Escrever ou blogar, eis a questão (Memória descritiva)

A propósito da mini-polémica que aqui se desencadeou sobre o universo dos blogues, entre o aventor Carlos Fonseca e o artista plástico Leonel Moura, lembrei-me de um artigo de Pierre Assouline que, em 26 de Janeiro passado, foi publicado no “le Monde des livres” sobre os escritores blogueres. Antes de mais, temos uma inauguração pessoal – resolvi adoptar o verbo blogar. Blogar – verbo transitivo (do inglês to keep a blog). Não sou pioneiro, outros já o utilizam há tempos. Mas vamos ao tema.

Segundo diz Assouline, são mais raros do que se pode julgar os homens de letras que blogam e por duas razões: uma boa parte deles não mantém qualquer convívio com o computador e com o universo que se encontra subjacente, e os que estão ligados à net depressa se apercebem de que a manutenção de um blogue representa um exercício de regularidade e um acréscimo de trabalho que obrigam a sacrificar todos os dias algumas horas do tempo de escrita. Assouline não o diz, mas eu acrescento que, além do tempo que se ocupa a redigir os textos, o vício de consultar o blogue diversas vezes ao dia, ler e responder a comentários, transforma-nos em blogo-dependentes.

Diz o jornalista francês que o facto de não ser meio a que os escritores se afeiçoem facilmente, constitui ainda mais razão para referir aqueles que não só se aventuram por esses caminhos, como dão também um prolongamento de tinta e papel ao seu diário on line, como é o caso de José Saramago, de 87 anos, e do romancista francês Èric Chevillard, de 46 anos. Não vou transcrever as entrevistas, disponíveis na net, apenas referir um ou outro aspecto do conteúdo do texto de Assouline. [Read more…]

Antero (Poesia & etc.)

É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo.

Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:
– Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com a malandragem que anda por aí, é bom estar prevenido.

– Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.

E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.

– Nunca peguei numa arma de fogo…
O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:
– Não, não. Deixe-o assim, já pronto.
O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes…
– Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado. [Read more…]

Rosebud (Memória descritiva)

O edifício do Cinema Rex, na hoje degradada zona lisboeta do Intendente, foi sede da Federação Espírita Portuguesa, fundada em 1925. Ficava ao lado do Real Coliseu onde depois abriu a garagem Auto Lis, junto ao belo chafariz do Desterro. Quando a Ditadura Nacional se transformou, por obra e graça do referendo de 1933, em Estado Novo, a Federação seria perseguida pelo regime e, em 1939, a sede passou a ser um cinema – o Rex. A propriedade do edifício continuou a ser da Federação Espírita, mas a exploração foi atribuída a um particular, o senhor Eduardo Ferreira, um «industrial», como o classificam os documentos, que procedeu às obras de adaptação e construiu um belo cinema com capacidade para 478 espectadores.

Por cima da sala de cinema, equipada com um palco que podia funcionar para espectáculos teatrais, havia um grande salão onde se celebravam carnavais e réveillons. O cinema encerrou em 1967, reabrindo em Dezembro do ano seguinte com o nome de Teatro Laura Alves. Actualmente, implantado na zona mais degradada do centro de Lisboa, está transformado numa feia superfície comercial. [Read more…]

Calendário da cintura industrial (Poesia & etc.)

Tinha dito que neste série Poesia & etc., publicaria poemas, inclusive poemas meus. Até agora não tinha publicado nada da de minha autoria. Este poema, “Calendário de Cintura Industrial” foi escrito há muitos anos. Foi escrito ao mesmo tempo que os poemas inéditos de «O Cárcere e o Prado Luminoso», publicado em 1990. Sempre o achei um pouco lamecha e, além isso, excessivamente longo para o meu gosto. À última hora, retirei-o do livro. Tenho-o guardado, hesitando entre o deitá-lo fora ou reformulá-lo. Assim, foi mantido inédito durante vinte anos. Até hoje. [Read more…]

Do que falamos, quando falamos do Norte? (Memória descritiva)

Esta bonita canção interpretada pelo Rui Reininho, Isabel Silvestre e os GNR, peca, quanto a mim, por um defeito – é falaciosa. É que buscando na informação da qual sobre o tema disponho, não existe uma pronúncia do Norte – são várias as formas dialectais que coexistem no espaço que, de forma vaga, podemos considerar o Norte.

Socorrendo-me do saber de Lindley Cintra e Celso Furtado, diria que na área geralmente considerada «Norte» há, além do galego ocidental e do galego oriental, a norte do rio Minho os seguintes dialectos: transmontano, alto-minhoto, baixo-minhoto, duriense e beirão. Em conceitos de «Norte» mais ambiciosos, que incluem as regiões de Aveiro, Viseu, Coimbra e Guarda, a coisa complica-se ainda mais. Pronúncias ou acentos, muito diferentes uns dos outros. Por isso digo que a canção do Reininho é falaciosa – veicula uma ambição expansionista e política em detrimento da verdade científica. Mas não nos importemos com isso, vamos lá tentar analisar no que consiste o Norte. [Read more…]

Arte Nova e amabilidades entre vizinhos (Memória descritiva)

Não sei se já repararam que os países com fronteiras comuns, como o caso de Portugal e de Espanha ou de França e Inglaterra, ainda que hoje em dia vivam em paz, tiveram ao longo da História guerras e conflitos que hoje ecoam em picardias e se extravasam quando dos jogos de futebol ou de rugby ,no caso de francos e anglos. Problemas que vêm do passado. Só uma das guerras entre França e Inglaterra durou cem anos. Os confrontos entre portugueses e castelhanos forma também numerosos. Tudo isto deixa marcas e se prolonga em pícaras alfinetadas, anedotas, aforismos, expressões.

Não vou fazer uma análise exaustiva aos aforismos, que depreciam castelhanos em Portugal e portugueses em Espanha – Apenas um exemplo: para os castelhanos usa-se muito o termo «portuguesito» no sentido pejorativo, como sendo o país pequeno, todos fossemos apequenados pela baixa dimensão territorial. Lógica segundo a qual um luxemburguês nunca poderia ser maior do que um russo.

Há uma coincidência engraçada. Experimentem abrir um dicionário espanhol em «Portuguesada», Vou consultar o da Real Academia. Cá está: «portuguesada, f. Dicho o hecho en que se exagera la importancia de una cosa».(“Diccionario de la lengua española”, p.1645). [Read more…]

Israel – a recorrência da Shoah no discurso político – (Memória descritiva)

Circulam pela net, e em e-mails, fotografias de uma manifestação realizada em Londres pela comunidade muçulmana (ao que parece, recentemente, mas não consegui obter a data). Vêem-se manifestantes exibindo cartazes onde se diz entre outras coisas: «Matai aqueles que insultam o Islão», «Europa: Pagarás, a tua demolição está em marcha»; «O Islão dominará o mundo»; «Europa, pagarás. O teu 11 de Setembro vem a caminho»; «Prepara-te para o verdadeiro holocausto». Segundo se diz também nessas mensagens, tratava-se de uma manifestação pacífica.

Habituei-me a acolher com cepticismo e cuidado estas informações que, muitas vezes mais não são do que desinformações. Lá estão as fotografias, com os cartazes escritos em inglês, mas todos sabemos como é fácil manipular fotografias. Verdade ou mentira, não há dúvida que entre os muçulmanos passa uma corrente de intolerância e ódio que nada contribui para que, quem não compartilha a sua crença, possa ao menos ser solidário com a sua legítima revolta.

Existem, mas são poucas, as vozes que nos defendam a causa palestiniana, por exemplo, com serenidade e isenção. Compreendo que seja difícil ser isento quando estamos a ser chacinados, vemos as nossas casas bombardeadas, as nossas crianças assassinadas, a nossa terra ocupada. É difícil, mas aos muçulmanos pede-se esse supremo acto de heroísmo.

Do lado judaico existem , sempre existiram, essas vozes. Bem sei, que os judeus, embora em permanente perigo de extermínio à mínima distracção, estão numa situação diferente. Mas não se julgue que a posição dos israelitas é fácil.

Como disse num texto anterior, entendo que a criação do Estado de Israel foi um erro da diplomacia britânica. No entanto, hoje a nação judaica é um facto consumado. Milhões de pessoas a povoam. A sua destruição, como propugnam os fundamentalistas islâmicos, seria um crime.

O crime que foi o dar o território dos palestinianos aos judeus, não se apaga com o crime de exterminar os israelitas. Não se deve desistir da utopia de um estado em que judeus, muçulmanos, cristãos, ateus, convivam pacificamente. É uma utopia própria de quem vê o problema do exterior e que não agrada nem a judeus nem a palestinianos. Mas é a única solução digna de seres humanos.

Vem tudo isto propósito de duas das tais vozes vindas do lado hebraico, de dois livros, um que a professora israelita Idith Zertal (1944), professora de História e Filosofia Política na Universidade de Basileia, nascida antes da fundação do Estado num kibutz de Ein Shemer, ficou entusiasmada por finalmente ver traduzido em hebraico – a obra de Hannah Arendt (1906-1975) «Origens do Totalitarismo» – que li precisamente na sua edição espanhola, outro, um ensaio da própria professora Idith Zertal – «A Nação e a Morte», cuja edição em castelhano foi há dias apresentada e do qual tomei conhecimento por textos que li no El País. Falemos primeiro de Hannah Arendt.

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Apologia de Sócrates (Memória descritiva)

Foram Xenofonte e Platão, sobretudo o segundo, com a sua série de diálogos socráticos, quem deram existência e espessura a uma entidade que, sem os seus escritos quase não existiria. Platão terá feito um retrato justo do filósofo. Diógenes Laércio, séculos depois biografou Sócrates, inspirando-se no que os discípulos e contemporâneos sobre ele tinham deixado escrito. Porque, como Abu Tammam o grande poeta do século IX, nascido em Damasco, na actual Síria, afirmou (e já aqui o citei) só o que é escrito existe – a glória sem palavras é um deserto vão e sem sentido.

De Sócrates não nos ficou uma palavra escrita pelo seu punho. Dele apenas temos o que dele disseram. A maneira como viveu e, sobretudo, o seu pensamento, constituem como disse Sant’Anna Dionísio «uma inexaurível fonte de hipóteses». E constitui também uma das grandes referências culturais daquilo a que se convencionou chamar o Ocidente. [Read more…]

Noites Brancas (Memória descritiva)

Já aqui contei que traduzi o livro «Noites Brancas», de Feodor Dostoievski. Fiz a tradução a partir da edição francesa, pois de russo apenas sei aquela meia-dúzia de palavras que toda a gente conhece. Traduzi a partir da tradução francesa de Pierre Pascal e Boris Schloezer – essa, sim, feita directamente do russo. Havia já as excelentes traduções de Maria Franco e de José Marinho (que fiz questão de não consultar durante o meu trabalho). Houve posteriormente a de Luiz Pacheco para a sua artesanal editora – a Contraponto. Mas não contei os motivos por que fiz a tradução e num tempo recorde, em muito poucos dias. Bem sei que o livro não é grande, mas, mesmo assim, foi uma maratona e tanto. Por que tive de traduzir o livro tão à pressa?

Estávamos na primeira metade dos anos 70, eu trabalhava numa editora internacional e íamos lançar uma «História da Arte» em muitos volumes. Era uma obra preparada com cuidado, com a versão portuguesa dirigida por um grande especialista na matéria, José António Ferreira de Almeida (1913-1981), professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde viria a ser presidente do Conselho Científico.

Lembro com saudade o professor, as reuniões que fazíamos na editora ou na sua casa do Restelo – pois, com aulas também na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde, aliás, era natural, dividia o tempo e a vida entre as duas cidades. Numa moradia não muito grande, acumulava mais de 40 mil livros. Salas e corredores, tudo estava forrado de estantes até ao tecto -. um espectáculo impressionante. Era uma pessoa alegre, bem disposta, e com uma cultura vasta que não se restringia à sua área de especialização. [Read more…]

O dia de São Valentim (Memória descritiva)

Existem várias versões da lenda de São Valentim e sobre a forma como um clérigo romano se transformou no patrono dos namorados. Uma das histórias retrata o São Valentim como um mártir que, em meados do século III da nossa era se recusou a abjurar da fé cristã. Cláudio II (Marco Aurélio Valério Cláudio), terá proibido que se celebrassem casamentos durante as guerras contra os Alamanos, porque os homens casados eram piores combatentes do que os solteiros. Um sacerdote da época, Valentim, teria violado este decreto imperial, realizando secretamente casamentos.

Descoberta a infracção ao decreto de Cláudio, Valentim teria sido preso, torturado, julgado e condenado à morte. Durante o tempo em que esteve encarcerado, apaixonou-se pela filha cega de um dos seus carcereiros. Por milagre, claro, a moça recuperou a visão. Quando foi executado Valentim deixou-lhe uma carta em que se despedia, assinando “teu namorado” ou, segundo outras versões, “do teu Valentim”. [Read more…]

A Carbonária, a «coruja» e a conspiração do Regicídio – 2 (Centenário da República)

Bandeira da Carbonária Portuguesa.

Pelos últimos dias do ano de 1907, por ocasião do Congresso Internacional de Imprensa que se realizou em Paris, tiveram lugar algumas reuniões entre políticos republicanos portugueses e revolucionários franceses. Os encontros realizaram-se no café de um hotel, que creio ainda existir, pois não há muitos anos fiquei lá hospedado uns dias – o Hotel Brébant, no Boulevard Poissonière (um hotel relativamente barato, mas que não recomendo – um rato resolveu fazer-me companhia e comer parte de uma tablete de chocolate que deixei sobre a mesa da televisão…).

Nessa reunião de há 103 anos o assunto em agenda era, nem mais nem menos do que a supressão física de João Franco, chefe do Governo português. Na sequência dessa e doutras reuniões, foi criado o «Grupo dos 18», com a missão especifica de organizar a execução de João Franco. Um mês depois, em 28 de Janeiro de 1908, eclodiu a chamada «Revolta do Elevador», da qual falei aqui. Como disse, a revolta falhou e muitos dos líderes foram presos.

Entre os republicanos que a polícia encarcerou, estava Luz de Almeida, o comandante supremo da Carbonária. Grandes vultos do Partido Republicano Português – João Chagas, França Borges, António José de Almeida e muitos outros, foram também presos. Alguns conseguiram fugir, como os monárquicos dissidentes do Partido Progressista, entre eles José Maria de Alpoim e o visconde da Ribeira Brava. Como é que monárquicos estavam ligados a republicanos e com eles conspiravam para derrubar a Monarquia? [Read more…]

Mandela (Memória descritiva)

Mandela e Graça Machel durante a homenagem ontem prestada na Cidade do Cabo.

Ontem, 11 de Fevereiro, realizou-se na Cidade do Cabo uma homenagem a Nelson Mandela, na passagem do 20º aniversário da sua libertação após 27 anos de prisão. Sorridente, acompanhado pela esposa, Graça Machel, Mandela esteve no Parlamento, onde ouviu o discurso proferido pelo actual presidente da África do Sul, Jacob Zuma.

O «tata» (avô), como carinhosamente o tratam os sul-africanos, sentou-se na última fila da galeria de convidados e seguiu com atenção as palavras de Zuma, que ia lendo em folhas que tinham sido distribuídas. Com 91 anos, o primeiro presidente negro do país, terá feito um grande esforço para assistir à homenagem, pois a sua saúde debilitada pela idade não lhe tem permitido sair da residência. Desde que, há quase dez anos, se retirou da vida política, raramente aparece em público.

Destacadas figuras do ANC (Congresso Nacional Africano), o partido de Mandela, com alguns dos seus companheiros de luta contra o apartheid, festejaram a libertação sem a presença do homenageado. Milhares de pessoas, correspondendo à convocação do ANC, percorreram os mesmos 500 metros que, em 11 de Fevereiro de 1990, Mandela caminhou nos seus primeiros momentos de liberdade , em frente à prisão, saudando os seus seguidores.

Jacob Zuma, no seu discurso, prometeu antecipar a idade da reforma, para reduzir a pobreza, a desigualdade e o desemprego juvenil no país. «Este ano de 2010, será um ano de acção». Zuma atravessa um momento difícil, pois o facto de ter concebido um vigésimo filho, fruto de uma relação extra-conjugal, a meio de uma campanha oficial contra a SIDA e contra a multiplicidade de parceiros sexuais, causou polémica e mesmo algum escândalo no país. [Read more…]

Direita e Esquerda

Este texto foi já publicado há meses atrás. No entanto, parece-me oportuno usá-lo novamente, agora como princípio de resposta à questão que o Fernando Moreira de Sá, secundado pelo Luís Moreira, levanta sobre a eterna questão dos conceitos de Direita e de Esquerda.

A raiz dos conceitos de direita e esquerda estará, segundo sempre ouvi dizer, no facto de nas assembleias políticas anteriores e posteriores à Revolução de 1789, os políticos mais conservadores se sentarem à direita da mesa da presidência e os mais radicais à esquerda. Na Assembleia Nacional (1789), a expressões «gauche» e «droite» eram aplicadas respectivamente a republicanos e a monárquicos; na Convenção Nacional (1792), o termo usou-se para distinguir jacobinos de girondinos. Os primeiros eram defensores dos chamados sans-cullotes, os deserdados da fortuna; os segundos eram deputados que representavam a burguesia ilustrada, hesitante entre a monarquia constitucional e a república.

De então para cá, o campo semântico dos dois termos foi-se alargando e especializando, incorporando contributos e empréstimos vindos de todas as áreas do conhecimento e, da localização, aleatória de duas facções nos hemiciclos da França de fins do século XVIII, os conceitos de direita e esquerda saltaram para a liça das grandes lutas sociais e políticas. O poeta Jean-Arthur Rimbaud disse que era preciso «mudar a vida». Karl Marx, (que, tal como Engels, nunca disse ser «de esquerda»), afirmou que era indispensável «transformar o mundo».

Eis aqui duas boas sínteses para o conceito de esquerda, a mudança da vida e a transformação do mundo, numa palavra, a Revolução. A direita, também com contributos os mais diversos, vindos também de todos os quadrantes do conhecimento, procura conservar o que considera serem valores intemporais – reage mal à mudança da vida e pior a todas as transformações do mundo que não sejam regressos ao passado. [Read more…]

A Carbonária, a «Coruja» e a conspiração do Regicídio – 1 (Centenário da República)

Com mais este terceiro texto (desdobrado em dois) sobre o tema do Regicídio encerrarei, para já, este assunto. Com a plena consciência de que muito (ou mesmo quase tudo) fica por dizer. Tendo servido de assunto a muitos livros, a questão do Regicídio não se esgota em pequenas crónicas que, como esta, apenas permitem aflorar, muito superficialmente, alguns aspectos. Nos textos anteriores, além de um enquadramento político do atentado, vimos como ele se passou.

Como disse no texto anterior, todas as reconstituições iconográficas do Regicídio são, no mínimo imprecisas. A que vemos acima é, apesar de tudo, uma das menos fantasiosas. O cenário está perfeito, é a Rua do Arsenal sem invenções. O Costa está a ser agarrado pelo cívico que lhe vai disparar um tiro na cabeça. Mas, à esquerda vemos Buíça, que tinha ficado no Terreiro Paço e ali terá sido acutilado e morto. Todavia, mesmo com este erro, talvez seja, entre as muitas dezenas de reconstituições que vi, a que menos mente.

Em todo o caso, ficou na sombra algo que nunca se esclareceu. No Terreiro do Paço, além de Buíça e de Costa, quantos mais elementos intervieram. Pela peritagem da Polícia Científica, chega-se à conclusão de que foram pelo menos cinco, os que participaram no atentado. É uma evidência que os projecteis encontrados, nos corpos, no landau, nas arcadas, foram provenientes de cinco armas diferentes, embora duas delas fossem iguais – carabinas Winchester de calibre 351.

Identificou-se também as munições de calibre 7,65, da pistola Browning do Costa. No landau, foram encontrados vestígios de projécteis de calibre 6,35 e, também no landau, a perfuração de um projéctil 5,5 do chamado tipo «Vello-dog», revólveres de pequeno calibre e fraco poder de penetração que os ciclistas usavam para afastar os cães. [Read more…]

A Província Cisplatina (Memória descritiva)

A vermelho, o Brasil; a Sul, a Província Cisplatina, actual Uruguai.

A Colónia do Sacramento, de que já aqui falei há semanas atrás, fundada por Portugal em 1679 e perdida para a coroa espanhola em 1777, voltou à nossa posse em 1817, quando D. João VI incorporou toda a região do actual Uruguai no Brasil. A região anexada recebeu o nome de “Província Cisplatina”- prefixo cis – do mesmo lado – e platina de Rio da Prata: portanto, do mesmo lado do Rio da Prata (que o Brasil). Durante um século, Sacramento fora por diversas vezes ganha e perdida nas lutas com as tropas espanholas ou nas guerras diplomáticas, até que o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, a fixou como possessão espanhola.

Como sabemos, em Novembro de 1807, D. João VI, ameaçado pela invasão napoleónica, transferiu a Corte para o Brasil. No Congresso de Viena, em 1815, o Brasil foi integrada como Reino, constituindo o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Por outro lado, a ida da Corte para o Rio de Janeiro, levou o rei a preocupar-se com o engrandecimento daquela gigantesca possessão portuguesa.

Em 1815, a Casa de Bourbon fora banida do trono de Espanha pelas forças napoleónicas. D. João VI temeu que os espanhóis o imitassem, reproduzindo Espanha no novo Mundo, e na região circundante do rio da Prata nascesse um reino poderoso. Por isso, em 1816, a “Divisão dos Voluntários Reais”, sob o comando do general Carlos Frederico Lécor, invadiu região oriental, tomou Maldonado e ocupou Montevideu em 1817. Carlos Frederico Lécor, barão de Laguna (1764-1836) foi um militar e nobre português, mas que serviu o Brasil após a independência.

Gravura de Debret mostrando o embarque, na Praia Grande, das tropas portuguesas que participaram no cerco a Montevideu, em 1816. [Read more…]

Ainda o Regicídio (Centenário da República)

Este texto é um apêndice de um outro que aqui publiquei no dia 1 de Fevereiro. Como disse na altura, o meu intuito não é resolver o mistério do Regicídio, mas sim esclarecer sobre o que se passou na tarde daquele dia, em 1908, no Terreiro do Paço. Não porque não gostasse de desvendar esse mistério, mas porque os dados que permitiriam saber o que verdadeiramente esteve por detrás do atentado têm sido sistematicamente ocultados.

Embora se saiba, sem margem para dúvidas, que uma conjura de monárquicos, mais concretamente de gente da Dissidência Progressista, liderada por José de Alpoim e pelo visconde da Ribeira Brava, esteve na base da conspiração. Diz José Luciano de Castro, em «Documentos Políticos»: «Os dissidentes, que para a generalidade do país, são os principais responsáveis da tragédia do 1 de Fevereiro de 1908, e que, se não destruíram a monarquia foi porque não puderam».

No meu romance «A Sinfonia da Morte» encontro uma explicação plausível e na qual acredito; mas trata-se de uma ficção, onde as suposições (plausíveis ou não) são permitidas. Inclusivamente, nos chamados romances históricos, é pelos hiatos da documentação histórica que a teia da ficção passa e se constrói. Mas hoje, ainda não vos falarei da tal célula clandestina dentro da própria Carbonária, a «Coruja» que terá, segundo se julga saber, planificado o crime. Isso ficará para um outro texto. Hoje vou falar do que se passou no Terreiro do Paço em 1 de Fevereiro de 1908, cerca das 17 horas. [Read more…]

A Formiga Branca (Memória descritiva)


Elementos da Formiga Branca no Arsenal da Marinha.

A luta política na I República entre os diversos partidos e movimentos e, no interior de cada um deles, entre sensibilidades ou tendências, fez-se com uma violência que não se quedou – como acontece nos dias de hoje – pelas batalhasoratórias: atentados, arremesso de bombas, os espancamentos, eram, infelizmente, coisa vulgar. Como se sabe, foi o facto de os diferentes movimentos políticos não se terem entendido que conduziu ao caos político, social e económico, e, consequentemente, à extinção da I República.

Com a eleição de Manuel de Arriaga, a 24 de Agosto de 1911, o Governo Provisório, constituído após a implantação da República, apresentou a sua demissão. Nessa altura, eram já públicos os desentendimentos entre os líderes republicanos. Manuel de Arriaga, apoiado por António José de Almeida e Brito Camacho, obteve 121 votos, contra os 81 de Bernardino Machado, aliado de Afonso Costa. No Outubro seguinte, reuniu o Congresso do Partido Republicano e o novo Directório eleito ficou quase exclusivamente constituído por elementos ligados a Afonso Costa, facto que determinou uma primeira segmentação do PRP. [Read more…]

O Terramoto de 1755 e a cultura europeia da época

Em textos anteriores, vimos já que se perdeu muita coisa importante no Terramoto de 1755 – os seis hospitais da cidade, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza, o Palácio Real, a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega palácios, igrejas, bibliotecas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes… Na «Gazeta de Lisboa» do dia 6 de Novembro, afirmava-se que «O dia primeiro do corrente mês ficará memorável pelos terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade». Diga-se, de passagem, que a «Gazeta» nunca interrompeu a sua publicação devido ao sismo, constituindo uma importante fonte de informação sobre o que aconteceu. Vimos já, como dizia, o que se perdeu, relação enriquecida com um excelente comentário do aventador Nuno Castelo-Branco.

O que se ganhou, também sabemos: uma cidade nova, muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos, surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo. [Read more…]

Questões e alternativas (Memória descritiva)

Já aqui tenho falado desta revista que um grupo de amigos editou em 1984 e da qual se publicaram quatro números. Até reproduzi, com algumas alterações, textos ali publicados e que entendi manterem alguma actualidade. A «Questões e Alternativas» foi uma iniciativa editorial que se baseou em reuniões de alguns militantes de esquerda, maioritariamente saídos do PRP, mas também do MES, da FSP, da LCI, da LUAR. E alguns independentes. Pode contar-se assim a história:

No chamado núcleo duro do projecto, só sábios éramos nove: o Carlos Leça da Veiga, médico, o Rui de Oliveira, médico também, a Augusta Clara Matos, bióloga, o Jaime Camecelha, bancário e dirigente cineclubista, o Bruno da Ponte, editor, a Clara Queiroz, professora universitária, o João Machado, sociólogo, o Pedro Ramalhete, na altura ainda estudante de Sociologia, e, como dizia o outro, um nono sábio que a modéstia me impede de designar.

Corria o orwelliano 1984. Não se vivia a realidade distópica que o escritor irlandês criara na sua famosa ficção, mas vivia-se um tempo de difícil transição, de ajustamentos, de receios com fundamento. O socialismo real afogava-se no vómito dos erros cometidos, de numerosas traições ao espírito solidário e fraterno do comunismo. Aqui, Eanes ia, de hesitação em inacção, cedendo passo ao bloco central que chegava através de Mário Soares e do seu slogan de «socialismo em liberdade» (que nós prontamente traduzimos por «capitalismo à solta»). [Read more…]

A Revolta de Fevereiro de 1927 – Lisboa – a «Revolução do remorso» (Memória descritiva).

A partir de 5 de Fevereiro de 1927 começaram a verificar-se em Lisboa greves e agitação nos meios operários, solidários com os revoltosos do Porto. Os trabalhadores, pelo menos os mais politizados, sentiam-se revoltados com a imobilidade dos militares que, sabendo o que se estava a passar no Porto, salvo raras excepções, se mantinham nos quartéis. Operários socialistas, anarquistas, comunistas, de uma forma geral, organizados na Confederação Geral dos Trabalhadores, incitaram os militares a sair para as ruas.

Na verdade, o que estava planeado era que, 12 horas depois do levantamento militar do Porto, a revolta deveria eclodir em Lisboa, onde as unidades militares apoiadas por civis enquadrados pelas organizações operárias e democráticas, deveriam boicotar o envio de reforços às tropas governamentais no Norte, e imobilizar o aparelho militar e repressivo, dando tempo a que se consolidasse a situação no Porto o movimento se estendesse a unidades de outras regiões. Nada disso aconteceu [Read more…]

4 de Fevereiro de 1961 – Acontecimentos de Luanda

Na Madrugada do dia 4 de Fevereiro de 1961, grupos de guerrilheiros angolanos, comandados por Neves Bendinha, Paiva Domingos da Silva, Domingos Manuel Mateus e Imperial Santana, num total de cerca de duzentos homens, armados com catanas, desencadearam uma série de acções na cidade de Luanda,

Um desses grupos montou uma emboscada a uma patrulha da Polícia Militar, neutralizando os quatro soldados, tomando-lhes as armas e as munições. Com o objectivo de libertar os presos políticos, assaltaram a Casa da Reclusão Militar, o que não conseguiram.

Outros alvos foram a cadeia da PIDE, no Bairro de São Paulo e a cadeia da 7ª Esquadra da PSP, onde havia também presos políticos. Tentaram igualmente ocupar a «Emissora Oficial de Angola», estação de rádio ao serviço da propaganda do Estado.

Nestas acções, morreram quarenta guerrilheiros, seis agentes da polícia e um cabo do Exército Português, junto da Casa da Reclusão.

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), considera o 4 de Fevereiro como data do início da luta armada em Angola. No entanto, na origem desta rebelião esteve o cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves (1896-1966), mestiço, natural da vila do Golungo-Alto, missionário secular da arquidiocese de Luanda, o qual não estava ligado ao MPLA.

(Fonte; BRANDÃO, José, «Cronologia da Guerra Colonial», Prefácio Editora).

A Revolta de Fevereiro de 1927 no Porto – 2 (Memória descritiva)

Parlamentários dos revoltosos, o comandante Jaime Morais e o major Severino, vendados, a caminho do quartel-general do Ministro da Guerra, tenente-coronel Passos e Sousa, instalado num prédio da Avenida das Devezas, em Gaia.

Como já disse, as operações de cerco aos revoltosos eram dirigidas pessoalmente por Passos e Sousa, ministro da Guerra e pelo coronel João Carlos Craveiro Lopes, pai do futuro presidente da República, Francisco Higino Craveiro Lopes. Um dispositivo que ia, a cada hora que passava, sendo reforçado pelo afluxo de tropas, transformou o centro da cidade ocupado pelas tropas rebeldes numa zona onde nada podia entrar ou sair.

Com as atenções focadas em Lisboa, onde o movimento parecia finalmente arrancar, os revoltosos resistiram durante os dias 5, 6 e 7 de Fevereiro à crescente agressividade das ofensivas lealistas, mas à medida que as horas passavam e as munições se iam esgotando, ia aumentando o número dos que entendiam que a rendição era inevitável Preocupado com o que estava a acontecer, Raul Proença regressou a Lisboa na noite de 6 de Fevereiro para pedir auxílio e para tentar activar a já desencadeada revolta na capital.

Pôde verificar que, ao contrário do que se pensava no Porto, apenas tinha havido movimentações de trabalhadores greves e agitação, movimentos de solidariedade com os democratas portuenses. A tropa continuava nos quartéis. Em Lisboa a agitação alimentava-se com a solidariedade para com as vítimas de uma tragédia, verdadeira, mas pintada com cores catastrofistas. No Porto, a resistência ia buscar forças à ilusão de que em Lisboa a revolta ia de vento em popa e que em breve a ajuda chegaria. Segundo parece, os resultados da viagem de Raul Proença foram esclarecedores, mas nulos. [Read more…]

A Revolta de Fevereiro de 1927 no Porto – 1 (Memória descritiva)

Menos de oito meses depois do pronunciamento de 28 de Maio de 1926, no dia 3 de Fevereiro de 1927, faz hoje 83 anos, desencadeava-se no Porto um amplo movimento republicano e democrático, civil e militar, contra a Ditadura. A Revolta de Fevereiro de 1927, por vezes também referida como Revolução de Fevereiro de 1927, foi uma rebelião militar que ocorreu entre 3 e 9 de Fevereiro de 1927, desencadeada no Porto, cidade onde estava instalado o posto de comando dos insurrectos e se travaram os principais recontros, estendendo-se a partir do dia 5 a Lisboa.

Na génese deste levantamento terá estado o chamado «Grupo da Biblioteca Nacional». Alguns dos seus elementos tinham manifestado um sentimento de expectativa, quase de apoio, relativamente ao golpe militar de 28 de Maio de 1926, pois, como muitos outros portugueses, entendiam que era preciso pôr alguma ordem no caos que se vinha agudizando na vida política, económica e social do País.

No entanto, Ditadura Nacional, depressa começou a abandonar o seu carácter de medida transitória de normalização, como fora prometido, e a assumir um carácter protofascista, com o apoio da Igreja Católica e de algumas franjas sociais e intelectuais. [Read more…]

Le Temps des cerises (Memória descritiva)

Concluído em Novembro de 1870 o processo de unificação dos 25 estados germânicos, no dia 18 de Janeiro de 1871, passaram há pouco 139 anos, era proclamado o Império Alemão. Em Abril a Constituição ideada por Otto von Bismarck entraria em vigor. Nada disto seria de estranhar se Guilherme I, o soberano alemão, não tivesse sido coroado imperador do Segundo Reich na sala dos espelhos do Palácio de Versalhes. Foi uma humilhação excessiva aquela a que os franceses foram submetidos.

Era a consequência da derrota da França na recente guerra com a Prússia. A causa próxima desse conflito fora a candidatura de Leopoldo Hohenzollern ao trono de Espanha. Mais bem preparado, o exército prussiano, deflagrada a guerra em 19 de Julho de 1870, infligiu sucessivas derrotas aos franceses, aprisionou o imperador Napoleão III em Sedan, e em breve cercava Paris. Foi proclamada novamente a República na capital francesa, tomando posse um Governo Provisório de Defesa Nacional presidido por Louis Adolphe Thiers.

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O Regicídio (Centenário da República)

Já muita coisa foi dita sobre o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, data sobre a qual passa hoje o 102º aniversário. As versões do que se passou são muitas e, segundo pude apurar, raramente se aproximam da verdade. As que li nos jornais da época, contradiziam-se entre si. As próprias imagens divulgadas não são aceitáveis. Por exemplo, o desenho que vemos acima, publicado na «Ilustração Portuguesa» (e reproduzido de uma revista de Londres), não é rigoroso. A perspectiva que vemos só poderia ter sido tomada já na Rua do Arsenal. Ora, o Buíça que vemos a ser acutilado pelo oficial da Guarda, ficara ainda no Terreiro do Paço, de onde disparara, aí sendo morto.

Aliás, está errada, como todos as outras reconstituições que foram aparecendo em publicações portuguesas e estrangeiras, dezenas e dezenas de versões iconográficas do atentado. São todas elas mais ou menos fantasiosas. Ou seja, podem ter um ou outro pormenor correcto, mas logo falham, por exemplo, na localização dentro do landau dos quatro membros da família real, no posicionamento dos regicidas ou na correcção do cenário. [Read more…]

31 de Janeiro (Centenário da República)

O levantamento militar de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, foi a primeira tentativa de derrube do regime monárquico pela força. Desde 1880, quando das comemorações do tricentenário de Camões, que, em crescendo, o ideal republicano e a capacidade de organização dos seus militantes, inclusive no seio das Forças Armadas, fazia prever uma rebelião.

A cedência do Governo e do rei perante o ultimato britânico de 1890 (a questão do Mapa Cor-de-Rosa, já aqui abordada) tinha deixado profundo um travo de humilhação, nomeadamente entre os militares. O directório do Partido Republicano Português, liderado nessa altura por Elias Garcia, mostrara-se favorável à preparação de um movimento insurreccional.

Porém, com alguma precipitação, sem deixar que os preparativos se consumassem, a classe de sargentos pressionou os responsáveis locais e a revolta eclodiu. Haviam chegado ao Porto ordens de transferência que afectavam alguns oficiais e, sobretudo sargentos, o que levou a um descontentamento quase generalizado. [Read more…]

Israel – como terá começado o sarilho? (Memória descritiva)

Li há tempos, num suplemento do El País, que os fundamentalistas islâmicos reclamam o Al Andalus como sua velha pátria. Todos sabemos que os Árabes ocuparam grande parte da Península durante mais de sete séculos, criando aqui uma civilização de um grande esplendor. De maneira brilhante, o aventador Frederico Mendes Paula tem falado desse período da nossa história que teimamos em ignorar.

Mas, uma coisa é cometermos o erro de rejeitar, ignorando-o, uma parte do nosso passado histórico, outra coisa é tentar reconstituí-lo. E outra coisa ainda, essa perfeitamente disparatada, seria considerar que o facto de terem ocupado este território durante quase oito séculos confere aos muçulmanos o direito de voltar como seus proprietários.

Porque antes dos Árabes, estiveram os Romanos, e antes destes os Fenícios, os Gregos, os Cartagineses e antes desses… Desgraçados de nós, para onde iríamos? Com tantos senhorios a quem pagar renda, como nos arranjaríamos? Pois, esta situação que aplicada à nossa terra logo vemos ser absurda, passou-se com os Palestinianos. Num livro muito antigo e com o qual eles nada têm a ver, está escrito que ali foi o berço de Israel. E, assim, foram desapossados das suas casas, das suas terras, das suas árvores…

Hoje, o Estado de Israel é um país da Ásia Ocidental situado na margem oriental do Mar Mediterrâneo, com uma área de 20 770 / 22 072 km². As suas fronteiras não fixadas oficialmente, situa o Líbano a Norte, a Síria e a Jordânia a Leste e o Egipto a Sudoeste. A Cisjordânia e a Faixa de Gaza, confinam também com Israel. Tem uma população de cerca de 7,5 milhões de habitantes, dos quais 5,62 milhões são judeus. Dentro do segmento árabe, predominam os muçulmanos, havendo ainda cristãos, drusos, samaritanos e outros. Gostemos ou não, é uma realidade.

O problema judaico tem origens remotas, pré-bíblicas, de que todos já ouvimos falar. Hoje queria apenas lembrar como é que a questão surgiu, no seu formato contemporâneo. O sionismo (palavra com origem em Sion, uma colina da antiga Jerusalém), eclodiu na Europa em meados do século XIX como reacção ao anti-judaísmo que nunca deixou de se verificar. Esta semana, tendo-se comemorado o »Dia do Holocausto», na quarta-feira passada, dia 27 de Janeiro, é uma boa altura para recordarmos como é que este problema se gerou. [Read more…]

A Colónia de Sacramento (Memória descritiva)

A Colónia de Sacramento, foi uma povoação fundada pelos portugueses em 1680 na margem esquerda do rio da Prata, em território perto de onde actualmente se situa a cidade de Montevideu, capital do Uruguai. Como é que os portugueses foram criar um entreposto já em território da coroa espanhola?

Quando D. Manuel Lobo assumiu o cargo de governador do Rio de Janeiro, em 1679, recebera em Lisboa ordens do rei D. Pedro II para ir até ao rio da Prata e aí fundar uma colónia fortificada que servisse de apoio logístico ao comércio com as províncias colonizadas pelos castelhanos. O rei correspondia a pedidos da Câmara Municipal do Rio e, certamente, aos interesses dos comerciantes locais, interessados em expandir os seus negócios.

D. Manuel Lobo organizou uma expedição em que levou, além de agricultores com suas mulheres e filhos, artífices de várias especialidades e, naturalmente, clérigos e soldados. No dia 22 de Janeiro de 1680, fez portanto, há dias, 330 anos, a colónia foi solenemente fundada, num promontório próximo da actual cidade de Montevideu. Nome muito português: Colónia do Santíssimo Sacramento. [Read more…]

O grande terramoto de 1755

O sismo que conhecemos como o Terramoto de 1755, é por muitos considerado como o maior sismo de que há notícia histórica. Lisboa, por ser a mais importante cidade atingida, deu-lhe o nome, mas o abalo foi sentido com violência também no Algarve, no Sul de Espanha e em Marrocos. Sem causar prejuízos, sentiu-se em toda a Europa, nos Açores e na Madeira. Para Norte de Lisboa, a intensidade foi sendo menor, embora registando-se danos em Alenquer, Torres Vedras e Óbidos.

Em Lisboa, no dia um de Novembro, um sábado, o tempo estava quente para a época, atribuindo-se essa circunstância a uma antecipação do Verão de São Martinho. A temperatura andava na ordem do 14 graus centígrados. Em 31 de Outubro a maré atrasara-se mais de duas horas. A hora a que o sismo teve início é objecto de alguma controvérsia, podendo ser calculado entre as 9,30 e as 9,45. [Read more…]

Centenário da República: o 28 de Janeiro de 1908

Vou hoje lembrar o dia 28 de Janeiro de 1908, um marco na caminhada para a proclamação da República. Porque o Partido Republicano não fora criado com o objectivo de ser mais um partido a participar nas disputas parlamentares. O objectivo dos republicanos era, desde o início, a tomada do poder, o derrube da Monarquia, a proclamação da República.

Sabendo-se isto, é evidente que o comportamento dos partidos monárquicos e do próprio rei, não foram os mais adequados. Pelo contrário – com displicência de quem nada teme, foram, dia a dia, caso a caso, escândalo a escândalo, fornecendo achas para a fogueira em que a Monarquia se iria consumir.

Os partidos do Poder estavam fragilizados. Em 1901, João Franco, seguido por 25 deputados, saíra do Partido Regenerador, criando o Partido Regenerador Liberal. No Partido Progressista dera-se também uma cisão: em 1905, José Maria Alpoim, visconde da Ribeira Brava, com mais seis deputados, saiu e criou a Dissidência Progressista. Verificando o rei D. Carlos que a rotatividade entre os partidos Progressista e Regenerador não correspondia às exigências da governação, estabeleceu em 1907 uma ditadura administrativa com João Franco à cabeça.

Neste quadro em que os partidos se digladiavam, enfraquecidos internamente, e a própria Casa Real se desacreditava com a questão dos adiantamentos, com o despesismo ostensivo de D. Carlos e com uma crónica de escândalos que o monarca alimentava, o Partido Republicano movia-se com facilidade, explorando os erros cometidos pelos adversários. E gozava de um amplo apoio popular, pois o povo vivia mal, como sempre vivera, só que agora, mercê da propaganda republicana, tomava consciência da sua miséria. Brito Camacho, dizia sobre João Franco, “havemos de obrigá-lo a transigências que rebaixam ou às violências que comprometem”. [Read more…]