Aquele raro momento em que a crise financeira serve de pretexto para alguém se safar

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Portugal foi assolado por uma violenta crise que, tendo tido a sua origem num cocktail de especulação financeira, terrorismo de mercado e décadas de governação criminosa, criou as condições perfeitas para um processo de sequestro democrático que o bloco central amavelmente aceitou, ou não fosse Portugal um protectorado pobre da burocratocracia de Bruxelas.

Tomados por um poderoso surto de síndrome de Estocolmo, os dirigentes do PS e, posteriormente, os de PSD e CDS-PP, comportaram-se como bons alunos, o equivalente moral, neste tipo de cenário, a dizer que se comportaram como um cão com um dono violento, que por muito que apanhe continua a abanar o rabo e a pedir festas. Seguiram-se meses de venda de património estatal ao desbarato, cortes salariais, em pensões e em prestações sociais, desinvestimento no Estado Social, desregulamentação laboral, brutais aumentos de impostos e milhares de portugueses em fuga para o estrangeiro. Os ricos ficaram mais ricos, os pobres ficaram mais pobres, a classe média entrou em vias de extinção e o fosso transformou-se num buraco negro. [Read more…]

Negligência inconsequente

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Christine Lagarde, a poderosa líder do FMI que tem nas mãos o poder de vergar nações, foi condenada pela justiça francesa por negligência, num processo que remonta ao tempo em que era ministra das Finanças de Nicolas Sarkozy, e que previa uma moldura penal correspondente a um ano de prisão e uma multa de 15 mil euros. Em tribunal ficou provado que a conduta negligente de Lagarde custou 404 milhões de euros aos cofres franceses, porém, como é previsível neste tipo de casos, o poder sobrepõe-se à justiça e a directora do FMI, apesar de condenada, não foi alvo de qualquer tipo de sanção. Como é belo, o admirável mundo da imunidade absoluta das elites. [Read more…]

Lettres de Paris #48

Une journée de merde

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pardon my french. O dia não começou mal. Levantei-me tarde, dormi bastante e acho que não muito mal. Mas acabou de uma forma muito desagradável e continua a ser desagradável. Até quando não sei, sendo certo que haverá coisas piores, mas há transtornos um bocado mauzinhos, sobretudo quando se paga uma pequena fortuna para se estar num sítio onde tudo parece estar caquético. Saí de casa por volta das 3 da tarde, deixei tudo impecável e bem. Entrei em casa quase às onze da noite e mal abri a porta ouvi água a correr. A casa de banho estava toda inundada, a sanita cheia de água de aspecto duvisdoso e eu fiquei perfeitamente azamboada com aquilo. Liguei para o o número ‘da noite’ aqui na Maison Suger. Nada. Desci outra vez ao átri de entrada e o homem lá apareceu. Contei-lhe. Veio ver. Fechou a água do autoclismo e preparava-se para ir à vida dele, quando eu lhe disse que nem pensar, que ligasse ao diretor ou a quem fosse.
 
Saiu. Passado um bocado regressou, que o não tinham atendido de um sítio, e que o colega que faz os arranjos na casa não podia vir, porque morava longe. Eu perguntei-lhe se ele achava que isto eram condições, que chamasse um canalizador. Que não estava autorizado. Bonito. Saiu outra vez e passado um bocado ouço alguém na porta ao lado. A vizinha – que descobri depois que é brasileira – exatamente com o mesmo problema. O faz tudo da Maison tinha ido de manhã arranjar-lhe a sanita e agora estava tudo inundado também. O senhor que fica aqui à noite saiu outra vez para ligar a não sei quem. Voltei a dizer que chamasse um canalizador. Que não. Regressou com uns tubos a casa da vizinha. Passou quase uma hora e eu sem saber de nada. Fui lá. Tudo na mesma. O problema é na casa ao lado e não aqui, mas a verdade é que isso me interessa pouco, visto que não posso usar a sanita. Digo-lhe isto. Ele diz que já vem cá. Passa mais um grande bocado e nada. Vou lá outra vez. Afinal parece que chamou alguém, um homem, que aparece dali a um bocado. Ficam os dois na casa ao lado e de vez em quando vêem ver o que se passa deste lado. A sanita acaba por se esvaziar e o chão por secar, mas cheira mal. Tenho vontade de ir à casa de banho e tenho de ir à cave, descer até ao átrio e depois descer umas escadas estreitas até lá. Rica solução.
 

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Tiques totalitários que não incomodam as pessoas de bem

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Enquanto o ministério da propaganda insiste na estratégia de colocar a extrema-direita violenta e racista no mesmo saco que o Syriza ou que o acordo parlamentar português, a realidade insiste em recordar-nos, a cada momento, o quão imbecil são a comparação e os sujeitos mesquinhos que a procuram transformar em verdade absoluta.

Corrijam-me se estiver errado, mas não tenho recordação de Tsipras ou Costa manifestarem interesse em legislar no sentido de controlar e manipular a imprensa nos seus países. Em sentido contrário, o regime polaco de extrema-direita, por cá amaciado como sendo “ultraconservador”, promulgou uma lei que permite hoje ao governo controlar a imprensa pública, apesar da condenação estéril da União Europeia, que não se ensaia muito para detonar as economias do sul mas que revela sempre alguma dificuldade em contrariar os ímpetos totalitários da extrema-direita europeia. [Read more…]

O Conselho de Segurança das Nações Unidas ficará na História da crueldade

 

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©Omar Sanadiki/Reuters

Ruanda. Srebrenica. E agora Alepo. Memorizemos o nome. Alepo. É o novo cemitério do mundo. E da comunidade mundial. Na lápide está inscrito: Vocês assistiram. Todos vocês sabiam. Todos vocês se indignaram. Vocês apontaram o dedo a este e àquele. Mas vocês deixaram que acontecesse.

E irá acontecer novamente
Mais tarde, quando os corpos tiverem sido enterrados, o entulho removido e as vítimas lentamente esquecidas pelo mundo, em algum momento, no próximo Alepo, este Conselho de Segurança da ONU – este fracasso conjugado da decência humana –, estará novamente reunido e dirá novamente: Naquela altura, em Alepo, jurámo-nos a nós próprios: nunca mais! E no entanto, irá acontecer de novo.
Talvez até muito em breve, em Idlib, a 50 quilómetros de Alepo. O enviado especial da ONU para a Síria – ou para o que dela resta -, esteve na terça-feira perante este Conselho de Segurança, segurando nas mãos uma imagem-satélite de Alepo bombardeada, e disse: Idlib poderá ser a próxima Alepo.

“Nós avisámos-vos!”
Mês após mês, membros do pessoal da ONU estiveram perante o Conselho de Segurança, implorando, pedindo, exigindo, avisando. Até ao Natal, a parte oriental de Alepo, cujo centro histórico aliás faz parte do património mundial, poderá ter sido extinta. Nem demorou até ao Natal. Ban Ki Moon, aquela triste figura trágica no topo das corajosas, impotentes, indignadas Nações Unidas, atestou na terça-feira falência moral ao Conselho de Segurança. Uma e outra vez os seus 15 membros tinham declarado publicamente: Para podermos intervir de forma preventiva, precisamos de avisos atempados. “Nós avisámos-vos”, disse Ban Ki Moon em voz baixa. Uma e outra e outra vez.

A comunidade mundial somos nós
Em 2005, a comunidade internacional estabeleceu o princípio da “responsabilidade de proteger”, a ser assumido por cada Estado. Cada estado tem a responsabilidade de proteger as suas populações contra genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade, é o que está lá escrito, de maneira tão maravilhosamente inequívoca. Se esta responsabilidade não for assumida, ela é transferida para a comunidade mundial. A comunidade mundial somos nós. Tanto a Rússia, como os EUA. O Irão, como a França. A China, como a Grã-Bretanha. A Turquia, como a Alemanha. A responsabilidade era nossa. Agora, temos de arcar com a culpa.
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Qual foi a parte que os anti-imperialistas de ocasião não perceberam?

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Por estes dias, fui alvo de uma série de acusações, todas elas horríveis e nenhuma delas acompanhada por uma justificação, havendo mesmo um leitor que me acusou de gostar de Passos Coelho, algo que, para quem me conhece ou lê o que escrevo, terá sido motivo de forte gargalhada. E tudo isto porquê? Porque ousei relacionar a escolha de Donald Trump para a diplomacia, do CEO da Exxon, Rex Tillerson, com uma tendência clara da nova administração norte-americana para fazer cedências a Moscovo.

Os críticos mais ferozes do imperialismo norte-americano não gostaram. Porque criticar o absolutismo do Tio Sam é sempre muito popular, mas, pelos vistos, apontar o dedo ao tirano Putin ainda leva aos arames alguns leitores mais à esquerda, eventualmente convencidos de que ainda ali mora algum tipo de socialismo, imune a reprimendas. [Read more…]

A mentira dos rankings das escolas

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Fiz há uns anos o meu próprio ranking das escolas. Com critérios geográficos e sócio-económicos, coloquei em primeiro lugar uma escola pública do distrito de Viseu.
Um outro ranking, promovido pela Universidade do Porto, chegava à conclusão de que os melhores alunos da instituição tinham vindo maioritariamente de escolas públicas. Dois exemplos na cidade do Porto separados por menos de um quilómetro: do Colégio do Rosário, transitaram 56 alunos para a Universidade do Porto, mas 3 anos depois, apenas 4 alunos estavam entre os melhores 10% da instituição. Da Escola Secundária Garcia de Orta, mesmo ao lado, entraram na Universidade 114 alunos e, desses, 14 faziam parte dos melhores 10% ao fim de 3 anos.
Mais recentemente, o Ministério da Educação introduziu nos dados indicadores estatísticos, como o perfil sócio-económico, que, mais uma vez, colocavam as escolas públicas nos primeiros lugares.
Comparar escolas públicas e privadas é simplesmente ridículo, porque são realidades completamente diferentes. Da mesma forma que comparar escolas públicas entre si é igualmente ridículo. Porque são também realidades muitas distintas.
É apenas um exemplo. Uma das melhores escolas públicas, a Infanta D. Maria, de Coimbra, está em 35.º lugar no ranking. A escolaridade média dos pais dos seus alunos é de cerca de 15 anos, ou seja, ensino superior. A percentagem de alunos que não precisam de apoios do Estado (Acção Social Escolar) é superior a 90%.
Agora vamos à Escola Secundária de Resende, no distrito de Viseu. [Read more…]

Lettres de Paris #47

Nom, prénom

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Uma coisa que me escapa e que me faz enganar imensas vezes é que os franceses usam ‘Nom’ para o apelido (sobrenome, surname, etc…) e ‘Prénom’ para o nome próprio. Quando me perguntam em algum sítio pelo ‘Nom’, é certo que respondo Elisabete. Não raras vezes me têm dito: ‘ça c’est votre prénom’, como se eu tivesse algum problema mental, ou assim. Também é certo que quando me perguntam o ‘Prénom’ – se antes não tiver ocorrido a conversa anterior – eu fico dois segundos a pensar, antes de dizer Figueiredo. Claro que olham para mim ainda com mais cara de caso, porque evidentemente são incapazes de pronunciar o meu apelido e, porque, também evidentemente, me tinham perguntado o nome.
 
Portanto é uma trapalhada, com muita frequência entre o meu ‘nom’ e o meu ‘prénom’, em que quase sempre os franceses acabam a corrigir-me, claro. Quase toda a gente me trata por ‘madame’ coisa que também tenho dificuldade em assimilar que é a mim que se estão a referir. ‘Madame, moi?’. Bem, há bocado um bêbado passou aqui debaixo da janela e estando eu a fumar um cigarro debruçada na dita, com a escuridão e a bebedeira, referiu-se a mim, como ‘jeune dame’. O que é, convenhamos, menos mau que madame. Madame ‘Figuêredô’ mais ou menos isto. E portanto eu ando sempre num virote, sempre a certificar-me que sou eu, a madame, sempre a certificar-me que o meu ‘nom’ é Figueiredo’ e o meu ‘prénom’ Elisabete.

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Cidadania em Acção: Fábrica de Alternativas de Algés

Inauguramos a rubrica Cidadania em Acção com a Fábrica de Alternativas de Algés.

Fábrica de alternativas de AlgésA Fábrica de Alternativas nasceu da vontade de um grupo de residentes em Algés criar uma rede local de apoio e solidariedade para fazer face às adversidades dos dias que correm. Uma forma de incentivo à participação cívica e promoção da cidadania activa, valorizando as competências de cada um, juntando todas as gerações, na convicção de que todas as pessoas têm muito a aprender umas com as outras! O seu fim é social, recreativo e cultural, de acordo com as capacidades e conhecimentos profissionais, artísticos ou culturais que os seus associados queiram e estejam em condições de partilhar. Para além do desejo de recuperar os elos de vizinhança há muito perdidos, queremos que a comunidade em conjunto seja mais crítica, consciente e ética, incentivando os valores da partilha, da responsabilidade e da inclusão. Apesar de a nossa matriz recusar qualquer apoio partidário ou religioso, acreditamos que toda a pessoa é válida, independentemente da sua faixa etária, classe social, orientação sexual, raça, credo religioso, convicção política, etc… O Banco do Tempo surgiu como plataforma ideal para materializar essa partilha: Propomos aos nossos associados que ofereçam 2 horas por semana à Fábrica, ou à Comunidade. Em troca, podem usufruir de todas as outras 2 horas cedidas pelos outros sócios. [Read more…]

Cidadania em Acção

Cidadania em Acção
Compromisso com a solidariedade para além do círculo estreito da família e dos amigos… Salto do sofá e da zona de conforto…Trabalho voluntário e empenhado por uma causa… Capacidade de conexão e união num grupo…

Convicção da supremacia dos valores éticos nas sociedades… Procura local de soluções mais justas e sustentáveis, que ultrapassem as baias dos caminhos sem futuro já traçados… Vontade de agarrar a vida e configurá-la…

De tudo isto é feita a rubrica do Aventar “Cidadania em Acção”, que apresenta sucintamente iniciativas desenvolvidas por gente generosa, com coragem e auto-determinação, por esse Portugal fora. São pequenos nós de uma rede que resiste à resignação, ao cepticismo, e que torna a vida mais humana e mais valiosa. Uma rede que liberta em nós o que de melhor temos para dar uns aos outros e a todos.

O topete dos pais apressados do PISA

Santana Castilho*

Guterres tomou posse como Secretário-Geral da ONU. Ronaldo arrebatou outra Bola de Ouro. Cada família portuguesa vai gastar neste Natal 359 euros, diz a Deloitte, e Marcelo vai beijar as 207 crianças que nasceram ontem, prognostico eu. Que importa que no mesmo dia tenham morrido 284 portugueses? Que importa que a Der Spiegel diga que Ronaldo subtraiu 150 milhões ao fisco? Que importa que as contas da Deloitte sejam o resultado de uma média que junta os gastos obscenos de poucas famílias aos gastos miseráveis de dois milhões de pobres? Que importa tudo isso e quem sou eu para contrariar a euforia deste nosso modo bipolar de viver? Mas a festa dos pais apressados dos resultados do PISA, essa, tenho que a contraditar.

Quando toca a hora de colher louros, é enternecedor ver ex-ministros, que se digladiaram e reclamaram autores de teses opostas, aceitarem que as suas políticas, juntas, produziram bons resultados. O paradoxo talvez se resolva se trocarmos as premissas da equação. Se em vez do “graças a Lurdes Rodrigues” ou do “graças a Nuno Crato”, dos prosélitos, tentarmos os bem mais certos “apesar de Lurdes Rodrigues” e “apesar de Nuno Crato”.

Ambos escreveram artigos sobre os resultados do TIMMS e do PISA (DN de 7/12). Antes de se porem em bicos de pés, qual casal modelo, pais apressados do sucesso alheio, eles que humilharam, acusaram, denegriram e prejudicaram os professores como ninguém, tiveram o topete de lhes tecer, agora, rasgados elogios. Que pouco decoro! [Read more…]

Trumpetes, as cornetas que aspiram chegar ao som do clarim

Pergunta-se porque é que metade da população americana acreditou em fantasias como a participação de Hillary Clinton em rituais satânicos? Pois a resposta é simples, o tempo vertiginoso da mentira é imbatível e é isso que valoriza os trumpinhos, quanto mais extravagantes melhor. Olhe à sua volta em Portugal e veja como eles estão tão deslumbrados com Trump, acham que chegou a sua hora.

Lettres de Paris #46

Et maintenant pour quelque chose de complètement différent…

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… comi verdadeiro frango assado português acompanhado por uma mini super bock, um cafézinho delta e um pastel de nata. Onde? Em Paris, bien sûr, Rue de l’École Polytechnique, perpendicular à Rue Valette e a que nunca tinha dado atenção. Bem sei que pareço uma verdadeira emigrante ultimamente com o tema da comida. Disse-me outro dia a Mónica que estes desejos são o primeiro sinal que nos estamos a tornar em emigrantes. Pois que seja. Quase 2 meses em Paris, com ligeiras interrupções, dão nisto. Falei-vos do desaire do poulet rôti há dois ou três dias. Le pire poulet rôti au monde. Na verdade fiquei mal disposta desde que o comi. Já devia ser frango velho, ou melhor, frango envelhecido no frigorífico ou no forno do lamentável restaurante da Rue Saint-Séverin. Mas eu não sou pessoa de desistir assim facilmente, sobretudo se o assunto envolve comida. Também sou de dar segundas oportunidades aos meus desejos, vá. E terceiras e mesmo quartas.
 
De modo que, quando me lamentei ao André da minha pouca sorte com o poulet rôti, o rapaz (aka #pingaamor) pôs-se em marcha. Bom, não veio até Paris com um frango assado na mala (coisa que, convenhamos seria ‘the ultimate romantic move’, especialmente se ao frango se juntassem umas batatinhas fritas e uma salada temperadinha ‘façon portugaise’ e umas duas ou três minis, pronto), mas pôs-se em marcha sobre o google (coisa que, obviamente eu mesma poderia ter feito) e anunciou-me triunfante passado um bocado que, mesmo na rua ao lado do Ladyss, havia uma churrasqueira portuguesa, justamente chamada ‘a nossa churrasqueira’. Não lhe dei grande crédito, confesso. Mas hoje, depois de um dia que começou bastante cedo (devido a um seminário na EHESS – École des Hautes Études en Sciences Sociales, por um lado e, por outro, devido ao barulho que fizeram logo de manhãzinha os homens das obras do prédio aqui da frente) e de estar 10 horas quase a trabalhar, ou enfim, qualquer coisa de muito parecido, quando saí do Ladyss às oito da noite, vi a Rue de l’École Polytechnique ali mesmo à minha direita e, considerando tudo mais o facto de nunca ter ido para aqueles lados, lá entrei na rua, bastante pequena, que desemboca numa praça muito bonita – a Place Larue – onde, justamente, fica a École Polytechnique.
 

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Ensino privado na liderança absoluta do ranking das notas aldrabadas

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Surgiu uma interessante notícia no Público, sobre o estado da Educação em Portugal. Não, não é da autoria de Clara Viana. Deus a livre de tal heresia! Onde é que já se viu denunciar que dois terços das escolas que mais inflacionam as notas pertencem ao ensino privado, quando ensino privado representa apenas 17% do universo escolar nacional? E andamos nós a enfiar dezenas de milhões de euros nestas instituições, que lucram outros tantos milhões e ainda manipulam resultados. Não admira que te queiram fazer a folha, Tiago.

Imagem via Uma Página Numa Rede Social

Lettres de Paris #45

Au claire de la lune

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‘mon ami Pierrot,
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu (…)’
 
Não foi a primeira canção que aprendi nas aulas de francês, no então chamado 1º ano do ciclo preparatório. Mas deve ter sido das primeiras. Já agora, a primeira, que ainda sei de cor note-se, como se fosse a mesma miúda de 10 anos e longas tranças e meia pespineta que se sentava nos bancos da escola preparatória para aprender – entre outras coisas igualmente espantosas – francês, foi ‘Un, deux, trois, je vais dans les bois
quatre, cinq, six, cueillir des cerises
sept, huit, neuf, dans mon panier neuf
dix, onze, douze, elles sont toutes rouges!’
 

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Deixaste-nos, Laura

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Ana Barros

Relembro, agora, a primeira vez que nos encontrámos. já lá vão longínquos 30 anos.
as duas “velhotas” numa turma de garot@s, uma a aprender, outra a re_aprender, alemão.
tu a aprendê-lo porque, na altura, querias ler Nietzsche no original para as tuas provas na universidade; eras assistente estagiária. eu, porque, à falta do que fazer, queria ocupar algum do meu tempo a relembrar uma língua que sempre me cativou.
foi instantânea a empatia que se criou entre nós. assim foi durante este tempo todo. e eu sempre a admirar a mulher brilhante que eras.
fui às estantes procurar os teus livros. no meio do caos, encontrei o “Variações sobre o entre-dois” e o “Alteridades feridas”, os marcantes dois volumes do teu “Diário de uma mulher católica a caminho da descrença” e o “Ajudas-me a morrer?“. neste último, releio a tua dedicatória: “Para a Ana Paula, a amiga de todas as ocasiões”. tenho consciência que o não fui. poderia ter sido muito mais presente e nunca te pedi desculpa por isso.
sentia já a tua falta durante estes anos em que tanto sofreste; neste momento, sinto que foi a libertação que te chegou na forma que nos (os outros) dói mais.
descansa, agora, em paz e em liberdade total, minha amiga.

Patrick Jacquet – Mise Au Point


© Patrick Jacquet – Mise Au Point

Nem todos ganham como deputado, Sr. Deputado

Temos quase a certeza de que haverá uma nova crise, não sabemos quando, mas sabemos que haverá.

Disse Pedro Passos Coelho hoje, com um sorriso de esperança.

Nós gostaríamos de estar bem preparados quando ela acontecer e ainda não estamos,

Houve, realmente, quatro anos e meio que foram perdidos. Podíamos estar bem melhor, com efeito.

não se tem sentido devidamente a acuidade que este problema tem.

Cada um que fale por si, pois nem todos auferem o salário e benesses de Deputado da Nação.

Não há tréguas enquanto vivermos nas trevas

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Existe, neste país, um único jornal de esquerda, que não podendo ser considerado um jornal, mas antes um órgão de comunicação partidário, não entra nas contas da imprensa convencional. Qual é a diferença? A diferença é que o Avante! assume a sua parcialidade. Tal como qualquer publicação que emana de um partido político, com a excepção do blogue disfarçado de jornal que a extrema-direita do PSD e a ala anti-democrata-não-cristã do CDS criaram para manipular o país. [Read more…]

Palavra do ano em 2017

Plutocracia“.

Mais uma mentira descarada (e conjunta) do SOL e do I

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Ainda que se venham a retractar, este tipo de lixo jornalístico proliferará pela internet, transformando-se em verdade absoluta para uns quantos, os tais que condenam violentamente o Bloco por não aplaudir o monarca espanhol ao mesmo tempo que assobiam para o lado quando o PSD falta às comemorações da Restauração da Independência. Fica o comentário, objectivo e absolutamente claro, da Uma Página Numa Rede Social. Lembrem-se disto da próxima vez que os abutres vos bombardearem com o discurso imbecil da imprensa controlada pela esquerda. [Read more…]

Passos, o pândego

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Este Passos é um pândego.

Líder do PSD deixa recado ao partido: não faz oposição a “olhar para as sondagens”. Em vez do diabo, afinal espera que em Janeiro venham os reis magos.

A questão é que não faz oposição. E o país precisa dela, em vez da chicana política de Passos Coelho.

A sério que não olha para as sondagens? A sério mesmo?
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Lettres de Paris #44

Le pire poulet rôti au monde

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faz-se em Paris, no OComptoir, escrito assim mesmo, que fica na Rue Saint-Severin. Portanto, se vierem a Paris e vos apetecer de repente comer frango assado procurem outro sítio. Não sei porquê hoje apeteceu-me comer frango assado e lembrei-me que tinha passado num sítio onde o faziam. Até pensei trazer um para casa e comê-lo com uma saladinha. Por isso, quando saí do Ladyss, num dia sem grande história, dirigi-me para a Rue San Severin em busca do frango assado. Que não vendiam para fora. Resolvi então comer ali mesmo. O restaurante é um desses sítios que não se compreende bem o que é, ou seja, de que tipo é. Anunciava, no entanto, cozinha francesa. Sentei-me longe do piano e da rapariga que até nem cantava mal os ‘greatest hits’ da canção francesa. Aquilo devia ter-me dado algum sinal, mas lamentavelmente não deu. Lá pedi o frango assado e uma cerveja, apesar de tudo antecipando o bem que me iria saber o dito frango.
 
Quando o frango chegou fiquei logo preocupada. Mal assado e com umas batatas igualmente assadas que, visivelmente se tinham visto ‘negras’ para ali chegar. Era tudo. Nem uma saladinha, nem um arrozinho. Provei o frango e nem vos seis dizer como era horrível. Juro que havia partes que sabiam a mofo, ou a alguma coisa que parecia mofo e que não sei definir. Comi as batatas e um bocadinho de pão. Pensei refilar mas considerei que não valia a pena. Para me trazerem outro ainda pior? Nem bebi café nem nada e pus-me andar, depois de pagar uma quantia exagerada por umas batatas e pão afinal. Vinha furiosa pela Rue Saint-Severin fora, a pensar porque raio me haveria de ter apetecido frango assado e porque raio tinha eu trocado os únicos quatro restaurantes de Paris de que gosto genuinamente (bem, há um quinto, mas fica um bocadinho longe daqui, no Marais) por um totalmente novo. Não duvido que haja outros restaurantes bons em Paris, claro, sobretudo caros, sem dúvida. Mas aqui no bairro, gosto destes quatro e nunca fui mal servida em nenhum deles.
 

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Maria Luís faz merda e o culpado é o Centeno

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É o que retiro da escolha da redacção do Público para a fotografia que ilustra este “desce”. Podia ter escolhido a senhora Arrow Global? Podia, mas não era a mesma coisa. É que, quando penso em swaps, não sei bem porquê, não me ocorre o nome do ministro das Finanças. Ocorre-me a bela merda que Maria Luís Albuquerque, e outros como ela, andaram a fazer em empresas públicas. Diz o Viriato que, ainda Sòcrates mandava nisto tudo, e já a Dona Maria andava a dar cabo dos cofres públicos. A levar o país a sério à moda do PSD.

Fonte: Os truques da imprensa portuguesa

O jornal do incrível

I ne can ne I ne mai tellen alle þe wunder ne alle þe pines ðat hi diden wrecce men on þis land.

The Peterborough Chronicle

***

o-jogo

Depois de termos passado pelo Record e pelo jornal da irresponsável resistência silenciosa, para terminar o périplo, só faltava mesmo O Jogo, o jornal do incrível — este e não aqueloutro.

Os meus votos de Óptimas Festas.

Efectivamente.

Até 2017.

***

A Holanda e a Suíça são campeãs do jogo sujo

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Segundo denuncia um relatório divulgado na segunda-feira passada pela organização de desenvolvimento Oxfam, o primeiro lugar no ranking dos 15 piores paraísos fiscais do mundo é ocupado pelas Bermudas, seguidas, por ordem decrescente, pelas Ilhas Caimão, a Holanda, a Suíça, Singapura, a Irlanda e o Luxemburgo: são os países líderes no que toca a conceder brutais vantagens fiscais a mega-empresas como a Apple, Google, Coca-Cola, Microsoft, Pfizer ou Walt Disney; são os campeões da corrida para o fundo, inflamada pela fossanguice de aliciar as grandes empresas através de taxas zero de impostos, astronómicos lucros escondidos e ajuda à evasão fiscal, da qual só beneficiam os proprietários e accionistas desses gigantes globais e que é uma das principais causas da crescente desigualdade social a nível mundial.

Os países pobres, segundo o relatório, perdem receitas que ascendem a cem mil milhões de dólares, o que seria suficiente para “proporcionar educação a 124 milhões de crianças que não podem frequentar uma escola e para custear cuidados de saúde que poderiam evitar a morte de cerca de seis milhões de crianças por ano”. No Quénia, por exemplo, a fuga de receitas ultrapassa, anualmente, mais de mil milhões de dólares – o dobro do montante de que o estado dispõe para cuidados de saúde. [Read more…]

O FMI não está a pedir mais austeridade à Grécia

É dito aqui. Mas não sei se o Eurogrupo não estará.

Plasma, suborno e tráfico de influências

Lalanda de Castro, até ontem responsável máximo pela Octapharma em Portugal, apresentou a sua demissão na sequência de buscas que tiveram lugar nas instalações da farmacêutica, relacionadas com a investigação sobre o negócio do plasma, esmiuçado pela jornalista Alexandra Borges (TVI), há pouco mais de um ano, na peça que podem ver em cima, cuja visualização é altamente recomendada. [Read more…]

Ontem senti-me representado no Parlamento

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Luaty Beirão não é nem nunca quis ser uma vítima. Não foi apanhado desprevenido a cometer um crime. Luaty Beirão desafiou uma ditadura, jogou com a coragem para demonstrar ao mundo que Angola é uma ditadura brutal, cleptocrática, sem liberdade, corrupta e que goza da subserviência de quem beneficia da sua caraterística ideológica real: O dinheiro.

Isabel Moreira subiu ontem ao púlpito da Assembleia da República para, de forma clara e objectiva, chamar os bois pelos nomes. Perdão: os ditadores cleptocratas pelos nomes. Já era tempo de se constatar o óbvio, na casa da Democracia. Ontem senti-me verdadeiramente representado no Parlamento. Não é algo que aconteça muitas vezes. Um forte aplauso, senhora deputada!

Foto: Paulo Novais/Lusa@Esquerda.net

Lettres de Paris #43

L’amour court les rues

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Hoje não fui para o Ladyss. Tinha trabalhos para ler e em casa achei que estava mais sossegada. Fui, no entanto, beber um café ao Saint-André e caminhar um bocadinho, pequenino, aqui no quartier. Gosto da Place Saint-André des Arts, aqui ao fundo da estreitíssima Rue Suger. Sempre gostei. Não sei porquê, mas acho que concentra a essência de Paris. A estação do metro, os cafés com as suas esplanadas em anfiteatro, a tabacaria, a loja de ‘souvenirs’, as livrarias e o modo como se alarga à medida que vamos chegando à Place Saint-Michel, com a sua fonte imponente e mais cafés, livrarias, lojas e o Sena logo ali, ao atravessar a rua e a Notre Dame vista da Pont Saint-Michel.
De maneira que me pus a apreciar a pequena praça onde Paris se concentra, a partir da esplanada do Le Saint André. Nem a Julie, nem o empregado que fala português (e mais 6 línguas, disse-me ele outro dia), embora seja albanês (também me o disse outro dia) estavam hoje no café, mas o empregado que lá estava deu-me na mesma os bons dias. Depois do café e da contemplação da praça, decidi ir passear o tal bocadinho, pequenino, e meti pela Rue Saint-André des Arts, de que também gosto, com as suas creperies boulangeries, cafés, restaurantes, lojas de bric-a-brac, uma livraria da Actes-Sud, boutiques de roupa, ervanárias, e – descobri hoje – uma deliciosa ruazinha, cheia de cafés e galerias e restaurantes e encanto – o Cours du Commerce Saint-André. Tirei poucas fotografias porque só tinha a máquina fotográfica pequenina comigo. Numa dessas fotografias, que tirei na ruazinha que vai desembocar no Boulevard Saint-Germain, reparei só há bocado quando passei as fotos para o computador, via-se um escrito vertical numa parede: l’amour court les rues. Quando tirei a fotografia não reparei no escrito. O amor corre as ruas ou corre nas ruas ou pelas ruas.

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