Aproveite-se a oportunidade para um exercício de redacção. Convém que utilizem correctores, Se utilizarem ‘corretores’, está o caldo (de novo) entornado.
Manuel Maria Carrilho pergunta
Mas, afinal, para que é que eles servem? Eles são os economistas, claro
A minha dúvida não é exactamente a mesma, mas, admito, existem bastantes semelhanças:
Mas, afinal, para que é que ele serve? Ele é o Acordo Ortográfico de 1990, claro.
“1% para a Cultura” II
1% pára a Cultura? Não, não pára. Para. Sim, preposição: para. Claro.
A ininteligível produção de *fatos políticos

“Retrato de Galileu Galilei”
Justus Sustermans (http://bit.ly/17Msan7)
Muito rapidamente, aproveitando alguns intervalos para cafés.
Fiquei ontem a saber, através do Público, que Rui Teixeira foi acusado de denegação de justiça, abuso de poder e coacção de funcionário.
Lembremo-nos daquilo que disse um dos principais responsáveis pela situação caótica actualmente vivida na ortografia portuguesa europeia:
“Ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir às novas normas”.
É verdade que José António Pinto Ribeiro nada disse nem acerca de eventual abate, prisão ou punição daqueles que não aceitarem ler e estudar documentos com as “novas regras”, nem sobre abate, prisão ou punição de quem impingir documentos redigidos “ao abrigo” de regras que não estão em vigor. Enfim, como já tive a oportunidade de recordar, relativamente ao aspecto ‘adesão’ e à dimensão ‘punição’, a doutrina divide-se.
Contudo, é sabido, não se encontrando os tribunais “sob a tutela orgânica e funcional do Governo“, nada obriga Rui Teixeira a adoptar uma norma que, manifesta e compreensivelmente, lhe desagrada. Resta saber se, não tendo o dever de adoptar o AO90, incumbe ou não a qualquer juiz a obrigação de aturar no seu círculo judicial textos redigidos “ao abrigo” de uma proposta ortográfica que, como sabemos, é inadequada para a norma portuguesa europeia, tendo – convém sempre refrescar a memória – sido objecto de pareceres negativos.
Haverá sempre quem critique Rui Teixeira por este indicar alterações efectivamente não previstas no Acordo Ortográfico de 1990, aludindo à supressão quer do acento de ‘cágado’ (proposta de 1986), quer da letra consonântica ‘c’ de ‘facto’. Segundo a SIC, “não se entende o reparo do juiz”. Lamento imenso, mas entendo [Read more…]
O jornal A Bola e as aspas
Já nos vamos começando a habituar a esta excelente prática. Qualquer dia, em vez de “reflete” teremos reflete (sic) ou mesmo *reflete. Devagar, devagarinho, regressaremos a reflecte — e não só: voltaremos igualmente a acção, a direcção, a decepcionado, a corrector, a pára, enfim, paulatinamente, regressaremos à ortografia.
As “*atividades inspectivas”: um Guião da cacografia do Estado

© Lusa (http://bit.ly/1aWCVQZ)
Depois de ter partido sem resolver o problema, Paulo Portas acaba de contribuir para um terrível golpe desferido no sonho que alguns persistem em manter acerca da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Por seu turno, se Paul Krugman soubesse português e tivesse lido o Guião ontem apresentado, os parágrafos de John Taylor seriam relegados para o segundo posto.
Efectivamente, fazendo um pequeno apanhado de co-ocorrências presentes neste Guião
- acção (p. 32) e ação (p. 39)
- adopção (p. 10) e adoção (p. 110)
- aspecto (p. 12) e aspeto (p. 72)
- activo (p. 55) e ativa (p. 84)
- actividade (p. 8 ) e atividade (p. 69)
- actual (p. 11) e atual (p. 81) [Read more…]
Debate sobre o Orçamento do Estado em directo?
Óptimo. Quando se discutir a redacção do Relatório, avisem-me, sff.
Léxico nacional: o contributo de Cavaco Silva

© Presidência da República Portuguesa (http://bit.ly/1aTzECa)
Fui eu que coloquei no léxico nacional o ‘pós-troika’. Foi no discurso que fiz no 25 de Abril deste ano.
— Aníbal António Cavaco Silva, Base Naval de Lisboa, Alfeite, 29 de Outubro de 2013
Efectivamente, confirma-se a ocorrência de ‘pós-troika’ no discurso proferido durante a 39.ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril — em determinados círculos, este discurso é conhecido como o discurso de Fação:
A Assembleia da República, através da respectiva comissão parlamentar, pode contribuir para consciencializar os Portugueses para as exigências com que Portugal será confrontado no período pós-troika.
Não se compreende o motivo de, na transcrição, surgir *respetiva. Cavaco Silva não pronunciou [ʀɨʃpɨˈtivɐ]. Cavaco Silva pronunciou [ʀɨʃpɛˈtivɐ]. Logo, ‘respectiva’. Sim, <ec> existe e, ao contrário do Acordo Ortográfico de 1990, não é para servir de enfeite. Aliás, como sabemos, aquele ‘c’ encontrava-se no texto original, pois – como é sabido – Cavaco Silva não se mete nessas aventuras.
Um *fatos, dois *fatos, três *fatos
Ontem, no sítio do costume.
Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
Post scriptum: Segundo leio na comunicação social, o “Facebook volta a permitir publicação de imagens e vídeos violentos“. Óptimo. Esta imagem pode ser publicada no Facebook.
No Expresso, a hipocrisia continua
Dois apontamentos muito rápidos sobre a hipocrisia ortográfica no Expresso, enquanto espero pelo comboio para Bruxelas — acompanhado por um café, algures em Estrasburgo, mas ainda em profundo “New York State of Mind”.
Depois do abrupto *objetivo de anteontem
hoje, as coisas voltaram (quase, quase) ao normal: [Read more…]
Para o porto, para tudo?
Claro que não. Felizmente, o AO90 não está em vigor.
A propósito, graças a João Roque Dias, soube desta notícia *eletrizante (trata-se de fenómeno que, infelizmente, já conhecemos).
Na passada terça-feira, como andava por aquelas bandas, ainda fui a tempo de passar pela Lexington, a caminho das Nações Unidas, para verificar se tudo estava como dantes.
Sim, estava.
No dia seguinte, apanhei um comboio para o Connecticut (sim, com <nn> e -ct-, claro). A que propósito veio agora à baila o Connecticut? Obviamente, devido à sequência -ct- e, menos obviamente, por causa de um postal que comprei na tabacaria da estação de New Haven e sobre o qual escreverei umas linhas, na próxima oportunidade.
Continuação de um óptimo fim-de-semana.
O Orçamento do Estado para 2014 é um embuste

© Rodrigo Gatinho (http://bit.ly/H7yURH)
Depois do descalabro dos dois Orçamentos do Estado (OE) anteriores (2012 e 2013), só uma generosa dose de repugnância impedirá qualquer cidadão português alfabetizado de conter uma sonora gargalhada, perante o aviso “texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico”, inscrito num documento oficial do Governo português, neste caso, no Relatório do OE2014 — a propósito, valerá a pena repetir que “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é o nome da coisa”?
Em Portugal, não nos esqueçamos, quem determina a ortografia a aplicar “no sistema educativo”, “ao Governo” e “a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo” não somos nós, aqui muito sossegados e entretidos a ler este texto: quem determina a ortografia é o Governo — confesso que cada vez mais me parece judicioso deixar de se confiar ao Governo a determinação de uma ortografia a aplicar seja onde e a quem for, tendo em conta a crónica inaptidão, reiteradamente demonstrada pela autoridade, para aplicar aquilo que tão assertiva e sobranceiramente se dispõe a determinar.
Só quem andar profundamente distraído poderá aceitar que um texto como o deste Relatório – com “medidas de carácter fiscal” e “medidas transversais de caráter fiscal“, “medidas sectoriais” e “medidas setoriais” ou “expectativa de manutenção das taxas de juro” e “expetativa do valor futuro” – foi redigido “ao abrigo” de um instrumento que regula uma ortografia.
Apesar de tudo aquilo que tenho visto por aí, confesso a minha perplexidade perante fenómenos como o do “fato de ser intenção da tutela” (sim, na página 163 do Relatório).
Só quem sofrer de distracção crónica poderá acreditar que um texto com, apesar de tudo, excelentes exemplos de palavras em ortografia portuguesa europeia, como direcção, acção, protecção, reflectem, activo, subfacturação, Janeiro, electrónica, colecta, respectiva, Junho, colectivos, afectas, Julho, directos, indirectos ou efectiva, se encontra “escrito ao abrigo do…”. Esperem, perdi-me. Ao abrigo de quê?
Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
José Saramago e o pato do dia
Depois do pato com laranja, a nouvelle cuisine ortográfica inventou uma receita: o “pato com o diabo”. Não me espantaria que tivesse origem na criação de patos de silêncio, esses simpáticos palmípedes anunciados ao mundo graças aos bons ofícios do chamado acordo ortográfico. [Read more…]
O estranho caso do Embaixador mal informado
Tenho para mim que o desempenho de altos cargos constitui uma responsabilidade e não propriamente um privilégio. É por isso que um ministro, um deputado ou um diplomata devem ter um cuidado acrescido quando tomam decisões, quando dão opiniões ou quando resolvem prestar esclarecimentos.
Mário Vilalva, Embaixador do Brasil em Portugal, tendo constatado que “em Portugal há algumas resistências ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, resolveu “proceder a um esclarecimento dos factos.” No entanto, decerto por estar mal informado, em lugar de esclarecer, publicou mistificações.
Aconselhá-lo-ia, antes de mais, a ler a carta aberta que lhe dirigiu Luís Canau. Encontrará aí informação abundante, esclarecida e, portanto, esclarecedora.
Tendo, ainda, em conta que o embaixador brasileiro parece acreditar que o chamado acordo ortográfico poderá contribuir para interligar “os nossos mercados editoriais sem custos adicionais” e que “livros, materiais didáticos e programas de educação à distância poderão ser reproduzidos sem os custos de adaptação do idioma a públicos diferentes”, atrevo-me a recomendar-lhe a leitura de dois textos publicados no Aventar: O mundo encantado das edições únicas e Editora Leya confirma inutilidade do acordo ortográfico.
A uniformização ortográfica e o consequente unicórnio das edições únicas correspondem a mitos que urge erradicar de vez. Esperamos contar com a ajuda do representante do Brasil em Portugal para que isso aconteça, agora que os factos ficaram esclarecidos.
A boa prática das aspas e o *busão de Higgs
O manual de boas práticas do jornal A Bola parece estar a fazer escola. O próximo passo será o de pôr entre aspas todas as palavras escritas em AO90, não se limitando essa boa prática àquelas que se encontram no título.
O passo seguinte? É fácil: abandonar as aspas e, como Daniel do Rosário (e não só), cumprir o disposto quer no Decreto n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945, quer no Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro.
Post scriptum: Ao contrário daquilo que por aí se escreve, não é *busão. Não, não é: é bosão. Escrito isto, parabéns a Peter Higgs e a François Englert e uma merecida homenagem a Robert Brout. Para terminar, o New York Times explica o bosão (sim, bosão).
Os donos da língua
Pinda Simão, que se reuniu hoje em Lisboa com o ministro da Educação português, Nuno Crato, afirmou que Angola quer “fazer incidir esforços” na qualidade do ensino, referindo que em três províncias, Namibe, Benguela e Cabinda, há professores portugueses que estão envolvidos na formação de professores, em Língua Portuguesa, Matemática e Educação Física.
O texto é da Lusa, escrito, portanto, segundo o chamado acordo ortográfico. Por acaso, foi publicado no jornal i, que não adopta o chamado acordo ortográfico. Os professores portugueses, em Portugal, são forçados a aplicar, nas escolas portuguesas, o chamado acordo ortográfico.
Alguns professores portugueses estão em Angola, participando na formação de professores angolanos. Angola não aplica o chamado acordo ortográfico, continuando a utilizar a ortografia de 1945. Deduzo, portanto, que os professores portugueses não possam utilizar, em Angola, o chamado acordo ortográfico que são obrigados a utilizar em Portugal, pela simples razão de que não seria aceitável esses mesmos professores imporem uma ortografia portuguesa a uma escrita que é angolana. [Read more…]
Estacionamento ilegal para autocarros de Lisboa duas horas e meia por dia
Parece, à primeira vista, bastante peregrina a possibilidade de o estacionamento dos autocarros lisboetas ser considerado ilegal durante duas horas e meia por dia. Contudo, será mesmo disso que se trata:
Estacionamento ilegal para autocarros de Lisboa duas horas e meia por dia.
Não? Não, nem por isso.
Felizmente, como o Público não foi atrás do mito da “unidade essencial“, a mensagem não sofreu os danos colaterais causados pela base IX do Acordo Ortográfico de 1990.
Sim, há esperança.
É possível acordar melhor?
A Comissão de Educação do Senado brasileiro resolveu “criar um grupo de trabalho destinado a estudar e apresentar proposta para aperfeiçoar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990 por todos os países de língua portuguesa.”
Desse grupo de trabalho fará parte Ernâni Pimentel, criador do movimento Acordar Melhor, que visa “propor uma simplificação na ortografia para que todos a dominem e se libertem de dicionários e manuais, na hora de escrever x/ch, j/g, s/z, s/ss/sc/sç/x/xc.” O mesmo movimento combate o recurso à memorização e defende que a simplificação ortográfica dará origem à inclusão social.
Já tinha exprimido a minha opinião sobre os pressupostos deste movimento. Insisto: a aprendizagem, tal como qualquer outro processo, deve estar a salvo de obstáculos artificiais ou escusados, mas partir do princípio de que se deve facilitar para que todos possam aprender ou de que o treino da memória deva ser excluído é, antes de mais, antipedagógico e, portanto, censurável. Para além disso, sempre encarei os dicionários e os manuais como instrumentos de libertação.
Relembre-se que o senador Cyro Miranda, presidente da Comissão acima referida, já havia defendido que o início da vigência do acordo ortográfico deveria passar para 2018 e não para 2016, de modo a serem feitas alterações.
Face a isto, não me espantará que venham a surgir alguns linguistas portugueses a defender que verbos como “axar” ou “puchar” fazem todo o sentido. Vai ser o “mássimo”! Basta que haja pressões nesse sentido.
Talvez por aqui apareçam alguns iluminados a fazer referência ao meu antibrasileirismo por atacar esta coisa a que chamam acordo ortográfico ou porque me atrevo a discordar de opiniões de brasileiros, pecado capital para os seguidores da Lusofonia, cujos fiéis vociferam “nacionalista” ou “colonialista”, sempre que um português tem o atrevimento de criticar qualquer cidadão de outro país de língua portuguesa. Não me espantaria, aliás, que Millôr Fernandes viesse a ser queimado em efígie. Ou em esfinge.
Respectivamente, sim, mas só para alguns
O Diário de Notícias entrevistou José Carlos — futebolista que, como se depreende e bem, nunca representou a selecção brasileira.
Pois, segundo o ILTEC, ‘respectivamente’ “não é usado em Portugal”.
Contudo, se a Folha de São Paulo tivesse entrevistado José Carlos, em vez de *respetivamente, teríamos ‘respectivamente’.
Bem-vindos, de novo, ao fabuloso mundo da “unidade essencial da língua portuguesa“.
Golpes de Machete
Em declarações à Rádio Nacional de Angola, Rui Machete pediu “diplomaticamente” desculpas por haver figuras do regime angolano a serem investigadas pela justiça portuguesa. Se, algum dia, vier a ser investigado, apesar de, por enquanto, não fazer parte do regime angolano, espero merecer o mesmo tratamento de um qualquer membro do governo português. Pela minha parte, estão, desde já, desculpados, mas que não volte a repetir-se.
Nessas mesmas declarações, Machete acrescenta às desculpas a declaração de impotência, lembrando que o governo português não pode intervir nas investigações. Resumidamente, o ministro pede desculpa a um país estrangeiro por haver um entidade pública portuguesa que, tanto quanto se sabe, está a cumprir o seu dever. Não deixa de ser uma novidade refrescante pedir desculpa por se cumprir um dever.
Para complementar o seu pedido de desculpas, Machete afirma que pediu informações à Procuradora-Geral da República. Posteriormente, veio desmentir as suas próprias declarações, explicando que se baseou num comunicado do DCIAP. Talvez alguém devesse explicar ao ministro que pedir informações a uma pessoa ou ler um comunicado não são a mesma coisa. Talvez não valha a pena explicar ao mesmo ministro que proferir incorrecções factuais é feio, porque já lá vai o tempo em que devia ter torcido o pepino. [Read more…]
André Almeida e Cédric vão jogar na selecção brasileira
Segundo estes títulos do jornal A Bola, André Almeida e Cédric terão sido convocados para a ‘seleção’. Assim sendo, Felipão está de parabéns: trata-se de dois jovens muito promissores e que, obviamente, não podendo jogar na selecção, merecem uma oportunidade alhures.
Desconhece-se o que terá levado A Bola a abandonar a excelente prática de pôr entre aspas palavras criadas pelo AO90.
Aliás, para quem andar distraído, talvez valha a pena indicar que ‘dececionado’ não existe em português do Brasil.
Bem-vindos ao fabuloso mundo da “unidade essencial da língua portuguesa“.
Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
Muito bem, João Semedo!

© Daniel Rocha/PÚBLICO (http://bit.ly/1dYfCKr)
Ao contrário da Portugal Telecom, o coordenador do Bloco de Esquerda não brinca em serviço e escreve impecavelmente expectativas e percepção, demonstrando que a ortografia portuguesa europeia é imune a expedientes desagregadores.
O relevante facto da irrelevância do Acordo Ortográfico
Esta notícia, bem recebida “no mercado”, foi confirmada através de um comunicado à CMVM e de um Facto Relevante. Perdão, fato: Fato Relevante.
Quando Zeinal Bava, Nuno Vieira e Luís Pacheco de Melo tiverem tempo, expliquem-me, sff, como é que vão descalçar a bota dos ‘contactos’ e dos ‘factos’ presentes no comunicado. Gostaria imenso de conhecer a reacção dos parceiros da Oi a tais exotismos ortográficos.
Escusado seria repetir que “convém reflectir sobre a dimensão desagregadora do exercício AO 90, considerando os inúmeros casos em que no Brasil se conserva a grafia anteriormente comum, passando em Portugal a adoptar-se uma grafia obscura e exclusiva”.
Contudo, no comunicado à CMVM, temos “respetivas holdings assinaram”, “assumirão, respetivamente, o cargo”, “os respetivos passivos”, o respetivo relatório de avaliação (laudo)” e “o respetivo arquivamento”, embora, no Fato Relevante, apareçam “respectivas regiões de atuação”, “respectivo laudo submetido”, “equivalentes a, respectivamente, R$ 5,8 bilhões”, “respectivos direitos de prioridade”, “respectivas participações”, “respectiva eleição”, “assumirão respectivamente“, “respectivo valor patrimonial” — pronto, já chega.
Não, não chega: no Fato Relevante, temos “perspectivas e expectativas“, mas, no comunicado à CMVM, surgem “perspetivas e expetativas“. Sim, expetativas e não expectativas — isto é, quando a semelhança aparece, recorre-se ao expediente desagregador.
Aguardo, confesso, com alguma expectativa, os próximos episódios desta telenovela da “unidade da língua portuguesa” e “[d]a sua universalização” ou da “unidade essencial da língua portuguesa” e do “seu prestígio internacional” — relativamente a este aspecto, a doutrina, aparentemente, divide-se.
Enquanto aguardo, com a tal expectativa, aproveito para fazer uma pergunta que nada tem a ver com (orto)grafia: os clientes portugueses da CorpCo poderão aceder ou terão de acessar? Era só uma pergunta.
E dois pedidos de esclarecimento: convinha explicar quer o motivo de o significado de ‘laudo’ aparecer no comunicado à CMVM, quer a razão para surgirem “5,8 mil milhões de reais” no comunicado à CMVM e “R$ 5,8 bilhões” no Fato Relevante. Afinal de contas, não nos esqueçamos, está em causa a “unidade essencial”.
Os contratempos da hipocrisia
Ontem, a versão sincera. Hoje, no rescaldo, a versão hipócrita. Como querem à força toda adoptar o inaplicável, vêem-se obrigados a recorrer à cirurgia plástica. Contudo, quando o operador é inábil, o insucesso está garantido. Porque os factores de risco existem. Pois. Esqueceram-se dos factores. Sim. Ide lá buscar o bisturi. Bem-vindos ao mundo da aplicação do AO90.
Na noite das eleições autárquicas, a versão sincera
Sim, já sabíamos: apesar de, há três anos, três meses e três dias, aquilo ter sido anunciado, no dia-a-dia, o que realmente acontece é isto: directa, colectiva, factores, direcção, Maio e ruptura. Se quiserem *direta, *coletiva, *fatores, *direção, *maio e *rutura, terão de esperar pela outra versão, a hipócrita. Exactamente.
Diretion? Diretion? Oh dear!
Leitor atento teve a amabilidade de me enviar esta ligação, com uma reportagem sobre os One Direction, transmitida durante a edição de ontem do Jornal das 8 da TVI — por qualquer motivo que me escapa, a ligação da TVI não funciona por estas bandas.
A base IV do AO90, sem qualquer valor científico – escusado seria acrescentar: sem qualquer ligação à realidade; contudo, por via das dúvidas e por descargo de consciência, acrescente-se e saliente-se: sem qualquer ligação à realidade –, constitui, como se vê, um desnecessário factor de perturbação da consciência ortográfica dos falantes/leitores/escreventes. A supressão, em português europeu, de consoantes com importante valor grafémico fará com que se projecte noutras línguas a arbitrariedade do novo código: contudo, felizmente para elas e seus respectivos falantes, essas línguas não foram sujeitas a reformas ortográficas caóticas, garatujadas em cima do joelho.
Casos como o deste *diretion tenderão a aumentar. Aliás, trata-se de problema já anteriormente mencionado. Esperem para ver. Ou não, não esperem. Se quiserem ver o desastre a instalar-se, basta olharem para o lado, assobiarem para o ar e encolherem os ombros: a ordem é aleatória – para não dizer facultativa – e até haverá quem olhe para o lado, assobie para o ar e encolha os ombros em simultâneo. Se não quiserem assistir ao caos instalado, têm bom remédio: não fiquem quietos.
Post scriptum: Não conheço – nem tenho, lamento imenso, particular interesse em conhecer – os One Direction. Assim, deixo-vos na companhia de uma das minhas bandas favoritas e de uma canção que corre o risco, se as coisas tomarem o rumo que se prevê, de qualquer publicação portuguesa que adopte o AO90 lhe transformar o Having trouble with my direction /Upside-down, psychotic reaction num ínvio (sim, ínvio) Having trouble with my diretion/Upside-down, psychotic reation:
Sim, de fato
A verdade, porém, é que, apesar de o final do período de transição ainda se encontrar distante, ao nível do ensino, das instituições oficiais, nacionais e internacionais, e das restantes entidades públicas, o AOLP90 já foi quase plenamente aplicado, como o Estado determinou, sem problemas de maior
No entanto, passados seis meses:
- “Discriminação do ato, fato ou contrato sujeito a liquidação”.
- “As dívidas por taxas prescrevem no prazo de 8 (oito) anos a contar da data em que ocorreu o fato tributário”.
- “A paragem dos processos de reclamação, impugnação e execução fiscal por prazo superior a 1 (um) ano, por fato não imputável ao sujeito passivo”.
- “No âmbito do Capítulo VI, Seção IV do anexo I da Tabela de Taxas do presente Regulamento (…)“.
Peço desculpa pela interrupção.
Agora, já podem continuar a encolher os ombros e a achar que isto não está a acontecer.





























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