Nótula sobre o estado actual da relação entre o Governo da República Portuguesa e a língua portuguesa

I don’t know why.
— Kurt Cobain, “Stay Away

Se me não ponho a milhas lixo-me: não fica aqui
mais ninguém senão eu.
— António Lobo Antunes, “Memória de Elefante

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O Governo gosta de mandar na forma como grafamos as palavras. E, só para não abdicar desse imenso e intenso prazer, até ignora pareceres de quem, ao contrário dele, percebe da poda. Outros, mais pequenos, mas com poder, são extremamente afoitos e, embora não saibam que uma rosa pegada pelos espinhos não é bem a mesma coisa que um touro pegado pelos cornos, mostram sem medo o mesmo apetite voraz dos muito poderosos pelo policiamento dos hábitos linguísticos dos falantes. Ia rematar este longo parágrafo com um breve comentário sobre o Manifesto 2014, mas convém que não nos desviemos ainda mais do assunto.

Em matéria linguística, o Governo lá vai andando, tem-te-não-caias, rumo a lugar nenhum. Por um lado, manda-nos grafar para em vez de pára, ação em vez de acção, maio em vez de Maio, diapnoico em vez de diapnóico, etc., tudo em nome do reforço do “papel da língua portuguesa como língua de comunicação internacional“. Por outro lado, o Governo manda-nos descarregar uma aplicação portuguesa com nome em língua inglesa (StayAway Covid). Provavelmente, o Governo da República Portuguesa prefere reforçar o papel da língua inglesa como língua de comunicação internacional. Assim sendo, há esclarecimentos a prestar.

Convém lembrarmo-nos deste triste episódio, quando membros do Governo voltarem a defender o Acordo Ortográfico de 1990.

Nótula: Luiz Fagundes Duarte dá-nos algumas ideias para pormos o vírus a léguas em português — e alguns dos comentadores têm feito aditamentos. A lista vai longa. Até agora, todas as propostas são melhores do que a promovida pelo Governo.

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Não podemos branquear o comunismo

Pessoalmente, nada tenho contra a realização da “festa do avante”. O evento em si e por si, dá-me igual.

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André Ventura combate o elitismo e o sistema na Quinta do Lago

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O último comício do Chega, o partido que afirma combater as elites e o sistema, realizou-se neste cenário nada elitista e absolutamente anti-sistema do Medusis Club, na popularucha Quinta do Lago. Um cenário exótico e sofisticado que tresanda a povo. O tal que André Ventura quer a pagar os impostos dos clientes habituais do club da Quinta.

Censura fake em Viana do Castelo (com o alto patrocínio de Nuno Melo)

NM

O grande incêndio do passado fim-de-semana, no mundo paralelo das nas redes sociais, foi o vídeo de uma escola de dança de Viana do Castelo, alusivo às festas de Nossa Senhora da Agonia, alegadamente censurado pelo Facebook, devido a denúncias de racismo.

Fui ver o vídeo, que me chegou via WhatsApp, sem ponta de racismo por onde se lhe pegasse, e, quando dei por mim, o incêndio já consumia centenas de hectares virtuais no Facebook e Twitter. Impulsionada pela extrema-direita, nas suas versões oficial, dissimulada e “still inside the closet“, a narrativa era objectiva: a extrema-esquerda antifa e anti-católica havia desferido um violento e ignóbil ataque contra as bicentenárias festas minhotas. A intolerância, o comunismo, a Venezuela e até o Estaline tinham subido à Terra para censurar as jovens bailarinas. Mais um episódio de cancel culture, marxismo cultural e mais não sei o quê. [Read more…]

Salafrário II

Post editado porque uma das frases do texto, não correspondia, milimetricamente, à verdade. Pelo facto, me penitencio.

Vi nas redes uma lista (grande) de situações em que Costa perdeu a compostura e se irritou para lá do que é “portuguesmente” admissível. E, realmente, percebe-se que o homem não é boa rês.

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Salafrário

Duas frases que definem um pensamento políticamente corrupto, incapaz e irresponsável. Nunca tive qualquer dúvida que Costa, politicamente, era e é menos sério que Sócrates.

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O meu corrupto é melhor que o teu…

Steve Bannon é uma referência para André Ventura. E corrupto sabe-se agora, facto que o líder do Chega já se apressou a desvalorizar. Pablo Iglesias, também é visado num alegado esquema de corrupção. Não ouvimos uma palavra sobre o assunto às manas Mortagua nem à Dª Catarina, líder da agremiação política irmã do Podemos…

Um sistema que gosta de velhacos

Ponto prévio: ficava muito contente se este vigarista decidisse apresentar queixa-crime contra mim. Apesar da minha identificação ser pública e acessível, para esse efeito, não terei qualquer problema em fornecer qualquer outro dado que não consigam verificar.

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Discurso fofinho

Obviamente que isto não é discurso de ódio.

Já um cartaz a dizer: “patada ……..(preencher a gosto) na boca dos comunistas” seria completamente inadmissível por, evidentemente, incitar comportamentos violentos e, por si só, razão mais que suficiente para convocar outros 2 ou 3 protestos públicos onde se tentaria alcançar o máximo histórico de 23 manifestantes.

Politicamente incorrecto (1) – racismo em Portugal

Propositadamente deixei passar algumas semanas desde o assassinato a sangue-frio de Bruno Candé numa rua de Moscavide, para escrever estas linhas.
Ao que se sabe, a vítima tinha um cão, que incomodava Evaristo Marinho, autor dos disparos. E segundo vários relatos que tenho lido de testemunhos na vizinhança, não era Bruno Candé a única pessoa na vizinhança a ser ameaçada pelo idoso Evaristo, 76 anos, ex-combatente no ultramar, frequentemente quezilento, neurótico, pessoa descrita como tendo mau-feitio. [Read more…]

Portugal e os Pequenitos

[João L. Maio]

Um deputado com assento parlamentar, voltou a sugerir a deportação de Joacine Katar Moreira, pura e simplesmente por esta ser negra, pela 2ª vez na sua (ainda) curta carreira parlamentar.

Duas dezenas de racistas declarados fizeram uma vigília à porta da sede da SOS Racismo, mascarados “à lá” Ku Klux Klan, com o objectivo de intimidar, amedrontar e ameaçar quem luta, todos os dias, contra crimes de ódio racial.

Um homem, preto, de seu nome Bruno Candé foi assassinado no seu próprio bairro por causa da sua cor da pele, há duas semanas.

E nisto, parece mais fácil sacar a temperatura da água do mar em Armação de Pêra ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do que ouvi-lo condenar e intervir sobre estes acontecimentos atrozes que se vão sucedendo.

Relembro o Código Penal:

“Artigo 240.º

Discriminação racial, religiosa ou sexual [Read more…]

Esquerdofrenia

[João L. Maio]

O pior da esquerda é a constante falta de unidade. A dar tiros nos pés somos os maiores.

Num momento em que a esquerda precisa de estar unida, debater e chegar a consensos sobre a melhor forma de reagir (não gosto da palavra, mas é a correcta neste caso) ao avanço de uns certos iluminados sem luz, eis que prefere medir a pilinha do “eu sou mais anti-fascista do que tu” com os outros camaradas do mesmo espectro político.

As sondagens que vão saindo valem o que valem (ainda para mais quando as próximas Legislativas são apenas em 2023). No entanto, são sempre sintomáticas de alguma coisa, não fossem elas… amostras representativas. E essas dizem-nos que os desventurados vão galgando terreno. Um deputado fascista na Assembleia da República é um empecilho que temos tentado combater e desconstruir; agora imaginem fazer esse trabalho com quinze ratazanas lá metidas por outros milhares de ratazanas que os elegerão. Tudo isto se torna mais urgente quando ouvimos o líder da oposição dizer que não põe de parte uma coligação com os mini-hitleres cá da rua. Não acordes, esquerda…

Unam-se. Não se arruma com um fascista atirando o tiro para o ar. Separados e de costas voltadas não se combate o presente e muito menos se constrói o futuro.

“Tudo depende da bala e da pontaria/Tudo depende da raiva e da alegria”.

A “desajuda” do fechamento ou “calem o bico, cidadãos”

É demasiado óbvio que o aumento do número de assinaturas de 4.000 para 10.000 para que uma petição pública seja debatida em plenário na “casa da democracia” é um “sinal de fechamento na Assembleia da República, na participação dos cidadãos e na vitalidade da própria democracia”. E é-o de facto, não pode apenas “ser visto” como tal, conforme relativiza Marcelo Rebelo de Sousa.

Desta vez, o veto de Marcelo é em favor dos cidadãos e oferece uma oportunidade de apagar aquele dia negro para a democracia portuguesa em que a arrogância do PSD (que queria até aumentar o número mínimo para 15.000) e do PS quiseram abafar a voz da cidadania. Aceitam-se apostas.

Tudo o que seja revelar desconforto perante a participação dos cidadãos não ajuda, ou melhor, desajuda a fortalecer a democracia” – Pois é. E “desconforto” é apenas um eufemismo para a falta de pachorra destes partidos em causa própria, que não valem um chavo porque os cidadãos só lhes interessam para enfiarem o voto na urna. Até a esfarrapada justificação para a alteração da lei foi desmascarada: “o número de petições desceu em 2018 e 2019, relativamente a 2017 – portanto não é válida a justificação do trabalho parlamentar”.

E depois admiram-se que o Chega suba.

O Chega e a glorificação da criminalidade violenta

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Esta manchete é de 2018

Se Portugal fosse um país racista, segregacionista, as manifestações de homenagem a Bruno Candé corriam sérios riscos de serem abalroadas por contramanifestações de neofascistas e neonazis violentos. Felizmente, ainda não chegamos a esse ponto. O racismo existe, está impregnado no nosso tecido social, das mais variadas formas, mas os portugueses, é minha convicção, não são um povo estruturalmente racista.

Isso não significa que o racismo seja um fenómeno residual. Não é. E, a esse respeito, vivemos tempos perigosos, aqui e em todo o mundo democrático. Tempos de ressurgimento de forças que promovem o racismo e a xenofobia, não raras vezes com violência à mistura, e que dão voz à boa velha ilusão conspirativa da invasão árabe, que destruirá a tal democracia europeia que também eles querem destruir, e a submeterá a sharia qualquer. Tão útil que ela é, para contornar os princípios mais elementares que presidem às democracias liberais, e ir por aí fora, a atropelar direitos humanos e liberdades fundamentais, Tiananmen style. E dizem eles que não gostam dos chineses. Tomara eles, poder “governar” como os camaradas do PC Chinês (suspiro). [Read more…]

A falsa equivalência

CR (2)

Na narrativa do fascismo do terceiro milénio, a luta por mais e melhores direitos civis, em particular de quem não os tem, representa uma ameaça à sobrevivência da nação e dos patriotas, seja lá o que isso significa para essas pessoas. Depois existem os idiotas úteis, que, não sendo necessariamente mal-intencionados, caem na esparrela da falsa equivalência, abrindo caminho para a normalização da extrema-direita. [Read more…]

À custa das nossas possibilidades

NB

Ricardo Araújo Pereira sintetizou o embuste na perfeição, numa das últimas edições do Governo Sombra: imaginem que eu tenho um quilo de maçãs, que me custou 2€, e vendo-o a uma pessoa, que eu não sei quem é, por 1€. E essa pessoa diz-me assim “tens 1€ que me emprestes?”, para me pagar o euro. Eu empresto, e depois peço ao fundo de resolução o euro que falta.

Não, não é nada estranho. Acontece todos os dias, em todo o lado onde o capitalismo é quem mais ordena. Desta vez soube-se, porque, convenhamos, o Novo Banco é um banco em decadência, desde a sua criação, e há muito dinheiro dos cofres públicos que se perdeu por lá, para não falar no Salgado, no Sócrates e nos restantes indivíduos que pilharam o GES, depois do GES ter pilhado meio mundo. E quando estamos a falar de pessoas e entidades caídas em desgraça, a coragem dos holofotes mediáticos tende a aumenta substancialmente. [Read more…]

Lições do fascismo português: como casar uma professora do Ensino Primário

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No tempo do Salazar é que isto era um país às direitas. Literal e orgulhosamente. Reparem no exemplo das professoras do ensino primário que pretendiam casar, e que só precisavam de aprovação do pai, de um parecer positivo do director do distrito escolar e da autorização do Ministro da Educação Nacional. Nada mais. Era ter estas três aprovações e estava resolvido o problema. Nada dessas modernices vagabundas, que estão a destruir a família cristã, em que a mulher escolhe o seu caminho e faz as suas próprias opções. Com Salazar e o seu grupo de forcados, poucas vergonhas como essa não passavam.

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O vírus (3)

Graça Freitas e Marta Temido

Agora, a DGS já recomenda o uso de máscaras como medida de contenção do vírus.

É de recordar que Marta Temido e Graças Freitas insistiram repetidamente, no início do confinamento, que as máscaras era inúteis e que, veja-se só, até eram contra-indicadas. Estavam, então, em claro contraciclo com o que se fazia nos países que lutavam activamente contra a pandemia. Este volte-face ocorreu sem que proferissem uma palavra sobre o erro que cometeram e nem sobre as consequências que poderão ter causado aos portugueses.

Este panorama é a melhor fotografia da resposta do governo às crises, esta e anteriores. Houve muita conversa fiada, que se traduziu em propaganda diária em forma de conferência de imprensa. Assistimos à mão forte na legislação, sob forma da lei fecha-tudo, que nos permitiu ganhar tempo para nos prepararmos, mas que, vemos agora, não resultou em preparação visível por parte do Governo (continua-se a anunciar planos, em vez de execução dos anteriormente anunciados).

E, por fim, o tempo mediático não foi usado para educar os portugueses, tal como fez, por exemplo, a BBC, que passou repetidamente pequenos clips informativos (curtos!), tais como ensinar a usar a máscara, como lavar as mãos e divulgação científica.

(continua)

 

Democratas não negoceiam com fascistas. Combatem-nos

Portugal não é um país racista, mas o Ultramar pariu uns quantos trogloditas que anteciparam Abu Grahib umas três ou quatro décadas. Num Estado decente teriam sido presos. Mas o Estado Novo não era um Estado decente. Era um gangue de criminosos e fanáticos religiosos, corruptos e crueis, que posava com cabeças de negros empaladas e fazia porta-moedas com as suas orelhas. E é também por isso que a história não pode ser branqueada e que o ódio racial deve ser combatido, sem contemplações. E quem se põe a jeito de fazer cedências ao Chega, o único partido a ter dirigentes que saíram em defesa do homicida de Bruno Candé, está a fazer uma escolha política e civilizacional. Uma escolha sem retorno.

O vírus (2)

Capa do jornal Público, 2020-07-28

Novamente se constata que Portugal é um Estado com leis feitas à medida, o que talvez seja pior do quem um Estado sem leis.

Em causa está a negociata imobiliária do Novo Banco, onde tudo, veja-se só, foi legal. Até o facto de o prejuízo do Novo Banco ser coberto pelos fundos públicos é um sintoma deste país de leis cozinhadas. Alguém reviu e aceitou os contratos que estipulam estas medidas. A questão que se coloca é: quem foi? Não é difícil de saber, apesar de não ser notícia.

As leis são feitas para que acções criminosas ou condenáveis tenham fundamento legal. Esta é origem primária da corrupção. Mas que não haja motivos para preocupações. Daqui a 10 anos teremos na justiça um processo rigoroso, quando tudo tiver prescrito.

Siga-se o rasto do dinheiro, sem esquecer as off-shores que minam todas regras de equidade entre os poucos que têm milhares de milhões e o resto do mundo.

(continua)

 

O vírus (1)

Rui Rio e António Costa em Setembro de 2019

As últimas semanas têm sido particularmente virulentas, por cá e no resto do mundo.

No rectângulo, PS e PSD uniram-se para diminuir a fiscalização do Parlamento sobre o Governo e, consequentemente, dos portugueses sobre o Governo. Para os distraídos, o Governo presta contas à Assembleia da República, não o contrário, como habitualmente parece ser o caso devido à carneirada, perdão, disciplina parlamentar. Que passemos a ter debates mensais, com a presença obrigatória do Primeiro-Ministro apenas bimensalmente e que a medida tenha sido proposta em primeira mão pelo PSD, revela bem o estado de nulidade a que chegaram as instituições em Portugal – sim, não é exclusivo da Assembleia da República.

Ainda sobre o PSD, regista-se o seu caminho para a nulidade, ou pior, para a extrema direita, ao começar o namoro com o Chega. Más notícias, também, para o rapaz do CDS.

Entretanto, a Ministra da Cultura encheu a boca com um drink de fim de tarde, tal como Cavaco tinha enchido a boca de bolo-rei, anos antes, para não falar de um assunto incómodo.

(continua)

Sobre a morte de um homem

Bruno Candé, um homem de 39, anos foi assassinado. Por acaso, era actor e tinha filhos, mas qualquer morte estúpida é um desperdício de oportunidades, um universo irrepetivelmente desaparecido. Acrescente-se que tinha a pele escura.

De um lado, afirma-se que o crime resulta de racismo, porque somos um país racista. Do outro, nega-se, grita-se, até em manifestações, que os portugueses não são racistas. Estou mais perto dos primeiros, mas já lá vamos.

Para o falecido, penso que a morte teria exactamente o mesmo efeito se se descobrisse que o móbil tinha sido outro qualquer. Os que o choram estariam a chorá-lo e continuariam revoltados, porque a morte é quase sempre uma injustiça.

Não sei se os portugueses são racistas e não sei se alguém sabe, mas sei que um racista já é um racista a mais e também sei que há muitos racistas. Também sei que poderá haver mais racistas nuns sítios do que noutros. O racismo, residual ou estrutural, deve ser combatido em todas as trincheiras, especialmente nas escolas. Mesmo que seja ou fosse residual, é preciso não esquecer que o espaço e o tempo ainda estão demasiado cheios dele. [Read more…]

O Estado de Direito não é negociável, senhor primeiro-ministro

É evidente e inquestionável, pelo menos para mim, que o respeito absoluto pelo Estado de Direito tem obrigatoriamente que ser condição sine que non, não para ter acesso ao bailout pandémico da UE, mas para integrar o projecto europeu. É até mais importante, mais indispensável para a pouca cola que ainda une este espaço de democracia liberal, onde a liberdade de expressão, o direito a exercer jornalismo livre ou a possibilidade de pertencer a movimentos associativos e sindicais são direitos invioláveis e inalienáveis. Não é coisa pouca, e basta olhar à nossa volta para perceber isso mesmo. Vivemos numa bolha de privilégio. Um privilégio pelo qual devemos lutar. Por nós e pela sua expansão a outros povos.

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Para o BE, tragédia era não se aproveitarem da tragédia

Se a realidade não acompanhar o que pensamos, é fácil, altera-se a realidade.

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Um sapo para o Chega

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Eis o sapo que os adeptos do Chega se preparam para engolir, após terem lido a reportagem da Visão e descoberto que o seu herói anti-sistema e anti-elite se reúne com o sistema no nada elitista Hotel Palácio, no Estoril, de onde regressa cheio de dinheiro e apoios de banqueiros e empresários do sistema, alguns deles com passado ligado a instituições tão nobres como o BES.

Chega de quê?

Taxas e as taxinhas à direita

No hemiciclo, PSD, CDS e IL opuseram-se (o Chega optou pela abstenção, o que na prática vai dar ao mesmo) às propostas que determinaram o fim das comissões praticadas por alguns bancos nas transacções através da aplicação MB Way, para operações de baixo valor. E qual é a lição a reter deste episódio? Simples: que a direita portuguesa só é contra taxas e taxinhas quando as mesmas são colectadas pelo Estado, para garantir as suas funções essenciais. Se for para engrossar os lucros da banca, estarão, como sempre estão, do lado dos banqueiros. Uma luta comum de conservadores, ultraconservadores, liberais e extrema-direita. O cheiro até pode ser diferente, mas os donos daquilo tudo, com uma excepção ou outra, costumam ser os mesmos.

Hoje é um dia negro para a democracia portuguesa

Hoje é um dia negro para a democracia portuguesa, escreve João Miguel Tavares e, por uma vez, dou-lhe toda, mas TODA a razão. Não apenas por deixar o primeiro-ministro de ir ao Parlamento de quinze em quinze dias para passar a ir de dois em dois meses; não apenas porque “Hoje é o dia em que um partido da oposição – custa a crer, mas a proposta nasceu do PSD – decide que o governo necessita de menos escrutínio e deve prestar menos contas ao Parlamento”;  não apenas porque “Hoje é o dia em que os dois maiores partidos portugueses atraiçoam os valores da liberdade, da representatividade, da réplica política e do confronto de ideias, em nome de uma visão autocrática da democracia que poderia ser subscrita por Viktor Orbán.“  Mas principalmente porque hoje é o dia em que esses dois maiores partidos portugueses espezinham a democracia amordaçando a cidadania, pois, “com origem numa iniciativa do PSD, sobe de 4.000 para 10.000 o número mínimo de assinaturas necessárias para que uma petição seja discutida em plenário.“ E  “na especialidade, foi também aprovado o alargamento de matérias que podem ser objeto de iniciativas legislativas de cidadãos, mas ‘chumbado’ outro dos objetivos do diploma original do PAN: reduzir de 20.000 para 15.000 o número mínimo de cidadãos que pode apresentar um projeto-lei à Assembleia da República.

Num abrir e fechar de olhos, estes dois partidos arrogantes e anti-democráticos matam assim, como se de moscas se tratasse, a possibilidade de levar a plenário tudo aquilo que importa a cidadãos empenhados, que exercem a cidadania no seu amplo sentido e se esforçam por intervir na configuração da sociedade, como é próprio de democracias vivas e fortes.

Esta é a expressão mais cabal daquilo que de nós querem estes partidos: que lhes demos o nosso voto para depois fazerem o que lhes dá na real gana; que lhes demos o nosso voto para depois nos mandarem calar; que lhes demos o nosso voto para depois nos comandarem.

Hoje é um dia negro para a democracia portuguesa.

Conivência, tacticismo ou…

O mistério sobre a liderança de Rui Rio não está nas suas consequências porque essas são, manifestamente, calamitosas, mas nas suas motivações. Eu, pessoalmente, vejo 3 hipóteses para explicar tanto desprezo pelas obrigações e deveres que assumiu e que tanto quis assumir e reassumir.

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Fundamentalismo religioso e extrema-direita: a mesma luta

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O fundamentalismo religioso não é, nunca foi e dificilmente virá a ser um exclusivo dos muçulmanos. Basta, aliás, um olhar atento sobre o que se passa em países como o Brasil, onde seitas evangélicas cristãs manipulam milhões de fiéis com curandeirismos e fraudes como a teologia da prosperidade, e que do dízimo de milhões de pobres e remediados produzem uns quantos pastores milionários, que ascendem aos céus de helicóptero.

A publicação em cima, da autoria de Manuel Matias, assessor do Chega, é, toda ela, uma ode ao fundamentalismo religioso. Tão óbvia, tão desprovida de racionalidade, ética ou moral, que qualquer explicação sobre a mesma se torna redundante. E não causa surpresa, ou não fosse o evangelismo radical um dos pilares que sustenta a ascensão do partido de extrema-direita, quer pela via do financiamento, quer pelo arrebanhamento das mentes frágeis que se submetem ao jihadismo evangélico. [Read more…]

Miséria ética

Vejo as noticias e volto a descobrir que o Português que sou e quero ser, nada tem a ver com este Povo que, agora, habita este País. Um Povo sem carisma, sem garra, mas, acima de tudo, sem vontade ou consciência. E se essa percepção já era quotidianamente indesmentível por ser tão evidente, o resultado das preferências maioritárias deste Povo é de estraçalhar a esperança ao mais optimista dos seres.

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