O que nos espera – um cenário

Vi há uns dias um vídeo muito esclarecedor sobre o possível controlo da pandemia do coronavírus. Sem mais apreciações, dizia o seguinte:

A expansão do vírus só pode ser bloqueada quando houver suficientes pessoas que lhe sejam imunes. No caso do coronavírus, a imunidade de grupo (ou efeito rebanho), o número suficiente de pessoas imunes, corresponde a entre 60 e 70% da população. Só nesse nível é possível reduzir as cadeias de transmissão.

A questão é, pois, como conseguimos suficientes pessoas imunes? Não existindo vacina, só quem já superou a doença tem imunidade (pelo menos durante algum tempo).

Ora, se não se tomassem medidas, aconteceria o seguinte:

Uma curva elevadíssima, ultrapassando a capacidade de resposta dos serviços de saúde, com um número elevadíssimo de casos e de mortos.

É pois necessário tomar medidas – isolamento social com o resultante congelamento da vida económica – para achatar a curva, de modo a mantê-la abaixo do nível de capacidade do sistema de saúde. Porém, pelos efeitos dramáticos que estas medidas têm para a economia, a curva não deve ser demasiado achatada, ela deve ser gerida; o que é tanto mais difícil porque as medidas só têm efeito uma ou duas semanas após serem aplicadas.

Não sendo possível, pelos custos catastróficos das medidas, esperar meses até que exista uma vacina ou medicamento, um modelo proposto por especialistas ingleses é o seguinte:

Começar com medidas muito rigorosas de distanciamento social que levem à redução de casos; quando se verificar que estes baixaram, abrandar as medidas – por exemplo abrindo de novo as escolas, lojas, etc. Como consequência, ao fim de algum tempo os casos aumentariam de novo, já que não haveria ainda suficientes pessoas imunizadas. Nessa altura, voltariam a aplicar-se as mesmas medidas rigorosas de distanciamento social, como fechar escolas e lojas, etc., e assim sucessivamente, apertando e aligeirando as medidas, de forma a ir-se conseguindo imunização progressiva, mantendo, no entanto, o número de casos num nível que não ultrapassasse a capacidade do sistema de saúde, para minimizar as mortes. O número de pessoas imunes aumentaria lentamente, ao longo de um longo período de muitos meses, talvez até 2 anos.

A quarentena e a redução de contacto social ajudam a ganhar o tempo que é urgentemente necessário para que os cientistas possam descobrir uma vacina e medicamentos eficazes. Paralelamente, são também precisos testes melhores e mais rápidos que permitam perceber e controlar a expansão da doença. Por exemplo, há pessoas que têm sintomas muito leves ou nem os têm, mas que podem infectar outras. Através de testes, estas pessoas poderiam ser identificadas e ficar em quarentena, a fim de não contagiarem outras. Além disso, são também necessários testes que permitam verificar se uma pessoa já tem anti-corpos contra o coronavírus, ou seja, se é imune. As pessoas imunes poderiam então circular, sem contagiarem outras, nem correm risco próprio, ajudando assim a manter o sistema social e económico.

“Bastardo”

[Miguel Teixeira]

Mark_Rutte

Quem é Mark Rutte, o Primeiro-ministro holandês, que é contra os “eurobonds” (emissão de dívida conjunta dos países da União Europeia) e líder de um governo cujo Ministro das Finanças pediu “que a Espanha fosse investigada por demonstrar não estar preparada para uma crise como a do Covid 19“, irritando e levando a Itália a abandonar o Conselho Europeu?

É líder de um governo conservador de centro direita. Quis ser pianista, mas enveredou pela carreira política. A Holanda tem uma população de cerca de 17 milhões de pessoas e já 334 mortos por Covid-19. Terá também, à semelhança de outros países, acordado tarde para o problema: recentemente, numa Conferência de imprensa, na presença do Diretor de doenças infeto-contagiosas do Instituto de Saúde Pública, pediu aos holandeses para não se cumprimentarem. No final da sessão, não cumpriu o que tinha dito e cumprimentou com aperto de mão efusivo o responsável pela autoridade de saúde do seu país, a rir-se perante as câmaras.
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Isto é normal?


O programa da tarde da RTP, agora mesmo, a transmitir em directo de um Lar, com os idosos todos amontoados.

É mesmo?

É impressão minha, ou von der Leyen assume nesta crise uma posição europeia que contraria a egoísta do seu país? Com as palavras: “Estamos numa encruzilhada” (…) “Este vírus vai dividir-nos definitivamente em ricos e pobres, em favorecidos e desfavorecidos? Ou sairemos desta situação mais fortes e melhores, com as nossas comunidades mais coesas?”, questionou. “Vamos dar mais credibilidade à nossa democracia, como um bloco forte e um actor fiável a nível mundial?”  von der Leyen parece mesmo estar a avisar a Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia, de que a emissão dos chamados coronabonds – emissão conjunta de dívida – é imprescindível, se não se quiser aumentar mais ainda a desigualdade, por via de juros mais elevados para os países fracos e vice-versa, ao sabor dos todos poderosos mercados. A Europa, mais uma vez, a derrapar.

A política não é um vírus

António Costa brincou com o deputado João Cotrim de Figueiredo. Quem está na trincheira do primeiro, adorou o comentário e cantou uma vitória épica; do outro lado, houve quem se escandalizasse, também por não gostar que se chame a atenção para as contradições dos liberais. António Costa pode ter tido uma vitória tangencial, mas o episódio não passou de uma mera escaramuça parlamentar que não acrescenta nada de essencial. Parece-me, no entanto, que estamos diante de uma oportunidade para discutir se é possível o liberalismo em tempo de paz e estatismo em tempo de guerra, sabendo-se, desde já, que nada é assim tão simples.

Não é a altura para discutir isso, dizem alguns, porque estamos em circunstâncias adversas. Pelo contrário: é fundamental, porque o objectivo é que o mundo continue e que todos saiamos à rua para retomar as nossas vidas. É fundamental pensar que Estado queremos ou se queremos Estado.

O que me parece muitíssimo escandaloso em António Costa, por exemplo, é a afirmação de que não falta nada ao SNS, uma mentira que está a passar pelos pingos mediáticos sem molhar o primeiro-ministro. É verdade que, na trincheira do PS e de muita esquerda, há uma crispação quando se apontam os muitos problemas do SNS, como se isso fosse uma crítica ao conceito. Para mim, ser de esquerda é exactamente criticar o desinvestimento público que enfraquece o Estado em áreas em que tem de ser forte, áreas que não podem estar sujeitas à ditadura do lucro ou à libertinagem dos mercados. [Read more…]

O VAR não é de agora

Saudades dos dias em que era o futebol o tema de conversa. Dos dias em que os números que nos faziam lamentar era o de golos sofridos. Dos dias em que os números que nos faziam celebrarar eram os 3 pontos conquistados. Das discussões por foras-de-jogo de 3 centímetros. De comparar uma grande penalidade de hoje com uma grande penalidade de há 14 anos em vez de compararmos uma pandemia de hoje com outra de 1920. Do Corona ser apenas um jogador de futebol que nos fazia meter em loop um vídeo no telemóvel. Dos dias em que a previsão para o fim-de-semana andava à volta de vitória, empate e derrota, em vez da quantidade de pessoas que terão contraído o vírus. Dos dias em que a minha maior ânsia era que chegasse o jogo do FC Porto, não a ânsia de poder sair de casa livremente. Saudades da altura em que o nosso rival tinha o nome de um clube adversário em vez de Covid. Péssimo nome para clube, digo-vos já.

Penso que todos temos saudades. Até as mães dos árbitros devem ter saudades.

Separados uns dos outros, unidos pelo país e, homenageando o senhor do vídeo, unidos para que o Vítor possa voltar a analisar os foras-de-jogo.

 

Ascenso Simões no Twitter

 

 

 

 

 

Ontem, no Twitter, o deputado do PS Ascenso Simões insultou todos os que lhe apareceram pela frente a propósito de uma publicação sobre a Iniciativa Liberal.

A violência da linguagem utilizada, sobretudo contra mulheres, provocou uma censura generalizada. Afinal, trata-se de um representante da Nação com responsabilidades enquanto tal.
Mas a agressividade de Ascenso Simões no Twitter não é de hoje. Ora vejamos:

 

 

 

 

A mesma conta, a mesma linguagem desabrida a chamar a atenção da Comunicação Social e até do Polígrafo.
Ontem, depois da polémica, o deputado do PS veio dizer que aquela era uma conta falsa, que não era sua, etc, etc. Eliminou a conta anterior, criou uma nova e, sem explicar por que nunca denunciou uma conta que era falsa, terminou com uma pergunta:

Quem tem estado atento às intervenções de Ascenso Simões nos últimos anos sabe bem qual é a resposta.

Oferecemos viseiras de protecção a profissionais de saúde e lares

Todos os empregos importam, mas há empregos mais importantes que outros…

Causaram indignação as palavras do CEO da padaria portuguesa. Já se sabe que o rapaz tem dificuldade em passar a mensagem, que nem interessou muito à maioria, ávida por bater no mensageiro. Era o que faltava um patrão ter dificuldade em pagar salários ou ameaçar despedir. O governo já indicou o caminho às empresas, endividem-se e logo se vê. A conta há-de chegar.
A cereja em cima do bolo para a turba que exulta com o aproveitamento da crise que atravessamos para promover a sua agenda ideológica, foi a graçola do primeiro-ministro dirigindo-se ao líder da Iniciativa Liberal, sugerindo que mudasse o nome para Iniciativa Estatal, a qual mereceria logo ali a resposta que após impor restrições aos portugueses, António Costa faria bem promover a mudança de nome do partido que lidera para Partido Fascista. [Read more…]

«Centeno admite recessão», mas os Açores admitiram receção

OK. Efectivamente, convém que Centeno esclareça a *receção económica dos colegas dos Açores. Eis o pdf (pp. 15 e 16). Exactamente.

Iniciativa do Bom Senso

“Nada como uma boa crise para transformar um bom liberal num intervencionista”. Sim, eu sei, só alguém de muito má índole poderia dizer isto numa altura como esta. Esse alguém é o mesmo agressor de velhinhos que nós temos como Primeiro-Ministro.

Ontem, na Assembleia da República, tivemos a excelente prova do que vale António Costa. Não passa de um político que coloca o poder à frente do bom senso. Anima a malta de esquerda, tenta irritar a direita, mas pior do que tudo, prejudica a vida das pessoas. Portugal não conseguirá andar para a frente, enquanto políticos derem mais importância aos seus jogos do que ao povo. André Ventura aproveita para criticar o Presidente, Costa usa uma crise para criticar os liberais, o Bloco usa a mesma crise para criticar os ricos. Enquanto os meninos brincam aos debates de 5º ano para depois contar em casa que são os maiores, há pessoas que estão doentes e há outras quantas com medo do que pode acontecer. Recorrendo a uma intervenção do Ricardo Araújo Pereira, para não me acusarem de me apropriar de nada “a la Bloco”, no filme Abril do Moretti, há alguém diz “Diz alguma coisa de esquerda!”. Aqui era necessário um “Diz alguma coisa com bom senso”.

Na mesma intervenção, António Costa aproveitou para mostrar os seus dotes humorísticos para chamar Iniciativa Estatal à Iniciativa Liberal. Daqui a 3 anos e meio, quando forem votar, lembrem-se que no dia em que ultrapassámos os 30 mortos, o António Costa falou em “boa crise” e que aproveitou o momento para criticar outros. As pessoas que faleceram não mereciam isto. Os profissionais que todos dias se sacrificam não mereciam isto. Os portugueses não mereciam isto. Mas foi o que escolheram.

Nota: Um obrigado a Rui Rio pelo ato de coragem. Apesar de não concordar com as suas ideias, nunca deixarei de o admirar por ser um homem sério e leal ao que acredita. Alguém que não precisa de saber a cor política para elogiar ou criticar o outro. Que todos os políticos fossem assim sérios. Do André à Catarina, mas não o Costa. Ontem, perdi a esperança.

Força a todos nesta luta sem cores. Fiquem em casa e cuidem dos vossos.

Sondagens e outras coisas que não interessam

No tempo em que havia futebol e, consequentemente, programas em que se discutia corrupção e arbitragens, era vulgar perguntar aos telespectadores, através de inquéritos, quem seria o futuro campeão nacional ou se pensavam que o árbitro teria prejudicado ou beneficiado determinado clube em determinado lance. Confesso que nunca fiquei espantado com os resultados. Mais: nunca estive interessado em conhecer os resultados.

Hoje, fiquei a saber que, de acordo com uma sondagem, os portugueses (é sempre assim que anunciam o resultado de uma sondagem) têm uma opinião positiva acerca da actuação do primeiro-ministro e do presidente da República ou vice-versa. Se fosse ao contrário, também não me admiraria. Mais: não estou interessado.

Mesmo sabendo que é complicadíssimo gerir um país nas circunstâncias em que o mundo se encontra, haveria outras sondagens mais importantes. Por exemplo: quantos profissionais de saúde pensam que António Costa estava enganado (ou que mentiu) quando afirmou que não faltava nada nos hospitais nem era previsível que viesse a faltar?

Há muitos argumentos contra: que devemos estar todos unidos, que o corporativismo pode atrapalhar, que pode haver pessoas do contra. É tudo verdade, mas eu continuo a preferir que as pessoas de cada área falem da área em que trabalham. Na verdade, as sondagens nem sequer fazem muita falta, sobretudo se dependerem de politiquice ou de clubismo, que são mais ou menos a mesma coisa.

Je suis Uderzo

Hoje, morreu-me Uderzo. Esta construção verbal, não sei se uma reminiscência da voz média, é perfeita para exprimir que as mortes de outros nos afectam, que há mortes que nos matam um bocadinho.

Não cheguei ao ponto de chorar ou de ficar depressivo, nem sequer melancólico, até porque, por profundo egoísmo, fico satisfeito por saber que a morte de Uderzo não levou – nem eu deixava – os meus velhos álbuns das aventuras de Astérix, que continuam alinhados, sempre à espera de mais uma releitura ou, até, de uma consulta para recordar um diálogo genial criado pelo Goscinny ou um desenho brilhante do Uderzo. Pegar num desses álbuns (e cheirá-lo, claro) é, também, a garantia de que volto a ter dez anos e estou deitado ou sentado, a rir-me e a comer as raivas feitas pela minha avó ou pela minha mãe (ainda há migalhas arqueológicas espalhadas pelos livros). [Read more…]

A vida em estado de normalidade

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Vulcão de areia e tocha de fumo, Costa Nova, 2019.

[Pedro Guimarães]

Numa sociedade perfeita, medidas de contenção como as actuais não teriam qualquer consequências na Economia e não passariam de um pequeno mal estar fruto do afastamento social necessário. O estado de emergência devia ser o estado normal, porque é apenas no mundo virtual que não vivemos em permanente emergência: climática, social, ambiental, demográfica.
Por isso mesmo, no mundo real, tudo o que é desnecessário, destrutivo e predatório, como o é a mobilidade e o consumo excessivos, deveriam ser questionados criteriosamente, em vez de financiados os postos de trabalho que daí resultam.
Portugal, como tantos outros países, vive uma crise sanitária a que se seguirá um crise de negação. A procura de soluções faz-se recorrendo a mecanismos que não contemplam curas, apenas curadorias, curandices.
A solução, inevitavelmente, virá de fora, de um país socialmente mais flexível e apto à mudança, em que as grandes empresas estratégicas e seus empregados serão públicos, logo afetos à causa comum. Nesses países, o conceito de trabalho será redefinido, nenhuma gripe poderá parar o sistema: uma grande empresa de aviação poderá em poucos meses se transformar num grande prestador de serviços de saúde, uma fábrica de automóveis poderá em pouco tempo produzir equipamentos médicos.
E ninguém irá perder a sua individualidade por causa disso.

Para grandes males, grandes remédios – Rendimento Mínimo Incondicional

Numa petição europeia apela-se à União Europeia, e ao Eurogrupo em particular, no sentido de ser criado um instrumento financeiro que permita aos estados-membros da UE instituirem rapidamente um Rendimento Mínimo Incondicional como medida de emergência que, de forma célere e sem complicações burocráticas, permita aliviar todos os cidadãos da Europa cuja segurança económica e existência se vê ameaçada pela crise provocada pelo coronavírus.

“Desde a última grande crise de 2008, a UE já injectou milhares de milhões de euros no sector financeiro para colmatar as falhas do mesmo. Chegou a hora de apoiar as pessoas.”

 

Toda a Crise é uma Oportunidade

covid19
#covid19
#crise
#safeplace
#oportunidade

O Orçamento do Estado para 2020 é uma mentira

We keep saying we’ve arrived at psychogenesis, but we actually continue to be working obviously with linguistic models. Here is Lacan telling us the unconscious resembles a language, that it’s structured like a language; Brooks telling us that it’s the verbal structure arising out of the relationship between metaphor and metonymy that constitutes the narrative text. We keep sitting around twiddling our thumbs, waiting for somebody to say something about the psychogenesis of the text.
Paul Fry

Mentira!
Joacine Katar Moreira

Purpose of sampling distribution You’d like to estimate the proportion of all students in your school who are fluent in more than one language. You poll a random sample of 50 students and get a sample proportion of 0.12. Explain why the standard deviation of the sampling distribution of the sample proportion gives you useful information to help gauge how close this sample proportion is to the unknown population proportion.
Agresti, Franklin & Klingenberg

***

Já sabíamos que o Orçamento do Estado para 2020 era uma vergonha merecedora de chumbo. A farsa ortográfica promovida pelo poder político teve hoje um episódio simbólico: depois de ter confirmado a promulgação do OE2020, Mário Centeno anunciou que esta vergonha ortográfica entraria em vigor no dia 1 de Abril. Exactamente: 1 de Abril. Excelente escolha. Ovação de pé.

Aliás, a mentira ortográfica continua de vento em popa no sítio do costume.

Saúde para todos e, embora haja le printemps qui chante, por favor, restez à la maison.

***

Howl*

 

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Há anos, precisamente nos idos anos setenta, num teste de História no liceu, uma das perguntas era esta: comente a seguinte afirmação – “A História começa na Suméria” .

A frase era nem mais nem menos do que um título de um livro, publicado cá pelas Edições Europa-América, da autoria de Samuel Noah Kramer. Era a questão do aparecimento da escrita, e a partir daí considerava-se que a História começava.

Um marco no tempo e no calendário. Outro é o nascimento de Cristo, temos o tempo aC e dC. (há naturalmente outros acontecimentos e outros calendários, no Oriente por exemplo).

Na investigação científica, especialmente em Arqueologia, quando se trata de datações com base no carbono 14, os resultados são apresentados em anos, mas com a menção BP (before present).

E por aí fora.

Ainda hoje ouvimos os mais velhos (cá e na Europa) dizerem “isso foi antes da guerra”. Referem-se, como é óbvio, à II Guerra Mundial.

A partir de agora teremos outro tempo e outro calendário, e desta vez para todo o mundo, aC19 e dC19.

*Allen Ginsberg, 1956

A imagem  (foto minha) é de um painel existente no Museu de História Natural, secção de Geologia, em Londres

Telegrama aberto à comunidade educativa

Em primeiro lugar, e respeitando algum corporativismo, escrevo aos meus estimados colegas que estejam obcecados em inundar os alunos com trabalhos para casa. Nestes tempos extraordinários, os alunos e as famílias precisam, também, de paz, de alívio para a tensão. Manter os alunos activos faz sentido, mas é preciso não exagerar. As vossas intenções serão as melhores, mas é dessas intenções que o inferno se alimenta. É preciso lembrarmo-nos, ainda, de que há muitos alunos com poucas ou nenhumas condições de trabalho em casa, porque um computador é um luxo.

Há uma razoável quantidade de idiotas que afirma que os professores não trabalham. Um idiota nunca aprenderá por muito que se lhe explique. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha por causa de uma razoável quantidade de idiotas. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha, porque isso é idiota. Vale a pena trabalhar, o que implica, no contexto actual, uma série de decisões que podem ir no sentido de aliviar o trabalho dos alunos. [Read more…]

Elogio

a Portugal in the war against nCoV-19

Boa pergunta

“E pergunto-me: que receita para este momento teriam os neo-liberais? Deixariam o “mercado” regular-se a si próprio (…)?

A bexiga *iperativa

In particular, in the case of aviation disasters that are caused by linguistic problems, it would be important to distinguish different ways of pronouncing and representing the same numeral: In English there are different ways of saying the numerals of the accident flight USAir 427: either four hundred twenty-seven or four two seven (in the style of a telephone number), where in the latter case, it would be most interesting to determine whether the cipher 4 (phonology /fo/) had the phonetic realisation [fo:], [for], [faʊə], [faʊ’ər], or the like.
Claudia Sassen

nobody, not even the rain, has such small hands.
e. e. cummings

***

*Hiperativa? Efectivamente, o ‘m’ de imperativa indica [ĩ] em vez de [i]. De facto, o ‘c’ de hiperactiva indica [a] em vez de [ɐ]. Com efeito, o ‘h’ inicial de hiperactiva é inorgânico. De simplificação em simplificação, obter-se-á *iperativa.

Há poucas semanas, comprei um slide igual a este do Jeff Beck, na Macari’s (que saiu da Denmark Street e foi para a Charing Cross Road, quase em frente à Foyles, que fica ao lado deste templo). Se reparardes bem, entre 1:33 e 1:39, o Jeff Beck pega nesse slide com o mesmo à-vontade com que eu pego nos meus lápis e na minha esferográfica Faber-Castell, ou seja, sem o desleixo de quem aniquila letras com valor grafémico.

Exactamente.

Nótula: Apesar de as minhas canções predilectas do Rui Veloso serem o saiu para a rua e o não me mintas (embora haja aquele desnecessário verso com o Jardel…) e apesar de preferir mil e uma vezes o nova gente ou o made in oporto dos GNR ao porto sentido como hino pop da minha cidade (o Jardel ainda é como o outro, mas para o “lampiões tristes e sós”, francamente, não há pachorra), não podemos nem devemos ignorar a voz das varandas. Viva o Porto! Os meus agradecimentos à Alexandra Martins.

***

Crónicas do Rochedo 31º – Ainda o Turismo e os supostos apoios

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Depois da publicação da Crónica anterior, vou continuar a desenvolver a problemática económica que se avizinha para o turismo agora na óptica dos apoios já tornados públicos. Para se perceber a grandeza do problema é ler a crónica anterior.

Analisando o que já está previsto e publicado pelo governo (site IAPMEI e PME Investimento) e que se pode resumir a apoios de tesouraria e fundo de maneio, acrescentando os apoios ao sector da Restauração e Similares (profundamente dependentes do Turismo na Grande Lisboa, Área Metropolitana do Porto, Algarve, Madeira, Açores, Região do Douro e em muitas das nossas cidades), temos o seguinte:

Em praticamente todas as linhas de crédito os spreads bancários (sublinho, apenas no que toca aos spreads) variam entre um mínimo de 1,928% e um máximo de 3,278%. 

Não encontrei de quanto é o juro nem tão pouco, se existem, os custos bancários para processamento e afins destas medidas. Nem que tipo de garantias são exigidas.

Vamos lá ver se nos entendemos: 

Neste momento, todo o sector do Turismo assim como o da restauração e similares dele dependente estão numa realidade surreal: receitas zero. Para piorar a situação, a principal época de facturação está compreendida entre 15 de junho e 30 de setembro. Ora, como facilmente se compreende atendendo à realidade actual, a chamada “temporada de 2020” foi ao ar. Não se enganem, não vamos ter turistas estrangeiros a tempo de a salvar. Mais, é muito bonito ver algumas iniciativas que circulam pelas redes sociais com a temática do “ajude as nossas empresas e este ano faça férias em Portugal”. Desculpem mas não resolve. A estrutura existente está desenhada para uma realidade de, pelo menos, 20 milhões de turistas. O aumento incrível do número de hotéis (e similares), restaurantes, bares, lojas de lembranças (etc) e o correspondente aumento de trabalhadores nessa área não é sustentável apenas e só com o turismo interno. Nem a esmagadora maioria dos portugueses vão ter, no final de tudo isto, capacidade financeira para esse luxo a que se chamam férias. Pensem um pouco, com a excepção dos funcionários públicos, todos os outros portugueses terão, no mínimo e a correr bem, um corte de 30% nas suas receitas. A correr mesmo muito bem. E, já agora, para piorar o cenário, por exemplo, aqui em Espanha também circulam as mesmas iniciativas de este ano fazer férias em Espanha. Suponho que será um sentimento generalizado noutros países…

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Diário da quarentena – A vida em tempos de Covid-19

Coisas que me ocorrem durante o auto isolamento:

  • Estou a adorar ver toda a gente fazer videoconferências de phones e à frente de estantes com livros. Espero que continue até depois de isto acabar. Deixem de ir a estúdios de televisão. Sejam o vosso próprio canal de Youtube.

  • Ocorre-me também que nunca cheguei a falar do documentário do Herzog sobre o Gorbachev. Vejam. Estará algures na internet (Netflix?). Extraordinário porque ele – Gorbachev – o é, e porque Herzog o tem como herói. Herzog começa por lhe dizer que é alemão e que o primeiro alemão que Gorbachev conheceu provavelmente queria matá-lo. Gorbachev ri-se e desmente, dizendo que os primeiros alemães que conhecera eram seus vizinhos, muito simpáticos, e davam-lhe doces. Extraordinário também pela frase do pai de Gorbachev após ter chegado a casa da Guerra, we fought until we ran out of fight. That’s how you must live. Extraordinário, também, e talvez sobretudo, pela forma como Gorbachev fala da falecida mulher.

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Resolução do Conselho de Ministros – Estado de Emergência

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PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS

R 204/XXII/2020
2020.03.18

Resolução do Conselho de Ministros

No dia 18 de Março de 2020 foi decretado o estado de emergência em Portugal, através do Decreto do Presidente da República n.º 14-A/2020, de 18 de Março.
A Organização Mundial de Saúde havia qualificado a situação actual de emergência de saúde pública ocasionada pela epidemia da doença COVID-19, tornando-se imperiosa a previsão de medidas para assegurar o tratamento da mesma, através de um regime adequado a esta realidade, que permita estabelecer medidas excepcionais e temporárias de resposta à epidemia.

A situação excepcional que se vive e a proliferação de casos registados de contágio de COVID19 exige a aplicação de medidas extraordinárias e de carácter urgente de restrição de direitos e liberdades, em especial no que respeita aos direitos de circulação e às liberdades económicas, em articulação com as autoridades europeias, com vista a prevenir a transmissão do vírus.

É prioridade do Governo prevenir a doença, conter a pandemia, salvar vidas e assegurar que as cadeias de abastecimento fundamentais de bens e serviços essenciais continuam a ser asseguradas. Com efeito, urge adoptar as medidas que são essenciais, adequadas e necessárias para, proporcionalmente, restringir determinados direitos para salvar o bem maior que é a saúde pública e a vida de todos os portugueses.

A democracia não poderá ser suspensa, numa sociedade aberta, onde o sentimento comunitário e de solidariedade é cada vez mais urgente. Assim, a presente resolução pretende proceder à execução do estado de emergência, de forma adequada e no estritamente necessário, a qual pressupõe a adopção de medidas com o intuito de prevenir a transmissão do vírus e conter a expansão da doença COVID-19.

Estas medidas devem ser tomadas com respeito pelos limites constitucionais e legais, o que significa que devem, por um lado, limitar-se ao estritamente necessário e, por outro, que os seus efeitos devem cessar assim que retomada a normalidade. [Read more…]

Crónicas do Rochedo 30º – Turismo: Uma catástrofe à vista

Turismo de Portugal

Já não escrevia uma crónica há muito tempo. Ora, tempo é o que mais temos nestes últimos dias. Tempo para pensar e tempo para escrever. Perante a pandemia que estamos a viver existem vários sectores da nossa sociedade que enfrentam várias ameaças. Um deles é o turismo. Por ser dos sectores que melhor conheço profissionalmente, deixo aqui a minha análise baseada em factos e fontes e na experiência profissional. Podia escrever o mesmo sobre o turismo em Espanha e, sobretudo, na realidade que melhor conheço, as Baleares. Contudo, para já, prefiro analisar o problema português (aqui não será muito diferente).

Vamos começar pelos números:

O Turismo em Portugal representa 14,6% do PIB (dados de 2018) e 9% do emprego (dados de 2018) e 13,3% do total das nossas exportações (dados de 2018).

Tentando tornar a coisa mais simples de entender: 

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Estes dias

O «Sinais», do Fernando Alves, na TSF, se antes era uma companhia diária, é agora a minha vitamina. A crónica de hoje foi uma saudação especial aos caminhantes. Confinados em casa, ou quando muito reduzidos a uma escapadela em horários pouco concorridos (porque até o nosso passeio higiénico tem algo de traição a todos os que aguentam encerrados), sentimos a falta das nossas caminhadas. Ontem mesmo levei para a varanda o mini-stepper, aquele aparelhinho ridículo para andar a pé sem sair do sítio, e lá fiquei um bom bocado, num caminhar fingido que faz lembrar o correr fingido do hamster na sua roda, mas com a vista posta bem longe, naquela nesga da Torre dos Clérigos que avisto da proa da varanda. [Read more…]

Covid-19 – apoios governamentais às empresas e protecção dos direitos dos trabalhadores

Ricardo Paes Mamede

Estive em reunião durante a manhã e ainda não tive tempo para analisar em detalhe as medidas anunciadas pelos ministros das Finanças e da Economia. Mas uma dúvida me surge desde já. Será possível que o governo não preveja nenhumas condições para as empresas que vão ter acesso aos apoios financeiros? Em particular, quem recebe apoios não tem de assumir compromissos quanto ao não despedimento dos trabalhadores?

Note-se que há vários motivos para os Estados apoiarem as empresas numa situação destas, uma delas é minimizar os despedimentos motivados por falta de liquidez. Se as empresas vão receber apoios sem terem de se comprometer com o pagamento de salários e o não despedimento de trabalhadores, já se está a ver o que vai acontecer: muitos oportunistas (e há-os aqui como em qualquer lado) vão pedir apoios, despedir trabalhadores e declarar falência de seguida. Para a sociedade como um todo o que teremos é mais desemprego e mais dívida pública. [Read more…]

Covid-19: porque morrem tão poucos na Alemanha?

AL

Na Alemanha, no momento em que escrevo isto, existem cerca de 15 mil infectados com o novo coronavírus. É o quinto país com maior número de infectados, atrás da Itália e do Irão, na casa dos 18 mil, de Itália, que ultrapassou os 41 mil, e da China, que ainda detém o recorde de 81 mil infectados.

Quando olhamos para o número de mortes por covid-19, contudo, a disparidade é gritante. Em Itália morreram 3405, na China 3132, no Irão 1284 e na vizinha Espanha perderam a vida 833 pessoas. Na Alemanha, o número de vítimas mortais não vai além das 44. O que explica esta disparidade? Objectivamente, não sei. Não tenho dados que me permitam lá chegar. Mas desconfio que o gráfico em cima poderá explicar alguma coisa.

Dia de visita

E se houvesse um dia no ano em que pudéssemos visitar os nossos mortos e encontrá-los vivos? Partiríamos de comboio (vem-me à memória a viagem que fazem os sul-coreanos para visitar parentes e amigos na Coreia do Norte) rumo ao lugar deles, que eu gostaria de imaginar que fosse um bosque de carvalhos e tílias, mas apenas consigo ver um bloco de edifícios de traça austera, funcional, um lugar com longos corredores e salas pequenas, com uma única janela e um aquecedor de parede, e onde nos esperariam, à janela, os nossos mortos, sempre no mesmo dia, uma vez por ano. Ficaríamos todos juntos, cada um no seu cantinho da sala, famílias e amigos, num mesmo espaço partilhado, como nos hospitais e nas cadeias, a ouvir a conversa uns dos outros, a lamentar os que desperdiçam o dia discutindo e os que nada têm para dizer. [Read more…]