Coisa feia, a inveja.

Este era o slogan publicitário do Peugeot 307. Devem estar lembrados…

Às vezes sentimo-nos ameaçados pela inveja dos outros tal como o carrinho de pano cosido à mão e cravado de alfinetes do cartaz da marca francesa.  

Alberoni, o conhecido sociólogo italiano, escreve também sobre este tema. Recorro a ele para perceber melhor isto da inveja que «é um sentimento universal»:

As mulheres invejam-se entre si e os homens a mesma coisa. A inveja surge quando nos apercebemos que somos ultrapassados por alguém que estava ao nosso mesmo nível. (…) surge quando não conseguimos competir com ele. Nesse momento temos à nossa frente dois caminhos. Ou aceitamos o seu sucesso (…) ou então começamos a desejar o seu fracasso. Na inveja, renunciamos a agir, renunciamos até à meta. O invejoso, perante as dificuldades da competição, procura destruir o seu ideal. (in O Optimismo, Bertrand, 1995, p. 111-112)

Alberoni aconselha a agir, a fazer melhor, a procurar novos caminhos e a admirar quem foi melhor.

Postcards from Romania (11)

Elisabete Figueiredo

Looking good, mudda fucker

Na descida do monte da Citadela, perco-me, naturalmente. Doesn’t look so good. Até que encontro um rapaz a concertar uma bicicleta e lhe pergunto o caminho para o centro. Diz-me que sempre para baixo. Certo. O castelinho é outra recriação romântica. Outra Walt Disneylização. O costume. Penso nesta febre moderna (ou pós-moderna. ou o raio) de tudo patrimonializar, folclorizando tudo. Aborrecem-me estes lugares. Podia estar em qualquer sítio, na verdade.

Lembro-me que não sei dizer amor em romeno. Parece-me grave e ao jantar pergunto às miúdas do café como se diz amor. Dizem-me ‘te iubesc’ e acrescentam que é o que devo dizer ao meu boyfriend. Agradeço-lhes, mas não fico satisfeita. No hotel pergunto à rapariga da receção. Diz-me que ‘te iubesc’. Eu digo-lhe amor, amor, love, amour, amore… como se diz em romeno? Não quero dizer amo-te. Quero dizer amor. Ou melhor saber dizer amor em romeno. ‘Dragoste’ ou ‘iubire’. Multumesc. Buna seara ou noapte buna.

(Henrique Gil, este postal é para ti. Ou melhor, para o André Gil. E para ti. Pronto.)

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

RTP: sempre a diabolização do Estado

A febre de privatizar que atacou os governantes portugueses tem, aparentemente, origem no princípio básico e respeitável de que é necessário poupar. A verdade, no entanto, é que, escavando um bocadinho, descobre-se que o desperdício do dinheiro que é preciso, agora, poupar foi da responsabilidade de muitos amigos e conhecidos desses mesmos governantes. Diante destes factos, o governante esquece-se das pessoas e ataca o Estado, considerando-o um mau gestor, porque é mais fácil culpar abstracções do que companheiros de partido. [Read more…]

Postcards from Romania (10)

Elisabete Figueiredo

Boa tarde, senhor Anselmo

Da Sinagoga, atravesso a Porta Schei e percorro uma rua longa até à Piata Unirii. Vou devagar. Às vezes chove. Mas está calor. Vou reparando em tudo, acho que em tudo, pelo menos em tudo o que é possível.

Aqui nasceu um revolucionário e é bonito, além uma roda de bicicleta espreita de uma esquina, ali uma porta vermelha engraçada. De repente vejo uma senhora de lenço na cabeça que limpa um parapeito. Que bonita, penso e olho para ela. Que me devolve o olhar, embora seguramente não o pensamento. Fico enternecida, vá-se lá saber porquê. E pergunto-lhe com gestos se posso tirar-lhe uma fotografia à janela. Olha-me surpresa e eu digo em italiano apontando para ela: è bella! Ri-se. Deve ter ganho o dia, ou talvez não. Há quanto tempo não lhe dirão que é bonita? Diz-me que sim e eu tiro a fotografia. Devíamos dizer mais vezes às pessoas que são bonitas.

Da Piata Unirii onde não está ninguém, apenas um pedinte e duas senhoras que conversam em frente ao supermercado e alguns taxistas, depois de comer bolas de queijo, uma salada e beber uma Ursus preta, decido que não me apetece andar os 3 ou 4 km até à Cidadela. Apanho um dos táxis da praça. O taxista fala francês. Falo também. Fico muitas vezes contente de saber falar algumas línguas. De as compreender. Percebe-se melhor o que há para perceber do mundo. [Read more…]

A Constituição é uma chatice

Agora por causa da RTP, ontem porque o Tribunal Constitucional funcionou, a direita volta a carga com as suas pieguices sobre a Constituição.

No intervalo passam à leitura selectiva (mais um que leu o artº  38º só até onde lhe interessou, esquecendo-se do nº 6), ou fingem não perceber .

Até compreendo que prefiram a de 1933, mas isso tem bom remédio: mesmo com os limites à sua própria revisão, dois terços dos deputados chegam perfeitamente para arrasar de vez com aquilo. Ah, não têm os tais dois terços e o PS ainda não optou pelo suicídio final… que chatice.

À boa maneira estalinista, há sempre outra opção: demitir o povo e eleger outro. Ou então emigrem.

Eu casualmente conheci Pacheco…

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao País nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre ùnicamente porque «tinha um imenso talento». Todavia, meu caro sr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida por sobre eminências sociais: deputado, director-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho –– Pacheco tudo foi, tudo teve, neste País que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento. Mas nunca, nestas situações, por proveito seu ou urgência do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sair, para se afirmar e operar fora, aquele imenso talento que o sufocava.

Eça, A Correspondência de Fradique Mendes (Carta VIII), Lisboa, Ed. “Livros do Brasil”, 1999 (de acordo com a 1.ª Edição, 1900), pp.161-2.

Ora custou-nos 3,7 mil milhões

Venda-se a RTP por 100 milhões de euros. Cheira bem, cheira a BPN.

Gordura é formosura ou não?

 

Parece que a tendência é de aumentar as curvas.

“Publicações  mudam rumo e adicionam volume às figuras de capa.”

Durante dezenas de anos, as revistas de moda “usaram e abusaram de programas de edição de imagem” de forma a «emagrecer» manequins e estrelas de Hollywood.

Mas as coisas estão a mudar, após décadas de idolatria ao culto da magreza. “Cada vez mais, as revistas querem mulheres curvilíneas, volumosas e mais gordas nas suas capas”. (DN, 27/8).

Estas publicações fazem o que for preciso para vender mais. Só isso.

Não se gera a confusão nalgumas cabeças?

3,7 mil milhões depois…

Segundo os cálculos a RTP custou aos contribuintes, de 2003 até 2011, mais de 3,7 mil milhões de euros.

Numa época em que só se fala de milhões, este número até pode passar despercebido mas não deve. A pergunta que importa fazer, agora, é: em quê?

Qual a diferença entre a RTP1 e as restantes estações de televisão? Nenhuma. O mesmo tipo de concursos, de programas da manhã, de noticiários, de indiferença a tudo o que se passa para lá de Vila Franca a Norte e Setúbal a Sul, os mesmos debates sobre bola, etc. Se assim foi e é, qual o motivo para ter de pagar tanto dinheiro dos meus impostos num putativo serviço público de televisão?

O que deveria, nesta altura, preocupar a Impresa e a Media Capital era, isso sim, a concorrência desleal da RTP1 que os copia mas gastando o dinheiro dos outros – o nosso, para ser mais preciso.

E a RTP2? Passando ao lado daqueles que mais a defendem agora são os mesmos que se deliciam com o AXN, a FOX, o Discovery Channel e o Odisseia raramente vendo a RTP2, vamos ao que interessa. Os noticiários da RTP2 são diferentes dos da SICN ou da TVI24? Os programas culturais da 2 diferenciam-se daqueles que se pode ver na cabo? Tanto num caso como noutro, não me parece. Logo, a discussão deveria ser outra: defender que a SICN, a TVI24 e mais dois ou três canais culturais da cabo possam fazer parte do pacote da TDT.

O resto é conversa da treta.

O Mel e o Acordeão

Uma das imagens que me ficará deste verão: um casal de idosos com a sua carrinha de caixa aberta estacionada no parque de uma praia de Peniche.

Estavam ali várias horas por dia tentando vender mel. Ao lado dos frascos, um acordeão. Ingenuamente pensei que ainda ouviria o homem tocar…

Aproximei-me deles, curiosa para ver o que ele estava a fazer, debruçado sobre uma mesa onde um estojo de pequenas ferramentas serviam para consertar uma harmónica. A mulher falou por ele, concentrado que estava. O instrumento tinha mais de cinquenta anos e já não funcionava bem.

Acabei por saber que o acordeão era também para vender. «Ontem vendi um», disse o velho músico.

O homem estava a vender o mel da sua vida. As coisas como estão obrigam-no a separar-se até dos seus instrumentos, com que ao longo de uma vida deram doçura e alegria à sua vida (e à vida dos outros).

Um acordeão e um frasco de mel… não é surreal como me tinha parecido à primeira vista.

Não ouvi o acordeão nem a triste harmónica. As coisas não estão para isso.

Postcards from Romania (9)

Elisabete Figueiredo

No monte Tampa, afinal, é Portugal

No monte Tampa, afinal, é também Portugal. Bem sei que não é belo postal ilustrado. Mas não interessa, ou interessa? Há nisto qualquer coisa de caseiro, digamos. Reconfortante, se quiserem, de uma maneira absolutamente absurda.

Encontro a família de romenos que fotografei ontem em Bran. Acenam-me muito. Aceno-lhes muito, de volta. Rimo-nos. Que podemos fazer mais?

O café romeno sabe a caganitas de rato. Juro. Nunca provei caganitas de rato, mas tenho a certeza, ao beber este café impossível, que é assim que sabem. Desço o monte, outra vez de teleférico. Venho eu, apenas, e o maquinista que me ensina (agradeço-lhe a distração) a pronunciar corretamente ‘multumesc’. Ensino-lhe a dizer obrigada. La revedere e vou em direção à Biserica Neagra, que é como quem diz a Igreja Negra. Sosseguem, nada tem a ver com cultos satânicos ou vampiros. Apenas com um incêndio que a deixou negra, ainda que intacta. Lá dentro um enorme órgão de tubos, desenhado por Bucholz. Gosto de órgãos de tubos e de acender velas nas igrejas. Por causa das velas, não das igrejas. Se calhar é o mesmo. Na Biserica Neagra não há velas, de modo que me sento a observar o órgão que é impressionante. 4000 tubos. Belíssimo. [Read more…]

Junto à Linha

do Minho.

Acordo ortográfico: a displicência dos professores

A classe docente vive embrutecida, especialmente desde o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues. Devido a uma quantidade brutal de medidas lesivas da Educação e da sua condição profissional, os professores quase se limitam a reagir e a fugir em frente, ficando privados de tempo para pensar, actividade que deve constituir, evidentemente, o cerne da profissão. Assim, sabemos que há, por exemplo, demasiados professores que estarão, neste momento, angustiados face a vários factores que vieram criar uma instabilidade profissional injustificada, entre muitos outros problemas. [Read more…]

Genial

O problema da RTP está no BE e no PCP que a querem controlar. Com Barras deste nível a apoiá-lo, o governo cai sózinho.

Postcards from Romania (8)

Elisabete Figueiredo

Brasov, subindo o monte Tampa

Tenho vertigens. Muitas. Ao ponto de as cidades e os campos se porem a rodar quando me atrevo, o que é quase sempre, a subir muito alto. Uma vez subi num teleférico de esqui mais de 2000 metros. Foi em Salzburgo e posso jurar que as montanhas estavam vivas e rodopiavam… sim, uma alusão fácil ao filme ‘Música no Coração’. Whatever.

Apesar das vertigens, resolvo subir o monte Tampa de teleférico. 1000 metros ‘apenas’. O teleférico é pequeno, não caberão mais de 10 pessoas. Vamos 10 exatamente.  Começa a subir e é quase a pique que a traquitana vai.

Penso na balança que vi no dia anterior no castelo de Bran. Uma balança para pesar almas. Parece que as almas dos aprendizes de satanás, podia ler-se, são mais leves que as das outras pessoas. É curioso. Se alguma vez tivesse pensado nisto, diria que era justamente o contrário. E começo a desejar que sejamos todos aprendizes de satanás, dentro do teleférico, just in case.

Lá em cima, a vista compensa os maus pensamentos. Evito chegar-me à beira dos varandins. Gosto de sítios altos porque tudo, cá de cima, parece um mapa. Quer dizer, acho eu que é por isto. Que outra razão poderia haver para me sujeitar a tal suplício?

O teleférico conduz-nos a um bosque, caminho uns bons 20 minutos até chegar às traseiras das letras gigantes:

B R A S O V

que se veem de toda a cidade.

(Brasov, 9 de Agosto de 2012)

O Descobrimento do Brasil

Longa-metragem de 1936, realizada por Humberto Mauro a partir da carta de Pero Vaz de Caminha. Há partes interessantes sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral e a chegada ao Brasil.
ficha IMDb

Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI.

Unidade 5.1. – A Abertura ao Mundo

Dúvida de Verão

Quem é a Margarida Rebelo Pinto?

Agora que eu estava a ficar com saudades do exilado em Paris

Obrigado André Azevedo Alves. Passou-me num instantinho.

Quando a premissa é falsa, quero lá saber do programa do governo

Programa do ainda “actual Governo“:

O Grupo RTP deverá ser reestruturado de maneira a obter-se a uma forte contenção de custos operacionais já em 2012 criando, assim, condições tanto para a redução significativa do esforço financeiro dos contribuintes quanto para o processo de privatização.

Sendo mentira, a parte da “redução significativa do esforço financeiro dos contribuintes“, ficaria por aqui, deixemos agora o Marques Mendes que descapitalizou a RTP acabando com a taxa de radiodifusão ou a taxa/EDP que foi inventada na curta estadia de Durão Barroso em S. Bento, tudo às ordens do tio Balsemão que agora se descobre enquanto aprendiz de feiticeiro, nem estou virado para discutir o caso privatização da RTP propriamente dito, uma toleirada de Agosto inventada à pressa para tapar o absoluto e definitivo falhanço das metas orçamentais. Mas ao procurar no tal programa de governo não pude deixar de ler um parágrafo anterior:

As mudanças em curso (v.g. a Televisão Digital Terrestre, que deverá cobrir todo o País em 2012, e as novas gerações de banda larga) exigem especial cuidado de forma a garantir que não há cidadãos excluídos particularmente por razões económicas, pelo que o Estado compromete-se combater qualquer tipo de exclusão, actuando de forma rigorosa na esfera legislativa e reguladora.

Perante factos, nem vale a pena gastar argumentos. Esta gente é tão rasca que ainda acordo com saudades do exilado parisiense um dia destes. E aí, não respondo pelos meus actos.

Fonte do gráfico.

Sobre a R.T.P.

Uma vez mais o governo português parece andar à deriva. Por um lado pretende mostrar serviço à troika, por outro tem medo da opinião pública interna e não quer efectivamente colocar em causa as vacas sagradas, neste caso a RTP, preferindo optar pela cosmética à efectiva mudança. Pela parte que me toca defendo há muito a total privatização de todos os elefantes brancos que muito dinheiro custam ao contribuinte, mas servem, tem sido assim ao longo de décadas, aos partidos políticos para colocar boys em jobs bem remunerados. A RTP é apenas mais um triste exemplo. Bem sei que na U.E. existe a tradição de manter um ou mais canais públicos de televisão, mas existe mundo desenvolvido para lá do espaço da U.E., onde as televisões e não só, mesmo privadas, são exemplos de isenção e independência face ao poder político. Nos E.U.A. por exemplo, já provocaram a demissão a um presidente e condicionaram a manutenção no poder ou eleição a inúmeros políticos.  [Read more…]

«Na cama com Deus»

Foi assim que a jornalista do Público, Susana Moreira Marques, intitulou o seu artigo sobre o escritor inglês Graham Greene (Público, 25/8), na rubrica «Os Livros também têm biografia» que sai aos sábados. Transecrevo parte o artigo:

Em 2012, as histórias que rodeiam O Fim da Aventura – um livro que falta reeditar em Portugal – estão talvez fora de moda. Graham Greene marcava o fi m de uma época – em que se conhecia o desespero e a glória, e Deus era uma questão pertinente. (…) Poucos livros incluem Deus como personagem, e quando assim acontece, normalmente não são um sucesso. Quando O Fim da Aventura saiu em 1951, Deus já estava fora de moda.

Não gostei: 1º) afirma que o livro O Fim da Aventura, daquele autor, «falta reeditar em Portugal», o que não é verdade; 2º) refere que, no tempo em que nos encontramos, as histórias que rodeiam este livro «estão talvez fora de moda» (não percebo como uma história, seja ela qual pode estar desactualizada); 3º (o ponto fulcral que me levou a escrever este post) “Quando O Fim da Aventura saiu em 1951, Deus já estava fora de moda“; 4º a jornalista julga que na altura em que foi escrito o livro, “Deus era uma questão pertinente“, ou seja, hoje já não é…

Para a jornalista, as histórias desta obra «estão talvez fora de moda» porque Deus é personagem nela.

Por sorte, Susana M. Marques transcreve um excerto do prefácio assinado por Jorge de Sena que é também quem traduz a obra: “Em que medida um católico de consciência e de prática com o talento extraordinário de Greene pode ser, para o mundo de hoje [estava-se em 1953], uma figura extremamente importante?”

Não será Deus a questão de todos os tempos, negando-o ou aceitando-o?

Deus não é uma moda. Logo não pode dizer-se que «estava» ou está fora de moda. E no entanto…

Portugal, que estado?

A identificação ideológica do actual governo é das mais claras desde o 25 de abril. Quer nas decisões, quer nas declarações são várias as marcas muito identificadoras de uma visão nunca antes vista por estas bandas.

Seria importante, num momento em que parece que tudo tem um preço de mercado, definir com clareza o que se pretende do Estado. Os incompetentes que nos gerem usam a máxima “menos estado, melhor estado”.

Mas isso significa o quê?

O serviço público de saúde deverá ser um exclusivo do serviço nacional de saúde ou os privados e a igreja devem também ter um papel?

E na Educação? A Escola Pública deve ser para todos ou ” o TODO” deve ser assegurado, em parte pelo privado? E que parte?

E na comunicação social? Deve ou não haver canais públicos e rádios públicas asseguradas pelo estado?

E na justiça ou na segurança? Que papel para o privado?

Cada um dos laranjinhas que rapidamente surgem a defender qualquer estupidez dos amigos do Relvas poderia aproveitar o desafio e responder a estas perguntas. Talvez assim se ficasse a saber melhor o que pretendem.

E não me custa nada adivinhar que o povo é capaz de não gostar do que aí vem…

Postcards from Romania (7)

Elisabete Figueiredo

Your face not Portugal

Decido parar em Rasnov, na volta, espero na paragem de autocarro com um cheiro esquisito em volta. Milho doce cozido. Ora aqui está o cheiro esquisito. Pergunto à senhora se posso tirar uma fotografia. Diz-me que sim. Talvez na esperança que eu coma uma maçaroca cozida. Pouca sorte (provavelmente a minha). Detesto milho.

Um casal de romenos com um filho está também à espera do autocarro. São turistas. Como eu. O homem procura tirar uma foto dos três. Naturalmente ofereço-me para lhes tirar a fotografia fazendo gestos. Multumesc, diz-me ele. Cu placere, respondo eu, fazendo recurso das poucas palavras que sei dizer em romeno.

Numa mistura de inglês e romeno pergunta-me de onde sou. Portugal, respondo eu. Faz um ar muito espantado, olha para mim, passa com a mão em frente da sua própria cara e diz: ‘your face not Portugal’.  Rio-me e repito: Portugal. Volta a abanar a cabeça: ‘your face not Portugal, Portugal dark’ e aponta para o próprio braço, moreníssimo, nem com 20 anos na praia eu ficaria assim. Volto a rir-me e tento responder numa mistura esquisita, ainda mais esquisita, de italiano e inglês, na esperança que se pareça ao menos vagamente com romeno, que em Portugal há pessoas de todas as cores, como na Roménia. Não percebe. Hesito entre demonstrar-lhe com o cartão de cidadão a minha nacionalidade e continuar a rir-me, não dele, mas de mim. De ser contente por não parecer Portugal.

Continuo a rir-me. Riem-se os três também e entretanto chega o autocarro.

(Bran, 8 de Agosto de 2012)

Carta do Canadá: Portugal desamparado

Com a lentidão meditativa  a que obrigam as informações importantes,  acabo de ler  uma obra de Marc Roche que, nestes tempos incertos de Pátria e Europa,  todos devíamos ler:  O BANCO – Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo. Ficamos a saber que, de forma secreta, praticamente de seita, laboriosamente,  persistentemente, ao longo dos anos, o Banco Goldman Sachs adquiriu a configuração de um polvo monstruoso, cujos tentáculos, sob a forma de homens de mão, está infiltrado em toda a parte. Objectivo: empobrecer países mal governados e passar o seu património para o capital selvagem e sem pátria.  Tudo isto o autor denuncia com grande pormenor e acervo de provas.

Na União Europeia, os homens principais do Goldman Sachs são Mario Draghi (presidente do BCE) e Mario Monti (primeiro ministro de Itália). O autor descreve, ao pormenor, as golpadas do banco sobre a Grécia, com a colaboração de governos da direita e da esquerda, para grande proveito e regozijo dos banqueiros alemães.
Em Portugal, segundo Marc Roche, os tentáculos do Goldman Sachs são António Borges, Carlos Moedas e, de forma sonsa, Victor Gaspar. Todos os figurantes da coisa pública  que com eles colaboram servilmente, são a repetição gananciosa e sem escrúpulos dos que, em 1580, entregaram Portugal à Espanha a troco de fortunas e títulos. Toda uma elite negativa e traidora que,ontem como hoje, cabe no grito desesperado de Almada-Negreiros: “maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames”. [Read more…]

Cecília encontra Relvas

Postcards from Romania (6)

Elisabete Figueiredo

 The Dracula’s Castel is the fucking castel of the fucking sleeping beauty

Sou a única turista no autocarro. Os homens têm bigodes farfalhudos e bonés de lã. Pergunto-me como é que aguentam. As mulheres são as mulheres. Têm sempre, quase sempre, um ar mais delicado onde quer que nos encontremos.
Entra um casal de velhotes. Juro que estava em Portugal há 20 anos. Ou ontem. A senhora veste-se toda de preto, lenço e meias. O senhor tem um chapéu como usava o meu avô Alberto. Sim, de repente lembro-me do meu avô Alberto e de como punha um laço na minha trança, quando eu era pequena, ou já nem tanto. Para o meu avô Alberto, que tinha os olhos verdes, como os meus, uma trança havia de ser com laço na ponta, de preferência branco.
O autocarro arranca e na janela passam cavalos e vacas e rebanhos de ovelhas, casas em construção, ruínas, e entram mais pessoas. Chegamos a Bran. Depressa percebo a Walt Disneylização de tudo aquilo. Suponho que o Vlad Tepes, o empalador que originou, ao que consta, a lenda do conde Dracula, se revolva na tumba indignado. De certa maneira, penso em inglês, sei lá porquê, the Dracula’s Castle is the fucking Castle of the fucking Sleeping Beauty.

(Bran, 8 de Agosto de 2012)

Monstro em cela de luxo

Breivik teve a pena máxima que a Noruega permite: 21 anos de cadeia. Alguém se deu ao trabalho de contabilizar o tempo que é condenado por cada vítima: 3 meses…

Breivik matou 77 pessoas, cidadãos inocentes, gente muito jovem.

A democracia da Noruega dá a Breivik uma cela confortável de três divisões. Uma para exercício, com aparelhos de musculação e outra com computador, onde poderá escrever livros… (talvez manifestos racistas como se leu no Editorial do Público de ontem).

Há gente que não cometeu nenhum crime na sua vida e vive muuito pior que aquele monstro.

Recordo uma notícia do ano passado, que saiu na altura em que o monstro norueguês comete o massacre «inqualificável». No Paquistão, “operários das fábricas de tijolo são tão explorados que têm de vender os rins  para pagar as dívidas”. Trabalham de sol a sol para receber menos de 1 euro. Enquanto isto, o Paquistão “é o povo que, em todo o mundo, mais donativos faz para obras de caridade”. Hipocrisia.

A vida daquela gente é uma prisão. Vivem com a corda na garganta, condenados a passar os seus dias a pagar dívidas e empréstimos atrás de empréstimos.

Isto é justiça?

Postcards from Romania (5)

Elisabete Figueiredo

Brasov (Piata Sfatului)

Não se deixem enganar pelo ar encantador desta praça. Quero dizer, a praça é realmente encantadora. Vou daqui para a estação dos autocarros. Dizer que caí num filme do equivalente romeno do Emir Kusturica é, apesar da repetição, o mínimo. A estação é indiscritível. Na bilheteira a senhora (simpática) faz o melhor.

Na sala de espera um bêbado ressona. É a única pessoa na sala, além de mim. Deve estar ali desde o dia anterior. Desde sempre. A avaliar pela sujidade e pelas garrafas no chão. À volta dele quatrocentas moscas que, quando eu me sento (sim, eu sento-me nas estações de autocarros ao pé dos bêbados), se atiram furiosamente a mim. Picam-me. Desistem. Voltam ao bêbado. Suponho que esteja mais apetitoso que eu, dado que acabo de tomar banho.

Cá fora um calor sufocante. Entro no autocarro e gostava de ser uma espécie de turista que filma tudo. Gostava. Mas não sou, para o bem e para o mal tenho uma máquina fotográfica com cerca de 100 anos. Os mesmos que parece ter o autocarro.

(Brasov, 8  de Agosto de 2012)

A Viagem da Descoberta de Vasco da Gama

Para quem tiver conhecimentos e paciência para fazer a tradução deste documentário, aqui está um excelente contributo sobre a viagem de Vasco da Gama à India.
Sobre esta matéria, não pode deixar de ser feita uma referência, apesar de não ser um filme, ao projecto denominado «A Viagem de Vasco da Gama», da autoria do Centro de Competência NONIO da ESE de Santarém. Aí se apresenta a narração da viagem por etapas em banda desenhada, com jogos em cada uma dessas etapas. Brilhante.

Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI.

Unidade 5.1. – A Abertura ao Mundo

erretêpê