
(desenho de Manel Cruz)
Pelos caminhos de prantos e sorrisos, dentro de um tempo farto de horas sem minutos, a vida vai colhendo flores que murcham, por não serem simples flores ou flores simples, sem exigências de estufa ou jardim, flores de terra húmida, céu por cima e sol de permeio.
Em tudo o que me é vida interfere a vergonha de ser adulto. Descortino as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só vejo muralhas. Nada de crianças. Os homens comeram as crianças, os homens comeram-se crianças, os homens pariram-se adultos.
Os pongídeos chegaram a homens. Quinze milhões de anos para o homem ser bicho. Bicho erecto. Rastejo de púrpura.
Eu nasci na erva e dormi no feno, e acordei com a voz dos melros e rouxinóis e saltitei com os pardais. Vesti-me de sol e despi-me de luar. Estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios. Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus. Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro, ao pensar que eram de amor as mãos que a mataram.
Passei a vida a correr tropeçando nas sombras. Arrumei ao canto da luz mil horas vazias, sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens. Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.
Vestido de ausências fui renascendo de amor pela vida fora, nos infinitos da fantasia que outros foram lentamente matando com fruído prazer.




















Recent Comments