Resumo da coroação

O novo rei fez um discurso sobre a Espanha moderna e a seguir saiu para as ruas (desertas) no Rolls-Royce comprado por Franco.

Quer que o Google se esqueça de si?

Já existe um formulário para enviar o pedido.

“Quem semeia miséria colhe raiva”

Em Barcelona, e desde o início desta semana, as ruas ardem, literalmente, de descontentamento. Há perseguições policiais, dezenas de detenções, caixas de multibanco destruídas, contentores incendiados, barricadas. Consequências da decisão do autarca Xavier Trias que ordenou o despejo de Can Vies, um centro social gerido por iniciativa popular. Num edifício ocupado desde 1997, organizaram-se, ao longo dos últimos anos, oficinas de teatro, debates, apresentações de livros, peças de teatro, concertos, jantares comunitários, e até um jornal de bairro: “La Burxa”. Can Vies tem sido um lugar emblemático daquilo a que se vai chamando “movimentos alternativos”, uma espécie de laboratório onde várias gerações foram construindo utopias e dando corpo a projectos sociais com impacto directo na vida da gente de um bairro operário, o de Sants, com grande tradição de associativismo e múltiplas cooperativas.

Ora, uma “escola de militância”, como alguns lhe chamaram, transcende as suas quatro paredes, e o despejo foi sentido como uma afronta às gentes de Sans. O rastilho de Can Vies incendiou o bairro, em seguida a cidade, e os tumultos já chegaram às vizinhas Lleida, Tarragona e Girona. [Read more…]

Há dois fantoches com o nome “Passos Coelho”

O segundo está à venda em leilão.

Tambores em Junho

Está a chegar Junho e eu adoro Junho, aliás nunca conheci alguém que não goste de Junho, é provável que seja humanamente impossível não gostar de Junho, e um dia haverá uma teoria alicerçada em feromonas, partículas gama ou epistemologia genética, que explicará essa impossibilidade, mas até lá fico-me com as minhas muito particulares razões para adorar Junho e que incluem, embora não se fiquem por aí, as Fontainhas.

Para alguns será necessário contar que as Fontainhas não são mais do que um bairro do Porto, um pequeno bairro castigado, voltado para o rio, casas antigas, algumas em ruínas, e uma gente castiça, que não troca os bês pelos vês, porque os vês, a bem dizer, nem existem. É certo que, entre Julho e Maio, as Fontainhas entristecem-me. Mas há um mês, e qual mais poderia ser?, em que as Fontainhas se transformam no bairro mais festivo da cidade, engalanado para a noite de S. João. E não há Junho em que eu não regresse às Fontainhas.

Ora, quando eu era catraia, as Fontainhas eram a Disneylândia dos pobres, um caótico miniparque de diversões com barracas de farturas, carrosséis desengonçados, carrinhos de choque já muito esmurrados, colunas roufenhas a debitar música que ainda não sabia que era pimba, algodão doce a colar-se ao queixo, às mãos, ao cabelo, ao vestido, à camisa do meu pai, à blusa de alças da minha prima, íamos ficando pegados uns aos outros, num trem humano de açúcar e corantes, até a minha mãe nos salvar a todos com um lenço de pano, ainda nem havia dos outros, humedecido no chafariz.

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Se o agressor é um herói, a culpa é da vítima?

 

Ontem cruzei-me com este aviso num muro, em Matosinhos, e fiquei arrepiada. Há muitos “Palitos” por aí, desses que perseguem e acossam durante anos, até ao dia em que apertam o gatilho. A este, o do muro, não chegam as ameaças em privado, quis mostrar à sua vítima que está próximo dela e que se sente impune.

E entretanto, no país profundo, ou real, ou o raio que o parta, bastou uma fuga rocambolesca, a polícia burlada e humilhada durante uns dias, para que uma multidão acabasse a aplaudir um homem que se levantava de madrugada para perseguir a ex-mulher, que a amedrontava na rua e nos lugares onde ela trabalhava, que chegou a ameaçar de morte quem lhe desse trabalho, que a agrediu repetidamente, que a obrigou, quando ainda moravam na mesma casa, a regressar à cama de casal sob ameaça de arma. E que, fracassadas todas estas tentativas de recuperá-la pela força, decidiu pôr fim à vida dela e à de mais três pessoas, incluindo a própria filha.

A multidão que o aplaudiu foi a mesma que o conhecia bem, que assistira aos seus actos durante anos, e, percebemos agora, não só não levantou um dedo para ajudar a vítima, como até achou bem aquilo que viu: [Read more…]

O povo já não é o que era

Dom Gonçalo da Câmara Pereira, o candidato fadista do Partido Popular Monárquico, foi ontem ao Mercado do Bolhão à procura de circo. Há candidatos assim, que entendem que uma campanha eleitoral se resolve com meia dúzia de aparições chispantes entre o povo, aquele povo chocarreiro, aos berros, a cuspir vernáculo em cada frase, beijoqueiro de políticos mediáticos. O povo está para bater palmas, eternamente agradecido pelos minutos de atenção que lhe dispensem os doutores, e o Gonçalo, ao que fiquei a saber, até já apareceu a fazer depilação no programa do Goucha, o que o alça indesmentivelmente à condição de celebridade à nossa mísera escala. [Read more…]

Cubo mágico

Quando eu tinha cinco anos, o meu tio semi-gangster apareceu lá em casa. Eu não o conhecia e não lhe fiz grande caso, até porque cinco anos já é um bocado tarde para conhecer um tio. Despedi-me dele com o beijo contrariado de boas-noites que me obrigaram a dar-lhe, e deixei-o na sala com um último olhar ressentido porque ele ficou a jogar com o meu cubo mágico.

Quando despertei na manhã seguinte, já ele se tinha ido embora por cinco anos mais, deparei-me com o cubo em cima da mesa, as faces todas alinhadas, perfeito como só tinha estado na loja. Eu nunca tinha conseguido, claro, e ergui de imediato o meu tio ao altar infantil dos heróis titânicos. [Read more…]

O PSD acha que defender a Constituição é uma mancha

Ou isso ou Teresa Leal Coelho é uma brincalhona.

Ao desbarato

Da imprensa de hoje: enquanto as Finanças travam a classificação de imóveis como monumentos para vendê-los, o ministro da Economia foi à China vender os transportes de Lisboa e Porto e a EGF. Até às próximas legislativas, sobrará alguma coisa?

A economia dispensa a história

Já dizia o pequeno comentador do economiquês nacional que os professores de história em nada contribuem para o crescimento e o certo é que vamos confirmando que, nesta nova Europa utilitarista, as humanidades são entretenimento para inúteis. Os resultados nem estão a demorar muito a aparecer. Desmemoriada e cega pelos números, a Europa condena-se a repetir os seus horrores.

Leia-se esta reportagem de Maria João Guimarães, em Marselha, acerca do clima de rejeição aos estrangeiros, sobretudo em zonas multiculturais, e de como os partidos nacionalistas estão a capitalizar o descontentamento face à situação económica e a desconfiança em relação à diferença. Quem tem memória de um passado não tão longínquo, como o reformado Auguste Olive com quem a repórter falou, não pode evitar as comparações: [Read more…]

Devolvam a exclamação ao Tó Zé

António José Seguro juntou-se à campanha #bringbackourgirls, coisa que eu até poderia aplaudir se a idade não começasse a fazer de mim cínica e, a quinze dias de ir às urnas, eleitor escaldado até de água gelada se escapa.

Na sua página do facebook, o Tó Zé aparece a escrever um cartaz e, num daqueles arrebatos violentos que às vezes lhe dão, remata a frase com um enérgico, resoluto, indignado ponto de exclamação: Bring back our girls!

Mas quando levanta o cartaz para a câmara, pasme-se, o ponto de exclamação foi substituído por um discreto, contemporizador ponto final.

Das duas uma, ou não foi ele a escrever o cartaz (já sabemos que o inglês não é o forte dos líderes socialistas) ou alguém lhe disse para amainar, que a Nigéria é longe e também não vale a pena gastar fúrias com umas moças que a, bem dizer, nem vão poder votar.

Mais uma abstenção violenta, coitado. Não tarde nada ganha uma úlcera.

O futuro será não-violento ou não será

Inspirada na metodologia da não-violência de Gandhi, a associação Ekta Parishad luta pelo direito à terra e aos recursos naturais de milhões de indianos. Candidatos ao Nobel 2014, desafiam o mundo a escolher uma economia não-violenta.

Se o Alcino sai, a rua pára

Já tinha ouvido falar no Alcino, no café, na mercearia, em conversas de rua. “Então, viste o Alcino?”, perguntavam-se uns aos outros. “O Alcino tem andado fugido”, dizia outro.” “Ontem vi o Alcino, lá ia todo lampeiro”.

A rua inteira parecia conhecer o Alcino, mas eu, recém-chegado ao bairro, não fazia ideia de quem pudesse ser.
Levava pouco mais de uma semana no escritório quando o chefe mandou encerrar a varanda onde fumávamos. Transformou o espaço aberto numa marquise com caixilharia de alumínio e instalou ali uma sala de estar para ele. Começámos a descer à rua para fumar, cinco minutos de manhã, outros cinco minutos à tarde.

No escritório, a maioria protestou, ter de apanhar chuva e sol, correntes de ar, ter de descer e subir escadas, que o elevador só funcionava quando queria, para um miserável intervalo de cinco minutos. Mas a varanda dava para as traseiras dos outros prédios, víamos os mesmos miseráveis cinco minutos de outros como nós, ou a dona de casa que estendia as peúgas do marido, e aquilo sabia-me a pátio de cadeia, sem sequer poder dar uma voltinha completa.

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Saída à irlandesa

Philippe Legrain, antigo conselheiro da Comissão Europeia, acusa a UE: “Os irlandeses foram intimidados e tratados de forma ultrajante durante a crise.” (link em inglês)

Natália de Sousa merece que saibamos o seu nome

Não conhecíamos Natália de Sousa, o seu nome nunca chegou aos jornais, nunca foi capa de revista ou tema do momento nas redes sociais. Era advogada em Estremoz, ao que parece muito conhecida e respeitada na terra por se dedicar a casos de violência doméstica, abdicando frequentemente dos seus honorários para ajudar mulheres em situação desesperada.

Ontem à tarde, o ex-marido de uma das suas clientes, a meio de um processo de divórcio tumultuoso, invadiu-lhe o escritório. Recebera dias antes o aviso de que uma providência cautelar o impedia de se aproximar da mulher. Espancou a advogada até à morte, saiu e confessou o crime ao primeiro com quem se cruzou. Quando o socorro médico chegou, já era tarde. [Read more…]

O inferno de Rosa

Por esta história terrível passam muitos dos males do país, em pinceladas largas. O desmantelamento do estado social, o mau funcionamento das instituições, a hipocrisia da igreja, a indiferença de todos nós.

15 dias

É o prazo de validade das promessas da ministra das Finanças.

Nas mãos dos abutres

Desde a década de 1960, existem em Espanha as “Viviendas de Protección Oficial” (VPO), casas cuja renda tem um valor limitado, estabelecido por lei, e a que apenas têm acesso cidadãos que reúnem certos requisitos. O objectivo é garantir que pessoas com rendimentos baixos tenham acesso à compra ou arrendamento de habitações dignas a preços acessíveis. A gestão destas VPO depende de cada uma das comunidades autónomas.

Em Julho de 2013, a Comunidade Autónoma de Madrid, vendeu 1.860 (um terço) das VPO que possuía em regime de arrendamento à norte-americana Magic Real Estate-Blackstone Group International Partners, por 125.5 milhões de euros. A Blackstone é aquilo a que se chama “fundo abutre”, fundos de capital de risco que investem em dívida pública de estados ou empresas em risco de falência. Compram títulos de dívida por valores abaixo do seu valor nominal num mercado secundário para depois pressionar as entidades devedoras a pagar o valor restante. [Read more…]

“La Grande Bouffe”

“Que afinal o que importa não é haver gente com fome, porque assim como assim ainda há muita gente que come.” Mário de Cesariny

Um país minguante

Está explicado o enigma de Montenegro: o país está muito melhor porque há cada vez menos pessoas.

Obituário de um escritor-fantasma

Manuel da Silva Silva não precisou de perder tempo com a escolha de um pseudónimo porque nunca deixou de ser um escritor-fantasma. Passou anos aprisionado a textos sem graça – manuais, recomendações técnicas, bulas – escritos a contragosto, por necessidade, mas a sua sorte haveria de mudar quando lhe chegou a encomenda de um texto inovador, um artigo escrito de um ponto de vista inaudito, e que haveria de ser o primeiro de uma longa série. Tinha por título “Eu sou o fígado da Maria” e foi um sucesso imediato. A partir de então especializou-se em dar voz a vísceras, glândulas, válvulas, artérias, descrevendo com alucinante rigor e meticulosa fidelidade a vida oculta e esquecida de quantos órgãos constituem o corpo humano. [Read more…]

TSF ocupada

Um grupo de cerca de 50 pessoas ocupa as instalações, e a emissão em directo da TSF, “em defesa do direito à palavra“.

De nenhum cigarro diremos que é o último

É certo que já poucos são enterrados, é uma questão prática, de higiene, resolve problemas de espaço, só prejudica as floristas. Cremados os restos mortais, despejadas as cinzas no jardim mais próximo, não há encargos com coveiros, lápides, flores frescas ou de plástico, círios ardentes.

Mas ainda há – e talvez sejam necessárias uma ou duas gerações mais para que o hábito se perca – os que teimam em enterrar os seus e peregrinar depois à campa, pelo menos durante os cinco anos que vão do funeral à primeira tentativa de desenterramento.

A família do Sebastião enterrou-o não por vontade expressa do falecido antes de sê-lo, mas por hábito, tradição, horror ao fogo (reminiscências dos sermões admoestativos do padre, talvez) e partir de então passou a haver “a campa do Sebastião”, lugar de romagem nas primeiras semanas após o óbito inesperado, depois tarefa distribuída pelas mulheres da família, e logo incómodo despachado de uma para outra, recebido com um invariável “outra vez? Ainda há pouco fui eu!” [Read more…]

Em honra da Fitch

Governo propõe alteração do hino nacional para: “Levantai hoje de novo o outlook de Portugal”.

Deveria estar grata por estarmos em democracia

A imprensa não contou o que o secretário de Estado da Cultura disse sobre o discurso de Alexandra Lucas Coelho e foi pena. Vale a pena ler o resumo que a autora publica.

“O meu país não é deste Presidente nem deste Governo”

O excelente discurso de Alexandra Lucas Coelho na cerimónia de entrega do prémio APE.

Uma tragédia, o Emplastro e um filho da Ribeira

Ninguém me tinha lembrado – nem um artigo na imprensa, uma curta peça de fim de telejornal – que se cumpria mais um aniversário da Tragédia da Ponte das Barcas e só porque estava sol e me apetecia um fino é que eu fui parar à Ribeira nessa tarde. Mas assim que cheguei deparou-se-me um cartaz a anunciar uma romagem às Alminhas da Ponte e pareceu-me uma coincidência feliz.

O cartaz anunciava uma “celebração da palavra”, coisa bonita, pelo Padre Jardim. Como costuma acontecer a quem é deixado crescer sem doutrinamento tenho a minha particular colecção de crenças, todas muito avessas à ordem das religiões. E não foi a intervenção de um clérigo, de resto muito respeitável, que me fez ficar, mas a evocação de uma história que me arrepia desde que pela primeira vez me contaram por que havia sempre velas acesas frente a um obscuro painel voltado para o Douro. Que se continue a lembrar, com a chama de uma vela que gerações sucessivas vão mantendo acesa, as vítimas que já ninguém conheceu, mas dos quais podemos ser todos descendentes – anónimos e esquecidos avós, porque os pobres não cultivam a genealogia e dos nossos antigos guardámos só uma foto amarelecida, uma colecção de chávenas esbotenadas, ou a cor das nossas íris – que se continue a lembrar as quatro mil vidas que a cidade perdeu nesse dia parece-me sinal de uma grandeza de alma que nem todos os lugares têm. [Read more…]

Jorge Fallorca (1949-2014)

O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão. [Read more…]

Democracia fétida

Deputados abandonam a Assembleia da República devido a “cheiro tóxico“.