Dª Amélia em Centenário


Sempre que deparo com o nome de Dª Amélia numa montra de livraria, franzo o sobrolho. As más experiências que a minha curiosidade tem sofrido, ditam a desconfiança. É que não existem Corpechots, Rochas Martins e Ruis Ramos ao virar de cada esquina.

Acabei de ver em escaparate nas Amoreiras, o livro Dª Amélia, da autoria de Isabel Stilwell. Apenas folheei as derradeiras e demasiadamente sucintas páginas referentes à passagem da rainha no Portugal de 1945, parecendo corresponderem à verdade histórica, embora Stilwell pudesse ter sido mais rigorosa no epílogo, quando da imponente e multitudinária manifestação de pesar popular no funeral da Grande. Mas a obra não pretende ser uma análise histórica do momento social e político do Portugal da 2ª república.

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A Noite e o Sobressalto

Pedro Medina Ribeiro é nosso leitor e, além disso, amigo do Aventar no Facebook. Ora bem, parece que chegou o momento de o lermos, a ele.

“A Noite e o Sobressalto”, seu livro de estreia, pode ser encontrado desde ontem nas livrarias. O lançamento é hoje, na livraria Barata, às 19h00. Os leitores do Aventar estão convidados, naturalmente.

Falta acrescentar duas coisas: é na Av. de Roma e conta com a presença do autor.

E ainda: que corra tudo sem sobressaltos, Pedro, e guarda-me um exemplar antes que esgote. Autografado.

Como Se Fora Um Conto – Na capital do País que um dia foi um Império

“Assim, tratei dos papeis, tomei as vacinas, fiz as malas e rumei à capital.”

Quem me conhece saberá, por certo, o quanto me terá custado esta viagem. Ou melhor dizendo o quanto me terá custado aceitar fazê-la.

Isto de descer a sul de Coimbra tem sido, nos últimos anos, uma impossibilidade para mim. No entanto, depois de mais de três lustres, lá me decidi a aceitar a ideia de ir até lá, e mais do que isso, ficar para o dia seguinte.

Porém, antes de mais, tenho de me desculpar perante os amigos que por lá tenho. Alguns, que antes de o serem já o eram, e outros, que antes de o serem já o são. A Maria, o Luís, os Carlos, o Nuno, para só citar aqueles com quem mantenho um maior contacto, entenderão, tenho a certeza, o meu silêncio e o secretismo da viagem, que foi decidida em cima da hora e teve como objectivo curar alguns pequenos males familiares, e uma tristeza em mim instalada. Outra oportunidade haverá.

Assim, decisão tomada, tratei dos papeis, tomei as vacinas, fiz as malas e rumei à capital. [Read more…]

Ao soar das horas mortas

 

Ao soar das horas mortas, nest’outro modo de ser hoje, recolho as asas tombadas à saída do corpo, asas de voo natural, sublime, acima das coisas.

Para lá do nevoeiro, sei que moram os dias claros e as nirvânicas noites. Apetece-me gritar: Menino, pastor da noite! Menino, pastor da noite!

Vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo, tento fundir a neve com o calor da nudez. O cansaço e a ideia, do lado de fora de uma teia sem olhos, são fios que tecem, mais tarde ou mais cedo, o mundo das sombras.

A respiração acabou e o poema nasceu fechado, cianótico, asfixiante. No imediato corpo, tão longe e tão perto, um frio azul anidrido carbónico encharca as palavras secas.

Velha semente sem terra, nova terra sem semente, um tal dizer feito de gestos, e o prazer de supor que a água ainda corre nas entrelinhas da secura.

Dia mundial da poesia?

Dia mundial da poesia?

Comemora-se hoje o dia mundial da poesia. Não é coisa que eu engula facilmente.

Por todo o país e, provavelmente, por todo o mundo há tertúlias e coisas mais ou menos engraçadas. Algumas coisas boas, e outras de pouco ou nenhum valor. A pergunta mais corrente será: O que é a poesia? O que é ser poeta?

Daniel Barenboim, um dos maiores pianistas e maestros da actualidade, diz que é impossível falar de música, e que são muitas as definições de música, mas que, na prática, se limitam a descrever uma reacção subjectiva. Todas elas parecem dizer muito e não dizem nada.

Sem querer pôr-me à ilharga de Barenboim, eu também digo que não sei o que é a poesia, e duvido muito de quem diz que sabe. Desde a respiração de Deus à depuração absoluta da palavra, já ouvi de tudo.  Parecem dizer muito e não dizem nada.

Isto, porque a poesia é um sentimento, o sentimento poético, como o sentimento do amor, o sentimento da alegria, o sentimento da tristeza, o sentimento do medo. O mesmo acontece na arte, ou sentimento artístico, seja qual for a expressão artística, plástica, musical etc. E o sentimento é um fenómeno muito complexo. [Read more…]

PAI

.

.

Vida fora tu correste

Passo lento, certo, seguro

Nunca foste uma alma errante

Eras fácil de encontrar

E agora que já morreste

De ti digo e asseguro

Nem todo o bom mareante

Se encontra no alto mar

.

Agora, és rio, és calma

Nada te fere ou ofende

Já não tens frio

É branca e pura

A brisa que afaga a tua alma

E te acaricia com doçura

Transparente

.

Já nada nos separa

Aguarda por mim

Tranquilamente

És eterno

Eu estou só de passagem

.

Vou ter contigo

Repara

E nesse dia, por fim

Espera por mim

E, enquanto o relógio não pára

Guarda-me um lugar para a viagem

.

.


Breves discursos sobre a Primavera (Poesia & etc.)


Primavera, de Picasso.

Assinalemos a chegada da Primavera através de algumas vozes privilegiadas. Picasso viu-a assim. Vejamos agora como Pablo Neruda saúda a mais poética das estações (Excerto do poema Oda a la Primavera, de «Odas Elementales»):

Primavera
temible,
rosa
loca,
llegarás
llegas
imperceptible,
apenas
un temblor de ala, un beso
de niebla con jazmines,
el sombrero
lo sabe,
los caballos,
el viento
trae una carta verde
que los árboles leen
y comienzan
las hojas
a mirar con un ojo,
a ver de nuevo el mundo,
se convencen,
todo está preparado,
el viejo sol supremo,
el agua que habla,
todo
y entonces
salen todas las faldas
del follaje,
la esmeraldina,
loca
primavera (…)
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Foi-se o encanto

Foi-se o encanto

 Muito difícil é desembarcar, digo eu que nunca fui marinheiro. Não consigo acostar o barco. Há sempre uma onda e outra e depois outra. Mesmo que o mar esteja manso, ou se é da terra ou se é do mar.

 No dia em que eu voltar e vir a figueira com figos e a erva a crescer no merujo reluzente de prata das noites de luar, no dia em que eu voltar, vestido de ilusão, a olhar o mar e acreditar, nesse dia não chames por mim.

 Mata-me a memória e a história, não deixes que viva uma hora descrente ou indiferente. São duras as horas e os minutos das palavras descrentes, indiferentes, alheias, adiáforas, frias, incuriosas, passivas. Uma espécie de árvore seca sem frutos nem sementes. Um vento áspero que perpassa por entre os dedos dormentes. É cruel a falta de palavras. São dolorosas as palavras indiferentes.

 Na cegueira dos olhos sumidos de chorar sem lágrimas a noite ruidosa dos segredos, não há coisa mais triste do que olhar a chávena sem palavras cheias. Foi-se o encanto, e a poesia não passa de um saquinho de açúcar rasgado sobre a mesa abandonada do café vazio.

Vazio

Vazio (mais um conto do meu filho Marcos Cruz; peço desculpa pelo abuso)

António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse. Mas então por que razão passava mal? [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – O Meu Dia Do Pai

Chove e o sol não entra pela janela.

Abri as cortinas para que a luz melhor inundasse a sala.

Olho a fotografia. Está junta com as outras, numa prateleira com livros. São muitas as prateleiras e muitos os livros. São poucas as fotografias. Quase todas de familiares. Tios, avôs, pais, filhos, primos. Um a um. Dois a dois. Esta é especial, tem quatro. Os meus quatro filhos. Vejo-os pouco, e eles a mim. A um ou outro mais amiúde, a um ou outro, de longe a longe. Vamos falando pelo telemóvel ou pela internet. Grandes invenções, estas. Não lhes digo nada. Se quiserem aparecem. Às vezes não querem. Às vezes não podem. Às vezes …

Estão lá outras fotografias. Demoro-me na que mais me dói. Sinto saudades. Magoa-me a alma. Já lá vão quase vinte anos e não passa. A dor é quase a mesma. [Read more…]

O Pai – poema de Pablo Neruda

Novo quadro de Van Goghe descoberto. Que melhor paternidade ?

O PAI NA FAMILIA E NA SOCIEDADE

O DIA DO PAI ……………….

A pedido do meu amigo Luis Moreira, escrevi um texto sobre o dia da mulher. Agora a iniciativa é minha e sou eu que faço um desafio a todos os colaboradores do blog, para escreverem não sobre o dia do Pai……, mas do “PAI”.

Lançado o repto cabe-me a responsabilidade de ser o primeiro a aceitá-lo e assim, aí vai o meu “Aventar” sobre o tema:

A palavra “PAI”, para além das conotações espirituais/religiosas, foi sempre associada à raiz da árvore da família, no que se entende como o pilar da segurança, do sustento, do crescimento, do amadurecimento, do esplendor, da verticalidade, da independência e da “solidão”.

Confina-se assim a figura do “PAI” à protecção da família no sentido restrito “FILHOS”.

A evolução técnica/económica/social, que se verificou ao longo dos tempos, em nada alterou o conceito básico atrás referido. A diferença está na prática do conceito que nos dias de hoje, mais do que nunca, depende do estádio sócio/cultural onde se nasce e vive.

É urgente que o “PAI” assuma outra postura que é a de para além de continuar a ser a raiz da árvore, se comporte e ensine os filhos a fazer parte de uma sociedade “NOVA” onde se aprende a conviver, respeitando o direito á diferença das outras árvores, na floresta onde vivemos, por forma a alcançar o objectivo comum do bem estar e da “PAZ” para todos.

Luis Rocha

Este é o apelo que faço aos pais de hoje, tão bem expresso no poema de “Pablo Neruda” que a seguir transcrevo:

O Pai

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois… Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar… E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
… menino, meu menino…

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in “Crepusculário”
Tradução de Rui Lage

Poema para o meu pai

(Com um abraço ao José Magalhães)

Tão cedo a esta vida te roubaram

Saudoso pai meu bom e grande amigo

Que mal teus olhos fundos se fecharam

Boa porção de mim partiu contigo.

Flores e velas, preces lacrimosas

Ó alienas artes da razão!

Ainda bem que não te iludem rosas

Meu doce pai que em tudo és meu irmão.

Minha fé, minha crença, minha idade

De homem-filho é grito de homenagem

Que outro não sei, sem lágrimas, sem prantos.

Mãos dadas pelos céus da eternidade

Nesse reino sem trono e sem linhagem

Vives tu, vivem papas reis e santos.

                                                                                1971

A última palavra

A última palavra (um conto do meu filho do meio, Marcos Cruz)

Um dia havemos de ir a Paris. Geraldo estava em crer que esta devia ser uma das sugestões amanteigadas mais gastas desde que o imaginário colectivo consagrara a capital francesa como a grande estância termal do romance ritualista. Ele, na sua essência de pinga-amor, tinha por certo contribuído, e muito, para as estatísticas, e mais uma vez acabara de visitar esse lugar, não Paris, o da promessa que, havendo sido feita uma e outra vez, por si e por tantos, soava sempre como nova ao sair da boca de quem saísse, sobretudo da sua, cuja extraordinária capacidade de lavar mil e um passados com a saliva do momento era já proverbial entre os seus amigos e conhecidos, a que perdia irremediavelmente a conta, dada a propensão que lhe habitava a massa do sangue para somar e multiplicar relacionamentos de todo o tipo, aí, desde que não amorosos, sem excluir memórias, antes incluindo tudo o que transcendia. [Read more…]

O fim de tudo

Às vezes (raras vezes!) fala-se de livros, o que é muito bom. E foi exactamente esse o ponto de partida para este texto. Um amigo, tendo lido o livro A Estrada (de Cormac McCarthy), comentou que lhe tinha provocado uma perturbação insinuantíssima e que entendia que depois da sua leitura já não éramos os mesmos. Ooops! Aluna e professor acharam que queriam experimentar “o veneno” puseram-se a ler o objecto perturbador, cada um por si, com a sensibilidade e o background próprios. Daí sairia uma reflexão, talvez à flor da pele, que fosse um desafio para outros – alunos, professores e tutti quanti. É o que lerão seguidamente.

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Mãe

 

 

(adão cruz)

Mãe

 Mãe. A palavra universal, a palavra mais consensual da humanidade. Nem Deus. Deus é de uns e não de outros. Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos. A mãe não. A mãe é de todos sem excepção. A mãe é de todos e é só nossa. A mãe é do crente e do ateu, a mãe é do pobre e do rico, do sábio e do ignorante. A mãe é dos poetas, dos filósofos e artistas, dos bons e dos maus. A mãe é do amigo e do inimigo. Não há mãe de uns e não de outros, não há ninguém sem mãe, não há mãe de ninguém. A mãe é de toda a gente, a mãe é de cada um, a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto. A mãe é do longe e do perto, da água e do fogo, do sangue e das lágrimas, da alegria e da tristeza, da doçura e da amargura, da força e da fraqueza. [Read more…]

As ditaduras e a instrução

claustro mosteiro trapenses

 Para a Sra. Dra. D. Dulce de Freitas.

Este espaço de debate, tem sido usado para esclarecer os conceitos de educação e de instrução. Tema recorrente neste espaço, mas ainda não esclarecidos. Pelo que novamente os trago para debate, à luz das minas conversas com uma amiga, que eu denominava Titucha e que muito me esclareceu. 

1. Os eruditos.

A ditadura não é virtual, é a materialidade da acumulação do poder nas mãos de apenas uma pessoa que governa. A ditadura não é virtual, assume todos os poderes para mandar como entende. Para agarrar qualquer um que pense de forma diferente. Qualquer um que deseje a divisão do comando do poder.

A ditadura apoia-se, normalmente, nas armas e na proibição de pensar de todos os seres que queiram ser diferentes. Principalmente, na proibição de pensar. Os perigos para uma ditadura não são os opositores políticos: esses são assassinados. Os seus perigos são os intelectuais das ciências definidas, normalmente, como sociais.

De entre eles, qualquer um capaz de pensar de forma diferente e organizar forças para se opor ao ditador. Ditador nunca eleito pelo voto, sempre apoiado pelos interesses de proprietários de bens de produção, a sua gestão e a sua autoridade sobre a força de trabalho, gestores que os possuem e os querem libertar. O objectivo do ditador é lucrar, ganhar, triplicar o poder sobre os bens e as pessoas.

A ditadura é a cobiça dos proprietários que apertam os laços sociais, da memória e do pensamento, para lucrar sem pagar e aumentar a mais o valor já incrementado na democracia formal gerida entre proprietários de bens e proprietários de força de trabalho. Tal e qual Tomás de Aquino define, tal e qual Ludwig Feurebach, professor de Karl Marx, apela para a greve, como Aristóteles tinha já definido, como Durkheim fala mais tarde, como Wagner escreve nas suas quatro óperas, escritas entre 1848 e 1874: O Anel dos Nibelungos, como Max Weber analisa na sua obra a tirania religiosa para os diferentes grupos de fé espalhados pelo mundo no seu texto publicado em alemão em 1920 y em castelhano em 1984, a primeira edição dos seus textos escritos entre 1898 e 1905, reunidos num texto denominado Ensaios sobre sociologia da religião, que como começa com o seu afamado A ética protestante e o espírito do Capitalismo, e continua com os textos Las sectas protestantes y el espíritu del o capitalismo, publicado em 1915, assim como La ética económica de las religiones universales. Ensaios de Sociologia comparada de la religión, de 1920 Textos todos reunidos em edição Castelhana da Editorial Taurus de Madris, a partir de vários ensaios, publicados como Gesammelte Aufätze zur Religionssozociologie. [Read more…]

In limine

(desenho de Manel Cruz)

 Pelos caminhos de prantos e sorrisos, dentro de um tempo farto de horas sem minutos, a vida vai colhendo flores que murcham, por não serem simples flores ou flores simples, sem exigências de estufa ou jardim, flores de terra húmida, céu por cima e sol de permeio.

 Em tudo o que me é vida interfere a vergonha de ser adulto. Descortino as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só vejo muralhas. Nada de crianças. Os homens comeram as crianças, os homens comeram-se crianças, os homens pariram-se adultos.

 Os pongídeos chegaram a homens. Quinze milhões de anos para o homem ser bicho. Bicho erecto. Rastejo de púrpura.

 Eu nasci na erva e dormi no feno, e acordei com a voz dos melros e rouxinóis e saltitei com os pardais. Vesti-me de sol e despi-me de luar. Estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios. Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. A vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus. Também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro, ao pensar que eram de amor as mãos que a mataram.

 Passei a vida a correr tropeçando nas sombras. Arrumei ao canto da luz mil horas vazias, sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens. Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.

 Vestido de ausências fui renascendo de amor pela vida fora, nos infinitos da fantasia que outros foram lentamente matando com fruído prazer.

Habemus paxem

Habemus paxem

Magnífica surpresa nesta saga de poetas para as cinzas nocturnas!

Há um labirinto de ismos que se entrecruzam

de pontes sobre um rio seco ou rio desviado para lá de mim

lago de silêncio com a cidade ao longe

regateando simbolismos de esferas ocas semeadas pelo parque

monumental parque de outros ismos já mortos

à espera de uma ressurreição sob o reflexo de mil janelas

empoleiradas nos altos muros da cidade virtual

em serena ode à quietude universal.

Ali na esquina há fumo branco e o estribilho feroz

de um surrealismo macabro, de um débil concretismo

experimentalista hermeticamente grosseiro

gritando aos ares habemus paxem.

Na deserta anatomia do silêncio onde outrora a poesia já morou

grita bem alto o histórico fóssil da verdade

em pedaços de vida fumegante

e monstruosas resmas de páginas em silêncio.

Montanhas de nomes a apodrecer entre escombros de pensamentos

que embrulharam a consciência adormecida durante séculos

Inglórios sufocos de ar emoldurados de paz e de vida. [Read more…]

A poesia do neo-realismo (Poesia & etc.)

Há críticos e historiadores da literatura que consideram que o neo-realismo em Portugal se caracteriza essencialmente pelo discurso ficcional. Há quem seja mesmo da opinião de que não existe uma poesia neo-realista (Mário Sacramento, por exemplo) É uma questão de perspectiva. Caso se esteja a falar numa forma tipicamente neo-realista de fazer poesia, então talvez essa forma não exista. Porém, para lá da tessitura formal, há outros aspectos a considerar.

O fulcro vital do neo-realismo não reside na forma. Encontra-se na denúncia da injustiça social e da repressão política, típicas dos regimes autoritários de direita que governavam uma parte substancial da Europa no final da década de 30, quando o movimento começou a afirmar-se em Portugal. A depressão económica, a Guerra Civil de Espanha, preanunciando a II Guerra Mundial, a dicotomia fascismo-marxismo, constituem elementos indissociáveis da génese do movimento que, definido sinteticamente, constituiu uma transposição para a arte em geral e para a literatura em particular de uma dinâmica subsidiária do materialismo-dialéctico. No plano histórico, representa, como salientou Óscar Lopes, um fenómeno semelhante ao da Geração de 70. Porque as épocas de grandes clivagens políticas e sociais, desencadeiam geralmente novas formas literárias e artísticas.

A Geração de 70, ou geração de Coimbra foi como que um eco da grande crise europeia gerada pela guerra franco-prussiana e pela Comuna de Paris. Nas suas formulações, os escritores dessa geração, ultrapassando o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Proudhon, revolucionaram várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do Realismo. [Read more…]

Miguel Delibes (Poesia & etc.)

Com 89 anos, morreu ontem um dos grandes escritores de língua castelhana, Miguel Delibes. Numa entrevista em 2007 ao El País, evidenciou o seu cansaço, devido à saúde precária (desde os anos 90, padecia de cancro. Foi operado com êxito em 1998, mas ontem, ao cabo de anos de luta, foi vencido). Nessa entrevista, à tradicional pergunta de quais os seus projectos para o futuro, confessou: “Já não posso fazer mais nada. Saltou-me a corda como acontece com os carros dos meninos pequenos”. [Read more…]

De memórias somos feitos

Lá estava o seu rosto velho e sulcado, arranhado do mundo e da vida, meio escondido na barba espessa e negra que o ninho havia impregnado de pequenas arestas de palha. Já quase não vivia, no magro sentido biológico. Apenas pensava. Por isso algumas vezes o julgaram morto quando ele verdadeiramente vivia. Outros apelidaram-no de filósofo.

Os olhos esquecidos por detrás das pálpebras negras e sujas não paravam nem por escassos instantes no rosto de alguém. Apenas um relance veloz como o raio constituía a única manifestação vital desse corpo, quando, frente a ele, alguém detinha ou abrandava o passo.

Todas as vezes que o vi me pareceu ver o meu retrato, mas sempre muito distante, muito longe. Um capote gasto e roto como a pouca vida que o mantinha ainda à flor da terra caía-lhe dos ombros magros como uma cruzeta. Há anos, muitos anos, que tal veste fora nova e de um castanho torrado como o cair da folha. Nunca deixara de cobrir aquele corpo, pois a ele o haviam cosido as mãos da miséria.

O próprio cachorro, cuja idade lhe comia no lombo grandes tufos de pelo, não reconheceria o dono sem capote, o dono cindido em dois. Cão e mendigo, esqueléticos e mudos, parados como um pântano, pousavam para o mundo, para a grande tela da vida. Constituíam os dois uma só peça, uma única escultura cinzelada numa só pedra.

Não falavam. Apenas de hora a hora gemiam. Se era a goela a queixar-se, mexia-se a mão apergaminhada e ossuda do velho a acariciar-lhe tremulamente o focinho esguio. Se o gemido nascia do peito humano, brandamente o cachorro se aconchegava a ele, lambendo-lhe os olhos e a boca, como se quisesse mostrar-lhe quanto valia o amor de um cão perante a pobreza do mundo. E o coração do pobre velho sorria sobre um mar de tristeza. [Read more…]

A Galinha de Luiz Pacheco

O Zé Rijo, se fosse vivo, fazia hoje anos. Não sei quantos, mas sei que fazia. Fomos amigos, pese embora a diferença de idades, pois eu sou da geração dos filhos dele.

Também eu, como tanta gente, abanquei por casa do Zé, com a vantagem de ter ficado independente, no rés do chão, encostadinho à olaria. Foi assim, com um pé fora e outro dentro, que fui assistindo ao cortejo dos que passavam pela casa. Quando lá cheguei, já o Luiz Pacheco teria já saído, tanto quanto me lembro (alguns anos mais tarde li alguns dos cadernos manuscritos durante essa sua estadia em Lagos).

Dizem que não há coincidências. Há-as e algumas muito belas por sinal. Pesquisava os romances do meu colega aventador Carlos Loures e vou dar à biografia de Luiz Pacheco. Autor, Carlos Loures. Ora, eu, quando me lembro do Luiz Pacheco, lembro-me da galinha e, quando me lembro da galinha, lembro-me do Zé, e hoje lembrei-me que o Zé, se fosse vivo, fazia anos, por recordar que fazíamos anos no mesmo dia.

A isto de ir em busca do Carlos Loures, sair Pacheco e ser dia de anos do Zé, chamo eu uma bela coincidência. Confusos? A história foi-me contada algumas vezes, uma delas pelo Zé Rijo.

Dizia eu que o Luiz Pacheco viveu uns tempos em casa do Zé. Um dia voltou do mercado com uma galinha debaixo do braço. Panela – disseram os da casa. O Luiz não deixou. Que não, a galinha era dele, queria tratar do animal. A galinha andava solta pela casa, o Pacheco dava-lhe milho, vai daí cocó aqui, cagadela ali, uma vez por outra, um ovito acoli. O Zé protestou e a galinha recolheu ao quarto do Luiz Pacheco. Este, quando saía, amarrava-a aos pés da cama e ia apanhar ar. O Zé bem tentava convencer o Luiz a fazerem cabidela da emplumada, mas o Pacheco continuava inamovível. Ligara-se ao bicho, não havia nada a fazer.

Um dia vai dar uma volta e, quando regressa, tem uma cabidela fumegante à sua espera. Eu fico-me por aqui porque, há uns dias, encontrei a história da galinha contada pela Mena. Ela sim, estava lá, e desconfio que ainda chegou a comer uns trocitos do galináceo do Luiz Pacheco, que o Zé Rijo pôs na panela.

Os velhos de Cedofeita

Nestes dias de sol, quando o inverno dá os primeiros sinais de fraqueza, os velhos de Cedofeita vêm morrer para a varanda. Trazem a gaiola do periquito e a rafeira Pantufa, trazem o rádio de pilhas, e o iogurte do meio da tarde, para empurrar o comprimido, sentam-se num banquinho e ficam ali a olhar-nos, da tribuna dos que só têm passado.

Não sabemos que pensarão das nossas andanças, que lhes parecerá, visto de cima, o alvoroço dos vivos, quanto se rirão da nossa pressa. Não lhes conhecemos o nome, nem a história nem o timbre da voz. A casa que lhes entrevemos pela cortina está sempre escura e silenciosa, uma tumba na qual se depositam quando começa a arrefecer e de onde não saem nos dias de chuva.

Ali estão, emoldurados pelos arabescos de ferrugem das varandas e a corda do estendal de onde pendem um pano de cozinha e um par de peúgas. Seguem-nos com o olhar mas não sei se nos vêem ou se apenas buscam, no movimento dos nossos corpos, o que restou de um tempo gasto.

Histórias de Vampiros

O primeiro livro de vampiros que li foi o “Crepúsculo”. Quis lê-lo pois eu gosto de ler e tinha ido ver o filme ao cinema. Como gostei da história e sei que os livros são sempre melhores que os filmes, comprei-o e li-o em duas semanas. Como deve saber, o livro de Stephenie Meyer é um romance entre um vampiro e uma humana. Os livros dessa saga (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer) falam de um amor impossível em que um dos lados vai ter que ceder, ou o vampiro se afasta da humana, ou a humana é transformada em vampiro. A humana, Bella Swan, quer ser uma vampira, mas o seu namorado, Edward Cullen, recusa-se a transformá-la, até ao quarto livro, em que Bella está grávida, mas a filha é meia-humana, meia-vampira e durante o parto Bella tem que morrer, por isso é transformada, vivendo grandes e perigosas aventuras enquanto vampira.

A segunda colecção de livros de vampiros que li foi “Marcada”, uma saga de P.C. Cast e Kristin Cast. Essa saga apresenta os livros “Marcada”, “Traída” e “Escolhida”. Na 1ª história, Zoey, uma rapariga como qualquer outra, está na sua escola, quando aparece um vampyro que a marca. Depois de marcada, ela tem de ir para uma escola chamada Casa da Noite, senão morre. Um aluno vampyro que não vai para uma das casas da noite existentes não resiste à mudança e morre. Na Casa da Noite também pode morrer, se o seu corpo rejeitar a mudança. Lá, Zoey faz amigos, inimigos e conhece o seu futuro namorado, Eric Night. Zoey é uma rapariga muito especial, ela possui o poder de controlar os cinco elementos, uma coisa que só a deusa dos vampyros, Nyx, conseguia. Zoey consegue salvar o ex-namorado e os amigos, depois de um ritual de espíritos ter corrido mal. No segundo livro, Zoey e os amigos deparam-se com o mais horrível acontecimento, a melhor amiga de Zoey, Stevie Rae, morre e Zoey descobre que a sua orientadora e amiga, Neferet, é má. Vão acontecer muitas coisas na vida de Zoey. Não sei o que se passa no terceiro volume porque ainda não o li. [Read more…]

Poesia no feminino (Homenagem a Lurdes Rocha Girão)

O meu amigo de infância, Luis Moreira, conhecedor do quanto admiro a MULHER, pelo amor que recebi de minha mãe e irmã e pelo mistério que a envolve, desafiou-me a escrever um texto no dia que alguém entendeu designar como “O DIA MUNDIAL DA MULHER”.

Para mim todos os dias, tal como para o Homens, é dia da mulher e por isso considero um absurdo e um símbolo da discriminação que a sociedade continua a fazer quando já estamos no século XXI.

Decidi por isso aproveitar o desafio do meu amigo para revisitar legados da minha querida mana, falecida em Novembro do ano passado. Encontrei um livro “Janela Indiscreta” de uma poetisa (Paula Salema), sua amiga, onde ela escreveu o prefácio que a seguir transcrevo:

Prefácio
Apesar da Idade que nos separa, somos amigas de longa data, e foi por isso que acedi a escrever este prefácio, no entanto tentei ser imparcial e isenta. [Read more…]

Poesia Macho / Poesia Fêmea

O conclave poético parece que decidiu que existe poesia macho Y poesia fêmea, contudo o género feminino ainda não é reconhecido como apto para a arte. Desculpam-se com algumas – raras – excepções. Pois, caso contrário, o conclave arriscava-se sempre, em todos os casos, a levar uma valente surra (exclusão cultural/social) ou do pai ou do esposo. Estas são as únicas excepções à prática poética feminina num país de machos poéticos.
Mais do que o futebol e outras artes-macho, parece que a poesia é uma coisa para quem, olhando-se ao espelho, aprende – desde tenra idade – que os golpes não são para se fazer na cara, mas noutras coisas. Os machos poéticos, mesmo aqueles que escrevem poesia fêmea, iluminam-se, y o golpe, esse, só pode ser dado com as palavras. Logo, a finura para o golpe é, desde tenra idade, adestrado pelo futuro macho ou quiçá fêmea poético como se fosse um brinde tardio da natureza – aquela malandra que só aos poucos releva os desígnios – para que as dúvidas quanto ao género se diluam tão naturalmente no espírito de cada um como o hábito de representar a reprodução da percepção da noite com lua e do dia com sol.
Assim, qualquer garotinha desviada, pela sua vaidade, desta verdadeira relação com o espelho nunca, mas nunca será uma boa golpeadora, seja em que campo for, muito menos na poesia, essa arte de bem tratar o sangue. Bem, se for menos dotada pela natureza (isto é, se não corresponder ao padrão vigente do apetite alheio), ou tiver a sorte de perder algum dente, nesta idade certa, talvez tenha alguma probabilidade de aproximar, apenas, um pouquito mais o seu nariz, nesta coisa para a qual não é chamada pela natureza. Logo, se a menina fugir ao padrão que desperta a devoração, ainda que loira, prescindindo, só por si, do papá, arranca o seu mérito em apoteose. Y o flagelo da magra qualidade da sua poesia (na falta de palavra mais polémica) será factor secundário – sombra corroborante do carácter quase atlético-macho do seu verso; y não faltará macho, quiçá fêmea poético, que em sua defesa a erguerá como uma excepção puramente excepcional, assim como qualquer princípio sintético a priori da razão.
Escapou à natureza!!
Depois é uma chatice! Como se apelidará? Poetisa!? Não, isso é um termo pouco conveniente ou adequado a tão excepcional desvio da natureza! [Read more…]

Roma não paga a traidores

“A câmara de Lisboa discute na quarta-feira a contratação da empreitada de restauro e remodelação da Casa dos Bicos para a instalação da Fundação José Saramago, no valor de 2.2 milhões de euros(sem IVA).”
“Roma Não paga a traidores” a frase passou de moda e a tradição já não é o que era. Os novos romanos, os novos senhores do templo, só pagam a traidores a desertores e a corruptos.
São os novos ventos da modernidade que permitem que com dinheiros públicos se patrocine a Fundação de um iberista convicto de uma traidor que acha que estamos melhor governados por Madrid que por Lisboa. Só este simples facto seria o bastante para que o escritor medíocre fosse proibido de entrar em Portugal, mas os comparsas da maçonaria no poder, vão dar-lhe mais uma comenda.
Um profundo grito de revolta deve sair do peito de todos os patriotas, aqueles que generosamente ofereceram a sua vida para que Portugal fosse uma Nação livre e independente dêem estar a dar voltas nos túmulos.
A nova Roma pode pagar a traidores, mas os portugueses, aqueles que amam a sua Pátria, devêm tirar de este acto terrorista e antipatriótico as devidas ilações.
Proponho desde já uma grande manifestação frente à casa dos bicos, eles podem pagar a traidores, mas devem ficar a saber que nós não concordamos.

Utopia

Sempre te amei utopia!

Pequeno sol deste universo sonhado

insondável magia!

Como te amo ainda

fímbria de meus restos

teofânica nuvem deste cabalístico mundo!

Os mesmos dedos

o mesmo perfil

o mesmo cabelo

o mesmo cigarro

o mesmo voo de abutre

sobre a minha cabeça tonta

o mesmo voo de milhafre

de corvo

de cisne

de gaivota

de pomba inocente.

Como te amo

abetarda que sou

presa à terra sem asas de pássaro!

Na planura dos mil campos e das mil fontes

corro atrás do teu cheiro

dia e noite

como louco animal de pêlo macio

sem medo dos espinhos de acanto.

Como te amo nos escombros dos meus dias!

A miragem do teu perfume

combina o ar e a luz

que fazem respirar a memória.

Ninguém te viveu e amou como eu!

Peregrino de mim mesmo

só em ti me detenho.

Por te amar

só a ti eu não via.

Eras o céu e o mar

eras a noite e o dia.

Poesia do Socialismo Português (Poesia & etc.)

Entre a tempestade que assolou Portugal e o caudal de terríveis notícias que ia chegando do Chile, flagelado por um sismo de elevada magnitude, no sábado, 27 de Fevereiro, pelas 16 horas, no auditório do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, teve lugar o lançamento do livro “Poesia do Socialismo Português no percurso de 1850 a 1974”, da autoria de Sílvio Castro e publicado pelas Edições Colibri. Sílvio Castro (1931) é um escritor brasileiro, poeta, ficcionista, ensaísta e titular da cátedra de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Pádua. Este seu estudo tem como objectivo central demonstrar a existência, no período considerado, de um recorrente projecto de associar a poesia à realidade sociopolítica do País.

Estas balizas temporais (1850-1974) marcam os limites entre as primeiras manifestações do socialismo em Portugal e a Revolução de Abril, carregada de ideologia socialista. Durante este período, o poema revolucionário, interventivo e de luta, foi uma constante na poesia portuguesa. Naturalmente que a poesia produzida durante estes mais de 120 anos reflecte uma paleta de cores que começa no socialismo utópico, adentra-se pelo socialismo científico e, por vezes, crítica ou laudatoriamente, emerge, ou imerge. do socialismo real. É esse persistente fenómeno que o estudo de Sílvio Castro aborda, analisando as obras de poetas portugueses que tipificam essa constante e ilustrando as análises com poemas escolhidos.

A apresentação, a cargo do Professor Manuel G. Simões, traduziu-se numa excelente apreciação da obra, da qual vou transcrever alguns trechos mais significativos:

«Em primeiro lugar apraz-me registar o que este livro é e o que não é, servindo-me, para isso, das próprias palavras do Autor: “Este é um estudo sobre a poesia portuguesa no amplo espaço de duas “Modernidades”: aquela Romântica e a Novecentista. Entretanto, ainda que estruturalmente ligado a uma metodologia histórico-literária – e preso em modo central à análise da criação do fenómeno poiesis – não deve ser tomado como uma história da poesia do Portugal moderno e contemporâneo. Isto porque é uma tentativa de síntese crítica da criação da poesia ligada a um particular e muito específico produto: a política. E, mais ainda, ao Socialismo português.» [Read more…]

Romeu Correia (Poesia & etc.)

A revista “Nova Síntese” (Edições Colibri), publica no seu número 4, saído este mês e dedicado ao tema “O rural e o urbano no neo-realismo”, um texto do Professor Alexandre Castanheira, com o título “Romeu Correia, um neo-realista esquecido”. O texto começa com uma citação do crítico literário João Gaspar Simões que, no jornal Sol de 21 de Maio de 1949, dizia sobre “Trapo Azul”, o romance de estreia de Romeu Correia: «Um jovem cheio de talento que insuflou ao “neo-realismo” decrépito uma vida que o “neo-realismo” nunca tivera entre nós».

Não vou referir-me hoje ao magnífico estudo de Alexandre Castanheira, nem dissecar esta precipitada notícia necrológica de Gaspar Simões, crítico inteligente, mas controverso, que considerava decrépito um movimento que ainda mal ensaiara os primeiros passos. Basta consultar as datas de publicação de importantes livros de Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira e de tantos outros para verificar que muitas das grandes obras do neo-realismo português não tinham ainda sido publicadas em 1949. Mas o texto incentivou-me a escrever hoje sobre Romeu Correia. [Read more…]