Tendo ela sido de 43% em território nacional e de 88% na diáspora, não creio que os resultados minoritários devam ser motivo de grande festejo e regozijo. Os resultados, mais ou menos vitoriosos, são obtidos numa franja de eleitorado. A esmagadora maioria demonstrou pelo silêncio que não acredita mais no actual estado de coisas e que está cansada dos partidos em presença, envelhecidos e envilecidos pelos jogos de bastidores que tudo devem a interesses pessoais, ao carreirismo, ao nacional-porreirismo que, cego a um mínimo de bom senso, apenas deseja manter na crista da onda aqueles que dão jeito a um determinado estar na política. Numa palavra: manter intacto o caminho directo para a corrupção, é a palavra de ordem que nunca se diz mas se tenta cumprir e até impor. Daí que, quando na Grécia e em Espanha, apareceram movimentos juvenis, virgens de vícios, a pôr os pontos nos ii, o choque sofrido pelo status quo atingiu alturas de crise histérica. A União Europeia, sonho sabotado de alguns e campo de interesses subterrâneos de vários países-tubarões que se alimentam do peixe miúdo, ela mesma perdeu o pé e a vergonha ao pôr os seus tenores a meterem-se em ópera alheia, numa ingerência que faria corar quem quer que tivesse um mínimo de carácter. Pode ser que um conjunto de jovens dos vários países explorados, vítimas da 5ª coluna interna, consiga reverter esta situação batendo as palmas ao bicho na arena europeia, mas também pode não ser por se tratar de um combate de David contra Golias. Em todo o caso, vale a pena tentar com inteligência e coragem, porque o mundo precisa de uma Europa forte, arrependida de maus caminhos, de mãos lavadas e cabeça levantada.
Carta do Canadá: Mundo, que te fizemos nós?
Éramos humanos espalhados pelo Norte de África, pelo Médio Oriente, pela África a sul, que viviam sem que os humanos doutros continentes o soubessem. A noite dos séculos foi rasgada por uns homens que chegaram até nós em barcos, munidos de lanças e de fuzis. De repente, eles souberam de nós. E nós soubemos que havia outro mundo e outras gentes. Eles vinham vestidos, nós estávamos nus. Sem pedirem licença para ficar, eles ficaram. Tivemos medo e eles fizeram de nós servos. Noutros lugares havia humanos com civilizações antigas. Tiveram curiosidade e desejaram negociar. Acabaram dominados. Os novos senhores descobriram as riquezas do subsolo e provaram que eles é que sabiam extraí-las, não nós. Os minerais valiosos eram metidos em barcos e levados para onde a riqueza entendia a riqueza. Nós ficámos calados perante tanta superioridade. Tudo quanto quiseram, levaram. Nós continuámos descalços, semi-nus e sujos. Lá longe, onde a riqueza entendia a riqueza, bebiam café, punham açúcar, bebiam cacau, faziam chocolates finos, inventavam a mais requintada doçaria, tornavam a sua gastronomia mais apetecível com as nossas especiarias, e por isso todo um comércio milionário foi erguido entre países. Um dia concluíram que precisavam dos nossos braços para trabalhar noutras terras, as da América, ao norte e ao sul. Fomos arrebanhados como gado e metidos em porões de navios, com grilhetas nos pés. Escreveram, com chicote e sangue, a grande tragédia da escravatura. Sofrimento intolerável que levou os escravos a ousarem a revolta. Finalmente, veio a alforria, conquistada com a maior dor. Fomos andando na vida e no mundo, aprendemos a ler, e percebemos por que, em alguns lugares, não nos deixavam ir mais além no saber, nos reduziam à marginalidade. Viver com o racismo passou a ser a regra.
Carta do Canadá: A padeira de cracóvia
Dificilmente se perde o vício da bica ao fim da manhã depois de uma vida inteira a alimentá-lo lá onde a pátria é de sol, sul e sal. Só por castigo se renuncia. Ou eu assim o entendi quando cheguei ao Canadá e verifiquei que o expresso só se vendia nos cafés italianos e vinha a ser uma mísera gota no fundo de uma chávena minúscula, e passa para cá 2 dólares, che porca miseria, che maffiosi. Suspendi, por decência. E fiquei sem alternativa porque, nesse tempo, ainda não havia cafés portugueses, a doçaria portuguesa era vendida pelas padarias que a serviam com uma água de cozer castanhas a que tinham, e têm, o topete de chamar café regular ou canadiano. Beberagem que os canadianos engolem aos litros durante o dia, sem açúcar, de caneca na mão – como nos filmes. Mais tarde abriu o primeiro café a sério e então havia bica à maneira, abatanado e tudo quando é devido a uma alma portuguesa. Actualmente, há muitos cafés e esplanadas que enchem de cor e alegria a cidade que alberga três milhões de habitantes oriundos de 190 países.
Carta do Canadá: Por quem os sinos dobram
A maratona negocial de Bruxelas, que teve a Grécia por motivo, trouxe-nos ensinamentos dolorosos e perguntas que magoam. E saldou-se por um acordo punitivo, odioso, vingativo, a que se chegou por meio de chantagem: ou os gregos aceitavam o garrote da penúria ou seriam mandados morrer de fome fora do euro. E que servisse de exemplo a quem ousasse contrariar as imposições da Alemanha, os interesses da Alemanha, a mente quadrada da Alemanha. Deitou-se mão de tudo para espezinhar e humilhar os gregos, na pessoa de um Alexis Tsipras que, por amor ao seu povo sofrido, se vergou sem estar convencido e já sem ilusões acerca das injúrias que iria ouvir dos que, se estivessem no lugar dele, teriam feito o mesmo. Um homem jovem que, tendo sido obrigado pela manobra hitleriana da actual União Europeia a aceitar o contrário do que havia prometido e até sublinhado pelo referendo, teve a hombridade de o declarar ao seu país e ao mundo, em discurso claro e sem rodeios. Não foi nenhum farsante que prometesse a lua aos eleitores e depois, de rabo entre as pernas, fosse além das troikas e baldrocas com que os não eleitos de Bruxelas andam a tirar dos pobres para dar aos bancos dos países ricos. A Grécia teve a postura dum país milenar, hoje servido por uma geração de jovens políticos inteligentes e academicamente bem preparados, perante a arrogância ignorante dum país recente que mais não é do que o agregado de territórios feudais, qual deles o mais abusivo, que veio a desaguar numa comunidade que, no espaço de um século, tentou destruir a Europa e levou a guerra ao mundo todo. Quando começaram as queixas contra Varoufakis, o ex-ministro das finanças grego, que só com o olhar perfurante tresmalhava aquele formigueiro malsão, o primeiro ministro Tsipras teve a elegância de substituir o seu companheiro de governo. No entanto, quem tudo manda em Bruxelas teve o topete de reconduzir o presidente do Eurogrupo, o detestável Dijssolbloem que, com a sua expressão desvairada de gato castrado, humilhou e maltratou quanto quis a delegação grega. [Read more…]
O conselheiro
Nos últimos dias houve reacções, estupefactas e iradas, em todo o país porque o primeiro-ministro teceu, em cerimónia pública, rasgados elogios a Dias Loureiro, considerando-o um exemplo a seguir. Dias Loureiro, como se sabe, está atascado até ao nariz no BPN, esse escândalo financeiro que deu um rombo medonho nas contas da nação e, ao fim e ao cabo, foi percursor de tantos outros escândalos que o país tem vindo a sofrer nos últimos anos desta “chatíssima” trindade: PR – Governo e maioria parlamentar, tudo da mesma família partidária. Mas, por mistérios que um dia se desvendarão, a Dias Loureiro não aconteceu nada. Foi mesmo precisa uma gritaria nacional para o PR o tirar do Conselho de Estado. O sujeito, de quem Passos Coelho diz babadamente que “tem mundo”, continua a fazer os seus negócios chorudos no mesmo país onde a pobreza aumenta a cada dia.
Porque teria o primeiro-ministro tomado esta atitude? Por gratidão de passado? Teria alguma parente sua trabalhado para o milionário? Ou, receoso do resultado das eleições, o chefe do governo tenta garantir um futuro emprego? Só o interessado pode responder. Seja como for, Passos Coelho não tem o direito de dar exemplos destes a toda uma juventude que, com cruel descaramento, convidou a emigrar por não ter trabalho nem horizontes em Portugal. Se ele entende que deve dar estes conselhos aos jovens da sua família, não temos nada com isso, é problema dele. Mas desrespeitar os valores morais em que a generalidade dos jovens portugueses é educada pelos pais, isso é que não se lhe pode permitir. A cada qual sua educação, a cada um os seus princípios. Nada de misturas.
Nestas ocasiões é que se sente a falta, dentro do rectângulo, de uma figura de Igreja da estatura do Papa Francisco, para se pôr ao lado dos pais, dos professores e dos jovens, dizendo pelo claro que o rei vai nu.
O impensável crash
Depois daquela manhã tão estranha em que nos foi dado ver, em directo, dois aviões embaterem contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, daquele 11 de Setembro que enterrou quase quatro mil pessoas, depois disso viajar de avião tornou-se uma grande maçada. O medo, claro, vestiu a roupa da resistência militante a cada um de nós – sabemos do risco dos jihadistas, mas entendemos que devemos enfrentá-lo porque a vida continua e não a queremos adiada. A maçada são os controlos de aeroporto, as horas de espera, uma seca. Tão grande é a seca que são hoje bastantes os empresários e profissionais de Toronto que, tendo de deslocar-se semanalmente a algumas cidades dos Estados Unidos, o fazem de comboio. Mesmo que a viagem seja de cinco horas, vale a pena porque é mais ou menos o que gastariam em aeroportos e no comboio, de perna estendidas, bem servidos, a poderem ir até ao bar, a baterem uma sestazinha, a irem adiantando o seu trabalho no computador, deitando um olhar preguiçoso e regalado à paisagem. Chegam ao destino repousados e calmos. É a humanização do trabalho. [Read more…]
Que giro!
Apresento-vos o primeiro emigrante português residente longe da pátria. É dos lados de Ourém e disse-me pelo telefone que estava com pena de ter perdido o filme, da responsabilidade de Al Gore, ex-vice presidente dos Estados Unidos, sobre as malfeitorias que vários países, incluindo o seu, fazem à Natureza. Informo que o filme está no cineminha do meu bairro e que eu, por falta de tempo, também ainda o não vi. Acertámos ir os dois nesse mesmo fim de tarde. E fomos. As falas do Al Gore eram claras. O filme, em si, era barulhento a valer:desabamentos, ventanias, estrondos, sirenes. Nós, de olhos colados no ecran. E as sirenes que não se calavam. Até que a imagem desapareceu, as luzes se acenderam, e se ouviu uma voz calma e bem timbrada a pedir-nos que, sem pânico, mas rapidamente, saíssemos porque havia um incêndio no prédio. Íamos a meio da escada rolante quando pelo altifalante fomos avisados que devíamos ir à bilheteira receber outro bilhete, para o caso de querermos ver os quinze minutos de filme que que nos faltavam, ou para receber o dinheiro do bilhete se não estivessemos interessados. O de Ourém disparou a pergunta: “precisa de ver mais filme para saber quem são os gajos que andam a lixar o mundo?”. Reconheci que não, não precisava. Chegados ao átrio, o rapaz foi direito à bilheteira e veio de lá com o dinheiro.
Tínhamos ido ao cinema de borla. Este é o português desenrascado.
A grande desilusão
Os filhos aspiram a ter uma profissão, a sua própria casa, a sua independência, sem que isso implique menos afecto pelos pais. É natural que seja assim. Não é natural que os pais tentem travar o legítimo direito dos filhos, entrando em disputas que deixam marcas de injustiça e amargura. O mesmo acontece com os territórios coloniais em que quem os descobriu encontrou povos com a sua maneira de viver. Povos que, digamos assim, passaram a ser filhos adoptivos das potênciais coloniais. Quando esses povos atingiram a maturidade (ou a saturação) e quiseram ser independentes, bem andaram as potências colonizadoras que negociaram, garantiram os seus interesses empresariais e a presença em segurança dos seus residentes, não se deixando enredar em guerras que abriram as portas à corrupção, à violência, ao abuso, envenenando o clima de bom entendimento entre os velhos países e os novos países.
Os pompeus
Quando eu andava na escola primária, na primeira parte do século passado e em África, havia sempre em cada turma um Pompeu (ou uma Pompeia). Que vinha a ser um ser sisudo, penteadinho, que não se misturava nas brincadeiras do recreio, que mirava com olhos de detective todos e cada um, que denunciava e fazia queixinhas, e que sobre isto mal o professor perguntava quem sabe? se levantava logo de mão no ar. Oferecia-se para ir ao quadro, lambia os pés dos professores. Tinham estas qualidades todas, ninguém os suportava e, sempre que podíamos, enfiávamos uns bofetões naquelas caras estanhadas Ninguém os convidava para nada, nem na escola nem fora da escola. Eram tão excepcionais que nos ficaram na memória, como exemplo de lástima. Estou em crer que todos rezávamos para nunca termos um irmão Pompeu.
Pela vida fora ainda fui encontrando uns quantos Pompeus, incluindo na minha profissão. Sempre que tinha de lidar com eles, lá me vinha aquele desejo nascido na remota infância de lhes ir à fuça. Fiquei-me sempre pelo sensato conselho das terras ribatejanas: trela no lombo e campos da Golegã com eles. [Read more…]
A lição da Grécia
Ser português é trazer a Grécia dentro de si, diluída em azul e branco, há mais de mil anos. Porque o império grego não nos colonizou, com tropas de ocupação e impostos pagos a Atenas. Os seus barcos vieram em paz à nossa costa e, por via do comércio, os homens falaram, conheceram-se, entenderam-se, misturaram-se. E parece que muito e bem, tal é o laço afectivo. E isto faz-me lembrar o sábio Agostinho da Silva quando aconselhava Portugal a acabar com consulados e embaixadas, a granel, e a abrir tasquinhas com pastéis de bacalhau e tinto, se queria penetrar no coração dos povos.
Para mim, o sentir desta realidade começou com os compêndios de História do Prof. Mattoso quando, no Colégio de Tomar, eu lia e relia o encanto grego, e não ligava peva às arengas desbragadas do Ti Ilídio, antigo mestre de artes e ofícios em Angola por conta das chamadas Missões Laicas que a exaltação maçónica de Afonso Costa inventou para anular as missões católicas que sacrificadamente cumpriam o seu dever desde as descobertas, estado de coisas que terminou com o advento do salazarismo e abriu caminho ao bom homem para ensinar história aos meninos nas margens do Nabão. Mais tarde a pintora Sara Afonso, viúva de Almada-Negreiros, havia de trazer-ne a Grécia, sob a forma de sobressalto, quando, uma vez por semana, comia comigo o bife da Brasileira, no Chiado, e se ficava a conversar tarde fora, acendendo sucessivos cigarros com o auxílio duma enorme caixa de fósforos. Estávamos no final de 1974, já com as nuvens negras do PREC a esvoaçar, e Sara Afonso transmitiu-me a sua angústia: será que teremos um destino igual ao dos gregos, esses que, perdido o império, ficaram como que paralisados? Não estaríamos nós desmotivados desde a perda da India, onde tínhamos investido tudo? Quantas vezes tenho pensado nestas conversas! E hoje, tenho amigos gregos em Atenas e outros em Toronto. Nesta crise temos estado irmanados no desgosto, na revolta. E agora, na esperança.
Natal de 2014
Hoje é o meio exacto de Novembro. O dia está cinzento, frio, húmido. Mas as avenidas largas de Toronto, num percurso de muitos quilómetros, estão apinhadas de uma multidão colorida, alegre, calorosa. Carros soberbamente decorados passam. Bandas canadianas, americanas e doutras proveniências, desfilam garbosamente e enchem o ar de música festiva. Lá vem a portuguesa Banda do Senhor Santo Cristo, os músicos com barretes natalícios. Comovo-me. Comovem-me sempre as modestas bandas portuguesas. Milhares de crianças, numa multidão que se estima de um milhão de pessoas, as carinhas rosadas do frio, agasalhadíssimas, riem, batem as palmas na alegria doida de verem as figuras de Walt Disney nos carros alegóricos. Todas numa excitação indescritível porque esta é a centenária parada que traz o Pai Natal à cidade. Quando aparece o enorme carro, puxado a renas, ladeado por carteiros fardados a rigor transportando pequenas caixas de correio, e o gordo mais conhecido do mundo berrando ohohoh, num berro que lhe sai das barbas brancas, é praticamente impossível segurar os pequeninos. Todos eles correm para o carro, de cartinha na mão, a gritar numa emoção que só a inocência pode dar: Santa (Santa Claus, de São Nicolau), eu portei-me bem! Eu fiz os trabalhos de casa! Eu ajudei a minha mãe! Please lê a minha carta, dá-me o que eu te peço Santa, I love you!. [Read more…]








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