O capitalismo em tempos de corona

DTJB

Foto: EPA (via Rádio Renascença)

Os Estados Unidos conseguiram a proeza de eleger Donald Trump presidente. Desde então, as proezas sucedem-se. De Trump já vimos quase tudo aquilo que não esperamos de alguém que dirige uma democracia ocidental. O racismo, a normalização do racismo e o elogio dos racistas. A xenofobia, a demonização do emigrante e o muro. A ignorância, a negação da ciência e as notícias falsas. A boçalidade, a falta de escrúpulos e ausência de uma espinha dorsal. A chantagem, a trafulhice empresarial e a corrupção. Nenhum dos seus antecessores ousou ir tão longe. [Read more…]

Anúncio

Aos fazedores de opinião: vendo imagens das minhas estantes para cenário de entrevistas na tv.

Bom preço.

Joe Biden


Salvo algum imponderável, Joe Biden terá garantido ontem a nomeação pelo partido Democrata à candidatura a presidente dos Estados Unidos da América. O antigo vice-presidente de Barack Obama obteve três vitórias esmagadoras nos estados da Florida, Illinois e Arizona sobre o opositor Bernie Sanders e só não foram quatro porque o governador republicano do Ohio adiou à última hora as primárias para Junho, decisão bastante controversa que agradou aos apoiantes do senador do Vermont, tendo a sua porta-voz elogiado a decisão. [Read more…]

A ciência ou a vida

Por outras razões, insurgi-me, recentemente, contra tudo o que faça de nós egoístas ou bairristas. A ideia de que os meus são sempre melhores do que os outros e que, portanto, merecem mais e melhor é simplesmente repugnante. Somos todos tendencialmente egoístas, bairristas e nacionalistas, mas só gente abjecta é que permite que essa tendência se transforme numa perversão que desumaniza. Ser humano é outra coisa; espezinhar o Outro é só ser selvagem.

A ciência, tal como o ar ou a água, é património da humanidade e todos os estados têm de zelar para que assim seja, sob pena de serem só uma confederação de criminosos. Uma vacina, por exemplo, não pode estar apenas ao alcance de quem tiver dinheiro para a comprar. O mundo ainda é demasiado desigual e sabemos que uma vacina comum no mundo ocidental é, muitas vezes, uma miragem nos países subdesenvolvidos.

Segundo parece, Donald Trump tentou comprar o exclusivo de uma vacina para os Estados Unidos a um laboratório alemão. Se o negócio fosse avante, Trump reclamaria mais uma vitória, festejando o facto de que os americanos sobreviveriam, enquanto os outros poderiam morrer. [Read more…]

Menos combate ideológico

[Francisco Salvador Figueiredo]
Em tempos de emergência, a esquerda escolheu usar uma doença para criticar os liberais e defender as suas ideias.
Os liberais, por outro lado, optaram por chegar a soluções com qualquer partido de qualquer espectro político.
Se vos disseram que ser liberal é odiar o Estado, enganaram-vos. Ser liberal é acreditar na capacidade do indivíduo. Depois de meses com o único partido liberal a apresentar modelos que já resultaram, chegou a hora de mostrar que também é um exemplo de seriedade. Ao contrário do Bloco.
Para o Bloco, o combate ideológico é mais importante do que a vida das pessoas.
O Bloco é porco, nem mais, nem menos do que isto.

De facto, acontece frequentemente com Brecht

If Jesus came back and saw what’s going on in his name, he’d never stop throwing up.
Frederick (Max von Sydow, 1929-2020)

Das Unrecht geht heute einher mit sicherem Schritt.
Die Unterdrücker richten sich ein auf zehntausend Jahre.
Bertolt Brecht

***

O The Guardian foi extremamente rápido e publicou este esclarecimento em 2014, antes de eu poder cumprir a minha promessa de 2013. Efectivamente, prometera a versão brechtiana deste sarilho com Voltaire, propagado até pelo NYT. Cumpro hoje o prometido.

De facto, tão certo como aparecerem contatos no Diário da República

ou fatos no Expresso (que agradeço ao excelente leitor do costume), [Read more…]

O que tem a ver a Coopérnico com a crise do coronavírus?

Rui Pulido Valente*

À primeira vista não parece ter nada a ver, mas se aprofundarmos o nosso olhar e ouvirmos aquilo que a crise nos tenta dizer, concluímos que tem tudo a ver! Tem tudo a ver porque nos obrigou, a todos, a olhar para a Sustentabilidade de uma outra forma, numa perspetiva mais individual e responsável.

O combate à pandemia tem sido feito com base nos comportamentos de cada um e no cumprimento das orientações dos profissionais de saúde. Não se tem tratado apenas de alterações temporárias e pontuais, mas mudanças que questionam todo um posicionamento do cidadão como consumidor.

A diferença é que estamos perante uma urgência e um fenómeno que depende fundamentalmente da atitude de cada um. Mas se refletirmos um pouco, também a crise climática, o desperdício alimentar, ou mesmo, a plastificação do meio ambiente, têm tudo a ver com questões comportamentais e responsabilização do cidadão enquanto consumidor. Acrescentaria ainda, e para puxar a brasa à minha sardinha: as nossas opções como consumidores de energia também têm tudo a ver com opções individuais que podem defender o ambiente e descarbonizar as nossas vidas.

De um momento para o outro, foi possível fazer o que, para muitos, seria utópico. Temos professores a lecionar à distância, temos profissionais em teletrabalho, temos redução substancial nas deslocações com reuniões a realizarem-se por teleconferência, temos quem se preocupe em criar soluções locais para evitar a excessiva centralização dos recursos, temos uma aferição, no terreno e na prática, da resiliência dos nossos territórios. [Read more…]

Exemplo a seguir

Governo espanhol coloca hospitais privados ao dispor do SNS

As interacções, as interações, as iterações e as iteracoes

People like to say: “knowledge grows exponentially”. But they probably haven’t thought about what an exponent is.
John Searle

Septemberabend; traurig tönen die dunklen Rufe der Hirten
Durch das dämmernde Dorf; Feuer sprüht in der Schmiede.
Georg Trakl

I’ve experimented ad nauseam to find the right tone.
Steve Vai

***

Há cerca de dez anos, enquanto escrevia este artigo (pp. 97-108), um caso muito concreto que bem lá no fundo me incomodava, no meio do pandemónio geral da aniquilação da letra ‘c’ nas palavras terminadas em -acção, era o processo sofrido pela palavra interacção, em interacçãointeracçãointeração. Porquê? Por causa da existência da palavra iteração. Por exemplo, a iteração do PPC ou a iteração de que vive a “poeticidade minimalista de Trakl“. Convém lembrar que entre os negociadores do AO90 se encontravam professores de Linguística e professores de Literatura (embora alguns com funções meramente administrativas, como a de “difundir o texto“). Ou seja, num caso e no outro, indivíduos cientes quer da existência quer do significado da palavra iteração.

Efectivamente, depois do AO90, temos duas palavras (interação e iteração) reduzidas à distância entre uma vogal oral e uma vogal nasal. Com efeito, sem AO90, a quantidade de distâncias entre iteração e interacção era maior: à da entre vogal oral e vogal nasal, acrescentava-se a da entre vogal oral central média baixa [ɐ] e vogal oral central baixa [a]. É sabido que interação mais não pode ser do que uma espécie de repetição ainda mais nasal, ou seja, uma iteração com monotongo inicial nasal (o ditongo nasal final, note-se, embora sem grande relevância para este ensaio, é comum a todas estas formas).

Há dias, recebi esta mensagem no telemóvel português: [Read more…]

Deram um ministério ao Tiago

Tenho aversão ao egotismo, ao bairrismo, ao nacionalismo, ao clubismo, ao corporativismo e a outros –ismos que levam as pessoas a declarar que são superiores ou que pertencem a grupos e instituições superiores. Penso sempre que estes –istas estão a milímetros de defender que pertencem a uma raça superior, o que me faz lembrar campos de concentração e outras coisas prejudiciais à saúde.

Quando, finalmente, se tomou a decisão de permitir que não houvesse aulas, o alegado ministro da Educação apareceu, com voz grossa, a afirmar que ninguém estava de férias e que os funcionários docentes e não docentes iriam ter de continuar a apresentar-se nas escolas, sempre que fosse necessário.

Acontece que a maioria dos funcionários docentes e não docentes já anda nas escolas há muito mais tempo do que Tiago Brandão Rodrigues, o alegado ministro. Tiago, aliás, parece um daqueles meninos ricos a quem os pais compravam uma bola das mais caras e ficava convencido de que sabia jogar futebol. Deram-lhe um ministério e acredita que passou a perceber do assunto. [Read more…]

Marcelo Rebelo de Sousa, o desertor

Qual é mesmo a pena por deserçāo?

O Porto à moda do Porto

[Francisco Salvador Figueiredo]

A História diz-nos que ninguém conseguiu conquistar a cidade do Porto. Muitos tentaram, todos quebraram. Desta vez, não falamos de um povo forasteiro, falamos de um vírus que decidiu invadir este jardim à beira mar plantado. E, outra vez, o povo portuense mostrou o porquê de sermos a Invicta. Se noutros tempos foi necessário varrer quem nos atacava, chegou a hora de ficar em casa para não propagar este bicho que chegou.

E, sim, estamos todos de parabéns. Custa-nos a todos. Custa saber que durante semanas não possamos dar um passeio pela Foz, ir beber um café ao Piolho, respirar o ar da Sé ou acabar o dia a apreciar a vista que a Serra do Pilar nos oferece. Mas custaria muito mais a um Portuense saber que não fez tudo ao seu alcance para proteger os seus e manter a Cidade Invicta!

Todos os anos, o Porto vence prémios de melhor destino turístico, melhor destino romântico, melhor destino até para torradas. Chegou a hora de premiarmos o Porto com o Prémio Consciência. O Porto é isto. É como uma família. E é por este sentimento que o Orgulho Tripeiro não morre. Enquanto houver um portuense, haverá sempre Porto e haverá sempre Portugal. Desculpem qualquer coisa, mas tal como Sophia, “não escapo a um certo bairrismo”.

A arte de lavar as mãos

É urgente criar um Sistema Mundial de Saúde

cv

Estive a ler e a ver umas coisas produzidas por perigosos globalistas, financiados por George Soros e Belzebu, e todos os seus tortuosos caminhos vão dar ao mesmo: precisamos, urgentemente, de um Sistema Mundial de Saúde. O sistema global – lá está, os globalistas não facilitam – deveria, idealmente, estar em todos os países do mundo. Em cada filial, um núcleo de investigação dedicado à infecciologia (não se esgotaria aqui, mas uma coisa de cada vez), com a tecnologia e os especialistas necessários para diagnosticar, implementar planos de contingência e combater, na primeira linha, qualquer surto potencialmente epidémico. [Read more…]

Com toda a gente em casa, a factura da luz vai subir

Que fará a EDP?  Vai usar a almofada de 512 milhões de lucro em 2019 para minorar o impacto no bolso dos cidadãos ou facturar como de costume?

Rodrigo Guedes do Caralho

Aqui no Norte, sem qualquer intenção de insultar ou diminuir, dizemos que alguém “é do caralho” quando esse alguém se destaca, seja de que forma for, pela positiva. Não deve a utilização do termo “caralho” ser aqui confundida com a que se pretende quando mandamos alguém “p’ró caralho”, ou quando dizemos que nos dirigimos a alguém como “seu caralho”, pese embora a expressão “seu caralho”, também utilizada com alguma frequência aqui no Norte, possa ter um sentido carinhoso e ser usada para cumprimentar amigos de longa data. [Read more…]

Este texto de Joana Mortágua não faz qualquer sentido

A propósito destas declarações do ministro da Educação, Joana Mortágua escreveu:

Os professores não estão de férias, nenhum trabalhador está. Mas nas escolas, como em todos os setores, ninguém deve ser mantido no seu local de trabalho desnecessariamente.

Há uns anos, dediquei alguns minutos a este assunto (aqui e ali) no Facebook. Efectivamente, em português europeu, setor é uma palavra bem definida (aqui, ali e acolá). De facto, sendo setor aforma de tratamento usada em Portugal pelos alunos dos ensinos básico e secundário para designar os professores”, o resultado em português europeu do texto de Joana Mortágua é este:

Os professores não estão de férias, nenhum trabalhador está. Mas nas escolas, como em todos os professores, ninguém deve ser mantido no seu local de trabalho desnecessariamente.

Isto é, o texto de Joana Mortágua não faz qualquer sentido.

Foto: Alexandre Azevedo/Sábado (http://bit.ly/33jYrDw)

Nótula pessoal: Sim, JJC, hoje apeteceu-me uns aqui, ali e acolá, aqui e aqui, etc.

***

Este Presidente da República não serve para nada

Ao contrário do habitual, a generalidade da classe política esteve bem, incluindo os partidos e o Governo, que decidiu o que tinha de decidir com maiores ou menores hesitações.
Mas no auge de uma crise social gravíssima como a que estamos a viver, onde se meteu o presidente da República?
Em casa. Fez o teste e, mesmo dando negativo, desapareceu de cena durante 15 dias. Escondendo-se do vírus. Ficando à espera que a pandemia termine. Confirmando que os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio.
Para andar pelo país fora a dar beijinhos; ou a atribuir mais de 300 condecorações em 4 anos; ou a telefonar à Cristina Ferreira, ao Manuel Luís Goucha ou a Araújo Pereira, não é preciso um presidente da República.
O que é preciso é um chefe de Estado que dê a cara e que se chegue à frente nos momentos da verdade. Não o fazendo, não serve rigorosamente para nada.

Para tudo! Para tudo? Como é que é?

Was wir im Vergleich mit der sophokleischen Tragödie so häufig dem Euripides als dichterischen Mangel und Rückschritt anzurechnen pflegen, das ist zumeist das Produkt jenes eindringenden kritischen Prozesses, jener verwegenen Verständigkeit.
Nietzsche

Como é que é?
Ana Gomes

***

Exactamente.

Como é que é?

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***


«Liga para os campeonatos profissionais de futebol»?

Não! «Liga pára os campeonatos profissionais de futebol»! Obrigado, Manuel Monteiro.

As pessoas deixaram de ir ao médico?


Centro de Saúde de Rio Tinto, hoje, numa sala que costuma estar a abarrotar.

Fechar ou não as escolas

O Conselho Nacional de Saúde Pública diz que fechar escolas só com a autorização das autoridades de saúde.
A Direcção-Geral de Saúde concorda com o parecer do Conselho Nacional de Saúde Pública.
O Governo fará o que o Conselho Nacional de Saúde Pública decidiu. Mas este Conselho não decidiu nada – só remeteu para a Direcção-Geral da Saúde. Que concordou. Mas concordou com o quê?
Fui só eu que não percebi nada?

Contra a propagação do vírus do alarmismo e da estupidez

Discutir saúde pública, em particular um caso tão delicado como aquele que estamos a viver, não é como discutir política, futebol ou religião. Ter opiniões, estúpidas ou ser inteligentes, sobre estes três temas, é legítimo. Andar nas redes sociais armado em médico, académico ou cientista, quando não se é nenhum dos três, é só parvo e irresponsável. Ver Anatomia de Grey, ou ler conspirações no Facebook, não nos habilita a dizer coisas construtivas, válidas ou úteis sobre temas tão sensíveis. Só nos habilita a dizer merda e a contribuir ainda mais para o alarmismo. Think about it, folks! E aproveitem para seguir as indicações das autoridades competentes. Elas, melhor do que todos nós, sabem do que falam.

Problema n.º 2: Armando Gama

Resolvido o problema n.º 1, descubra agora, nestes dois parágrafos, as três palavras escritas com os pés pela redacção da FLASH:

Armando Gama viu a sua vida dar uma volta de 180 graus depois de ter sido acusado, pela mulher, de violência doméstica. O cantor de 65 anos viu-se obrigado a sair de casa e perdeu os trabalhos que tinha como pianistas em hotéis, que recusam dar trabalho a um músico associada a um crime que anda na ordem do dia.

Enquanto o processo não é julgado, Armando Gama tem medidas de coação para cumprir: não pode contactar com a ex-mulher Bárbara Barbosa, que terá confessado a amigos ter receio de se cruzar com o músico.

SOLUÇÃO: [Read more…]

Carta dos voluntários humanitários portugueses ao governo português, sobre a emergência humanitária grega

Pedro Amaro Santos

Ex.mo Sr. Presidente da República Professor Marcelo Rebelo de Sousa,

Ex.mo Sr. Primeiro Ministro Dr. António Costa,

Ex.mo Sr. Ministro da Administração Interna Dr. Eduardo Cabrita,

Ex.ma Sr.ª Ministra do Estado e da Presidência Dr.ª Mariana Vieira da Silva,

Ex.mo Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros Dr. Augusto Santos Silva,

Ex.ma Sr.ª Secretária de Estado para a Integração e as Migrações Dr.ª Cláudia Pereira,

Os voluntários humanitários, cidadãos portugueses, signatários da presente carta vêm alertar o Governo Português para a emergência humanitária decorrente da situação alarmante e desumana que se vive no campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, na Grécia. Apelamos à tomada de decisões imediatas coerentes com a política portuguesa de acolhimento e integração das pessoas refugiadas.

No campo de Moria, com capacidade para albergar 3 100 requerentes de asilo, vivem neste momento mais de 20 000 pessoas. Destas, mais de metade são famílias e há 1 049 menores desacompanhados.

As condições e recursos de um campo construído para 3 100 pessoas são descritas pelas organizações não governamentais presentes no terreno e pelos próprios residentes como insuficientes e inexistentes: falta de água quente e limpa; falhas de eletricidade; más condições sanitárias e escassos cuidados de saúde. Entre os testemunhos dos voluntários portugueses, destacamos:

— Há uma casa de banho para cada 300 pessoas.
— Os residentes esperam 3 horas por cada refeição.
— Nos últimos 2 meses morreram 5 pessoas (1 criança de 19 meses por desidratação, 2 mulheres num incêndio dentro dos contentores onde viviam, 1 bebé atropelado enquanto brincava e 1 menor desacompanhado esfaqueado).
— 20 crianças automutilaram-se e 2 tentaram o suicídio. [Read more…]

O espectro político norte-americano: percepção VS realidade

Super Bock Vírus

[Francisco Salvador Figueiredo]

Como eu gosto das coisas à portuguesa, decidi trocar o nome Corona por Super Bock. Além de dar uma maior leveza ao assunto, podemos mostrar orgulho em termos a nossa influência no nome de uma epidemia mundial. É Portugal, pá! E que o André Ventura não veja isto, porque ainda me rouba a ideia. Mas todos sabemos que isto de roubar ideias é mais estilo Bloco.

Os nossos governantes começaram confiantes. Defenderam que Portugal estava preparado para receber esta doença. Lá estamos nós e a nossa mania de sermos hospitaleiros… Um SNS que deixa pessoas a morrer à espera de uma consulta estar preparado para receber uma epidemia de tal tamanho? Só acredito no dia em que o FC Porto, na mesma semana, perder com o Caldas e ganhar ao Barcelona.

Depois de o governo afirmar que os nossos hospitais estavam preparados, devem ter ido todos brincar com os seus unicórnios enquanto descobriam um pote de ouro no fim do arco-íris. Isto foi o antes. Quando nós somos os maiores. Bastou haver dois casos de Super Bock vírus… E o resultado? Pessoa fechada na casa de banho de centro de saúde por suspeita de Super Bock Vírus, dizia uma manchete. Mas tinham duas camas apenas para pessoas infetadas? Já vi hostels com melhores condições e mais eficazes.

Tudo isto parece uma brincadeira. Mas é bem mais grave do que isso. É o Estado garantir que possas levar o teu felpudo a um restaurante, mas não garantir minimamente a tua segurança. É um Estado a prejudicar as pessoas em nome de uma ideologia. É um Estado que não aceita a ajuda do colega do lado para fazer um desenho em Educação Visual, mas que insiste que aquele retrato dá para positiva. É um Estado forte na presença e fraco para nós. É um estado que nos está a levar para o sonho socialista, que não deve passar de ser o país menos desenvolvido da Europa. Acorda, Portugal.

Precário para canhão

CH

Dificilmente seria possível encontrar uma imagem que melhor ilustrasse a ignorância que alimenta André Ventura, o Chega e o neofascismo em geral. Um estafeta de uma Uber Eats desta vida, precário e explorado, faz publicidade gratuita a um partido que advoga o aprofundamento da precarização e a desregulamentação do mercado de trabalho, sem falar nas borlas fiscais que defende para milionários. Se não é ignorância, é masoquismo. Ou, como li por aí algures, mais um “cão de guarda” da elite, que ladra para a proteger mas continua a comer restos e a dormir na rua. É triste. E é também por isso que combater a extrema-direita e a sua narrativa, todos os dias, é cada vez mais um imperativo moral.

Sereis contatados

I thought, at first, I might try to say something about the topic (the relevance of statistical information to study the structure and use of language), but I realized very quickly I wouldn’t have anything to say about that.
Noam Chomsky

You can just pick it up and use it as an exercise machine.
Jeff Beck

***

Portanto, estávamos a falar sobre… Ah! Já me lembro:

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

Os chineses estão a fazer tudo bem, de certeza

Sou tão infantil como sempre fui e morrerei assim. Um dos sintomas da minha infantilidade é o espanto que me provocam as certezas absolutas de que o espaço público está cheio. O espaço público, esclareça-se, pode ser um café com dois clientes bêbedos, uma conferência de imprensa do primeiro-ministro ou o fascinante mundo das teorias da conspiração que está espalhado pelas redes sociais virtuais.

Há pouco fiquei a saber que, segundo a directora-geral de saúde, os chineses estão a fazer tudo o que deve ser feito para combater o vírus da moda. Não consigo perceber como é que, mesmo sendo uma pessoa tão informada, alguém consegue afirmar, a milhares de quilómetros de distância, que há uma nação inteira a fazer o que deve ser feito. Eu, confesso, não faço a mínima ideia se os vizinhos do lado lavam as mãos depois de fazerem as necessidades ou outra coisa qualquer desnecessária.

Isto faz-me lembrar outros tópicos da certeza absoluta, com ocorrências como “os portugueses sabem que…”, regurgitado por políticos espectacularmente omniscientes, ou “Deus quer que…”, afirmado por pessoas que têm ligação directa à Providência.

O meu espanto infantil, portanto, mantém-se, mas a minha ingenuidade desapareceu: antigamente, ficava com a impressão de que as pessoas das certezas absolutas possuíam um saber igualmente absoluto; hoje, sei que são tão ignorantes como eu. Esta certeza não me deveria trazer tanta tranquilidade, mas a minha leveza quase leviandade leva-me a viver neste tédio de saber que não controlo nada, pelo que tenho de me conformar por estar no lugar do morto.