O mundo das crianças – guerras e debates – IV

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Os mais novos da família não conseguiam entender os desencontros dos mais velhos. Quem tinha mais família nas guerras de Europa, era a mulher do Engenheiro, bem como uma larga parentela no sítio em que estavam, em Valparíso, Chile , sítio em que estavam as indústrias, o comércio, as fábricas que eles tinham instalado ao começo do Século XX. No velho continente, duas guerras tinam começado: o levantamento das Forças Armadas na Espanha, contra a Segunda República desse reino. A primeira, tinha sido no Século XIX, contra a monarquia de Isabel II, quem teve que fugir para Itália com a sua corte. A bisavó e avó da mulher do engenheiro, iam nesse grupo. A Segunda República tinha começado com o levantamento popular contra Alfonso XIII, que já no governava, apesar de continuar a ser rei. Quem chefiava o país era o seu Primeiro-ministro, Miguel Primo de Ribera, com a protecção do Rei: as Cortes tinham sido abolidas e a Constituição não funcionava. Afonso XIII (nome completo: Alfonso León Fernando María Jaime Isidro Pascual Antonio de Borbon y Habsburgo-Lorena; Madrid, 17 de Maio de 1886Roma, 28 de Fevereiro de 1941) foi rei de Espanha entre 1886 e 1931. [Read more…]

O mundo da infância – III parte. Laguna Verde

laguna_verde.jpgO Senhor Engenheiro estava longe de se sentir um homem feliz. Tinham-lhe tirado o barco e o mar, especialmente a sua navegação. Adorava dar a volta ao mundo levando mercadorias no barco que comandava, e trazer de volta produtos exóticos, como crocodilos dissecados, dentes de elefante, peles de tigre, alfombras de Pérsia hoje Iraque -, que repartia entre todos os membros da família. Dar presentes era a sua felicidade, sentia-se mais dentro de família da sua mulher, por outras palavras, sentia-se em família. Com a sua família paterna as relações eram fechadas. Se a família da sua mulher tinha indústrias e propriedades ao longo do país e terras para lavrar pelo único filho varão do seu sogro, Engenheiro Agrícola, a família era grande e os trabalhos e propriedades eram repartidos ente todos, assim como os lucros. [Read more…]

O mundo da infância – II parte: mudança de vida

 

Habituado a navegar e academicamente preparado para isso pela Universidade Católica de Valparaíso[i], como narrei na parte I, o mar era a sua delícia, navegar o seu objectivo, e esses encontros e desencontros com a sua mulher e o único filho desses tempos, sogros e cunhados, uma delícia. Estar todos os dias com as mesmas pessoas, poderia ser cansativo. Estava habituado a solidão dos campos, a montar o seu cavalo e percorrer o fundo em procura de amores ou amigos para cavaquear. Gostava dessas companhias, mas nem todos os dias nem com as mesmas pessoas. Era o patrão e gostava mandar ou pregar brincadeiras pesadas aos amigos, mas de que gostava brincar, era o seu prazer. Tinha começado os seus estudos na Universidade referida antes, em breves anos após a sua fundação, aos seus 18 anos: cinco anos de estudo mas a prática de engenheiro da marinha, acabaram por deixa-lo livre e com um bom ordenado em 1937. Aos 27 anos casou com a Senhora que pretendia mãe do bebe que foi a sua ilusão. [Read more…]

O mundo das crianças V – os problemas que as guerras europeias causam no Chile

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Puerto Varas - Colónia Alemã Sul do Chile

Parte de um capítulo do livro que escrevo para Aventar

A guerra civil espanhola foi um preambulo instigado pelo mais sanguinário ditador do mundo, o criador do genocídio para ocultar crimes de guerra, à maneira de Franco. A diferença estava em que o ditador da Espanha não queimava aos seus prisioneiros: os enterrava vivos. Genocídio e morte em vida, eram praticamente o mesmo crime. O ditador alemão, austríaco de nascimento e registo, como todo o mundo sabe, era filho de um trabalhador alfandegário. Líder político alemão nasceu a 20 de Abril de 1889, na cidade austríaca de Braunnau, filho de Alois Hitler e Klara Pölzl. . Responsável por um dos maiores genocídios da História, desencadeador da 2.ª Guerra Mundial (1939-1945) e mandante do extermínio de cerca de 6 milhões de judeus. Sem concluir os estudos de segundo grau em Linz, mudou-se para Viena (1908), onde o sonho de se tornar pintor foi truncado quando não conseguiu ingressar na Academia de Belas-Artes. Em 1913, muda-se para Munique, Alemanha, fugindo do alistamento no Exército de seu país. Com o início da 1.ª Guerra Mundial, em 1914, alista-se no Exército alemão como voluntário. Ferido em combate, recebe a condecoração da Cruz de Ferro. Em 1919, filia-se ao Partido Operário Alemão (DAP), rebaptizado em 1920 como Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) e apelidado de “nazi”. No ano seguinte, passa a chefiar o partido. Preso em 1923, após uma tentativa de golpe de Estado – o Putsch de Munique –, escreve o livro Mein Kampf , que me português significa “Minha Luta”. Suas ideias se baseiam no nacionalismo, no anticomunismo, no anti-semitismo e na crença na superioridade da raça ariana. Seu objectivo é construir um novo Estado (3º Reich) capaz de promover a autonomia económica da Alemanha, libertando-a do Tratado de Versalhes. Em 1930, torna-se cidadão alemão. Assume o poder como chanceler em 1933. Bane partidos políticos, prende opositores, reintroduz o serviço militar obrigatório e dá início à expansão militarista alemã. Ordena a invasão da Polónia em 1939, provocando a 2.ª Guerra Mundial. Manda judeus para campos de concentração e anexa vários países da Europa. Derrotado, em Abril de 1945, com as tropas soviéticas cercando Berlim, suicida-se no bunker da chancelaria [Read more…]

Assunções precipitadas.

Acabo de ler, via Cinco Dias, que um grupo de feministas do qual eu nunca na vida tinha ouvido falar, chamado UMAR, veio fazer um longo discurso laudátorio sobre a eleição de Assunção Esteves ao cargo de Presidente da Assembleia da República (para o cargo pode dizer-se presidente, para a titular é que não, pelos vistos, dizem os linguistas da praça).
O texto que começa com a pomposa arenga «UM SÉCULO PARA QUE UMA MULHER CHEGASSE A PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA» seria inofensivo e até engraçado se não fosse de uma ignorância atroz. As senhoras chegam efectivamente a comparar tão solene ocasião com o «do voto pioneiro de Carolina Beatriz Ângelo».
Não vou perder tempo a explicar a estas cabecinhas toldadas pela ignorância corporativista e ideológica que o que voto de Carolina Beatriz Ângelo significou, que foi o mesmo que nada, dado que a mulher até 1974 foi sempre tratada como menor, quase mentecapta, pela república portuguesa. Aliás, até os animais ganharam mais direitos depois de 1910, do que a mulher (excepção feita à mulher de Afonso Costa, claro).
Mas o mais ridículo é aplaudirem uma eleição que, de acordo, com a cartilha republicana é tudo menos democrática. Para além de ter sido a segunda escolha, depois de Nobre, Assunção Esteves apesar de se tornar a 2.º figura de Estado a nível protocolar, não passa de uma individualidade apagada cujo estatuto é semelhante ao de uma secretária de direcção, lugar outrora ocupado por senhoras de saia abaixo do joelho, óculos e muita moral. E não foi eleita directamente pelos cidadãos!
Bom mesmo seria que uma portuguesa tivesse alcançado o lugar da presidência da República. Mas isso,como sabemos, não depende de nós. Depende deles, do regime, dos políticos e dos partidos. E enquanto eles não quiserem, a democracia não funciona. É assim desde 1910. E tão cedo não muda.

Para os que quiserem saber

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Venho por este meio divulgar que a informação que me foi fornecida e que mencionei neste post, estava certa. Há uma nova biografia do Felipe, e é do Geoffrey Parker. E tem 1500 páginas. E para abrir o apetite umas citações de Parker:

  “Entre las novedades, Parker destaca que los documentos en los que se observa cómo Felipe II a los 14 años escribía y “destrozaba” los libros que heredó y que ahora alberga El Escorial o las cartas de amor que le escribió a Isabel de Tudor en 1559.– Se vocês soubessem a minha histeria quando li esta parte das cartas de amor. Até dei três saltinhos. Eu tenho mesmo que comprar isto. 

Adentrándose en su personalidad, Parker resalta su comportamiento “obsesivo compulsivo” que incluye excesivo control emocional, austeridad, terquedad, insensibilidad y cierta astucia maligna que contrasta con las cartas que enviaba a sus hijos donde se mostraba lleno de afecto y de amor e incluso se permitía hacer ciertas bromas”. – 

(…) En este sentido, explica que Felipe había recibido una “herencia problemática” sin lengua, moneda, leyes o instituciones comunes y aún así estuvo cerca de alcanzar el éxito en sus numerosas empresas.

   Sobre los puntos oscuros de su reinado, Parker cita las muertes del príncipe Don Carlos, uno de los puntales de su leyenda negra, y de su secretario, Escobedo. Sobre la muerte de Don Carlos, Felipe II nunca dio una explicación detallada de lo sucedido. En cuanto a Escobedo, su asesinato fue organizado por Antonio Pérez con el consentimiento de Felipe II [Read more…]

22 de Junho de 1941

Apesar do Pacto Germano-Soviético de 23 de Agosto de 1939 e das vantagens que ambos os regimes retiraram dessa cooperação, Hitler ordenou o ataque à URSS. Às 3.15H da madrugada de 22 de Junho, iniciou-se o ataque. Uma campanha mal preparada e executada segundo as “visões, palpites e infalíveis instintos” do Führer e que chegando ao fim, marcaria um catastrófico resultado para o germanismo, cuja fronteira recuou de uma forma sem precedentes. Essa queda arrastaria a Europa inteira, apagando-se o seu predomínio sobre o planeta Terra.

São precisamente 3.15H de 22 de Junho de 2011. Há precisamente setenta anos, começou a Operação Barbaruiva.

Abdelkrim El Khattabi e a Guerra do Rif

“O Rif é um caldeirão a ferver. Quem puser lá a mão queima-se.”

Em 1921 o Protectorado Espanhol de Marrocos iria ser abalado por uma guerra impiedosa levada a cabo pelas tribos Rifenhas e do País Jebala e Gomara, que ficou conhecida como a Segunda Guerra do Rif.

O Exército de África e a Legião Espanhola sofreram derrotas esmagadoras e, em desespero, os espanhóis utilizaram armas químicas em grandes quantidades sobre aldeias inteiras.

Apesar da superioridade numérica e de armamento do exército de Espanha, o Protectorado esteve à beira do fim, perdendo grande parte do seu território, que em 1925 se resumiu às principais cidades.

A revolta dos guerrilheiros Rifenhos só foi esmagada em 1926, quando a França entra na guerra com uma força de 300.000 soldados comandados pelo general Pétain, que incluía tropas senegalesas e a Legião Estrangeira, que se junta aos 250.000 soldados espanhóis comandados pessoalmente pelo ditador Miguel Primo de Rivera.

Apesar da derrota dos rifenhos, os sucessos militares dos mujahidin do Rif foram decisivos na formação de uma consciência nacionalista marroquina, e deveram-se não só à coragem e determinação do povo Rifenho, como também ao génio político e militar do seu líder, um berbere oriundo da tribo dos Beni Urriaguel chamado Abdelkrim El Khattabi.

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Agricultura e tempo – parte III

camélia

O movimento do Século XIX vincula-se à esquerda obreira, aos republicanos e ao partido socialista e aparece com as teses de Marx e Engels. As suas reivindicações fundamentais eram: abolição dos foros e das rendas forais, com a reclamação de ter acesso pleno à propriedade das terras que cultivavam, lutar contra o caciquismo que impedia a livre vontade de semear o que melhor podia parecer ao trabalhador. Não eram sempre batatas, milho, trigo, que se vendiam bem por causa do consumo das novas colónias da Espanha que nada sabiam de cultivo. A batata foi trazida desde as novas terras e vendia bem por toda a Europa: A batata contém uma elevada percentagem de água. É uma boa fonte de amido (hidrato de carbono complexo), mas também de alguns minerais como o potássio. O seu teor em proteínas, fibras e vitaminas é escasso. Destacam-se as vitaminas C e B6, que existem sobretudo na pele do tubérculo. No entanto, nas batatas descascadas e nas que são submetidas a processos de cocção, este

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Salvem a Casbah de Tânger!

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A Casbah de Tânger, ou castelo daquela cidade, património de inegável valor arquitectónico, encontra-se numa situação deplorável. A sua fachada Norte colapsou parcialmente e está em risco de ruína total, ameaçando derrocada.

O imóvel integra-se na cintura de muralhas construída pelos portugueses durante os quase 200 anos em que aí permaneceram, resultado da reformulação da antiga cerca que já existia desde o século XII. A Casbah foi implantada no ponto mais alto da cidade, em situação sobranceira em relação à Medina, desfrutando de uma vista panorâmica sobre o Estreito de Gibraltar.

A falta de conservação e a instabilidade do talude em que assenta, são factores determinantes para a situação crítica a que a Casbah chegou. [Read more…]

O nosso pobre saber agricola

rosa da paz

a rosa da paz

Nos tempos que correm apenas podemos pensar sobre 

O NOSSO POBRE SABER AGRÍCOLA

O título do ensaio não é ironia, é uma lembrança de uma questão colocada a minha filha mais velha, nos dias dos seus cinco anos. Vínhamos da Grã-Bretanha, por causa de saber se o socialismo materialista histórico votado em sufrágio universal, tinha ou não sucesso. Bem sabemos hoje que assim não foi. Mas, tornemos aos anos 70-73 e a questão colocada a Paula; filha, de onde nascem as alfaces? A sua resposta foi simples; dos cestos do mercado, sítio certo das compras da sua mãe, quem se acompanhava com ela, ainda não habituada a estar de volta ao País do Frio ou Chili em língua Quechua. Especialmente ao sítio solicitado por mim, ao nosso Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Chile; la sede de Talca, porque era denominada a cidade o rim da aristocracia chilena. Era da Província do Maule, espaço geográfico onde se encontravam os maiores latifúndios do país. O objectivo do Presidente era a reforma agrária e entregar a terra a quem a trabalhava e não apenas ser da propriedade de uma família que estava sempre em Santiago, por serem profissionais e por causa do estudo dos filhos. A

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Quem é o Luís Fazenda?

Uma frase descontextualizada do Luís Fazenda, que começou uma explicação com uma pergunta, provocou grande efervescência no clube de amigos do Daniel Oliveira. Alguns responderam com esta pergunta. Penso não cometer nenhum inconfidência se lhe der uma resposta.

Luís Fazenda foi o tipo que, enquanto secretário-geral da UDP, um belo dia telefonou a um tal de Fernando Rosas, solicitando-lhe que intermediasse um encontro com a direcção do PSR. Obteve da direcção do PSR resposta afirmativa e  a sugestão de, já agora, nesse mesmo encontro participar a Pollítica XXI.

E assim nasceu o Bloco de Esquerda. Na sua convenção fundadora, deu nas vistas, pelos piores motivos, acho eu, um tal de Daniel Oliveira, esse sim, personagem de que nunca tinha ouvido falar (está bem, sou da província, mas ando nisto há muitos anos).  Mas isso é outro filme.

Entendidos?

Uma premonição

premonição

Será que há justiça na vida política? Será que a justiça é parte da vida política?

Antes de responder a questões tão evidentes, devemos saber o que é a vida política. É um conceito que vem da língua grega clássica, definida por Aristóteles entre os anos 320-323 antes da nossa era, manuscrito perdido e encontrado na biblioteca de Alexandria, após o grande incêndio causado pelos invasores romanos. Recuperado e restaurado no ano 80 antes da nossa era, define o conceito como o governo da cidade e do lar.

Aristóteles foi preceptor de Alexandre de Esparta, denominado O Grande, que conquistara todo o mundo da sua época, e da excelente governante Cleópatra, Rainha e Farão do Antigo Egipto. Cleópatra VII Thea Filopator (em grego, Κλεοπάτρα Φιλοπάτωρ, Cleopátra Philopátor; Alexandria, Janeiro de 70 a.C. ou Dezembro de 69 a.C. – 12 de Agosto? de 30 a.C.) foi a última rainha da dinastia de Ptolomeu, general que governou o Egito após a conquista daquele país pelo rei Alexandre III da Macedônia. Era filha de Ptolomeu XII e de Cleópatra V. O nome Cleópatra significa “glória do pai”, Thea significa “deusa” e Filopator “amada por seu pai”. [Read more…]

A História não é do Povo, nem de Moscovo.

Não existe História asséptica, nem imparcial. Existe coerência, interpretação e bom senso. Infelizmente ainda não possuímos um código deontológico para Historiadores, pelo simples facto de que não existe, também, qualquer instituição que superintenda a escrita da História ou (superintender é capaz de ser inadequado) zele pela boa historiografia em Portugal. O panorama é comum a muitos países, embora em Portugal seja mais confrangedor, dado que a facilidade com que qualquer um toma para si a denominação de historiador, desacredita a boa história, a História com H grande, escrita segundo o método científico que esta disciplina exige. Por outro lado, como a História é pedagogia e a escola tornou-se um laboratório de conceitos fúteis, aplicados a pressupostos de progresso social e meta-social (o que quer que isso seja), o lugar das humanidades foi sendo substituído por «ciências» realmente «verdadeiras», por «números», por «conceitos» galicistas e anglo-saxónicos inventados por alguém, num gabinete esterilizado mas pouco ventilado, lá longe, em Bruxelas. A História tornou-se um adereço difícil de justificar. De tal forma que o Passado se torna, dia após dia, uma montra de clichés que perduram enquanto existirem a wikipédia e os humoristas. [Read more…]

Ibn Battuta

Esta é a história de um homem que fez de viajar o seu modo de vida.

Berbere de origem, nasceu na cidade de Tânger no ano de 1304, no seio de uma família abastada.

Aos 21 anos de idade, ainda estudante de direito, parte para fazer a peregrinação a Meca e inicia uma aventura extraordinária.

Foi viajante, peregrino, explorador, embaixador, jurista, cortesão, conselheiro, geógrafo, escritor.

A sua experiência ficou registada na obra Rihla, “A Viagem”, precursora dos relatos de viagens (ou Rihlat) e tratados de geografia.

Durante os cerca de 30 anos em que viajou, Ibn Battuta percorreu mais de 120.000 Km pelos lugares mais longínquos e diversos, incluídos num território que hoje abarca 44 países, numa época em que a Terra era um mistério, as distâncias eram longas e viajar era uma aventura.

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Em defesa da honra de Afonso Henriques e dos que à sua porta acampam

Tem causado alguma indignação nos sítios do costume o acampamento, vulgo acampada, no adro de S. Cruz. Porque é panteão nacional, que está lá dentro o túmulo do rei fundador, uma pouca vergonha.

Convinha recordar aos distraídos que aos 19 anos Afonso foi acampar para S. Mamede. Três anos depois reune em Coimbra, à volta deste mesmo mosteiro que então manda construir, a jovem e em grande parte deserdada nobreza (e clero) com quem iria várias vezes acampar, sentados, a pé e a cavalo, até concluírem um país.

Donde fazem muito bem estes jovens em homenageá-lo, acampando à porta daquele que foi um jovem revolucionário, afrontou o poder então vigente, e aqui mesmo fundou Portugal.

Estou a comparar o incomparável? este pessoal está ali para fazer revoluções, não quer é trabalhar, tem mau aspecto e dali nada de bom há-de vir?

Aos 19 anos Afonso Henriques e os seus devem ter ouvidos tantas vezes o mesmo, que pelo menos nisso claro que se pode comparar.

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Bom dia, senhor Primeiro-ministro

Olof Palme

Olof Palme, Primeiro Ministro de Suécia, assassinado em 1986.

Estamos a três dias de resolver a grande incógnita. Quem dos cinco líderes partidários será convidado ao Palácio de Belém pelo Presidente da República, para lhe solicitar que forme um novo governo ao seu nome e a nome do povo português? Cada um dos líderes partidários tem o direito a ser solicitado pelo representante da nossa Soberania, para organizar a governação do país para o povo da nossa Nação. Sem governo, a República seria uma hecatombe. O governo não reside na pessoa do Presidente da República. O governo de Portugal é a Assembleia da República, organismo que deve prestar conta, caso acontecer, ao tribunal constitucional e ao poder judicial, que fiscaliza. O nosso País é una Nação tripartida, com o Poder Executivo que manda cumprir o que acorda o Poder Legislativo ou Assembleia, que, pela sua vez, é observado pelo Poder Judicial.

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A Europa das grandes ilusões

A situação parece adensar-se a cada dia que passa. Notícias da Grécia que já a ninguém surpreendem, manobras de diversão como o caso dos pepinos (não) envenenados e um país, este em que vivemos, onde todos os agentes políticos continuam numa normalíssima campanha eleitoral, como se nada de extraordinário se passasse.

Uma notícia quase despercebida, será um indício muito claro de um subterrâneo movimento de pânico que vai alastrando, mesmo naqueles países que exemplarmente geridos, em princípio escapariam aos tortuosos processos de aclimatização aos novos tempos de penúria. A Dinamarca é o exemplo mais recente e os seus ricos habitantes, tomaram a iniciativa de cortar o consumo, na esteira dos cortes operados pelo executivo. Outra situação inédita deste os tempos da II Guerra Mundial, consiste na actual situação grega, com uma rápida tomada de posição comunitária, pretendendo assumir a cobrança de impostos e o plano de privatizações dos activos do Estado helénico, sem descurar o previsível contratempo da reestruturação da dívida grega. Como bem diz Camilo Lourenço, o patamar parece já ser outro, pois se a condição de “Protectorado” parecia ter sido aceite tacitamente, hoje já podemos assumir uma nova forma de colonização. A U.E., ou melhor, a Alemanha, paga e assim pode exigir aquela implementação de reformas que reconduzam o todo europeu ao chumbado caminho do federalismo à medida alemã. Este é o verdadeiro cerne da questão, um antigo projecto que vem dos tempos do senhor na foto que abre este texto, o Kaiser Guilherme II, que numa carta escrita  em 1940 à sua irmã Margarida, dizia: …”a mão de Deus está a criar um novo mundo e a produzir milagres. Estamos a tornar-nos nos Estados Unidos da Europa sob a liderança alemã, um continente europeu unificado”. O mesmo tipo de pensamento era partilhado por Hermann Göring que muito a sério previa uma Europa a duas velocidades, mas infalivelmente unida sob a égide de Berlim. Importante nota de rodapé, “com ou sem a vitória” militar do III Reich.

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Uma Maioria, um Governo, um Presidente!

Em 1986 Álvaro Cunhal confrontou-se com a inevitabilidade da opção entre a candidatura de Freitas e a de Mário Soares. Para ultrapassar o melindre da situação convocou um Congresso Extraordinário do PC, recalcando o ódio quase ancestral que dedicava ao PS e a Mário Soares. Desse congresso saiu a deliberação de votar em Soares, traduzida na expressão “quando forem votar, tapem a cara com a mão esquerda e votem com a mão direita”. Neste momento enfrentamos um dilema em tudo semelhante. Ou votamos no PS e teremos um governo dirigido por Sócrates, ou votamos outra coisa qualquer e teremos um governo presidido por Passos Coelho concretizando o sonho da direita de “uma maioria, um governo, um presidente”. A decisão acaba por ser simples.

Agora para coisas realmente importantes


Disseram-me que saiu uma nova biografia do Felipe II escrita pelo Geoffrey Parker. É verdade? É? É que me disseram que tem 1000 páginas.

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Os dias que vivemos são como os de Allende

Allende

Os dias que vivemos são delicados: dois partidos neoliberais disputam o poder, vários partidos radicais tentam mas não têm força. Lembremos o que um dos países viveu em dias como este, em que falar é delicado e escrever, pior. Mas quem não se arrisca, perde tudo, incluindo pessoas de bem, maltratados pelos seus ditos compinchas.

Viví isto, este abandono e solidão, em campo de concentração faz já quase 40 anos, e nesse continente. Mas por quem o fiz, nem todo o ouro do mundo podia pagar a sua honra: [Read more…]

História à moda de Hollywood.

“Na última semana beatificámos um Papa,
casámos um príncipe,
fizemos uma cruzada e matámos um mouro.
Bem vindos à Idade Média.”

Chegou-me esta “pérola” de humor cínico, via um fórum de discussão de História (!), concebida, certamente, pelo mesmo género de pessoa que me me enche a caixa de correio electrónico de power-points musicais com aforismos sobre a arte de viver.

O melhor sentido de humor é o que demonstra mais inteligência. Por isso pouca gente gostará de Monty Python e a maioria prefira a vulgaridade de um Fernando Rocha. E no que toca a História, em que todos têm opinião, sempre é preferível o chavão à verdade, um José Hermano Saraiva a um José Mattoso. Aquela arenga sobre um Papa, um príncipe, a Cruzada e o mouro é uma sucessão de preconceitos ideológicos. O pior deles, que a Idade Média é a época das trevas, do atraso social e mental. O que dirão, disto, os meus amigos medievalistas?

Basta olhar para o século XX, para perceber que a Idade Média, com os seus papas prepotentes, os seus monarcas autoritários e as Cruzadas empalidecem perante os actos de Hitler, de Estaline ou do Império Britânico e que a História não se divide em períodos nem em indivíduos bons e maus. Isso é para Hollywood. A principal função da História é pedagógica. Se isso não está a funcionar, como se depreende pelo anónimo discurso citado, então talvez devêssemos ter mais historiadores e menos engenheiros. Porque de mentirosos está o mundo cheio.

Cartas a Sócrates – [8]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Se soubesse, amor, o caminho mais fácil, fugiria lamentando-
-me. Assim, amor, só me resta percorrer avidamente, sem
cansaço, esta via sinuosa, derrotando-me solidão ante solidão.
    
                                 
Se eu soubesse, amor, quando coincides, também, solidão, não
rejeitaria o caminho mais ágil.
     
Mas, no interior há uma prece aclamando: quão diferente
poderia suceder se soubesses, amor, combater esta forma
estranha de resistir distância dissuadindo-me no meu corpo,
transformando-me para outra vida evidenciar.

PS.: #ILoveSocrates Night & Day 🙂

Publicado no F-Se!

Cartas a Sócrates – [7]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Já não sinto nada, amor, para além da tua falta. Já nada nem 
ninguém, amor, me obriga a não esquecer a tua falta.

E tu, sem pressa, percorres em sossego todas as ruas, todas 
as cidades, todas as palavras sem monção alojada nos teus olhos, 
como eu amor, demolida por dentro, à tua beira quebrando 
interiormente, disfarçada de qualquer coisa para que de mim 
não sobre nada.

F-Se! #ILoveSocrates Ever 🙂

Cartas a Sócrates – [6]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Quando o tempo tiver passado, amor, excedendo-nos na sua

composição, talvez haja alguém que compreenda a negação

bastando-se, sem dúvida, sem hesitação.


E do meu pesar somente a vergonha me impede de não negar,

também, amor, este sentimento deslizando puro desejo de te 

afirmar (amor): minha doce enfermidade sem remédio, sem

pudor refreando o desassossego, o cuidado, a negação. 

PS.: #IloveSocrates Indeed 🙂

Tudo o que os finlandeses não querem nem precisam saber sobre Portugal.

Estou em crer que os Finlandeses se estão a marimbar para Portugal. Como, aliás, a maioria dos portugueses. Há muito tempo que os autóctones deixaram de gostar do país, dos governantes, das instituições e de si próprios. Somos, com certeza, um dos países com a menor auto-estima da Europa. Ou mesmo do mundo. Em nações mais pequenas, mais miseráveis e mais periféricas luta-se pela manutenção da independência. Por cá, entregaríamos de bandeja o território à Espanha, abdicarímos em qualquer momento da nossa cultura e venderíamos (vendemos) o nosso património a quem der mais. De resto, já nos entregámos de corpo e alma a políticos ávidos. Há 37 anos que os barões de dois partidos repartem entre si os despojos de um navio que só não naufraga porque depois não haveria o que saquear.
Um país onde uma maioria  ainda cospe para o chão, onde certos indivíduos constroem a casa maior do que a do vizinho apenas por vaidade, que desrespeitam todas as regras elementares da sã convivência e ainda se gabam disso é um triste exemplo da falta de amor-próprio. Os psicólogos o explicarão melhor, mas quem não gosta de si, dificilmente terá força e vontade para singrar, para vencer desafios ou para produzir o que quer que seja.
Depois, um país onde as pessoas consideram a corrupção como um salutar e normal truque para ultrapassar a legalidade e contornar obrigações sociais elementares (como respeitar o mérito) diz muito sobre a forma como nos vemos ao espelho. Somos, aliás, os primeiros a dizer mal de nós, a rebaixarmo-nos e a reprovarmo-nos perante o Outro. Somos capazes de fazer graças com todos os assuntos, por mais tétricos ou vulgares que sejam, como se o humor fosse um lenitivo. E é, de facto. Enquanto rimos, esquecemos que a maioria da população se divide entre uma pequena elite pedante, um conjunto de aspirantes (os doutores) e uma vasta massa de iletrados, cuja ambição maior é a de que o seu clube de futebol some vitórias. Enquanto os nossos humoristas ridicularizam os governantes, desculpabilizam a gravidade dos seus actos, transformados em burlescos gracejos que se esquecem com uma risada.
Dirão: mas cada uma destas enunciações são chavões comuns a muitos paises. É certo, por exemplo, que um país como a Finlândia terá os seus maus políticos, os seus ladrões e os seus santos, os seus reality-show e público que os aplauda.
Mas esse país, tão novo, sem o peso dos 800 anos de história, sem praias nem sol, sem ter inventado a via verde ou sequer ter levado novos mundos ao mundo, não está na bancarrota, nem precisa de convencer o mundo que, apesar da desgraça, já foi grande. Efectivamente já fomos grandes. Mas tudo isso que interessa, quando hoje somos pequenos – pequenos territorialmente e pequenos geopolíticamente?
Olhando para o gráfico acima, que assinala já a vitória a um, ou ambos, dos/os responsáveis pelo estado em que estamos, nem vale a pena questionar a democracia, nem a sua validade num país mal habituado a liberalidades. Apenas perguntar: mediante aqueles valores, e o estado em que nos encontramos, valerá a pena voltarmos a ser grandes se sendo pequenos já nos infligimos tão grande mal?

Cartas a Sócrates – [5]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Temor, amor, é o que sinto despojada de ti, é não saber de que são feitas as tuas lágrimas ou se choras ou em que pensas quando adormeces ou se ris quando estás só.

 Temor, amor, é tudo o que desconheço e o que desconheço, bem sabes, és também tu (amor).

Amor, se eu te conhecesse, conheceria também os teus segredos, os teus anseios, os teus receios, um mundo só teu devastado – não, não é importante conhecer, nem conhecer-te para saber que o mundo e tu são admiravelmente mais belos e desejáveis: desconhecidos, adivinháveis.

PS.: #ILoveSocrates deeply 🙂

Publicado no F-Se! 


Cartas a Sócrates – [4]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Sei apenas, amor, que o tempo pára imóvel e o espaço abre em lume a tua presença, quando – só – amor, espero esse lume, nada mais.

Mas, é com um cuidado atento que desço uma máscara, amor, indiferente, enquanto a vida cresce subitamente mais plena e alimenta a sede de apenas diante de ti ser, também, esse lume.

E não é raro – obrigada –, amor, ter de desviar os olhos ou inclinar o corpo para longe.

Como queima esse lume?! E como irrompe graciosa a vida nesse lume interiormente, dentro, cada vez mais fundo removendo a escuridão e o terror, amor.

E tu? amor – bem sabes que não espero nada, nada mais, e que nada tenho senão o lume.

PS.: #ILoveSocrates much more 🙂

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Cartas a Sócrates – [3]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Acordo, amor, sem urgência para que a noite caia novamente.
E o dia começa a doer enquanto aguardo impotente que passes
desprendido e dos teus lábios a voz se forme som disparado de
encontro a mim, amor.
Aí, amor, um novo acordar eclode iluminando o obscuro receio
de já não me reconheceres ou de que me comeces a amar,
também, obscuramente, desastrado e débil, amor, face aos
momentos sem distância separando-nos.
E delicadamente revisitados (amor), esses momentos, seriam
adormecidos sem urgência de acordar dolentemente para um
novo dia em que aguardarias que passasse e a minha voz
formasse nos meus lábios um som disparado de encontro a ti
amor, iluminando-te, sem precipitação e sem receio.

PS.: #IloveSocrates 🙂

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Cartas a Sócrates – [2]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Quando saio, amor, à tua procura, é um mundo visivelmente
 novo que anseio. (Só tu me retiras do meu recolhimento e me
abres secretamente o desconhecido.). Saio todos os dias e todas
as noites, amor, sabendo que não me procuras, que não sentes a
privação nos meus gestos desastrados e incorruptos: à tua
procura. Não pressentes a minha voz, amor, somente delicada
para ti? Não, não reparas nem ouves os meus apelos
definhando tímidos, enfraquecendo à tua mercê, amor? Porque
não me procuras, amor?, eu que me abandonei e abandono
todos os dias e todas as noites para te encontrar diante de mim
abandonado à minha procura, procurando, procurando
inevitáveis amor.
Porquê amor? É forçoso que esta procura seja apenas

docemente desesperada e perdida enquanto saio todos os dias e
todas as noites não sabendo nunca que mundo desconhecido
anseias? Porquê, amor, desconheço?


PS.: #ILoveSocrates + 🙂

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