
Raul dos Santos, PSD
Pedro do Carmo, PS.
2 milhões viram
Há algum programa que tenha esta audiência? O que se pode dizer de um programa de humor sobre polítiva e políticos, mas principalmente inteligente, que bate recordes de audiência? São as mesmas pessoas que vêm as telenovelas, o futebol e os concursos imbecis?
Será que afinal as pessoas vêm programas estúpidos e imbecis porque não há outros? Os grandes programas de que guardamos memória foram muito populares e com grandes audiências. Isto devía ser analisado com cuidado. É o mesmo povo que não se cansa de dar lições de bom senso quando chamado a votar, nas Presidenciais, nas legislativas, apesar de torpedeado por todos os golpes manhosos para o engarem. Nas autarquias é mais dificil deixar-se enganar mas se há casos esquisitos de autarcas mais que suspeitos, serem eleitos, não deixa de ter piada que tais casos se verificam onde é crível haver gente apessoada e de bem na vida.
Todos gostam de cultura, de bons programas, de bons livros, de bons museus se for criado um ambiente facilitador, amigável, que leve as pessoas a descobrir mais do que ” a anestesia oficial” com que são metralhados todos os dias, a todas as horas, lhes permite.
Este programa é inteligente, tem humor, foi transmitido em cima de um jogo de futebol de grande audiência e mesmo assim bate recordes de audiência. Saúda-se e espera-se que se tirem conclusões acerca deste fenómeno que não encaixa nas “análises” que remetem para a ignorância certas decisões de que não se gosta.
Falando de democracia: Democracia vs «homens bons»
Esta canção «Tanto mar», que o Chico Buarque, compôs inspirado na nossa revolução dos cravos, espelha bem a esperança que, não só em Portugal, o 25 de Abril veio trazer. Voltaremos a falar delas – da esperança e da canção.
Em Outubro de 1987, Karl Popper veio fazer uma conferência a Lisboa a convite de Mário Soares, então presidente da República. Já aqui vos falei, a propósito do papel da televisão na sociedade pós-industrial, de Karl Popper (1902-1994), o grande filósofo britânico de origem austríaca. Nessa conferência, contou como, atraído na juventude pelo Comunismo, foi verificando ao longo da vida que a teoria da História de Marx e a sua profecia sobre o advento do Socialismo, apresentavam muitas falhas. E aqui meto a minha colherada – na minha modesta opinião, as falhas não são de Karl Marx, cujo raciocínio límpido só podia trabalhar com os elementos que possuía – a máquina a vapor, símbolo da Revolução Industrial, estava a revolucionar o mundo do trabalho, a transformar artífices em operários, a criar um «proletariado» e um «lumpen» ou seja, um «subproletariado». Quanto a esta última classe, colocada à margem do processo produtivo, Marx entendia-a como susceptível de se unir à vanguarda revolucionária ou de ser instrumentalizada e transformada em núcleo principal do exército contra-revolucionário. Gente que nada tem é mais vulnerável às promessas, sobretudo às falsas promessas.
Ele não podia conceber um futuro muito mais longínquo em que os operários iriam praticamente deixar de ser necessários, em que a força do trabalho (que era feita por trabalho de força) iria ser desempenhada por robôs e em que o lumpen seria substituído por marginais agressivos e poderosos, substituindo, de facto, nas chamadas democracias os poderes ocultos que as polícias políticas exercem nas ditaduras, mantendo os cidadãos aterrorizados. Isto era inimaginável há cento e sessenta anos. Aliás, prever o futuro é exercício impossível. Sou leitor frequente de Ficção Científica. Os amigos que compartilham este vício já repararam que os escritores de FC previram tudo, desde viagens a Marte até ao povoamento de galáxias a milhares de anos-luz, viagens no tempo e o diabo a sete, mas não foram capazes de prever o advento do telemóvel?
Quanto a mim, as falhas foram dos seguidores – por ingenuidade, estupidez, maldade, tirania, abusos de poder, corrupção – todos estes desvios foram cometidos nos diversos «comunismos» que irromperam no século XX. Marx já cá não estava. E como as seitas cristãs fazem com a Bíblia, assim os diversos seguidores fizeram com as ideias de Marx e de Engels – cada um deu-lhe a interpretação que mais água levava ao seu moinho.
Mas voltemos ao Popper – continuando, apesar do seu cepticismo, a sentir-se socialista, estudou o Marxismo em profundidade, acabando portanto por descobrir essas falhas e verificar que os marxistas mantêm uma atitude de arrogância intelectual. Lembrou que, há dois mil e quinhentos anos Sócrates disse «Sei que nada sei – e mal isso sei; só sei, portanto, que não sei. Mas quero saber e quero aprender». Foi ao amor pelo conhecimento, juntamente com a consciência da nossa ignorância, que Sócrates chamou «Filosofia», palavra que significa «ânsia de conhecer», «desejo de saber». Terá dito ainda que todos nós ansiamos por ter aquilo que não temos – neste caso, a sabedoria. Infelizmente, a tradição socrática perdeu-se e a maior parte dos filósofos, nomeadamente os marxistas, estão convencidos de que sabem (disse Popper). Falou depois sobre a sua «Teoria da Democracia».
A teoria clássica da democracia defende que o poder reside no povo e que este tem o direito de o exercer. Platão foi o primeiro teórico a sistematizar as diversas formas que pode revestir a Cidade-Estado: Monarquia – governo de um só homem bom: Tirania (governo de um só homem mau – perversão da Monarquia); Aristocracia, governo de vários homens bons – Oligarquia (distorção de Aristocracia, um grupo de homens maus partilhando o poder); finalmente, surge a Democracia – governo de muitos homens, ou seja, do povo; para esta forma de governação, não encontrou perversão ou distorção, visto que muitos homens, formam uma «Turba», e o conceito de Democracia inclui já, a par da sua forma correcta – um bom, governo do povo, a forma perversa – a barafunda e o caos – a «Turba».
Portanto, comprova-se que de Platão a Karl Marx, o problema foi sempre o de saber quem deve governar, quem deve estar à frente do Estado. Platão respondeu ingenuamente à sua própria questão – devem governar os melhores – os Aristocratas, os homens bons, mas nunca a Demos, a Turba, a balbúrdia, com saneamentos selvagens, manifes a toda a hora, assembleias populares por tudo e por nada (o Popper, coitado, não disse nada disto; é a minha mais do que suspeita interpretação do que o respeitável velhinho disse).
Popper terminava defendendo o sistema bipartidário, com argumentos que na altura até talvez tenham parecido razoáveis, mas que mais de vinte anos depois, verificamos não terem tido correspondência na prática, pelo menos na nossa prática. PS e PSD constituíram, cimentaram, uma «Aristocracia» perversa, endogâmica, feita de clientelas, de trafulhices mafiosas, de sacos azuis e negócios obscuros. De jogadas obscuras, como esta da TVI que vai configurando um golpe de um dos bandos em presença – ou um golpe e um contra-golpe – Sócrates (o José) não se livra da suspeita de ter assumido uma atitude censória, tenha-a ou não cometido. Porque «homens bons» é coisa que não existe nesta Aristocracia feita de gentinha rasteira que vai enriquecendo com o exercício desta coisa disforme a que chamam «democracia».
Esta é a realidade triste em que vivemos. Mas será que, sabendo que Karl Popper vinha defender um governo da Turba, Soares o teria convidado a vir fazer a conferência? Cá por mim, acho que Soares conhecia a teoria dos «homens bons» e por isso, porque ela lhe convinha (a ele, supremo «homem bom») convidou o mestre a vir contá-la aos indígenas.
*
Durante uma grande parte da minha vida, identifiquei Socialismo com Democracia e vice-versa. Mas desde cedo, foi para mim evidente que o chamado «socialismo real», o do Leste da Europa, o da China, constituíam traições descaradas ao espírito e aos princípios do marxismo. Considerava esses regimes como aberrações, fixava-me mais na Cuba de Fidel e de «Che» Guevara e prosseguia com o meu sonho. Até que Fidel, acossado pelo poderoso inimigo imperialista, foi forçado a cair nos braços doutro imperialismo.
Apesar destas desilusões, pensava que, mais tarde ou mais cedo, o verdadeiro Socialismo brotaria e floresceria. Pessoas mais velhas e algumas da minha geração, ouviam ao longe os harpejos dos «amanhãs que cantam». Eu bem apurava o ouvido, mas não escutava nada. Como de dentro dos búzios, vinha apenas o som das batidas do meu coração. E iam mais longe – identificavam esse tal «socialismo real» como paradigmas de liberdade e democracia. O 25 de Abril aconteceu e os que pensavam como eu e queriam construir o socialismo a partir do zero (quando falámos de socialismo à portuguesa, houve logo um gajo qualquer, cheio de «realismo» e «bom senso», que afirmou que «à portuguesa», só conhecia o cozido – reflexão a atirar para o estúpido, mas que se verificou estar certa; porque geralmente a razão dos estúpidos revela-se mais de acordo com a realidade). Outros, os que traziam o manual, as instruçõ
es
de montagem do sistema, no bolso, escritas em chinês, em russo, em coreano, em servo-croata ou até em albanês pensaram o mesmo que eu e todos exultámos – Vai ser agora. Mas foi rebate falso.
O sonho era belo. Como se diz no tema central de «Les Misérables», o musical americano (que, por acaso, vi em Londres e que o «fenómeno Susan Boyle, colocou de novo na ribalta) – but the tigers come at night, / with their voices soft as thunder… O sonho que sonhámos, the dream we dreamed, afogou-se em doses maciças de «realismo» e de «bom senso», quero dizer, falando claro, de corrupção e de jogadas sujas. Os tigres, ou, traduzindo, os tais «homens bons», estavam a pau.
Após a euforia, a disforia – comprovou-se o axioma de Tommaso de Lampedusa aventado em Il gattopardo – «Para que tudo fique na mesma é preciso que alguma coisa mude». Na realidade, estávamos todos enganados. Alguns porque queriam estar enganados (só quem não queria saber não sabia do sinistro pesadelo que na União Soviética e nos países do Pacto de Varsóvia se construiu em nome do socialismo; na China, embora Tiananmen ainda não tivesse acontecido, sabia-se também que chamar «socialismo» ao que ali se fazia era pura mistificação). Da Jugoslávia e da Albânia não merece a pena falar. Os que pensavam que era possível, partindo das ideias de Marx, Engels, não esquecendo os «contributos» de Lenine, Estaline, Trotski, Mao-tse-tung, Tito e outros, construir uma sociedade socialista, contavam apenas com o entusiasmo que transbordava das ruas para os partidos, sindicatos, comissões de trabalhadores, comissões de moradores, para os quartéis. E vice-versa. Esqueceram-se que paredes-meias com a nossa festa, o chamado «mundo livre» não dormia, pá.
Para lá da moribunda «cortina de ferro» também havia olhos postos em nós. E o «mundo livre» começava logo aqui ao lado, na Espanha sob a ditadura de Franco, com os generais impacientes a pedir autorização aos chefes do Pentágono para vir pôr ordem no quintal das traseiras. Sobretudo quando alguns tontos que se diziam de extrema-esquerda lhes fizeram o favor de assaltar a embaixada. Os americanos, mais experientes, estavam à espera que acalmássemos, que pousássemos. Que o problema se resolvesse internamente sem intervenções estrangeiras à vista – dá sempre mau aspecto. E o 25 de Novembro aconteceu. E de então até hoje a «normalidade» nunca mais deixou de crescer. «Socialismo em Liberdade», anunciavam os cartazes dessa época – «Capitalismo à solta», traduziram logo alguns.
Aí o temos, ao socialismo em liberdade.
*
Com este texto termino a série «Falando de democracia». Não que a democracia não justifique milhares de textos, mas porque creio que quem teve a paciência de ler alguns destes trabalhos já percebeu sobejamente em que águas navego e também aquelas em que não quero navegar (embora, mais ainda do que viver, como dizia o Fernando Pessoa, seja preciso navegar). Já sabem o que penso sobre Democracia e também sobre a «democracia» que podemos esperar desta gente que ocupa as cadeiras do poder. Só tinha a minha perspectiva para vos oferecer e já vo-la mostrei de muitos ângulos. Continuar seria como chover no molhado. Não quero tornar-me (ainda mais) chato. Desculpem algum excesso de rabugice (e se pensam que é da idade, procurem nas hemerotecas textos dos meus vinte anos – estou muito menos rabugento, acho eu). Até à vista.
A segunda versão de «Tanto mar», com que termino, dá conta da esperança que perdura, pois pode ser que, nalgum canto do jardim, tenha ficado esquecida uma semente…
Foi bonita a festa, pá.
Durão, amigo, o PS está contigo
Já se estava à espera, já se sabia, não é novidade. Curioso o facto de a única representante do PS que anuncia não ter votado a favor (onde estás, Vital?) ser quem melhor o conhece. Terá os seus defeitos, como toda a gente, mas Ana Gomes é uma mulher coerente e frontal. Talvez por isso seja tão criticada pela direita em geral, e a do seu partido em particular.

A avaliação e o mérito nos hospitais ingleses
Os hospitais ingleses vão começar a ser financiados pelo Estado conforme o nível de satisfação de quem os procura. Espera horas para ser atendido ? É recebido com maus modos? Os médicos não lhe prestam atenção? A limpeza das casas de banho é má e a comida intragável? Sai do hospital mais doente do que quando para lá entrou?
Estes aspectos de boas maneiras dos recepcionistas, a limpeza, a qualidade dos espaços, a comida, podem render mais 4% no orçamento anual. A experiência piloto vai arrancar brevemente.
Cá no burgo, foram publicadas as novas regras de acompanhamento de doentes nos hospitais, com o objectivo de melhorar a satisfação dos utentes, o que parece ter o acordo de médicos,utentes e administradores hospitalares.
É preciso implementar uma cultura de qualidade, mas a medida do Ministério da Saúde Britânica ainda está a nos-luz da realidade portuguesa. Não temos condições imediatas para implementar estas medidas, cá isso está fora de questão, desde logo pela falta de condições das instalações.
Entretanto, há já alguns indicadores da qualidade que começam a ser coligidos e trabalhados, com vista a o financiamento vir a ser feito na base da qualidade, e aqui e ali há contratos programa na base de incentivos financeiros.
Este caminho dos objectivos, dos resultados e do mérito é imparável, não só nos hospitais mas tambem nas escolas, nos tribunais…
Concurso «Blogues Escolares» – Turmas participantes
Explicação do Concurso aqui
Regulamento aqui
Esta lista será actualizada semanalmente.
Este «post» é fixo.
Distrito de Aveiro Escola José Macedo Fragateiro, Ovar – Posto de Socorro
Distrito do Porto Escola Básica Marques Leitão, Valbom – Blogue do 9.º A, Diário do 9.º B, Blogue do 9.º C
Distrito de Viseu Escola Secundária Prof. Dr. Flávio Pinto Resende, Cinfães – Turma 11.º D
A propósito do PCP
Sempre que alguem ( ou quase sempre) sai do PCP vem com um chorrilho de acusações e críticas acerca do partido onde militou por dezenas de anos, como se durante todos esses anos nada soubesse, não tivesse falado com pessoas, lido jornais, visto TV, internet…
A bem da verdade, isto é quase tão estranho, como o PCP continuar a defender coisas indefensáveis, como a invasão da Checolosváquia e o vómito desse regime ditatorial familiar que perdura na Coreia do Norte.
As visitas de comunistas a “países amigos” dá sempre em comentários entusiastas mesmo que toda a gente saiba a miséria e o despotismo que grassam sobre as populações. Tenho para mim que estas opiniões são mais contra o capitalismo, a UE e os EU, num execício de autoconvencimento do que projectar o que realmente experimentam nessas visitas.
Mas sempre que um militante sai do PCP é mais uma machadada na credibilidade do partido, há ali uma ligação de amor-ódio que alimenta recalcamentos e sentimentos muito pouco recomendáveis.
É altura do PCP abrir as janelas e arejar, afinal o melhor que tem é a sua doutrina, a sua prática, a sua história, não precisa de louvar gente que não está ao seu nível. Com grandes prejuízos na sua credibilidade externa e na sua coesão interna.
COMO SE FORA UM CONTO – A Madrinha Noémia e o Padrinho Careca
A MADRINHA NOÉMIA E O PADRINHO CARECA
É domingo, princípio da tarde. Está calor. A rua está quase vazia. Alguns metros à minha frente, um casal passeia vagarosamente. No outro passeio, duas mulheres conversam calmamente. Dois carros passam por mim, lentamente. Ao domingo ninguém tem pressa. Excepto eu que vou com um andar ligeiro. Melhor, vou apressado. O passo estugado, marcial. Tenho de ir visitar uma pessoa que se encontra adoentada, o que faço quinzenalmente. Prometi-lhe que chegaria por volta das três, e já só faltam cinco minutos. Quase lá, abrando o andamento. Faço-o sempre. Aquela janela fascina-me. Ainda mais desde que li a crónica “A Dona Olga e eu” de Lobo Antunes, que, confesso, me inspirou.
Aquela casa faz-me reviver o passado. As lembranças de hoje levam-me para mais de trinta anos de distância.
Passo à porta daquela casa, de quinze em quinze dias. Sempre ao domingo, sempre à tarde. A porta sempre fechada, a janela sempre entreaberta. Às vezes abrando o passo e quase paro. Num dia entrevi a cama, noutro a cadeira ao lado da cómoda, noutro o guarda vestidos. A cama sempre impecavelmente feita, a cadeira sempre na mesma posição, de esguelha, e a cómoda com inúmeras fotografias emolduradas das quais se destaca, pelo tamanho, a de um homem com óculos de aros redondos, ainda jovem e careca, de fato escuro.
O quarto, sempre o vi vazio. Sem saber porquê, sempre senti que só poderia ser habitado por uma senhora. Tinha mão de mulher por ali. Até que um dia e depois outro e outro, a vi a sair de casa, mesmo à minha frente.
Hoje a janela estava mais uma vez aberta, mas mais aberta que de costume. Pude ver o crussifixo na parede por cima da cama, uma fotografia do mesmo homem em pose diferente na mesinha de cabeceira juntamente com outra em que ele e uma senhora, muito mais novos, seguravam um bébé no colo dela, um genuflexório num canto escondido por baixo de uma Nossa Senhora, e uma porta.
De todas as vezes que por lá passo, naquele rés-do-chão debruçado sobre o passeio, ponho-me a imaginar o que teria sido a vida da dona da casa.
A minha imaginação corre, livre.
Vou chamar-lhe D. Branca.
Só a vi três ou quatro vezes. Muito bem arranjada, lábios pintados de carmim, sapatos com salto pequeno e grosso, saia-casaco escuro, chapéu preto, e um olhar triste.
D. Branca, é pequenina, muito magra e de uma idade já bem avançada. Há muito terá já ultrapassado os oitenta, se calhar até mesmo os noventa. Vive sozinha. O gato que cheguei a ver por lá, uma vez ou outra, já há muito deixei de ver.
Na minha imaginação, por vezes fértil, vejo a senhora, feliz, até à altura em que o marido, funcionário fiscal, morreu, cedo de mais, de uma doença prolongada, e a filha, ainda muito jovem, partiu para terras distantes, para ganhar a vida.
Depois, uma vida recheada de recordações, e de dificuldades que nunca deu a conhecer. Uma vida sozinha e um olhar que a pouco e pouco foi esmorecendo.
O quarto é alugado e tem pela porta que desta vez vi, uma casa de banho e uma cozinha, minúsculas.
Os vizinhos conhecem-na por D. Branquinha. Todos gostam dela e não deve nada na mercearia, no talho ou na farmácia. Só sabem que é viúva de há muitos anos, que é muito calada e discreta, amiga de ajudar toda a gente, e que ninguém a visita.
A par da minha fantasia quinzenal sobre a sua vida passada, D. Branca e a sua casa pequenina, fazem-me lembrar alguma coisa ou alguém, sempre que por lá passo.
Hoje, vá-se lá saber porquê, fizeram-me lembrar a madrinha Noémia e o padrinho careca. Não eram meus padrinhos, mas todos os tratavam assim. Eram tios e padrinhos de muitos familiares e amigos.
Se fossem vivos, ela teria mais de 106 anos e ele seria um pedaço mais velho.
Eram uma presença assídua em casa de meus pais.
A madrinha Noémia, era uma mulher muito bonita, pequenina, de pele muito branca e a tender para o gordochinho.
O padrinho careca, era alto, muito magro, usava óculos de tartaruga redondos, tinha um nariz aquilino, trazia sempre um colete por baixo do casaco, camisa imaculadamente branca, gravata escura e fina e chapéu. Sempre me fez lembrar a figura de Fernando Pessoa. Também gaguejava um pouco.
Ele, que em tempos tinha trabalhado como vendedor de produtos de ourivesaria, tinha feito amizade com o meu avô que na altura trabalhava como ourives. Lá pelos anos vinte do século passado. Uma amizade que perdurou até o último deles morrer. O primeiro foi o padrinho careca, muito perto de mil novecentos e sessenta.
Ela, era vizinha de meu avô. Por lá terá conhecido o que depois foi o seu marido. Casou cedo, não teria mais de dezassete ou dezoito anos. Tiveram um amor lindo, uma vida feliz, de entrega total um ao outro.
Viviam num quarto, o único que lhes conheci, numa rua de um vale lindo. Só mais tarde vim a saber que afinal o andar era todo deles, um rés-do-chão, e que as dificuldades económicas tinham feito com que abdicassem da quase totalidade da casa, para a poderem alugar. No quarto em que viviam, sem janela, havia uma cama, duas mesinhas de cabeceira, uma cadeira e um pequeno psiché. Dois pequenos candeeiros, um de cada lado da cama, e várias fotografias em cima do pequeno toucador. Tinha uma porta para a rua e outra para o resto da casa, onde cozinhavam e usavam o quarto de banho.
Com estas lembranças todas, veio-me à cabeça um remédio, milagroso, que a madrinha Noémia usava para tratar a tosse. Como tínhamos um quintal, ela ia apanhar caracóis, grandes, misturava-os com açucar mascavado, e o sumo que ia escorrendo era filtrado num coador de pano. Depois, fazia-nos beber aquela mixórdia. Era repulsivo, mas eficaz. A tosse passava como que por encanto.
A relação dela com o padrinho careca, era calma, partilhada, feita de cedências totais de parte a parte, e de uma intimidade carinhosa. Era uma amor bonito de se ver e que fazia a inveja (no bom sentido) de muitos. Não tiveram filhos. Tiveram-se um ao outro. Os filhos, eram os sobrinhos, os afilhados e os filhos dos amigos. Pareciam dois passarinhos, aos beijinhos e aos carinhos, com olhares meigos e palavras certas.
Esta relação era transmitida a todos os outros com quem conviviam e por quem tinham uma grande amizade. Estavam sempre disponíveis para ajudar, sempre prontos a colaborar e a serem prestáveis.
Para todos ela era uma segunda mãe. Para todos ela se disponibilizava sempre.
Deles só se pode dizer que eram realmente muito boas pessoas, e um exemplo para qualquer um de nós.
Depois da morte dele, a madrinha sofreu muito a sua ausência, mas foi-a sublimando, cuidando dos amigos e da família.
Quando por fim adoeceu, e depois morreu, já lá vão mais de trinta anos, deixou uma saudade imensa que ainda hoje perdura.
(In O Primeiro de Janeiro, 15-09-2009)
Avaliação – todos a querem mas não assim
O actual modelo de avaliação tem os dias contados, suspender o modelo e evitar a aplicação do estatuto da carreira docente é o primeiro objectivo.
Suspender o actual modelo e substitui-lo por outro, eis o que propõe o PSD, rever o Estatuto da Carreira Docente, abolindo a divisão entre titulares e não titulares.
O PCP tambem quer substituir e acabar com a actual avaliação, mas o que defende é que não se sabe embora se possa adivinhar, que tudo fique como dantes, quartel-general em Abrantes.
O CDS propõe um modelo centrado nas vertentes cientifica e pedagógica e baseado no modelo que é actualmente aplicado no ensino particular e cooperativo ( o que parece ser de muito bom senso…)
O BE é apologista de uma avaliação credível feita no interior das escolas e a partir do exterior, em que se assumam responsabilidades colectivas ( isto é , individualmente, ninguem é avaliado…)
Nós aqui no Aventar temos defendido que a avaliação se deve fazer a partir de objectivos fixados e negociados com o Ministério, desenvolvendo-se em cascata dentro da escola, por núcleos de disciplinas e individuos.
O TGV:
O que mais me irrita nos políticos portugueses é a forma leviana como tratam os assuntos sérios e de importância crucial para o país.
O comboio de alta velocidade, o TGV, que serve para transporte de passageiros e mercadorias é disso um bom exemplo. Uma decisão destas não pode ser discutida como se fosse um Porto-Benfica. Uma merda destas, discutida desta forma é um insulto à nossa inteligência. Eu estou-me a marimbar se a Dr.ª. Manuela (respeitinho) julga que o Eng. Sócrates (respeitinho) está ao serviço dos Filipes e se este, por sua vez, vê nela a reencarnação do finado Professor. Então o TGV é isto? Ora bolas, vão dar banho ao cão!
O que eu quero saber é algo muito simples: quanto custa o TGV? Quais os benefícios económicos deste investimento? Vai ter ligação directa ao Aeroporto de Lisboa e ao Aeroporto Sá Carneiro? Por sua vez, vamos ter estações racionais ou vamos ter o primeiro comboio de alta velocidade pejado de apeadeiros ao estilo do Expresso das Beiras? No tocante ao transporte de mercadorias, estão acauteladas as ligações aos respectivos portos e entrepostos, seja rodo ou ferroviariamente, de molde a surtir o efeito económico desejado? Afinal, quanto tempo vou demorar a fazer Porto-Lisboa, Porto-Lisboa-Madrid e Lisboa-Madrid? Por último, conseguem-me justificar economicamente a ligação Porto-Vigo ou, para amenizar uma eventual resposta negativa, a ligação Lisboa-Porto-Vigo? Sobretudo quando hoje, por estrada, Vigo está a pouco mais de uma hora do Porto e quatro de Lisboa? Ou será que só se justifica o transporte de mercadorias nesta via de ligação?
Agora, esgrimir argumentos sobre o tema tendo por base “os castelhanos” é considerar-nos a todos atrasados mentais. No caso do PSD, é esquecer a obra de Cavaco Silva (do Prof., respeitinho) e a forma estratégica como ligou por Portugal a Espanha e dessa forma à Europa por Auto-estradas e Vias Rápidas. O PSD reformista que transformou Portugal certamente não se revê neste tipo de discurso. No caso do PS, quando atacam MFL por ter trabalhado no Santander, é esquecer Pina Moura, as ligações socialistas a González, à PRISA, etc, etc.
Haja vergonha e decoro!
uma obra-prima de jim jarmusch
a última longa-metragem de jim jarmusch, «os limites do controlo» 2009, encontra-se ainda em exibição em portugal. a par de gus van sant e de hal hartley, jarmusch é um dos mais conhecidos cineastas do designado «cinema independente norte-americano». a década de 80 representou a sua afirmação no mundo cinematográfico, pese embora jim pretendesse, originalmente, seguir uma carreira musical. aliás, a sua ligação com o mundo musical está bem presente com john lurie (longe lizards) como protagonista em «stranger than paradise» 1984 e em «down by law»» 1986, este último com a participação de tom waits (que assina a banda sonora de «night on earth» 1991). iggy pop entra em «dead man» 1995 e joe strummer em «mistery train» 1989. tal como a cinematografia de gus van sant, a música tem um papel central na ambiência dos seus respectivos filmes – recorde-se aqui a entrevista que jim jarmusch concedeu ao suplemento do jornal «público» há umas semanas atrás onde é bem específico sobre este tema. em «the limits of control» encontramos a sonoridade de boris. se a américa desolada, emigrante e semi-urbana é o pretexto central para os seus filmes da década de 80, as «noites da terra» entre os estados unidos da américa e a finlândia encerravam definitivamente a primeira fase do seu muito particular cinema. na década seguinte destacam-se duas pérolas arty, o imaginado william blake/johnny deep perdido na américa indígena de «dead man» 1995 – com uma fabulosa roupagem sonora de neil young – e o ghost dog/forrest whitaker, assassino-justiceiro contratado, columbófilo e orientado pelos princípios de Hagakure, «ghost dog: the way of the samurai» 1999 – película pautada pela música hipnótica de rza. o relativo sucesso junto do público chegará apenas em 2005 com «broken flowers» e bill murray numa viagem de um homem celibatário alienado do mundo que plana/viaja em busca de um passado ausente. entre eles, «coffee and cigarettes» reunia encontros im/prováveis que jarmusch filma desde 1986 entre os protagonistas dos seus filmes (e não só) – lá estão iggy pop e tom waits, roberto benigni e steve buscemi, cate blanchett e bill murray, jack e meg white dos white stripes.Concurso «Blogues Escolares»
O Aventar lança hoje uma iniciativa destinada a todas as escolas do nosso país: o Concurso «Blogues Escolares». Convidamos todos os professores a lançar blogues colectivos nas suas turmas. A forma como cada blogue será dinamizado ficará ao critério de cada turma. Poderá ser um projecto que envolva todos os professores da turma e todos os alunos, poderá ser um projecto mais restrito, poderá ser desenvolvido em Área de Projecto ou Formação Cívica ou em qualquer outra disciplina. Fica ao critério de cada turma. Quanto a nós, Aventar, oferecemos a criação do blogue e um «link» permanente nas nossas páginas (bastando clicar na imagem «Blogues Escolares» que se encontra na barra lateral). Assim, todas as turmas participantes terão o seu «link» próprio num «post» actualizado semanalmente. Quanto à actualização dos blogues, ficarão a cargo das turmas participantes. No final do ano lectivo, os blogues vencedores – escolhidos por um júri – receberão um prémio a revelar oportunamente. Em breve será publicado o Regulamento do Concurso. No entanto, aqui no Aventar pensamos que, mais do que os prémios, este concurso pode dar aos alunos participantes algo muito mais importante: um maior interesse pelas actividades lectivas, uma maior participação na vida da sua turma, a abordagem de novas perspectivas, dentro e fora da sala de aula, e um aumento da cultura geral e, talvez, do aproveitamento escolar. Para concorrer, basta solicitar a participação e a criação do blogue, contactando o Aventar por e-mail ou através da caixa de comentários deste «post». Vamos fazer algo diferente nas nossas escolas. Aventem-se!
turmas e escolas participantes aqui
regulamento do concurso aqui
Para o fundo – a gravidade e a oferta e a procura
Vai sempre tudo para o fundo! Quem o diz é gente insuspeita ali no Blasfémias que por sua vez o foi beber a um tal Joaquim, que começa o seu texto explicando que as leis de mercado se aplicam à saúde. Sem qualquer dúvida ou excepção, e dando como exemplo a Lei da Gravidade em que tudo obedece mesmo que seja uma bala de canhão, vai sempre tudo para o fundo e com as lei da oferta e da procura tambem é assim, aplica-se sempre.
Por acaso a crise que estamos a viver seria um muito melhor exemplo. Está tudo no fundo!
POEMAS ESTORICÔNTICOS
Essa manhã
Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela
ele acordou.
Acordou
como sempre
com pedaços do passado agarrados ao pijama
às mãos e aos cabelos
sentou-se na beira da cama
e um sonolento Oh! que merda!
soltou-se da garganta
ainda seca do bagaço da véspera
quando os pés palparam a falta dos chinelos.
Moldou os passos ao chão
de modo a evitar a madeira fria do soalho.
Sobre a cómoda continuava a tristeza
à mistura com águas de colónia de vários tipos.
Abriu um sorriso quando viu no tapete
o artigo que acabara de escrever na véspera
e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos.
Dera-lhe o título Orgasmo
inspirado numa dessas tardes
em que o fim do domingo
abre as portas à demência.
A caminho do quarto de banho
ia pensando nas palavras que nada dizem
e na flatulência da comunicação
que o fizera deitar-se tão tarde
e acordar
assim
com a gema de fora.
Sempre nele permanecera uma grande dúvida
quanto à eficácia de debates como o da véspera.
Será que têm algum valor
como profilácticos da deterioração mental
que a idade e os tempos acarretam
ou são
eles próprios
catalisadores dessa mesma deterioração?
Sobretudo se tais debates não passam de confusões
sinfonias de mediocridade e estupidez
discutindo pessoas reles
factos ridículos
ideias banais
estafadas e apodrecidas.
Sobretudo se tais debates
se processam entre corruptos
golpistas e terroristas
que invadem as casas
maquilhados de gente de bem
e cobardemente espantalhados
de homens dignos.
Sempre pensara
que não deve transformar-se em espectáculo
o perigo da lavagem dos rostos
com o sabão da ingenuidade.
A verdade é só uma
e ele não aderia
de ânimo leve
à tese de que cada um teria a sua verdade.
A verdade existe
está lá
está sempre lá
dentro das coordenadas humanas.
Há quem dela se aproxime e quem dela se afaste
mas o único caminho da verdade
é o caminho do entendimento
e não há lucidez que não assente na razão.
Sem deixar de considerar
que a irracionalidade
é o caminho das trevas
cada um tem o direito
de escolher o seu caminho da verdade.
Mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha
se se conhece a formação ou a deformação
a inteligência ou a indigência
a humildade ou a petulância
o rigor ou a confusão
a seriedade ou a manigância.
Grande respeitador do relativo
e da cultura da diferença
considerava-se adversário do consenso
do consenso acima de tudo
que destrói e anula o indivíduo
e da tolerância
tolerância como virtude
que implica sempre
alguém que tolera
e alguém que é tolerado.
Acordou mal disposto
porque não acreditava
na existência de debates fluidos
corajosos e pedagógicos
e
mesmo assim
cedera-lhes parte do seu tempo de sono.
Convidar tanta gente de caras
e tantas caras de gente
fazer cócegas em temas profundos
inacessíveis a mentecaptos
meter num mesmo saco
capazes e incapazes
lúcidos e ineptos
fazer de assuntos sérios estéreis discussões
criar espectáculos de feira
sem receio de sujar a consciência
e ofender a verdade
era mais do que razão
para o incómodo acordar dessa manhã.
Já no café da esquina
deu de caras
com a mulher de longos cabelos negros
rosto comprido
e olhos paradoxalmente achinesados
a quem pedira há cinco anos atrás
para posar para si.
Esguia
quase linear
de uma beleza que parecia desenhada
a sua figura prendia os olhos que nela tocavam.
Sempre que a via
recordava-lhe alguém
e bulia com qualquer coisa dentro dele.
Na mesa do lado
via-se que um outro homem
seguramente um habitante dessas ilhas
que se escondem no ventre da cidade
tentara encontrar uma camisita de riscas verdes
a condizer com o verde das calças.
Se bem que mais escuro
aceitava-se
não era muito boa a combinação
mas percebia-se a ideia.
Já não era de aceitar tão facilmente
aquela senhora vista de trás
relativamente escorreita
blusa da moda e saia quase mini
moldando formas enganadoramente jovens
que o virar da cara logo atraiçoava
ao denunciar as engelhas dos setenta.
Ninguém tem nada com isso
e
se mentalmente o comentava
é porque considerava o sentido do ridículo
irmão gémeo da inteligência.
Uma outra senhora tentava limpar
com um guardanapo de papel
os pingos de baba
que o marido
por força de tentar sorrir
deixava escorrer dos lábios inertes
sobre a gravata cinzenta.
Deve ter sido acometido
de acidente vascular cerebral.
Mesmo hemiplégico
nem por isso deixou de sugerir
com a mão válida
que a mulher esfregasse suavemente
o guardanapo
um pouco abaixo da fivela do cinto
ao que ela acedeu
de maneira afável e sorridente.
Em paga
ele abriu o livro de cheques
e mostrou o que havia por lá.
Ela arregalou os olhos
e inspeccionou-lhe
com falsa displicência
o pavilhão auricular
tentando arrancar-lhe docemente
uns pêlos esbranquiçados e eremitas
que teimaram isolar-se do mundo cabeludo.
Ciente de que a poderosa dinâmica da vida
quer se queira quer não
reside no sexo
não tinha dúvidas em aceitar
que o homem do livro de cheques optaria
– se fosse possível dar-lhe a escolher-
por poder levantar o pénis
em vez da mão paralítica.
Do outro lado
uma mulher cheirava a perfume que tolhia.
Bafejou os óculos
limpou-os a um pequeno lenço
e pô-los em contraluz para ver o resultado
mas os seus olhos
em vez de fitarem o vidro
fizeram esguelha para o companheiro
que tinha na frente o generoso cruzar de pernas
de uma dessas liberais
criadoras de pulsões.
Na televisão
as eméticas telenovelas
e todos os Bancos
caridosamente solidários
a abrirem uma conta
para as vítimas dos incêndios!

(adão cruz)
BI-QUADRA DO DIA
Por sistema dizem ter
Tranquila a consciência
Não têm vergonha na cara
Nem um resto de decência.
Aparecem na têvê
Com o maior dos desplantes
Como santinhos papudos
No altar dos ignorantes.
ETICA E EDUCAÇÃO (9)
ETICA E EDUCAÇÃO (9)
Considerações sobre Ética e Educação escolar
Com a liberdade, a virtude e o bem como bagagem indispensável, está pronto um filho para sair da família e iniciar a sua grande viagem da vida, começando pela escola. A escola continua a ser a única instituição cuja função oficial e exclusiva é a educação. Há uma relação dialéctica entre a escola, a ética e educação. Há uma ética da educação e uma educação da ética. Por outro lado há uma grande afinidade entre ensinar, educar e aprender. Ensinar e aprender é por demais sabido que constituem as duas faces de uma mesma moeda. O formando também é sujeito de produção do saber. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Embora diferentes, quem forma também se forma, ao formar, e quem é formado, também forma, ao formar-se. Ambas as faces constituem um todo, de tal maneira que uma nunca acontece sem a outra. O estatuto ético da relação educativa, enquanto relação interpessoal marcada por uma intenção e por um projecto, obriga, antes de tudo, ao respeito mútuo, numa profunda partilha de testemunhos, sonhos e vontades. O respeito devido àquele que ensina, que se presume bem preparado do ponto de vista intelectual, emocional e comunicacional, que dá testemunho de uma experiência e de um saber, que explica e que interpela, que abre caminho a verdades desejadas, tem de ter como base indispensável a motivação e a disponibilidade de quem aprende, a disponibilidade e o interesse para se deixar ensinar, a disponibilidade para acolher e valorizar a presença daquele que ensina. O respeito pelos educandos, infelizmente inexistente na incompetência e fraca formação de alguns educadores desmotivados e pouco evoluídos, deve ser considerado um direito de quem aprende, e o reconhecimento deste direito é o primeiro dever de um professor.

(manel cruz)
ELEIÇÕES DE CAPOEIRA
ELEIÇÕES DE CAPOEIRA
O ridículo destas eleições domésticas sem ideias, projectos, sonhos e utopias enoja-me.
Este emaranhado de mentes obsoletas, desertificadas, desenraizadas de tudo cria em mim um tédio avassalador.
Esta indigência mental atrofia-me.
Esta capoeira, alheia á abrangência dos problemas do mundo, arranha-me o espírito.
Da infernal religião do mercado, dos rituais dos sacerdotes do poder, espalhados por todos os cultos reverenciais do dinheiro, em congressos de ética onde é notório o défice de moralidade, ou em cimeiras de repartição do que ainda resta do terceiro mundo, nada se diz.
Da perversão dos conceitos, inversão e anulação de valores, nada se fala.
Da descarada hipocrisia, nesta floresta de enganos e desvios, em que as grandes nações vendem a morte dos filhos da humanidade, nada se julga.
Da invenção e criação de organizações ditas humanitárias para lavar o rosto e as mãos das manchas de sangue, nada se comenta.
Da despudorada ingerência externa no coração dos povos soberanos ninguém quer saber.
Da submissão e prostituição da própria ciência perante os apetites do poder, ninguém se importa.
Do tenebroso domínio do poder económico sobre o poder político, do ameaçador “pensamento único” que tenta criar um homem desprovido de razão, vontade e emoções, ninguém fala.
Da arte e da cultura, consideradas supérfluas e perigosas ninguém se lembra.
Da ética e da dignidade, valores supremos do homem, ninguém se vale.
Aleluia, aleluia! Bem-aventurada a proliferação de falsos profetas que proclamam a morte das ideologias.
Aleluia, Aleluia! Bem-aventurados os homens com etiquetas de preço e comportamentos negociáveis.
Autonomia na Gestão Escolar
É consensual para todos os partidos políticos mas a forma de pôr a ideia em prática é diferente. O PSD quer atribuir a generalidade dos poderes de gestão e administração do projecto educativo às escolas.
O PS já só quer aplicar o novo modelo de organização e gestão das escolas, concentrado sobre as capacidades de contratação e gestão dos docentes e continuar a avaliação externa pela Inspecção-Geral da Educação, e quer descentralizar mais competências para as autarquias e encorajar maior corporação com outras instituições de formação e agentes sociais e económicos ( enfim, dá para tudo…)
O BE propõem-se descentralizar mas não querem colocar os directores da escola na dependência e ao serviço dos Presidentes das Câmaras e sem partidarização da gestão das escolas públicas.
O PCP manifesta-se contra a municipalização do ensino básico e acusa o governo de atacar os princípios da colegialidade e de eleição nos orgãos de gestão das escolas e defende uma nova Lei de gestão democrática.
O CDS quer menos Estado e menos poder asfixiante sobre as escolas e propõe mais contratos de autonomia.
Nós aqui no Aventar temos pugnado por uma escola autónoma o que é completamente diferente e bem mais ampla do que a mera gestão escolar.
O reyno do Chile
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Napoleão no Chile? Engano meu? Velhice que engana o intelecto? Nem por isso. Napoleão Bonaparte andou por todos os sítios dentro e fora da Europa, em pessoa ou por meio de representantes. A França, por causa das guerras de Conquista de Napoleão, governava a Europa e decretou um bloqueio dos portos do Velho Continente para derrotar a Grã-bretanha e cercá-la pela fome. Até estar certo de ser obedecido, raptou o rei Bourbon, em Espanha, Carlos IV e o príncipe herdeiro, mais tarde Fernando VII. Nomeou o seu irmão José, Rei de Espanha entre 1808 e 1813, e entrou em Portugal para raptar os Bragança e dividir o país em três reinos. Mas os Bragança fugiram rapidamente para a sua colónia do Brasil, com D. João IV como rei e a corte toda, instalando a Capital do Império Português no Rio de Janeiro. Épocas e tempos em que todas a monarquias europeias tinham como escravos os membros do Novo Continente: trabalho sem pagamento, arrecadação de bens, vendidos mais tarde a outras colónias latinas ou metrópoles europeias a preço de ouro. Napoleão ditou um código em 1804 (1), que ainda nos governa, para criar igualdades entre governos centrais, cidadãos europeus nas colónias e crioulos ou filhos de europeus nascidos nos países dominados, esses apropriadores da terra nativa para seu proveito. Fernando de Bourbon derrubou no seu pais Calos IV que, no seu dourado exílio francês, passou a ser Fernando VII sem coroa, sem Estado nem colónias para mandar. As colónias, conforme o uso dos tempos, pertenciam às famílias reinantes.
No Reyno do Chile, essa parte da propriedade da família Bourbon, entre 1808 e 1813, sentiu-se sem ninguém para a governar. O representante da coroa teve de ouvir os intriguistas de sempre, todos esses bascos que tinham boas terras e fazendas, exportações de indústrias de curtumes, especialmente na região do Maule, cidade de Talca, o rim da aristocracia chilena durante esse anos – e ainda hoje: fazem-se chamar Talca, Paris e Londres. Cidade e região que explorou os proprietários da terra – o clã Picunche (que eu estudo), da etnia Mapuche, habitante do Chili de tempos sem memória e sem escrita. Para todos os proprietários com o nome com duas letras r no apelido (bascos), os Picunche eram os seus jornaleiros, denominados inquilinos que na língua da terra, o mapudungun, significa subjugados, como tenho definido no meu texto de 1998 (2). A escravidão tinha sido abolida no Chile nos anos 50 do Século XIX, eufemismo que continua até aos nossos dias: o inquilino trabalha as terras do proprietário, sem mais pagamento do que a entrega de alguma terra para sustento da família que a tem de trabalhar. Na época da conquista da terra do fim do mundo (3), os Mapuche, fossem Picunche, Huilliche, Mapocho ou Pehuenches, eram os livros dos invasores. Invasores desconhecedores do cultivo da batata, da beterraba, do milho e do trigo. Engrolavam os reais donos da terra, que dormiam em terra soterrada feita prisão, como tenho estudado nos arquivos dos jesuítas do Século XVII, que por bom azar encontrei escondidos ao pé das palmeiras da vila de Pencahue, Talca, Do que li, estudei e interpretei, com a minha equipa chilena, resultaram, pelo menos, cinco livros. Quem caia morto durante o trabalho, era de imediato enterrado numa finca destinada a cemitério, perto de Curepto, entre Talca e Linares, Vilas as duas. O terreno era denominado Huenchumali, a terra dos mortos, em mapudungum. Levei as crianças por mim analisadas para entender a história do país, escreveram textos, ainda comigo, em 1997, base de vários livros meus sobre crianças, especialmente o do ano 2000 (4).
O Governador em nome do rei da Espanha, o criollo (5) Dom Mateo de Toro e Zambrano, reparou um dia que não tinham Rei, convocou um Cabildo ou Concelho de Governo que o apoiava na gestão e declarou: Não há rei, não tenho direito a Governar. Dou-vos o bastão e o mando. Lá ficaram os membros do Cabildo a deliberar, escolheram o Conde como Governador, nesse dia de 18 de Setembro de 1810. Foi o dia da declaração da Independência. O Conde da Conquista faleceu em 1813, e um Consulado de três, foi criado para governar o país. Havia os que queriam Rei, os que queriam República e os do Governo por Cabildos. 100 anos durou o debate na base de Governos Presidenciais, eleitos por sufrágio aberto para os ricos. O povo não votava. O Consulado, presidido por José Miguel Carrera, mandou organizar um Congresso. Congresso bicameral, no qual o herói mais importante do Chile, Manuel Rodríguez Elroiza, foi membro. Um Manuel Rodríguez que, aquando da tentativa da Monarquia Ibérica retomar as sua colónias, não apenas ajudou a organizar o Exército Libertador, chefiado pelo recentemente aparecido agricultor, filho do Vice-rei de Espanha no Peru, Bernardo O’Higginns Riquelme, que com a colaboração da primeira República libertada, Argentina e o seu Ditador, o General José de San Martín, como participou na batalha travada contra as forças realistas, ganha por estas gentes do Novo Continente, que em 1818, ficaram livres dos espanhóis. Manuel Rodrigues organizou os montoneros ou resistência dentro do país que foram a base da liberdade, sempre pensada como realizada pelo exército chileno argentino.
Nesse ano de 1818, no sítio da derradeira batalha, Maipú, à entrada da Capital, a Nossa Senhora do Carmo foi jurada Padroeira do Chile. Até ao dia de hoje é dia livre e santo o dia da batalha de Maipú, 5 de Abril de 1818. O dia da Padroeira que em Castelhano é La Virgen Del Cármen, se comemora a 15 de Junho de cada ano, dia da sua primeira aparição no Monte Carmelo no Século VI, na Itália. Bernardo O´Higgings e José de San Martín juraram a La Virgen del Cármen, como a Padroeira dos chilenos. A seguir, O’Higgins foi declarado Director Supremo da Nação, governou até 1822, data do seu exílio pelo Congresso. Entregou as insígnias do mando oferecidas pelos Depautados, saiu nu de poder, enveredou para o seu cavalo, foi-se embora ao Peru e nunca mais voltou a pisar terras chilenas. Aos finais do Século XIX, em acto de reparação por parte dos poderes, o seu cadáver foi repatriado e preside, em Mausoléu, o Cemitério Geral, que ele fundara para os ateus como ele.
Chile foi Descoberto pelo Adiantado Mor Diego de Almagro em 1539. Nada interessante encontrou. O Extremenho e Capitão Pedro de Valdivia, a sua Companheira Inês de Suárez mais doze soldados e uma série de yanaconas ou nativos Quechua, persistiram e fundaram Santiago do Chile a 12 de Outubro de 1542.
O que comemoramos hoje é o dia de liberdade: esse primeiro 18 de Setembro de 1810: 199 anos de liberdade, uma República sempre em formação, como o eram também a Europa do mesmo Século e a fundação, por Karl Marx, da União dos trabalhadores em Londres, no ano de 1861. Mundos distantes, mas sempre o mesmo ensejo: sermos livres e sabermos optar.
Como é o Chile de hoje. Não pela Padroeira, mas sim pelos esforços livres dos seus habitantes na sua capacidade de optar.
1) O Código Napoleónico (originalmente chamado de Code Civil des Français, ou código civil dos franceses) foi o código civil francês outorgado por Napoleão I e que entrou em vigor em 21 de Março de 1804. O Código Napoleónico propriamente dito aborda somente questões de direito civil, como o registo civil ou a propriedade; outros códigos foram posteriormente publicados abordando direito penal, direito processual penal e direito comercial. O Código Napoleónico também não aborda como as leis e normas deviam ser elaboradas, matéria para uma Constituição.
Este Código, propositadamente acessível a um público mais amplo, foi um passo importante para estabelecer o domínio da lei. Antes, a lei era a vontade do Soberano – eis o motivo para designar o mona
rc
a – e o proprietário das terras retiradas aos nativos pelo chamado direito de Conquista, baseado no Direito Romano. O Código Napoleónico baseou-se em leis francesas anteriores e também no Direito Romano e seguiu o Código Justiniano (Corpus Juris Civilis) dividindo o direito civil em:
1. a pessoa
2. a propriedade
3. a aquisição da propriedade
A intenção por detrás do Código Napoleónico era a reforma do sistema legal francês de acordo com os princípios da Revolução Francesa. Antes do Código, a França não tinha um único corpo de leis, que dependiam de costumes locais, criando-se frequentemente isenções e privilégios dados por reis ou senhores feudais. Durante a Revolução os vestígios do feudalismo foram abolidos e os vários sistemas legais deram lugar a um único código. Entretanto, devido às agitações revolucionárias a situação não caminhou até à era napoleónica. Fonte: a obra de Ferdinand Braudel, o livro Tratado Elementar do Direito Romano, de Èugene Petit, 1ª edição, 1989 e as Institutas e Digesta do Código Civil do Imperador Justiniano, de 535 da nossa era, textos comigo em edições do Século XIX. O de Justiniano foi a base, como diz Petit, do liberalismo do Código de Napoleão, ditado por ele ao seu grupo de juristas entre 1801-1804. Motivo que o levou a expandir o liberalismo pelos quatro cantos do mundo.
2) Iturra, Raúl, 1998: Pedagogia do oprimido. As minhas memórias de Paulo Freire, em Educação, Sociedade e Culturas Nº 10, Outubro, Afrontamento, Porto, pp 83-108. Pode-se ler em: http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC10/10-3-iturra.pdf .
3) Palavra Aimara que assim define o Chile ou Chili, enquanto para os Quechua do Peru, Bolívia e Equador , Chili é o país do frio. Fonte: as minhas pesquisas no Chile a partir de 1994, época em que, desde a Grã-bretanha e Portugal, voltei para estudar o meu país de origem.
4) Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te, porque te amo, Afrontamento, Porto, 150 pp.
5) Criollo no Chile desses tempos, eram os filhos de Ibéricos nascidos no Chile. Desde 1823 passaram todos a ser chilenos, por Decreto assinado pelo agora Director Supremo do Chile, o Libertador Bernardo O’Higgins, por Decreto que declara a Independência do Chile e cria a cidadania chilena para todos os que tenham nascidos dentro do limites da nova República, Decreto que passa a ser lei na Primeira Constituição de 1822. Relatado e analisado no meu livro Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto, 175 pp.
Cartazes das Autárquicas (Elvas)

Rondão Almeida (actual Presidente), PS
António Simões das Dores, PSD.
(enviado por Maria Monteiro)
Ambiente – o desafio da UE
“As alterações climáticas envolvem ciência, economia e tecnologia. Porém, neste momento um acordo depende de decisões políticas. Precisamos de uma abordagem nova e precisamos dela rapidamente.” (Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico).
Este é o próximo desafio para a UE, não chega ver o Ambiente como troca entre países de produção de CO2 ou mesmo empurrar para os países menos desenvolvidos as indústrias mais poluentes. Não, trata-se de um novo modelo económico assente em novas tecnologias que exigem inovação e competências novas.
As alterações climáticas que dentro de poucos anos poderão ser dramáticas, assim o exigem. A União Ambiental, próximo desafio da UE deve constituir o elemento catalisador para um mundo liberto de carbono, ou para além dele.
A não ser este o caminho a percorrer a escassez de recursos é um dos mais dramáticos problemas que se colocam no horizonte, e que já foi a segunda razão mais importante na actual crise, logo a seguir à escassez de crédito. Vamos ter movimentos migratórios em massa, seca e escassez de água, com enormes conflitos sociais nacionais e internacionais.
O Ambiente deixou de ser um problema de uns quantos jovens hiperactivos e passou a ser um problema global.
PS: No ano passado estive na Patagónia, no sul da Argentina, fui ver as neves que deixaram de ser eternas, a serem sugadas inexoravelmente, pelas águas da baía de Vito Moreno. A milhares de quilómetros de distância da mais próxima fonte de poluição
Guardar coisas
De vez em quando descobre-se um idoso que vivia soterrado na sua própria casa, entre toneladas de lixo de vária ordem, tudo aquilo que foi recolhendo ao longo de décadas e depositando entre quatro paredes. A notícia é sempre recebida com um misto de fascínio e asco, os especialistas explicam que é uma doença, claro, nem podia ser outra coisa, um distúrbio designado como “síndroma de Diógenes”.
O Diógenes que dá nome ao distúrbio viveu cerca de três séculos antes de Cristo e, segundo se conta, tinha como casa um barril e como único bem uma tigela, que usava para lavar a cara. Tendo visto um dia um rapaz lavar a cara no rio colocando as mãos em posição de concha terá atirado a tigela para o lado, dizendo que já não lhe fazia falta. Tortuoso o destino que fez com que o seu nome viesse a designar a psicose dos que acumulam.
Diógenes, em quem os anarquistas quiseram ver um precursor, desprezava qualquer tipo de convenção social e terá defendido ideias tão revolucionárias quanto a igualdade entre sexos (não nos esqueçamos que a democracia grega excluía as mulheres do conceito de “cidadão”), a liberdade sexual ou a supressão das armas. A história mais famosa a seu respeito conta que, estando esparramado ao sol, veio Alexandre O Grande perguntar-lhe o que podia fazer por ele e, que, tendo-se posto numa posição em que fazia sombra a Diógenes, este lhe terá respondido que não lhe tirasse o que não lhe podia dar.
Diógenes e a síndroma homónima vieram-me à mente quando fazia uma intervenção de urgência no caos em que se estava a transformar a minha casa, e me dei conta de como são por vezes incoerentes os critérios que nos fazem guardar coisas cuja relevância é difícil de explicar. Já nem falo de objectos com evidente valor sentimental, como fotos ou cartas, mas de insignificâncias às quais se associam memórias que tememos perder. Fica o objecto como uma espécie de cópia de segurança, carregado de significados que só nós podemos ver. Lamentamos a perda do último laço tangível com algo que só na memória sobrevive… e guardamos.
E quando o bom senso e a falta de espaço nos dizem que está na hora de nos vermos livres de alguma coisa, como escolher? Uma a uma pegamos em cada memória, sorrimos ou afastamos o olhar, perdemos a coragem e voltamos a guardá-la. Acabarei os meus dias a recolher das ruas um parafuso partido, a cabeça de uma boneca, uma caixa de detergente vazia? Virão salvar-me da minha demência com os camiões de lixo preparados à porta? Ou os anos irão trazer-me o despojamento e acabarei abdicando até da tigela, atirando para o lixo tudo quanto se revelar inútil?
Que razões levarão as vítimas da síndroma de Diógenes a acumular tralhas inúteis? Será para sentir algum conforto no vazio? Será o mesmo mecanismo, ainda que a outra escala, que leva tantos a encher as casas com peças de mobiliário, fotos, estatuetas, quadros por todas as paredes, de forma a que não se encontre o vazio em lado nenhum?
Em cada arrumação obrigo-me a abdicar de algo cujo valor se tenha aligeirado e orgulho-me do meu desprendimento. Mas a gaveta dos trastes não se esvazia, e já quase não consigo fechá-la.
Para o BE chegou o momento
O BE irá crescer até sucumbir ao poder, quando não for mais possível crescer à custa das franjas do PS. Para continuar a crescer terá que entrar nos eleitores do PS e mesmo nos que vagueiam entre o PS e o PSD, e nessa altura vai começar a ter que tomar decisões que desagradam a muitos. E não pode continuar fora do exercício do poder sem pôr em causa o voto útil. Se não quer governar precisa dos votos para quê ?
Esta dificuldade viu-se bem no debate com Sócrates quando percebeu que as suas medidas quanto aos PPR podem ser lidas como retirar milhões de euros à classe média, o que ,a bem da verdade, não tem que ser assim. Mas, pela primeira vez, titubeou e isso foi um momento que poucos esquecem. Talvez o momento mais importante de todos estes debates.
Outra coisa poderá ser o seu papel enquanto facilitador da governação a nível parlamentar, ajudando as maiorias para concretização das políticas inadiáveis ao país. Nesta função poderá ser de uma grande utilidade assim tenha sentido de Estado, mas sem largar mão do que o diferencia do PS e do PSD.
Os grandes investimentos públicos e a dívida externa, o tecido empresarial criador de riqueza e as grandes empresas públicas e os seus monopólios, a Banca e a sua posição de favor, a Justiça e a sua complexidade de interesses estabelecidos…
Para o BE chegou o momento da verdade!
Patrick Swayze (1952 – 2009) e o meu 12.º ano

Morreu ontem o actor Patrick Swayze, que já estava doente, com cancro no pâncreas, há dois anos.
Poupo-vos as exéquias fúnebres ou a biografia oficial. Antes quero relembrar essa excelente série, «Norte e Sul», que foi transmitida em Portugal em 1989 e na qual desempenhava o papel do sulista Orry Main.
Lembro-me como se fosse hoje. Estava fazer o meu 12.º ano, no Garcia de Orta, à noite, porque nesse ano não havia 12.º ano de dia. À segunda-feira, logo que acabavam as aulas, deixava de ir ao «Novidali», o único café que então existia por ali, e zarpava para casa para ver o «Norte e Sul». Poucas vezes fiquei colado à televisão como durante esses episódios, que retratam a guerra civil norte-americana.
Patrick Swayze desempenhou muitos outros papéis na televisão e no cinema, como «Dirty Dancing» ou «Saturday Night Live». Não vi. Sinceramente, vi apenas «Norte e Sul». E chegou-me. Paz à sua alma.
A aventadora Ana Anes na SIC mulher
Estava com o comando do mundo na mão a passear pela madrugada quando dou com a nossa Ana Anes a arrasar os homens num exercício chamado “Ciência da atracção”. Os homens são tipo “buffet”, escolhidos a gosto, em exposição, há muito que perderam a influência, a mulher agora tem carreira, já não precisa do CV dos homens.
O Luís Pedro Nunes metido entre duas mulheres bem que tentava aguentar-se, mas a resistência era muito débil, que as mulheres gostam de homens casados, estes já provaram serem estimáveis, aguentam uma relação estável, são funcionais, seja lá isso o que for, mas os solteiros não dão a mesma garantia, enquanto a Ana e a apresentadora (um borracho muito estilizado sem grande interesse), cúmplices, davam cabo dos homens com a Ana a dizer, e eu a acreditar, que não tem nada de feminista mas o mundo deu uma grande volta, e os homens estão no sótão da memória.
A Ana é apresentada como cronista, tem o ar de quem tem o ás de trunfo sobre estes assuntos, o seu verbo é fácil e breve arruma as ideias em frases simples e curtas, tudo com uma certa bonomia de quem não está para, nem quer dar o golpe fatal, por outras palavras, gosta de homens e com esta ideia reconfortante vim a correr escrever esta crónica que sempre me ajuda a conciliar o sono.
Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios foi o programa mais visto ontem
O programa Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios, que estreou ontem na SIC, foi o programa mais visto do dia, com uma média de 1,348 milhões de espectadores. É o que indicam os dados da Marktest divulgados hoje.
O programa começou às 21h25 e teve uma entrevista final com o primeiro-ministro e candidato do PS, José Sócrates, como primeiro convidado. Registou uma audiência média de 14,3 por cento e um share de 35,8 por cento.
Os Gato Fedorento entrevistam hoje Manuela Ferreira Leite, no dia 16 Paulo Portas, no dia 17 Francisco Louçã e no dia 21 Jerónimo de Sousa. Falta saber é se as audiências se aguentam ou resultam, sobretudo, do efeito novidade.
O primeiro programa foi bem conseguido. É uma quase cópia do Daily Show, de Jon Stewart, mas o quarteto já tinha assumido essa influência e apresenta uma adaptação a contento ao estilo nacional. É capaz de valer a pena seguir este esmiuçar.
Aveiro, a ria, e as minhas irmãs
Esta cidade está linda. Tem belos edificios assinados por arquitectos conhecidos em conjunto com as belíssimas casas de pescadores e de salineiros, reabilitadas as antigas salinas, agora belas árvores cobrem a urbe e as gentes.
Foi sempre bonita , lá passei as melhores férias da minha vida, em casa das minhas irmãs, todos os anos saía de Castelo Branco e ía para as praias da Costa Nova e da Barra, à boleia, quando não havia perigo nenhum.
As “jeunes filles” belgas e francesas tambem davam ali à costa, uma maravilha para os olhos, eu como era muito tímido limitava-me a ver os meus amigos a namorar. Como só eu é que arranhava o francês de praia lá me ía safando de quando em vez, o problema é que eu me apaixonava doidamente, e elas “Louis, isso foi ontem” e lá íam ao “engate”, ao namoro, ao baile nas casas de praia que ficavam vagas durante a semana.
O campus universitário é uma maravilha, cheio de sol e relva, belos edificios e muito mérito, em várias áreas do conhecimento, como o trabalho de pesquiza na ria que é de Aveiro.
Estive lá no fim de semana com as minhas irmãs, a mais velha teve que ser operada ao coração de urgência aí no Santo António, hospital que tanto trabalho me deu para o modernizar, contra tudo e contra todos, muitos inimigos arranjei eu, mas está aí, moderno, muito bem equipado.
O primeiro edificio a ser construído em Portugal para ser hospital, tem um irmão gémeo em Viseu, mais pequeno e que agora está transformado num Lar para cuidados continuados, depois deste vosso amigo ter, juntamente com o Presidente da Câmara, o Dr. Ruas, reunido as condições para lá estar aquele moderno e bem equipado hospital de S. Teotónio. A minha assinatura juntamente com mais umas quantas está na base de um pilar, diz-se a primeira pedra, mas esta foi mesmo a primeira seguida de muitas outras.
Mas voltando a Aveiro, onde se fez tambem um belo bloco operatório, fico com vontade de chorar, foi ontem, cabiam todos os sonhos, vou cheirar os cantos da ria, do jardim, espreitar as casas dos pescadores onde ficava noite fora a ouvir as preces das mulheres e os gritos dos homens trazidos pelas ondas do mar em noites de tempestade.
Como eu fui feliz em Aveiro! Agora já não tenho as minhas irmãs todas à minha volta, a Carmem este ano faltou, têm mais quinze anos que eu, o Luis que andou ao colo de todas elas e que representa uma espécie de medalha , nenhuma delas pôde estudar mas o irmão vingou-as, tirou um curso superior, é de todos, só foi assim porque quinze anos faz toda a diferença neste país padrasto, havia uma escola e sete igrejas .
Quando elas se casaram eu morri por cada uma delas, roubaram-mas, depois veio um rancho de filhos, toda gente bonita como elas, fui roubado outra vez, mas tudo gente bonita e boas pessoas, maravilhosas eu adoro a minha gente.
E sabem uma coisa, eu sou o mais feio e o mais débil e o que vale menos, não tenho ponta de comparação com a coragem e a sabedoria delas e, no entanto, ando feito medalha ao peito de todas elas.
Agora atrevam-se a dizer que eu não sou um homem abençoado!
Domingos Lopes sai do PCP
Domingos Lopes abandonou 40 anos de militância no PCP. É da natureza de classe dos seus dirigentes, funcionários afastados da realidade e do mundo do trabalho, vendidos à sua condição pequeno-burguesa de pequenos e sumo-sacerdotes que os partidos estalinistas alimentam a sua fé.
Depois de deixar de ser funcionário, obtendo autonomia financeira e regressando ao mundo real, Domingos Lopes compreendeu finalmente que “o PCP continua a ser o único partido no mundo que mantém o apoio à invasão da Checoslováquia, em 1969, pelas tropas do Pacto de Varsóvia, ao golpe militar da Polónia que levou Jaruzelsky ao poder, à invasão do Afeganistão pelas tropas da URSS”.
Na sua carta de afastamento, hoje revelada pelo Público, constata igualmente que “a direcção do PCP considera, de acordo com o seu último congresso, que países como Coreia do Norte e China se orientam para o socialismo, quando o primeiro não passa de uma ditadura familiar brutal que abusivamente se apoderou do simbolismo do socialismo para o ridicularizar” e a China “emerge como uma ditadura do aparelho do partido e do aparelho militar com vista à implantação do capitalismo com o mínimo de sobressaltos sociais”.
Mais vale tarde do que nunca. Mas temos de convir, em particular no caso da brutal invasão da Checoslováquia, que a realidade tem muitos anos, a capacidade de a ver é que tardou em chegar.
Os estrangeiros
Manuela Ferreira Leite jura que não se intimida. Acho bem. Garante que as obras servem para dar emprego a cabo-verdianos e ucranianos. Acho mal e não é verdade. Assegura que o TGV só interessa aos espanhóis. Também não é verdade e mesmo não sendo adepto de um projecto como o TGV, nem especialista em transportes, sei que não é assim.
Manuela Ferreira Leite usa a demagogia. Até aqui, nada de extraordinário. Todos os políticos, todos, usam a demagogia em período eleitoral.
Manuela Ferreira Leite parece estar a ensaiar um excesso de patriotismo, que roça o nacionalismo bacoco. Até fala dos “estrangeiros”.
A líder do PSD dá ideia de só estar interessada em ver Portugal como um elemento isolado, num “orgulhosamente sós”. No mundo global dos dias de hoje é uma opção inaceitável. Num cenário de economia aberta, acenar com o espectro dos “estrangeiros” não é bonito, muito menos para quem já foi assalariada de espanhóis.
Cartazes das Autárquicas (Campo Maior)

João Burrica (actual Presidente), candidato independente.
Ricardo Pinheiro, PS.
Pedro Nabeiro, PSD.






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