A língua de Rutte no orifício de Trump

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A imagem perfeita do novo quadro das relações internacionais: Mark Rutte, antigo primeiro-ministro holandês, agora secretário-geral da NATO, envia uma mensagem bajuladora a Trump, que responde sacando um print e publicando, sem edição, a totalidade do momento MAGA do liberal holandês.

Há quem defenda que Rutte está a ser um grande negociador, como quando, no outro dia, Costa deu a Trump uma camisola do Ronaldo, autografada pelo próprio CR7. Parecem-me coisas diferentes. Uma camisola, mesmo que autografada pelo melhor mundo, não é a mesma coisa que aquele lamber de botas até ao mais ínfimo orifício na sola. [Read more…]

Comparações erradas entre armas no Iraque e no Irão

Na cacofonia do debate sobre o desenvolvimento de armas nucleares no Irão, foi lançado o argumento que equivale a inspeção de armas de destruição em massa ao Iraque em 2003 à inspeção de desenvolvimento de urânio enriquecido ao Irão em curso. Não se equivalem.
Quem leu o livro “Desarmando o Iraque” (título francês mais explícito: “Irak, les armes introuvables“) de Hans Blix, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e diretor das inspeções no Iraque em 2003, não tem dúvidas nenhumas que o resultado das inspeções foi negativo e que a Administração W. Bush mentiu para provocar uma guerra. Para reforçar esta conclusão, Hans Blix dá o exemplo das inspeções realizadas pela AIEA em 1998 em que foram encontradas provas de uma tentativa para desenvolver armas nucleares no Iraque. Um programa então encerrado com a supervisão da Agência.
No caso do Irão, sabemos desde 2008 que o Irão está a tentar enriquecer urânio para lá dos 5% (o máximo para aplicações civis). Aliás, nos termos do Plano de Ação Conjunto Global assinado em 2015, o próprio governo iraniano admite a generalidade das conclusões sobre o desenvolvimento do seu programa nuclear. A novidade agora é que os inspetores da AIEA encontraram provas do desenvolvimento de urânio enriquecido acima dos 60%. As conclusões do último relatório (12 de Junho de 2025) são claras:

KGB e Trump influenciam políticas de defesa 38 anos depois

A 4 de Julho de 1987, Trump viajou para a União Soviética numa viagem a convite da Embaixada Russa com o objetivo de negociar a construção de um hotel em Moscovo. Trump estava à beira da falência e disposto a vender as suas convicções por qualquer negócio. A viagem foi totalmente coordenada pelo KGB, provavelmente sem que Trump se tenha apercebido. De volta aos EUA, a 2 de Setembro de 87, Trump publica uma página com um artigo de opinião a 100 mil dólares no The New York Times, no The Boston Globe e no The Washington Post. O artigo acusava os aliados da NATO, o Japão e a Arábia Saudita de se aproveitarem da generosidade e da proteção dos EUA e de não se empenharem na sua própria defesa. Yuri Shvets, ex-espião do KGB, é uma das testemunhas de como o artigo foi recebido com gáudio em Moscovo. O objetivo do KGB era aumentar as tensões entre os aliados dos EUA, provocar divisões se possível e influenciar os EUA a diminuir gastos em defesa. A viagem a Moscovo começava a dar os seus frutos, mas os acontecimentos de 1989 interromperam a estratégia do KGB. Mais tarde, Putin retomou as atividades do KGB, com o novo FSB, junto de Trump e do meio conservador americano.
38 anos depois temos a NATO a discutir questões orçamentais por influência de Donald Trump, em moldes requentados do artigo de 87 soprado pelo KGB, meses depois de Trump ter ameaçado a Gronelândia, a Dinamarca e a União Europeia…

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A política errática de Trump no acordo nuclear com o Irão

Em 2018, contra os compromissos assinados por Obama, Trump retirava os EUA do Plano de Ação Conjunto Global. Uma decisão que na prática matou o acordo. Era um acordo diplomático exemplar e eficiente que já estava a dar os seus frutos e que tinha a virtude de incluir a China, a França, a Alemanha, a UE, o Irão, o Reino Unido, a Rússia e os EUA.

Alinhado com o tratado de não-proliferação nuclear, o acordo previa a redução das reservas de urânio enriquecido em 98% e a redução das unidades de centrifugação de urânio. O processo estava a ser supervisionado pela Agência Internacional de Energia Atómica e estava a correr melhor do que pior.

Na altura ficou claro que a decisão de Trump se enquadrou num conjunto de provocações de apoio ao regime de Netanyahu, tendo o próprio primeiro-ministro israelita declarado que apoiava totalmente a decisão de Trump. Também na altura quase todos os peritos do nuclear, da diplomacia e da política internacional alertaram que esta decisão poderia ter consequências catastróficas no futuro. É onde estamos.
O Irão está a enriquecer urânio às escondidas e Israel aplica a receita bruta para eliminar as instalações nucleares.

Andrew Roth no Guardian de hoje: “Iran would not be this close to possessing a nuclear weapon if Trump and prime minister Netanyahu had not forced America out of the nuclear agreement with Iran that had brought Europe, Russia and China together behind the United States to successfully contain Iran’s nuclear ambitions.

A Ligação Trump-Putin explicada pela France 5

Não, não são vídeos de senhoras russas a fazer chichi numa orgia com Donald Trump que estão na origem da vassalagem que Trump tem prestado a Putin, até à aparente revolta recente quando Trump declarou que Putin está louco. Esses vídeos muito provavelmente existem, mas tal como é referido nesta reportagem da France 5 por um ex-agente do KGB/FSB, a popularidade de Trump é imune a chantagens baseadas em vídeos sexuais.
São sim, dois acontecimentos convergentes ocorridos nos anos 80 que vão selar a ligação/dependência de Trump à Rússia, em particular ao KGB e depois ao FSB:
1- A decisão do KGB de infiltrar a direita americana;
2- O estado dramático dos negócios de Trump.

 

Depois de décadas a infiltrar a esquerda americana sem resultados úteis para combater o Reaganismo, o KGB decide infiltrar a direita americana para disputar o poder político e económico. O KGB pretendia comprar e controlar empresas, adquirir edifícios para operacionalizar atividades no terreno e sobretudo infiltrar organizações políticas e para-políticas para ganhar poder. O maior sucesso do KGB foi a infiltração da Heritage Foundation. Uma organização de think tanks neoconservadores super-ricos, da direita radical, que permitiram a ponte entre a Trump e os aparentes homens de negócios soviéticos que pretendiam estabelecer relações comerciais entre a URSS e os EUA. Desesperado para salvar os seus negócios, Trump deslocou-se à URSS e [Read more…]

Para que a humanidade vença, Israel tem que perder

Netanyahu anunciou, abertamente e em conferência de imprensa, a repetição da “solução final” que Hitler tentou aplicar ao povo judeu, aos ciganos e aos comunistas, desta feita contra tudo e todos os que ainda conseguem viver em Gaza. Por vontade de Israel não vai sobrar pedra sobre pedra, não se contará nenhum sobrevivente. Morrerão à fome, com sede, ou bombardeados. Israel já cometeu todo o tipo de crimes. Todos. De guerra e contra a humanidade. Não ficou nenhum horror por revisitar. Gaza é hoje o maior campo de concentração da história. Israel, o Reich do Reich, leva a cabo o holocausto do povo palestiniano desde os atos de terror que culminaram na sua fundação, no famigerado 14 de maio de 1948. Israel foi sempre terrorista. Antes e depois de ser um Estado. Dos ataques à Palestina no tempo do mandato britânico, aos ataques à Palestina desde que foi ocupada, com a conivência do mundo “democrático”. Israel tem um cadastro com mais de 77 anos de terror colonial, de limpeza étnica e de genocídio, mas ao seu lado, no banco dos réus que a história haverá de julgar, devem sentar-se todos aqueles que apagaram as luzes e deixaram tudo acontecer. No combate a Israel como no combate à Alemanha Nazi não há espaço para negociar, porque não há negociação possível entre exterminado e exterminador. Para que a humanidade vença, Israel tem que perder.

Bem jogado, Donald!

No início do ano, os Conservadores canadianos estavam cerca de 20% acima dos Liberais nas sondagens. No poder desde 2015, os Liberais estavam desgastados e arriscavam ficar, pela primeira vez, abaixo do segundo lugar, atrás do NDP.

Mais eis que entra em cena Donald Trump, com a narrativa a anexação, o discurso mais hostil da história contra o Canadá e as suas patéticas tarifas. E alguns líderes conservadores, infectados pelo vírus do populismo, alinharam no fanatismo MAGA. Entre eles o líder do partido Pierre Poilievre.

Resultado?

Gerou-se uma onda de unidade nacional anti-Trump, os Liberais inverteram a tendência, venceram a eleição e o “traidor” Poilievre não foi sequer eleito para o Parlamento.

Mais um grande feito para juntar à longa lista de acontecimentos notáveis dos primeiros 100 dias de Donald Trump na Sala Oval.

Poético.

Confrontem André Ventura com isto

Framing a Trump-Putin Meeting: A Short Guide to US-Russia Summits Past -  Atlantic Council

“Não se começa uma guerra contra alguém 20 vezes maior e depois se espera que as pessoas lhe deem mísseis”

A frase é de Trump e acompanha mais uma regurgitação populista do Fascist-in-Chief americano, que voltou a acusar Zelensky de ser o responsável pela invasão decidida por Putin.

É um novo capítulo da novela russa, que começou um concurso de misses em Moscovo, poderá ou não incluir uma filmagem de uma orgia com prostitutas e trocas de urina, seguiu para a interferência de Moscovo em favor de Trump nas eleições de 2016 e conhece agora novos episódios, marcados por beijos do Donald na zona traseira do Vladimir, a quem dá tudo sem pedir nada em troca, incluindo manter o regime russo a salvo das tresloucadas tarifas pensadas por um tipo que as justifica citando um académico que não existe, e cujo nome é um anagrama do seu. [Read more…]

O Triunfo dos Idiotas

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A democracia foi uma ilusão necessária. Uma ferramenta de propaganda e expansionismo que permitiu aos EUA conquistar ideologicamente a Europa e vencer a Guerra Fria. O seu propósito era claro: consolidar a hegemonia mundial norte-americana. Se a democracia fosse uma prioridade, que na realidade nunca foi, Allende não teria morrido em La Moneda e o Irão poderia muito bem ser hoje um estado secular.

A ilusão da democracia foi, maquiavelicamente, um meio para atingir um fim. Na Europa, claro. No Vietname, Indonésia, Iraque e nos vários golpes de estado patrocinados na América Latina foi imperialismo puro e duro. E o imperialismo é inimigo da democracia.

Não será por isso descabido dizer que foi o soft power, não o poder militar, aquele que deu a vitória aos EUA na Guerra Fria. Foi ele que seduziu a Europa com o Plano Marshall, África com ajuda humanitária e a Ásia com comércio internacional. E que permitiu aos EUA passar incólumes na Sérvia, na Líbia e no Afeganistão. Entre outras exportações de democracia, com os magníficos resultados que se conhecem. [Read more…]

Marine Le Pen é uma criminosa. Lidem com isso

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A condenação de Marine Le Pen deixou a nu a hipocrisia da extrema-direita, que se diz contra a corrupção e outros crimes aparentados, excepto quando os visados são os seus pares.

Aliás, basta ver quem foram os mais vocais em sua defesa: Putin, o ditador que a financiou, Orbán, o primeiro-ministro mais corrupto da Europa, Salvini, o fascista que enverga indumentária putinista, e Elon Musk, o nazi que comprou as últimas eleições americanas. A fina flor da autocracia moderna.

Le Pen desviou dinheiro comunitário para financiar actividades do seu partido. Um partido que se confunde com a própria, como se da sua pequena monarquia se tratasse. Herdou-o do pai, vai entregá-lo um dia ao ex-marido da sobrinha. Nada nepotista. Agora, deve pagar pelos seus crimes. Não está acima da lei. [Read more…]

Trump, Zelensky e Vance

MAGA is Woke

Parece que as “pessoas do mal” andaram a criar vídeos gerados por inteligência artificial para gozarem com o presidente dos presidentes da cambada incel.

No primeiro vídeo, que já gerou um clima de perseguição nos corredores administrativos, Donald Trump aparece a beijar os pés do presidente de facto (tal como o filho do Mark Robinson para pessoas brancas, o jovem XYLGBTMAGA/Twitterx2AoQuadrado, já nos tinha afiançado na semana passada) dos Estados Unidos, o oligarca Elon Musk. Outrageous! Toda a gente sabe que, caso Donald Trump tencionasse beijar alguma parte do corpo do sul-africano, não seriam os pés…

E como se não bastasse, hoje alguém invadiu a conta de Donald Trump no Instagram para publicar um vídeo onde aparecem transexuais vestidos de sultões a dançar na praia em Gaza. Para quem andou a assinar decretos para tirar transexuais do desporto… já se percebeu que os quer empregar no paraíso em Gaza (ao contrário de vocês, seus balofos rednecks, que o máximo onde poderão ir é a Las Vegas). Dizem que o invasor também se chama Donald Trump, mas eu não confio – há-de ser tudo uma teoria da conspiração. Alguém acredita que a administração que confundiu Gaza na Palestina com Gaza em Moçambique, com preservativos à mistura (já agora, repito a questão de Trump junto dos seus apoiantes: vocês sabem o que é um preservativo?) seria capaz de tal comicidade?


A juntar a toda esta promiscuidade de extrema-esquerda, um dos soldados do braço-armado do puro homem laranja, desceu um lugar no pódio dos podbros, tendo sido destronado por um podcast de… liberais. Não se faz! É uma sacanagem! E, mais do que tudo, é certamente uma teoria da conspiração! Alguma vez as pessoas mudam de opinião quando vêem que as políticas reais daquele que apoiaram e em quem votaram, quando passam da retórica à acção, lhes lixa a vida toda com F maiúsculo?! Nunca na vida! Somos todos fiéis cordeirinhos do deus-nosso-senhor.

É caso para dizer: MAGA is woke.

Antes isso que cair da janela

Trump escolheu e empossou David Lebryk como seu Secretário do Tesouro.

Durou 11 dias no cargo.

Por ser incompetente?

Não sei. Mas o percurso enquanto nº 2 do Tesouro Americano, que sobreviveu a Obama, Trump, Biden e novamente a Trump, leva-me a crer que a incompetência não terá sido a razão do seu afastamento.

Já o embate com o grupo de jovens hackers ao serviço do DOGE de Elon Musk, na vã esperança de lhes vedar o acesso à informação contida nos sistemas do Departamento do Tesouro, terminou com Lebryk a meter baixa, a que se seguiu, dias depois, o pedido de demissão. Vá lá que ainda não caem de janelas. Por agora, as exportações russas para a nação trumpista ficam-se pelo bullying a nações mais pequenas, troll farms e filosofia duginiana. [Read more…]

Liberdade

Sabem as incontáveis histórias sobre herdeiros que quando assumiram o património que lhes foi legado, espatifaram tudo? Apesar de não gostar que a analogia se baseie em dinheiro porque, desde logo, a premissa fica pervertida, o certo é que se pensarmos num património de liberdade, justiça e humanidade que nos foi deixado pelas gerações anteriores, esses herdeiros perdulários somos todos nós. Principalmente, nós os europeus.

Durante grande parte do século XX, mas como consequência de um processo evolutivo do pensamento estrutural, milhares de milhões de pessoas prescindiram consciente e, tantas vezes, voluntariamente do seu conforto, da sua segurança, da sua liberdade e até da sua própria vida para que os paradigmas políticos se modificassem substancialmente. Dum passado em que a força era a razão do poder para um futuro em que a equidade, a democracia e o respeito pelos mais fracos passariam a ser as linhas mestras da governação. Mas acima de tudo, um futuro onde a liberdade fosse o âmago da própria vida.

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Negócios de Paz

Na Arábia Saudita, uma ditadura tão ou mais violenta que a russa, Washington e Moscovo discutiram a paz para a Ucrânia. Sem a presença da Ucrânia ou de qualquer dirigente europeu. Será, tudo parece indicar, a paz que se previa desde o início: a paz que beneficia o agressor e que oficializará a ocupação de parte do território ucraniano. Ucranianos – e europeus – aprenderão uma importante lição, recentemente aprendida, da pior maneira, por afegãos e curdos: os EUA usam e deitam fora os seus proxys. E não, não é de agora.

Marco Rubio, que liderou a comitiva americana, deixou um aviso à UE: “terá que estar à mesa em algum momento, porque também tem sanções que foram impostas”, acrescentando que todas as partes devem fazer concessões, incluindo a parte que não foi tida nem achada nas negociações. Ou seja, o que Rubio nos está a dizer é que devemos deixar cair as sanções para garantir um acordo que não nos diz respeito.

Abanaremos o rabo, como Putin antecipou?

Tudo indica que sim. [Read more…]

Soft Power

A nova América iliberal, que despreza ignorantemente o papel do soft power para o seu estatuto de potência hegemónica, decidiu humilhar e hostilizar os mais antigos e importantes aliados dos EUA: os estados europeus.

A China, que não é estúpida como o exército de memes de Musk e Trump, está atenta. E vai lucrar com isso.

Gaz-a-Lago

Trump teve uma ideia para a Faixa de Gaza. Não é uma ideia nova, Putin teve a mesma em relação à Ucrânia. E Xi Jinping tem uma parecida para Taiwan. Trata-se de ocupar e colonizar aquela área. E, no caso americanos, de expulsar os residentes que, seguramente, não terão capacidade financeira para se manter no projecto imobiliário que ali irá nascer. A Riviera de Gaza. Ou, como li por aí, Gaz-a-Lago.

Agora imaginem que Trump, Putin e Xi decidem dividir o resto do mundo em “zonas de influência”.

[Not so] Fun fact: nós ficaríamos na “zona de influência” russa.

Mas pelo menos teremos um novo destino turístico super instagramável.

Camaradas artificiais

A pergunta óbvia, que Sam Altman não antecipou que se colocasse, quando escreveu no Washignton Post há mais de seis meses, mas que se coloca agora, depois da eleição de Trump, da proximidade das grandes tecnológicas americanas com o novo presidente, do que Elon Musk tem feito, mas também do que outras grandes tecnológicas têm feito, é óbvia e trágica para a América e o Ocidente: entre uma Inteligência Artificial que nos oferece as verdades de Xi Jinping e do Partido Comunista Chinês e outra que não sabemos se um dia não nos oferecerá a verdade de Elon Musk, Trump ou companhia, a escolha democrática é assim tão óbvia? Obviamente que não.

Henrique Burnay, Expresso

FdP(II)

Eu já estava convicto que ser de esquerda, implicava, em grande parte dos casos, uma insuficiência cognitiva, uma espécie de “deficit” intelectual e ético. Mas não esperava que fosse tão óbvia e tão estúpida e facilmente assumida. É que nem conseguem perceber que o que argumentam só faz sentido numa perspectiva muito curta, muito superficial ou então, na cabeça deles (o que é basicamente uma clara equivalência).

Ser de esquerda e ao contrário do que pretendem fazer crer nada tem a ver com solidariedade, empatia, generosidade, etc. Não, não são donos desses valores. Nem de perto nem de longe. Isso são apenas vertentes humanas que não definem nenhuma ideologia e, seguramente, não definem de certeza qualquer tese de influência socialista. Até porque quer a teoria quer a prática demonstram que aqueles princípios só são trafulhamente usados pela esquerda como isco para “lorpas”. Porque solidariedade, empatia e generosidade só fazem sentido se reconhecermos “a priori” evidências como, por exemplo, a natural e legítima aspiração à propriedade individual. Só se pode ser verdadeiramente generoso com o que é nosso. Ser generoso com o que é de outros ou maioritariamente de outros… acho que tem um nome diferente. 

Ser de esquerda parece ser uma opção (ainda é permitido dizer “opção”, não é) pelo uso voluntário de antolhos (para quem não sabe, são aquelas palas que se colocam perto dos olhos dos cavalos para lhes reduzir a amplitude da visão). Parece que há uma qualquer cerimónia iniciática onde se jura pelas “barbas do Marx” que nunca mais se atreverão a pensar sem estarem autorizados (e quase nunca estão) e principalmente quando raramente o forem, não pensar coisas proibidas. E aqui surge a enorme confissão de “pequenez” da esquerda: saber o que é proibido? E a resposta que se dão a si próprios é sovieticamente automática: proibido é o que o comité central respectivo disser que é proibido porque eu não consigo (ou, no mínimo, escolho não conseguir) por mim próprio estabelecer as minhas linhas vermelhas.

Lêem alguém a supostamente criticar “o dinheiro” e assumem: ah, carago, este é dos nossos, é de esquerda. Porra lá para a “curteza” de raciocínio. Primeiro, e se lerem com cuidado, no meu post anterior não pretendi exactamente criticar o dinheiro. Critico, sim, muito e de forma radical a importância que damos ao dinheiro e a aceitação generalizada que uma mera ferramenta pode ser um objectivo ou pior ainda, “o” objectivo que nos classifica socialmente. Ver nisto algum indício de “esquerdalhismo” é o mesmo que ver um comunista no psiquiatra que diagnostica um “acumulador doentio” ou um marxista dos “quatro costados” no crítico da ganância sem sentido ou da cupidez infinita. É claro que para perceberem isto, teriam de colocar o vosso 2º neurónio a funcionar e, enfim, digamos que é algo que não vos é fácil.

Mesmo tendo começado por tentar que lessem o que escrevi livres de preconceitos ideológicos, mesmo tendo solicitado que percebessem que a questão não era de direita ou de esquerda, mas sim humana, não adiantou. Já sabem o que são antolhos, não sabem? Pois. E vá lá que me lembrei de meter a “bicada final” ao comunismo (mesmo que isso não deixe de constituir uma contradição à minha tentativa inicial de assepsia ideológica). Se não o tivesse feito, já estaria inundado de propostas para militante do BE (mais conhecidos por “olhem para o que eu digo e não para o que eu faço”), do PC ou outra qualquer agremiação digna de ser apoiada pela Cercigaia.

Eu sei que não compreendem que um liberal ouse criticar uma ideia aparentemente liberal. E esta (eu sei que não é fácil compreender) é quase exógena ao liberalismo. Cruzes, canhoto. Criticar a nossa ideologia??? Isso na esquerda é pura blasfémia e razão suficiente para umas férias “desvoluntárias” num qualquer resort siberiano em regime TI(mmmpedpeg), Tudo Incluído, mas é mesmo muito pouco, enfim, dá para emagrecer à grande. Com regresso assegurado em transfer organizado por um qualquer cangalheiro lá do sitio.

No fundo é mais ou menos como um liberal ser acusado de recorrer ao SNS em vez de ir ao privado. Numa conclusão (só compreensível para a “genial” esquerda) que o liberal por ser liberal tem as mesmas obrigações fiscais que os outros, mas muito menos direitos. Do género, chegar à bomba de gasolina em “pré-pagamento”, ir ao balcão protestar com o preço da gasolina, pagar um depósito cheio e ir embora sem atestar porque fazê-lo era contradizer-se. 

Vamos lá ver se conseguem compreender (peço desculpa por não conseguir mesmo fazer uma escrita mais pausada, uma escrita quase soletrada). Eu não sou contra o dinheiro. Acho uma ferramenta essencial à organização social. Sou contra a veneração avassaladora que se tem por uma mera ferramenta. Sou contra a avidez acumuladora para lá do saudável. Isto não deviam ser valores políticos. Deviam ser meramente humanos. Mais, nada tenho pessoalmente contra os ricos e contra quem busca incessantemente ganhar mais dinheiro todos os dias. Tenho contra as pessoas que valorizam desmedidamente essas situações. Pior, ao contrário da frugal intelectualidade da esquerda, eu não quero proibir nada. Não quero repressão legal. Quero mudar consciências. Mesmo que seja difícil ou quase impossível. Quero pôr as pessoas a pensarem por si próprias e a questionarem algo que aceitam sem discussão. A humanidade, a bondade, a empatia não se impõem por decreto. Ou, pelo menos, não são eficientes se forem impostas por decreto. Têm de ser sentidas e só o podem ser se forem conclusão dum processo individual lógico.

Provavelmente faltar-me-á o talento mínimo para conseguir mesmo “agitar” consciências. Mas, pelo menos, tento. Sem proibições. Apenas a pedir às pessoas que pensem. Só isso. Mas eu sei que esse objectivo, que essa liberdade é um conceito que vos é estranho. Como quase todas as liberdades.

Aliás percebam uma inelutável evidência: se antes de discutirmos política, discutíssemos humanismo quando chegássemos ao momento de discutir política, compreenderíamos de imediato que o socialismo não faz qualquer sentido. Compreenderíamos que é “contra natura”. Que é um factor catalizador de pobreza, de miséria, de desgraça, de injustiça e de autoritarismo. Porque o cuidado primordial com os menos favorecidos já estava assegurado. Que esse cuidado só tinha valor quando era espontânea, livre e individualmente  decidido. Que o mirífico “estado social socialista” só era um convite arrasador e destrutivo ao demérito, à iniquidade e sobretudo à inibição de liberdades.

Desenganem-se: a esquerda não é a dona dos essenciais valores humanos. Pelo contrário e se teoricamente já o era possível compreender de forma prévia, a história tem demonstrado que a esquerda é mesmo a maior algoz daqueles princípios.

Atinem. Tentem pensar, por favor.

Deepfucked

Os chineses criaram o seu próprio ChatGPT. Chama-se Deepseek. A ferramenta é de tal forma eficaz que o sector tecnológico norte-americano caiu desamparado na bolsa de Wall Street e perdeu mais de 600 mil milhões de euros. Afinal, o poder das tecnológicas não é assim tão grande.

O que se passou ontem ajuda a explicar a deriva autoritária do capitalismo, sobretudo nos EUA. É que, para o grande capital, para usar a expressão do PCP, os lucros tendem a sobrepor-se à democracia e aos direitos humanos.

Foi assim quando os grandes empresários alemães se aliaram a Hitler, é assim quando bilionários como Elon Musk atacam sindicatos e políticas sociais, e usam os seus recursos quase infinitos para financiar e promover forças de extrema-direita. [Read more…]

Vladimir Trump e a separação de poderes

Trump mandou despedir os procuradores que o investigaram. A oficialização da natureza autoritária dos EUA segue imparável.

Amigos de Elon, por Philipe Low

“I have known Elon Musk at a deep level for 14 years, well before he was a household name. We used to text frequently. He would come to my birthday party and invite me to his parties. He would tell me everything about his women problems. As sons of highly accomplished men who married venuses, were violent and lost their fortunes, and who were bullied in high school, we had a number of things in common most people cannot relate to. We would hang out together late in Los Angeles. He would visit my San Diego lab. He invested in my company.

Elon is not a Nazi, per se.

He is something much better, or much worse, depending on how you look at it. [Read more…]

O padrão Musk

Ninguém votou em Elon Musk.

No entanto, il consigliere tem neste momento mais poder e exposição mediática que JD Vance. E ombreia com Trump.

Aliás, a saudação nazi – sim, foi uma saudação nazi, e foi intencional, mas já lá vamos – roubou claramente o protagonismo a Donald Trump. No dia seguinte ao mais importante da vida do outra vez presidente dos EUA, o maior comeback da história da política americana, o tema não foi Trump. Foi a actuação do Adolfo de Pretoria. E Trump, dono do mais pedante ego à face da Terra, não deve ter ficado nada contente. A Soberba é pecado mortal, mas Donald é muito cristão. Enviado por Deus.

Esta é uma das minhas esperanças: que os gigantescos egos de Trump e Musk colidam. Sem retorno. A seguir abasteço-me de pipocas e vou assistir ao combate entre nativistas e broligharcs no octógono, com Joe Rogan a comentar e Trump a tirar selfies com Dana White na fila da frente. Se tivesse que apostar, apostava nos segundos. In America, cash rules. Ou como muito oportunamente o colocaram os Wu-Tang Clan: C.R.E.A.M. Dolla dolla bill, y’all.

Adiante.

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O “FdP”

Estou cada vez mais convencido que não são as diferenças ideológicas que nos separam, mas o carácter de cada um de nós. Na clara evidência que muitas opções políticas que cada um escolhe, são, desde logo e obviamente, determinadas pelo nosso perfil psicológico.

Mas para não descer à minudência dos pequenos pormenores que, bem ou mal, estabelecem as diferenças entre nós, o que levaria a discussão para patamares exponenciais e microscópicos, retirando-lhe, na prática, qualquer benefício, tentarei expor apenas uma distinção maior, mais abrangente e também mais determinante.

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TrumpTok

Trump em 2020: Vamos banir o Tiktok. Esta aplicação é uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

Trump em 2025: O Tiktok não pode ser banido. Vou reverter a lei para proteger a segurança nacional dos EUA.

Anschluss?

Parabéns a todos os americanos que elegeram este Adolfo, e também a todos os fascistas por essa Europa fora, que rejubilaram com a sua vitória. Estou em pulgas para ouvir as balelas nacionalistas de Ventura e respectiva entourage, no dia em que vierem pelas Lajes.

Jimmy Carter (1924-2024)

Jimmy Carter foi, de todos os presidentes americanos, aquele que mais vezes esteve do lado certo da história. O mais decente, a meu ver, dos inquilinos da Casa Branca. E se a sua morte era expectável, pelos 100 anos e pelo estado muito debilitado da sua saúde, não deixa de ser significativo que a sua partida coincida com o momento mais frágil da história da democracia americana. Que descanse em paz.

Olhe que não, senhor arcebispo, olhe que não

O arcebispo de Évora, Francisco Senra Coelho, agradeceu a resistência ucraniana contra as “ondas avassaladoras do comunismo ateu”, pese embora a Federação Russa seja hoje o típico regime ultraconservador e nacionalista de extrema-direita, apoiado pela cúpula de igreja ortodoxa russa, com a qual o Kremlin mantém laços tão fortes e estreitos como aqueles que uniam a igreja católica e o Estado Novo.

Se o objectivo do senhor arcebispo era picar os comunistas, faria mais sentido atirar-lhes a China à cara. A central de financiamento da extrema-direita populista está mais próxima do pensamento político da ICAR do que do PCP. A Rússia de 2024 não é a URSS da Guerra Fria. Ou o senhor arcebispo julga que Putin financiou católicos militantes como Le Pen e Salvini por caridade?

Como o Hamas derrubou Al-Assad

Ironicamente, o atentado terrorista do Hamas contra civis israelitas, a 7 de Outubro do ano passado, foi o último prego no caixão do regime de Bashar al-Assad.

Como?

Assim: Israel reagiu com a brutalidade genocida que é conhecida, o que levou o Irão a ordenar que o seu proxy Hezbollah explorasse as (alegadas) fragilidades do exército israelita a norte.

Como essas fragilidades não existiam, Israel respondeu com a aniquilação total do topo da cadeia de comando e destruiu a infraestrutura dos fundamentalistas libaneses, deixando o Hezbollah a soro. [Read more…]

O governo caiu, mas os alemães têm memória

O governo alemão caiu. Especialistas instantâneos em política interna alemã apressaram-se a garantir que vem aí a extrema-direita, porque Trump ganhou nos EUA e porque Le Pen está na linha da frente para suceder a Macron.

Sucede que na Alemanha, ao contrário de França e sobretudo dos EUA, vigora um sistema político cujo poder reside no Parlamento e no governo que dele resulta. E, ao contrário daquilo que acontece com a direita liberal e conservadora em países como Portugal, Espanha ou França, na Alemanha não há registo de cedências à extrema-direita. [Read more…]