Rafael Bluteau, enciclopedista português do século XVIII afirmava que povo era a “plebe, o vulgo, a gente baixa de qualquer povoação, cidade ou vila”. E acrescentava, “é próprio do povo obedecer com vileza, ou dominar com arrogância”.
Posto este intróito histórico e linguístico, o que é, hoje em dia, o povo? Nunca se falou tanto nesta palavra como nos últimos anos, em Portugal. Toda a gente fala, grita, exulta, em, de e sobre povo – essa entidade abstracta que parece saber descrever, nem quais são os seus limites, dado que todos se lhe referem de forma indirecta e impessoal. O povo são sempre os outros, nunca nós.
De resto, os políticos dizem defender o povo, mas demarcam-se dele, para obstar a enganos de teor demagógico; a classe média, agora agastada pela crise económica, fala no povo quando reivindica alguns direitos, mas sempre que pode vinca a sua distância ao dito pelas conotações negativas que isso acarreta. Ao certo ninguém sabe se pertence, nem quem pertence ao dito povo.
Se, segundo as lógicas marxistas, (sempre em voga em sociedade mais dadas a impulsos biológicos do que ao pensamento crítico) povo é aquele que trabalha, logo o mundo divide-se de forma maniqueísta entre povo e não povo. Será o povo a gente baixa do Bluteau, que usa os braços para trabalhar, por oposição a uma “gente alta”, que o não faz?
Como não vivemos naquela sociedade tripartida que o enciclopedista conheceu, nem hoje se distinguem os oficios mecânicos para efeitos de classificação social (muito menos existe a velha ideia de nobreza) povo somos, afinal, todos nós, do político ao pobre, do trabalhador ao patrão, do desempregrado ao ocioso profissional. E dado que a Revolução Francesa e o conceito de democracia nos nivelou ao nível mais baixo da concepção de indivíduo, o de cidadão (ligado à ideia de um peão da cidade), povo enquanto fatia da nação, diluiu-se ou pura e simplesmente desapareceu.
Por isso, falar em povo, é uma falácia e querer aplicar o termo a uma parte da sociedade, um engano. Se falarmos em elites e não-elites, talvez compreendamos melhor como a sociedade se organiza hoje em dia: ou seja, entre aqueles que detêm o poder económico, político, social, cultural, e os que o não detêm. Mas mesmo assim deixaremos de fora certas franjas marginais, os não alinhados com esta organização.
O povo existe e não existe. É transitório, falso. Não é homogéneo, não se pode representar, e está sempre em contradição a sua própria ideia. Porque como bem referiu Bluteau, ou obedece com vileza, ou domina com arrogância.
O que é o povo, pá?
E hoje é 1º de Maio
Engrenagem, canção de José Mário Branco, lado B de um single dos Corpo Diplomático. Mashup com Tempos Modernos de Charlie Chaplin
Como Se Fora Um Conto – O Dia da Minha Mamã
De mão dada, passinhos curtos como convém, lá passeamos pelo jardim que ladeia a avenida,
a minha mamã e eu.
Não a minha mãe como agora se usa.
Fui habituado a trata-la por mamã. Nessa altura, a da minha juventude e aprendizagem da vida, de entre as minhas relações só dois dos meus amigos tratavam as respectivas mães por mãe.
“Ó mãe … “, diziam, e essa maneira de as tratarem fazia-me impressão. Parecia-me duro, ainda hoje me parece de uma excessiva dureza, ou melhor dito de uma excessiva falta de doçura. Mas aceitava, claro, como hoje aceito, embora hoje tudo seja diferente e esse tratamento se tenha banalizado.
Para mim, no entanto, eles eram diferentes de nós, conquanto amigos até hoje. Até no restante das suas maneiras de falar eu notava diferenças. Tinham uma pronúncia diversa da minha e tudo. Tinham nascido lá mais para o sul do País. Um era ribatejano, do meio dos cavalos e dos touros, e outro beirão, do sopé da serra grande. De qualquer modo o chamar a nossa mãe por mãe estendeu-se a todo o País e hoje, chama-la por mamã, quase não é “bem”. É lamechas, démodé, velho, antigo, diferente.
Não para mim. Para mim a minha mamã será sempre
a minha mamã. [Read more…]
o dia do trabalhador

O Trabalhador, escultura em bronze de Auguste Rodin, 1875-1876
No dia em que escrevi este texto, nunca imaginei que nem a grave servia para aliviar a nossa miséria, a nossa falência, a nossa fome, falta de trabalho, as lutas políticas e os gastos desnecessários. Pensava que éramos bem governados. Enganei-me redondamente. Em frente de nós, temos uma luta política que desactiva os investimentos e cada dia ficamos mais pobres. Nem a greve ajuda para o bom governo e desafiar aos que nos tratam mal. [Read more…]
O elixir
Depois de um certo almoço, ontem, alguns comensais, incluindo eu, devem sentir mais ou menos isto que a letra descreve. Um brinde a eles.
Lapsus linguae e desejo de voltar ao passado
Comecei por achar que foi gafe mas agora convenço-me que a Lusa e demais comunicação social encontraram a solução para os problemas do país. Com efeito, ao chamarem “Plataforma de Voluntários Sócrates 2001” à acção de campanha de ontem, mostraram que sair deste buraco implica voltarmos 10 anos a trás, tempo em que
- as SCUT e as PPP ainda não eram forma de fazer obra sem dinheiro (para os outros, que somos nós agora, pagarem);
- não haviam sido feitos os estádios do Euro2004, que agora estão às moscas e para os quais até se defende a demolição de alguns, face à sua inutilidade;
- ainda o BPN e o BPP ainda não tinham sido nacionalizados, com os enormes buracos financeiros a serem incorporados nas contas do Estado, sem que se perceba com que objectivo;
- não tinham sido inventados os ajustes directos, ganhando os concursos quem apresentasse a melhor oferta (ou quem fizesse o melhor lobbying, mas os perdedores podiam apresentar reclamação e, mais cedo ou mais tarde, quem ganhava por cunha acabava denunciado);
- a Educação ainda não tinha sido transformada em campo de chacina para se conseguir impor alguns cortes salariais;
- a Justiça funcionava tão mal como hoje mas ainda gozava de alguma credibilidade.
Há 10 anos ainda o país tinha solução. O «pântano» já existia mas ainda anos e anos de governação socialista, com o interlúdio PSD, não o tinham transformado no pantanal.
Regresso ao passado, Plataforma de Voluntários Sócrates 2001
A Lusa cometeu a gafe e diversa comunicação social repetiu-a acefalamente, mostrando bem quanto crítica é relativamente às notícias que lhe chega.
(…) afirmou o líder socialista, no lançamento da “Plataforma de Voluntários Sócrates 2001“.
© 2011 LUSA – Agência de Notícias de Portugal, S.A.
Estação de Mogadouro
A arte de produzir programas de governo
Arte interesseira, mas arte. Tanto mais que é obra de artistas de raro talento. Realizada com o objectivo de melhorar as nossas vidas, asseguram eles. Invariavelmente esculpida para a complicar, digo eu.
Os votos são o trunfo que procuram; é necessário, pois, conquistá-los. Como? Através de promessas e programas eleitorais e, neste domínio, os partidos maioritários, PS e PSD, travam acesa luta para captar a vontade dos eleitores – sempre enganados e disponíveis para submissão a novos equívocos.
Com vista ás eleições de 5 de Junho, os pregoeiros da política já desceram à rua, conforme a imprensa nos relata:
- O PS de Sócrates declara-se bem consciente das suas tarefas principais de governação (de há 6 anos a esta parte esteve inconsciente?);
- O PSD de Passos Coelho assume o compromisso de apresentar o programa depois de conhecer o quadro da ajuda externa a Portugal (ou seja, o programa ‘laranja’, tal como o ‘rosa’ aliás, será exactamente aquele que FMI-CE-BCE, a famosa troika, vier a definir).
Sócrates, falando em nome de todos nós, afirma: “Portugueses exigem que PSD apresente as suas propostas”. Passos Coelho garante não ser necessário cortar salários nem despedir, para cumprir saneamento financeiro.
Os bilhetes não nascem todos iguais
Tem sido tradição o Consilium Magum Aventarum, ou parte dele, reunir-se por obra do Caminho de Ferro. Em anterior iteração descobrimos que velhos hábitos de perder a ligação porque esta havia partido cinco minutos antes não se alteraram. Hoje descobrimos que um bilhete comprado na net não pode ser trocado caso se perca o comboio, contrariamente aos bilhetes comprados na bilheteira. Simplexicamente, há que ler as letrinhas miudínhas. Fora isso, tudo bem.
Aventalmoçar
Tudo à Lagareiro, e no monte das servas, na freguesia do Casino da Urca, almoçámos, conspirámos, elaborámos (o álcool é fodido), sem durex C, papou-me o texto, esta coisa no alentejo, é uma coisa chata, é um textículo (o Gil Vicente passou por aqui), não acrescento nada, mas retiro. E chega, que isto já tão está mal escrito que até parece um decreto-lei aprovado pelo tribunal constitucional.
Venha a revolução na Educação!
Um vídeo partido em dois. Uma conferência memorável de Ken Robinson sobre Educação. Ouvir pessoas inteligentes não faz mal a ninguém. Pensar também não.
O voto é uma arma dos professores, afinem lá a pontaria
No dia em que o PS perdeu o voto dos professores, e de muitos dos seus familiares, a cabeça de muito boa gente aqueceu. É natural, até na minha que já declarou publicamente o seu voto passou por uma fracção de segundo um desvio para os lados do PSD.
Como o tempo arrefeceu espero que passe aos os meus colegas. Serve este intróito para comentar o que ontem escreveu o Paulo Guinote e o Reitor resumiu assim
Pois é, para quem não quer o que está nem quer aquilo que não é solução, só pode votar no PSD ou no CDS. (Peço-te para não levares a mal o facto de ter dito claramente aquilo que apenas quisestes sugerir).
É uma leitura mais oportunista que oportuna, sabemos do que a casa gasta, mas quando Paulo Guinote escreveu isto:
Se for o PS, sozinho, coligado ao centro-direita ou à esquerda, duvido que os parceiros tenham força e interesse em tornar a questão dos professores um problema central no arranjinho.
pôs-se a jeito. Vamos lá a fazer contas à vida como ela é: não há coligação possível do PSócrates à esquerda. E se houvesse os parceiros fariam muita questão na questão dos professores, pelo simples facto de que seria uma das poucas coisas que um Sócrates imaginário deixaria cair: não lhe afecta os interesses económicos e sociais, e essa é a parte essencial do problema, é uma mera teimosia, bem menos relevante do que a sua natureza de ex-JSD que foi fazer carreira política para onde lhe pagavam mais. [Read more…]
Avaliação dos professores não é o único problema
Face à decisão do Tribunal Constitucional, o eleitoralismo falará ainda mais alto que o costume e o PSD já acorreu a prometer a revogação. Não me parece nada descabido que os professores pressionem, até dia 5 de Junho, os partidos, obrigando-os a assumir compromissos e concordo com o Paulo Guinote: não há que ter medo de sermos acusados de corporativismo.
O discurso simplório dos políticos atribui um valor completamente negativo às corporações (não por acaso, o blogue oficial clandestino do poder dito socialista tem o nome que tem). No entanto, o corporativismo é uma espécie de instinto de sobrevivência das classes profissionais: a perversão estará sempre no seu excesso ou na sua ausência.
De qualquer modo, é importante relembrar que a avaliação dos professores é um dos muitos problemas da Educação. Num país com um défice cívico que tem levado a população a alhear-se de tudo o que vá para além dos erros de arbitragem no futebol, num país tão desgovernado, tão longe de qualquer planeamento mínimo, a corporação docente deveria saber explicar à população quais são os problemas da Educação.
a familia

É um substantivo quase impossível de definir. Talvez se pudesse dizer que é um conceito que tem várias definições, todas elas certas por corresponderem às diferentes maneiras de se vincularem às pessoas.
Pela negativa, é mais simples falar da família todas as pessoas que não têm parentesco entre si, é dizer relações consanguíneas ou por afinidade. Se é consanguínea a relação, a definição é mais simples: automaticamente pensamos no pequeno grupo de pai, mãe e descendentes ou filhos. [Read more…]
O Comboio em Torre de Moncorvo – 1973
Na Linha do Sabor (Portugal, ainda que não venha nas notícias).
Chapéus há muitos, seu palerma!
Segundo os noticiários, somente a mulher de David Cameron não se apresentou de chapéu – para a próxima fica à porta da abadia, congeminou o intendente-geral da cerimónia.
Todas as outras adornaram as lindas cabecinhas com chapéus. O da Rainha Elizabeth II era o tradicional ‘tacho’. As restantes ‘ladies’ exibiram modelos para diversas preferências. Mais vanguardistas, menos vanguardistas. De bom e mau gosto, havia, pois, de todos estilos e géneros. Uns em redondo, outros tipo miniatura de batel, com proa e popa, outros ainda com aplicações surrealistas, inspiradas na pintura de Salvador Dali. Sei lá!
Em suma, como afirmava Vasco Santana, em ‘O Pátio das Cantigas’: “Chapéus há muitos, seu palerma!“. Mas eu confesso ter acreditado, sempre, tratar-se de mero exagero de guião de filme. Nunca me ocorreu ser possível ver tantas cabeças enchapeladas juntas.
O povo saltou, gritou e gostou. E até bebeu champanhe. Quanto a mim, já não sei se hei-de saudar o casamento ou os chapéus…. Saúdo tudo, pronto. Fico de bem com a monarquia e com a chapelaria.
(Obs.: Se quiserem mais, poderão ver aqui)
Quando cai o tecto de uma escola privada não é notícia?
A tempestade de granizo que caiu em Lisboa, particularmente em Benfica, recordou-me a noite de 25 de novembro de 1967. Na altura vivia ali, e assisti à grande cheia. Nunca me esquecerei do dia seguinte, dos meu colegas da primária que viviam nos bairros de lata afectados e que ficaram sem nada, e sobretudo do silêncio que se seguiu, do encobrimento pelo regime de uma catástrofe que matou sobretudo os mais pobres.
Como muitos fizeram, mal soube telefonei a amigos que ali residem. E fiquei a saber que o tecto da sala de uma escola privada caiu, felizmente sem consequências para as crianças que ali frequentam o 1º ciclo, mas que ficarão sem aulas durante alguns dias.
Não sabia? é que curiosamente não vejo uma única notícia online sobre o ocorrido. E desconfio que se se tratasse de uma escola pública encontrava. Não é a mesma censura prévia de 1967. Pode não ser uma opção editorial. Pode só ser só desconhecimento. Por isso mesmo deixo um mapa, para o caso de algum jornalista querer encontrar a notícia.
E eu a pensar que o gelo tinha quebrado ontem
Finalmente uma boa nova para a oposição
O Tribunal Constitucional chumbou a suspensão da avaliação patética e burocrática dos professores.
Agora, se tiverem juízo e forem muito claros sobre o assunto, todos os partidos da oposição têm muito mais de 100 000 votos à disposição.
Uma borla, convenhamos.
Casamento é serviço público?
-Julgo que hoje casam, ou já terão casado, não sei nem perco tempo com assuntos de revistas cor de rosa, em Londres, dois jovens, a quem desejo naturalmente as maiores felicidades, como de resto a todos os outros pelo mundo fora, na mesma situação. Se têm sangue azul ou vermelho, deixo isso à consideração dos médicos britânicos, pelo menos, aqueles que os conhecem de perto. Nem sequer me interessa discutir o regime político que os governa, enquanto nação soberana, são eles que devem decidir a sua organização política e social. Mas não posso deixar de ficar indignado que o dinheiro dos meus impostos, sirva entre outras coisas para pagar os prejuízos de uma empresa deficitária, a RTP, que alguns rejeitam privatizar em nome do serviço público, o qual deve incluir as horas de emissão gastas a transmitir um casamento, repito, um casamento, para satisfazer a coscuvilhice de alguns…
Denúncia criminal visa Sócrates
Isto quando o dinheiro em caixa escasseia, todo o cuidado é pouco.
Foi ontem anunciado no Diário Económico, que Alfredo Castanheira Neves apresentou uma denúncia do foro criminal visando José Sócrates, por eventual administração danosa.
A base terá sido a tolerância de ponto dada à Função Pública na Quinta-feira Santa.
Se isto pega moda…
Ai que linda vai a noiva, a princesa
um hipotético adeus
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Quarenta espingardas foram levantadas para disparar. Para disparar sobre o meu corpo. O objectivo era acabar com a minha pessoa. Para não pensar mais, para não escrever mais. Para não sublevar ou levantar o povo ferido pelos burgueses. Para não usar mais o livro Êxodo da Bíblia, atribuído a Moisés.
Livro que descreve a passagem do povo israelita pelo deserto do Sinai, na sua fuga do Egipto, onde eram escravos dos faraós. Como os trabalhadores do Chile onde havia um Salvador para os libertar e muitos de nós, a apoiar essa salvação. Quarenta espingardas se alçaram sobre o meu corpo, para eu não pensar mais ou pregar homilias com os cristãos para o socialismo, que tínhamos fundado para falar na mesma língua do povo.
Era o dia 18 de Setembro de 1973, o dia em que se comemora a liberdade do país da escravidão à coroa de Espanha. [Read more…]















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