Sidi Hammou, o mestre da poesia

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O Alto Atlas na região de Skoura

“Aquele que ignora a poesia não conhece a estrada da inteligência que conduz à sabedoria, pelos degraus da ciência e da arte.”

Canto do Souss (BOUANANI, 1966, obra citada)

A poesia Amazigh (1) vem sendo preservada ao longo dos tempos através de um processo de transmissão oral, levado a cabo por homens mais ou menos iletrados que, percorrendo as aldeias e áreas rurais, levam até aos seus habitantes mais simples os saberes e fundamentos da cultura popular.

São os “poetas da tribo”, que fortalecem os elos entre os seus membros, contribuindo para o reforço da sua identidade e ajudando a ultrapassar as dificuldades colectivas. Exaltam a coragem dos seus heróis, dão corpo aos rituais colectivos que celebram os acontecimentos do dia-a-dia e os ciclos da natureza. São os “poetas errantes”, que deambulam em pequenos grupos ou isolados, recitando ou cantando os seus poemas, versejando, acompanhados ou não por instrumentos musicais, aliando ao espectáculo e divertimento a mensagem instrutiva, os princípios da justiça, morais e religiosos, o saber, a própria intervenção de carácter político.

“O poeta está envolto em mitos. Pensamos que ele pode entrar em contacto com as forças da natureza, apaziguá-las ou virá-las contra alguém; fala a linguagem dos animais, das plantas e dos insectos. O mundo não tem segredos para ele. Mas a crença popular não ignora que o poeta deve aperfeiçoar a sua arte junto de outros poetas ilustres. Entra ao serviço de um deles, acompanha-o por todo o lado onde vai, aprende o que ele diz. Após um longo período de iniciação poética, ele próprio pode então exprimir-se, dar um timbre pessoal aos seus cantos.” (BOUANANI, 1966, obra citada) [Read more…]

Do Bolhão à Trindade

O Porto comove-me. Vejo-o todos os dias como se o visse de novo. Pelo menos esforço-me por abrir os olhos e senti-lo como Cesário a nauseante cidade dele. Tento imaginar como entranham o meu Porto quantos nos visitam e são tantos e tantas ou de queixo erguido, reparando no que deixamos de ver por ser nosso, ou obliquando o olhar a partir dos city sightseeing buses, para observar como são e o que fazem os pequenos portugueses no seu habitat natural.

Bolhão. Sigo por passeios, atravessamentos-passadeira. Vou aonde devo ir. O mercado mostra as mesmas pombas e as mesmas gaivotas cativas de sempre, em volutas e tangentes temerárias. Nos telhados interiores — posso espreitar da entrada norte onde há sempre turistas especados a olhar para dentro — as mesmas escorrências esbranquiçadas daquelas cloacas industriosas alvejam o negro da cobertura. De dentro, avulta um pequeno rumor baço de gente. [Read more…]

Lamento de um pai de família

de Jorge de Sena e por Mário Viegas. Tem filhosdaputa e tudo.

Quem não quiser ouvir, também pode ler:

Lamento de um pai de família

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma, ser poeta neste tempo de filhos só de puta ou só de putas sem filhos? Neste espernegar de canalhas, como pode ser? Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos que se revêm nele e o dececionado dos polícias que com ele não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante de amigos e inimigos para ganhar a estima dos poderosos ou dos partidos políticos que nos chamarão seus génios. Antes ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
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O sol quando nasce…

   (adão cruz)

Primeiro 
Único
Verdadeiro
Maio acordado
Penoso
Duro [Read more…]

AntiDeuteronomio II

  (adão cruz)

AntiDeuteronómio II

No tempo em que as sardinheiras das varandas dos pobres faziam parte dos nossos sonhos florindo em poemas de sol e de cor no tempo em que as andorinhas teciam grinaldas de vida nos beirais no tempo em que os rios bordavam a terra de areia branca no tempo em que a brisa sussurrava por entre as flores e as fontes murmuravam seus amores a aurora da nossa inquietação tinha o cheiro a maçãs e o pulsar das coisa vivas e o levíssimo sorriso dos jardins do paraíso tudo amávamos em nobre sentimento de exaltação [Read more…]

AntiDeuteronómio I

  (Javier-de Juan-Creix)

A cidade está deserta por dentro e por fora de nós começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso neste irracional azul de um céu de chumbo nesta descrença de manhãs de sonho em bicéfalas e bárbaras bandeiras de um mundo informe e medonho [Read more…]

O Trabalho

A dois dias de se comemorar o Dia do Trabalhador, apetece-me partilhar um poema de Gibran, intitulado O Trabalho (um dos poemas de O Profeta, escrito em 1923).

Kahlil Gibran não precisa de apresentações, mas gosto da que fez a revista Blue Travel em Janeiro de 2005, que não descreve Beirute sem mencionar o poeta libanês: “Um povo de apenas quatro milhões de almas unido pela frase «o trabalho de um bom cidadão é manter a boca aberta», de autor estrangeiro (Gunter Grass), mas incorporada na ideologia reinante como as palavras proféticas de Kahlil Gibran, o maior poeta libanês.”

O poema é muito belo, mas aviso que pode ferir susceptibilidades. [Read more…]

A noite da Música

  (adão cruz)

Passei o dia a ouvir música sempre a mesma alternando Madredeus e Erik Satie.

Como foi possível parecerem-me tão semelhantes?

Que percebe de sons este monocórdico espírito?

Mas foi o mesmo o que produziram em mim a sensação amarga de ter atirado fora uma paveia de sentimentos.

Como vou misturar é quase certo que nada existe nada está perto nem eu estou triste com Embryons desséchés e Peccadilles importunes?

Eu próprio me sinto mistura de contradições e acasos harmonia de contrastes santidade e pecado.

Nada percebo de música mas quero que a música seja ar chuva ou vento olhos boca sustento febre delírio amor e tormento.

Não sei onde fica a música nem a terra onde ela conduz sei apenas que é de sol e de luz ar puro e perfume o caminho da música para o alto dos montes.

Ficha Limpa – Carta resposta a Pero Vaz de Caminha

Acho que escrevi esse poema no ano 2.000, à raiz de uma denúncia, publicada na Revista Veja (São Paulo /Brasil) sobre três jovens turistas brasileiros (de Pernambuco), que chegaram a Lisboa para visitar Portugal.  Foram barrados no aeroporto, detidos, interrogados e devolvidos ao Brasil, sem justificativas, a não ser a tentativa de entrar ilegalmente no País, o que era falso. A reportagem da VEJA dizia: COMEÇOU DE NOVO:  …funcionários portugueses maltratam brasileiros no aeroporto de Lisboa e os mandam de volta…
a partir desse fato, foi feito o poema Ficha Limpa

Ficha Limpa – Carta resposta a Pero Vaz de Caminha

de José Carlos A. Brito (poeta e dramaturgo, SP Brasil)

1
Há dois caminhos
Para entrar em Lisboa
O da intolerância, da estultice
– Que a Fernando Pessoa
Provocaria uma poética vertigem –
E nega ao ser humano
Direito de conhecer
E amar a sua origem

Há outro caminho
Onde se encontra o amor
Que ama a inteligência
A negra flor
De uma síntese rara
Da raça enriquecida
Pela ideia clara
Da única paz
Futura e possível
Que ainda jaz
Na Europa sepultada. [Read more…]

Vivam Apenas

Sejam bons como o sol

Livres como o vento

Naturais como as fontes (…)

E, principalmente, não pensem na morte (…)

Vivam, apenas,

A Morte é para os mortos.

(José Gomes Ferreira, 1934)

25 poemas de Abril


Estamos em Abril e, como sempre, quero assinalar uma das datas mais importantes das nossas vidas, mesmo que a minha tivesse começado apenas 3 anos antes. Não vivi o 25 de Abril e não conheci Salgueiro Maia, que é provavelmente a pessoa que guia de forma mais marcante a minha existência. O meu farol, a minha linha de rumo. Não o conheci – é algo de irrecuperável no meu percurso de vida.
Daí os 25 poemas sobre o 25 de Abril. Porque é isso mesmo que Abril é – poesia.

A SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen

Não se pode dizer que não tenha razão

Günther Grass diz que Israel é “perigo para a paz mundial”

Poema em alemão

Esse bocadinho de tarde cinzenta

  (adão cruz)

Ela não sabia mas a vida havia-lhe ensinado naturalmente que os mais belos poemas se fazem com gestos e palavras simples [Read more…]

A crise chega primeiro à poesia

 

A crise é como uma inundação: a àgua acaba por atingir todos os lugares e cantos e infiltra-se incontrolavelmente pelas fendas e aberturas aparentemente mais inacessíveis.
A única livraria de poesia em Portugal (segundo li) fechou ontem, dia 27. Mário Guerra, proprietário e único funcionário, tinha um fundo aproximado de 10 mil volumes de poesia e obras sobre ela. Coincidentemente, Dia Mundial do Teatro, também ele atingido pelas àguas diluviais.

Mário Guerra chamou à sua livraria Poesia Incompleta. Irónico: nós é que somos incompletos sem ela!
O que vai fazer aquele homem, o que somos nós, sem poesia?

Dia da Àrvore e Dia da Poesia

 

 

“As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão (…).
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
(…)
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
(…)
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
Como se nada fosse.
As árvores, não.
(…)
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
(…)
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
(António Gedeão) [Read more…]

Dia mundial da poesia

 (adão cruz)

Dia de enganos

Uma gaivota beijando a espuma branca das águas fundas em bailado  grandi mestri culminando as chaminés do cabo do mundo

O barco ao longe só estático no horizonte como eu aqui de olhos  fitos nas rochas

Gaivotas bailando Rossini mascagni massenet sem ponte nem  horizonte verdi wagner bizet sobre a espuma da tarde sem dia do dia sem  ponte sem horizonte para lá das rochas negras e nuas

Marcia trionfale dunas de espuma branca abraçando as  rochas do meu deserto tão perto do mar imenso tocando as nuvens por dentro de  mim

Alguém me leva nas asas da gaivota por dentro de mim em doce  intermezo de rios de sol e mar sem fim

Alguém me passeia por dentro de ti cavalcate delle  valchirie a vertigem avança em turbilhão até planar bailando sobre o coração  cravado no sol poente vermelho e quente do sangue que verti

Bruscamente o prelúdio voando dentro de mim a alma que  resta em meditazioni pelo espaço imenso tocando aqui e ali as penas das  asas que perdi

Vesti la giuba viajante da barcarola com ar  triunfante va pensiero seguro de quem se apoia nas pedras nuas da orla do  mar esquecendo o mar que navega infinito mistério

Meu filho

Que sou livre, dizem-me.
Porém se quisesse ter outro filho
teria de o levar ao banco da esquina
porque sua é a minha casa.
O meu menino chamaria pai ao gerente
e mãe à caixa
aprenderia a andar com uma cadeira
de rodinhas de escritório
dormiria numa gaveta dos arquivos
e eu seria apenas um parente afastado
que lhe sorriria do meu lugar na fila.
Passaria por lá de vez em quando com a desculpa de aumentar a hipoteca
só para ver como o criam
como o ar condicionado o afecta
se sabe enviar um fax
e se o gerente lhe oferece um jogo de frigideiras
pelo seu aniversário.

Ana Pérez Cañamares, roubado ao Trapézio sem rede

Poema inteiro

   (adão cruz)

 

Foi a noite mais triste a mais negra noite mais triste do que todas as sombras mais triste do que a noite de Orfeu mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu

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Hoje dá na net: A Cena do Ódio e FMI

Também porque hoje é dia, duas obras mestras da poesia portuguesa do século XX, quase gémeas nas duas pontas do século, e no meu gostar as máximas do seu tempo.
A Cena do Ódio de José de Almada Negreiros, genialmente teatralizada por Mário Viegas recriando a apresentação pública original.
Depois do corte o FMI de José Mário Branco, e os versos completos de ambos os poemas.

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Hoje dá na net: Literatura – Fernando Pessoa

A base de dados Arquivo Pessoa contém, na secção Obra Édita, a maior parte dos textos de Fernando Pessoa publicados até 1997. É muita poesia, com todos os autores que Pessoa também era. Interessa a todos os amantes de poesia, de Pessoa e a todos os alunos de 12º ano.

O labirinto

adão cruz

O labirinto tem que ter uma porta uma saída um caminho que não encontro.

Sei que sou buraco de mim mesmo mas não é por aí que eu quero sair.

Meu sonho é ser um pássaro voar na proporção do amor sem medo nas penas… [Read more…]

Já fui poeta da luz

adão cruz

(Poemas de mãos dadas)

 Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.

Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.

Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.

Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. [Read more…]

Minititanic

foto de adão cruz

Quem por ali passe nem repara no MINITITANIC, nem se apercebe da vida que ele foi. Um pequeno barco de quatro ou cinco metros, já gasto, assente na margem lodosa do rio, a um canto de um apodrecido cais, preso não se sabe aonde nem a quê, por uma longa corda cheia de nós. Um barco sem fé nem esperança, isolado do mundo, afastado de todos os seus irmãos, ancorado no tempo, agarrado à memória do lado esquecido da vida. Há muito parado e imóvel, apenas baloiça levemente à flor da água quando a maré lhe entra sorrateiramente por baixo, afagando o casco de cores já mortas, num beijo de saudade como que a dizer, anda, desprende-te, vem comigo até ao infinito. Um barco muito triste, quando a maré se vai e o deixa de novo pousado na areia negra e suja. [Read more…]

Não me dês um título

Dorindo Carvalho

Não me dês um título entre este rígido corpo e o cosmos.

Deixa-me o traço fino deste constrangedor aperto entre o que
sou e o que não sou.

Se fores capaz de me abrir estes braços cruzados entre o ser
e não ser  não me importa que me vejam
o rosto. [Read more…]

Desilusão

adão cruz

 Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso.

Minha voz de gravador que outros ouvem só eu não tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.

Sonho de amor invisível e ateu.

Pela escada fantasma do falso destino destino essencial quem subia ou descia afinal…era eu. [Read more…]

À espera dos bárbaros

– Que esperamos na ágora congregados?
Os bárbaros hão-de chegar hoje.
– Porquê tanta inactividade no Senado?
Porque estão lá os Senadores e não legislam?
Porque os bárbaros chegarão hoje.
Que leis irão fazer já os Senadores?
Os bárbaros quando vierem legislarão.
– Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
e que faz sentado à porta da cidade,
no seu trono, solene, de coroa?
Porque os bárbaros chegarão hoje.
E o imperador espera para receber
o seu chefe. Até preparou [Read more…]

O trapézio fez 4 anos

Só agora dei por ela, o meu blogue de poesia favorito continua a dar-nos poesia passada para português.

Do Trapézio, sem rede; este eu até pagava para ler.

A ode dos piegas

Cantiga dos Ais de Mendes de Carvalho dita por Mário Viegas.

Tu vens

adão cruz

Tu vens

eu acredito que vens

neste céu de cabelos soltos

e seios ao vento

nesta fome de corpo e pensamento. [Read more…]

A luz era azul

adão cruz

A luz do sol era azul…lembro-me como se fosse hoje a luz azul azulava os claustros as caras e o sentir.

Imaterial pálida e fria.

As grandes janelas filtravam a luz azul que entrava dentro de nós como chuva miudinha. [Read more…]