Poemas com história: Defesa de um ladrão de fogo

Este poema, publicado em «O Cárcere e o Prado Luminoso», terá sido escrito pouco antes da Revolução de Abril, quando a luta armada, através das acções da LUAR, da ARA e das BR, começava a ferir as estruturas militares da ditadura. Em 1973, Outubro, salvo erro, aderi ao Partido Revolucionário do Proletariado, que se formara em Setembro, em Argel. Como se sabe, o PRP apareceu como estrutura política das Brigadas Revolucionárias, que já existiam e operavam. Ladrões de fogo era uma designação que eu usava, desde há muito tempo, para os que lutavam contra o regime, fazendo apelo ao mito de Prometeu. O poema é, portanto, uma auto-justificação e, num sentido mais amplo, uma explicação dos mecanismos que levam os homens a pôr em causa a sua liberdade e até o seu bem-estar para lutar por uma causa. Neste caso, o roubar o fogo do Olimpo, o poder, retirando-o da mão dos deuses, os oligarcas, e entregando-o ao povo. Passado este tempo, vejo que apenas simbolicamente o fogo está em poder do povo. Mas já todos aqui conhecem o que penso sobre a Democracia que temos. Vamos mas é ao poema. [Read more…]

A máquina do tempo: montanha mágica

A mesma sala tem dimensões diversas consoante a apreciamos na infância ou na idade adulta – às crianças as coisas parecem sempre maiores, por razões óbvias de diferença de escala. Quantas desilusões temos ao regressar em adultos a locais «grandiosos» da nossa infância e os encontramos pequenos, acanhados, insignificantes… Tinha os meus dezasseis anos quando li «Montanha Mágica», de Thomas Mann. Li-o numas férias de Verão na Biblioteca Nacional que funcionava ainda no velho edifício do Largo da Biblioteca, junto à Rua Vítor Córdon, pegado com a Escola Superior de Belas Artes.

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A máquina do tempo: a declaração universal dos direitos humanos

Comemora-se hoje o 61º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.  O seu primeiro rascunho deve-se ao canadiano John Peters Humprhey, recebendo depois contributos de muitas outras pessoas de outros países entre as quais se conta Eleanor Roosevelt. . Em 10 de Dezembro de 1948 a Assembleia Geral da ONU aprovou os seus 30 artigos. Estava ainda muito viva a recordação da 2ª Guerra Mundial, onde todos os princípios básicos da convivência entre seres humanos tinham sido barbaramente violados.

Esta declaração universal, a ser respeitada, acabaria imediatamente com quase todos os males que afligem a Humanidade. Dado que o acesso a todo o seu articulado é fácil, apenas vou lembrar o artigo 1: «Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e de consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

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A máquina do tempo: esquecer ou não esquecer

 Dizem-me que já não tem interesse falar nestas questões do fascismo, do nazismo, do Holocausto, da resistência à tirania… Que já não se usa, que são temas muito batidos. É precisamente por isso, por «já não ter interesse» que não me calo e nunca deixarei de falar nesses temas que já foram vistos por milhares de ângulos e que, mesmo quando julgamos estar a ser originais, mais não fazemos do que repetir o que outros já disseram. Não me importa, pois trata-se, não de uma questão de originalidade, mas de um imperativo – não esquecer.

 Tenho aqui falado da grande quantidade de franceses que, durante a ocupação alemã (1939-1944), colaborou com os invasores nazis. Porém, é preciso dizer-se que muitos outros, resistiram, organizando-se e lutando. Muitos deles pagaram com a vida essa patriótica atitude. Dizer-se que a França resistiu heroicamente à ocupação germânica, seria um exagero e um falseamento da verdade histórica. Tão grande e tão grave como dizer-se o contrário. É que a verdade tem sempre, no mínimo, duas faces.
 

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A máquina do tempo: Víctor Jara

A música para este poema de Pablo Neruda – «Poema 15», «Me gustas cuando callas» – foi escrita por Víctor Jara, que interpreta também a composição. Todos ouviram já falar do cantautor Víctor Jara. Até existe em Portugal um agrupamento chamado Brigada Víctor Jara. Alguns até devem saber que era chileno. Outros, indo um pouco mais longe no conhecimento sobre este grande cantor, saberão que foi assassinado nos primeiros dias da feroz repressão que se seguiu ao golpe de estado de Pinochet. Vou hoje falar sobre esse homem que se transformou num dos símbolos da heróica resistência chilena à ditadura militar. Sábado passado, dia 5, foi realizada uma cerimónia, um segundo funeral do grande músico, já que o primeiro se fez clandestinamente. Desta vez, uma multidão acompanhou Jara  – sobreviventes da ditadura e do exilio. O cantor catalão Joan Manuel Serrat escreveu um texto de homenagem. Trinta e seis anos depois, Víctor Jara teve um funeral condigno. [Read more…]

Clube dos Poetas Imortais: António Maria Lisboa (1928-1953)

Poucos escritores portugueses, como aconteceu com o poeta surrealista António Maria Lisboa, que morreu tuberculoso e louco com 25 anos, terão num percurso tão curto como dele, marcado tão indelevelmente a literatura do seu tempo . Em «O senhor cágado e o menino», auto-retrata-se nestas palavras: «O Menino de bronze repousa na solidão da lua nasceu-lhe um olho de chacal que é o animal que só passa nos caminhos livres e são todos – os lobos é que andam à espreita – e o coração é de Leão. E esta é a sua Lealdade e o seu Amor como o Destino e o seu Sentido que tem e chama-se António Maria Lisboa.»

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Poemas com história: Pedreira dos Húngaros

Na sequência da Revolução de Abril, o projecto SAAL tentou resolver o problema dos bairros de lata que enxameavam as cinturas industriais de Lisboa, Porto e Setúbal, principalmente. Hoje, os bairros de lata foram em parte erradicados, mas substituídos por outra dramática tipologia – a dos bairros degradados. Há, entre uma coisa e outra, diferenças quantitativas e qualitativas. Porém, a questão central mantém-se, porque se é verdade que, tal como acontecia nos bairros de lata, os bairros degradados abrigam muita marginalidade (roubo organizado, tráfico de droga, prostituição…), paredes meias com essa marginalidade, convivem pessoas honestas, que trabalham ou estão desempregadas, e que vêem os seus filhos crescer num ambiente que pode, à partida, condicionar negativamente o trajecto das suas vidas.

 

Este poema foi inspirado no trabalho  voluntário, de levantamento, sobretudo, que, prévio ao projecto SAAL, desenvolvi em bairros da periferia da grande Lisboa – Pedreira dos Italianos, Pedreira dos Húngaros (que chegou a ter 30 mil habitantes), Fim do Mundo, Marianas… Ali arranjei grandes amigos e como feito de que me orgulho consegui, num desses bairros, no do Fim do Mundo, perto do Estoril, sentar à mesma mesa, à volta de umas cervejas e de um qualquer petisco, os líderes das comunidades cigana e cabo-verdiana (em guerra permanente). Desconfiados, preconceituosos, o convívio não começou bem, pois desataram a desfiar recriminações, mas diversas imperiais depois, já se estavam a tratar por tu e a falar normalmente.

Um dia um amigo da Pedreira dos Húngaros, onde hoje se ergue o bairro de Miraflores, um cabo-verdiano que gostava muito de ler (sobretudo boa literatura policial), levou-me à sua barraca. Chovia torrencialmente e, indiferentes à chuva, as crianças brincavam alegremente esparrinhando a água nas poças. O Miguel apresentou-me a mulher e os filhos pequenos e, depois de eu ter visto as terríveis condições em que viviam, teve este desabafo: – Estás a ver, Carlos, sou pedreiro, faço casas para os outros e moro, com a mulher e os filhos, numa barraca. De facto ele era operário da construção civil e esta frase tão simples, além de desencadear mais um dos meus poemas panfletários (escrito em 1975, inédito até hoje), valeu-me por mil lições de economia política.

Pedreira dos Húngaros

A pedreira é chaga que te arde na cintura,

cidade plantada a ocidente, em carne viva,

mar de lama, rosa de pus,  gaivota esquiva –

pedreira – adaga que apunhala a noite escura.

 

É uma face turva, a faca curva que perdura,

em ti, urbe prisioneira, da negra luz  cativa.

É  bandeira da morte que drapeja altiva

a norte da verdade, em ti, cidade-desventura.

 

Sinto vidro moído à deriva num pulmão:

num labirinto percorrido por fera à solta.

procuro em vão saída para a claridade.

 

Morde-me a memória a malsã recordação

da realidade que em ti arde á nossa volta.

Pedreira, morte em flor na cintura da cidade.

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A célebre canção do Zeca, «Os Índios da Meia Praia», baseia-se também num episódio do projecto SAAL. Vamos ouvir mais, uma vez:

 

 

A máquina do tempo: vitória do Grande Irmão e triunfo dos porcos (da distopia ficcional ao lixo televisivo)

A expressão «Grande Irmão», «Big Brother», apareceu no romance distópico de George Orwell «1984». O palavrão «distópico», significa o inverso de «utópico» (peço desculpa a quem sabia).  Publicado em 1949, aludia ao perigo de um regime totalitário ao serviço de uma oligarquia assumir o controlo de uma vasta região do planeta. George Orwell foi o pseudónimo do escritor britânico Eric Arthur Blair (1903-1950). A inspiração, tê-la-á ido buscar às ditaduras que soçobraram com a II Guerra, a alemã e a italiana, e a outra que lhe sobreviveu – a estalinista. Orwell não era um homem de direita. Ligado ao POUM – Partido Obrero de Unificación Marxista, movimento trotskista – combateu em Espanha, em Huesca, na Frente de Aragão, contra as tropas fascistas de Franco e foi ferido. Baseado nessa experiência, escreveu «Homenagem à Catalunha» («Homage to Catalonia», 1938).

 

Além destes dois livros, Orwell escreveu outros, nomeadamente «Animal Farm» (1945), uma clara sátira ao estalinismo que na edição portuguesa recebeu o título de «O Triunfo dos Porcos». É deste livro a célebre frase «todos os animais são iguais; mas alguns são mais iguais do que outros».

 

 

 

 

«Nineteen Eighty-Four» relata a história de Wiston Smith, que, aliás, é o narrador, cidadão anónimo de um estado totalitário, onde se pratica a repressão a todos os níveis. Smith trabalha na propaganda do estado, na falsificação dos documentos históricos – incluindo os jornais – à medida das conveniências, a história é diariamente emendada – tudo o que no passado contraria o presente, é refeito. Pessoas que caem em desgraça são suprimidas da história, para os «heróis» da altura, criam-se currículos gloriosos, fotografias são manipuladas – só existe uma verdade, a verdade do «Grande Irmão».

 

Como os jornais e os livros só podem ser consultados na teletela (monitores de função dupla que mostram e captam imagens), os cidadãos sabem que a «verdade» é o que, no momento, a teletela lhes afirmar. Ao mesmo tempo, as teletelas que existem por todo o lado, no trabalho, nas ruas, nas casas, vigiam todos os gestos dos cidadãos.

 

O «Grande Irmão», rosto fictício do regime oligárquico, aparece frequentemente a dar as suas directivas: «guerra é paz», «ignorância é força», «liberdade é escravidão», são algumas dessas consignas. Ao denunciar o perigo dos totalitarismos, o livro é também uma história de amor. De luta do amor contra a tirania, no espírito de poemas que aqui já recordei – «Notícias do bloqueio», de Egito Gonçalves, e «A Invenção do amor», de Daniel Filipe.

 

Socialista democrático, Orwell esclareceu que o romance não foi, como se disse na Inglaterra daqueles anos do pós-guerra) concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista, mas sim como uma denúncia das perversões dos ideais colectivistas, das políticas de massas, como o fascismo e o estalinismo. Significativamente, o livro foi proibido na União Soviética e nos outros estados de Leste.

 

Como é que um livro tão belo e de uma concepção tão elevada aparece ligado a um programa de televisão de nível tão rasteiro, a um reality show tão grosseiro como o «Big Brother»? O holandês John de Moll, pegando na expressão e na ideia básica de um olho omnipresente que tudo vigia e controla, concebeu o programa. Midas tudo o que tocava se convertia em ouro. O capitalismo, tudo o que toca, transforma-se em excremento. O negócio não respeita nada a não ser a percentagem de lucro que vai obter.

 

Já aqui tenho falado da profecia de Marlon Brando que, numa das suas últimas entrevistas, falando dos reality shows, dizia que não faltava muito para que as pessoas viessem defecar diante das câmaras para incrementar as audiências. E, já agora deitemos uma olhadela à «casa» do «Grande Fratello». Um concorrente ameaça cumprir a profecia de Marlon Brando, defecando à vista das câmaras, é eloquente quanto ao elevado nível cultural do programa. Reparem no vídeo sobre o «Grande Fratello» italiano:

 

 

 

 

«Mauro agride Verónica» (…) «Noite de violência no Grande Fratello. E, seguramente, uma expulsão em perspectiva» (…) «Esta noite na Casa verificaram-se episódios totalmente incorrectos e contrários às normas, não só do Grande Fratello, como também da convivência social». São notícias de jornais italianos da semana passada. Lembram-se da agressão do Marco à Sónia? Não que eu tenha a mania das teorias da conspiração, mas não é curioso que em Itália, anos depois se passe exactamente o mesmo que em Portugal? No «Gran Hermano», aqui ao lado, também houve bronca a semana passada. Vejamos o vídeo do «Gran Hermano» da Telecinco espanhola:

 

Dizem os jornais: «Expulsa outra concorrente do «Gran Hermano» após uma zaragata com uma companheira: Indhira não controlou os seus impulsos e agrediu e insultou Carol».(…)«Pela segunda vez esta edição, um concorrente de «Gran Hermano» foi expulso de modo disciplinar após forte zaragata com um dos seus companheiros. Neste caso, foi a malaguenha Indhira que não pôde controlar os seus impulsos durante uma discussão com Carol, acabou por a agredir e insultar».

 

Anuncia-se uma nova série do «Big Brother» em Portugal. O modelo parecia esgotado, mas os crânios da TVI vão tentar insuflar-lhe nova vida. Porque, mundo fora, a droga holandesa da Endemol, vai vingando. Para os que acham que somos particularmente estúpidos e se autoflagelam com acusações aos portugueses, deixo mais um exemplo. Espreitemos o «Big Brother brasile
ir
o. O nível cultural dos participantes não fica nada a dever ao dos programas europeus. 

 

E, já agora, recordemos este momento de ouro da televisão nacional – o pontapé de Marco a Sónia:

 

Há aqui um padrão que se repete. Será que, pessoas de nível cultural básico, tal como os ratos de laboratório, quando enjauladas começam a ter um comportamento agressivo? Ou será que faz parte do guião do programa apimentá-lo com estas cenas deploráveis que, nesse caso, seriam preparadas? Seja como for, no meio de tanta porcaria, esse pormenor desonesto seria irrelevante. A questão que levanto é: por que razão gostam as pessoas de ver estas coisas?

 

Em 1984, o mundo não estava dominado por uma oligarquia como a que George Orwell previa na sua distopia ficcional. Porém 25 anos depois de 1984, temos uma oligarquia que se permite difundir à escala global uma cultura de destruição da cultura, de abolição do respeito que as pessoas a si próprias devem. Porque, derrubadas essas defesas, as pessoas ficam à mercê das diferentes formas de marketing que constituem uma arma mais poderosa do que cem bombas nucleares.

 

Mussolini, Hitler, Estaline, Franco. Salazar, Pinochet, não compreenderam a natureza humana. Acreditando na sua decência, criaram, para destruir pelo terror uma decência que podia ter sido aniquilada de forma menos traumática. Para quê aqueles horríveis aparelhos repressivos com tão mau aspecto – cárceres, torturas, campos de concentração…

 

Para quê um regime fascista, se cada ser humano, devidamente estimulado, destrói voluntariamente as defesas imunitárias do decoro e do auto-respeito? Se por dinheiro, tudo se faz? Para quê tropas na rua, polícias espiando, se a maioria das pessoas está disposta a destruir os princípios básicos da cidadania e a descer ao grau mais básico da escala comportamental. A troco de uns euros ou de uns dólares, séculos de civilização desaparecem. Sem violência visível, sem gastar dinheiro num aparelho policial e repressivo, o Grande Irmão triunfou.

 

É também o triunfo dos porcos.

 

A máquina do tempo: a XIX Cimeira Ibero-Americana de Lisboa, as Honduras e o bicentenário da independência

 

No próximo ano celebra-se o bicentenário de uma parte das nações latino-americanas. Essa luta de libertação foi particularmente empolgante pela grande solidariedade que existia entre os diversos povos e forças envolvidas na luta pelas independências nacionais. Por exemplo, os generais argentinos O’Higgins e San Martín atravessando a cordilheira dos Andes para libertar o Chile ou Simón Bolívar, nascido em Caracas, actual capital da Venezuela, avançando desde o norte do subcontintente, indo pela Venezuela e Colômbia, passando ao Equador para atingir o coração da América Latina e ali implantar uma nova nação – a Bolívia. Solidariedade que actualmente não se verifica, como se vê na posição que cada país da região toma face à grave crise hondurenha.

 

Neste momento, dois séculos depois dessa épica fraternidade, existe uma profunda divisão entre os países latino-americanos. Ilustrando bem essa divisão, no rescaldo da XIX Cimeira Ibero-Americana realizada no Estoril, e que terminou na passada terça-feira, salienta-se o facto de a crise nas Honduras, ter dividido os delegados das 22 nações representadas. A presidência portuguesa obteve uma declaração que condenando o golpe nas Honduras conseguiu reunir consenso. Porque os estados americanos de língua espanhola e portuguesa não se entendem quanto a este recente episódio da queda do presidente Manuel Zelaya, em 28 de Junho, e da não-legitimação das eleições .

 

A «Declaração de Lisboa» e os termos em que foi redigida, condenando «as graves violações dos direitos e liberdades fundamentais do povo hondurenho», mas não assumindo qualquer posição quanto à farsa das eleições de 29 de Novembro, demonstra bem a gravidade da divergência entre povos outrora irmãos. A clivagem faz-se entre os países que, alinhando a sua posição pela dos Estados Unidos – Panamá, Costa Rica, Colômbia e Peru – legitimam a vitória de Porfírio Lobo, e aqueles que consideram essas eleições aquilo que evidentemente foram – «uma paródia», como a classificou Cristina Kirchner, a presidente da Argentina; além deste país, recusam liminarmente a legitimação, o Brasil, a Venezuela, o Equador a Bolívia e Cuba.

 

Há depois os que assumem uma posição intermédia, apadrinhada por Espanha. José Rodríguez Zapatero reconheceu que se realizaram as eleições, conforme estava constitucionalmente previsto, mas em «circunstâncias anómalas». O Brasil, o gigante do hemisfério, apresentou a postura mais firme, recusando o resultado de umas eleições fraudulentas. Para que a beligerância dos discursos atingisse grandes proporções, faltou a voz de Hugo Chávez que não veio ao Estoril. Raúl Castro também não apareceu, fazendo-se representar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Bruno Rodríguez.

 

Todos os representantes presentes na cimeira do Estoril se comprometeram a colaborar no sentido de possibilitar um «diálogo nacional nas Honduras e a devolução do regime democrático ao povo hondurenho». Entretanto, em 27 de Janeiro, Porfírio «Pepe» Lobo toma posse e termina a hipótese do tal diálogo. Manuel Zelaya continua a ser o presidente constitucional, teoricamente em funções, embora na realidade esteja desde 22 de Setembro refugiado na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Por aqui se vê como foi pífia a decisão da cimeira.

*

Em resumo: não se chegou a acordo quanto às Honduras, nem quanto ao clima, um dos assuntos em que se deveriam ter centrado as conversações ibero-americanas, quando faltam poucos dias para abrir em Copenhaga a conferência da ONU sobre as alterações climáticas. Condenando a falta de resoluções concretas, activistas da Greenpeace escalaram durante a manhã de segunda-feira, dia 30 de Novembro, a Torre de Belém, para chamar a atenção dos líderes ibero-americanos. O protesto foi reprimido horas depois pela polícia, que deteve nove militantes da organização ecologista.

 

Entretanto, notícias da madrugada de hoje dão-nos conta da decisão do Congresso hondurenho ter votado contra o regresso de Zelaya à presidência para terminar o seu mandato. Dos 128 deputados, 78 votaram contra a restituição do mandato presidencial a Manuel Zelaya e 11 a favor, abstendo-se os restantes. Cada deputado pôde justificar o seu voto. Muitos dos que votaram contra, alegaram pretender «fortalecer a democracia», aludiram à «paz e tranquilidade do país», congratularam-se pela «limpeza» e pela «transparência das eleições». Alegou-se também a grande influência que Hugo Chávez exercia sobre o mandatário deposto. A palavra «pátria» entrou em quase todas as declarações de voto.

 

Por aqui se vê o que valem as palavras – gente que está a minar, a destruir a liberdade e a democracia na sua pátria, a apoiar o resultado de umas eleições que foram tudo menos transparentes e que uma grande parte da comunidade internacional se recusa reconhecer como legítimas, usa o nome dos valores que traiu para justificar a traição.

*

Voltando à próxima passagem, em 2010, do Bicentenário das primeiras independências de países latino-americanos, Ricardo Lagos, presidente da República do Chile entre 2000 e 2006, e que preside actualmente, com o escritor mexicano Carlos Fuentes ao Foro Ibero-América salienta num artigo publicado, sábado, 28, no El País, esta característica da luta de libertação dos povos da América Latina, colonizados até então pelo estado espanhol e por Portugal – a grande solidariedade entre os países irmãos que nasciam da extinção do império colonial espanhol. Chama-se esse texto «Uma nova independência» e termina assim:

 

«Celebramos estes 200 anos entendendo que agora, mais do que a afirmação da identidade nacional, devemos enfrentar em conjunto um processo de integração e, através desse processo, entender que nos reencontrámos com Espanha e Portugal para nos ajudarmos mutuamente na construção de um mundo melhor. Nesse contexto, as cimeiras ibero-americanas são determinantes no esforço por construir o início de uma comunidade de nações que, dos dois lados do Atlântico, compartilham ideias, história, língua e valores comuns. A partir da�
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essa comunidade entende que no século XXI temos um futuro para construir em conjunto. O bicentenário constitui uma oportunidade para renovar os laços de uma história que tem mais de 500 anos.»

 

Alusiva a essas figuras épicas e com base no XX poema do livro IV de «Canto General», de Pablo Neruda – (Los Libertadores), deixo-vos com a «Cantata a los libertadores», composta pelo argentino Raúl Mercado. É uma maravilha, o poema de Pablo e a música de Mercado, que dedico aos patriotas hondurenhos.

 

O’Higgins, para celebrarte

a media luz hay que alumbrar la sala…

 

 

 

A máquina do tempo: a Suíça e os minaretes

 

 

Domingo passado, dia 29 de Novembro, 57,5% dos eleitores suíços exprimiram em referendo o apoio à proposta do Partido Popular Suíço (SUP-UDC), uma organização ultra-direitista, de integrar na Constituição a proibição de construir minaretes nas mesquitas que se edifiquem em território helvético. O índice de participação foi de 55% dos eleitores recenseados. O resultado deste referendo não afecta os quatro minaretes existentes em mesquitas já existentes em território helvético.

 

 

aqui falei da Suíça, salientando a ausência de tragédia que assombra um país onde a grande tragédia, estatisticamente expressa no elevado número de suicídios, é precisamente essa extrema arrumação, a obsessão pela correcção e, sobretudo o facto de tudo isso, incluindo o elevado nível de vida que os cidadãos gozam, ser conseguido à custa dos negócios ínvios que para ali canalizam fortunas, protegidas pelo sigilo bancário blindado. No fundo, uma tranquilidade conseguida pelo preço da miséria, da exploração, da lepra do narcotráfico, das máfias, do tráfico de seres humanos, de tudo o que de podre, corrupto e horrendo se passa em redor da Suíça, no resto do mundo, em suma.

 

Mas que importa isso aos suíços se eles vivem bem e numa sociedade assepticamente organizada? Que lhes importou a II Guerra Mundial que dilacerava o mundo em seu redor? Isso era fora da Suíça, que tinham eles, povo neutral, a ver com os outros que se matavam entre si? Além disso, seis milhões de judeus eclipsaram-se em fumo, saindo pelas chaminés dos campos de extermínio. Muitos deles tinham contas nos bancos suíços e todo essas fortunas foram incorporadas no tesouro nacional. Morreram muitas dezenas de milhões de seres humanos? Que importa? Quem os mandou não ser inteligentes como os suíços?

 

Também já falei aqui do problema do Islão. Da intolerância da sua hierarquia clerical e da compartimentação cultural, semelhante à da nossa Idade Média. Quando duas intolerâncias colidem, o que acontece? Resultados como o do referendo de domingo em que os suíços recusam a existência de minaretes de mesquitas nas cidades da Confederação Helvética. Lamentável? Certamente.

 

      

A intolerância da clerezia islâmica baseia-se no pressuposto de que sendo a sua fé a única verdadeira, não fazem os cristãos (os infiéis) mais do que a sua obrigação em tolerá-la, sendo mesmo assim grave aos olhos de Alá o facto de não se apressarem a converter-se. Eles, possuidores da verdadeira e única fé, não têm de tolerar as falsas confissões. Exactamente a postura que na Idade Média levou os cristãos a empreender a triste aventura das cruzadas. Já aqui falei desse fenómeno da intolerância dos islamitas.

 

As fotografias que o João José Cardoso aqui publicou provam que não é por uma razão de ordenamento paisagístico, como alguns defensores do resultado do referendo afirmam, que os suíços recusaram a edificação de minaretes. É por medo. Justifica-se esse medo? Em parte sim. Os islamistas não brincam e entre inofensivos fiéis de Maomé que limitam a sua crença às cinco orações rituais e à observância das demais leis corânicas, misturam-se aqueles que acham que se «não vai a bem vai a mal».

 

Porque a verdade é que o índice de conversões ao islamismo entre as populações de acolhimento aos imigrantes muçulmanos é irrelevante – deve mesmo estar abaixo dos números obtidos pelas Testemunhas de Jeová. Não será pela prática do proselitismo que o Islamismo entrará nos países europeus de maioria cristã. A iniciativa de Kadhafi em Roma, ao reunir 200 boazonas para lhes falar do Islão (deixando muitas delas desiludidas, pois pensavam que iam para uma orgia de Berlusconi…), só nos pode fazer rir.

 

Nós cristãos, judeus, ateus, temos de fazer um esforço para compreender a maneira que os islâmicos têm de ver o mundo. Afinal eles são muitos milhões. Porém, enquanto eles não compreenderem também que há muitos mais milhões de pessoas no planeta que se estão nas reais tintas para o que Maomé terá dito ou não e que nunca conseguirão convencer-nos duma verdade que só o é para eles, nada feito. Há mesmo o perigo de uma grave confrontação, porque a cegueira dos fanáticos (os islâmicos, os judeus, os cristãos…) é enorme.

 

O sim suíço à proibição é lamentável. Atesta a existência de uma corrente dominante de islamofobia no pais e é um sintoma de medo e de intolerância. Não porque os activistas islâmicos sejam tolerantes e, por essa tolerância, mereçam reciprocidade. Mas porque a intolerância vinda do nosso campo só aumentará o ódio no campo deles. Demonstrar medo (porque foi isso que aconteceu domingo na Suíça), fornece-lhes argumentos e motivos para o seu fanatismo.

 

O que me parece pedagógico é aceitarmos que eles pratiquem livremente a sua crença entre nós e que tentem convencer-nos à vontade. Para mim e para os que pensam como eu, vêm de carrinho… Quanto ao terrorismo, sendo uma forma inaceitável de fazer política, tem de ser reprimido com firmeza, não por ser islâmico, mas por ser criminoso. A integração dos islâmicos nas sociedades europeias é a arma mais eficaz contra o fanatismo e contra o consequente terrorismo. Leis como esta que o eleitorado suíço acaba de aprovar são o que os extremistas querem – motivos para odiar e para matar.

 

O resultado deste referendo, fornece-lhes álibi para mais uma das suas sangrentas acções. Os islamitas honrados e trabalhadores, que são a esmagadora maioria, terão ficado tristes por este acto de descriminação para com a sua crença. Os outros, os islamistas fanáticos, minoritários, mas influentes e manipuladores, esfregam a estas horas as mãos de contentes.

 

E mais alguns dos primeiros, passam para o campo dos segundos.

 

 

A máquina do tempo: Bon colp de falç! – a Restauração portuguesa e a Catalunha (2)

 

(Texto de Carlos Loures e Josep Anton Vidal) 

No dia do Corpo de Deus (Corpus de Sang),grupos de ceifeiros que haviam chegado a Barcelona dias antes envolveram-se numa escaramuça com cidadãos, da qual resultou um ferido entre os ceifeiros. Este facto, quase insignificante, foi o rastilho que incendiou a pólvora. Os ceifeiros concentraram-se diante do palácio do vice-rei. Do palácio foram disparados alguns tiros. Um ceifeiro foi morto. Os ceifeiros e a população que a se lhes juntou dirigiram-se aos locais da cidade onde se sediavam os representantes da autoridade real. O Vice-rei tentou fugir por mar, mas foi surpreendido e executado. Os distúrbios duraram alguns dias e provocaram entre 12 e 20 mortos, em sua maioria funcionários reais.

Na Catalunha, como em Portugal, o que se passou e o que o Romantismo, dois séculos depois recreou, são coisas diferentes. Os «segadors» gritavam – «Viva a terra, viva o rei, viva a fé, morram os traidores!». Não se lutava pela independência, porque a Catalunha não perdera, pelo menos formalmente a independência. Não houvera nem anexação, nem conquista. Nem sequer a subida ao trono do território do rei castelhano, fora como em Portugal em 1580, antecedida de uma batalha em que, pese a legitimidade de Filipe, os patriotas tentaram pôr no trono um rei português. Em Portugal, a situação era, nesse aspecto, mais traumática, embora o reino conservasse as suas tradições, usos e costumes.

Na Catalunha, a luta dinástica verificara-se séculos antes, durante o reinado do último rei da Casa de Barcelona, Martí L’Humà. Não deixando descendência ao morrer, pois o seu único filho, Martí «o jovem», morrera na guerra da Sardenha, o conflito sucessório resolveu-se através do «Compromisso de Caspe» que entronizou na coroa de Aragão, a dinastia castelhana dos Trastâmara.

Por outro lado, a Catalunha estava habituada a compartilhar a soberania. Antes estivera ligada a Aragão, depois a Valência, a Maiorca, a Nápoles. Apesar de o rei ser castelhano(tinham sido os próprios reinos da Coroa de Aragão – no meio de intrigas políticas que não interessam para este caso – que haviam dado a coroa aos Trastâmara, no tal «Compromisso de Caspe», firmado em 1412. Portanto, os catalães sentiam-se num estado soberano e independente. Pelo menos até o punho de ferro de Olivares ter começado a destruir as prerrogativas dessa independência e soberania. Não lutavam contra o seu rei, mas contra quem pretendia governar ilegalmente, contra os «traidores». Contra Olivares.

*

Lembre-se que, paralelamente, em Portugal, também já desde 1635 que se verificavam levantamentos populares pelos mesmos motivos, ganhando maior expressão em 1637 com as chamadas «Alterações de Évora», entre Agosto e Outubro (vários estratos sociais se envolveram na sedição, que teve como inspiração a figura típica do «Manuelinho», que se transformou no símbolo da resistência contra os ocupantes estrangeiros). Mas eram «revoltas informes», «alterações», «motins», «comoções», coisas do povo, em síntese, sem forma corporativa estruturada.

Porque a nobreza e a burguesia letrada só se revoltaram quando foram atingidas pelas medidas centralistas do Olivares, mantendo-se calmos enquanto a Casa de Áustria lhes manteve as mordomias e a independência formal. Enquanto não lhes lesou os direitos. Mas, tentar desmontar este mito, o dos «valentes guerreiros» com o duque de Bragança à cabeça, fica para outra altura. Estamos a falar da Catalunha.

A morte do vice-rei assinalou uma importante mudança na percepção das relações da Catalunha com o seu rei. De alguma maneira, ressurgem as convicções pactistas: o rei governa, mas em obediência ao seu pacto com os súbditos. Com a intensificação das arbitrariedades e com a violência anexionista, as autoridades catalãs, consideram que o soberano desamparou o país, que quebrou o pacto estabelecido. Assim, procuraram novas alianças e encontraram-nas entre os inimigos do monarca espanhol, negociando a protecção de França, com a garantia de que a Catalunha se constituiria em República livre sob a protecção do monarca francês, ou seja, um novo pacto. A França proporcionou armas e meios e a Catalunha ergueu-se em pé de guerra (Guerra dels Segadors). O exército real, estacionado na zona sul da Catalunha (Tortosa), em Dezembro de 1640 põe-se em marcha. O objectivo era a conquista.

Mas a França tinha então um nome: Richelieu, e um desiderato – obter rapidamente a vitória num conflito que lhe daria a hegemonia europeia. O avanço das tropas de Filipe IV sobre a Catalunha, significava naquele momento um avanço sobre França, coerente com a estratégia de pôr cerco ao país por terra e por mar, para poder rematar com êxito o conflito pela hegemonia europeia. Os interesses da Catalunha nada significavam, nem para uns nem para outros.

As repetidas pressões de Richelieu, num momento de guerra aberta em que a ajuda francesa era imprescindível, conseguiram que, em Janeiro de 1641, Luís XIII de França fosse nomeado Conde de Barcelona, ou seja, soberano da Catalunha. O que isto significava na mentalidade política da monarquia francesa era «absolutismo». Em França não existia nem tradição nem a mentalidade de «pacto»; a autoridade do monarca era indiscutível. E nos anos que se seguirão, o domínio francês reproduzirá na Catalunha todos os males do governo castelhano, agravados, inclusive.

Com a Espanha derrotada em Vestefália, a guerra continuou na Catalunha; para Espanha era uma questão de segurança levar a fronteira até aos Pirenéus, mas era também uma questão de «dignidade» política; perdera muito no conflito e, entre esse muito, Portugal; tinha-se visto postergada na Europa, e enfrentava o rosto mais deprimente da sua própria imagem e não podia ceder. Para França era mais uma fustigação para o inimigo e a Catalunha era um território-tampão, era afastar a fronteira com Espanha que, com a Catalunha de permeio, ia até Salses, ultrapassada a face norte dos Pirenéus.

Como já se disse, a rebelião popular catalã prosseguia. O que ajudou foi o auxílio francês – o «Pacto de Ceret», firmado em 7 de Setembro de 1640 entre os líderes independentistas e o reino de França, determinou o envio de armas para a Catalunha. Olivares ordenou que se mobilizassem em Portugal entre 10 e 15 mil homens para atacar a Catalunha, o que determinou, como já vimos, a reacção de 1 de Dezembro. Em 26 de Janeiro, as tropas que o conde-duque conseguira reunir atacaram Barcelona, fracassando na tentativa de ultrapassar a fortaleza de Montjuic e sendo derrotadas. Contudo, pouco depois da vitória na batalha de Montjuic, morreu repentinamente Pau Claris (1586-1641), um clérigo, presidente da Generalitat catalã. Terá sido envenenado por agentes de Castela. Independente, a Catalunha lutou em aliança com os franceses contra os Habsburgos.

Em 1648, a eclosão da guerra civil em França, La Fronde, iria pôr termo ao auxílio francês à Catalunha, pois o jovem Luís XIV tenta chegar a acordo com a Casa de Áustria. Barcelona acabaria por cair nas mãos das tropas castelhanas após um cerco de 18 meses, rendendo-se em Outubro de 1652.

Após a queda de Barcelona, em 1652, quando as tropas castelhanas ocuparam praticamente todo o território catalão a sul dos Pirenéus, a França continuou a prestar auxílio aos catalães, cada vez mais exaustos; finalmente, quando a reconquista do território se tornou praticamente impossível para a Catalunha, a França (o monarca era agora Luís XIV, sendo o cardeal Mazzarino o seu homem de confiança), que prolongou o conflito numa guerra de desgaste, negoceia com Espanha o Tratado dos Pirenéus – que, por sua vez, significa a conclusão do de Vestefália – pelo qual retira as suas tropas das comarcas catalãs a sul dos Pirenéus, obtendo da Espanha a cedência das comarcas catalãs situadas a norte da cordilheira (o chamado Rossilhão, que incluía as comarcas pirenaicas do Conflent, o Capcir e o Vallespir, bem como metade da Cerdanya, uma comarca dos Pirenéus. Com o tratado dos Pirenéus Espanha não só pôs fim a um conflito, como «conscientemente» castigou a Catalunha, preferindo obter de França garantias sobre as suas possessões na Flandres do que manter a integridade do território catalão.

E para que o final seja tão feliz como o dos contos de fadas, assinou-se o acordo de casamento entre Luís XIV e a filha de Filipe IV, Maria Teresa de Áustria… E como se costuma dizer no fim dos contos infantis «vitória, vitória – acabou-se a história!»

Aliviada da pressão que representava a guerra na Catalunha, Castela pôde concentrar por fim os seus esforços na frente portuguesa. Mas sem êxito. Toodos os confrontos importantes e decisivos, foram ganhos pelos portugueses. Em 1628, gorados os esforços para recuperar Portugal, foi assinada a paz em Madrid, cedendo Portugal a soberania sobre a praça africana de Ceuta.

Depois do Tratado dos Pirenéus, a Catalunha continuou ocupada pelas tropas castelhanas e os conflitos continuaram. Em 1687, verificou-se um novo levantamento (revolta dels Barretines) que manteve a população rural em pé de guerra durante dois anos. E de novo a Catalunha se debateu entre Espanha e França, como é natural numa terra de fronteira, sempre cobiçada e disputada por uns e por outros e servindo sempre, por uns e por outros, de moeda de troca. O hino «Els Segadors», celebrando a revolta de 1640, foi composto em 1892 por Francesc Alió, com letra de Emili Guanyvents e inspira-se numa antiga canção popular. É o hino oficial da Catalunha.

Honra aos ceifeiros ou segadores aos quais devemos o arranque para a recuperação da nossa independência. Bon colp de falç, amics!

 

 

 

Depois de termos ouvido a versão oficial do hino nacional catalão, ouçamos agora a versão histórica, cantada por Rafael Subirachs no festival «As seis horas de Canet», em 1975. Foi três meses antes da morte de Franco, a ditadura estava moribunda, mas vigorava ainda. A ânsia de liberdade florescia por toda a parte. Subirachs cantou «Els segadors» enganando a censura. No final da sua interpretação a frase «Segueu arran!» ( «segai rente» ou «cortai pela raiz»), entre os gritos da multidão pedindo a liberdade. Este vídeo conserva toda a força e emoção desse momento histórico.

A máquina do tempo: Bon colp de falç! – a Restauração portuguesa e a Catalunha (1)

 

(Texto de Carlos Loures e Josep Anton Vidal) 

 

Faz amanhã 369 anos, em 1 de Dezembro de 1640, Portugal recuperava a sua independência perdida 60 anos antes. Todos sabemos, até aos mínimos pormenores, como foi esse dia «em que valentes guerreiros / nos deram livre a Nação». Interessante que os catalães têm a ideia de que lhes devemos a libertação do jugo estrangeiro. E afirmam que foi o facto de os castelhanos terem de deslocar tropas para a frente catalã que nos permitiu, apanhando os ocupantes fragilizados, restaurar a independência. Independência que, formalmente, sempre conservámos, embora com um rei estrangeiro no trono.

 Em parte, isto é verdade. Mas só em parte. Tal como só em parte é verdade que tenham sido os conjurados, os «valentes guerreiros que nos deram livre a Nação», como se canta no tal hino escrito para uma peça teatral em 1861, por Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida (1820-1869) numa visão romântica de uma realidade bem mais dura. A letra parece ter sido escrita por plumitivos ao serviço do regime salazarista. Regime que aliás aproveitou o hino e o tornou coisa sua, com honras especiais na organização para fascista da «Mocidade Portuguesa». Hoje, o hino é trauteado, como vamos ouvir no vídeo abaixo, pelas populações raianas. A música ficou, mas a letra foi esquecida, como merecia coisa tão rebuscada e falsa. Tipicamente romântico e falseador da realidade é também o quadro de Veloso Salgado (1864-1945) que vemos acima. Sabemos ser impossível expurgar a História de todos os mitos. Mas podemos, pelo menos, tentar libertá-la de alguns deles.

 

A verdade completa é um pouco diferente da versão catalã e dos mitos românticos que se forjaram em Portugal no século XIX. Em síntese, a verdade é que durante 28 anos aguentámos uma guerra que mobilizou desde rapazes de 16 anos a velhos à beira da cova, deixando os campos abandonados, trabalhados por mulheres e crianças, e que nos obrigou a fundir os sinos das igrejas para fabricar canhões, a desviar para o esforço de guerra os parcos recursos de uma economia débil. Construíram-se ao longo da fronteira sólidas fortalezas que ainda hoje estão em bom estado de conservação. Contrataram-se técnicos militares estrangeiros para reorganizar um exército desmantelado ou articulado de acordo com os interesses do invasor – oficiais, engenheiros… Tivemos alguma ajuda francesa,  algum apoio inglês, mas a pior parte foi feita por nós. A vitória em batalhas como as de Montijo (1644), Linhas de Elvas (1659), Ameixial (1663) e Montes Claros (1665), foi um factor decisivo.

Ganhámos a guerra. Ao fim de quase três décadas e de milhares de mortos, das cidades e vilas raianas devastadas pelas frequentes incursões inimigas, ganhámos e a nossa independência foi reconhecida. Porém, hoje queria ocupar-me da parte em que os catalães têm razão. De como a «Revolta dos Ceifeiros» e a guerra que se lhe seguiu nos ajudou. Porque quando aqui dizemos que na Catalunha se ignora tudo o que a Portugal diz respeito, manda a verdade que se diga que, para a maioria dos portugueses, a Catalunha é uma província de Espanha. Ponto final. Vou, pois, em breves palavras, contar a quem não sabe, a história dessa sangrenta revolta, coisa que os meninos na Catalunha conhecem bem, mas de que a maioria dos portugueses nem sequer ouviu falar. Para pilotar a nossa máquina do tempo pela história da Catalunha adentro, pedi ajuda ao meu amigo Josep Anton Vidal. Este texto é da autoria de ambos. Vamos ver como as coisas ocorreram na Catalunha.

*

Em 1635, a França encetava a uma nova fase da guerra contra os reinos da Casa de Áustria, os Habsburgos, que dominavam grande parte da Europa, para além das colónias da América, de África e da Ásia. O sol nunca se punha na vasta parte do mundo dominada por Castela e essa grandeza sufocava a pretensão francesa de hegemonizar a Europa militar e economicamente. Era a chamada Guerra dos Trinta Anos que começara em 1618. No entanto, apesar da paz de Vestefália assinada em 1648, a guerra prosseguiria entre os dois estados até 1659, quando se assinou o tratado dos Pirenéus. Este prolongamento por mais doze anos da guerra dos Trinta Anos teve como cenário e motivo a Catalunha.

Por outro lado, esta guerra com a França veio evidenciar as fragilidades do gigante castelhano, minado pelo próprio gigantismo das suas estruturas e sobretudo pela corrupção que o afluxo de ouro e prata, proveniente da América, criando fortunas rápidas e fáceis e a quebra no valor dos metais preciosos, geraram uma crise profunda que o conde-duque de Olivares, chefe do governo, procurava enfrentar impondo medidas drásticas nos reinos submetidos. O astuto governante pusera em marcha uma política destinada a recuperar o esplendor da monarquia, ameaçado pela decadência, reforçando o poder do soberano nos reinos peninsulares e na Europa.

A carga fiscal aumentara em Castela e a sua política belicista, que o levou a envolver-se numa guerra pela hegemonia europeia, exigia uma repartição dessa carga fiscal e do esforço militar por todos os reinos da Península. Porém, a legalidade de cada reino constituía um obstáculo a essa política. Porque, quer Portugal, quer a Catalunha, Aragão ou Valência não tinham perdido formalmente a independência. O que acontecia era que o rei era o mesmo – o de Castela e imperador das Alemanhas. Em Portugal, desde Filipe I (II de Castela) havia o compromisso de respeitar os «foros e privilégios» do Reino.

Na Catalunha e outros reinos, acontecia o mesmo. Daí a urgência de unificar as leis e alinhar os direitos desses reinos pelos de Castela. No fundo o que Olivares pretendia era acabar com a independência teórica dos reinos que compunham o Império da Casa de Áustria, centralizar de uma vez por todas as decisões em Madrid. Já em 1625, em carta ao rei, o conde-duque dissera que o monarca não deveria contentar-se em ser rei de Portugal, Aragão e Valência, conde de Barcelona; deveria esforçar-se por «levar a esses reinos as maneiras, as leis e os costumes de Castela». Numa palavra, deveria aniquilar a independência formal, centralizar, castelhanizar. A Flandres aceitou essas medidas que impunham o recrutamento forçado de soldados para a guerra com a França. A Catalunha e Portugal recusaram liminarmente o agravamento dos impostos e o recrutamento adicional, plano de reestruturação militar a que Olivares chamou a «União de Armas».

Em suma, de um ponto de vista formal, não se tratava de recuperar a independência, pois quer Portugal, quer a Catalunha nunca a tinham perdido até então. Filipe I, fora dentro da linha sucessória, o herdeiro legítimo do trono de Portugal. O mesmo acontecera na Catalunha, onde os Áustria cingiam legitimamente a coroa condal. Olivares, porém queria alterar as regras do jogo e foi neste clima, em que as diversas legalidades colidiam com os interesses de Madrid e a sua supressão parecia inevitável, que os conflitos eclodiram.

Nas Cortes Catalãs de 1626, que o rei abandonou antes do encerramento e sem ter obtido qualquer acordo, as instituições recusaram as obrigações impostas pela União de Armas, n
eg
ando-se igualmente a aceitar exigências que colidiam com a legalidade catalã (Els Usatges). Voltou a fracassar a ofensiva de Olivares quando as Cortes foram reatadas em 1632. Nesta altura, Olivares recorreu a uma artimanha: tentou usar a legalidade catalã para a aniquilar: mercê do usatge “Princeps Namque”, era concedido ao conde de Barcelona (soberano do país), o direito de chamar às fileiras os súbditos em defesa do território. Porém as instituições catalãs mantinham a argumentação de que sendo essa potestade exclusivamente destinada à defesa do Principado da Catalunha, não era legítimo usar as forças assim constituídas para atacar outros territórios. Portanto, constituído um exército com recurso a essa lei, não podiam as tropas ser empregues noutro fim que não a defesa, nem podiam sair do território.

Este argumento levou Olivares a deitar mão a um estratagema militar para forçar o recrutamento dos catalães, desencadeando operações militares contra os franceses junto das fronteiras da Catalunha. Assim, em 1637,desencadeou a campanha de Leucata, no Languedoc francês. A campanha redundou num desastre para as tropas de Filipe IV (III da Catalunha e de Portugal). Embora as unidades catalãs se tenham recusado a abandonar o território, o grosso do exército de Olivares ocupara a Catalunha e, acabada a desastrosa campanha, permaneceu no país. A permanência do exército, obrigava ao «aboletamento», ou seja, a população civil era obrigada a acolher os soldados, proporcionando-lhes alojamento – sal, vinagre, fogo, cama, mesa e roupa lavada. Aqui acabava a obrigação legal – as demais despesas tinham de ser pagas pelos soldados. Porém, na prática, as coisas eram mais complicadas, pois não se estipulava durante quanto tempo tinham os civis de garantir o aboletamento, nem o número de militares que tinham de ser acolhidos em cada casa. Dado este vazio legal, os soldados impunham a lei com a arbitrariedade que se pode imaginar.

Os camponeses eram obrigados a cuidar e a alimentar as montadas e, inclusivamente, tinham de pôr à disposição do exército os seus próprios animais de montada e de tiro. Destas obrigações estavam dispensados os nobres, os clérigos e os cidadãos. Pelo que o peso recaía por inteiro sobre a população rural, fustigada pela precariedade das colheitas. O aboletamento vigorava desde 1626, mas a partir da campanha de Leucata a situação foi tornando-se cada vez mais insustentável.

Em Janeiro de 1640, Olivares quis agravar as obrigações do aboletamento, de modo que a população civil (e rural), assumisse também a manutenção da tropa, ou seja, os custos da sua alimentação e pagasse, sem direito a qualquer reembolso ou compensação, as despesas dos soldados. Esta situação de violência e abuso crescentes sobre a população, particularmente da rural, criou um clima de tensão que atingiu o clímax na Primavera de 1640 e levou à mobilização dos camponeses que se organizaram de acordo com as formas tradicionais de defesa (escaramuças, ataques de surpresa…) e constituíram um exército de populares que conseguiu expulsar as tropas de alguns territórios, empurrando-as para o Rossilhão. O levantamento atingiu Barcelona em Maio de 1640. Na capital, libertaram algumas autoridades, mandadas encarcerar pelo vice-rei, por terem encorajado à resistência contra o aboletamento. Foi neste contexto que eclodiu a sublevação do Corpus de Sang.

 

 (Continua)

 

Clube dos Poetas Imortais: Pedro Oom (1926-1974)

  Segundo reza a história, a Revolução de 25 de Abril de 1974 apenas provocou quatro mortos. Agentes da PIDE/DGS, aterrados com a multidão que gritava sob as janelas do quartel-general daquela polícia, dispararam sobre os manifestantes, matando quatro e ferindo muitos outros. A História está errada – foram cinco e não quatro os que morreram nesse dia devido à Revolução. A poucos metros do sinistro palácio da Rua António Maria Cardoso, no Largo de Camões, dois poetas seguiam, entre muitas outras pessoas que enchiam o largo naquela tarde de Primavera, as peripécias dos agentes da secreta que, saltando de telhado em telhado procuravam escapar de ser presos pela força de fuzileiros que invadira o edifício. Era o António José Forte (o sócio número um deste clube) e o Pedro Oom. O Pedro estava feliz e comentava para o Forte: «Nunca esperei ver uma coisa destas, os pides a fugir de nós!». Sorria, e de repente, sentiu-se mal cambaleou e caiu. O Forte, ajudado por algumas outras pessoas, estenderam-no sobre um banco do largo e tentaram reanimá-lo. Alguém foi rapidamente telefonar a pedir uma ambulância. Nada feito. O coração do Pedro não aguentou tanta alegria.

 

Nos meses que antecederam a Revolução, encontrávamo-nos, num dia certo da semana, num restaurante da Rua João Crisóstomo, o Forte, a pintora Aldina, sua mulher, eu e a minha mulher, o Camecelha, o Pedro Oom, que éramos o núcleo duro do projecto, e mais alguns que apareciam com menos regularidade. Falávamos da queda do regime (tínhamos acesso aos comunicados que saíam das reuniões do MFA) e projectávamos criar uma comuna. A ideia fora lançada pelo Pedro. Chegámos a ir ver terrenos no Ribatejo – iríamos todos viver para lá e seríamos auto-suficientes. Com a morte do Pedro Oom, o utópico projecto não voltou a ser debatido.

 

 

Pedro Oom nasceu em Santarém no dia 24 de Junho de 1926. Inicialmente ligado ao neo-realismo, aderiu ao movimento surrealista. Foi o mentor da teoria do abjeccionismo, ao redigir, em 1949, o Manifesto Abjeccionista. Até 1974, os seus textos encontravam-se dispersos por jornais e revistas, sendo um dos colaboradores da «Pirâmide». Alguns desses textos poéticos, foram postumamente compilados em Actuação Escrita (1980) e em «Histórias para Crianças (Emancipadas», pequenos poemas ou relatos escritos com um insólito non sense próprio da poesia surrealista. Como o poema «Pode-se escrever» que ouvimos, declamado por Mário Viegas, e como estes «Camaradas»:

 

Os camaradas

 

Os camaradas

 

saíram para a rua

com os bolsos cheios de serpentinas

(o calendário

estava trocado

e de entrudo

nicles

nem um só cabeçudo

ou máscara

até o polícia de giro

com dignidade sui generis

dos pequenos autocratas

participou na patuscada

depois do jogo

– o Benfica foi eliminado)

Os camaradas

compraram fatos novos

nos alfaiates dernier-cri

e botaram as serpentinas

no lixo

para não deformar

os bolsos (novos).

Poemas com história: Se não matarem todos os monandengues da nossa terra

 

 

 

O título é tirado de uma das narrativas de Luaanda, o livro do escritor angolano Luandino Vieira a que foi outorgado o prémio literário da Sociedade Portuguesa de Escritores, prémio que conduziu, em 1965, ao encerramento daquela associação de classe pela polícia política. Disse Luandino: «Se não matarem todos os monandengues da nossa terra, eles contarão mesmo para seus filhos e seus netos dos tempos bons que vêm aí:» Monandengue é a palavra de quimbundo para garoto, criança.

O pequeno poema de hoje, escrito em 1965, constituiu uma homenagem ao Luandino,  um protesto contra o encerramento da SPE, da qual eu era sócio, e, principalmente, um gesto de contestação contra a guerra colonial. Foi publicado em 1968 na colectânea A Voz e o Sangue, livro que foi proibido quando se estava já a vender a segunda edição. Diz assim o poema (no qual introduzi pequenas alterações, pois a versão original era injusta para os militares portugueses) :

 Se não matarem todos os monandengues da nossa terra

Os meninos da terra mártir contarão

como os seus pais e irmãos foram assassinados,

como os homens e as mulheres do seu povo

depuseram as suas vidas no regaço do futuro.

Contarão como morriam as aldeias e os homens,

os pássaros e as árvores, como as suas mortes

semearam a vida nova e a liberdade na terra mártir.

Nas vozes comovidas dos monandengues, os mortos

renascerão mais nobres e heróicos, acendendo

lágrimas nos olhos do povo.

 

Pelos nossos jovens  só suas mães chorarão.

Braços do nosso silêncio, da nossa cobardia,

molharão os seus dedos

no sangue que a nossa crueldade

os fez verter.

Quem os chorará?

Quem reclamará os louros

do seu inútil sacrifício?

 

 

 

A máquina do tempo: por que motivo não compraram os quadros do jovem Adolf?

 

Um documento esquecido nos Arquivos Nacionais Franceses, datado de 1924, e recentemente encontrado, descreve Adolf Hitler – já nessa altura líder do Partido Nacional Socialista Operário Alemão – como um "demagogo bastante astuto" e como o equivalente germânico do ditador italiano Benito Mussolini. Contudo, não alerta para uma eventual influência de Hitler na realidade europeia dos anos seguintes. Ao que parece, ninguém parecia ter-se apercebido do perigo que aquele demagogo, com bigode chaplinesco e com o penteado de risca ao lado, representava.

«Não é idiota, mas sim um demagogo bastante astuto", afirma a breve e amarelecida nota redigida por um espião francês, acompanhada por uma fotografia de Hitler vestido com fato e gravata. O agente apresenta Hitler como “o Mussolini alemão”, avisando que “comanda grupos paramilitares de orientação fascista”, embora não recomendasse a adopção de qualquer medida contra o homem que iria desencadear a  Segunda Guerra Mundial e ordenar o Holocausto.

 

Esta nota faz parte de um enorme arquivo que remonta ao período em que as tropas francesas ocuparam a Alemanha após o final da Primeira Guerra Mundial. O relatório sobre Hitler, que muito em breve estará à disposição dos historiadores, estava guardado num arquivo de metal fabricado em 1791 durante a Revolução Francesa, que contém mais de 800 textos, entre os quais se destaca o diário de Luís XVI e de Maria Antonieta. Estes documentos foram posteriormente transportados para Paris em 1930 e estão armazenados desde então nos Arquivos Nacionais. A nota que descreve Hitler é acompanhada de textos similares que se referem aos seus lugar-tenentes, Goebbels, Hermann Goering e Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe da policia alemã, ao qual se acusa directamente de “racista”.

 

*

Em 1924, Adolf, com 36 anos, fora preso em 26 de Fevereiro e , em 1 de Abril, condenado a cinco anos de cadeia devido às suas actividades políticas. Na prisão de Landsberg redigiu o primeiro volume de «Mein Kampf». Em 20 de Dezembro obteve a liberdade condicional mediante o pagamento de uma fiança. Desde 1919 estava ligado ao DAP (Partido Alemão dos Trabalhadores), sendo nomeado responsável pela propaganda; em 1920 o partido mudaria a sigla para NSDAP (Partido Operário Nacional Socialista Alemão). Em 1921, passaria a ser o número um da organização que ganhava rapidamente os seus contornos agressivos, criando as SA (divisões de assalto) e as SS(secções de protecção). Uma carreira meteórica e cheia de êxitos até à derrota final.

 

 

Se viajarmos um pouco mais para trás, vamos encontrar um jovem cabo austríaco desmobilizado, andando à deriva numa Berlim boémia, cosmopolita, dominada por judeus ricos e vivendo os anos loucos do pós-guerra.

 

 Em 1910, com 22 anos, Hitler estudava na Academia de Belas Artes, ganhando algum dinheiro pintando postais e desenhando cartazes de publicidade a detergentes, graxa para sapatos e outros artigos de consumo. Sem êxito – os quadros não se vendiam e os trabalhos com que ganhava a vida, escasseavam. Esse fracasso na arte e na publicidade atirou-o para as lides políticas onde descarregou a sua frustração contra um mundo que não soubera apreciar os seus dotes. Pelo que se pode ver das suas produções artísticas, não terá passado ao lado de uma grande carreira, como se costuma dizer dos futebolistas. Perdeu-se um mau pintor e ganhou-se um político horroroso. Os judeus ricos de Berlim deviam ter comprado os seus quadros sem regatear os módicos preços.

 

Imprudências.

 

 

 

A máquina do tempo: Os encontros da imprensa cultural

 

Momento em que no II Encontro se guardava um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe.

 

Fui colaborador dos suplementos culturais do Diário Popular, do Diário de Lisboa, do Jornal de Notícias e de páginas e suplementos de numerosos jornais de província, entre outros, do Jornal de Évora, A Planície (Moura), O Templário (Tomar), A Nossa Terra (Cascais), Notícias de Guimarães, Jornal da Costa do Sol (Cascais), Almonda (Torres Novas), etc. No entanto, a minha experiência mais marcante em termos de imprensa cultural, foi a da revista Setentrião, em Vila Real, e a do suplemento Labareda de «O Templário», de Tomar. Colaborar na imprensa regional era um trabalho de militância cívica a que muitos escritores e jornalistas não se furtaram.

 

 Às vezes, sem que se esperasse, um trabalho publicado nessas humildes folhas ganhava uma grande divulgação. Lembro-me de uma entrevista que fiz para a Labareda, em Janeiro de 1964, a Fernando Lopes Graça (na qual, embora o maestro tenha desconversado comigo todo o tempo, o resultado foi interessante). Com alguns foros de sensação, foi abundantemente transcrita na imprensa diária, em resumos ou na íntegra, em quase todos os jornais, e mencionada em revistas de referência. Até o Diário de Luanda a publicou. Entre outras afirmações desassombradas, Lopes-Graça considerava os agrupamentos folclóricos, criados por António Ferro, o Goebbels português,  tão do gosto do regime, como «meras contrafacções» da cultura popular genuína.

 

 

 

Em 1963, alguns colaboradores dessa imprensa regional, lançaram a ideia de se realizar um encontro anual das páginas culturais. Para quem não se lembre ou não tenha vivido esse tempo, recordo que os suplementos culturais desempenhavam um papel importantíssimo na resistência de uma cultura autónoma, não controlada pelo regime. Naturalmente que eram submetidas à Comissão de Censura que, muitas vezes, cortava tudo ou quase tudo.

 

Entre os escritores que impulsionaram esse movimento recordo os de Manuel Ferreira, Mário Braga, António Augusto Menano, Manuel Simões, António Sales, Vasco Granja, António Cabral, Arsénio Mota, José dos Santos Marques, Bento Vintém, Joaquim Canais Rocha, Aurora Santos, Fernando Grade, Silva Ferreira, Santos Simões, José Ferraz Diogo, Alfredo Canana, Jorge Moita e tantos outros.

 

Lembro, como paradigma dos suplementos, o que se publicou durante muitos anos no «Diário de Lisboa». O suplemento do Lisboa, ágil, lesto na crítica, rico no elenco de colaboradores, era um modelo para todos os que criavam estas extensões culturais na imprensa regional. Os principais suplementos culturais, que saíam semanalmente (quase todos às quintas-feiras), constituíam um acontecimento.

 

Ali se criticavam os livros, as emissões de televisão e de rádio, as peças de teatro, os filmes. Os melhores jornalistas, críticos, professores, escritores, colaboravam. Nada que se compare com o que agora se faz. Um exemplo: o suplemento de sexta-feira do Público, a «Ípsilon», graficamente luxuosa quando comparada com os modestos suplementos da época, é uma coisada intragável, superficial, comercialóide, que agora já deito fora sem ler, numa papeleira que está à porta do estabelecimento onde compro o jornal.  Não me estou a lembrar de nenhum suplemento que mereça a pena ler, hoje em dia. Talvez o tempo dessa forma de fazer cultura tenha passado.

 

Por estas amostras bastardas, meros recipientes de publicidade de editoras de livros, de discos e de outros produtos, não se avalia o que eram, nesses anos que antecederam o advento do regime democrático, os suplementos culturais. Eram um pouco, como os blogues de hoje, uma forma de, pessoas que não tinham acesso às tribunas de imprensa, rádio ou televisão e de alguns «colunistas desempregados», para usar a curiosa expressão de Clara Ferreira Alves, se exprimirem. Alguns desses párias, desempregados ou nunca antes empregados, era gente silenciada pelo poder político e que encontrava nos jornais de província um porto de abrigo para as suas vozes.

 

A designação inicial dessas assembleias era Encontros de Suplementos e Páginas Culturais da Imprensa Regional. A designação foi depois simplificada para Encontros da Imprensa Cultural, dado que os jornais diários começaram também a enviar representantes. O primeiro destes encontros realizou-se na Figueira da Foz em 28 e 29 de Setembro de 1963.

 

Estiveram presentes, entre outros, os escritores Daniel Filipe e Alfredo Margarido. Na ordem de trabalhos, salientava-se o carácter essencialmente cultural dos suplementos e páginas culturais (vacina contra a suspeição das autoridades), referindo-se as dificuldades intelectuais de colaboração. Aliás, a comunicação a esse primeiro encontro da Labareda, suplemento de que eu era activo colaborador, exortava os intelectuais a abandonarem a sua torre de marfim e escrever para um público diversificado de estudantes e de trabalhadores, abandonando a linguagem pseudo-elevada em que habitualmente se exprimiam.

 

Apontava-se também a necessidade de criar alguma coordenação entre os diferentes suplementos e páginas, ao nível do intercâmbio de textos e apontava-se a conveniência de criar um prémio literário anual. Entre as diversas conclusões e medidas, destaca-se a criação de diversas comissões específicas, a instituição de prémios anuais (tendo-se elaborado os respectivos regulamentos) e, por sugestão de Vasco Granja, a marcação do II Encontro para a vila de Cascais.

 

 

O II Encontro realizou-se, em Junho de 1964, conforme ficara determinado, em Cascais, organizado pelo jornal «A Nossa Terra» daquela vila.  Em representação da Sociedade Portuguesa de Escritores, presidiu Manuel Ferreira que na abertura da primeira sessão de trabalhos se congratulou por se assinalar a presença de representantes de todos os suplementos activos do país, registando-se um avanço relativamente ao encontro da Figueira. Antes de se entrar na discussão da ordem de trabalhos, Santos Simões, do «Notícias de Guimarães» pediu um minuto de silêncio em memória de Daniel Filipe. Estava também presente o escritor catalão Fèlix Cucurull. Foi criado, por d
ec
isão tomada nesta reunião, o boletim «Encontro» de que apenas saíram dois números. Em Fevereiro de 1965 todos os arquivos e material gráfico da publicação foram apreendidos pela PIDE e preso o seu coordenador.

 

O III Encontro realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães», anfitrião do Encontro.

 

Não existe uma informação pormenorizada sobre a evolução deste movimento. Ainda estive presente no IV Encontro, realizado em 1967 no Casino da Figueira da Foz, presidido, salvo erro, pelo escritor Mário Braga. Em 1968 passei uma importante parte do ano preso em Caxias, mas deve ter sido realizado o V Encontro. Em Fevereiro de 1969, em Guimarães, presidido por Mário Sacramento, houve o VI e creio que último Encontro de Imprensa Regional. Muito do que estou a dizer é dito de memória, não encontro registos credíveis e se alguém tiver elementos que aqui faltam ou puder corrigir falhas ou imprecisões por mim cometidas, ficarei grato. Porque era importante fazer a história deste movimento que, reunindo gente de pequenas cidades, fora dos dois grandes centros urbanos do País, conseguiu criar bastiões, redutos, onde se defendia a cultura das investidas da estúpida fera fascista.

 

Mas creio que depois não se realizaram mais encontros. A partir de 1969, a luta política agudizou-se, as pessoas que animavam os encontros iam sendo presas ou estavam absorvidas por essa luta que passara do papel para as assembleias de empresa, de faculdade, para os quartéis… Os passos cadenciados que abrem a «Grândola Vila Morena» ecoavam já no nosso horizonte. Dentro em pouco, os capitães do MFA começavam a reunir. Uma nova realidade se avizinhava e nela já não cabiam as modestas folhas dos jornais de província.

 

 

O III Encontro foi realizado em Guimarães, no Hotel das Caldas das Taipas,  em Agosto de 1965, sob a presidência do escritor Ferreira de Castro.1966. Na foto, vemos o momento em que intervinha Santos Simões, do «Notícias de Guimarães».

A máquina do tempo: foi há 34 anos

 

 

Faz hoje 34 anos, por esta hora, uma boa parte dos portugueses sentia-se triste – a festa da liberdade acabara – falava-se no advento de uma «democracia musculada», fosse lá isso o que fosse. Um tal tenente-coronel Ramalho Eanes, que fora do meio militar ninguém conhecia, aparecia nos noticiários como o senhor desta guerra – óculos escuros, patilhas compridas, frases curtas e com uma pronúncia estranha, não auguravam nada de bom. A comparação com Pinochet era inevitável. Temia~se que se reproduzisse aqui o que dois anos antes ocorrera no Chile. Na foto da época, vemos a seu lado, outros dois protagonistas do movimento: ao centro, Jaime Neves, conotado com a direita militar, no outro extremo Vasco Lourenço, signatário do documento dos «Nove» e que se dizia estar ligado ao Partido Socialista. Neves e Lourenço eram conhecidos. E quem seria o «gajo» de óculos escuros? Soube-se depois que também estava ligado ao chamado «Grupo dos Nove» e que fora encarregado de encabeçar o movimento militar de 25 de Novembro.

 

Havia outros portugueses que respiravam de alívio – àquilo a que chamávamos «festa», chamavam «choldra», «bagunçada», «anarqueirada»… Passados 34 anos, já é possível falar dessa data (quase) sem rancores, nem falsos clichés. E, a propósito, o meu sentido de justiça obriga-me a saudar a transformação que se produziu em Ramalho Eanes – o bisonho tenente-coronel converteu-se num homem culto, ponderado e apresentável. Hoje em dia, seria uma opção para a Presidência. Em princípio, eu não votaria nele, mas seria uma figura respeitável. Coisa que não era há 34 anos. Mas não nos antecipemos. A nossa máquina do tempo vai viajar até ao dia 25 de Abril de 1975.

 

É matéria ainda sensível, apesar da distância de 34 anos que nos confere já uma apreciável perspectiva histórica do acontecimento. Vou cingir-me à síntese dos acontecimentos e a uma ou outra opinião pessoal, emitida sem prosápias de analista (que não sou), na perspectiva do simples cidadão que tem, por enquanto, o direito, e até o dever, de opinar. É a minha perspectiva, não viso a verdade científica, nem sou imparcial. Sujeito-me às críticas de quem não concordar, mas, pelo menos, tento não ser acusado de falsear a história.

 

Um documento emitido por oficiais da esquerda militar em 8 de Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» – «Aliança Povo/MFA – para a construção do socialismo em Portugal», enchera de esperança o povo de esquerda. No mês seguinte, um documento provindo da esquerda moderada tentou aplacar o incêndio que lavrava de Norte a Sul – o chamado «Documento dos Nove», sem aludir ao anterior, recusava o modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental.

 

Propugnava um socialismo alternativo, apoiado numa democracia pluralista, respeitadora das liberdades, direitos e garantias fundamentais. Note-se que o primeiro documento também não defendia o comunismo do tipo soviético e, por isso, não colheu grande simpatia entre as hostes pecepistas; mas deu corda às esperanças da esquerda extra-parlamentar que inundou as ruas com as suas manifs entusiásticas.

 

As posições extremavam-se. No Norte as sedes dos partidos de esquerda, eram assaltadas e destruídas. Os confrontos multiplicavam-se com o ELP (Exército de Libertação de Portugal), criado pelo inspector da PIDE, Barbieri Cardoso, presidido pelo general António de Spínola e sediado em Espanha, a levar a cabo alguams acções contra os militares e contra os partidos de esquerda. O espectro da guerra civil assolava o País.

 

Passado um «Verão quente» e um princípio de Outono agitado, o início de Novembro fora marcado com as notícias vindas de Angola – recrudesciam os combates entre as forças do MPLA, reforçadas com unidades cubanas, e as da UNITA, apoiadas por tropas sul-africanas e mercenários portugueses. Em 11 de Novembro, foi proclamada a independência. Enquanto decorriam as cerimónias em Luanda, na presença do almirante Rosa Coutinho, que cessava as suas funções de Governador e delegava o poder nas mãos de Agostinho Neto, escutava-se nas imediações da capital o troar das peças de artilharia, pois os combates prosseguiam. Os ecos dessa luta ouviam-se também em Portugal.

 

No dia 12, o Palácio de São Bento, sede do Governo e da Assembleia Constituinte, era cercado pelo trabalhadores da construção civil que sequestraram os deputados durante várias horas. No dia seguinte, uma grande manifestação, com centenas de milhares de pessoas, percorria as ruas da capital, exigindo o advento do Poder Popular.

No dia 20, o Governo auto-suspendeu as suas funções exigindo que as forças da ordem garantissem o normal funcionamento das instituições. No dia seguinte, no Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), realizava-se um juramento de bandeira sui generis – os soldados juraram e saudaram a bandeira de punho cerrado e erguido.

 

A temperatura atmosférica, matizada pelo chamado «Verão de São Martinho» era amena. A temperatura política era escaldante. O abismo aproximava-se quase sem que para ele caminhássemos. No dia 24, uma gota fez transbordar a taça da paciência conservadora – o Conselho da Revolução tomou medidas que a muitos desagradaram – substituiu alguns comandantes militares, dissolveu a base-escola de pára-quedistas de Tancos. Tropas pára-quedistas ocuparam de imediato as bases da Ota, de Tancos e de Monte Real. Elementos do Ralis posicionaram-se nas principais entradas de Lisboa, controlando estrategicamente os acessos à capital.

 

O presidente Costa Gomes decretou o estado de sítio. Chamou Otelo Saraiva de Carvalho ao Palácio de Belém. Otelo, recorde-se, graduado no posto de general, comandava o COPCON (Comando Operacional do Continente), a força operacional mais bem apetrechada e potencial foco de uma reacção violenta e quiçá decisiva da esquerda militar. Otelo foi à reunião com Costa Gomes, sabendo que, na prática e sob outra designação, estava a ser detido, retido, impedido de actuar,  use-se o eufemismo que se quiser para prisão, porque na realidade foi isso que aconteceu.

 

E aqui, abro um parêntesis, para contestar algumas acusações que têm sido feitas (inclusivamente no Aventar) a Otelo. Conheço-o bem, somos amigos, nessa medida serei algo suspeito. Pese essa circunstância, reconhecendo que poderá não ter sido ao longo do processo revolucionário (e, sobretudo, depois) um modelo de ponderação, mas ao deixar-se deter em Belém, evitou conscientemente uma guerra civil. Sem ser no Aventar, já ouvi imbecis e atrasados mentais a acusar o Otelo de estupidez. Reajo sempre mal, pois sei que lhe devemos que o 25 de Novembro não se tenha tornado numa data negra e não se tivesse saldado por muitas, muitas mortes. Otelo pediu a demissão do COPCON que ficando decapitado permitiu que o Regimento de Comandos da Amadora, quase sem constrangimentos dominasse os pontos estratégicos de Lisboa, acabando por controlar a situação.

 

Faz hoje 34 anos, a esta hora a «festa« acabara. Voltava-se à «normalidade». Pergunto agora aos militares de Novembro – todos ou quase todos tinham sido militares de Abril: – Esta normalidade que temos, mais de três décadas depois, era a que sonh
av
am em Abril de 74? E em Novembro de 75 foi  esta a normalidade que quiseram proporcionar ao País?

 

 

A máquina do tempo: Gualdino Gomes – uma operação de resgate (2)

(primeira parte aqui)

 

 

 

 

 

Caricatura de Gualdino Gomes por Rafael Bordalo Pinheiro (1900).

 

Por volta de 1913 ou 1914, espalhou-se um dia pelos cafés da Baixa de Lisboa a notícia da morte de Gualdino Gomes. Quem conta é Raul Brandão: «o Ratola, velho companheiro na Biblioteca, se apressou a cumprir o seu dever de amigo, de camarada e de poeta. O Ratola é um funambulesco, balouçando-se dentro de uma sobrecasaca empertigada, luneta de tartaruga e ar de quem cumpre sempre uma missão importante – até quando vai à retrete. Subiu as escadas do prédio onde morava o morto (tinha lido o número da casa no Diário de Notícias), relembrando algumas frases de efeito… Abriu-se a porta do quarto onde o morto, coberto com um lençol, deitava já um cheiro adocicado – a cadáver e a aguardente. Duas mulheres, de preto, choravam ou rezavam. Ratola compenetrou-se, assoou-se com solenidade e disse para a que supunha ser a viúva: – Minha senhora: os meus sentido pêsames… Ele foi o que se chama um grande boémio – mas muito bom rapaz. O vulto de preto ergueu-se, protestando com dignidade ofendida: – Meu marido, senhor, nunca foi um boémio! Meu marido foi um modelo dos esposos e dos retroseiros! Mas o Ratola, que se sentia também magoado no seu valor e no seu conhecimento da vida, obtemperou: – Ora essa, minha senhora! Eu conheci muito bem seu marido e fui companheiro dalgumas borgas literárias… Um boémio! – Oh, meu Deus! Meu marido um boémio!… E, um a teimar que sim, a outra a protestar que não, estiveram quase a pegar-se diante do cadáver – até que empurraram o Ratola pela porta fora. – Eu conheci-o! O Ratola não conhecera aquele… Houvera engano. Quem morrera fora outro Gualdino Gomes, brasileiro», pois o nosso Gualdino, estava a essa hora na Biblioteca Nacional a encher verbetes, com o olho do Raul Proença em cima.

 

Não abundam, infelizmente, as fontes escritas sobre este homem que pouco escreveu e muito falou. Por isso, colhemos as migalhas de informação que fomos colhendo ou que, de uma forma ou de outra, nos chegaram. Por exemplo, Raul Proença agradeceu, no prefácio do primeiro volume do seu monumental Guia de Portugal, a assistência «paciente e crítica» de Gualdino na gestação daquela sua obra. Porém, o texto mais eloquente sobre a personalidade de Gualdino Gomes é, quanto a nós, as palavras da dedicatória do grande Aquilino Ribeiro, no seu livro Estrada de Santiago, palavras que transcrevemos na íntegra:

 

«Com a devida vénia de quem o sabe avesso à publicidade, peço licença para lhe dedicar este livro que leva um nome pomposo da arquitectura celeste e não passa de um nicho das almas, desses nichos de singela e cândida fábrica que velam à beira dos caminhos. No ofício das letras, tão mofino e miserando em Portugal, que ou a pena se parte, se acanalha, a guia fadário ou o Espírito Santo, a sua sombra, Sr. Gualdino Gomes, é, se volvo os olhos à retaguarda, uma das que encontro sobre os meus passos aprazível e tutelar. Vejo-o lá longe, no meu começo, apadrinhando o Jardim das Tormentas com a astúcia e a bondade discreta dum filósofo de Eleia. V. , que conhece todos os livros e ninguém vê com um livro, metera-o no bolso do jaquetão e dias a fio subiu e desceu o Chiado, à espreita a imagem verde, flamante, que lhe alegra a capa. Por este meio singular e outros, alvoroçou a curiosidade dos que o conhecem – ia dizer chamou a atenção da confraria literária em que capricha manter-se irmão leigo. Quando em Paris fui informado, enterneci-me. E, eu lhe digo, nessa circunstância, o impenitente perdulário do espírito, o amável zombador, que em si deslumbram, ofuscaram-se ante o homem de ânimo benigno, talhado dir-se-ia sobre um padrão de Anatole, se espontaneamente, visceralmente não fora essa a sua índole, muita sua por obra e graça só de Deus. Certo e ser V. como Sócrates, por Platão comparado aos Silenos que se viam expostos nas oficinas dos escultores, com uma gaitinha nos dedos. Ao abrir as duas partes de que se compunham, apareciam estátuas de divindades. Como ele, herdou de Mársias a veia faceciosa. O sátiro tangia frauta; a Gualdino basta a palavra para fascinar quem o ouve. Como ele, tem horror à escrita e joga ao vento, com um desapego soberano, o oiro de suas vozes e pensamentos e até o veneno subtil dos seus juízos. Como ele, ainda, é o catequista dos incipientes. Por todos estes argumentos que brotam do cérebro ou sobem do coração , eu lhe devia a fruste oferta deste livro. Muitas vezes, à janela, nas noites de lua baça, quando a Terra, em redondo, parece a boca dum cesto enorme, suspenso ao firmamento pelo aro luminoso da Via Láctea, em que tudo soçobra, homens, coisas e loisas, metia a mão no seio a procurar. Achava espinhos, remorsos, uma ou outra flor imarcessível, e a gente que aí vai, alguma celestial e sobre-humana, da muita que eu via andando, andando Estrada de Santiago fora. Digne-se, Sr. Gualdino Gomes, a ceitar a pobre homenagem, e, de meus ousios em escalar o céu, a Deus prestarei contas mais confiado.»

 

Gualdino Gomes é por muitos considerado um «escritor menor» e deste modo displicente atirado para as catacumbas do esquecimento. Vimos já que ele próprio se considera um «não-escritor.» Como bem diz Raul Brandão, «a sua mocidade irrespeitosa prolongou-se até aos cabelos brancos» e sempre preferiu arranjar mais um inimigo a perder a oportunidade de desferir uma das suas estocadas de ironia ácida. José-Augusto França define-o como uma «curiosa figura de erudito e de «blagueur» do Chiado.» Como podemos ver pelo testemunho de Correia da Silva e pelas palavras de Aquilino Ribeiro, a despeito da sua persistência na crítica mordaz, soube conviver com os mais jovens e ajudá-los sempre que lhes reconhecia valor e mérito. Um dos testemunhos orais que nos chegaram, foi o de Manuel da Fonseca, um dos jovens que teve o privilégio de o conhecer, e que afirmou ser Gualdino «um conversador fascinante.» E Manuel da Fonseca, além de extraordinário escritor, foi  também um emérito conversador e contador de histórias. Não esqueçamos o testemunho de Beatriz Costa que, num livro autobiográfico disse  só ter aprendido a ler aos 13 anos de idade e sozinha e que iniciou a sua alfabetização à mesa da Brasileira, rodeada por homens como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro e Vitorino Nemésio.

 

 

Balas de Papel foi o título de quatro opúsculos panfletários que nos legou, projecto de uma revista bimensal que durou dois meses, entre Novembro de 1891 e Janeiro 1892. Tratava-se de uma publicação de sátira política, social e cultural, cuja inspiração pode ser encontrada nos textos das Farpas e de Os Gatos, embora as diatribes não possuíssem a mesma riqueza formal dos modelos. No primeiro número, salienta-se a dedicatória a Fialho: «Ao Fialho de Almeida/Preito de vassalagem ao maior de todos os escritores portugueses/Saudação vibrante de entusiasmo ao escarnecedor justiceiro e temível dos Gatos.» Como sabemos, uma ironia de Fialho sobre um soneto seu ter-lhe-ã bloqueado a veia criadora. Pelo menos, essa é a desculpa que dá ao longo dos quase sessenta anos que se seguiram para quase nada ter publica
do
, pois além desses pequenos folhetos, escreve ao todo pouco mais de uma dúzia de artigos, dispersos por revistas e jornais. Publica também um soneto na Seara Nova, para além desse tal outro que, ridicularizado por Fialho, é, segundo Gualdino a causa próxima da ruína da sua carreira. É talvez muito pouco para justificar uma vida que se prolongou por mais de 90 anos e em que pelos menos 70 foram votados à literatura. Porém, não esqueçamos, Gualdino Gomes é sobretudo um leitor, a sua função é ler e dar a sua opinião, nem sempre caridosa, mas sempre honesta e desassombrada. As «balas de papel» que disparou não foram muitas, mas aquelas que fez de palavras proferidas nas mesas do Café Chiado, da Brasileira, ou do Martinho, tiveram preponderante influência em sucessivas gerações de gente das letras. Algumas perduram até aos nossos dias. E, se pensarmos bem, isso já não é pouco.

 

Eis a ficha biográfica que as enciclopédias não trazem:

 

Gualdino Gomes nasceu em Lisboa, em 19 de Abril de 1857. Nesta cidade passou a infância e fez os seus estudos, licenciando-se em Letras (Curso Superior de Letras). Durante a juventude viveu algum tempo no Brasil, no Estado do Pará, regressando depois a Portugal onde foi admitido como bibliotecário na Biblioteca Nacional.Em 30 de Novembro de 1891, lançou, com Carlos Sertório, a publicação Balas de Papel, da qual sairíam quatro números. Em 1 de Fevereiro de 1894, subiu à cena no Teatro Avenida de Lisboa a revista A Tourada que Gualdino Gomes escreveu de parceria com o conceituado dramaturgo Marcelino Mesquita. Fez parte do «Grupo da Biblioteca» que, liderado por Raul Proença, esteve na base de muito do que, na época, aconteceu na vida cultural do País, incluindo a criação da revista Seara Nova (lançada em Outubro de 1921). Desse grupo faziam parte, além de Gualdino, Jaime Cortesão, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Afonso Lopes Vieira, Reinaldo dos Santos, José de Figueiredo, Raul Lino, Luciano Pereira da Silva.  Aquilino Ribeiro dedicou-lhe, em 1922, o seu livro de contos e novelas Estrada de Santiago, escrevendo um expressivo e comovido texto. Em1924,Raul Proença, no prefácio do primeiro volume do seu Guia de Portugal, agradeceu-lhe a colaboração prestada. Publicou em 1926, na Seara Nova, um soneto, uma das poucas obras que nos legou. Em 1927, atingiu o limite de idade, sendo aposentado do seu cargo na Biblioteca Nacional. Durante algum tempo, exerceu as funções de director-interino daquela instituição. Na passagem do seu 90º aniversário, em 19 de Abril de 1947, um grupo de amigos prestou-lhe uma homenagem realizada no Museu de João de Deus. Com 91 anos, morreu em Lisboa no dia 18 de Setembro de 1948.

 

 

 

A máquina do tempo: Gualdino Gomes – uma operação de resgate (1)

 

Da esquerda para a direita, Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio Costa Pinto. Esta fotografia, tirada em 1938 á porta da Havaneza, no Chiado, é a única que se conhece de Gualdino Gomes.

 

Sócrates, o filósofo grego, viveu entre 470 e399 a.C. Diz-se que era filho de uma parteira e de um escultor e marcou para sempre a história da filosofia. Nada deixando escrito, apenas o conhecemos através das difamações de Aristófanes, da imagem redutora que dele traçou Xenofonte e dos elogios de Platão, os quais lhe conferem uma dimensão que doutra forma não teria.

 

Há vultos que assumem grande importância e influência enquanto estão vivos e, se ninguém os recordar, desaparecem ao morrer, pois nem todos têm a sorte de ter um Platão como amigo.  Há também o fenómeno inverso, como o de Fernando Pessoa, que, como grande figura literária, só começou a «viver» cerca de vinte anos após a sua morte.

Vou falar sobre um homem que não tem o nome em qualquer rua e não figura sequer nas enciclopédias.Vamos conversar sobre uma figura da cultura do ultimo quartel do século XIX e primeira metade do XX, que a maioria das pessoas desconhece completamante – Gualdino Gomes. Salvaguardando as devidas proporções. Nem Gualdino era Sócrates, nem eu sou Platão.

 

 

«Sou um leitor, não sou um escritor», dizia aos que o acusavam de não ter obra publicada. Porém, mais do que um leitor, Gualdino foi um censor ético e estético, um critico severo e atento, cujas diatribes eram temidas. Os seus conselhos foram acatados por escritores de sucessivas gerações. Vagas de literatos e de artistas que pelos seus olhos foram passando, aguardavam, apreeensivos, o juízo que, da sua cadeira de café, Gualdino iria emitir.

 

Durante sete décadas manteve convívio com os mais notáveis homens de letras e artistas. Foi amigo de Oliveira Martins, de D. João da Câmara, de Teixeira-Gomes, de Marcelino Mesquita, de Raul Proença, seu director na Biblioteca Nacional. E foi íntimo amigo (e inimigo de estimação) de Fialho de Almeida. Óscar Lopes, na História da Literatura Portuguesa, afirmou que Fialho foi um émulo de Gualdino no seu «pontificado de café». A relação entre Gualdino e Fialho nem sempre decorreu de forma pacífica.

 

«Algumas figuras, de certo modo numerosas, fizeram do café o único cenário conhecido ao longo de toda a sua vida: Gualdino Gomes, Stuart Carvalhais, António Soares, Alberto de Sousa…», afirmou Marina Tavares Dias em Lisboa Desaparecida. Raul Brandão nas Memórias foi mais cáustico para a fauna que escolhia os cafés como habitat: «É na Brasileira e no café Chiado que os pobres-diabos, como rãs num charco de café, se exaltam ou combinam as revoluções do dia seguinte. A um canto, o Gualdino de gabinardo e barba branca, prepara a última piada…» Na realidade, o nome de Gualdino Gomes é quase indissociável dos lugares que, durante mais de sete dezenas de anos, foii ocupando às mesas dos cafés da Baixa lisboeta. Como recorda José Gomes-Ferreira, há «alvos predilectos (…) das setas envenenadas de muitos arcos» que a fauna dos cafés desfere. Júlio Dantas é um deles (- Júlio Dantas é o discípulo do chinó do Garrett! dirá Gualdino Gomes «mestre dos mestres dos conversadores de café»).

 

Uma reportagem do Notícias Ilustrado de 1928 – «Lisboa e os seus cafés», proclamava, legendando uma foto da fachada do Martinho, situado no então Largo de Camões (hoje Praça D. João da Câmara) – «O Martinho que ainda se lembra de Fialho e de Gualdino». Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão, o político e jornalista, numa evocação organizada pelos Amigos de Lisboa em 26 de Dezembro de 1936, recordou a tertúlia do Martinho: «o que caracterizou esta casa era o grupo literário que todas as noites realizava as suas sessões de cavaqueira irreverente, em torno das chávenas de café e do pontífice que era o incomparável Fialho de Almeida. Desse grupo faziam parte Marcelino Mesquita, Manuel Silva Gaio, D. João da Câmara, Gualdino Gomes, Heliodoro Salgado, João e Levy Marques da Costa, João Chagas, o espirituoso Figueiredo (Pinturas), Eugénio de Castro, Abel Botelho […] Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro também apareciam de longe a longe.»

 

O escritor Fernando Correia da Silva, no romance Querença, contou dois interessantes episódios ocorridos em 1947 ou 1948, pouco antes da morte de Gualdino. O Fernando era na altura um muito jovem estudante e fazia parte de um grupo que, no Café Chiado, onde Gualdino Gomes, já muito idoso, era figura destacada: «- O Gualdino é um sobrevievente solitário. É mantido por filhos ou netos de amigos seus já falecidos. Magro e comprido, barbicha branca, à duque de Guise. Roupinha no fio, mas sempre distinto e distante, aristocrata por defesa e temperamento. Diz ele para o criado de mesa que anda sempre a bufar: «Ó Pina, traga-me uma bica e um queque, mas que seja fresquinho.» «Ó Sr. Gualdino, os queques acabaram de chegar…» «Também eu acabei de chegar e já tenho 90 anos…» Segunda história: «Um dia, um preto… Esqueci-me do seu nome. É angolano e jornalista. Anda sempre a louvar o génio universalista dos portugueses, pois o Infante, assim e assado, o Vasco da Gama e Albuquerque… (…) Pois um dia o preto, no Café Chiado, decide humilhar o velho. Não suporta a sua ironia, isso é coisa do reviralho e merece correctivo. Intercepta o Gualdino, aponta-lhe a gola do sobretudo, grita, apregoa para que todos ouçam: «Ó Gualdino, você tem aqui um piolho…» O Gualdino mira o piolho, real ou fictício, para o caso tanto faz. Com um piparote do dedo médio logo o dispara sobre o preto: «Ah malandro, vais já desterrado para a costa de África!»

 

Gualdino foi assíduo frequentador dos galinheiros dos teatros de Lisboa. Os galinheiros eram os lugares mais baratos, com assentos incómodos, situados no topo das salas e, portanto, mais distantes do palco, com má visibilidade e deficiente acústica. Ao galinheiro deu-se também o nome de geral.  António de Sousa Bastos, marido de Palmira Bastos, escreveu: «Apesar de ter aparecido apenas uma única vez no teatro, como colaborador de Marcelino Mesquita na revista A Tourada, que se representou no Teatro Avenida, [Gualdino Gomes] é bastante conhecido no meio teatral por ser um dos mais salientes manifestantes contra grande número de originais que se representam no Teatro Normal [D. Maria II]. No café Martinho, à porta do Mónaco, no galinheiro do D. Maria, é sempre ele o chefe das verrinas.»

 

A propósito desta forma de exercer crítica teatral – através do aplauso vibrante e ruidoso, da pateada ou do hilariante chiste gritado em coro por espectadores da geral, voltemos a Raul Brandão e às suas Memórias: «Pertenceu à malta que ia com Fialho para o galinheiro dos teatros deitar as peças abaixo – pertenceu à malta esplêndida que se levantou como um só homem e gritou – Às armas! – quando, no palco, um actor vestido de porteiro anunciou aos outros a entrada do senhor general – metendo para sempre no fundo apeça, o autor e os comediantes.»

 

Da sua mesa de café, Gualdino assistiu à passagem de grandes e pequenos vultos, de diversas gerações e de distintas correntes literárias. À chegada de uns e à partida de outros, como numa estação de caminho-de-ferro. Viu desaparecer grandes
no
mes da literatura e da cultura:  Alexandre Herculano, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Oliveira Martins, Gomes Leal, João de Deus, Eça de Queirós, Tomás Ribeiro, António Nobre, Gervásio Lobato, D. João da Câmara, Fialho de Almeida, Bulhão Pato, Mário de Sá-Carneiro, Marcelino Mesquita, Gomes Leal, Maria Amália Vaz de Carvalho, Teófilo Braga, Augusto Gil, Wenceslau de Morais, Florbela Espanca, Raul Brandão, Henrique Lopes de Mendonça, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra… 

 

Na sua juventude, relacionou-se com alguns dos próceres da chamada Geração de 70. Viu depois chegar os realistas e os parnasianos, os neo-românticos e os simbolistas, a gente do Orpheu, os futuristas, os presencistas, os seareiros (foi um deles), os neo-realistas, os surrealistas… Durante a sua longa vida assistiu à abertura da Avenida da Liberdade, às grandes comemorações camonianas que constituram como que um ponto de partida, um importante marco, na luta pelo derrube da Monarquia, ao apaixonado e exaltado debate da Questão Coimbrã, ao evoluir das obras de Eça de Queirós, de Antero de Quental, de Sampaio Bruno, de Teófilo Braga, de Ramalho Ortigão, de Oliveira Martins, de Fialho de Almeida, à criação do famoso Grupo do Leão, imortalizado por Columbano, ao Regicídio, à proclamação da República, à eclosão da Grande Guerra, à Revolução de Outubro, ao sidonismo, ao advento do fascismo e do nazismo, ao 28 de Maio, à instauração do corporativismo salazarista, à Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial…  A política não era território em que lhe interessasse internar-se. No entanto, não permaneceu alheio às vicissitudes que afectavam o povo. Não aprovava o regime autoritário que, desde 1926, vinha, com as mutações necessárias à sua sobrevivência, a dominar a vida social, política e cultural do País.

 

Falando da relação de Gualdino Gomes com Fialho de Almeida, disse Raul Brandão que, apesar da sua isenção crítica, «com apenas dois ou três folhetos [foram quatro, na realidade!] e um soneto no bolso» – pois esta é toda a sua bagagem literária –   sempre se mói com alguma inveja quando vê outros escreverem mais um folheto do que ele conseguira produzir. E acrescenta: «Passou a vida a inventar pormenores do Fialho, vingando-se, como ele próprio confessa, da maneira como o grande escritor tratou aquele soneto que começava assim: Nas soirées do Gervázio/De olho matreiro e gázio… – Por causa dele deixei de escrever! Escarneceu a minha obra!»

 

Sobre a biblioteca de Fialho, disse Gualdino: «Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil volumes, ou pouco mais, mas – vai surprendê-lo esta minúcia – estão aqui todos por abrir. Há aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta literatura de costureiras e guarda-portões era para as grandes hora amarguradas.» Conta também que, pretensioso e janota, Fialho «ostentava uma grande corrente de ouro e uma esmeralda de brasileiro na gravata. Num dia de tourada, apareceu no Martinho, com uma camisa vermelha que teve de tirar pela troça que lhe fizeram: – Julgo que nunca, nem com a própria mulher, teve relações senão de amizade. Os seus quartos de dormir eram separados, um em cada extremidade da casa, e pela manhã, quando ela lhe batia à porta, ele dizia sempre: – Espere, menina, que eu ainda não estou vestido.»

 

Do lado de Fialho de Almeida as referências a Gualdino Gomes foram muito escassas. Em Os Gatos, referindo-se a um atentado falhado contra o imperador D. Pedro II do Brasil e dissertando sobre a imperiosa falta que ao currículo dos monarcas que se prezem faz um regicídio, mesmo que falhado, diz – «Oh meu senhor, habilite-se! Uma reles bomba que seja.» (estava-se em 1889, a 21 anos de distância de um regicídio bem sucedido…). Neste contexto, e propósito de uma alfinetada literária a D. Luís, dizendo que ele traduziu tão mal Shakespeare «que esfriou entre nós o fetichismo pelas obras-primas estrangeiras – subtil maneira esta de V.M. reconduzir o gosto à exclusiva adoração das nacionais!», continua assim a diatribe. «Era trabalho onde o meu rei despejaria a contento geral as asneiras que lhe tivessem sobrado dos seus outros trabalhos literários, e que podia sugerir talvez ao Sr. Gualdino Gomes, por via do rancor plumitivo, o tirázio que V. M. jamais pechinchará do Sr. Consiglieri Pedroso, mercê do jacobino.» Referia-se aqui Fialho ao professor universitário, ensaísta positivista e militante republicano, Zófimo Consigieri Pedroso, famoso pela acutilância dos seus folhetos doutrinários. Fialho de Almeida colocava Gualdino no topo da agressividade verbal, comparando as suas verrinosas piadas a um tirázio regicida.

 

(Continua)

 

Clube dos Poetas Imortais: Manuel María (1929-2004)

 

Se há poeta que se justifique figurar neste clube, é o galego Manuel María. Tenho evitado, no que se refere aos portugueses e aos brasileiros, incluir gente muito famosa, muito estudada por críticos literários e objecto de teses académicas. Gente que será imortal sem a minha modesta ajuda. Porém, africanos lusófonos e, sobretudo, galegos (porque há quem hesite em os considerar lusófonos), mesmo famosos nos seus países, são pouco ou nada conhecidos entre nós. Manuel María é uma das vozes mais emblemáticas do ressurgimento do galego como língua literária. Grande poeta, escreveu obras como «Mar maior» (1963), «Os sonhos na gaiola» (1968), «Remol» (1970), «Cantos rodados para alheados e colonizados» (1973), «O livro das badaladas» (1977), «O caminho é uma nostalgia» (1985), «As lúcidas luas do Outono» (1988), «Os longes do solpor» (1993) e tantos outros – cerca de três dezenas de obras.

 

 

 .

Manuel María, nasceu em Outeiro de Rei, em 6 de Outubro de 1929 e faleceu na Corunha, em 8 de Setembro de 2004. Filho de camponeses, exaltou na sua obra o labor dos trabalhadores do campo, dos labregos. Foi um homem que não fugiu ao compromisso político, mas sem esquecer a dimensão humana no seu todo, incluindo o amor e a fraterna amizade. Da obra «99 Poemas de Manuel María» (Razão Actual, Porto, 1972), seleccionei «O labrego». De notar que a palavra «labrego», que para os portugueses pode ter uma conotação levemente pejorativa, para os galegos é o vocábulo usado para «camponês»:

            O Labrego

            Un labrego tan só é unha cousa

            que case non repousa.

           

            Da sementeira a seitura,

            pasando pela cava,

            a súa vida é moi dura

            e moi escrava.

 

            Sempre trafegando,

            arando,

            sachando,

            malhando,

            gadanhando,

            percurando o gando.

 

            Sempre a olhar pró ceo

            com medo e com receo.

            Sempre a sementar ilusión

            ponhendo na semente o corazón

            pra colheitar probeza e mais tristura.

 

            Dilhe ao labrego da beleza

            da campía,

            da súa fermosura

            e poesia.

 

            Dírache que sí,

que a beleza pra tí.

 

Pró labrego é o trabalho

o andar tocado do caralho,

o pan mouro i o toucinho.

 

(Múdanse de calzado ou de traxe

cando van de viaxe,

de feira ou de romaxe

 

e xantan, eses días, pulpo e vinho);

 

os eidos ciscados, minifundiados

que quér decir atomizados);

o matarse sachar de sol a sol

pra lograr seis patacas

com furacas,

catro grãos de centeo i unha col;

o dobregarse sobor dos sucos

pra pagar gabelas e trabucos;

o vivir entre esterco i animales

en chouzas case inhabitabeles.

 

I aguantar, aguanta e aguantar,

Agardando morrer pra descansar.

 

 

 

Poemas com história: Falemos de paisagem

 

Novamente, com este poema de 1968, coloco a questão da forma e do conteúdo, neste caso incidindo sobre o «tema» do «conteúdo». Numa altura em que até poetas de insuspeito cariz democrático poetavam em torno de temas inócuos, transmitidos através de uma linguagem gongórica que, trocando as voltas à polícia e à vigilância censória, as trocavam também aos leitores que não fossem «do meio», tornava-se necessário, com todos os riscos que isso envolvia, falar dos problemas concretos que nos afectavam – a fome, a miséria, a guerra colonial, a emigração, a falta de liberdade – e deixar essas temáticas mais elevadas para quando o essencial tivesse sido conquistado. Exaltar a beleza da paisagem era inútil, se o poeta se esquecesse de que nessa paisagem maravilhosa havia pessoas trabalhando de sol a sol a troco de soldos de miséria.

No seu livro «Remol», publicado em 1970, o poeta galego Manuel María publicou um poema de sentido muito semelhante – «A paisaxe é fermosa», na minha opinião com uma qualidade poética muito superior à do meu poema, mas com um sentido geral muito semelhante. Não se pondo sequer a hipótese de ele se ter inspirado no meu tema, a coincidência leva-nos à conclusão de que, submetidos a condições semelhantes, os homens, neste caso os escritores, reagem de forma também similar. Este meu poema foi publicado em 1968 no livro «A Voz e o Sangue». Foi lido em numerosas sessões pelo actor e declamador Armando Caldas ao qual aproveito para agradecer a atenção que, nesses tempos difíceis, dispensou à minha poesia.

Falemos de paisagem

Mas, como podíamos cantar

Com o pé estrangeiro sobre o coração?

Salvatore Quasímodo

(Giorno dopo giorno)

 

           

       Como queres, amigo, que haja flores nos meus versos,  

            como queres grinaldas e primavera no meu poema?

            Em meu redor há homens humilhados, crianças

            descalças e com fome, mulheres grávidas

            trabalhando a terra. Como queres, amigo,

            que eu veja esse tal céu azul de que tu falas,

            esse sol eterno, que cante a beleza da paisagem,

            se o sofrimento humano altera a cor das coisas?

            É cinzenta a paisagem, é cor de cinza o céu,

            por isso os meus poemas são cinzentos e sem beleza

            (acaso tem beleza a fome?).

            Sim, eu sei, poesia não é bem economia política

            e humildemente sei que após os meus versos

            tudo continuará cinzento – o dealbar

            não será erigido pelos meus poemas

            nem por quaisquer outros – mas sei também

            que a poesia deve ser a verdade do poeta,

            a sua maneira de explicar o mundo

            e de o tentar transformar. Por isso digo

            – um de nós está enganado e creio bem que és tu,

            pois me pedes uma poesia que não pode nascer

            de um homem que queira ser fiel ao seu povo.

            Quando o céu for azul, prometo-te, amigo,

            os meus versos o dirão e o meu poema será lírio,

            deixará esta cor de lama e de sangue.

            Quando o céu for azul, amigo meu  

            – antes, não!

 

 

A máquina do tempo: breve nota sobre a poesia galego-portuguesa

Martim Codax foi um jogral galego, pensa-se que oriundo de Vigo, dadas as suas frequentes referências àquela cidade. Sabe-se ter vivido entre meados do século XIII e princípios do XIV. Dele, ouvimos «Ondas do mar de Vigo», composição ainda dentro dos cânones da poesia galego-portuguesa. Porém, há um momento ou, talvez melhor, um período que estabelece uma fronteira entre um idioma único, falado e escrito em Portugal e na Galiza, e o início de uma deriva em que a Galiza começava a sentir os efeitos da aculturação castelhana e, ao invés, em Portugal, dois séculos decorridos sobre a criação do País, se começava a fixar uma língua autónoma.

Segundo Giuseppe Tavani (1924), professor catedrático da Universidade de Roma «La Sapienza», grande especialista em filologia românica, particularmente nas áreas linguísticas do provençal, do catalão e do galego-português, essa fronteira situa-se algures entre o século XIII e finais do século XIV, inícios do XV. Numa Galiza que não obteve a independência, ficando ligada à coroa de Leão e Castela, a lírica galego-portuguesa começou a dar lugar a uma poesia galego-castelhana.

Assim na Galiza, ainda de acordo com Tavani, a linha de demarcação entre a poesia galego-portuguesa e a posterior, traça-se habitualmente, já no século em fins do século XIV, inícios do XV, com um cancioneiro específico compilado por Juan Alfonso de Baena, que passou a constituir o corpus da poesia galego-castelhana. O conteúdo do códice do século XIII do cancioneiro da Biblioteca da Ajuda e dos dois apógrafos italianos (cancioneiros da Vaticana e Colocci-Brancuti) é atribuído à poesia galego-portuguesa. Estes monumentos históricos e literários são os marcos que estabelecem a tal raia entre duas maneiras de falar e de escrever o mesmo idioma. Mas, como sempre ocorre nas regiões fronteiriças, há zonas de imprecisão em que as duas tradições dialectais se confundem.

 

Em Portugal, o rei D. Dinis (1261-1325), embora seguindo a matriz provençal, censurara o excessivo convencionalismo desses trovadores que privilegiavam o uso de lugares-comuns e frases feitas em detrimento da expressão de sentimentos genuínos como a amizade e o amor. Com a demarcação da poesia trovadoresca, com a fixação a Sul do rio Minho de um idioma que ia encontrando escritores que dele se serviam e o ajudavam a ganhar raízes e forma autónoma – D. Dinis, Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, enquanto que a Norte o idioma de partida se ia eivando de castelhanismos, com a fonética a ganhar sonoridades distintas, a separação ia-se acentuando ao ponto de, no século XIX, depararmos com um galego onde os neologismos eram empréstimos do castelhano e o galego começava a transformar-se naquilo que Madrid afirmava ele ser – um dialecto do castelhano.

Um galego-português, cada vez mais diferente do nosso, ainda que a língua falada nas aldeias galegas fosse muito semelhante ao português usado no Norte. O Rexurdimento lançado por Rosalía de Castro, Manuel Murguía, Eduardo Pondal, Manuel Curros Enríquez e outros, reatou o movimento de reaproximação e permitiu ir expurgando o galego dos castelhanismos mais gritantes (alguns dos quais ainda surgem em poetas do século XIX e XX).

Apesar dos muitos escritores galegos que optaram decididamente pelo castelhano (por ser língua mais universal) – Gonzalo Torrente Ballester e Camilo José Cela, entre muitos outros, penso que, hoje em dia, é perfeitamente legítimo falarmos de novo em idioma comum, o galego-português, designação de Carolina Michaëlis que encerra o conceito ainda hoje prevalecente – o galego não é um dialecto do português, como em tempos se disse, nem o português é um dialecto do galego, como alguns radicais galeguistas hoje afirmam.

O galego-português é um idioma que, devido a circunstâncias históricas, se cindiu em duas formas dialectais. A partir do século XIX, com o Rexurdimento, o idioma começou a recuperar na Galiza o seu estatuto de língua literária, reintegrando-se na sua matriz original. Havemos de voltar a este tema para falarmos sobre a prosa galego-portuguesa, da Idade Média aos nossos dias.

Entretanto, ouçamos agora os Segréis de D. Dinis em «Pois vos Deus», composição do rei português.

 

 

A máquina do tempo: Mussolini – Benito, para os amigos

 

Foi posto ontem à venda nas livrarias italianas, editado pela Rizzoli, de Milão, o livro do jornalista Mauro Suttora com o título «Mussolini segreto» – «Mussolini Secreto». Revela, segundo se diz, uma nova imagem do ditador que, tem sido habitualmente descrito como um bonacheirão muito menos sanguinário do que o seu aliado Adolf Hitler. Afinal, Benito Mussolini disputava a Hitler a qualidade de campeão do anti-semitismo ( «Hitler è un sentimentalone»), acusava Franco de ser um idiota, ameaçava o Vaticano com o corte de relações («Questo papa è nefasto»)…

«Estudei durante muitos meses mais de 2000 páginas escritas por Claretta, com uma caligrafia apertada e difícil», diz Suttora. Já no fim da guerra da Libertação, quando o casal Benito e Clara tinha já a água pelo pescoço e teve de fugir de Salò, onde se refugiara após a queda do governo de Mussolini, ainda mantendo a esperança de ressuscitar o fascismo, a amante do Duce entregou os seus diários a uma amiga de confiança, que os escondeu. Foram encontrados em 1950.  Mauro Suttora (1959) é um escritor e jornalista milanês, colaborador do Corrieri della Sera, com reportagens sobre a guerra Irão-Iraque, o massacre de Tiananmen, a primeira guerra do Golfo, Gorbatchov, a guerra da Jugoslávia, a Segunda Intifada, etc. Entre os seus romances, destaca-se o best seller «No sex in City», publicado em 2007. É ele que me ajuda hoje a pilotar a nossa máquina do tempo de regresso a esses anos escaldantes que antecederam a 2ª Guerra Mundial.

Segundo o autor, o que se torna reveladoramente explosivo é o facto de as palavras de Clara Petacci, a linda actriz com os cabelos cor de azeviche, destruírem a imagem de um ditador que cometeu excessos, mas humano, um pouco ridiculamente fanfarrão, mas simpático, um acólito moderado de Hitler, um homem que foi atrelado ao carro nazi contra sua vontade e que aprovou as leis contra os judeus apenas para não contrariar o seu louco aliado. Um católico devotado. Essa imagem é falsa, segundo o livro de Suttora. E depois há as revelações eróticas, que numa Itália vacinada pelos desmandos de Berlusconi, não causarão grande impacto.

«Sabes, meu amor? A noite passada, no teatro, despi-te mentalmente pelo menos três vezes. Olhava-te, tirava-te a roupa e desejava-te como um louco». Parece um fragmento de uma escuta telefónica ao inenarrável Silvio, mas são palavras de Benito que Clara anotou em 5 de Janeiro de 1938. A relação adúltera durava desde 1932, tinha Clara Petacci 20 anos e Mussolini 40. O Duce era casado com Rachel Mussolini (1890-1979) . Tinham seis filhos.

Mussolini ficava furioso quando apontavam Hitler como pioneiro do anti-semitismo: em 4 de Agosto de 1938, sempre de acordo com o diário de Petacci, o ditador fascista terá berrado: «Eu já era racista em 1921. Não sei como podem pensar que imito Hitler se ele nem sequer tinha nascido. Os italianos deveriam ter mais sentido da raça, para não criar mestiços que irão estragar o que temos de bonito». Vinte dias antes saíra o «Manifesto della razza», documento que tentava criar a tese da superioridade da etnia itálica.

Pio XI não terá escapado à fúria de Benito: «Se os do Vaticano continuam assim, vou romper todas as relações com eles. São uns miseráveis hipócritas. Proibi os casamentos mistos e agora o Papa pede-me para casar um italiano e uma preta. Não! Vou-lhes partir a cara a todos».

Franco não foi melhor tratado: «Esse tal Franco é um idiota. Julga que ganhou a guerra com uma vitória diplomática, só porque alguns países o reconheceram, mas tem o inimigo dentro de casa. Se tivesse só metade da força dos japoneses, já teria acabado com tudo há quatro meses. São apáticos [os espanhóis], indolentes, têm muita coisa dos árabes. Até 1480 os árabes dominaram a Espanha, foram oito séculos de domínio muçulmano. Aí está a razão porque comem e dormem tanto», anotou Claretta em 22 de Dezembro de 1937.

Enfim, um livro que promete levantar celeuma, principalmente em Itália onde ainda existe uma residual falange de apoio ao ditador que, com a sua amante Clara Petacci, foi numa praça executado de Milão, no dia 25 de Abril de 1945. Mostro as imagens. Recomendo às pessoas mais sensíveis, que não vejam o vídeo, pelas razões habituais.

 

 

A máquina do tempo: Guilherme Tell e a grande oportunidade perdida

 

 Diz a tradição que foi a 18 de Novembro de 1307, faz hoje 602 anos, que se deu o episódio de Guilherme Tell, a história da flecha, da maçã e da cabeça de seu filho. Todos conhecem a lenda que inspirou poetas, escritores e o grande compositor  Rossini que criou uma ópera com o nome do herói suíço, cuja abertura é particularmente famosa. A história é assim: Guilherme Tell e o filho, ao passarem pela praça central de Altdorf não saudaram, como era obrigatório o símbolo do domínio dos Habsburgos, o chapéu de Gessler, o tirano que, em nome dos austríacos, governava o território. Presos, Tell  foi condenado a disparar com a besta uma frecha sobre uma maçã colocada em cima da cabeça do menino.

Situando-se a 50 passos, atada a criança a uma árvore e colocada a maçã sobre a sua cabeça, Tell disparou, acertando na maçã. Porém, vendo que Tell tinha uma segunda frecha, o governador perguntou-lhe para que a queria: «Para atravessar o teu coração, caso tivesse morto o meu filho!» A lenda de Guilherme Tell tem várias versões. Nas crónicas de Melchior Russ de Lucerna, por exemplo, do último quartel do século XV, Tell aparece como o principal herói da luta pela independência travada pelos primeiros cantões.  

A ciência histórica contradiz as lendas, pondo mesmo em causa a existência de Tell. Porém, no imaginário popular suíço, ele é uma figura com que os helvéticos se identificam – numa recente sondagem, verificou-se que 60% dos cidadãos da Confederação acreditam que ele existiu. Para o escritor argentino Ernesto Sábato, quando Tell acertou na maçã, perdeu-se uma grande oportunidade de ocorrer uma tragédia na Suíça…

*

A Suíça é um país bonito. Visitei-o há uns anos na Primavera, por altura da Páscoa. Apanhei alguns daqueles fortes nevões sem os quais a Suíça tem tanta graça como o Algarve sem sol ou a Alemanha sem cerveja.  Com a minha mulher e outro casal amigo e o seu filho (o Gomes Marques, a Célia e o António Pedro), percorremos o país que, como sabemos é pequeno – uma área ligeiramente superior à soma do Alentejo com o Algarve – ao longo de um pouco mais de uma semana. Chegados de avião a Zurique, visitámos depois as demais cidades – Genebra, Lausana, Basileia, Montreux, Lucerna, Zermatt, os Alpes… (estive a ver as fotografias, mas não sei se o itinerário seguiu esta ordem). Quando atravessámos a fronteira e chegámos a França, após uma maravilhosa viagem sem incidentes, sentimos uma certa sensação de alívio. Porquê?

A Suíça é um país muito bonito, mas é um bocado monótono, os suíços são inteligentes e diligentes, fabricam relógios, chocolates, canivetes e tudo isso, mas são um pouco, como hei-de dizer … (ia a dizer chatos) previsíveis em demasia. Para nós, latinos, habituados a uma certa balbúrdia, fora e dentro das cabeças, toda aquela limpeza, método e arrumação são enervantes. Contou-nos uma imigrante portuguesa que quase foi expulsa por, no Natal, estar a partir nozes que lhe tinham chegado de Portugal. Os vizinhos acharam o ruído insuportável e chamaram a polícia que a intimou a cessar de imediato a operação. Senão…

Pese embora este irritante (para nós) feitio miudinho, não pode deixar de surpreender como, quase sem recursos naturais, num território pequeno e super-povoado com quase oito milhões de habitantes, consigam ter um dos níveis de vida mais elevados do mundo. Embora, num registo diferente, surpreenda também, como tão civilizados, só em 1971 tenha sido concedido o direito de voto às mulheres, sendo que, até então, a maioria das cidadãs entendia não dever votar.

Recusando-se a integrar a União Europeia (não sei se resistirão durante muito tempo), conservam a moeda, o fortíssimo franco suíço, mantendo a condição de principal praça financeira do mundo na gestão de fortunas, lugar que ocupam mercê de um blindado sigilo bancário que permite aos europeus ricos fugirem à apertada rede fiscal que vigora na União. E não só.

Um país impecavelmente limpo que mantém essa limpeza asséptica mercê da sujidade que reina em seu redor. Uma jangada, um paraíso fiscal, num oceano mafioso. Em todo o caso, o cerco a esta vergonha vai sendo apertado: em 2 de Abril deste ano, depois da reunião do G20 em Londres, a Suíça foi finalmente incluída pela OCDE na lista dos paraísos fiscais. O governo helvético comprometeu-se a dar mais informações sobre os depósitos nos seus bancos. O que irá prejudicar este negócio tão próspero que teve avultados lucros quando, após a segunda Guerra Mundial, tendo desaparecido no fumo dos fornos crematórios do tio Adolfo muitos dos depositantes judeus, os valores depositados foram incorporados no património dos bancos.

Depois foram os políticos corruptos, os barões do narcotráfico e outros activos empreendedores internacionais a usar os bancos suíços como máquinas de lavar para o seu dinheiro. Por isso, deixar de ser um porto seguro para os miseráveis que enriquecem com a miséria e com a morte, vai ser um duro golpe para um país tão limpo, tão certinho. Mas de uma coisa podemos estar certos: tudo se passará sem tragédia. Rodeada pelo oceano da tragédia dos outros, na jangada Suíça não acontecem tragédias.

Em «Heróis e Túmulos», o escritor argentino Ernesto Sábato tem uma frase lapidar sobre o tema: «os mitos nacionais» (…) «são fabricados intencionalmente para descrever a alma de um país, e assim me ocorreu naquela circunstância que a lenda de Guilherme Tell descrevia com fidelidade a alma suíça: quando o arqueiro acertou na maçã com a flecha, por certo no meio exacto da maçã, perdeu-se a única oportunidade histórica de uma grande tragédia nacional. Que se pode esperar de tal país? Uma raça de relojoeiros, no melhor dos casos.»

Por falar em relógios: de72 em 72 horas, há um suicídio na Suíça. É a principal causa de morte no país, que tem uma das mais elevadas taxas de suicídio do mundo.  Porque será?

 

 

 

A máquina do tempo: Umberto Eco à Der Spiegel: «Gostamos de listas porque não queremos morrer»

 

 

Na passada semana, o escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Der Spiegel", aos jornalistas Susanne Beyer e Lothar Gorris, sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que motivo o Google é perigoso para os jovens. Acho importante transcrever as interessantes e esclarecedoras reflexões do grande escritor italiano:

Spiegel: O senhor é considerado um dos grandes académicos do mundo, e agora está a inaugurar uma exposição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas da sua mostra soam um pouco a lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas nos seus trabalhos e pintores que acumulam coisas nas suas pinturas. Por que razão escolheu esses temas?

Umberto Eco: A lista está na origem da cultura. Faz parte da história da arte e da literatura. O que pretende a cultura? Tornar a infinidade compreensível. Ela também quer criar ordem – nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos nós com a infinidade? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de colecções em museus e através de enciclopédias e dicionários. Há uma atracção em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Também temos listas totalmente práticas – listas de compras, testamentos, cardápios – que, a seu modo, são também conquistas culturais.

 

Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?

Eco: A lista não destrói a cultura;  cria-a. Para onde quer que olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, de exércitos e de plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas colecções sobre a natureza do século 16. Os meus livros, a propósito, estão cheios de listas.

Spiegel: Os contabilistas fazem listas, mas também as podemos encontrar nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.

Eco: Sim. Mas eles, é claro, não eram contabilistas. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre as suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e a sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho das suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Não consegue encontrar a metáfora certa, e implora às musas para que o ajudem. Então tem a ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?

Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exacto do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.

Spiegel: Mas por que razão Homero lista todos aqueles guerreiros e os seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?

Eco: O trabalho de Homero depara-se constantemente com o topos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre ficámos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como se sente uma pessoa ao olhar para o céu? Acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para exprimir os seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula… As pessoas podem entrar em grandes pormenores.

Spiegel: Por que perdemos nós tanto tempo a tentar concluir coisas que não podem realisticamente ser concluídas?

Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.

Spiegel: Na sua exposição no Louvre,  também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que aquilo que, de facto, mostram.

Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é porque acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.

Spiegel: Por que motivo as listas e as acumulações são particularmente importantes para si?

Eco: As pessoas do Louvre procuraram-me e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exposição no museu, e pediram para que elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e senti-me como uma personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exposição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exactamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou de pedofilia. As pessoas têm suas preferências.

Spiegel: Ainda assim, o senhor é famoso por ser capaz de explicar suas paixões…

Eco: Mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseados na sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Vive na água e na terra; põe ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.

Spi
eg
el
: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.

Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como descreveria uma mãe um tigre ao seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listas e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que nos podemos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista constitui o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada com a lista.

Spiegel: Pode parecer que está a dizer que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.

Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior já não serviam. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos pormenores sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos expandiu-se tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.

Spiegel: Mas o senhor disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem como a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para si.

Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas – não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.

Spiegel: Está a dizer que os professores deveriam instruir os seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é mau? Se sim, como deveriam fazer isso?

Eco: A educação deveria voltar à forma que tinha nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas  faziam isso de uma forma mais prática. Veja, o seu dedo pode parecer-se com isso, mas ele é de facto assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correcta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.

Spiegel: O senhor tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.

Eco: Acredito que, agora, tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que não o fizesse. O meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, a sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre si. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a lembrar-me dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e sinto-me bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.

Spiegel: O senhor inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes no seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Adora salada, canela, queijo e especiarias. Não gosta de “motards”, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E o senhor?

Eco: Seria um tolo se respondesse a isso; estar-me-ia fechando numa definição. Estava fascinado por Stendhal aos 13 anos e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas na sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda para si,  é porque você é  um idiota.

Tradução: Eloise De Vylder (adaptada para a norma portuguesa).

A máquina do tempo: Parabéns Saramago!

 

 José Saramago faz hoje 87 anos e continua a escrever. A escrever bem. Não gostei do seu «Caim», mas gostei muito do «Levantado do Chão», do «Memorial do Convento», de «O Ano da Morte de Ricardo Reis», do «Ensaio sobre a Cegueira»… E de outros de que gostei mais moderadamente, além de outros ainda dos quais gostei pouco ou não gostei nada. Sou só um leitor entre os milhões de leitores que tem espalhados pelo mundo. E não sou admirador incondicional de nenhum escritor . Os autores sabem que cada livro é sujeito a julgamento e cada leitor é um juiz.. Ter escrito tantos livros, entre os quais três ou quatro obras-primas, não é para todos. Diga-se o que se disser, goste-se dele ou não, Saramago é um grande escritor. Como juiz, este é o meu veredicto.

O que é pena é o cidadão José Saramago às vezes dizer coisas que não ficam bem ao escritor José Saramago. E não me estou a referir a esta questão da Bíblia, uma boa acção de marketing por parte do escritor e uma tontice por parte da Igreja. Refiro-me, por exemplo, à defesa da absorção de Portugal pelo estado espanhol, que é, como se costuma dizer, uma ideia de cabo de esquadra!  Mas hoje é dia de festa, cantam as nossas almas, como diz a estúpida letra brasileira da imbecil canção ianque, e antecedi este texto de uma declaração de Saramago que subscrevo inteiramente. Uma definição exemplar, na minha opinião, evidentemente, da falsa democracia em que vivemos. Em poucas palavras, disse aquilo que eu andei aqui semanas a tentar transmitir. Deste vez, o cidadão foi digno do escritor. E vou contar uma história.

Corria o ano de graça de 1966, mais precisamente o dia 24 de Novembro. Por esses anos, semanalmente, quando a censura não cortava tudo, publicava uma crítica de poesia no «Suplemento Literário» do Jornal de Notícias. José Saramago que, nessa altura era um nome apenas conhecido no meio editorial, publicara um livro na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora – “Os Poemas Possíveis” – e teve a amabilidade de mo mandar com uma simpática dedicatória.

Ao contrário do que na maior parte das vezes acontecia, gostei da colectânea e escrevi um texto muito favorável que terminava assim: «Em conclusão. “Os Poemas Possíveis” é um livro bem escrito, onde se evidencia um meritoso trabalho de oficina, sem concessões à proverbial «inspiração» poética. Apenas nesta medida, apenas quem não pretenda pedir outras razões a José Saramago que as de um trabalho bem feito, este livro agradará plenamente.» Como já tenho dito, por aqueles tempos discutia-se muito a prevalência, ou não, do conteúdo sobre a forma. O poemário de Saramago ia ao encontro do que eu defendia semanalmente naquela pequena tribuna.

Até aqui, tudo estava a correr bem. Acontece que quem fazia a paginação do suplemento se enganou e no título, em grandes letras, a seguir ao nome da obra escreveu JOSÉ SERRANO. Guardei para sempre a cópia dactilografada para, em caso de dúvida, poder provar que a culpa não foi minha. Escrevi repetidamente ao director do suplemento (Nuno Teixeira Neves) pedindo-lhe que escrevesse ao autor, em nome do jornal, pedindo desculpa. O que, segundo me disseram, ele não fez. Por isso, espero que Saramago não se lembre do obscuro crítico literário que há mais de quarenta anos ficou sob suspeita de lhe ter trocado o nome.  

Há catorze ou quinze anos, estava no Aeroporto da Portela com o editor Lyon de Castro. Íamos, salvo erro, para Francoforte, para a feira anual dos editores, e de repente quem pára junto a nós – o José Saramago que cumprimentou o Francisco Lyon de Castro. (Saramago, num dos seus Cadernos de Lanzarote faz-lhe uma curiosa alusão; num sonho, o editor vem abrir-lhe um portão).

Estávamos perto do free shop e logo me afastei a ver com atenção excessiva uma qualquer mercadoria que ali se vendia. O Lyon de Castro ainda olhou para mim, com evidente vontade de me apresentar (ele adorava brilhar, e o Saramago ainda não ganhara o Nobel, mas já era um escritor muito conhecido). Pelo canto do olho observei as movimentações e debrucei-me ainda mais sobre qualquer artigo. Não fosse o Saramago lembrar-se do dia em que fui suspeito de lhe ter trocado o nome…Talvez tenha feito mal, pois era uma boa altura para lhe ter pedido desculpa por esse erro que não cometi. O que faço hoje com 43 anos de atraso.

Parabéns, José Saramago!

 

 

Clube dos Poetas Imortais: António Cabral (1931-2007)

 

António Cabral foi um dos maiores poetas da região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Melhor: foi um dos maiores poetas portugueses do século XX. Não provocando o clamor mediático de um Torga, a sua poesia atingiu uma qualidade incomum e à qual, até agora, não se fez a devida justiça. Mas nem só poesia escreveu, pois da sua bibliografia constam, além de 15 colectâneas poéticas, cinco volumes de ficção e sete volumes de teatro. Para além de livros didácticos e de ensaios literários.

Publicou também obras sobre etnografia e antropologia, nomeadamente sobre jogos populares, matéria em que se tornou um grande especialista. A ele se deve ainda um dos mais belos textos escritos sobre José Afonso, «Introdução às canções de José Afonso», publicado no livro «Cantar de Novo» (Nova Realidade, 1970). Neste clube tenho incluído grandes poetas da lusofonia, alguns deles meus amigos. É o caso do António Cabral com o qual colaborei e que comigo colaborou em numerosas iniciativas. Um bom amigo e um grande escritor.

 

 

 

António Cabral nasceu em Castedo do Douro (Alijó) em 30 de Abril de 1921 e faleceu em 23 de Outubro de 2007 em Vila Real. Sacerdote católico até 1972, pediu dispensa e casou, dedicando-se ao ensino. Além de grande poeta, dramaturgo e romancista, foi um activo agente cultural, sendo co-fundador das revistas Setentrião e Tellus. Vemo-lo na fotografia com Amadeu Ferreira, o escritor e principal defensor da língua mirandesa. De António Cabral escolhi o poema Acorda amor, publicado na antologia poética «Vietname», que organizei em colaboração com Manuel Simões. Parece-me dar uma ideia do grande poeta que é o «imortal» que hoje vos apresento – Meus amigos, deixo-vos na companhia de António Cabral:

            Acorda amor

            Acorda, amor. Não ouves o silêncio

            ranger à volta da nossa casa?

            Algo se passa. As aves na palmeira

            do pátio acabam de estremecer.

            Ouço-as pelas frestas da velha parede

            e o medo volta de novo ao meu coração.

            Bem sei que não devia ter medo, que o sono

            é esse doce país cantado pelo poeta,

            onde os rios não correm somente

            para demarcar os ódios, e as nuvens

            apenas ocultam a boa água fertilizante.

            Condeno-me por isto. Por tremer

            diante dum pensamento e acordar, a teu lado,

            quando um leve sussurro atravessa a noite.

            É como se a tua presença não bastasse,

            fechando não sei que porta imaginável.

            Desculpa, amor. Mas tremo. A teu lado.

            Apesar do teu rosto amanhecente.

            Mesmo sabendo que em teu corpo

            Se abriu a corola de todas as delícias.

            Pelas frestas da velha parede,

            eis-me a interrogar a noite. Que acontece?

            Que sombras se movem além do rio?

            Talvez eu delire, ainda sob a impressão

            Do último bombardeamento. Lembras-te?

            Num momento, destruiram os favos

            da nossa alegria. E o mel de tantos anos

            barbaramente se diluiu na enxurrada infernal.

            Foi como se enorme sanguessuga de repente

            se colasse a nós. Ainda tremo .

            Tu escondeste a tua cabeça no meu peito

            e eu quando acordei sob os escombros,

            tinha uma perna destroçada. Podia ter as duas.

            Não é isso que me faz tremer. Mas recordo

            a febre dos teus lábios em minhas mãos,

            o quadro dos teus cabelos outonais

            e o corpo do nosso filho, parado, no teu regaço.

            Perdoa, amor, esta lágrima. Não acordes.

            Se eles voltarem, cobrir-te-ei com o meu corpo,

            com este corpo inútil que me deixaram.

            Não acordes, amor. Em que estrela

            bus
ca
s agora o nosso filho? Que palmeira

            o acolhe à sua benigna sombra?

            Ele põe a mão na rosa do teu seio

            e nos teus lábios ardem pétalas. Meu filho!

            Lembras-te como eu gostava de o levantar

            bem alto? Meus braços, agora débeis,

            fremiam, reverdeciam como ramos,

            e tu dizias, luminosa: o tronco e a flor.

            Era como se o dia voltasse a nascer,

            nascesse a cada instante,

            cingindo-me aos teus olhos belamente doirados.

            Era. Agora, não. Agora é noite. Prolongada.

            Não durmo. Doem-me as pálpebras e a alma.

            A paz escoa-se pelas frestas da parede.

            Que sombras se movem aquém do rio,

            fazendo ranger todo o silêncio?

            Se vierem… que venham. Dorme, amor.

            Amamenta em sossego o nosso filho.

            se vierem,

            Cobrir-te-ei com o que resta do meu corpo.

 

Poemas com história: Esplanada da praia

 

 

 

Numa tarde de sábado, em Abril de 1988 (foi a data que pus no final do poema) estava sentado numa esplanada de uma praia da linha de Cascais. Lembro-me que fazia uma temperatura elevada para a época e bebia cerveja enquanto observava as pessoas que colhiam os últimos raios de sol daquele belo dia. Sentia-me bem. Depois comprei o Diário de Lisboa, que ainda se publicava e publicou por mais um ano ou dois, folheei-o, li as notícias e lá se foi a sensação de beleza e de tranquilidade…

Esplanada da praia

Ah, meu amigo, o que é o coração do homem!

(Goethe)

Sim, na verdade

o coração do homem é assim,

espalha-se no vento,

escreve gritos na paisagem,

viaja no silêncio, enfim,

é assim –

é veleiro e astronave

em permanente viagem,

o coração do homem.

Coração, é um modo de dizer,

é uma expressão nada científica,

por sinal, que serve para definir

o local, o território misterioso

onde habitam o amor, o afecto,

o ódio, o medo e a coragem.

Onde mora também

A capacidade de sentir

os oceanos que golpeiam

o peito da humanidade.

Dizemos coração,

talvez por ser mais simples situar

num simples órgão

tudo aquilo que em nós transcende

o bisonho animal

que nos domina e vigia.

Por exemplo,

é Abril e é sábado,

estou aqui na esplanada da praia,

a cerveja está fresca,

a temperatura é amena,

o mar é azul, as pessoas são bonitas,

o céu é um lago de serenidade.

Tudo é tranquilo e belo.

Porém, compro o jornal da tarde

e a tranquilidade

quebra-se logo,

como um vidro frágil agredido

pela fúria selvagem

de um martelo à solta.

O meu coração viaja até à Palestina,

à África Austral, à América Latina,

onde a ânsia animal de dominar,

destrói a vida,

oculta o Sol,

impede o amor…

 

O meu coração,

muito habituado a caminhar,

abandona o corpo sentado na esplanada,

a cerveja, o mar azul,

o céu sereno, as gaivotas;

viaja até onde a morte é lei,

o passado e o futuro

se defrontam em áridas colinas

revolvidas por obuses.

Se queres que te diga,

A tarde deixou de ser tranquila

e primaveril,

a cerveja sabe-me a sangue

e no sangue passa-me a circular

vitríolo.

Nesta tarde de Abril,

em que tudo estava a correr

tão bem,

antes que me esqueça,

pergunto-me:

terá sido a cerveja

que me caiu na fraqueza,

ou terá sido o coração

que me subiu à cabeça?

 

 

A máquina do tempo: Os dicionários, nossos amigos

 

Já aqui revelei o meu apego ao «Grande Dicionário da Língua Portuguesa», de José Pedro Machado, meu querido e saudoso amigo. Mas, numa estante na minha frente tenho algumas dezenas de outros que utilizo com frequência, monolingues e bilingues; o onomástico e o etimológico também de José Pedro Machado o de sinónimos e antónimos de Houaiss, vocabulários, gramáticas (entre elas a do Lindley Cintra e do Celso Cunha), ensaios sobre linguística, alguns «thesaurus»…  

Entre os monolingues, estão os seis volumes do «Houaiss da Língua Portuguesa». Um que não tenho e que sei fazer-me falta é o «Aurélio» (»Novo Dicionário da Língua Portuguesa», de Aurélio Buarque de Holanda(1910-1989); com uma primeira edição de 1975 e uma segunda, revista, corrigida e aumentada, de 1986). São amigos que permanentemente me aconselham e esclarecem. E, mesmo com tão boa companhia e assessoria tão qualificada, de vez em quando descubro (ou outros descobrem) erros no que escrevo.

Costuma dizer-se que os dicionários se inspiram uns nos outros o que, em parte, será verdade. Sem o «Vocabulário» do Padre Rafael Bluteau, talvez o «De Moraes», não existisse, sem o «De Moraes», dificilmente José Pedro Machado teria construído o seu e, sem o «Machado», Antônio Houaiss talvez também não tivesse concluído o seu trabalho tão depressa. Isto, para simplificar, pois a realidade é bastante mais complexa.

 

Entre o «De Moraes» e o Houaiss, para falar num com duzentos anos e noutro publicado há cerca de dez, vamos encontrar entradas iguais ou quase iguais. Digamos que um dicionário depois de acabado constitui um ponto de partida para outro. Mas não é dessas semelhanças que quero falar.

Também não vos vou falar da proto-história da ciência dicionarística, que remonta à Mesopotâmia. Apenas vou traçar, e de modo muito abreviado, a genealogia dos dicionários monolingues da língua portuguesa. O primeiro problema que se levantou, quando alguém pensou em organizar um dicionário da língua, foi questionar a sua utilidade: para que serve um dicionário monolingue se as pessoas, de um modo geral, conhecem todos os vocábulos do seu idioma? Para que precisa um português de um dicionário onde se explica o significado de palavras que ele usa todos os dias? Por isso, o  conceito inicial de dicionário apenas abrangia os bilingues. O primeiro que se fez no nosso País, foi o de Português – Latim, com o título «Dictionarium ex Lusitanico in Latinum Sermonem», foi publicado em 1569 e foi seu autor Jerónimo Cardoso (c,1510-1569); tinha cerca de 13 mil entradas.

*

O «Vocabulário Português e Latino», do padre Raphael Bluteau, editado entre 1712 e 1728, é geralmente considerado como o «pai» de todos os dicionários gerais – seguiu-se o «Dicionário da Língua Portuguesa», de António de Moraes Silva, o velho «De Moraes», publicado em Lisboa no revolucionário ano de 1789. Em 1813, ainda sob a supervisão do autor, publicou-se uma segunda edição.

Ainda hoje, o «De Moraes» é considerado como uma referência e como um ponto de partida para tudo o que se faça nesta área da linguística. Uma pequena curiosidade de almanaque – interessante como, de um modo ou de outro, alguns dos nossos melhores dicionários se relacionam com o Brasil – António de Moraes Silva (1755-1824) nasceu no Brasil (então colónia portuguesa), Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989) e Antônio Houaiss (1915-1999) eram distintos filólogos brasileiros. José Pedro Machado(1914-2005), bem este não era brasileiro, mas casou com a Professora (e também filóloga) brasileira Elza Paxeco (1912-1989).

*

Há um livro da Professora Isabel Casanova, «A Língua no Fio da Navalha», com prefácio do Professor Malaca Casteleiro e editado pela Universidade Católica, onde Isabel Casanova lecciona, que aborda toda esta temática, com uma profundidade que não alcancei aqui, por limitações de espaço e, sobretudo, por limitações de saber – desde a história dos dicionários a questões relacionadas com a utilização do idioma, nomeadamente o papel da Língua como forma de identidade nacional, os neologismos e a ortografia. Para quem se interessa por esta problemática é um livro a não perder.

Os dicionários são nossos amigos, ajudam-nos a respeitar o nosso idioma. Um aviso, sobretudo aos estudantes: não confiem nos correctores dos programas informáticos – estão cheios de erros. Um dia que esteja com paciência, organizarei uma lista com os erros mais gritantes destes supostos auxiliares. Com amigos destes quem precisa de inimigos?

Amigos verdadeiros e insubstituíveis, são os bons dicionários. Fiéis como bondosos cães, repousam nas estantes e acorrem solícitos a tirar-nos dúvidas. Os dicionários, nossos amigos, nunca nos negam a sua ajuda.

A máquina do tempo: O fenómeno explosivo dos blogues

 

Segundo informação que colhi na Wikipédia, em 2007 foi rastreada a existência de mais de 112 milhões de blogues. Dois anos depois este número deve ter sido em muito ultrapassado. Caracterizados como uma fonte dinâmica de informação e de entretenimento, são um fenómeno típico dos últimos anos. Para além desta função de informar, de entreter, de permitir o contacto com outras pessoas, já aqui, noutra das minhas crónicas, salientei o carácter catártico deste meio.

 

 Através dele, dizem-se coisas que doutro modo ficariam sepultadas e, quem sabe, a remoer dúvidas e a adensar angústias dentro das cabeças dos bloggers. Com eles faz-se uma catarse que alivia tensões e evita dispendiosas idas ao psicanalista. Provavelmente, ao aliviar essas tensões, os blogues já terão salvo vidas, evitado suicídios (pensando melhor e lendo alguns comentários, talvez tenham provocado outros suicídios, digo eu com o meu feitio pessimista). Porque é preciso alguma contenção e cuidado com as pulsões que se libertam em posts e comentários. Algumas, transformam-se em rottweilers à solta e sem açaimo…

 

A propósito desta nova maneira de comunicar, Clara Ferreira Alves escreveu, estas linhas no Diário Digital, aqui já citadas pelo Arrebenta: “A blogosfera é um saco de gatos que mistura o óptimo com o rasca e acabou por tornar-se um prolongamento do magistério da opinião nos jornais. Num qualquer blogger existe e vegeta um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso. Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, agora publicam-se as ejaculações. Mas, sem querer estar aqui a analisar a blogosfera e as suas implicações, nem a evidente vantagem dessa existência e da qualidade e liberdade que revela por vezes, destituindo do seu posto informativo os jornais e televisões aprisionados em formatos e vícios, o resíduo principal de tudo isto é que os jornais mudaram, e muito, e mudaram muito rapidamente. Parafraseando Pessoa na hora da morte, We know not what tomorrow will bring.

 

Reconhece-se alguma razão ao que Clara Ferreira Alves diz – os blogues transformaram-se em receptáculos de prosas absolutamente impensáveis – a iliteracia, a ignorância, o facciosismo desbragado (político, futebolístico e não só), tudo é acolhido nos blogues com o mesmo estatuto que peças interessantes e culturalmente válidas. Qualquer anormal se sente no direito de dar vazão aos sentimentos mais primários, à obscenidade sem limites, à mais ordinária incontinência verbal.

 

Tudo cabe nos blogues. Na blogosfera, liberdade é igual a impunidade. Nestas condições, de facto, separar o óptimo do rasca, não é fácil (mesmo dentro de um texto, seja ele da Clara Ferreira Alves ou do Arrebenta). Embora esse seja um problema que não afecta somente os colaboradores dos blogues, reconhece-se que neste meio ele assume uma maior acuidade.

 

Há diversos tipos de bloggers – serão muitos os tais colunistas desempregados – e aproveito para perguntar à Clara que usa o termo num estranho sentido pejorativo – É crime estar desempregado? Quantos jornalistas ou colunistas desempregados não são mais dignos do que aqueles que mantêm os empregos à custa de sabujice, de amigos bem colocados junto das administrações, de favores sexuais, de se apostar nas teses mais convenientes, de se manter o silêncio sobre temas importantes, e fazer berraria por irrelevâncias  e por aí fora – esses «colunistas desempregados» escrevem muita vez com um sentido de responsabilidade que nem todos os colaboradores dos jornais demonstram. Porque, sobretudo no jornalismo, estar empregado, nem sempre é um mérito. Fechar parêntesis.

 

Há também os bloggers ignorantes, estúpidos e analfabetos que aproveitam a blogosfera para vomitar insultos e obscenidades que, ditas em qualquer recinto público, dariam direito a prisão imediata. A questão é – não podemos exterminá-los – como impedi-los de aparecer com os seus comentários piratas? A blogosfera é livre e isso é bom enquanto todos os bloggers se comportarem de forma civilizada. Oxalá a irresponsabilidade de imbecis, que só com muito boa vontade podem ser considerados gente, não obrigue a criar regras sem as quais até agora se tem vivido perfeitamente.

 

O blogger não tem de respeitar as ideias dos outros (as ideias fizeram-se para ser desrespeitadas, debatidas, rebatidas e, se necessário, abatidas); mas deve respeitar sempre quem expende essas ideias com que não concorda. A isto se de deve resumir o código deontológico de quem colabora em blogues. É lícito desrespeitar ideias com que se não concorda, por mais sagradas que sejam para outros. Todavia, tem de se respeitar os outros, mesmo que sejam os defensores de ideias que nos parecem absurdas.

 

 É tão simples, não é?