A morte nas urgências da austeridade

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Enquanto o governo que optou por ir além da Troika continua a resumir a sua pseudo-reforma do Estado ao contínuo aumento de impostos e aos cortes em salários e pensões, a sociedade portuguesa apresenta-nos sinais preocupantes que colocam as franjas mais desfavorecidas da população em situações limite. Se os números da pobreza são mais que elucidativos, com o fosso entre ricos e pobres cada vez mais fundo, algumas situações que nos remetem para um passado distante ressurgem assustadoramente. Como é possível que milhares de boys partidários inúteis tenham ordenados superiores a 3 mil euros enquanto cada vez mais portugueses morrem literalmente de frio por não conseguirem pagar a contas da luz ou do gás?

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Os fundamentalistas de Lisboa

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É cíclico: de quando em vez as nossas direitas encanitam-se com Boaventura Sousa Santos. Não costumo seguir essas novelas mas desta vez dois detalhes irritaram-me e não foi pouco. Um humorista do Tejo, Tavares de seu nome, decidiu crismar o homem de “Noam Chomsky do Mondego“, e como não bastasse um analfabeto de Lisboa, conhecido por Zé Manel da Voz do Povo, desenvolveu para “evangelizador de Coimbra“.

Ora bem, esta peregrina ideia de atacar alguém pelo lugar onde reside e exerce a profissão, está mal. Dá muito para os lados da capital do provincianismo luso, suponho que seja da água que bebem, proveniente do Alviela que o rio ibérico não é potável há muito tempo. Neste caso fez-me ler ao que vinham, e vinham pelas patetices do costume, o multiculturalismo, o relativismo e a superioridade da civilização cristã ocidental, um conceito que tem tanto de científico como as previsões de uma vidente do Bairro Alto. [Read more…]

Ser amigo de Sócrates não é crime.

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Afonso Camões, actual director do Jornal de Notícias ocupa hoje duas páginas do jornal a responder a uma notícia do Correio da Manhã. Ora vamos lá resumir a coisa a ver se percebi bem:

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Hóquei júnior manteve-se na Divisão “A”

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Portugal garantiu na Polónia o sexto lugar na Divisão “A” de hóquei indoor júnior e mantém-se entre os oito melhores da Europa. Isto é história numa modalidade onde falta tudo. Excepto valor, competência técnica e mérito. E continuo a perguntar-me, como tantos outros nas mais variadas faixas sociais: com condições ligeiramente melhores e mais justas, até onde poderíamos chegar?! [Read more…]

A discriminação ainda existe em muitos lugares do mundo

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Esta semana fui surpreendido pela narrativa de uma amiga, emigrada na República Democrática do Congo, que partilhava a sua surpresa ao ir visitar o Jardim Zoológico, com uma amiga congolesa.
Ao comprarem os bilhetes, as duas foram surpreendidas com a diferença do custo dos mesmos que ambas tiveram de pagar para a mesma visita – a amiga que é natural do país pagou metade do valor do bilhete. Questionaram a razão da diferença nos preços e verificaram que a razão era a cor de pele, por ser muzungu (branca) a minha amiga teve de pagar mais.
Ao falar com ela, percebi que nos táxis e outros casos os valores são sempre superiores para as pessoas de cor branca.

Ficam-me as perguntas:
– O que têm feito os serviços diplomáticos dos países europeus para alterarem esta realidade no século XXI?
– Quando teremos este lema “Todos diferentes, todos iguais” uma realidade mundial?

Quem tem medo do salário mínimo mau?

Salário Mínimo

Disposto a correr o risco de questionar o distinto “economista, consultor de gestão e comentador de coisas” Carlos Guimarães Pinto (CGP), devo confessar que fiquei surpreendido pela superficialidade dos argumentos usados para literalmente responsabilizar o modesto e eleitoralista aumento do salário mínimo pela inversão da trajectória “mágica” dos números do desemprego em Portugal. Leigo que sou, estava convencido que tivesse sido obra das forças obscuras que se movem por trás dos arbustos para armadilhar a cruzada heróica e patriótica de Passos Coelho e entregar de novo o poder aos sinistros socialistas.

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A Escola de hoje explicada aos que não são professores

Cada um de nós tem um ponto de vista sobre a Escola e a Educação, quase sempre muito marcado pelo “no meu tempo“. No meu tempo os professores eram respeitados, no meu tempo os alunos aprendiam, no meu tempo… é que era.

Nada mais falso! Ou antes, nada mais presente. Isto é, eu explico.

Durante as duas últimas décadas do século passado a Escola foi confrontada com o desafio do crescimento. Em 1991 a taxa média de escolarização era de 4,6 anos e em 2011 era de 7,4 anos. Em 1970 a taxa de analfabetismo era de 25,7% e  em 2011 era de 5,2%. E, mais espantoso ainda, em 1991 o abandono escolar nos alunos entre os 10 e os 15 anos era de 12,6% e em 2011 de apenas 1,7%. Nos alunos entre os 18 e os 24, no mesmo intervalo de tempo, esta taxa passou de uns inacreditáveis 63,7% para 27,1%.

Obviamente, tudo isto foi possível com investimento. Segundo os dados disponíveis, em 1972 o investimento do Estado em percentagem do PIB era 1,4. Em 1980 3,1; em 1990 3,7; no ano 2000 de 4,8%, tendo atingido um máximo de 5,2% em 2002. Estamos, com Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, pela primeira vez, em muitos anos, abaixo dos 4%, algo absolutamente inacreditável no contexto europeu.

Em síntese, a Escola evoluiu e muito, algo só possível com investimento público. Claro que, com maiores taxas de sucesso, temos mais portugueses a acederem a mais formação e isso é um património que melhora a vida de cada um de nós, quer individualmente, quer no plano colectivo. [Read more…]

O verdadeiro perigo por detrás do ‘Estado Islâmico’ e dos terrorismos

lego_terroristaDiogo Barros

O atentado ocorrido a 7 de janeiro ao jornal satírico Charlie Hebdo reacende a questão do terrorismo islâmico da al-Qaeda, e também do Estado Islâmico a das suas supostas pretensões de reconquista dos territórios perdidos do Califado. A existência deste(s) grupo(s) terrorista(s) e as suas declarações serão, com muita probabilidade, o motivo mais claro e decisivo para fazer ressurgir o apoio popular a Estados totalitários, corporativistas e policiais, como os dos anos 20 e 30 do século XX. Estes, sim, o grande perigo para a liberdade.

Já se notam muitos tiques autoritários na atual III República para quem estiver mais atento ou for mais crítico. Tiques esses que não vêm de agora e são um claro sintoma de agonia do regime.
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A Bandeira da Suiça

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Tal como reclamado por alguns imigrantes islâmico-suiços de segunda geração.
Não queremos que ninguém se incomode; a pretensão tem vários anos.

Frio

Num extenso artigo de uma página o Público explica-nos que a crescente mortalidade invernal – que vem subindo desde 2011 e atinge números assustadores no ano corrente – tem um culpado: o frio! E umas complicadas mutações do vírus da gripe, esse sacana. Procurei diligentemente nesse estudo as razões porque diabo tantos portugueses insistem em se expor ao frio. Nada. De modo que deve ser uma nova mania. Há pessoas que desligam a luz, o gás e todos os sistemas que as poderiam aquecer. Outras que entregam as suas casas ao banco e vão viver para sítios esquisitos. Há pessoas que fazem dietas tão radicais que chegam a deixar de comer. Há até – imaginem! – pessoas que insistem em dormir na rua. Depois, acabam por ir para os hospitais que, apesar do esforço de razia…, perdão, racionalização promovida pelo ministro da tutela parecem não ser capazes de dar cabal resposta à situação. Porque será, estranho eu? O Público não explica. Devem ser os maus hábitos dos portugueses. Que esquecem que está à solta o inimigo de todos os maus costumes:o frio, bandido e único culpado. Diz o Público. É isso. O frio o frio o frio.

Olá, este é o Borat

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Se o Aventar fosse cobarde como a Oxford University Press é no seu país, esta imagem do Borat não poderia ser publicada no nosso país ao abrigo das leis do país sob pena de estar a ofender pessoas de outro país, ainda que elas não sejam obrigadas a ler as coisas publicadas noutros países ao abrigo da lei desses países.
Mas o Aventar não é a maior editora académica do mundo, o Aventar é apenas, e talvez, o mais abrangente e mais plural blogue de Portugal. Rege-se pelas leis gerais da nossa República, não as do reino da Arábia Saudita.

Os gatos e os deuses

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Por esta altura, os meus amigos já perceberam que gosto de gatos, que vivo com gatos (notem como evito dizer”tenho gatos”). Não sou o único, estou bem acompanhado. É interminável a lista das pessoas que admiro que têm – ou tiveram – gatos. A coisa vem de longe e nem sempre é uma história feliz.

Há dez mil anos, na Suméria e na Babilónia, nos locais onde os homens primeiro se foram sedentarizando, os bichanos começaram a conviver com os humanos, fazendo um controlo de pragas que aqueles aprenderam a admirar. Aqui se foram criando os primeiros laços entre homens e gatos, aqui se foram criando as primeiras lendas. Uma delas conta que os gatos nasceram do espirro de um leão, sublinhando o parentesco entre os dois felinos.

Um provérbio indiano dirá, depois, que os deuses criaram os gatos para que o homem pudesse ter o prazer de acariciar um tigre. Mas é no Egipto antigo que o gato atinge o estatuto mais ilustre. Não admira – lá vem a economia…-, já que, sendo a grandeza e o poder do Egipto assente, em grande medida, na produção de cereais, desde cedo foi percebida a importância dos gatos no controlo da ameaçadora e ruinosa rataria. Daí, a sua sacralização. A deusa Bastet era representada com cabeça de gato. Depois, a aproximação dos gatos às residências familiares dos egípcios e a sua própria sedentarização transformaram-no no símbolo do próprio lar.

Assim, o gato passou a ter um estatuto de membro da família, chorado na morte como se fosse um deles, mumificado tratado em morte como se uma pessoa fosse. As penas para quem matasse um gato podiam ser graves, indo até à própria morte. Os gregos e os romanos têm, também, uma relação cordial com os bichanos. Na idade Média, porém, as coisas mudaram completamente. O Papa Gregório IX decretou, do alto da sua santidade, que os gatos eram seres diabólicos e deviam ser exterminados. Segundo as inteligentes e profundas reflexões teológicas do tempo, os gatos eram bruxas transformadas e quem fosse visto a ajudar um gato era denunciado à Santa Inquisição, com os desastrosos resultados que se adivinham. [Read more…]

Quer explorar uma piscina olímpica, e equipamentos anexos, pela módica quantia de 2300 euros mensais? Vá ao Porto.

piscina_porto_campanhaAntónio Alves

Num negócio muito pouco transparente, a Câmara do Porto cedeu os direitos de superfície sobre a Piscina de Campanhã, a título gratuito pelo período de 25 anos, ao FC Porto. Essa é condição essencial, a cedência dos direitos de superfície, para que o FC Porto pudesse ter aberto no passado dia 16 de Dezembro um concurso público urgente para a realização de obras de recuperação da infra-estrutura assumindo-se este clube desportivo como dono da obra. É também condição essencial para que o FC Porto possa candidatar-se a fundos do QREN para financiar os custos das citadas obras. [Read more…]

Democracia social, social democracia e Passos Coelho

Este Governo tem uma intenção, cada vez mais clara, de se libertar das funções sociais do estado, na medida em que para este “gentinha” o estado é mínimo, reduzido às funções de soberania: justiça, segurança, defesa.

Saúde é para privatizar (enquanto morrem pessoas nas urgências abrem privados como cogumelos); educação é para “partir” pelas autarquias, para depois chegarem também ao mercado e aos privados. A segurança social está quase “morta” e a caridade fica nas mãos das IPSS.

Esta é a matriz de Passos Coelho e dos ultra-qualquer coisa que fazem equipa com ele. Gostava muito que o verdadeiro PSD – Social Democrata fizesse alguma coisa (pequena que seja) para evitar esta tragédia. Confesso que não sei se existe esse verdadeiro PSD, mas quero acreditar que sim.

É que Democracia não é só votar de 4 em 4 anos. Democracia é não morrer na urgência. Democracia é ter proteção no desemprego e na doença. Democracia é ter uma Escola Pública que permita a mobilidade social porque quem nasceu pobre, não tem que morrer pobre.

Papá, estás aí?

Elsa Wolinsky

Papa-t-es-la-par-Elsa-Wolinski_desenho de Zep

Papá, estás aí? Estás-me a ouvir?
Se estás aí manda-me um sinal. Faz-me um desenho.
Pois é, não me ouves, já desconfiava.
Desde que morreste, digo a mim própria que já deverás saber se Deus existe ou não.
Toda a gente te imagina no céu, com raparigas nuas, a meterem-se contigo. Mas eu sei o que estarás a fazer. Terás pedido uma caneta para desenhares uma mesa, folhas e uma lâmpada. E depois, agora, desenhas uma sósia da mamã para que ela esteja contigo, mesmo aí em cima. Ah, e depois fizeste uma cama para a tua sesta. Para os Wolinski, a sesta é sagrada.
Sabes, durmo na tua cama. Espalhei o meu perfume pelo teu quarto que cheirava demasiado a ti. É estranho deitar-me no teu lugar. Mas estou bem contigo, entre os teus lençóis. A mamã ofereceu-te umas calças, não tiveste tempo de as experimentar. Já agora, papá, aproveito, será que posso usar as tuas camisolas de caxemira? [Read more…]

Não é verdade

aquilo que Fernanda Câncio escreve: “As pessoas provocam e há reações“. Em português europeu, quando as pessoas provocam, há reacções. Efectivamente: reacções.

Falta de sentido de amor

Aceito que haja pessoas sem sentido de humor. Nem todos tiveram a sorte de receber o treino adequado: é necessário interiorizar verdadeiramente a tolerância e, sobretudo, compreender, por estranho que possa parecer, que o humor não é para se levar a sério. Assim, um humorista pode ser processado ou, pior do que isso, ignorado. A partir daí, reacções como o insulto ou o homicídio que tenham por alvo os autores de piadas são casos de polícia e não se fala mais nisso. [Read more…]

1000 vezes chicoteado, a 50 barris de petróleo de cada vez

Jornalismo cidadão das primeiras cinquenta chicotadas recebidas por Raif Badawi, um blogger saudita que é mesmo liberal, como os do séc. XIX:

Convinha perceber que quando se diz fundamentalismo muçulmano se deveria dizer wahhabismo,  a religião de estado na Arábia Saudita e arredores deste lado do golfo, fundada no séc. XVIII  por Mohammed ben Abdelwahhab e não por Maomé mil anos antes.

A Arábia Saudita tem sido a mãe desse fundamentalismo e não passa de um califado mas com muito mais petróleo. E o petróleo é o verdadeiro deus que governa as teocracias da tal superior civilização ocidental, a nossa, dizem eles, enquanto verificam a cotação do brent.

O Expresso insiste, insiste, insiste

Sempre otimista [sic], contudo, o histórico socialista“. E eu também: Mário Soares nunca foi um ‘otimista’.

Viva a falta de respeito, humor não é ofensivo

Gregório Duvivier

Um dos problemas de morrer é esse: vão falar muita asneira a seu respeito. E você já nem pode se defender. Não bastou serem fuzilados, os cartunistas do “Charlie Hebdo” foram vítimas de um massacre póstumo.
Pessoas de todas as áreas de atuação lamentaram a tragédia, MAS (não entendo como alguém, nesse caso, consegue colocar um “MAS”) lembraram que o humor que eles faziam era altamente “ofensivo”.
Poucas coisas irritam mais do que a vagueza desse termo “ofensivo” quando usado intransitivamente. Ofensivo a quem? A mim, definitivamente, não era. “Eles não deviam ter brincado com o sagrado”, alegam alguns. MAS (aqui sim cabe um “mas”) o que define o humor é exatamente isso: a brincadeira com o sagrado.
Discordo de quem pede respeito pelo sagrado. Para começar, acho que a palavra respeito é uma palavra que não cabe. Uma vez, vi o Zé Celso pedir a um jovem ator que não o tratasse por “o senhor”, mas por “você”. O ator disse que não conseguia porque tinha muito respeito por ele. E ele respondeu: “Não me interessa o respeito. O que me interessa é a adoração.”.
O espaço da arte não é o espaço do respeito, mas o espaço da subversão, ou então da reverência, do culto. Do respeito, nunca.
No mais, tudo é sagrado para alguém no mundo. A maconha, a vaca, a santa de madeira, o Daime, Jesus e Maomé: tudo merece a mesma quantidade de respeito, e de falta de respeito. [Read more…]

PARSNIP

Não, não é a pastinaga: «…politics, alcohol, religion, sex, narcotics, isms (communism for example) and pork».

Sky Bad News

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Marco Faria

A SkyNews‬ fez uma escolha péssima: a autocensura (é, de resto, a pior forma de censura).
A Sky News deixa de ser um órgão de informação livre, a partir do momento em que já cedeu ao medo (das audiências, dos telespectadores e da influência de certas minorias).
“A religião muçulmana proíbe qualquer representação pictórica de Alá ou do seu profeta, Maomé”, lê-se. Sim, mas estamos na Europa, não?
O Reino Unido, até que as placas tectónicas mudem de posição, fica na Europa. Amanhã, será o quê? Que não se mostre no ecrã uma mulher a conduzir um Rover, porque isso é ultrajante? Ou que uma mulher tire um doutoramento, porque devia ter a escolaridade mínima ou ficar-se pelo bê-a-bá? Quem escolhe a Europa para viver tem de conhecer as regras e tradições europeias. Vêm do tempo das Luzes e da Tolerância (o túmulo de John Locke deve estar a dar voltas). O que fazemos quando nos deslocamos a um país muçulmano, quando temos de respeitar os seus costumes (nalguns casos, levar uma bíblia ou um crucifixo é um crime, e convidam-nos a deixar os nosso símbolos no aeroporto, sob pena de nos ser vedada a entrada no seu território). Ninguém é obrigado a comprar o “Charlie Hebdo” ou a ver blocos de notícias. Há o poder de escolha. Já a escolha da Sky News aproxima-se de linhas perigosas.

O Tempo e a Barbárie

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No início do século XVI (1506), numa Igreja de Lisboa, em tempos de crise, esperava-se um milagre que aliviasse as duras dores do tempo. Ao notar que um raio de luz se projectava no crucifixo da igreja, a multidão logo bradou por milagre. Porém, um cristão-novo (judeu obrigado à conversão ao catolicismo – para os mais esquecidos da História) fez notar que se tratava apenas do reflexo da luz que iluminava o templo. Começou aqui um dos mais arrepiantes e sangrentos episódios da nossa História. Arrastado o “blasfemo” para a rua, logo ali foi brutalmente espancado. Foi o início de uma chacina que se espalhou pela cidade e soltou a mais fanática barbaridade.

O grande Damião de Góis, cronista do reino e um espírito livre, relatou assim este horroroso episódio: [Read more…]

Nigéria em sangue

Continua o horror na Nigéria e os ataques do Boko Haram continuam a fazer vítimas inocentes aos milhares. É o terrorismo puro e duro – com a inconcebível justificação de purificar o país e os seus costumes e espalhar a sharia a todo o território e mesmo aos países vizinhos – usando todos os habituais métodos, desde a guerra de ocupação até aos bombistas suicidas, como aconteceu este fim de semana em que até uma criança de dez anos foi usada. Mas, contrariamente a outros casos de terrorismo, o da Nigéria está fortemente territorializado, configurando uma fase avançada de operações que se aproxima da guerra clássica que, dizem os manuais, é a fase final destes processos. Repare-se, porém, que estes movimentos têm tanto mais hipóteses de sucesso quanto maior for o apoio da população. Aqui, porém, também esse apoio é procurado pelo terror ou, se tal não resulta, pelo puro extermínio. E, chegados aqui, é altura de perguntar o que fazem as forças armadas da Nigéria e que cooperação existe com os Camarões, que também já foram vítimas de ataques. É também tempo de perguntar à comunidade internacional porque permanece em sossego neste caso. Estamos perante o que é, provavelmente, o mais violento campo de batalha do delírio fundamentalista – o que, nos tempos que correm, não é dizer pouco. Mas África parece ser o continente abandonado pelos deuses. E, o que verdadeiramente conta, pelos homens de bem. Com as poucas excepções que conhecemos.

Municipalização: o extermínio da Educação

Está em curso uma inflexão no projecto de municipalização das escolas. Os novos documentos foram publicados pelo Paulo Guinote e o Ricardo Montes considera preocupante aquilo que já se vai sabendo.

O assunto merece uma análise mais detalhada, mas uma leitura superficial permite confirmar  que a pouca autonomia das escolas está cada vez mais próxima do extermínio absoluto, a proletarização dos professores continuará a acentuar-se, a politiquice terá as portas escancaradas para ocupar ainda mais espaço na vida das escolas e a análise dos problemas será substituída por um arremedo de empresarialês, porque vivemos num mundo em que o gestor modernaço é o novo enciclopedista.

Da parte das autarquias, é apenas uma questão de dinheiro. O próximo governo poderá ter uma cor diferente, mas não mudará nada, mesmo que tenha de fazer de conta que está contrariado. De resto, PS, PSD e CDS poderiam abrir uma loja e colocar na tabuleta “A destruir a Educação desde 2005”.

Os professores estão mais preocupados em sobreviver, o que lhes retira tempo ou vontade para combater. Por isso, continuam contra a Educação.

Charlie Hebdo, o pdf

4554744_6_315c_la-une-de-charlie-hebdo-a-paraitre_d73c9388c981f7d63f82aaf5ae3822a9Eu também comprava um, se tivesse onde.  E comprarei, se encontrar. Para o povo que lê línguas de deus, como diria um romano, e não ficou viciado em línguas bárbaras, como diria o mesmo romano, há a outra parte, ler mesmo o nº 1178 do Charlie Hebdo (como tenho constatado nos últimos dias ver só os bnécos não dá, estou farto de fazer traduções de bd), o número que saiu hoje.

Podem descarregar o pdf: Charlie Hebdo #1178. [Read more…]

A TVI não é Charlie

A promoção ao Jornal Nacional da TVI censurada – Setembro 2009

De como se confunde a opinião pública

Santana Castilho*

Depois dos finlandeses terem decidido substituir nas suas escolas papel e lápis por teclado de computador, para as crianças aprenderem as primeiras letras, foi anunciado novo contributo insólito: o governo do Reino Unido quereria que educadores de infância e professores identificassem crianças potencialmente terroristas. Nem os bebés escapariam a tão estranha teorização pedagógico-securitária. Os educadores, que lá como cá já são tudo e mais alguma coisa, passariam agora a espiões dos espíritos dos recém-nascidos e das circunvoluções, eventualmente radicais, dos seus cérebros em formação. A confirmar-se esta aberração, estaria mais que justificado o título do Público de 4.1.15:

Governo britânico quer infantários a detectar crianças em risco de se tornarem terroristas”. Ou o do I, de 9.1.15:

Creio que em Portugal não se aprovaria tal idiotice”.    [Read more…]

Solidariedade com o Estabelecimento Prisional de Évora

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NUNO VEIGA/LUSA

Sei que José Sócrates é culpado, mas o único castigo para a má governação consiste em não ser reeleito, à excepção do que tem acontecido com Alberto João Jardim. A má governação castiga, também, os governados, mas há quem o mereça, sobretudo se usar o voto da mesma maneira que usa o cachecol de um clube de futebol. Penso, a propósito, que faria sentido que o voto deixasse de ser secreto, para que os eleitores das maiorias pudessem ser os únicos a sofrer com as medidas tomadas pelos governos que elegeram, mesmo que indirectamente. [Read more…]

Zeinal Bava e a irrelevância

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© Mário Proença/Bloomberg (http://bloom.bg/14NfApG)

Apesar de continuar sem conhecer – e sem querer conhecer – a resposta à pergunta “Quem tramou Zeinal Bava?”, o meu interesse na tese da irrelevância mantém-se. Gostei de ler as notícias de ontem, acerca dos esclarecimentos que a Oi vai pedir a Zeinal Bava, pois estes podem ser extremamente importantes para dissipar algumas dúvidas que possa ainda haver nas cabeças daqueles que nos governam.

Por exemplo, quando é feita a transcrição de excertos de um texto escrito em português do Brasil, [Read more…]