The Dodos, Time To Die, e já nasceu

dodos time to die cover

O próximo disco dos Dodos, Time To Die ia sair em Setembro, mas a net já o pariu. Não é que seja fácil de encontrar, mas quem procura sempre se destorrenta.

Ainda só ouvi uma vez  e vou evitar ouvir tão depressa,  a capa é para Outono, quando sair vai vender mais, e  para já duvido que voltem a tocar no meu bairro, como no Inverno passado:

hugthedj, The Dodos “Men” + “Fools” live@ Salão Brasil – Coimbra 05-12-08

a coisa correu tão bem que fiz mais de  2gb de fotos e consegui aproveitar estas:

The Dodos in Salão Brazil, Coimbra, 2008 12 05, João J Cardoso

Falando de democracia: Do sonho à realidade – Comentário do autor

São 21.30 e vejo com surpresa que já algumas dezenas de pessoas se deram ao trabalho de ler o meu texto «Do Sonho à Realidade». Resolvi que essas pessoas mereciam uma explicação mais clara e pedi ajuda ao José Mário Branco. Aqui está ela:

Vamos correr Fernando Ruas à pedrada?

Claro que esta minha pergunta é puramente metafórica e ao nível da linguagem refinada das Beiras. A ideia, portanto, é arranjar uns tipos e corre-lo à pedrada. Mas mataforicamente. Atenção que estou a medir isto muito bem. (foram 222 caracteres)

FALANDO SOBRE TRANSPORTES. AS FALÁCIAS DO MOPTC (3ª PARTE) – I

A renovação de um contrato baseada num projecto virtual

Tencionava concluir com este texto os outros dois publicados anteriormente. Contudo, ao receber um semanário de leitura habitual, constatei entre as suas folhas a existência de um impresso – aliás com uma boa apresentação gráfica, colorida – onde se falava do projecto da Nova Alcântara a que já tive ocasião de me referir em 9 de Outubro p.pº.

No editorial assinado pelo Presidente do Concelho de Administração da APL, o seu autor procurava justificar este “projecto inadiável” o qual, segundo ele, iria fomentar uma forte aposta na utilização do transporte ferroviário e fluvial e desenvolver as ligações do Porto de Lisboa com as novas plataformas logísticas que irão ser instaladas na região (Bobadela, Castanheira do Ribatejo e Poceirão).

Confesso a minha perplexidade, dado que era do meu conhecimento a existência de um documento do MOPTC, datado de Dezembro de 2006, contendo as “Orientações Estratégicas Para o Sector Marítimo Portuário”, nele constando – o que me parecia mais importante, urgente e indispensável – a elaboração do “Plano de Estratégia e Exploração do porto”, com o horizonte temporal de 2008; suponho eu, na sequência do Plano Nacional Marítimo Portuário, previsto nesse mesmo documento para 2007.

Pelos vistos, o MOPTC resolveu subverter a sua própria estratégia e presentear a APL e os cidadãos de Lisboa com o Projecto (?) virtual, cinematográfico e espampanante do Novo Nó de Lisboa, totalmente omisso nessas “Orientações Estratégicas”.

E a APL, para mostrar o seu acordo e total dependência da Tutela, esclareceu que “… estando, agora, fixados os objectivos e metas claras … importa definir metas temporais para a sua revisão e adaptação”.

Projecto este, repito, que não passa de umas miragem, cheio de dúvidas e problemas esboçados – mas não resolvidos – unicamente para permitir renovar por mais umas três dezenas de anos o contrato de concessão à Liscont (leia-se Mota Engil) a pretexto de uma urgência não devidamente fundamentada (leia-se o meu texto anterior) e com a contrapartida (em que percentagem ?) da comparticipação dessa empresa nas obras a efectuar. E são muitas, caras e não totalmente estimadas.

Posso afirmar, sem qualquer hesitação, que a APL não analisou todas as soluções alternativas possíveis nem, tão pouco, seria possível concluir “com o auxílio de estudos económico-financeiros e jurídicos” a validade da solução que foi ”oferecida” à Mota-Engil.

Até porque ainda não há projecto, ante-projecto ou mesmo estudo que permita elaborar uma estimativa  – já não digo orçamento – dos trabalhos a efectuar. Em minha opinião e com algum conhecimento de causa, de tal modo difíceis e complexos que tenho fortes dúvidas quanto à sua exequibilidade, por um preço razoável.

Por isso mesmo darei a conhecer uma solução que julgo digna de estudo, aliás, a juntar a muitas outras sugestões que apresentei na 2ª Parte deste trabalho.

CUIDADO COM OS REMÉDIOS

CUIDADO COM OS REMEDIOS (1)

O consumo de medicamentos é hoje um problema, não só nacional como internacional. Interesses industriais e comerciais convenceram as pessoas de que a saúde se encontra metida em caixinhas e frasquinhos, originando uma autêntica obsessão pelos remédios, não só por parte dos doentes mas também dos médicos. Várias vezes tenho lembrado que há medicamentos úteis, muito úteis e indispensáveis, alguns deles quase “milagrosos”. Outros há que são inúteis, sem qualquer eficácia, por vezes prejudiciais, potencialmente perigosos, cujo lugar deveria ser o lixo. Mas, potencialmente mais perigosos que estes remédios inúteis são os bons remédios, os remédios eficazes, quando prescritos por rotina, sem precisão diagnóstica ou terapêutica, com desconhecimento dos efeitos adversos, das contra-indicações e interacções medicamentosas. A minha experiência tem-me demonstrado que estas receitas “à balda”, sem critério nem critérios, feitas de forma inconsciente, são responsáveis por inúmeras e temíveis consequências, constituindo actos que deveriam pertencer à esfera do crime.
As doenças produzidas pelos remédios e por outros processos de tratamento, criadas pelos médicos e inventadas pelos meios de diagnóstico, são mais do que muitas. São as chamadas doenças iatrogénicas, e constituem um grande capítulo da medicina. Provavelmente dos menos divulgados e investigados, já que colide com poderosos interesses. Daí, a minha convicção, já antiga, de que a saúde não é, muitas vezes, um fim mas um pretexto para atingir outros fins.

    (adao cruz)

(adao cruz)

Mais uma pérola ministerial

Segundo o Jornal Digital:

Os resultados da prova nacional do 9.º ano do ensino básico, divulgados esta manhã, mostram que houve uma melhoria à disciplina de Matemática e uma descida na Língua Portuguesa. Na opinião de Maria de Lurdes Rodrigues «Isso deve-nos encher de orgulho. É muito positivo e muito bom para o país».

A dúvida agora reside em saber se o “muito positivo e muito bom para o país” é a melhoria, a descida, ou ambas as coisas. Vindo da engenharia social nunca se sabe.

Já uma associação de professores de português se queixa da “quase duplicação das negativas face ao ano passado”. Vê-se mesmo que não sabem o que é muito bom e muito positivo para o país. Ou se calhar vivem noutro. Ou talvez vivamos todos. Nunca se sabe.

Adenda: acabo de descobrir que alguém ouviu a mesma senhora, na Antena 1, dizer mesmo mais:

“”O resultado foi muito positivamente bom.”

Assim fica tudo esclarecido. A descida das notas a Língua Portuguesa foi sem dúvida muito positivamente boa nivelando o país, por baixo, mas o que importa é o princípio da igualdade.

Força pessoal que agora teve negativa: quando forem grandes ainda chegam a ministros.

TSF

NÃO PODERIA DEIXAR DE PUBLICAR ESTE TEXTO DE JOAQUIM JORGE

JM

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A TSF muda editores e estuda nova programação.Todavia substituíram Teresa Dias Mendes , uma voz inconfundível que entrava pelas nossas casas e automóveis nos seus excelentes noticiários durante o dia. Ela foi protagonista de um episódio durante a campanha para as eleições europeias – o conteúdo de uma peça jornalista foi questionado por José Sócrates que não gostou. Essa peça referia-se a questões entre o Primeiro-Ministro e o dirigente da Fenprof , Mário Nogueira . Era aludido que Mário Nogueira estava a ser manipulado ! José Sócrates e Teresa Dias Mendes chegaram a trocar palavras directamente num jantar de campanha depois da pressão feita pelo gabinete de José Sócrates.
A sua substituição não foi imediata , pois dava muito nas vistas. Não convém ter jornalistas que façam oposição e questionem José Sócrates , mais ainda que a TSF tem muita audiência e é uma referência .Quem é afinal fascista ? O Salazar à beira destes senhores é um aprendiz…Maneira encapuçada de fazer pressão e arrumar com alguém que não faz , não diz o que eles querem e questiona o que se passou. Caça às bruxas de uma forma subtil e souplesse . Na altura não se faz nada e na primeira ocasião contorna-se o problema e faz-se um upgrade , assim foi tentado na TVI , mas José Eduardo Moniz é o director da estação , não é um editor . Democratas sim , enquanto ninguém disser mal de nós , de outra forma trata-se de os anular.

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Joaquim Jorge (www.clubedospensadores.blogspot.com)

Adie-se o ‘fracturante’ testamento vital para não incomodar

Mesmo sem o admitir, o PS decidiu seguir as instruções do Presidente da República e adiar, para depois das eleições, um dos tais projectos fracturantes, a lei do “testamento vital”. Assim, a lei que garantia os direitos dos doentes à informação e ao consentimento informado fica adiada para a próxima legislatura.

Simpática como sempre, Maria de Belém Roseira diz que o adiamento não se deve a qualquer medo de um veto presidência mas ao facto de faltarem pareceres. O argumento é bom. De facto, faltam pareceres. Mas devem chegar muito em breve. Logo, o projecto poderia, dentro de dias seguir o seu curso. Na melhor das hipóteses avança depois de Outubro, após a tomada de posse da nova Assembleia da República.

A cerca de três meses das eleições, Cavaco Silva resolveu limitar os poderes do Governo e da Assembleia da República. O árbitro decidiu que o apito era coisa pouca e começou a tentar acertar na bola, primeiro, e a ditar as tácticas, depois. O presidente não quis ser incomodado até às legislativas com projectos e propostas de lei que pudessem maçar uma certa tranquilidade estival. O PS resolveu entrar no jogo. Para evitar chatices.

Depois queixam-se que Portugal é um país de pouca produtividade.

25 segundos de publicidade


a uma ideia fabulosa. Também recomendável a quem tenha telhados de vidro.

link para o vídeo original, encontrado no  9-9

Por terras de Sua Majestade

Apanhei a maior molha da minha vida ontem a noite em Londres no meio de milhares de gajos e gajas jovens, cheios de cerveja e com chapéus de chuva na mão e fechados.
Perdido, andei duas horas as voltas até encontrar o hotel que ninguém conhecia.
Hoje já estou em York depois de passar por Oxford e Straford upon Avon, onde visitei a casa do William.
As miúdas, loiras, são lindíssimas e mais uma vez aconselho todo o pessoal jovem a não se casar sem antes vir ver as loiras cá do norte.
York é uma pequena cidade com alguns belos monumentos e um rio que a atravessa que se chama Ouse. Tem bons restaurantes, incluindo italianos!
Amanhã arranco para Edimburgo e vou dando notícias.
O A 310 portou-se muito bem!
Abraços.

Falando de democracia: Do sonho à realidade

Falemos do sonho e da necessidade do sonho. O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…
Foi numa tarde do Verão Quente de 1975. A uma janela de uma avenida de Lisboa, via passar uma manifestação onde se gritavam palavras de ordem. Ao meu lado estava um democrata que estivera preso e fora perseguido pela polícia política. Antifascista, ex-membro do Partido Comunista, naquela altura mais ligado ao Partido Socialista, mas homem, por aqueles anos setenta, com grande fortuna pessoal e com uma posição importante. Abanou a cabeça e comentou: «- Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! Não foi por isto que eu lutei e fui perseguido». «Isto», eram os gritos de «abaixo a exploração capitalista», e os graffiti que os manifestantes iam deixando pelas paredes da avenida, como um rasto ou como um eco da sua ruidosa passagem – e também as greves, os saneamentos, o Copcon… Não respondi, pois não havia resposta possível, tanto mais que eu, que também tive os meus dissabores durante a ditadura, sempre pensei que um dia as pessoas se poderiam manifestar livremente. Tinha sido mesmo por «aquilo» que eu tinha lutado. Por aqui se vê, como o termo antifascista é vago, impreciso e ilusório. Mas cada um podia, e pode, sonhar o que lhe aprouver.
Luigi Pirandello, o dramaturgo italiano escreveu uma peça a que deu o título Para Cada Um Sua Verdade. De facto, quando antes da Revolução, falávamos da «unidade dos antifascistas», verbalizávamos uma utopia dando corpo a uma ideia que só podia ter viabilidade no curto-prazo – a unidade de que se falava era a da acção contra a ditadura. Mal a ditadura caiu, a ilusão da unidade caiu com ela – os interesses individuais, de classe, as opções políticas, fizeram ruir essa ficção. Para cada um havia uma verdade. A sua verdade.
Aquela explosão popular que encheu as ruas e que significou o fim da guerra colonial, a concessão da independência às colónias, a criação de dezenas de novos partidos, o nascimento de assembleias populares nas empresas, nos bairros, nas escolas, apanhou todos de surpresa. Aquela onda de paixão democrática que, como um tsunami varreu o País de Norte a Sul, surpreendeu todos, apanhando desprevenidos, não só os patrões, como também os democratas e antifascistas que tinham conspirado e lutado contra o regime ditatorial (o sujeito que ao meu lado abanava a cabeça em tom de censura, era um deles); surpreendeu até mesmo os partidos e movimentos que, criados na clandestinidade, tinham como razão da sua existência a crença na força dos trabalhadores e a esperança no advento da democracia. A ilusão da democracia, ganhando as ruas e os corações, excedeu o que a nossa capacidade de sonhar, pudera imaginar. Pensávamos que nada seria como até então. Que tudo ia mudar. Porém, lá veio o 25 de Novembro «repor a normalidade» e, como diz o José Mário Branco em «Eu vim de longe», – Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou…
Passados estes anos, estas décadas, não se imagina sequer o que eram aquelas manifestações espontâneas. O desfile mumificado que comemora o feriado de 25 de Abril, nada tem a ver com as «manifes» de 74 e 75. As «jornadas de luta» organizadas pelas centrais sindicais, obedecendo a interesses corporativos (respeitáveis, em todo o caso) não dão sequer uma pálida ideia do que aconteceu naqueles 21 meses de brasa. As pessoas já não vêm para a rua gritar a sua revolta, a sua esperança e o seu amor à Liberdade. Estão nas suas casas, em frente da televisão e ver telenovelas, concursos tontos, jogos de futebol, ou a assistir ao degradante espectáculo da «democracia real» – políticos fingindo odiar-se, denunciando-se mutuamente de felonias, corrupções… (e com razão na maior parte das vezes) A democracia com que, seguindo o conselho de Lenine, alguns de nós sonhavam, a da solidariedade, a da fraternidade, não tem a mais vaga semelhança com esta «democracia real».
O meu companheiro da varanda no Verão quente já morreu, mas ainda viveu o suficiente para ver cumprido o seu sonho – os administradores a administrar, os corruptos a enriquecer, os trabalhadores a trabalhar, os marginais a aterrorizar, os políticos a politicar… tudo arrumadinho, tal como ele sonhara. Mas agora sou eu quem diz: – e então o meu sonho? – Não foi para isto que se fez a Revolução, não foi por isto que lutei.
Vivemos na ilusão da democracia. A verdadeira (voltemos ao Zé Mário) é um sonho lindo para viver, quando toda a gente assim quiser.
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"Cum Catano"…

Será verdade tudo ISTO???

(lido numa das caixas de comentários do blasfémias)

Para perder o medo do nuclear…

Stanley Kubrick, George C. Scott e Peter Sellers. Muitas bombas nucleares. Que mais se pode pedir num filme?

“You can’t fight here. This is the war room!”

Sabe quantas armas nucleares podem atingir o Porto? E Lisboa?

atmosphere_testing_nuclear_weapons

Porto: 7728 ogivas nucleares. Destas, 2347 são dos EUA, 4568 são da Rússia, 192 são do Reino Unido, 121 da China, 300 de França e 200 de Israel.

Lisboa: 6645. Destas, 1264 dos EUA, 4568 da Rússia, 192 do Reino Unido, 121 da China, 300 da França e 200 de Israel.

A nossa sorte é que nos damos bem com toda esta gente.

Num post anterior, em que apresentava a primeira parte deste título diziam-me para não dar importância a esta questão e que só interessava a primeira, porque as seguintes seriam irrelevantes. Concordo. Não dou demasiada importância a esta matéria e só a primeira é que interessa, porque as restantes seriam, com efeito, irrelevantes.

O espectro nuclear já não paira tão intenso sob as nossas cabeças como num passado que hoje soa longínquo. Mas não deixa de arrepiar a enorme quantidade de armamento nuclear que existe no nosso mundo.

Recentemente, o The Guardian fez um trabalho sobre as ogivas nucleares activas no mundo, a propósito da negociação entre os EUA e a Rússia. Adam Charnock não perdeu tempo e concebeu um algoritmo informático para mostrar as ogivas que estão no raio de alcance de várias cidades do mundo. Nasceu assim o Nukeometer.

Esta é uma matéria que pode não assustar como antigamente, mas que dá que pensar, lá isso dá.

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Poesia hondurenha de anteontem

A semana passada dei uma boas googladelas para perceber o que se passa nas Honduras. Fiquei esclarecido e do lado dos que escrevem:

“Que fique claro de umas vez por todas: não somos nem políticos, nem revolucionários, nem nenhuma outra merda: apenas defendemos a dignidade, que neste momento está do lado de Mel Zelaya.”

Porque é de dignidade que se trata, a dignidade dos que gritam:

El pueblo: Su libertad para decir qué putas quiere

Dessas voltas guardei os feeds de algumas páginas de poetas, escritores e fotógrafos hondurenhos, o que me tem oferecido a experiência, fantástica, de os acompanhar durante um período tão complicado  para a vida do seu país.  Um período de sensações fortes, para usar uma expressão fraca, de onde naturalmente brotam palavras e imagens fantásticas.

Ao poeta Fabricio Estrada roubei esta foto e tentei verter para português o poema que aqui vos deixo.

Photo de Fabricio Estrada

Profundidade* das Termópilas

Há uma chuva que se enremoinha lentamente
ameaça e cai por fim
com a força de milhares, intensamente inevitável
todo o peso da transparência
num assobio
que vai ensurdecendo o vento
numa profundidade
que chega
às raízes das sumaúmas**
no percorrer de um rio tumultuoso.

.

Há uma chuva que trespassa a terra
e alimenta
o romper das árvores novas,
de bosques subterrâneos emergindo
de ossos que retomam
a figura primeira de homens e mulheres andando.
.

Há uma chuva
que esborrata os uniformes
encurrala, agita e lava o corpo,
amansa,
ordena,
cobre o céu
para que lutemos
debaixo da sua sombra.

.

Fabricio Estrada, poeta hondurenho,versão minha a partir do poema original publicado na sua Bitacora del Parvulo

*Em castelhano: Hondura
**“A sumaúma (Ceiba pentandra, da família Bombacacea) foi para os índios da América Central a árvore-da-vida.”

Nunca na vida te deixarei sozinho

Um amigo do Aventar, que dá pelo nome de Chico da Tasca, enviou-me um mail dizendo que eu escrevia tanto que até lhe tirava o tempo para foder. Que grande elogio! Deixar de foder para ler os meus posts? Eu não o faria. Post fosse ele! Bem, se o meu amigo deixasse de comer, eu ainda pensaria duas vezes, podia levá-lo a morrer de fome. Agora, deixar de foder? Ele tem muito tempo para foder, eu é que não.
Assim sendo, aqui vai mais um post. Mais uma estorinha verdadeira da Guiné, a que dei o título:

Nunca na vida te deixarei sozinho.

Nunca na vida te deixarei sozinho, disse a Isabel ao seu marido joãozinho, na véspera de meter outro homem na sua cama.
A Isabel não andou na Faculdade, para assim falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres paridas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, o torvelinho das tonturas do Joãozinho.
Joãozinho, servente da messe, sabia a mulher que tinha e todo se babava quando a gente dizia que ela era mais linda que surucucu empinada, mais pura que fruto de cajú. Todo ele era uma viagem por dentro da Isabel, adivinhando-lhe o mundo no contar das coisas. Manhã levantada era sol de todo o dia, noite deitada era sonho que não morria.
Um dia…
Encontrava-me eu frente à palhota da Isabel, limpando com uma compressa embebida em permanganato de potássio, as feridas do dorso das vacas, verdadeiros buracos abertos pelos estilhaços das granadas e pelos pássaros pica-sangue, impiedoso tormento dos animais, quando ouvi atrás de mim uma voz de asas, leve de tempo onde não havia destino, medida por lonjuras de sonho.
– Sr. Doutor, Sr. Doutor.
Do peito me nasceu um soluço que só anos mais tarde se escapou.
-Olá Isabel, que bela surpresa!
– Doutor, tenho galinha que consegui arranjar e vou fazer frango à cafreal para Doutor e nosso Capitão.
– Isabel, tu és um anjo, e nosso capitão, todo católico, vai pensar que é dádiva do céu, quando eu lhe contar.
Todos somos fingimento quando o sangue não se entorna no desaconchego da solidão. O provisório serve o regresso da alma, o fogo de outros calores invade os olhos através de janelas que há muito se não abriam. O capitão não mediu a fome nem a galinha, esqueceu a comunhão do Padre Gama, sonhou o despir da Isabel até à nudez pecaminosa e espetou os olhos no cair da noite.
Ao cair da noite, lá fomos os dois à palhota da Isabel, enquanto o Joãozinho lavava a loiça na messe. A Isabel estava no último acto da confecção do delicioso cafreal da tabanca. Primeiramente refogado, apenas em sumo de limão e piri-piri, depois grelhado na brasa e em seguida frito com cebola.
Notei que os olhos do capitão se cruzavam constantemente com os meus, não na galinha mas nas ancas da Isabel. Seguiam a luz sensual do petromax, que penetrava abusivamente na malha de tule até às roupas que vinham de dentro. Senhora de reflexos e de encontros, Isabel não prestava menos atenção à sedução do que à galinha.
-Doutor, nosso Capitão, tenho gira-disco e morna, mim dançar para doutor e nosso capitão.
Não nos empenhámos em perceber como é que uma pequena caixa e um disco de madeira giravam música. O esvoaçar do tule era o centro do mundo, o arder da fogueira de todo o nosso frio. Toda a força daquele colo maternal, toda a ternura da silhueta envolta em cabelos penosamente desfrisados durante longos anos, toda a firmeza das carnes subtis, todo o trigo desse abrigo adormecido, toda a tempestade recolhida nesse pedaço de noite tombaram sobre nós quando a Isabel iniciou o sreep-tease.
Não me lembro do sabor da galinha. Recordo apenas uma espécie de vento fustigando as entranhas, reduzindo-me a um calção e uma camisa, ardendo dentro de mim com sabor a cinza.
Olhámos um para o outro, sorrimos, assumindo o que sempre estivera assumido, antes de darmos ao espírito a momentânea liberdade de um passeio pelo sonho que morre ao pé dos coqueiros.
Aconteceu nessa noite ou na noite seguinte. O Joãozinho entrou em casa e deu com alguém a fugir da cama da Isabel. Pobre do Joãozinho, sofreu mais com a sova que deu na mulher do que com a traição. Sofreu mais pelo avesso do que ela dissera na véspera, nunca na vida te deixarei sozinho, do que em todas as noites que passara enterrado na bolanha à espera de turra.
Doeu muito mais do que picada de escorpião.
Isabel apresentou queixa no Chefe de Posto. Argumentava e provava com as equimoses dificilmente visíveis na sua pele de negra. Dolorosas como as equimoses em pele de branca. Afastara bondades de Joãozinho, denegrindo sua violência, grande de mais para coisa de momento. Não ser vontade de ela mas força de imaginação que vem de dentro. Destino de todo fogo que acende rápido.
Foi constituído o tribunal. Perante o Chefe de Posto, Capitão e eu, compareceram queixosa e réu. O Joãozinho estava disposto a perdoar, a despeito de um sonoro desabafo, bengala de toda a sua alma, letra de toda a sua filosofia, resguardo de toda a sua defesa.
– Boca de ela ser boca de mim, olho de ela ser olho de eu ver, dor de ela corpo de mim qui dói, vida de ela valer morte de mim, mim ca pude pensar que Zabel durme cum gajo na cama de mim, dibaxo di memo tecto…inda si foi sinhô dôtô ou nosso capeton…!

    Nunca na vida te deixarei sozinho  (adao Cruz)

Nunca na vida te deixarei sozinho (adao Cruz)

Lezíria – ponte sem carros e aborto ambiental*


A ponte pura e simplesmente não tem tráfego. Se tráfego é haver carros em movimento para este e aquele sentido, então esta ponte é mais um hino ao desperdício.

Fui lá uma primeira vez para a ver. Quatro/cinco carros nos dois sentidos. Pensei que a população ainda não estava feita àquela ponte e que seria uma questão de tempo. Nada! Tenho um amigo que mora por ali perto e que me diz que é a melhor ponte do mundo, passa por lá e nunca parou uma vez que fosse.

Não tem carros! Uma ponte sem carros. A TVI hoje veio confirmar mais este maravilhoso exemplo do investimento público, exemplo de rentabilidade e utilização.

Na altura houve muita gente que torceu o nariz, mas a máquina montada e ávida de obras de betão, poderoso lobby que nos há-de “enterrar” a todos, ganhou mais uma vez. Tal como agora, é preciso é avançar, fazer circular dinheiro, postos de trabalho, arrastamento de actividades a montante, blá, blá, blá…

Mas claro que agora passam à frente, ninguem foi, ninguem viu, ninguem é responsável!

É preciso acabar de vez com estas obras públicas não necessárias, que não provam no exame do custo/benefício, que só servem para alimentar o “monstro” insaciável” das grandes empresas de construção civil.

Para além disso está construída sobre uma magnífica planície, prenhe de verde, sobre as melhoras terras de agricultura do país. Aquela ponte é uma vergonha para quem a construiu, tal é o impacto visual e sonoro naquela paisagem de sonho.

* directamente da Escócia

UMA GRIPE COMO AS OUTRAS

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PANDEMIA / LUCRO
. Vivemos uma altura das nossas vidas em que o lucro, os ganhos de dinheiro, os interesses económicos, e a publicitação do que interessa a alguns, nos comandam.
Por trás do medo induzido, por trás das doenças, movem-se interesses de tal modo grandes, que se torna difícil pensar que a vida que nos impõem possa ser diferente.
Desapareceram a crise económica mundial, a crise económica nacional (a crise de valores, da educação, do desemprego, da fome, etc.), a crise petrolífera e outras crises, quando apareceu a crise da Gripe dos porcos, que se convencionou chamar de A.
Esquecemo-nos dos milhares de pessoas, milhões até, que morrem diariamente, por esse mundo fora, vítimas de diarreia, malária, sarampo, pneumonia, fome e outras doenças. Para estas mortes desaparecerem em grande parte, bastaria que o mundo (OMS) se lembrasse de ministrar soro, ou/e vacinas baratas, e de alimentar minimamente esses desgraçados. Mas como vivem na sua maioria em África, e África não tem dinheiro para pagar, o melhor é nem nos lembrarmos disso.
Raramente se fala destes milhões de pessoas, que a solidariedade mundial poderia salvar com pequenos custos.
Mas fala-se, diariamente, em todos os noticiários das doenças da moda. Começaram, anos atrás, com a gripes das aves. Os jornais e televisões mundiais inundaram-nos de notícias, e de sinais de alarme. Era uma epidemia, a pior de todas! Movimentos mundiais, com custos elevadíssimos, trataram os doentes. Milhares de vacinas foram produzidas. Morreram 250 pessoas em todo o mundo no espaço de dez anos.
Agora diariamente fala-se da gripe dos porcos. Os produtores do Tamiflú, não têm mãos a medir para produzir o medicamento. Há milhares de infectados e meia dúzia de mortes. Os governos fazem encomendas de milhões de doses de uma nova vacina, a criar até ao fim deste ano, e a distribuir pela população. Agora já não temos uma epidemia, temos uma pandemia. Coisa horrorosa, e o pânico instala-se mundialmente, afectando toda a gente, com a economia a sofrer novo abalo. Só as farmacêuticas e os intermediários prosperam. Obtiveram e obtêm, com estas crises, as gripes das aves e a dos porcos, biliões de euros de lucros.
Enquanto o soro, as vacinas e a comida necessária para suster as mortes em África, provocadas pela a malária, a diarreia, o sarampo, a fome, etc., custariam uns milhões de euros e evitariam milhões e milhões de mortes, estes tratamentos e vacinas para estas novas gripes, custam milhares de biliões de euros, para tratar e evitar a morte a alguns milhares de pessoas.
E a gripe normal? A que nos afecta todos os anos, e que mata em todo o mundo meio milhão de pessoas por ano? Porque não tem o mesmo tratamento que estas duas, agora bem mediáticas? Será porque as farmacêuticas ganham pouco, ou mesmo muito pouco, com isso?
E o mediatismo das coisas está a ser aproveitado por toda a gente, governos inclusivé (e se calhar até, principalmente), para mostrar ao povo o quanto se importam e incomodam com as suas populações. E gastam o dinheiro dos contribuintes para que todos os vejam, assim, incomodados.
Em Portugal não é diferente. Diariamente a Ministra vem mostrar-se e dizer-nos o quanto de bem estão a fazer pela população, e dar-nos conta dos infectados com a gripe A. Não se fala de mais nada, nada mais existe no nosso país, digno de ser falado e mostrado. A histeria está instalada. Já se fala em encerrar escolas, creches e empresas, faltando falar na proíbição de comícios e encontros esclarecedores nas próximas campanhas eleitorais. As eleições estão próximas, o partido do governo está na mó de baixo e é preciso adormecer o povo. Esta doença é uma benesse para o nosso Primeiro, sendo mais uma ajuda para fazer esquecer os outros males.
As prevenções que se estão a tomar para o tratamento e prevenção da gripe A são mais que necessárias. Mas se esta gripe é assim tão terrível, como se anuncia por esse todo, porque é que a OMS não a declara um problema de saúde pública mundial e não se autoriza a fabricação de medicamentos genéricos para que seja combatida a mais baixo preço, e possam ser distribuídos pelas populações mais pobres, gratuitamente?
Quem ganha com isto tudo? Quem ganha com o pânico mundial, a não ser as farmacêuticas que detêm as patentes do Tamiflú, e os intermediários que o comercializam?
Vistas bem as coisas, a gripe A, é uma gripe como qualquer outra, aproveitada para gerar lucros cujos valores são obscenos.

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Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (I)

Portugal é independente «de facto» desde 1128 (batalha de São Mamede) e «de jure», desde 1143 (Conferência de Zamora). Espanha existe «de facto» desde 1469, quando Isabel de Castela e Leão casou com Fernando de Aragão. Os dois reinos continuaram a existir, com seus foros, privilégios e costumes, mas uma coroa dual passou a ser posta na mesma cabeça a partir de Carlos I. «De jure», Espanha existe «de jure» desde 1812, quando as Cortes de Cádis reconheceram a unidade territorial do estado espanhol e a plasmaram na Constituição. Os reis Católicos começaram a chamar Espanha ao conjunto dos territórios abrangidos pelas duas coroas e D. João II terá escrito aos primos protestando por terem usado o nome da Península para designar uma parte dela. Isto foi-me afirmado pelo meu amigo Ricardo Martin, professor da Universidade de Barcelona. Porém nunca consegui localizar a tal carta. Nem ele.
«Hablad de castellanos y portugueses, porque españoles somos todos!», terá dito Camões. Abro parêntesis – conheço razoavelmente a obra do Luís Vaz. Como todos os da minha geração, usei «Os Lusíadas» para aprender a dividir orações. Na adolescência, li com paixão a sua poesia lírica da qual depois, já com olhos de adulto, apreciei a grandeza. Conheço-lhe os autos. Esta frase, não a encontrei em parte alguma. O que não significa que não exista e se existe é apenas mais uma confirmação da gigantesca enciclopédia do conhecimento que se faria com aquilo que desconheço. Há semanas, circulou uma carta apócrifa da Clara Ferreira Alves atacando Mário Soares, carta que teria publicado no Expresso, mas cuja autoria ela desmentiu. Suponhamos, suponhamos só, que a carta do Príncipe Perfeito, de que me falou o Ricardo Martin, e que a frase do Luís, também nunca existiram. Como é que as criaturas podem vir repor a verdade? A frase viaja pela blogosfera em velocidade de cruzeiro e em castelhano (todos sabemos que Camões era bilingue, como quase todos os poetas da época). Apesar das dúvidas, vou partir do princípio que não se trata de apocrifia. Porque somos, de facto, tão espanhóis como castelhanos, catalães ou galegos. Afinal, «espanhol» é sinónimo de «ibérico».
Volto a este temática porque, segundo pude verificar, está a ser muito agitada, com sites e blogs específicos, onde se trocam opiniões (e alguns insultos). Como vos confessei, há muito tempo atrás fui iberista convicto. Com amigos portugueses, catalães, maiorquinos, um castelhano e alguns latino-americanos, fiz parte de um Centro de Cultura Íbero-Americano. Para nós, peninsulares, amordaçados pelas ditaduras de Franco e de Salazar, a Federação Ibérica, composta pelas cinco nacionalidades existentes na Península, seria uma forma de atingir a democracia. Era uma ingenuidade, porque não estou a ver os ditadores a abandonar as suas cadeiras e a dizer – Façam favor de constituir a vossa Federação. Mas era de uma Federação que falávamos – Países Catalães (Catalunha, Aragão e Baleares), País Basco, Espanha (com o remanescente do território não autonomizado), Galiza e Portugal. A capital sairia de Madrid. O estado seria uma República.
O que eu vejo hoje defender não é nada de semelhante, não se trata de uma federação de cinco estados, nem sequer da união dos dois existentes – trata-se da integração pura e simples de Portugal no estado espanhol, com o estatuto autonómico das demais regiões. Isto não é iberismo, nem união – chama-se anexionismo. Só o meu respeito pelas pessoas que defendem ideia tão disparatada, me impede de as qualificar. Porque além de toda a aberração que constitui tal ideia, do ponto de vista economicista que me parece constituir a parte mais visível da ideia – em Espanha paga-se melhor, a ideia da união ibérica é, nas actuais circunstâncias uma «ideia absurda» (e isto foi Cavaco Silva quem afirmou – não costumo estar de acordo com o que ele diz, mas não há regra sem excepção – esta cavaquiana afirmação é o mínimo que posso citar, num grande esforço de contenção, pois tenho palavras mais vicentinas a ocorrerem-me em catadupa). Sermos absorvidos por Espanha seria, para além dos aspectos que mais me interessam, entrarmos numa jangada que se está a desfazer. Espanha é um estado sem futuro, com uma forma arcaica e kitsch de chefia. Se Catalães, Bascos, Galegos querem ou não sair, é algo em que não nos podemos deter muito tempo. Diria que, na Catalunha, por exemplo, existem patriotas exaltados, monárquicos e republicanos, que não admitem a ideia de estar integrados e outros que entendem que o processo de integração não pode ser revertido. Uma grande parte dos Catalães tem origem noutras regiões, em imigrantes andaluzes principalmente. Pois, encontrei jovens, andaluzes de segunda ou terceira geração, que são catalanistas ferrenhos, profundamente imbuídos do ideal independentista. No País Basco, nem preciso de falar, todos sabemos o que se passa. Na Galiza, as correntes separatistas são menos visíveis, embora existam e se manifestem.
Pessoas que gostavam de «ser espanholas» por que «é bonito ter um rei», ou porque os ordenados são melhores e os espanhóis vivem materialmente melhor do que nós (o que, em termos médios, é inegável), não se deviam esquecer de que Espanha tem uma taxa de desemprego das mais elevadas da União Europeia. Por outro lado, muito do «esplendor» da economia espanhola é feito de multinacionais que instalaram as suas centrais para a Península em Barcelona ou em Madrid – são empresas americanas, alemãs, francesas, britânicas… Os «capatazes» ou executivos (que enxameiam os nossos hotéis) são castelhanos, catalães, galegos… e ajudam a criar a ilusão de que é a Espanha que está a tomar conta da nossa economia (como se tal coisa existisse…). Parte dos defensores da anexação, em grande maioria, iriam engrossar as fileiras do exército de «parados». Se querem deixar de ser independentes, porque não sugerem uma união (ou mesmo uma venda) à Suécia? Os suecos ganham muito melhor do que os espanhóis, há menos desemprego… E, já agora, também têm um rei e a rainha Sílvia até fala muito bem o português.
Sempre houve e continua a haver, por esse mundo fora, pessoas a morrer para que os seus países se tornem independentes. São «pobres idealistas». Entre nós há gente «realista» e com «sentido prático» disposta a vender uma Nação com nove séculos por um prato de lentilhas, que é como quem diz por meia dúzia de euros. Não vou qualificar estas pessoas nascidas no nosso País (mas que pelos vistos não o amam). Nem voltarei a este tema porque, além de ser repugnante, ouvi dizer que há fantasmas que, de tanto falarmos neles, se materializam.

Onde escreves os teus comentários, Chico da Tasca?

Apetece-me…

Texto que me foi enviado

Verdadeiramente Impressionante!!!

Depois de passar os olhos por este pacote de coincidências, pode-se de certeza concluir que a ilha da Madeira encontra-se completamente (do)minada…

Calma!…
Vejamos. (vale a pena ler até ao fim!) :

Alberto João Jardim – Presidente do Governo Regional
Filha – Andreia Jardim – Chefe de gabinete do vice-presidente do Governo Regional
João Cunha e Silva – vice-presidente do governo Regional
Mulher – Filipa Cunha e Silva – é assessora na Secretaria Regional do Plano e Finanças
Maurício Pereira (filho de Carlos Pereira, presidente do Marítimo) assessor da assessora
Nuno Teixeira (filho de Gilberto Teixeira, ex. Conselheiro da Secretaria Regional) é assessor do assessor da assessora
Brazão de Castro – Secretário regional dos Recursos Humanos
Filha 1 – Patrícia – Serviços de Segurança Social
Filha 2 – Raquel – Serviços de Turismo
Conceição Estudante – Secretária regional do Turismo e Transportes
Marido – Carlos Estudante – Presidente do Instituto de Gestão de Fundos Comunitários
Filha – Sara Relvas – Directora Regional da Formação Profissional
Francisco Fernandes – Secretário regional da Educação
Irmão – Sidónio Fernandes – Presidente do Conselho de administração do Instituto do Emprego
Mulher – Directora!!! do pavilhão de Basket do qual o marido é dirigente
Jaime Ramos – Líder parlamentar do PSD/Madeira
Filho – Jaime Filipe Ramos – vice-presidente do pai
Vergílio Pereira – Ex. Presidente da C.M.Funchal
Filho – Bruno Pereira – vice-presidente da C.M.Funchal, depois de ter sido director-geral!!!! do Governo Regional
Nora – Cláudia Pereira – “trabalha” (…!!!!!) na ANAM empresa que gere os aeroportos da Madeira
Carlos Catanho José – Presidente do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira
Irmão – Leonardo Catanho – director Regional de Informática (nem sabia que havia este cargo)
Rui Adriano – Presidente do Conselho de administração da Sociedade de Desenvolvimento (?!!!!!) do Norte e antigo membro do Governo Regional
Filho – (????…) – Director do Parque Temático da Madeira
João Dantas – Presidente da Assembleia Municipal do Funchal, administrador da Electricidade da Madeira e ex. presidente da C.M.Funchal
Filha – Patrícia – presidente do Centro de Empresas e Inovação da Madeira
Genro (marido da Patrícia) – Raul Caíres – presidente da Madeira Tecnopólio (alguém sabe o que isto é?!)
Irmão – Luís Dantas – chefe de Gabinete de Alberto João Jardim
Filha de Luís Dantas – Cristina Dantas – Directora dos serviços Jurídicos da Electricidade da Madeira (em que o tio João Dantas é administrador)
João Freitas, marido de Cristina Dantas director da Loja do Cidadão
E a lista continua…….

Agora cantem lá com a letra do fado: – tudo isto existe, tudo isto é triste …

Coimbra é uma lição…*

O prédio estava há venda há anos e ninguem lhe pegava. O preço resulta da oferta e da procura no mercado e o prédio, “aquele prédio”, não tinha procura. O preço baixou e com isso encontrou procura, que procurou e comprou. Nessa tarde vendeu-o por um milhão de contos acima. Ganhou um milhão de contos!

Até aqui tudo bem. O mercado é assim, o problema é que há gente “pública” no processo e pode ter “evitado” a procura” e “incentivá-la” segundo os interesses privados. E parece que há comissões e “comilões” que estão descritos numa agenda de um tipo esperto que se lembrou de escrever algo de muito suspeito.

Gente do PSD e do PS, gestores públicos dos CTT e até o Presidente da Câmara aparece ao barulho. Muito dinheiro a saltar “vivo” em levantamentos e depósitos, com cheques de empreiteiros convertidos em notas.

Cá o pagode ouve e lê isto e percebe porque é que a Justiça está como está. Prescreve no silêncio dos gabinetes, arquiva no pó das gavetas…

Este processo saltou agora, vai ser usado contra o Freeport e contra as pressões de magistrados, numa tentativa de “equilíbrio do terror”. Mas eu já me estou “a cagar” que os senhores importantes descridibilizem a política.

Fumam? A gente leva-lhes lá o tabaco!

* em directo da Escócia.

E você, não tem medo da gripe?

Agora que por todo o lado nos incentivam a lavar as mãos com um zelo nunca antes visto, e nos explicam pacientemente, e com recurso a grafismos detalhados, que somos ignorantes no que respeita à técnica elaborada que essa lavagem exige, parece haver um abismo cada vez maior entre a preocupação daqueles que assumem de forma tão altruísta a tarefa de preocupar-se, e a populaça, que incautamente teima em continuar a ir ao cinema, à praia, a andar de autocarro e a tossir sem lavar as mãos em seguida. Avisam-nos que a pandemia vem a caminho, que em breve chegará em força a Portugal, e é de temer que, num país em que ainda se vêem tantos inspeccionar o conteúdo das narinas em público e escarrar estrepitosamente nas ruas, a coisa possa vir a assumir proporções gigantescas. E apesar de tudo, a vida continua sem sobressaltos maiores do que aqueles que provocam a ubíqua crise e a morte do Michael Jackson. Explicam-nos que as grandes empresas delinearam planos de contingência para superar as baixas quando as houver (por quarentena e não por óbito, tranquilizem-se), e que os carregamentos de tamiflu (aquele que foi produzido em grande escala para uma epidemia que não chegou a concretizar-se) haverão de chegar. E talvez alguém venha a lembrar-se de relançar no mercado essas máscaras de bico de pássaro que os venezianos celebrizaram nos tempos da peste negra, e na qual escondiam especiarias para dissipar o cheiro da morte, já que se acreditava que os vapores traziam a doença. Quando a gripe afinal chegar, e com ela se adensar a nuvem negra da crise, havemos de tomar refúgio na quarentena a que nos condenarão, quietos e silenciosos, cada um na sua toca, e limitaremos todo o contacto com o exterior ao abastecimento que faremos na farmácia e no supermercado, equipados com máscara e ansiosos por chegar a casa e lavar, com escrúpulo, as mãos que tocaram o mundo lá de fora.

José Ferraz Alves – Empreendedorismo Social no Porto (parte I)

A Prof.ª Elisa Ferreira promoveu no dia 25.06.09 uma tertúlia dedicada ao tema do Micro-crédito e do Empreendedorismo Social. Dado que este último conceito é novo, proponho-me aqui deixar alguns elementos para sua melhor caracterização.

O conceito de empreendedorismo social foi criado por Bill Drayton da Fundação Ashoka a partir da sua constatação de que o pensamento inovador e criativo podia ser aplicado na solução de problemas sociais aparentemente irresolúveis. Além da Ashoka, existem várias outras fundações que se dedicam a promover o empreendedorismo social, incluindo a Fundação Skoll fundada por Jeff Skoll (CEO do e-Bay) e a Fundação Schwab para o empreendedorismo social, criada por Klaus Schwab, fundador do Fórum Económico Mundial. Tornou-se até, em 1995, numa disciplina académica em Harvard, e é hoje leccionada em cerca de 30 escolas de gestão nos EUA. Em Portugal, ao nível do ensino superior, existem cursos na Universidade de Évora, Escola Superior de Educação da Guarda, Universidade da Beira Interior e acompanhamentos em papers pela Universidade do Porto e Nova de Lisboa.

Começo por uma pequena história:

“Cristóbal Colón é um psiquiatra catalão que trabalha num hospital psiquiátrico em Girona. Nas décadas de 70 e 80, o tratamento preferido nos estabelecimentos psiquiátricos era a terapia ocupacional. O Dr. Colón foi encarregado de um programa que consistia em estipular tarefas aos pacientes para os manter ocupados, como fazer cinzeiros de cerâmica, marcadores de livros e outras pequenezas que as crianças de 5 anos levam para casa como frutos das aulas de artes ou colónias de férias. Não há mercado para esses bens e, na verdade, apenas as mães lhes dão valor.

Enquanto a maioria das pessoas teria concordado com essa abordagem, como a forma adequada de tratamento de pessoas com deficiências mentais, Colón ficava cada vez mais frustrado com a actividade inexpressiva dos pacientes. Percebeu que a única coisa que lhes ofereceria sentido de um propósito às suas vidas seria um trabalho a sério numa empresa real que produzisse algo que os consumidores quisessem realmente comprar. Em 1982 decidiu criar uma empresa de lacticínios. Mas precisava de capital e por isso visitou um banco para pedir um empréstimo. Agora, imagine-se o que terá pensado o gerente de balcão de um banco, em que um médico psiquiatra aparece a pedir dinheiro emprestado para iniciar uma empresa que lacticínios que empregaria, em grande parte, doentes mentais…

Sem se deixar desanimar, conseguiu o que queria. Actualmente:

  • – A sua quinta e fábrica, La Fageda, são negócios prósperos que ocupam o terceiro lugar em termos de participação no mercado de iogurtes da Catalunha, perdendo apenas para a Danone e Nestlé.
  • – É uma empresa auto-sustentável, dependente de si própria que paga bem aos seus funcionários que podem optar por viver na própria fábrica, o que muitos acabam fazendo.
  • – Trabalha junto ao sector público, que envia pacientes psiquiátricos para a Empresa para receberem formação, estágio e emprego e, eventualmente, reincorporação na sociedade.
  • – Tem uma equipa de profissionais de saúde mental, oferecendo apoio constante aos seus trabalhadores.
  • – Está certificada pelo Ministério de Agricultura Espanha como quinta de lacticínios.

As pessoas compram os produtos da La Fageda porque são realmente saborosos, não por caridade. A maioria dos seus clientes tem total desconhecimento de que os doentes mentais são responsáveis pela fabricação dos produtos que consomem. Enquanto isso, os doentes mentais não são mais vistos como pacientes, ganham a vida contribuindo para uma das principais empresas de lacticínios do seu país e sentem orgulho por isso.

A La Fageda é uma empresa com fins lucrativos, mas não é um negócio que maximize os lucros. O seu objectivo é a transformação social e o seu lucro é usado como um meio para atingir esse fim. Trabalhar com doentes mentais é o principal negócio da La Fageda. Não é uma ideia tardia de relações públicas ou parte das actividades de responsabilidade social da Empresa. Embora ofereça um serviço de saúde pública ao apoiar doentes mentais – uma tarefa geralmente delegada ao Governo – não é uma organização governamental e não é uma instituição de caridade, o que a tornaria dependente de doações e da filantropia.”

Antes de dizer o que é empreendedorismo social, vou, inicialmente, explicar o que não é empreendedorismo social:

  • – O empreendedorismo social não é responsabilidade social empresarial, pois esta supõe um conjunto organizado e devidamente planeado de acções internas e externas, e uma definição centrada na missão e actividade da empresa, antes de atender às necessidades da comunidade.
  • – Não é uma profissão, pois não é legalmente constituída, não havendo formação universitária ou técnica, nem conselho regulador e código de ética profissional legalizado.
  • – Não é também uma organização social que produz e gera receitas, a partir da venda de produtos e serviços.
  • – E, muito menos, é representado por um empresário que investe no campo social, o que está mais próximo da responsabilidade empresarial, ou, quando muito, da filantropia e da caridade empresarial, que já se mostraram inadequadas, não somente para os ajudados, mas também para os negócios e para a sociedade, pois a solidariedade produz um tipo de ajuda que é assistencialista.

Então, em palavras simples, o que é o empreendedorismo social? Trata-se, antes de tudo, de uma acção inovad
or
a voltada para o campo social, cujo processo se inicia com a observação de determinada situação-problema local, para a qual se procura, em seguida, elaborar uma alternativa para o enfrentar. Observa-se, também que essa ideia tem de apresentar algumas características fundamentais, tais como:

  • 1.º) ser inovadora;
  • 2.º) ser realizável;
  • 3.º) ser auto-sustentável;
  • 4.º) envolver várias pessoas e segmentos da sociedade, principalmente a população atendida;
  • 5.º) provocar impacto social e permitir que seus resultados possam ser avaliados.

Os passos seguintes são:

  • 1.º) colocar essa ideia em prática,
  • 2.º) institucionalizar e gerar um momento de maturação até que seja possível a sua multiplicação por outras localidades, criando, assim, um processo de rede de atendimento ou de franquia social, até se tornar política pública.

Afinal Elisa Ferreira fica. E Sócrates?

Sábado, 11 de Julho. Mais uma conferência de imprensa para dizer mais do mesmo. Elisa Ferreira afinal tem uma agenda própria de campanha, mas baseada nas suas próprias trapalhadas.
A candidata do PS consegue marcar a agenda politica com a sua própria insegurança e com as suas fragilidades. E como se não bastassem os erros de comunicação e estratégia que tem evidenciado, arrasta hoje o Secretário Geral do PS para o buraco que tem sido a sua candidatura. A partir de hoje o resultado que Elisa Ferreira obtiver é da exclusiva responsabilidade de José Sócrates. In JN “Elisa Ferreira reafirmou a intenção de manter a candidatura à Câmara do Porto até ao fim, depois de ter recebido de José Sócrates a garantia de “apoio total” e de confiança política”.
Toda a campanha, que está no terreno, de Elisa Ferreira será da responsabilidade de Sócrates. O ainda primeiro ministro também será julgado pela opção que fez em manter uma candidata a uma câmara depois de ter sido candidata ao Parlamento Europeu. Não basta apregoar bons princípios, é necessário praticá-los… em relação a todos os candidatos e não só a alguns.
Elisa Ferreira já estava frágil, mas a partir de hoje associa José Sócrates à derrota mais que evidente da candidata socialista.
No Porto, a proximidade das eleições legislativas com as eleições autárquicas, provocará um efeito de arrastamento, com uma clara perda de votos para o Partido Socialista.
A conjuntura não está nada fácil para o PS.

Elisa Ferreira continua na corrida ao Porto, o PS nem por isso

Elisa Ferreira mantém-se na corrida à Câmara do Porto. Faz bem. Sempre passa mais umas semanas em Portugal, antes de regressar a Bruxelas.

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Elisa começou por prometer, até desatar a cometer erros importantes, como o de “ir a Bruxelas dar o nome”. O Porto não costuma perdoar a quem se envolve noutras aventuras. Fernando Gomes que o diga.

Depois deste deslize, Elisa ainda cometeu outros, como as verbas do PS para a reabilitação dos bairros sociais, por exemplo. Mas este é um lapso e não passaria de um ‘fait-divers’ se não fosse o PS Porto a estar na rectaguarda da candidata. E a alimentar estas estórias.

O PS Porto tem feito um esforço significativo para não ajudar a cidade e os seus representantes. Não se sabe muito bem, aliás, onde andou o PS Porto nos últimos quatro anos. Muito menos se sabe o que andam a fazer agora. Ou não andam.

Assim, Elisa prepara-se para uma derrota pessada. E será apontada como a responsável por ela. A única responsável. Talvez com Sócrates como co-autor. Os dirigentes do PS Porto lá continuarão. Afinal, não foi e não é nada com eles.

Novas Oportunidades: aprender compensa, a fraude também

Os processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) constam, na prática, na produção pelo candidato de um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA), onde irá reunir trabalhos sobre algumas dezenas de temas (isto para obter um diploma do ensino secundário).

Esses trabalhos são “orientados” por uma equipa técnico pedagógica, mas feitos em casa.

Só numa página de anúncios classificados a pesquisa por RVCC devolve-nos 137 resultados, desde o “Posso ajudar-te a realizar os teus trabalhos manda mail.” ao “RVCC e EFA com qualidade e a baixo preço! Contacte-me!

Há de tudo, ou estavam à espera de quê com tanto candidato a professor no desemprego, incluindo bastantes que acabaram o contrato no CNO onde aprenderam o ofício?

Não sei se isto é exactamente ilegal. O anúncio acima remete-nos para a página de uma psicóloga devidamente identificada, mas na maior parte dos casos os trabalhos são enviados por mail, a troco de uma transferência bancária. E sei que as autoridades competentes sabem, limitando-se a responsabilizar as equipas dos Centros Novas Oportunidades pela autenticidade dos trabalhos apresentados.

Dessas equipas já sei outras coisas, das metas que estão obrigadas a cumprir,ao tempo que têm para o fazer. Mas essa conversa fica para uma próxima. Deixo-vos  com esta pérola ministerial:

Respondendo às críticas de facilitismo do Novas Oportunidades, a ministra assinalou que “o testemunho” dos beneficiários, dos técnicos e dos avaliadores externos “rejeita essa hipótese”.

Falando de democracia: A questão do islamismo e de outros integrismos

A crença islâmica é a mais recente das três religiões de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo. São três religiões irmãs, baseadas em princípios muito semelhantes, embora a organização do Corão, dividido em 114 capítulos («suras») seja diferente da que orienta quer a Bíblia cristã, quer a Torah hebraica. A primeira perplexidade de um ateu convicto como me prezo de ser, imune até mesmo à prova ontológica da existência de um Ser Supremo como a que Santo Anselmo tão laboriosamente teceu, é a seguinte – como pode haver, desde há séculos, tanto ódio entre três crenças, basicamente tão semelhantes, como puderam os príncipes das três religiões não ter feito um acordo, estabelecido uma plataforma ecuménica, baseada no que é comum (que me parece ser tanto) e secundarizando o que é específico de cada uma delas, que é mais litúrgico do que essencial? Não me vou envolver na análise teológica, por diversas razões, mas principalmente porque é matéria na qual sou profunda e voluntariamente ignorante (razão de peso, não acham?). E cuja essência não me interessa minimamente. O tema só me interessa pelas repercussões históricas, sociais e políticas que assume desde, pelo menos, a época das Cruzadas. Para nos entendermos: neste texto, vou usar o termo «islamitas» para designar os crentes no Islão e de «islamistas» quando me referir aos activistas dos grupos islâmicos (vulgo «terroristas islâmicos»). Roger Garaudy, no seu livro Religiões em Guerra – O debate do século, usa o termo «islamismo» para definir o conceito de fundamentalismo ou integrismo do Islão.
Sou um admirador devoto da obra do grande Omar Khayyam, um poeta nascido no actual Irão, no distante século XI. Alguns dos seus maravilhosos rubayat são dedicados ao vinho e ao prazer de beber (Fernando Pessoa, inspirou-se neles para escrever as suas «Canções de Beber»). Rubayat, plural de rubai, constitui uma forma particular de poesia, com uma métrica quantitativa específica. A poesia popular do Irão continua a respeitar os cânones do rubai. Omar Khayyam era crente no Islão. Como conciliava essa crença com o gosto pela bebida, sabendo-se que o Corão proíbe o consumo de álcool. Segundo também me disse um entendido nessas matérias, o profeta apenas pôs reticências ao vinho de tâmara. Tal como aconteceu com a Bíblia, em que os teólogos ligados ao aparelho da Igreja, manipularam os textos e os moldaram às suas seculares conveniências – o Concílio de Trento terá sido um festival de ajustamentos dos textos sagrados à práxis de Roma – Não se terá passado o mesmo com o Corão? Os islamistas encontram no seu livro sagrado todas as justificações para o seu integrismo e para a sua acção fanática. Há mil anos, quando uma grande parte da bacia do Mediterrâneo estava submetida ao Islão, a tolerância era muito maior. E o esplendor cultural muçulmano, também.
Nessa altura, foi o integrismo cristão que espalhou o terror entre os muçulmanos, com base em princípios religiosos de duvidosa limpidez. Como é possível, pelo menos aparentemente e para quem, como eu, quase nada sabe sobre religiões, que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais moderna por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois. A nós, ocidentais, a visão do mundo revelada pelos islamitas é semelhante à da nossa Idade Média. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido?
Como disse, não sou adepto nem defensor do terrorismo para resolver questões políticas. Não aceito a violência sobre pessoas inocentes (embora quem defende esse tipo de intervenção política afirme que «ninguém é inocente», o que constitui uma inaceitável falácia), venha essa violência da ETA ou dos grupos islamistas. No entanto, esse tipo de acção deve ser devidamente contextualizado. Podemos não aceitar, mas temos obrigação de compreender. Os Estados Unidos praticam o mais odioso dos terrorismos, arvorando-se em polícia do Mundo, arrogam-se o direito de ir destruir uma ditadura no Iraque, deixando, no entanto, florescer outras ditaduras ou «democracias musculadas», inclusivamente no seu continente. Pelos vistos, para a Casa Branca há «boas ditaduras» e «más ditaduras». O Irão não tem o direito de ter armas nucleares, mas o minúsculo e artificial estado de Israel, inventado pela inépcia da diplomacia britânica, tem esse direito – a França, a Grã-Bretanha, a Índia, podem ter armamento nuclear – a Coreia do Norte, não. Isto cabe dentro de alguma cabeça normal? Ainda nós falamos das arbitragens do nosso futebol!
Não seria muito mais aceitável que os Estados Unidos usassem o seu imenso poderio para acabar de uma vez por todas com um tipo de armas que já se viu ser de consequências incontroláveis e que pode, inclusive, conduzir à destruição da vida sobre o planeta?
Vêm estas considerações a propósito da intolerância islâmica e do fanatismo dos islamistas. O terrorismo é uma espécie de bomba atómica dos pobres. É criminoso e mata inocentes? Claro que é criminoso e mata inocentes. E as trezentas mil pessoas que morreram em Hiroxima e em Nagasáqui eram todas culpadas da arrogância e das ambições imperialistas dos senhores da guerra japoneses? Os muçulmanos têm sido espezinhados, espoliados, humilhados… Cria-se o Estado de Israel em território que tinha donos – os Palestinianos. Estes são acantonados em campos de refugiados. Que povo não ficaria enraivecido? O Sadam Hussein era um ditador? Pois era. Não competiria então aos iraquianos combatê-lo se queriam implantar a democracia? Por que foram os americanos ao Iraque, destruindo as estruturas do poder ditatorial, mas mostrando-se incapazes de as substituir e deixando o país, quando o vierem a abandonar, num estado muito pior do que estava quando o invadiram.
A democracia não se impõe do exterior, o amor por ela nasce no interior das sociedades. Temos, passados todos estes anos sobre a Revolução Francesa, de reconhecer que nem todos os povos querem ser governados de forma democrática. Obrigar africanos e asiáticos, por exemplo, a reger-se por esse sistema, é profundamente antidemocrático. É como a história do escuteiro que tendo de fazer uma boa acção diária, obrigou uma velhinha a atravessar a rua.
Condeno o terrorismo. Não gosto dos talibãs, nem aprovo as acções da Al-Qaeda. O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a sua crença, por mais verdadeira que entendam que ela é a outros povos? Os clérigos islamitas são uma caricatura carregada dos padres cristãos da Idade Média. Roger Garaudy, na obra que referi na abertura desta crónica, afirma «O islamismo é uma doença do Islão, tal como o integrismo é uma doença de todas as religiões.» «O integrismo é a pretensão de se possuir a verdade absoluta e, por conseguinte, de possuir não só o direito mas também o dever de a impor a todos, sem olhar a meios. O primeiro integrismo é o colonialismo ocidental.» É uma boa e correcta explicação.
Porém, apesar desta visceral antipatia pela religiosidade fanática e tacanha dos islamistas, simpatizo muito menos com o terrorismo levado a cabo pelos governos norte-americanos, que, por exemplo, movem uma guerra económica a um pequeno estado das Caraíbas porque tem um regime ditatorial, mas protegem, por esse mundo fora, ditadores, criminosos de toda a espécie, incluindo barões da droga. Que invadem militarmente um país porque era dirigido por um déspota, mas que deixaram aqui na Península Franco e Salazar sem açaime durante décadas. Que me digam que todos os impérios têm sido assim, ainda vá; que me queiram explicar as razões por que é assim, vá lá. Não me queiram é convencer da razão deste império. A prepotência, o integrismo no conceito de Garaudy, dos Estados Unidos gera monstros como o do terrorismo islâmico. Monstros que morderam aos donos em 11 de Setembro de 2001, mas que mo
rd
em também noutras latitudes – Londres. Madrid… Aviso à navegação: o laboratório do Doutor Frankenstein situa-se em Washington. Está sempre em funcionamento, nunca encerra.

INFIDELIDADE – Quem sofre são sempre as crianças !!!

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