Um conto da vida de Zé Pequeno (8)

(Continuando)

Os dias que se seguiram foram de trabalho. Trabalho árduo em que Zé Pequeno investia com persistência no seu juramento. Dias a fio trabalhando a pedra e saciando a sua fome de saber. De olhos vivos e atentos, de um azul que parecia reflectir o céu, buscava o saber e o aperfeiçoamento da sua arte. Queria ser o melhor pedreiro da obra, o melhor pedreiro do mundo. Era na sua arte que todo o seu ser se sustentava, o seu orgulho, a sua vaidade e a sua força.

Zé Pequeno não tardou a ser notado e comentado como bom artista, e volta meia volta a vida premiava quem se fazia vingar pela sua arte. Numa dessas raras voltas, Zé Pequeno foi contratado para a obra de S. Macário. O Senhor Nogueira carecia de alguém de confiança para trabalhar com o ferro e Zé Pequeno iniciara-se já com sucesso nessas lides. Sucesso que não obsta às más fortunas. Zé Pequeno em auxílio da dobra do ferro para uma cofragem, viu o seu braço direito ser infligido pela dor. Um dos ferros soltou-se, atingindo-o. Foi a confusão na obra. Todos acorreram para ajudá-lo, improvisando compressas para estancar o sangue que jorrava a impulsos. Não havia transporte da obra, o camião tinha ido carregar areia. Não restou alternativa a Zé Pequeno senão caminhar até à estrada, para apanhar a faniqueira que fazia serviço de carreira à Vila. Ali aguardou pelo transporte, enquanto o seu braço latejava por debaixo da compressa de trapos improvisada.

Por entre os minutos que sabiam a horas, ia-se queixando da sua má sorte e praguejava. Até que, por fim, o transporte quedou-se em sua frente. Entrou, e munido do bilhete descobriu o lugar sobrante que alcançou em três pequenos passos.

Foi então que encarou Luísa que se encontrava do lado da janela. De repente deixou de sentir qualquer dor, anestesiado que ficou pela surpresa. “E agora?” pensou ele, ao mesmo tempo que balançava a impulsos da estrada fraca. Instintivamente sorriu ao mesmo tempo que fazia evidenciar o seu braço martirizado, como que buscasse na pena uma ajuda. E Luísa sorriu com candura. Zé Pequeno sentou-se a seu lado e com a mão esquerda abriu o porta-moedas de Luísa que repousava no seu colo, guardou o bilhete e fechou novamente.

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Um conto da vida de Zé Pequeno (7)

(Continuando)

Seguiu-se mais um dia de trabalho.

Zé Pequeno ritmava o batimento na pedra pela repetição da frase do Senhor Nogueira “Tem cuidado, Zé. Olha que quando aparecer um gajo rico és posto fora. Aquela gente é assim”.

O seu orgulho sentia-se ameaçado. Não lhe entrava na cabeça, nem com um pico, a ideia de ser preterido, escorraçado, ser “posto fora”.

Aquela jornada, parecia ser a mais longa de sempre. As horas pareciam arrastarem-se para um infinito e Zé Pequeno trabalhava mecanicamente. A sua atenção fugia-lhe da pedra e perdia-se num poço de revoltas.

Manteve-se calado durante o almoço, repetindo o mesmo ritual do jantar em sua casa. Fazia-se atento às conversas dos seus colegas, mas as vozes não lhe chegavam aos ouvidos.

Desfeita a comida desfeita a companhia, e todos volveram ao seu posto, à lida do sustento. Tal como voltou Zé Pequeno à rotina da sua rebeldia que descarregava sobre a pedra dura.

De longe, o Senhor Nogueira mirava-o com afinco e abanava a cabeça sempre que o estudava. À sua memória latejavam imagens da sua parca juventude, do dia em que cortejara uma menina rica e foi esperado pelos irmãos dela à saída de uma festa. Não queria que Zé Pequeno sofresse o mesmo vexame, embora soubesse que não seria uma luta que o iria amedrontar ou fazer mudar de ideias. Tudo parecia repetir-se, com a mesma certeza que se repetia o fado sucessivo das vidas de trabalho. Como ele havia repetido a Zé Pequeno a frase que outrora ouvira do Jocas, um colega de trabalho dos tempos da pedreira de São Martinho. Nunca mais o viu desde o encerramento da pedreira. Apenas soube que fora para França, a salto.

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Um conto da vida de Zé Pequeno (6)

(Continuando)

Começou a distanciar-se da serração, tomando o caminho de regresso, num misto de alegria e de insatisfação. Repetia vezes sem conta a resposta que dera a Luísa, com o fito de tentar perceber o porquê. Que iria ela pensar? Que ele tinha muito gosto em a rever ou em conhecer a serração? Porque teria ela pensado que ele gostaria de conhecer a serração? Viria ela algo nos seus olhos que ele próprio desconhecia ou que não queria aceitar?

As dúvidas partilhavam o caminho com Zé Pequeno, rodopiando em seu torno de modo a que nada mais se passava à volta dele. Caminha e meditava, mas ao invés de buscar respostas corria atrás de novas perguntas. Não ser capaz de entender o que se passava consigo, fazia-o sentir-se vulnerável. Dantes tudo era bem mais fácil. Havia o trabalho, sua mãe, seu pai e seus colegas de trabalho. Tudo tinha uma hora e uma mecânica próprias. Tudo era certo e não fazia dúvidas.

Continuou a caminhar pela estrada fora, com o olhar posto em cada curva que se avizinhava e começou a assobiar. Sem dar conta começou a sentir-se mais leve, parecia não sentir as suas pernas, que a estrada se fazia percorrer a ela própria, sem esforço ou cansaço. O assobio ganhou um trinado harmonioso, como que chamasse melros em seu encontro para se desafiarem. Sentia-se em sintonia com tudo quanto o rodeava.

Continuava sem perceber o que se passava consigo. Excepto que se sentia melhor quando deixava de tentar entender o que quer que fosse e se entregava a viver aquele momento, sem mais perguntas.

De repente ouviu o seu nome a ser bradado. Olhou para trás e viu o Senhor Nogueira voltado para trás na janela do camião, olhando-o ao mesmo tempo que abanava a cabeça:

“Então não me vês? Vais por aí fora que pareces um tontinho. Olha, como ia a S. Macário trouxe-te a bicicleta. Já esperava encontrar-te pelo caminho”.

Zé pequeno lá retirou o seu transporte e embaraçado, agradeceu.

“Olha lá, tu por acaso amanhã não estás a pensar em voltar?” inquiriu a experiência de vida do Senhor Nogueira.

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"A originalidade é coisa que não existe"

Na actual sociedade da informação, a discussão sobre os direitos autorais é cada vez mais valorizada por alguns e, simultâneamente, mais desvalorizada por outros. Por outro lado,  mundo actual é um melting pot onde tudo acabará fundido e indistinto, para uns;  multicultural, para outros, que defendem existir progressivamente mais espaço para diferenças culturais e comportamentais dentro de uma mesma sociedade.

No campo artístico estão na moda conceitos e expressões como contaminação, interpenetração, fusão, transversalidade, etc. Em função disso, ideias como criação individual e plágio, sedimentadas durante muitos anos, encontram-se no centro de novas discussões, reavivadas agora com o livro “Axolotl Roadkill” de Helene Hegemann. Para ler no i.

Um conto da vida de Zé Pequeno (5)

(Continuando)

Todos os dias Zé Pequeno largava o trabalho e montado na sua bicicleta atravessava a Vila até Ribeiro Grande. Parava junto do pequeno quiosque fazendo-se distraído e mirava a serração. Seguia com atenção todos os movimentos por entre o gradeamento de ferro da frontaria, que lhe parecia uma fronteira. E todos os dias, via Luísa acompanhada por um homem de meia-idade de figura franzina no Ford V8 preto que parecia protegê-los de uma qualquer ameaça. “Deve ser o pai” pensava.

Percebeu então que pelo fim de tarde, Luísa costumava entrar no pequeno café onde demorava cerca de um quarto de hora, para depois regressar à fábrica. Era o melhor território para se fazer encontrado com ela. O melhor e o único.

Depois de dias de atalaia, levou por diante o seu plano. Num saco de pano acondicionado na grade da bicicleta, levou roupa limpa e os seus sapatos de festa. Após o dia de trabalho, o Senhor Nogueira guardou a bicicleta em sua casa, onde Zé Pequeno se lavou em pressas.

“Deita esta água de cheiro, homem. Se não vais a cheirar a sabão amarelo” disse o Senhor Nogueira segurando um frasco translúcido.

Na cabina do camião, Zé Pequeno ia descrevendo a figura delicada de Luísa e como lhe soara a um desejo a sua frase “Até mais ver”. Falava dela como se sentisse algo novo e que não sabia explicar. O camião parou a distância segura da serração e Zé Pequeno saltou do transporte, ajeitou a sua roupa e sorriu sem saber bem porquê. Logo apressou o passo em direcção ao café. Queria chegar antes de Luísa.

Entrou no estabelecimento com ar altivo, como se fosse cliente habitual e todos o conhecessem. Saudou distraidamente o empregado e pediu um quarto de águas, sentado-se defronte à vitrina, donde contemplava algo estranhamente novo. Alternava o seu olhar entre a vitrina e o relógio que pendia na parede. Apercebeu-se, então, quanto tempo demorava cada movimento pendular. Tornava-se até gracioso, aquele movimento que a ansiedade parecia fazer perdurar cada vez mais.

Surgiu então Luísa, caminhando pelo passeio em direcção ao café, que fez saltar Zé Pequeno da cadeira e o atrapalhou. De súbito já não se lembrava do que havia planeado fazer quando a mirasse. O pêndulo do relógio perdera as estribeiras e parecia ter entrado em pânico, como ele. Tentou repor a ordem nas ideias, mas elas pareciam estar contagiadas pelo pêndulo do relógio. De relâmpago, voltou a sentar-se, cruzou a perna e quedou-se numa nervosa tranquilidade.

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Mal-entendidos

Quando cheguei, já tarde, contava-se a história de um homem cuja vida fora marcada por um episódio dramático, ocorrido no final da adolescência. O episódio, que, pelas razões que a seguir se explicarão, não vos posso contar, tinha tanto de torpe como de pungente e era fascinante do ponto de vista ficcional. E foi justamente isso que entendi, que se tratava do enredo de uma obra de ficção.  Um romance a que me apeteceu deitar mãos de imediato, diga-se. Mas a narração do episódio chegava ao fim, impunha-se avançar para outro tema, e eu já não encontrei espaço para esclarecer de que autor e de que obra se falava.

Nos dias seguintes, procurei no Google. Não era fácil, apenas com um excerto da trama, sem saber autor nem título, nem coisa nenhuma. A temática levava-me a supor que se trataria de uma obra relativamente recente, mas a busca revelou-se infrutífera. Não conseguia encontrar nenhum registo de uma obra com esse enredo. [Read more…]

Mata-Cães ou o criador e a criatura (Poesia & etc.)

Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, muitas vezes sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.

Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começa-se a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta. [Read more…]

Escrever ou blogar, eis a questão (Memória descritiva)

A propósito da mini-polémica que aqui se desencadeou sobre o universo dos blogues, entre o aventor Carlos Fonseca e o artista plástico Leonel Moura, lembrei-me de um artigo de Pierre Assouline que, em 26 de Janeiro passado, foi publicado no “le Monde des livres” sobre os escritores blogueres. Antes de mais, temos uma inauguração pessoal – resolvi adoptar o verbo blogar. Blogar – verbo transitivo (do inglês to keep a blog). Não sou pioneiro, outros já o utilizam há tempos. Mas vamos ao tema.

Segundo diz Assouline, são mais raros do que se pode julgar os homens de letras que blogam e por duas razões: uma boa parte deles não mantém qualquer convívio com o computador e com o universo que se encontra subjacente, e os que estão ligados à net depressa se apercebem de que a manutenção de um blogue representa um exercício de regularidade e um acréscimo de trabalho que obrigam a sacrificar todos os dias algumas horas do tempo de escrita. Assouline não o diz, mas eu acrescento que, além do tempo que se ocupa a redigir os textos, o vício de consultar o blogue diversas vezes ao dia, ler e responder a comentários, transforma-nos em blogo-dependentes.

Diz o jornalista francês que o facto de não ser meio a que os escritores se afeiçoem facilmente, constitui ainda mais razão para referir aqueles que não só se aventuram por esses caminhos, como dão também um prolongamento de tinta e papel ao seu diário on line, como é o caso de José Saramago, de 87 anos, e do romancista francês Èric Chevillard, de 46 anos. Não vou transcrever as entrevistas, disponíveis na net, apenas referir um ou outro aspecto do conteúdo do texto de Assouline. [Read more…]

Um conto da vida de Zé Pequeno (4)

(Continuando)

Com esforço, Zé Pequeno juntou uns quantos Escudos e foi à Vila para comprar tecido. Trouxe três metros de pano e uma caixa de sapatos, arrumados na grade da sua bicicleta, que cuidava de não passar por poças de água ou mau caminho. E pelo caminho encontrou o Toninho de Tiães, seu colega da obra.

“Oh Zé! Prá semana queres ir à festa da Senhora da Saúde?” perguntou com a sua voz grave Toninho, agitando o seu cabelo preto do alto da sua estatura.

“Ai a essa não falto. Levo aqui a encomenda” disse Zé Pequeno batendo ao de leve sobre o embrulho das compras.

Combinaram encontrarem-se no próximo sábado, junto à curva larga da estrada do Lamal. E durante os dias que faltavam, entusiasmavam-se cada vez mais com a ideia de irem à festa.

Zé Pequeno todos os dias apressava o alfaiate a concluir o fato. Fazia as provas de noite à luz da lamparina, frente ao espelho baço em que via a sua imagem reflectida como se fosse um sonho. Ele, Zé Pequeno, vestido de fato, com uma gravata de tecido, que pendia sobre os sapatos pretos brilhantes. Finda a prova, os sapatos voltavam para a caixa e à guarda do alfaiate.

Era sábado e a noite ia-se espalhando, rendendo o dia quente.

Zé Pequeno retirou a sua roupa do embrulho e vestiu-a com mil cuidados. Como não tinha espelho em casa, havia fixado de memória a imagem da última prova que fizera no alfaiate. Saiu de casa empurrando a sua bicicleta, pelo carreiro poeirento. Calçou meias largas de algodão sobre os sapatos, subidas até a meio da canela para não empoeirar a linhagem.

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Antero (Poesia & etc.)

É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo.

Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:
– Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com a malandragem que anda por aí, é bom estar prevenido.

– Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.

E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.

– Nunca peguei numa arma de fogo…
O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:
– Não, não. Deixe-o assim, já pronto.
O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes…
– Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado. [Read more…]

Poesia do Socialismo Português

Um conto da vida de Zé Pequeno (3)

(Continuando)

Zé Pequeno mirou em redor a terra revolvida. Segurava o saco de cabedal dos picos com que moldava a pedra. A manhã estava clara, pronunciando um bom dia de trabalho. Respirou profundamente o cheiro da obra, como se tivesse acabado de conquistar uma vitória. Vagueou por entre as pedras trabalhadas soltas ao longo da propriedade, e com as mãos tacteou o relevo de cada uma delas, como se lesse o que cada pedra lhe tinha para contar.

Fora o primeiro a chegar à obra, como o seu orgulho lhe ditara e fizera ganhar forças para ultrapassar o cansaço da jornada passada.

Pela estrada surgiu o vulto de um camião a que a breve trecho se juntou o barulho do motor. E dele viu sair dezenas de homens que seriam agora os seus companheiros de trabalho.

Ao volante, lá estava o Senhor Nogueira a incitar os homens ao trabalho. Descarregou a carga humana de trabalho e parou ao largo da obra após um curto arranque. Saiu do camião e lançou o olhar sobre o novo pedreiro.

“Pareces ter vontade de trabalhar. Vamos, moço!” disse o Senhor Nogueira abrindo o caminho por entre os operários até o levar à banca de trabalho.

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Poemas do ser e não ser

Passei o dia a ouvir música

sempre a mesma

alternando Madredeus e Erik Satie.

Como foi possível

parecerem-me tão semelhantes?

Que percebe de sons

este monocórdico espírito?

Mas foi o mesmo

o que produziram em mim:

a sensação amarga

de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.

Como vou misturar

é quase certo que nada existe

nada está perto nem eu estou triste

com Embryons desséchés

e Peccadilles importunes? [Read more…]

Um conto da vida de Zé Pequeno (2)

(Continuando)

Findo o carreiro, precipitaram-se para o portal da casa, ao fundo de uma empena. Soltaram o som do pequeno sino que alertava a gente da casa.

Por entre os portões de madeira com grossos cunhais de ferro, surgiu gente que os levou aos donos.

No patamar do alpendre, Zé Pequeno mirou duas raparigas de idades aproximadas, ao lado de um homem com roupas limpas e corrente de ouro reluzente sobre o colete castanho.

Maria Pequena saudou com a humildade de quem passara os muros de um mundo que não era o seu e assim negociou o preço, por entre gestos repentinos e queixas de mercadora.

Seu filho admirava a sua esperteza, o seu modo de fazer negócio. Mas naquele instante ele estava atento às duas raparigas do patamar. Especialmente à Lourinha, o nome que logo de cabeça lhe pôs, pelos seus cabelos louros aos cachos. Das duas, era sem dúvida a mais bonita.

Mirava-a nos olhos à busca de um sorriso, mas o seu rosto parecia manter-se inalterado. O que o entristecia, sem saber bem porquê.

Às ordens de sua mãe, Zé Pequeno e os demais seguiram para o laranjal. Contrariado, voltou as costas à rapariga para seguir o grupo.

Um a um, tomava o peso das laranjas às suas costas num pesado fardo, e tomavam o longo carreiro para a pobre casa onde iam arrumando as laranjas num improvisado barraco.

Às costas lá iam suportando o peso da vida árdua, mas de onde vinha o sustento para a fome de cada dia.

Sempre que passava pelo patamar, Zé Pequeno olhava em busca dos cachos louros, mas não mais os viu.

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Um conto da vida de Zé Pequeno (1)

 O dia começara como tantos outros.

Era mais um dia de trabalho.

Zé Pequeno levantara-se com o corpo dorido do trabalho que o fustigara no dia anterior. E na boca conservava o mesmo sabor amargo com que a vida o ia marcando, aos poucos, os socalcos que galgavam a pele escurecida pelo trabalho árduo. Não era velho. A sua juventude apenas se ia esvaindo por entre a fome e a labuta, que o fizera forte como os trepos que circundavam a pobre casa de seus pais que também era a sua.

Uma vez de pé, respirou fundo o ar de fuligem e caruma que impregnava a casa, a que se misturava ainda ao cheiro do azeite da sopa fervida, no preto caldeirão que parecia ter aterrado pela chaminé na lareira.

Seguiu mecanicamente os seus próprios passos até à rude porta. Abriu e sorveu o ar fresco da alvorada que corria livre e selvagem.

Para Zé Pequeno, a única liberdade que havia era a dos ventos e dos rios. O Portugal de então cobrara o preço da não participação na Segunda Guerra Mundial.

De selvagem ficara o coração de Zé Pequeno e a sua força que não cedia ao cansaço nem ao medo.

Mirou em volta à busca de um pedaço de pão que enganasse o seu estômago e iludisse a fome que sentia. Levou-o à boca e mastigou-o com a mesma convicção com que enfrentava cada dia. A mesma convicção que o fazia acreditar. Acreditar que um dia tudo iria mudar pela força do seu braço e da sua arte.

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Calendário da cintura industrial (Poesia & etc.)

Tinha dito que neste série Poesia & etc., publicaria poemas, inclusive poemas meus. Até agora não tinha publicado nada da de minha autoria. Este poema, “Calendário de Cintura Industrial” foi escrito há muitos anos. Foi escrito ao mesmo tempo que os poemas inéditos de «O Cárcere e o Prado Luminoso», publicado em 1990. Sempre o achei um pouco lamecha e, além isso, excessivamente longo para o meu gosto. À última hora, retirei-o do livro. Tenho-o guardado, hesitando entre o deitá-lo fora ou reformulá-lo. Assim, foi mantido inédito durante vinte anos. Até hoje. [Read more…]

Carta de uma sapa a Sua Alteza Real

Sua Alteza Real,

Queridíssimo Príncipe

Fosse eu uma sapa sensata, cumpridora do pouco que se espera de uma criatura da minha espécie, e jamais me atreveria a dirigir-me a Vossa Majestade.

Saiba, porém, Vossa Alteza que tentei certa vez chamar-vos a atenção, quando, a caminho da fonte de S. Bento, passou a real comitiva junto ao meu pequeno charco. Mas a passarada andava inquieta nesse dia, com uma invasão de gaivotas dadas à ladroagem, acabadas de chegar do litoral, e o ruído era tanto que Vossa Alteza não pôde ouvir o meu humilde coaxar. Afastastes-vos com passos rápidos, e com tamanha pressa, que das vossas reais botas saltaram uns salpicos de lama, que me acertaram em cheio. [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – O Sr Joaquim Lavadeira

O Sr Joaquim Lavadeira

Ainda não tinha um mês de vida, e já eu frequentava a praia de Gondarém. Uma grande parte das chamadas boas famílias da Foz da altura, frequentavam esta praia ou a do Ingleses. Eram quase como umas praias de elite, e também toda a minha família paterna o fazia, embora quase exclusivamente na de Gondarém.

Tínhamos uma barraca, das grandes, invariavelmente situada, ano após ano, no mesmo sítio da praia. Era a terceira, à direita de quem olha para o mar, a seguir à primeira abertura entre barracas, logo a seguir ao fim das escadas em redondo, e em frente à rampa. Se nã me engano, tinha o número 29. Não tinha que enganar.

Os vizinhos de um lado e do outro eram sempre os mesmos. Ao fim de uns anos, eram como que da família.

Os donos, concessionários em parceria com o sr Francisco, e que detinham a parte melhor e maior da praia, eram [Read more…]

a paixão que mata o amor

A morte de Beatriz

Para a mulher que respeito e amo, ela sabe quem é….

O povo português anda preocupado pelas batalhas políticas. Nem sabemos quem nos governa: se é o primeiro-ministro ou a oposição. E se é a oposição, qual é, entre todos os presidentes dos partidos das bancadas que fazem do governo uma minoria, o que exerce o poder? Minoria que, estrategicamente, procurará convénios com os partidos mais pequenos que apoiam o governo minoritário, com condições eternas.

Devo confessar que é um tema interessante, apaixona-me no meu querer saber de como vamos resolver a crise económica que nos atormenta e empobrece, como vamos criar mais postos de trabalho, como vamos agasalhar os que têm frio e fome especialmente em dias de festa, como o carnaval. Povo teimoso que, com frio e tudo e sem dinheiro, passeia e anda pelas ruas da alegria, esquecendo assim as da amargura.

No entanto, quando estamos no meio de outros problemas, sobretudo emotivos, o que o governo faça ou não, passa para segundo plano nos nossos interesses. Até um certo ponto. A crise económica entra nos nossos sentimentos e ficamos fracos para o amor. Bem queríamos amar sem preocupações e oferecer presentes, mas a carestia de vida em que este fraco governo nos meteu, faz-nos mais pobres ainda: de recursos e de emoções.

Os recursos, podem ser resolvidos, o amor também. Um nada de optimismo coloca-nos nas portas da serenidade e da paz. Requisito mínimo, para sabermos conviver em permanente conflito político, especialmente nós, que apoiamos o governo de minoria e os seus aliados. [Read more…]

Noites Brancas (Memória descritiva)

Já aqui contei que traduzi o livro «Noites Brancas», de Feodor Dostoievski. Fiz a tradução a partir da edição francesa, pois de russo apenas sei aquela meia-dúzia de palavras que toda a gente conhece. Traduzi a partir da tradução francesa de Pierre Pascal e Boris Schloezer – essa, sim, feita directamente do russo. Havia já as excelentes traduções de Maria Franco e de José Marinho (que fiz questão de não consultar durante o meu trabalho). Houve posteriormente a de Luiz Pacheco para a sua artesanal editora – a Contraponto. Mas não contei os motivos por que fiz a tradução e num tempo recorde, em muito poucos dias. Bem sei que o livro não é grande, mas, mesmo assim, foi uma maratona e tanto. Por que tive de traduzir o livro tão à pressa?

Estávamos na primeira metade dos anos 70, eu trabalhava numa editora internacional e íamos lançar uma «História da Arte» em muitos volumes. Era uma obra preparada com cuidado, com a versão portuguesa dirigida por um grande especialista na matéria, José António Ferreira de Almeida (1913-1981), professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde viria a ser presidente do Conselho Científico.

Lembro com saudade o professor, as reuniões que fazíamos na editora ou na sua casa do Restelo – pois, com aulas também na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde, aliás, era natural, dividia o tempo e a vida entre as duas cidades. Numa moradia não muito grande, acumulava mais de 40 mil livros. Salas e corredores, tudo estava forrado de estantes até ao tecto -. um espectáculo impressionante. Era uma pessoa alegre, bem disposta, e com uma cultura vasta que não se restringia à sua área de especialização. [Read more…]

Um caçador de magnólias conta o seu ofício

Quando chega Fevereiro passo os  dias a caçar magnólias. Não qualquer magnólia que se me apresente, atenção. Interessa-me unicamente a magnólia branca, mais invulgar, mais frágil, um erro genético. A magnólia rosa, cujo suave tom acetinado constitui o cenário ideal para fotos de casamento, aborrece-me.

Conheço bem o território de caça. Sei que há dois exemplares, um ligeiramente mais tímido, outro mais confiante, frente à igreja dos Congregados, a dar guarida à estátua do Ardina. A rua de Sá da Bandeira recebeu recentemente uns quantos jovens que este ano dão flor pela primeira vez. Sítios insólitos, como o pátio do ACP, também albergam por vezes esplêndidos indivíduos, de grande maturidade e porte digno. Mas costuma ser no largo 1º de Dezembro (onde literalmente se esconde a grande maravilha barroca da cidade, a igreja de Santa Clara) que se encontra uma assinalável concentração de especímenes. [Read more…]

Sermão de Santo António aos Peixes: O Polvo

“Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. [Read more…]

Citações (i)nocentes

– “Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-la.”

Voltaire (pseudónimo de François-Marie Arouet, dramaturgo, escritor e filósofo francês, 1694 – 1778 ).

– “Aquilo que não puderes controlar, não ordenes.”

Sócrates (filósofo grego, 470 – 399, AC)

Mudar: A Regionalização, Parte II:

Ao longo dos últimos dias o Aventar tem esmiuçado o livro Mudar de Pedro Passos Coelho. Da Justiça aos Investimentos Estratégicos, passando pela Regionalização, nada escapa aos Aventadores de serviço. Um político, quando publica um livro onde condensa algumas das suas ideias, sujeita-se a este tipo de escrutínio e Pedro Passos Coelho, a exemplo de outros, não teve medo do risco que correu, honra lhe seja feita. Aquilo que o Aventar tem feito não é caso único, outros blogues o fazem. Vamos, pois, continuar.

No seu livro “Mudar” da Quetzal, Pedro Passos Coelho reconhece “a intensificação das assimetrias regionais que algumas décadas de políticas de desenvolvimento regional trouxeram ao território português de forma paradoxal”, chegando ao ponto de assumir que esse é um dos mais graves problemas nacionais. Contudo, mesmo reconhecendo simpatia pela ideia da Regionalização, está convencido que a mesma não se pode nem deve fazer nos próximos anos. Já no jantar com bloggers afirmara, depois de ser bombardeado pelas nossas perguntas sobre a matéria, que um governo que tome a opção de realizar a regionalização numa legislatura, arrisca-se a não conseguir fazer mais nada. Uma ideia plasmada no seu livro (pág. 245).

Dando de barato o seu cepticismo, não posso concordar com semelhante argumento, embora queira acreditar que o aponta apenas como exemplo limite, de molde a fugir à verdadeira questão. Mas o que prefere Pedro Passos Coelho fazer? Desde logo, uma ideia tão cara aos nossos políticos: mudar a constituição. Uma mudança que permita não a criação mas essa tão nobre forma de trabalhar portuguesa: ir fazendo. Primeiro criando uma região-piloto (mas só na legislatura seguinte!), de molde a aprofundar o estudo dos melhores modelos de competências e financiamento, “bem como da transferência de pessoal técnico” e a seguir, se tudo correr pelo melhor, alargar a experiência a outras regiões – não percebi se de uma forma geral ou através da criação de mais uma ou duas regiões-piloto. Aqui chegados, já nasceram os meus netos!

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O Terramoto de 1755 e a cultura europeia da época

Em textos anteriores, vimos já que se perdeu muita coisa importante no Terramoto de 1755 – os seis hospitais da cidade, incluindo o de Todos-os-Santos, 33 palácios da grande nobreza, o Palácio Real, a Patriarcal, o Arquivo Real, a Casa da Índia, o Cais da Pedra, a Alfândega palácios, igrejas, bibliotecas, a faustosa Ópera do Tejo, inaugurada sete meses antes… Na «Gazeta de Lisboa» do dia 6 de Novembro, afirmava-se que «O dia primeiro do corrente mês ficará memorável pelos terremotos e incêndios que arruinaram uma grande parte desta cidade». Diga-se, de passagem, que a «Gazeta» nunca interrompeu a sua publicação devido ao sismo, constituindo uma importante fonte de informação sobre o que aconteceu. Vimos já, como dizia, o que se perdeu, relação enriquecida com um excelente comentário do aventador Nuno Castelo-Branco.

O que se ganhou, também sabemos: uma cidade nova, muito moderna para a época em que foi construída e, pormenor importante, edificada de acordo com um sistema anti-sísmico – a famosa estrutura flexível de madeira dos edifícios, «em gaiola». Como disse José Augusto França, a nova Lisboa saída do inspirado traço de Eugénio dos Santos, surge como uma autêntica «cidade das luzes», uma obra emblemática do espírito do iluminismo. [Read more…]

A noite em que o George Clooney jantou lá em casa

E contra todas as probabilidades, à hora marcada, a campainha soou. Tirei o avental, admito que possa ter dado uma última espreitadela ao espelho, e fui abrir a porta. Lá estava ele, com o sorriso estudado e o fato aprumadíssimo, mas no seu olhar pareceu-me entrever alguma desconfiança. É natural, pensei, não é todos os dias que uma estrela de Hollywood vem jantar à Rua do Bonjardim.

Dei-lhe as boas vindas, agradeci a previsível garrafa de vinho e conduzi-o à sala. Ele mostrou um interesse diplomático pela casa, apreciou à distância alguma das fotos dispersas pela sala, olhou mais de perto uma peça de cerâmica, sem contudo se atrever a tocar-lhe, ensaiou uma espreitadela à varanda, mas desanimou-se e acabou por ir sentar-se no sofá. Movia-se com à vontade, num exercício de informalidade muito trabalhada.

Eu sentei-me no outro extremo da sala e a conversa foi avançando aos tropeções, em grande parte graças à minha fraca habilidade para evocar filmes nos quais ele tivesse contracenado. Depois um arranque titubeante, comigo a falar-lhe de filmes protagonizados por outros actores, perdi a paciência e confessei-lhe que sempre o vira como um Cary Grant dos tempos modernos, com a mesma subtil combinação de charme ingénuo e de atrevimento pouco picante. Ele gostou da ideia e, aproveitando o momentâneo idílio, resolvi servir o jantar. [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – A Sra D. Hortélia

O RIO À MINHA FRENTE, CORRE CALMO, E EU ESTOU PREOCUPADO COM A SRA D. HORTÉLIA

O rio à minha frente corre calmo, muito calmo, entrando suavemente no mar.

Espalhados pela margem, meia dúzia de pescadores esperam pacientemente que algum peixe se digne morder a bicha e ficar preso ao anzol. Lá mais longe, à minha direita, o farol velho, agora sem utilidade prática e o outro, recente, ainda com as cores de novo, orgulhoso das suas riscas vermelhas e brancas.

De vez em quando, entra na barra uma traineira. Vem da faina nocturna, e se tiver corrido bem, estará carregada de peixe para vender na lota da Afurada.

Lá fora, estou sentado no banco do passageiro do meu carro, está fresco. Não chega a ser frio. São oito da manhã e estão cerca de sete graus centígrados. O Inverno não vai ainda a meio, e nem tem sido rigoroso. Está um dia bonito.

Do local onde me encontro, consigo ver o mar, lá ao fundo. Não se notam quaisquer ondas. Não há vento. O céu, carregado de nuvens de um cinzento claro, não pronuncia chuva. Por entre elas, [Read more…]

Rosa Lobato de Faria (1933 – 2010) e os programas do Herman


Morreu hoje Rosa Lobato de Faria. Tinha 77 anos. Escritora e actriz, não passou despercebida pela vida. Era uma personagem muito curiosa: aquela postura de fina e snob não parecia ter grande correspondência com a realidade. Lembro-me dos programas do Herman e do seu incrível sentido de humor. Na literatura, cheguei a ler «O Prenúncio das Águas», que recebeu o Prémio Máxima de Literatura em 2000 e que foi distribuída massivamente nas escolas.
Descansa hoje em paz depois de uma semana internada no hospital.

I am the master of my fate: I am the captain of my soul

Através deste belíssimo texto, a Leonor “mostrou-me” este poema.

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

E aqui uma breve história do poema e do senhor que o escreveu.


(Admito: chorei um bocadinho com este poema)

Mudar? Claro que sim e já!

A partir de agora e tendo presente que o livro já foi apresentado pelo autor em Lisboa e Porto, o Aventar vai começar, paulatinamente, a esmiuçar (palavra na moda) o livro de Pedro Passos Coelho, “Mudar”. O primeiro post foi de Luís Moreira.

Não se espere um resumo da obra mas antes uma análise crítica da mesma.

Mudar??? É poesia para os meus ouvidos!

O sugestivo título “Pensar Portugal” (páginas 19 a 27) apresenta-nos um breve resumo histórico assente, em meu entender, num ponto fundamental e que não resisto a sublinhar com uma citação:

“Assim sendo, o problema crónico foi o de construirmos uma nação muito polarizada num Estado demasiado centralizado, primeiro com a Monarquia e depois com as formas de governo da República, transferindo do Paço monárquico para o Terreiro do Paço republicano, o essencial da natureza centralista do poder político em Portugal. Esse é, julgo eu, um dos grandes problemas do nosso país”.

Eu nem queria acreditar. A enorme lucidez deste escrito de Pedro Passos Coelho – apenas divirjo num ponto: não é “um dos grandes problemas do nosso país”, é mesmo o problema – demonstra a razão que assiste a todos aqueles que, como eu, defendem uma profunda e urgente reforma administrativa conducente à Regionalização.

Ora, quem afirma algo como aquilo que se pode ler na citação em causa, só pode defender a Regionalização. Aqui não pode nem deve existir um “mas”. Temos de ser consequentes: a asfixia centralizadora em que vivemos é a causa primeira da nossa pobreza e do nosso atraso crónico em relação aos outros países europeus. Quando o Pedro Passos Coelho, qual médico, detecta a doença que atinge o paciente, só lhe pode prescrever os fármacos adequados a debelar, de vez, a maleita. Um Estado demasiado centralizado obriga a uma descentralização real e não meras aspirinas (mudança de ministérios para a parvónia, transferência de competências confusas e difusas para as autarquias locais sem o competente envelope financeiro, etc, etc, etc.) ou seja, obriga a uma Regionalização.

Sem medo nas palavras e nas acções a realizar. Em suma, cumprir o título da obra: MUDAR!