Léxico nacional: o contributo de Cavaco Silva

Alfeite

© Presidência da República Portuguesa (http://bit.ly/1aTzECa)

Fui eu que coloquei no léxico nacional o ‘pós-troika’. Foi no discurso que fiz no 25 de Abril deste ano.

— Aníbal António Cavaco Silva, Base Naval de Lisboa, Alfeite, 29 de Outubro de 2013

Efectivamente, confirma-se a ocorrência de ‘pós-troika’ no discurso proferido durante a 39.ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril — em determinados círculos, este discurso é conhecido como o discurso de Fação:

A Assembleia da República, através da respectiva comissão parlamentar, pode contribuir para consciencializar os Portugueses para as exigências com que Portugal será confrontado no período pós-troika.

Não se compreende o motivo de, na transcrição, surgir *respetiva. Cavaco Silva não pronunciou [ʀɨʃpɨˈtivɐ]. Cavaco Silva pronunciou [ʀɨʃpɛˈtivɐ]. Logo, ‘respectiva’. Sim, <ec> existe e, ao contrário do Acordo Ortográfico de 1990, não é para servir de enfeite. Aliás, como sabemos, aquele ‘c’ encontrava-se no texto original, pois – como é sabido – Cavaco Silva não se mete nessas aventuras.

Ou Portugal ou a Autópsia das Culpas

O Presidente falou. Sublinho a aposta inovadora que fez para o futuro nos entendimentos e acordos interpartidários em Portugal, especialmente no eixo da governação, os quais devem passar à normalidade, como nos países europeus mais ricos, mais prósperos e mais descomplexados.

O Presidente havia promovido uma negociação aberta, leal, entre os três partidos de Governo, PSD, CDS, PS, negociação sensível às actuais exigências do País no sentido de um acordo que robustecesse a parte portuguesa no confronto negocial com a Troyka. Esse acordo não foi gerado, mas as portas de diálogo ficaram abertas e nunca mais se podem fechar. Com a sua palavra, o Presidente mata a crise aberta a 1 de Julho. Fora só uma crise política. Uma crise conjugal no Governo. Essas crises superam-se sem esmagar os filhos pelo meio, na refrega estúpida por atenção, por mais sexo ou por outra coisa qualquer que atrapalha a vida de um casal.

Ganha o Governo, com a garantia de remodelação que preparara e vai agora propor. Ganha o Governo com o fôlego novo e o novo foco para os próximos dois anos, a economia. Ganha o Presidente porque define uma saída daquela crise, onde anteriormente se via prolongamento e indefinição dela por sua mão. Repito: era só uma crise política. Um nada comparado com a crise financeira e económica que impacta injustamente na vida das pessoas com cuja realidade os semedo, os jerónimo, os galamba, os sócrates, os soares e os alegre não estão nada preocupados, ocupados que estão no grande jogo-religião fanática do xadrez táctico político, na movimentação de peças cegas que não produzem um prego nem colhem um pepino, mas lançam o azedume, a cizânia do ressentimento e do facciosismo primitivo e insultador. Ganham os portugueses por escaparem a eleições, isto é, aos reles desejos de vingança baixa da Ala Socratista do PS, ainda no Parlamento a instigar a humilhação de Seguro e nos corredores minoritários e demagógicos da baixa conspiração. Perdem todos os grupos e facções que apostam todas as fichas no pior desempenho possível do Memorando, na destruição preso-por-ter-cão-preso-por-não-ter do Presidente, apostados na manutenção no Estado Português da velha pressão vampirista e corrupta das morsas dos partidos que, em 39 anos, têm sempre comprometido um País Viável, um País capaz de Superavits, um País como os outros do Norte europeu, capaz de gerar e distribuir riqueza.

Investe-se demasiado na autópsia das crises políticas e das respectivas más-disposições, Ricardo. Que tal privilegiar o Povo que sobrevive, que muda de vida antes que lha mudem, parafraseando Carlos Sá, o Povo que não vive de política nem para a política, mas de trabalho e de sofrimento pessoal apenas para sobreviver?! O Povo que recusa perguntar o que é que Portugal pode fazer por si e age no sentido de fazer o máximo por si mesmo e por ele?!

Arranjando lenha para se queimarem

A Assembleia da República foi mais ou menos suspensa: como os três partidos responsáveis pelo estado a que chegámos negoceiam a continuação da mesma política, algumas decisões são adiadas para depois. Estamos portanto sem governo, sem parlamento, e com o presidente da República nos confins do território. O sonho de qualquer anarca.

ist called anarchy arsehole
Fotografia

Pavarotti homenageia Cavaco

“Vesti la giubba”, a famosa ária de Pagliacci.

Novo início dos discursos de Cavaco

Mininoch i mininach

O presidente da República e o discurso de Fação

Li, nalguma imprensa, que João Semedo teria acusado o presidente da República de fazer um “discurso de fação”, aludindo ao discurso de Cavaco Silva na 39.ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril. Achei curioso e fui verificar, uma vez que não conheço discursos característicos de Fação. Havendo discursos característicos de Fação, a letra inicial deveria ser, como acabamos de ver, maiúscula. Afinal (valha-nos a rádio), João Semedo disse que “não há consenso, quando o presidente da República faz discursos de facção”. De facção! Exactamente: [faˈsɐ̃ũ̯] e não [fɐˈsɐ̃ũ̯]. A diferença é gritante, como bem sabemos. Felizmente, a imprensa de referência em ortografia portuguesa europeia não engana. Curiosamente, no Correio da Manhã, o texto sobre o “discurso de Fação” aparece em ortografia portuguesa europeia (ruptura, facção, Março, director…). Haja  esperança.

fação

Cavaco reitera. Mas não entende.

O Presidente da República reitera o entendimento de que o Governo dispõe de condições para cumprir o mandato

Exactamente, como previsto: o lince e as raposas

Ontem, escrevi que, provavelmente, o prefácio de hoje  nos traria *marços , *atuas e outras disortografias.

De facto, trouxe-nos. Ei-las.

Não se trata evidentemente de bipolaridade (orto)gráfica, uma vez que o autor, como muito bem sabemos, apenas adopta uma grafia. Daqui a mil anos, os paleógrafos no activo durante o ano de 3013 deliciar-se-ão com esta fase do segundo decénio do século XXI, em que a grafia utilizada por determinados escreventes de português europeu assumia formas diferentes, consoante o carácter privado/social ou público/oficial do texto. Descobrirão esses paleógrafos que, na fronteira entre aquela sincera, estável e correcta grafia privada e aqueloutra hipócrita, aventureira e incerta grafia pública, havia máquinas com nome de felino e vopes, volpes, voalpes e até uma confusão entre vóclepes e voulpes. Nessa altura, no século XXXI, farão exactamente a mesma pergunta que tantos fariam mil anos antes: porquê?

P.S. – Aproveitando a corrente do público/privado, deixo-vos na companhia de um excelente vídeo, com Jorge Buescu a explicar a criptografia de chave pública. “A chave que encripta a mensagem é pública, mas a chave que decifra a mensagem é privada”. Exactamente.

Em Março, a aprender como o Presidente actua

Cavaco 832013

Segundo o senhor presidente da República, no próximo dia 9 de Março (isto é, amanhã), será divulgado o prefácio do livro Roteiros VII,  através do qual saberemos como “deve actuar um Presidente da República em tempos de grave crise económica e financeira”. Amanhã, obviamente, irei consultar a página oficial do senhor presidente, para ler o prefácio e aprender como actua um presidente da República em tempos de crise económica e financeira e ainda por cima grave. Repare-se que o senhor presidente da República escreveu “Março” e “actua”, não escreveu nem março, nem atua. Provavelmente, o prefácio de amanhã trar-nos-á *marços , *atuas e outras disortografias. Mas já sabemos que, apesar de ser um dos primeiros e principais responsáveis pelo desastre ortográfico de 1990, Cavaco Silva não se mete nessas aventuras.  

PR, PM e manifestações: em que ficamos?

O Presidente Cavaco Silva

Recuperado de longa letargia, o PR veio a público e, a propósito das manifestações de Sábado passado, afirmou:

Uma síntese das palavras de Cavaco Silva:

Devemos ter todo o respeito àqueles que se manifestaram […] numa manifestação com aquela dimensão as vozes que se fizeram ouvir devem ser escutadas…

O Primeiro-Ministro Passos Coelho

Passos Coelho que garantiu não querer polémicas sobre manifestações, acabou por entrar em controvérsia com a oposição:

Reproduzimos algumas das afirmações do primeiro-ministro:

[…] Nenhum governo deve ficar indiferente a essas manifestações públicas e elas não podem deixar de ser tidas em conta,eu não governo em função desssas manifestações e desses protestos.

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Presidente da República: comunicação oficial após as manifestações de 2 de Março

Encontrado no canal de João Pinto.

Tranquilizemo-nos! Os Orixás garantiram a felicidade ‘pós-troika’ a Cavaco

orixásPresidente da República, ex-primeiro ministro e pioneiro do  desenvolvimento irracional que, de resto prolongado por outros, teve como desfecho o estado a que chegámos (Saravá Salgueiro Maia!, com enorme saudade) continua a ser figura libidinosa da nossa democracia. Mais a mais, tendo sido professor de Finanças Públicas e quadro do Banco de Portugal, seria expectável um mínimo de sensatez  nas declarações públicas, intervaladas por longos e misteriosos silêncios. Todavia, o discurso incoerente, porque demasiado premonitório e duvidoso, constitui uma das  idiossincrasias do PR.

Em encontro com 50 jovens empresários – por deformidade nacional, estamos viciados em números redondos e personagens quadradas – Cavaco, crente na predição dos Orixás,  sentiu-se  compelido à adivinhação. Na cerimónia, decidiu tecer prematuros e infundados elogios ao período “pós-troika” – um período que, por influência dos Orixás, tem o privilégio de conhecer antes de qualquer outro ser humano, português, maori ou de qualquer origem.

Com sabedoria de quem está animado pela crença na mitologia ‘yoruba’, ainda dissertou sobre a mecânica de alavancas:

“aos empresários da economia pós-troika”, Cavaco Silva afirmou que “as alavancas disponíveis para provocar o crescimento económico são o investimento nacional e estrangeiro, as exportações, turismo; acompanhados de uma redução menos drástica do consumo privado”. [Read more…]

Afinal, não há erro

limitação de mandatos

A alteração decorre das regras de revisão aceites na publicação de diplomas no Diário da República. Comprova-se o que se suspeitava, que Cavaco Silva saiu da penumbra onde tem estado enquanto o país se afunda para vir defender os amigos com providências cautelares a impedi-los de se candidatarem.

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Sr. Presidente não permita a saída de mais nenhum jovem

Faça tudo o que estiver ao seu alcance para que nem mais um faça as malas e invista a sua vida noutro país!

Do it now!

Cavaco Silva não é notícia

Capa do DiaDevo andar muito distraída. Hoje dei-me conta que temos um PR…

Devo andar mesmo muito distraída porque não vejo notícias relacionadas ou em que o PR é o assunto principal, quanto mais capa de jornal, como hoje no Público.

Penso que o PR devia ser um chato. E não é. Chato no sentido de interventivo, crítico, pertinente, que se importa, que tenha resposta na ponta da língua para tudo e que não foge às questões dos jornalistas nem a estes.

Vem agora pronunciar-se sobre a troika: aponta-lhe falhas. E pede ponderação do caso RTP.

Dei-me ao trabalho de ler a primeira página do Público no último mês. Nada. Cavaco não aparece. Excepto uma referência no dia 2 de Agosto a propósito da morte de Eurico de Melo. 

Durante este mês muita coisa aconteceu: teve alguma palavra sobre o cenário de desastre para os docentes contratados? Disse algo sobre o fogo do Algrave (o seu Algrave), o segundo maior de sempre em Portugal? Pronunciou-se relativamente aos 465 mil desempregados que não recebem protecção social há quase um ano? Passou-me despercebida a sua reacção quanto ao escandaloso desfecho do concurso de colocação de professores e do desemprego em massa neste sector? Ele, que foi professor tantos anos, importa-se connosco? Lamentou o massacre dos mineiros na Àfrica do Sul? E quanto ao desemprego que chegou aos 15,7% em Portugal?

Cavaco Silva não chega às primeiras páginas de jornal nem pelos bons nem pelos piores motivos…

Os portugueses não precisam de um PR que se deixa ficar esquecido e à margem dos problemas.

Por isso é que a sua utilidade é igual a zero

Promulgar não significa concordar

A propósito de deslealdades

Confesso a incómoda náusea causada por essa espécie de epístola cavaquista, endereçada aos portugueses no prefácio do livro “Roteiros VI”. Ao estilo de carpideira, que chora o que não sente, o mais oco dos presidentes da actual república lamenta-se agora ter sido alvo de infame deslealdade por parte de José Sócrates. Invoca a violação do Art.º 201.º pelo ex-PM, ao omitir-lhe  a negociação e existência do PEC IV.

Sei desde longa data o que foi Sócrates, que Cavaco não demitiu. Tive o privilégio de nunca ter sido  seu apoiante ou votante. Ao contrário, fui crítico, aqui por exemplo.

Sinto-me livre de poder dizer que este enredo ao jeito de novela mexicana, a que ainda ultimamente o PR voltou a dar vida na visita ao navio-escola “Sagres”, é, como muitas outras novelas, um passatempo de mau gosto  e uma desforra política inoportuna e ofensiva para os portugueses.

Imagino Sócrates instalado em qualquer “bistrot” de luxo do Boulevard Saint-Michel, a saborear o revivalismo das tropelias passadas, em divertida tele-conversa com Silva Pereira. Como outros anteriores, incluindo o próprio Cavaco Silva, goza do estatuto de inimputável. Não é, de facto, o único.

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Ainda que mal pergunte…

… o Senhor Presidente da República fez um roteiro pela Juventude, certo? Andou pelo Norte do país, certo? Falou sobre empreendedorismo, certo? Visitou exemplos de jovens empreendedores, certo? A iniciativa não teve nada a ver com aquela coisa dos jovens numa escola, certo? Aliás, a Presidência fez saber que já estavam a preparar o dito roteiro e que não foi uma coisa à pressão, certo?

 

Então, como se explica que estando o Presidente no Norte, dedicando uns dias à Juventude, não visitou a Capital Europeia da Juventude? Não sendo coisa organizada à pressão, caso contrário até se aceitava o esquecimento, o lapso, podemos ser levados a concluir que foi propositado. Sendo-o, qual o motivo? É que olha-se para o roteiro e compara-se com a Capital Europeia da Juventude e está la tudo: empreendedores, empreendedorismo, debate de ideias sobre o futuro, casos de sucesso, incubadoras de empresas de e para jovens, Universidades, etc.

 

Eu não quero acreditar. Por isso, só estou a perguntar…

Para Que Serve este Senhor?

As Sondagens Valem O Que Valem (E às vezes valem bastante)

O Presidente desta nossa Repúlica, senhor Cavaco Silva, teve agora uma queda significativa no agrado do Portugueses. O senhor chefe deste Estado recebeu por parte dos portugueses uma nota negativa (6,4%) e as suas declarações sobre o valor das suas pensões não chegar para pagar as despesas terá sido uma das razões que explicam este acontecimento. O homem abriu a boca sem ter ninguém por perto que o acalmasse e … estragou a pintura.

Sobre este assunto, diz-se o senhor Medeiros Ferreira  “muito preocupado, porque o Presidente é essencial para regular o normal funcionamento das instituições”(não sei muito bem o que isto quererá dizer), acrescentando ainda que o Presidente da República tem “falta de sentido político e estratégico”(isto já sei o que quer dizer e é totalmente verdade).

Há quem considere a situação “perigosa” dado que “pela primeira vez na história democrática deste país, temos um governo completamente à solta”(também não sei o que isto quer dizer, nem sei como o PR o prenderia, mas isto são palavras de um comentador político). [Read more…]

Cavaco e a petição, talvez destituir

Tirando o caso de se manifestar doença grave na pessoa do ocupante do cargo de Presidente da República, coisa que não lhe desejo, não estou a ver como pode Cavaco Silva cair através desta petição, que assinei e vos convido a assinar. Mas estou a vê-la a crescer tanto (quando a divulguei ontem a partir do 5 Dias não estava à espera de hoje já ir nas 5000 8255 assinaturas) que serve muito bem para outra objectivo: pressionar. Encostar o homem à parede. E este homem é por natureza um cobarde, capaz de denunciar a sogra à Pide, não esquecendo que já caiu na rua, ou melhor, numa ponte, com esta cantiga em banda sonora:

Na altura acrescentou Pedro Abrunhosa, num concerto para a história: e hoje o que vão o Aníbal e a Maria fazer?

O que ele tinha feito à economia nacional. Não tivemos orgasmos. Sexo assim não vale a pena, é altura de retribuirmos.

Dos fracos reza a História

Quando olho para a História do meu País, não consigo descobrir muitas figuras de que me sinta orgulhoso e não me apetece perder muito tempo a pensar se noutros países seria diferente. Preocupa-me, isso sim, que o País em que vivo seja consequência dos actos de uma enorme quantidade de personagens medíocres que nos têm governado e que “a apagada e vil tristeza” pareça ser a nossa condição, pelo menos, desde 1143.

Na realidade, as personagens principais da nossa História têm revelado demasiadas fraquezas para que pudéssemos ser melhores. Basta ver que a figura histórica mais importante do nosso século XX será, sem dúvida, um ditador tacanho que contribuiu decisivamente para um atraso que, ainda hoje, nos faz ter medo de existir, como lembrou José Gil.

Ao fim de quase quarenta anos de Democracia, é evidente que Cavaco Silva terá direito a mais páginas do que Salgueiro Maia e isso será sempre, para mim, a prova de que é dos fracos que reza a História, porque não há comparação possível entre a generosidade nobre de um homem que não se aproveita da revolução que fez e a pequenez de um economista cuja visão não vai além das vacuidades que frequentemente profere, como foi o caso recente das declarações sobre as suas próprias dificuldades financeiras, declarações que envergonhariam quem fosse capaz de sentir vergonha.

Há um ano, Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República. Há seis anos que o principal magistrado da nação é um homem sem grandeza, sem golpe de asa e, talvez por isso, seja o nosso melhor representante. Mesmo provocando o riso – sempre amargo – é útil reler algumas das suas principais declarações.

Cavaco: fazer mais e pior com o mesmo

Cavaco Silva publicou, hoje, um texto no seu facebook, com esta ideia originalíssima: os funcionários públicos devem fazer mais e melhor com menos, “para manter viva a esperança no futuro”.

Em primeiro lugar, seria importante que alguém, na Casa Civil, explicasse a Cavaco que só se pode ter esperança no futuro, embora – confesso – ainda me martirize a sonhar com um passado diferente daquele que tive, como, por exemplo, quando o actual Presidente foi Primeiro-Ministro e revelou a ausência de visão que viria confirmar até hoje.

Os funcionários públicos têm muito má fama, sendo, muitas vezes, considerados uma gente improdutiva muito bem paga, preocupada em cumprir horário, à espera do conforto injustamente seguro que chega sempre no fim do mês. Se Cavaco comungar desta visão, saberá, no fundo, que a recomendação para que os membros de uma tal tribo trabalhem mais e melhor, ainda por cima ganhando menos, só poderá cair em saco roto.

No entanto, mesmo que seja um exercício ocioso, podemos imaginar que existem, entre os funcionários públicos, alguns trabalhadores dedicados, sérios, preocupados, também, com o bem da nação. Não será difícil acreditar que essas raridades possam ser pessoas informadas e que, apesar da dedicação honesta com que trabalham, se sintam desmotivadas, ao sentirem-se roubadas por vagas de políticos desonestos, incompetentes ou ignorantes, e ao verificarem que são obrigados a viver com menos, devido àquilo que outros gastaram e continuam a gastar. Por muito que não queiram, insensivelmente, há muitas probabilidades de que se a revolta se instale ou de que o rendimento seja afectado pelo desencanto.

Não vejo, portanto, como poderá um mau funcionário trabalhar mais ou como poderá trabalhar ainda mais um funcionário competente. Da mais alta figura da nação esperar-se-ia que fosse um Presidente da República, ou seja, um defensor dos cidadãos, mas Cavaco só quer ser Presidente. A República não faz parte das suas preocupações: sendo ele tão pouco, não se espera que faça mais e melhor.

Cavaco Silva, presidente do PSD

Cavaco Silva não é o presidente de todos os portugueses, porque não é meu, mas, pelo menos, poderia ter feito um esforço por me contrariar, tentando ser melhor. Não por mim, entenda-se, mas pelo país.

Mesmo admitindo que não sinta especial afeição por Passos Coelho, declarações como “não sei que Governo terá sido mais escrutinado do que este” ou que é “bom que os portugueses estejam conscientes de que os membros do Governo são pessoas e não super-homens, a que não se podem pedir milagres.” parecem revelar a absoluta parcialidade de alguém que deveria funcionar como um árbitro.

Se tivéssemos em Belém um Presidente de todos os portugueses, Passos Coelho teria sido chamado depois de ter aconselhado os desempregados a emigrar e o Orçamento de Estado teria merecido um pedido de fiscalização. Se Cavaco Silva não está ao lado de todos os cidadãos, o PSD pode, pelo menos, contar com o seu apoio. É, sem dúvida, um homem com sentido de família. Sentido de Estado é outra coisa.

Mensagem de Boas Festas


Prefiro, de longe, a versão de 2010.

Para o Natal, queria Cavaco com a boca cheia de bolo-rei

O Natal enternece-me tanto quanto me irrita.

Mesmo já não sendo católico, não deixo de ser cristão em muita coisa e viverei sempre marcado pelo presépio, pela imagem do menino ameaçado por um Herodes que faz parte da minha particular galeria de vilões, na eterna história edificante em que os fracos acabam por derrotar os mais fortes.

Mesmo quando era católico, já me irritava o Natal enquanto pequeno intervalo em que as pessoas se permitiam o exercício da bondade, depois de terem dado o pior que tinham e antes de o retomarem, já purificadas por uma esmola maior e saciadas de bolo-rei. O Natal é, afinal, um Carnaval em que nos disfarçamos de boas pessoas.

A minha embirração particular com Cavaco Silva não se limita ao facto de ser um homem de direita, dado que nunca foi suficiente nem necessário para que outra pessoa me suscitasse tal sentimento tão humano e tão pouco natalício.

Este ano, com o cabotinismo que caracteriza o casal Silva, o Presidente e sua esposa, voltam a incomodar-me com a mensagem de boas festas, terminando com “E um ano de 2012 tão bom quanto possível”, especialmente irónico quando é dito por alguém que ficará na história por ter desconfiado de escutas e por ter preocupações com vírgulas no Estatuto dos Açores, enquanto apoiava o empobrecimento dos portugueses.

O vídeo que se segue – um clássico – ilustra o único momento em que a figura presidencial foi eloquente. [Read more…]

Allende, Neruda e Frei: mortes programadas

Salvador Allende

O meu prolongado exílio do país em que nasci, filho de espanhóis e a minha vagabundagem por vários países e continentes, por motivos científicos, têm-me ensinado a ser cauteloso. Uma notícia de jornal, comentários televisivos, nada prova, excepto esse ser o primeiro de proporcionar uma informação que estala como uma bomba. Notícia que nos alarma e procuramos as fontes. Por enquanto, fontes que provem factos, não há. Há notícias que parecem verdades certas, as que nos temos habituado e acreditamos nelas como no Pai Nosso.

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O Discurso do Presidente, com Anos de Atraso

DÉCADA PERDIDA
O senhor Presidente de Portugal tomou ontem posse.
Por essa razão fez um discurso, e a maioria dos comentadores entendeu que foi arrasador para o governo que nos governa, tendo acabado com a cooperação institucional.
Ora se foi assim, e ouvido o discurso, foi assim mesmo, pergunto-me o que terá mudado para que tal tenha acontecido. Ainda não há muitas semanas, a cooperação existia e ninguém queria arrasar qualquer outro ninguém, e os pressupostos agora apresentados já são de todos conhecidos há muitos meses, tendo vindo muitos dos alertas do Banco de Portugal e muitos outros de todos nós, as variadíssimas gerações de rascas e à rasca.
O que mudou foi o mandato do Presidente. Estamos no segundo e último, e durante o primeiro não convinha fazer muitas ondas para assegurar o segundo. Tem sido assim desde há muitos anos. Todos os Presidentes pós revolução assim procederam. Um primeiro mandato frouxo e amorfo e um segundo interventivo.
Falou o de novo Presidente numa década perdida. Não me posso esquecer que dessa década, metade do tempo tivemo-lo como Chefe. É co-responsável com este (des)governo por omissão, e agora, segundo mandato assegurado, quer remediar o erro propositadamente cometido.
Mas não me parece que tenha coragem para, assumindo o que disse deste governo, o despedir. Vai esperar que sejam os deputados da Nação a tomar essa medida.
E por este andar a década vai ter mais anos do que deveria ou poderia ter.
Para que serve então o primeiro mandato presidencial? Para que serve então ter um Presidente em Portugal? Para que nos serve esta República?

Aí têm, republicanos

Gostaram do discurso? Pareceu-vos inclusivo? Ouviram os rosnares de mais de metade do Parlamento? Bem feito!

O presidente honorário do PSD, retomou posse do seu sonhado cargo de 1º ministro sombra. Nada de novo, confirma-se a falsidade do corriqueiro …”de todos os portugueses”, tratando-se apenas de mais um escabroso episódio da mesma luta intestina do regime. Em suma, o discurso consistiu na oportunista “deolindação” de Belém. A uns dias da tal manifestação, fez os possíveis para que o seu nome – também – não seja proferido na rua.

Sobre presidenciais…

-Há 5 anos sem entusiasmo votei Cavaco Silva nas presidenciais. Acreditei na altura que a luta, seria entre o actual inquilino do palácio situado nas proximidades da Antiga Fábrica dos Pasteis de Belém e Mário Soares, uma espécie de figura tutelar do regime, pela qual não sinto apreço. Na noite das eleições confesso ter ficado surpreendido e até mais satisfeito, pelo segundo lugar obtido por Manuel Alegre, do que propriamente pela eleição do candidato em que votara algumas horas antes. Ao longo deste tempo não fiquei convencido pela actuação do Presidente da República, cuja actuação várias vezes critiquei, não propriamente pelas trapalhadas a que o seu nome surge ligado. [Read more…]

Eis que descubro que Cavaco Silva andou à pancada e acha que é agricultor

Estou deslumbrado. E tudo em pouco mais de 24 horas.

Até ontem a pré-campanha eleitoral estava a ser uma perfeita chatice, feita de frases e ideias banais, em redor de questíunculas bancárias do BPN e do BPI, em jeito de rodriguinhos de jogadores da bola pouco habilidosos mas muito convencidos. Estava a ver que nada de novo iria surgir do sexteto, com excepção do assertivo Coelho, da Madeira.

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De repende, fez-se luz. Tudo mudou. Comecei a aprender. E sempre graças ao mesmo candidato. Num dia descubro que Cavaco Silva "era tão normal, que até andava à pancada com os outros miúdos". Numa penada, duas descobertas. Primeiro que é preciso andar ao estouro com outros putos para se ser normal. Depois que o pequeno Cavaco era rapaz para esfregar os nós dos dedos na cara de outros petizes. Vá lá, também deve ter despachado um ou outro pontapé.

Poucas horas depois, novo momento extraordinário.

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