O optimismo e a confiança foram dar uma volta

Volta e meia, lá me vêm com a lenga-lenga do optimismo e da confiança. É os senhores do governo, é os senhores da europa, é os
senhores do BM e FMI. Que não se pode ser pessimista. Que os pessimistas só criticam e não fazem nada. Só percebem de “bota-a-
baixismo”. Pedem-me optimismo? Pedem-me confiança? Mas então acham que eu sou um idiota. Pior, eu acho que estas pessoazinhas meias lunáticas, que estão aos comandos das grandes instituições, vivem numa realidade estranha e alternativa. Porque na “minha realidade”, eu consigo ver a confiança a desvanecer-se dentro do frigorífico. Lá dentro existem coisas que eu nem sequer compreendo. Na segunda prateleira está ketchup que contém estabilizadores, sorbato de potássio e benzoato de sódio. Como?!? Estou a comer, ou a fazer experiências em laboratório? O meu iogurte (além de um pouco de leite) contém E440, E415, E150a e E202 entre outras coisas estranhas. Passei 3 horas a ver o que são aqueles “E’s” todos. E alguns deles são garantia de causarem pessimismo e desconfiança… O que andamos a comer parece saído do Soylent Green. Só espero que continue no campo da ficção, mas como já vi ovos falsificados… eu desconfio sempre. E eu já nem falo na desconfiança perante toda a tecnologia que nos rodeia e que já ultrapassou largamente a nossa percepção comum. Essa parte dava para escrever um livro!
Agora também anda aí a pandemia dos porcos. Perdão. A União Europeia veio pedir que se diga Gripe Nova para não prejudicar os produtores de suínos e os respectivos negócios. Curiosamente, a gripe aparece no México, esse portento mundial de produção de porcos que, por acaso, praticamente anda em guerra com os Estados “Salvadores do Mundo” Unidos por causa do narcotráfico. Se querem construir um muro na fronteira, é porque o problema deve ser grave. Agora, apertam o cerco (ainda mais) na fronteira e ainda por cima o México vê-se na “obrigação” de contrair mais um empréstimo ao FMI, por causa da desvalorização do peso. Há mesmo Gripe Nova, ou é só uma manobra para conter um problema que a América não consegue resolver? E porque é que estas pandemias acontecem sempre em animais de quinta e não em cães e gatos? Será porque seria demasiado alarmante? Nós ainda vamos é ficar totalmente paranóicos sem saber em quem ou no que confiar! E ainda me vêm falar em optimismo? E em confiança? O optimismo e a confiança foram dar uma volta… e enquanto isso nós ficamos à espera que voltem. O problema é que nessa espera fartámos de questionar e questionar e questionar… e aparece o verdadeiro problema do pessimismo, ou, politicamente correcto, da falta de optimismo: perguntas. Questões. Dúvidas. Que levam à desconfiança. Quem lucra com esta atitude questionante? Não é o homem capitalista, de certeza!

A verdade é a coisa mais valiosa que possuímos. Por isso vamos tratar de economizá-la. – Mark Twain

Haja gente com coragem neste pântano em que se transfomou Portugal!
















E quem mais? Quem mais?

Um lapsus languae vale votos?

O presidente da distrital do Porto do PSD, Marco António Costa, não perdeu a oportunidade. Depois do aparente deslize de Manuela Ferreira Leite, ontem, o número dois de Luís Filipe Meneses em Gaia veio garantir, esta tarde, que era contra o bloco central porque o PS e o PSD de hoje têm ideologias que não são conciliáveis.

Por mim, acho que a questão não está tanto nas ideologias mas mais nos interesses estratégicos e políticos, nas opções e, sobretudo, nas personagens.

Por estranho que pareça, apesar de tudo, o vice-presidente da Câmara de Gaia refere que só "razões patrióticas" justificariam uma união de esforços de vários partidos. Estranho. Para mim, a gestão do país, a liderança ou presença num governo é sempre uma razão patriótica.

A maior parte dos políticos garante que está na política porque quer o melhor para o país, mesmo à custa da carteira pessoal. Juram que perdem dinheiro. Logo, o bem do país, suponho, será uma razão patriótica. A principal. Mas, enfim, são opiniões.

O intróito na matéria serviu outra finalidade. No seu estilo implacável, Marco António Costa aproveitou para salientar que a líder do partido fez “um auto-desmentido". Uma classificação potente. Manuela Ferreira Leite não foi mal compreendida, mal interpretada, não houve maldade na forma como as suas palavras foram apreendidas, não foi um lamentável lapso de expressão. Nada disso. A líder auto-desmentiu-se.

Nem no próprio partido, nem em tempo de preparação para três actos eleitorais, Manuela Ferreira Leite tem uma trégua. E por culpa própria.

Sócrates e Einstein

 

Senhor primeiro Ministro:

Como não ouve os pobres mortais seus contribuintes e concidadãos e porque tudo já foi ou está ser feito por V.Exª e seus ministros, talvez aceite o conselho deste homem. É um homem tão inteligente que foi capaz de ser humilde!

“Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar “superado”.
Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la.”

(Albert Einstein)

Descubra porque Sócrates e Oliveira se amam*

socrtes-e-oliveira* Indecentemente roubado ao Nuno Ramos de Almeida nesta caixa de comentários.

Os idealistas e os oportunistas

                        
Cito Carlyle de memória: as Revoluções são feitas por idealistas e quem delas se aproveita são oportunistas da pior espécie.

Exclusivo TVI

 
Quando a TVI publicou o DVD da discórdia sabia ou não que Charles Smith já tinha declarado à polícia Inglesa que tinha mentido quanto a Sócrates?
Uma das leituras que se pode fazer do DVD é a seguinte. O mister “apochou” a massa, o patrão está a arder com 400 000 contos para os quais não tem justificação e quer saber quem “enriqueceu” à sua custa! A maneira mais fácil é dizer que a entregou a alguem para poder licenciar o Freeport. Mas com a existência do DVD fica com um grave problema às costas.
Confessa um crime de “corrupção activa” e põe-se a jeito para apanhar com um processo por difamação! E o crime de corrupção activa dá 5 anos de gaiola!
E agora? Agora safa-se do crime de corrupção activa mas fica com o crime de extorção e de enriquecimento ílicito e ainda com o crime de difamação. Como é que o mister Smith se vai safar disto?
O patrão quer os 400 000 contos e o Eng. Sócrates quer ver-se livre da embrulhada. A tentação é dizer que afinal ficou com a massa e a gastou em gelados e que nunca houve pagamentos de luvas e pedir desculpas públicas. Depois acerta contas com o patrão!
E se o patrão não tiver nada a perder com o arrastar do assunto? Ou mesmo se tiver a ganhar aí com um PIN à maneira? Palpita-me que tudo vai voltar ao ínicio. Porque estão elementos da família e pessoas próximas metidas ao barulho e porque razão, Sócrates não fez queixa ao PGR, quando o tio lhe comunicou que havia aí uns malandros a pedir muito dinheiro para se licenciar o projecto? E aqui está como o DVD não serve para nada! Notícia TVI!

Para onde nos leva o Governo Sócrates?*

buraco

* com um agradecimento à comentadora Rosarinho.

A Queima das Fitas

A Queima das Fitas do Porto 2009 já está a caminho.
Um evento ainda olhado de soslaio por muitos, desconhecido de alguns e uma aflição daquelas para muitas mães e pais. Foi, sobretudo, na década de 90 que a Queima das Fitas do Porto se impôs como uma das mais importantes festas populares do país. Lembro-me de em 1998 comentar com vários amigos que foi preciso ter a Expo 98 para se ver, em Portugal, um evento superior em número de entradas diárias numa só semana. Talvez muitos não saibam mas já em 1998 o pior dia das Noites da Queima conseguia, mesmo assim, meter no Queimódromo qualquer coisa como 50 mil almas. Nos últimos anos assiste-se a uma invasão pacífica de galegos atraídos por esta verdadeira Festa.
Como todos os que por lá passaram, também eu tenho inúmeras histórias da Queima. Não guardo com saudade esses dias. Adorei enquanto por lá andei, diverti-me como toda a gente mas foi uma época que já lá vai e sempre tive, pelo menos até hoje, a mentalidade de não suspirar pelo passado, apenas ansiar pelo futuro. Foi bom enquanto durou.
Uma coisa posso garantir, não há festa como esta. Por isso, caros estudantes, divirtam-se e façam o favor de ser felizes. (também AQUI)

Touradas

Recentemente a Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu proibir a realização de touradas na cidade. Não me interessa  tanto a medida em si, que terá certamente muitos defensores e outros tantos detractores, mas sim uma pergunta em concreto que a decisão suscitou a um jornalista. Neste caso, foi um pivot da SIC Notícias, cujo nome infelizmente não recordo. Perguntava este ao presidente Defensor Moura se estava certo de que a medida correspondia à vontade da maioria da população. Visivelmente pouco habituado, como de resto a maioria dos autarcas, a ser confrontado com esta questão, o presidente esquivou-se e foi necessário repetir a pergunta. E então respondeu que não precisava de saber isso, só precisava de saber que Portugal havia subscrito uma declaração de defesa dos direitos dos animais.

No que me diz respeito, gostaria que se acabasse de vez com as touradas, não tanto por proibição mas porque fosse crescendo uma sensibilidade que visse com repulsa os maus tratos infligidos aos animais. Mas pergunto-me porque razão tão poucas vezes se pergunta a um autarca se está certo de que qualquer uma das medidas que pretende implementar corresponde à vontade da maioria dos seus munícipes.

Responder-me-ao que não precisa de estar, foi eleito pela maioria para decidir e a contínua consulta aos cidadão atrasaria a tomada de decisões e tornaria a governação impossível. Mas não posso deixar de pensar que, pelo menos ao nível do poder autárquico, poderia e deveria ser de outro modo.

Queria a maioria dos portuenses que o teatro Rivoli fosse entregue às soporíferas encenações do sr. La Féria? Queria a maioria dos portuenses que a Avenida dos Aliados fosse despojada sem piedade de qualquer vestígio de árvores de sombra, flores, relva, bancos de jardim, para que em seu lugar se estendesse o cimento e se colocassem umas pobres árvores depenadas, que mais pareciam sobreviventes de um holocausto?

E, da mesma forma, podemos perguntar se era a vontade da maioria dos portuenses que se teve em conta quando se pensou entregar a privados a gestão do mercado do Bolhão, do pavilhão Rosa Mota, da praça de Lisboa, do mercado Ferreira Borges?…

Desculpar-me-ao se me centro exclusivamente na cidade do Porto, mas creio que não deverá ser difícil enumerar, em muitas outras cidades deste país, situações semelhantes. Afinal, com maior ou menor mestria, vamos todos sendo toureados.

Manuela Ferreira Leite convenceu-me a ficar distraído

Ferreira Leite

Mariano José Pereira da Fonseca, marquês de Maricá, brasileiro, foi escritor, filósofo e político brasileiro do século XVIII. Foi ministro das Finanças, conselheiro de Estado e senador do Império do Brasil. Foi doutor em filosofia e consagrado em matemática pela Universidade de Coimbra, em 1793. Como escritor, foi autor de várias obras, sendo “Máximas, Pensamentos e Reflexões” a mais conhecida. São quatro volumes, com um total de 3169 artigos. Por aqui já se vai tirando a pinta ao homem.

Lá pelo meio, o Marquês de Maricá, diz-nos que “Ordinariamente nos fingimos distraídos quando não nos convém parecer atentos”. Foi dessa frase que me lembrei quando soube da manifestação de intenções de Manuela Ferreira Leite, anunciada esta noite, em entrevista a Mário Crespo, na SIC.

Vejamos. A presidente do PSD foi questionada sobre o cenário em que se sentiria mais confortável, se numa aliança do PSD com o CDS-PP ou se num novo Bloco Central com o PS. Respondeu: "Eu sentir-me-ia confortável com qualquer solução em que eu acredite, em que eu acredite que a conjugação de esforços e, especialmente, a conjugação de interesses – interesses no sentido do país – são coincidentes. Se perceber que o objectivo país não é propriamente aquele que está no centro das atenções, então com dificuldade haverá um Governo que possa contribuir para a melhoria do país".

O que é que eu pensei? Com toda a certeza ando distraído para não perceber patavina desta frase. Para além da expressão redonda, da fórmula diz que não disse, como quem diz mas pode sempre, a qualquer momento, dizer que não foi bem assim, a presidente do PSD parece-me abrir as portas a qualquer acordo pós-eleitoral. Num jeito de “como não chegamos lá sozinhos, vamos para lá acompanhados, mas vamos para lá”. O “lá”, está bom de ver, é o poder, o governo.

Com objectivos claros de me sossegar, à Lusa, Ferreira Leite disse que "como é sabido" recusou sempre "a hipótese de um Governo de Bloco Central", considerando abusivo que se faça essa interpretação das suas declarações à SIC, que tinham sido gravadas.

Descansei. Afinal tinha razão.

Bem vistas as coisas, acho que vou fazer como o Marquês de Maricá.

Mas que raio faz um Capitão de Abril no PS?

Como baixar o desemprego sem querer

A ministra da educação e o primeiro ministro arranjaram uma forma espectacular de baixar o número de desempregados no país. Vão estender o ensino obrigatório até ao 12.º ano. Acho bem. Eu sempre adorei a escola. Eu e todos os meus amigos. Mas era a parte do recreio, onde se aprende bastante e as casas de jogos e bilhar que fervilham sempre em volta das escolas. Mas este facto deve ser coincidência. Ou seja, este novo pessoal que anda a passear os piercings no umbigo e o novo i-phone nas escolas, vai passear mais tempo até ao 12.º ano. E os que vierem a seguir, é que vão ficar com uma cabeça ainda maior, porque esses vão ter ensino obrigatório até pelos menos ao bacharelato. Com sorte, daqui a uns anos, vai ser obrigatório permanecer na escola até à apresentação final da tese de doutoramento. Assim, eleva-se o nível académico dos portugueses (parece que é difícil reprovar hoje em dia, não é?) e só começa a haver desempregados a partir, para aí dos 35/40 anos. Resolvem-se dois problemas de uma vez só. E ainda há quem critique as políticas do governo.
Se calhar sou eu que vejo mal as coisas. É que eu sou um dos pessimistas, e sou um alvo a abater pelos optimistas de Estado. Vejo sempre, mas sempre, o lado negativo das questões. Mas se calhar foi a presença, na conferência, do ministro do Trabalho, que me fez pensar que isto era uma manobra disfarçada de controlar os futuros números altos do desemprego. Mas se calhar foi só coincidência.

Regionalizar ou descentralizar ?


Este país está gordo e anafado com com uma enorme classe política e com uma multidão de funcionários públicos. Não podemos correr o risco de o engordar ainda mais. Se me dizem que é preciso, urgentemente, descentralizar profundamente com efectivas capacidades de decisão e meios financeiros e humanos para o resto do país, estou completamente de acordo.
Quanto ao regionalizar é mais complicado. Já estive em Espanha com funcionários e políticos e sei no que dá. Felizmente que nós não temos os problemas regionalistas que a Espanha tem. Regionalizar pode ser, por exemplo, assentar orgãos regionais nos presentes orgãos locais. Pode ser eleger executivos que são constituídos por meia dúzia de pessoas e não as Assembleias com dezenas… é preciso que não se crie mais uma classe de burocratas. E não sejamos ingénuos, todos os lugares eventualmente criados por uma possível regionalização já têm dono.

D. MANUELA E A REGIONALIZAÇÃO

PRIORIDADES

Para a chefe do PSD, a regionalização, se bem que sempre falada e discutida, não é prioritária. Esquece a D. Manuela, que o País precisa de uma descentralização grande e urgente. E que essa descentralização não se faz por causa dos detentores do poder, que não querem sair do Terreiro do Paço, nem deixam que os poderes que detêm, por mais pequenos que sejam, saiam da beira deles ou do seu controlo. Por isso, só uma regionalização, pode acabar com esse estado de coisas, acabando com a hipótese do poder estar noutro lado que não seja a região para a qual tem e deve, servir.
A D. Manuela está enganada. Grande parte dos filiados no seu partido, e nos outros também, já viram as vantagens que a regionalização tem. Estará na hora da senhora também ver.

O castigo dos porcos

Agora é que é. Parece que é agora que vamos morrer todos. Ou quase.
Há uns dois anos atrás, era a gripe das aves, agora é a vez dos porcos.
É impressão minha ou agora passou a moda termos uma pandemia de tempo a tempos? E ninguém questiona o porquê destas situações?
Nós, os humanos, culpados? Não! Isto não tem nada que ver com a contaminação dos solos com poluentes e pesticidas. Não, isto não tem nada a ver com as condições industrializadas e diabólicas em que “produzimos” animais para o matadouro. Não, isto não tem nada a ver com os transgénicos e restantes trapalhadas das empresas de adubos. Não, isto não tem nada a ver com a poluição toda dos cursos de água. Não, isto não tem nada a ver com o “nosso modo de vida”.
Isto tem a ver com os porcos! E a culpa é toda deles. Castiguemos os porcos. É matar os porcos todos e fazer uns novos resistentes a estes vírus que aparecem miraculosamente na natureza. De certeza que um cientista qualquer consegue provar que isto “é natural”.

TRAVESTIDOS

TVI – JORNAL DA NOITE

Gostei de ver o dr Medina Carreira a zurzir no governo, a fazer coro com a d. MMG. Segundo este ilustre do nosso País, um dos mais esclarecidos que por cá há, estamos mal e vamos ficar pior.
Não largam o nosso Primeiro (a TVI) e fazem bem, que é para isso que fazem jornalismo, que deve ser isento. Foram largos minutos a bater no homem, com o comentador de serviço a ajudar bastante à festa.
Mais uma vez, gostei deste jornal de sexta-feira.

PAIXÃO VIOLENTA

HOMICÍDIO TRAVESTIDO

Não é costume, na nossa terra, saber da morte de um oriental. E de morte violenta é ainda mais anormal. Se se disser que é o segundo homicídio, em três dias, envolvendo orientais, então o caso transcende a mais completa normalidade.
O caso do travesti assassino, pode trazer à baila a acusação feita por um sr com responsabilidades no mundo político Português, que usou a expressão para qualificar de forma insultuosa e degradante os jornalistas do Jornal da Noite da TVI. Hoje como nunca os travestis estão na boca do mundo. Uns matam politicamente, outros efectivamente.
Tudo isto deverá ser classificado de crime passional.
Todos o farão com, e por paixão.

É duro ser liberal


Ao fim de vinte anos de desregulação dos mercados, da globalização sem a consequente regularização global, o mundo caiu numa depressão económica sem precedentes. É preciso voltar a 1930 para se encontrar algo parecido. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres acentuou-se, há vastas áreas do globo na miséria. Mas os nossos liberais não se atemorizam com tão pouca coisa. Lançam mãos do seu inimigo de estimação – o Estado- para saírem do buraco. E do dinheiro dos contribuintes. Os exemplos, embora menos visíveis, acumulam-se resultantes das malfeitorias da “mão invisivel do mercado”. A América do Sul, com potencialidades económicas extraordinárias nunca saiu da pobreza. Produtores de petróleo como a Venezuela o mais que conseguiram foi criar uma elite endinheirada indiferente à miséria do resto do povo. No Chile e à boleia da ditadura de Pinochet, Friedman e os seus boys aplicaram os seus princípios neo-liberais à economia só possíveis no ambiente do Chile torcidário, e em ditadura. Porque é preciso ver que os princípios teóricos do neo-liberalismo, são inaceitáveis para quem é cobaia. “Há sempre quem queira trabalhar por um salário mais baixo” diz quem não concorda com a fixação do salário mínimo.Pois há , se não tiver qualquer alternativa, e se não se importar de viver na miséria. A verdade é que uma doutrina filosófica e política que assenta na “liberdade individual” é travestido, quando aplicado na economia, num ferrete de miséria e humilhação. E quando a feira é levantada quem paga a factura são a imensa mole de trabalhadores a quem o liberalismo com desprezo paga salários de miséria. É duro ser Liberal!

Azul, sff:

Eu sei o motivo. Até o podia compreender. Mas não consigo.

Logo hoje que  meu FCPorto ganhou e , pé ante pé, se aproxima do Tetra. Eu não consigo escrever num blogue assim, completamente vermelho. Mas o 25 de Abril foi vermelho? Eu julgava que tinha sido branco, azul, rosa, vermelho, laranja, CMYK, RGB, etc. Um Abril de todos e para todos. Ou será património exclusivo da esquerda vermelha? Ou a cor deriva da tonalidade do cravo? Para mim, o 25 de Abril representa a Liberdade e esta não se coaduna com uma cor em exclusivo.  A liberdade de todas as cores, de todos os tons. De todos os credos. De brancos e pretos e amarelos e castanhos e rosados.

A LIBERDADE. ponto. Vou ter de esperar pela muda da cor…

Por um país sem correntes…

25_de_Abril_by_CantosDePortugal

A imagem chama-se “25 de Abril”. Apenas. É da autoria de alguém que se identifica como CantosDePortugal. Está no Deviantart, um dos sites mais populares da Internet e que é uma montra para artistas de diversas especialidades.

Não sei quem colocou os cravos numa corrente ferrogenta. Nem sei se foi uma encenação para a foto. Mas isso também não me interessou. Interessou-me apenas a imagem de um país que se viu liberto das correntes que o impediam de chegar à liberdade.

Ainda falta cumprir Abril? Pois falta. Mas a culpa é de todos nós.

Memórias da Revolução: 26 de Abril de 1974


Termino aqui a «leitura» das capas do «Jornal de Notícias» durante o mês de Abril.
No dia 25, o «JN» teve duas edições. A primeira, a normal, tinha como manchete a visita do Subscretário de Estado da Segurança Social, Ivo Cruz, a Coimbra. São mil as carências na Assistência e excessivo o número de instituições.
O «JN» continua com a campanha contra o aumento do preço dos telefones. «Subiram os preços: Subirá também a qualidade do serviço?»
A nível internacional, a campanha presidencial francesa decorre sem tabus. Morreu, de cancro, o cómico Abbott.
No desporto, Joaquim Leite terminou a etapa da Vuelta na Montanha da Vuelta. Na Taça das Taças, o Sporting foi eliminado pelo Magdeburgo.
Poucas horas depois da saída do jornal, já estava a Revolução na rua e o «JN» publica uma edição especial. A capa, como é óbvio, é totalmente dedicada aos acontecimentos da madrugada, bem como a maior parte do jornal. «Movimento das Forças Armadas desencadeado em todo o país». As forças estão concentradas no Terreiro do Paço desde as três horas da manhã. Duas fotos com tanques no Porto intercalam mais dois títulos: «PSP e GNR não intervieram». «Tranquilidade nas ruas do Porto».
Os comunicados do MFA, diz o «JN», estão a ser difundidos através dos emissores do RCP. Os Aeroportos estão encerrados.
Chegara a Revolução.

Zeca Afonso em Caxias – Era um Redondo Vocábulo

Zeca Afonso também esteve preso em Caxias. Ali escreveu «Era um Redondo Vocábulo», do álbum «Venham Mais Cinco». «A fúria crescia / clamando vingança», dizia o autor nessa canção.

«Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa.»

Os presos políticos de Caxias

Eis a lista dos presos políticos que saíram a 26 de Abril. Uma homenagem a todos os que sairam e a todos os que não resistiram:
Hermínio da Palma Inácio, José Manuel Tengarrinha, António Dias Lourenço, Maria Helena Vidal, Marcos Rolo Antunes, Mário Ventura Henriques, Nuno Teotónio Pereira, Figueiredo Filipe, António Luís Cotri, José Alberto Costa Carvalho, Mateus Branco, Fernando Pinheiro Correia, Maria Helena Neves, Vítor Manuel Caetano Dias, Joaquim Gorjão Duarte, José Manuel Martins Estima, Pedro Mendes Fernandes Rodrigues Filipe, Orlando Bernardino Gonçalves, José Ferreira Fernandes, Norberto Vilaverde Isaac, Manuel Miguel Judas, Albano Pedro Gonçalves Lima, Vítor Serra Lopes, José Rebelo dos Reis Lamego, Carlos Manuel Simões Manso, Horácio Crespo Pedrosa Faustino, António Pinheiro Monteiro, Maria Elvira Barreira Ferreira Maril, Armando Mendes, Liliana de São José Teles Palhinhas, António Manso Pinheiro, João Duarte Pereira, Eugénio Manuel Ruivo, Maria Rosa Pereira Marques Penim Redondo, Fernando José Penim Redondo, Fernando Domingues Sanches, Manuel Gomes Serrano, Ezequiel de Castro e Silva, João Pedro de Lemos Santos Silva, Carlos Manuel Oliveira Santos, José Adelino da Conceição Duarte, Acácio Frajono Justo, Rafael dos Santos Galego, Ramiro Antunes Raimundo, Margarida Alpoim Aranha, Luis Manuel Vítor Moita, Maria Vítor Moita, Manuel Policarpo Guerreiro, Maria Fernanda Dâmaso de Almeida Figueiredo, Manuel Martins Felizardo, João Filipe Brás Frade, Joaquim Brandão Osório de Castro, Fernando da Piedade Carvalho, Carlos Alberto da Silva Coutinho, Maria de Fátima Pereira Bastos, Maria Rodrigues Morgado, Carlos Biló Pereira, Fernando Nunes Pereira, Ernesto Carlos Conceição Pereira, António Manuel Gomes Rocha, António Vieira Pinto, José Casimiro Martins Ribeiro, Henrique Manuel Sanchez, Mário Abrantes Oliveira da Silva, Amado Jesus Ventura Silva, Manuel José Coelho Abraços, Manuel dos Santos Guerreiro, Maria Manuela Soares Gil, Luís Filipe Rodrigues Guerra, João Boitout de Resende, Álvaro Monteiro Rodrigues Pato, Ramiro Gregório Amendoeira, Vítor Manuel Jesus Rodrigues, Abel Henriques Ferreira, Ivo Brainovic, José Tavares Magro, Rogério Dias de Carvalho e Miguel Camilo.
Para além destes homens, que saíram de Caxias logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, não devemos esquecer todos aqueles que por lá passaram nos anos anteriores. Álvaro Cunhal, Francisco Miguel Duarte, Domingos Abrantes, António Joaquim Gervásio, Francisco Louçã, Arnaldo de Matos ou Zeca Afonso.

A sombra de Caxias (IV – A libertação dos presos políticos)

continuação de I, II e III)
 
Uma das primeiras medidas a tomar depois do fim do regime prendia-se com a libertação dos presos políticos, que continuavam em Caxias e noutras prisões. Para esses, detidos por razões exclusivamente políticas, a liberdade começou mais tarde.
Uma das facções mais radicais do MFA defendia que a libertação de Caxias se processasse de imediato e sem quaisquer tergiversações. Já outros sectores, mais moderados, eram da opinião de que os crimes de sangue deviam ficar de fora. A primeira posição acabou por sair vencedora, embora a abertura das portas não se tivesse processado de imediato.
A prisão foi tomada às sete da manhã por um grupo de fuzileiros especiais e pára-quedistas, comandados respectivamente pelo Comandante Monteiro Serra e pelo Capitão Mário Pinto. Comandava então a prisão de Caxias o Tenente Neves de Matos, elemento da GNR. Sem oferecer resistência, entregou-se às forças que tomaram posse do complexo e ali ficou sob o seu controle.
Na mesma altura, o grupo comandado pelos Comandante Monteiro Serra e Capitão Mário Pinto, já referidos, prendeu sem qualquer resistência vários elementos da PIDE/DGS. Entre eles, quatro agentes motoristas e os inspectores Passos (director do estabelecimento prisional), Parra da Silva (director do reduto norte) e Tinoco, ligado à investigação.
Barbieri Cardoso, um dos mais conhecidos inspectores da PIDE, o inspector Mortágua e o chefe de brigada Inácio Afonso poderiam também estar presos, numa altura em que ainda não se sabia muito do que tinha realmente acontecido. O «Expresso» do dia 27 de Abril de 1974, escassas horas depois do acontecimento, levantava ainda esta e outras hipóteses acerca de eventuais detenções.
Pode-se considerar uma grande operação mediática, o momento da libertação dos presos de Caxias. Chegaram os jornalistas à parada e os presos começaram a lançar cravos vermelhos sobre eles, iguais às que os fuzileiros tinham a ornamentar as suas armas.
Aproximava-se o grande momento. A ordem definitiva é recebida no interior da prisão e os fuzileiros que a guardavam começam a abrir as celas. Nove mulheres e setenta homens abraçam a liberdade com todas as suas forças e saem finalmente para o exterior.
No entanto, de repente, um «golpe de teatro». Os jornalistas recebem ordem de retirada e os presos são obrigados a recolher de novo às suas celas. Momentos antes, Spínola acabava de dizer que era preciso estudar o caso daqueles que tinham cometido crimes de sangue.
Foi apenas uma questão de horas. O MFA impôs a sua vontade e, à noite, os presos acabaram mesmo por ser todos libertados.
Nesse histórico 27 de Abril de 1974, as objectivas dos fotógrafos e as câmaras da RTP fixaram para a posteridade os mágicos momentos da libertação de Caxias. Quem não se lembra dos longos abraços entre familiares, amigos e camaradas! Quem não se lembra dos fartos bigodes e boinas na cabeça dos recém-libertados! Quem não se lembra das comovidas expressões «Ó meu amigo!», «Ó meu amor!», ou das mais prosaicas «Fixe, pá, fixe!»
Quem não se lembra de que, naquele dia, em Caxias, concelho de Oeiras, «a liberdade passou por aqui».

13.00 – Início da libertação de Caxias

13.00 – Uma Força de Fuzileiros e Paraquedistas comandado pelo Cap.Ten. Abrantes Serra e Cap. Mário Pinto, ocupam o forte de Caxias colocando a GNR sob seu controlo. Apesar de algumas hesitações por parte da Junta, até ao fim do dia todos os presos políticos seriam libertados.
in http://www.25abril.org/index.php?content=1&c1=8&c2=15

01.30 – A Junta de Salvação Nacional


01h30 – A Junta de Salvação Nacional – de que fazem parte o capitão-de-fragata António Rosa Coutinho, coronel Carlos Galvão de Melo, general Francisco da Costa Gomes, brigadeiro Jaime Silvério Marques, capitão-de-mar-e-guerra José Pinheiro de Azevedo e o general Manuel Diogo Neto, ausente do Continente – apresenta-se à Nação, através da Rádio Televisão Portuguesa, lendo uma proclamação e tendo o general António de Spínola como Presidente.

in http://www.instituto-camoes.pt/revista/cronologia.htm

Vinte e Cinco de Abril

Estava eu a insultar-me em surdina porque não ligo nada à História do meu País. Pois não. Não foi intencional. Foi uma questão aleatória e uma questão de marketing de outros assuntos. Peço desculpa à História Portuguesa e prometo ser breve em querer saber mais sobre este País.
Mas para conhecer um pouco mais a História, nada como fazer um desvio aos registos escritos, e ir às “outras” fontes, as pessoas. Perguntar-lhes coisas. Nos livros vem a História, mas as emoções ficam nas pessoas. Saber o que sentiram. Saber como se sentiam. Saber como se sentem agora.
Toda a gente a quem perguntei sobre o 25 de Abril considera que estamos melhor. Não muito melhor, mas melhor. O que já é bom. O contributo passado das pessoas envolvidas deveria ser uma inspiração para as pessoas do futuro. Mas as pessoas que sentiram na pele o que é a falta de liberdade começam a desaparecer. As figuras históricas começam também a nos abandonar. Quanto mais tempo for passando, quer queiramos quer não, o 25 de Abril passará a ser um capítulo de um livro de História. Como a implantação da República. Como o Condado Portucalense. Como Viriato. Como todas as grandes figuras.
No entanto, estas pessoas de grande coragem garantiram um lugar na História. Isso é inegavelmente a prova de participação num evento da maior importância. Quantos de nós queremos figurar também nos livros? Quem tem coragem e força para figurar na História?
À distância de 35 anos, eu apenas posso sentir muito ao de leve, a onda de choque da acção revolucionária. Mesmo a esta curta distância, já se começa a perder informação. O que era completamente proibitivo, começa a ser nome de praça. Fulano que era bom, já começa a parecer dos maus. Afinal parece que foi tudo combinado antes, para não haver um banho de sangue. Afinal parece que foi uma reivindicação não satisfeita, que fez elevar capitães e soldados rasos. Não sei. As figuras já começam a ficar desvanecidas, os cenários e a informação seguem o mesmo caminho. Não falo por mim, mas falo pelo que me rodeia. Falo pelas opiniões de quem por lá passou.
Eu, particularmente, considero o 25 de Abril uma elevação de pequenos contra grandes. Uma elevação dos oprimidos contra os seus opressores. O sinal de que é possível derrubar o opressor, independentemente do seu tamanho ou raio de acção.
Convém relembrar o factor mais importante da Revolução. Pelo menos para mim. Obviamente como em todos os “regimes”, o poder não reside na cabeça, como é costume ouvir-se dizer. O poder de um regime reside no número e na força dos seus apoiantes. O problema não é Salazar. Estou farto de ouvir falar em Salazar. Salazar, esse sujeito rude e implacável, que caiu de velho e morreu rodeado de uma orda de apoiantes cegos, que lhe fizeram crer que ainda era o Presidente do Conselho? Salazar não é o diabo. O “diabo” é aquela massa de gente idiota que vai sem pensar nem questionar, para onde lhe apontam o dedo. Esse é o verdadeiro problema.
O problema está no “PIDE”, um cidadão que espanca ou tortura outro cidadão. O problema está no funcionário sem escrúpulos que usa da ameaça de cadeia para roubar mais umas coroas ao seu co-cidadão. O problema está na mente distorcida e paranóica do “bufo”.
O Povo unido jamais será vencido. Vencido por quem? Por Salazar? Ou pela corja do Regime? O Povo é quem mais ordena. Se agora parece que o Povo nada ordena, então algo está muito errado.
O 25 de Abril é uma ideia de Liberdade. Liberdade? Que tipo de liberdade? Cresci a ouvir que o fascismo retira a liberdade. Visto pelos livros, o fascismo e os outros sistemas políticos que por cá passaram, apenas conseguiram fazer sempre a mesma coisa: tirar a muitos para dar a poucos.
A minha geração convenceu-se que a democracia é a solução. Agora, começa a perceber que o que aconteceu é que apanhamos a fase boa de transição. Já deu para perceber que seja qual for o “-ismo” ou “-cia”, tudo descamba sempre para o mesmo lado: para o lado do mais rico e poderoso. Portanto, pensando bem, estaremos de facto livres, ou apenas menos presos?
O 25 de Abril entra na crise dos 40 aos 35. O País começa a perder força, porque a Revolução começa a perder força. Preocupante, já que muita gente anónima começa a pedir uma nova ditadura e um novo ditador. Se calhar por isso, muita gente anónima começa também a pedir uma nova revolução, um “novo 25 de Abril”. Se calhar porque, há 35 anos, não foi o povo português que quebrou. Quem quebrou foram os militares. O Povo descontente continuou a aguentar. No entanto, percebo que, mais cedo ou mais tarde, o Povo quebraria. O militares têm sempre a vantagem de serem organizados e armados, contrariamente ao Povo que tem mais músculo, mas menos discernimento. Desta forma, é de extrema importância que o Povo tenha sempre os Militares do seu lado, assim como as Forças de Autoridade e a Justiça.
Talvez o factor mais marcante do 25 de Abril é ser o ponto de ruptura do povo português. É aquele ponto, aquele dia, em que as pessoas anónimas, sem poderes, juntas, dizem: Basta! Chega! Não suportamos mais! Qual é o nosso ponto de ruptura? Quanto mais teremos nós ainda de suportar?

Do interior da Revolução-O Fiel da balança

Depois do 25 de Abril houve uma explosão de alegria, de liberdade e até velhos tabus (as meninas tinham que ser virgens)levaram um piparote de todo o tamanho.Começamos a namorar mais apertadinhos, os teatros encheram-se de gente e de peças subversivas e os filmes que nos levavam a Londres para os poder ver começaram a aparecer por cá .Num desses teatros, após a peça, ficamos ali a conversar artistas com espectadores.Lembro-me muito bem de alguem da assistência dizer.Até agora estavamos todos a empurrar o mesmo muro para o deitar abaixo.”A partir de agora, para lá do muro, cada um de nós vai tomar a liberdade à sua maneira.Esse é o sortilégio da Democracia e o que faz valer a pena vivê-la.”No Movimento das Forças Armadas tambem foi assim.Todos queriam derrubar a ditadura mas havia muitos caminhos por percorrer. No 25 de Abril não terá havido vencedores e vencidos (enfim, vencido foi o regime e os fachos) mas em todas as outras datas, houve vencedores e houve vencidos. Uns que tentaram que o 25 de Abril fosse a continuação do regime, envolto numa aparente revolução.No 16 de Março alguem que tentou antecipar-se e ganhar vantagem numa ambição de poder pessoal.No 25 de Novembro forças que tentaram uma guinada à esquerda.Outros casos houve com mais ou menos repercussão.Em todos estes casos os vencedores ocasionais foram os vencidos ocasionais, conforme as forças em presença. Tentativas de banhos de sangue, que os vencedores ocasionais consideravam necessáros para ganhar vantagem definitiva.É preciso dizer, sem margens para quaisquer dúvidas que em todos estes casos, houve um núcleo de Capitães que nunca transigiram nos princípios e nos objectivos. Que defenderam os vencidos e que controlaram os vencedores ocasionais.Que prometeram a Democracia e um Estado de Direito e os entregaram por inteiro nas mãos de uma Assembleia Constituinte.Esses homens que constituem o núcleo central do Movimento das Forças Armadas têm nome e todos sabem quem são.Como em todas as revoluções há amarguras, azedumes, incompreensões e dúvidas.Mas não pode haver dúvida nenhuma acerca do papel fundamental exercido por esses homens.O de Fiel da balança sem o que teríamos tido banhos de sangue e, porventura, uma guerra civil!

Largo do Carmo

Nasci em 1976. O que sei sobre o 25 de Abril não o aprendi na escola porque, como aconteceu a muitos da minha geração, o ano lectivo esgotava-se antes que pudéssemos alcançar as últimas páginas dos manuais de História. Por isso crescemos a saber muito mais sobre a crise de 1383-85 do que acerca dos capitães de Abril.

O 25 de Abril era sobretudo o que se intuía da tremura emocionada na voz dos nossos pais quando o evocavam, das imagens que a cada aniversário as televisões repetiam, essas imagens a cada ano mais longínquas das chaimites nas ruas de Lisboa, da euforia, de uma emoção que parecia irrepetível. Era a mais maravilhosa das festas mas não era nossa.

A nós tocara-nos outra época, com as promessas de quem nasceu numa democracia, ainda que apenas formal, entre a esperança utópica e o desencanto cínico, num equilíbrio a cada dia mais difícil. Aconteceu-me, porém, há uns anos, uma noite de 24 para 25 na qual se fundiram estranhamente o passeio turístico e a revelação mística, frente ao quartel do Carmo. Havia por ali uns poucos grupos de jovens sentados no chão, nas soleiras das portas, à conversa. Um disparo de foguetes, uma súbita salva de palmas avisaram-nos que era já meia noite. Vozes longínquas começaram a cantar a Grândola. De onde vinham? Alucinávamos, talvez…

O largo fez-se enorme, o coração disparou como se algo estivesse prestes a acontecer, uma multidão fosse irromper de novo. Mas apenas a canção foi morrendo ao longe e os foguetes silenciaram-se. E foi então que o vivi. Na fantasmagoria desse largo agora deserto, na companhia de outros como eu, nostálgicos daquilo que não viveram, sedentos dessa emoção partilhada, foi então que eu o vivi.

Foi só um instante, esse em que um vento cálido varreu o largo e nele se sentiu a vibração de um momento histórico que não tinha sido nosso, mas no qual nos gestáramos. Foi só um instante mas eu senti-o. Emoção, razão e acção em harmonia, no acto mais unitivo da nossa história, que passara a ser meu, também.