País de brincadeira…

O furacão político disfarçado de tempestade

António Costa aproveitou a situação de dormência mediática do país, causada pela tempestade Leslie e pela respectiva cobertura televisiva pensada para as audiências, para anunciar a aprovação do Orçamento de Estado 2019, para tentar remediar o caso Tancos e para fazer uma profunda remodelação do seu governo.

É clara a aposta no tempo mediático para resolver assuntos que, noutra ocasião, atrairiam atenção e escrutínio sobre si mesmos. Há neste truque político um certo ar de fuga ao debate. Outros também o terem usado não o torna menos merecedor de repúdio.

Quanto às substituições, é de reparar nas que não foram feitas. O problemático Ministro da Educação manteve-se no cargo, o que demonstra que as trocas e baldrocas a acontecerem no ensino e na relação com os professores têm o aval do governo. E a Ministra da Justiça irá continuar o mesmo rumo da não resolução da situação endémica de uma justiça que não funciona.

(Em cima Esq./Dir). Ministro da Defesa Nacional João Gomes Cravinho, ministra da Sáude Marta Temido. ( Em baixo Esq./Dir) Ministra da Cultura, Graça Fonseca e ministro da Economia Pedro Siza Vieira [Imagem e legenda: SIC]

A maioria parlamentar e o salário mínimo

O adjectivo “mínimo”, numa expressão como “salário mínimo”, deveria servir para classificar um montante que permitisse a quem o recebe um mínimo de dignidade. Na realidade, tendo em conta o custo de vida em Portugal, sabemos que isso não é verdade.

Há dois dias, o arco da governação chumbou uma recomendação do PCP para que o ordenado mínimo passasse para 650 euros. As razões apontadas por esta gente, para quem país e cidadãos são compartimentos estanques, correspondem a jogos florentinos de quem está sempre do lado dos mais fortes.

O CDS, fiel à voz do dono, criticou a proposta do PCP, considerando que se trata de uma “prova de vida”, o que é sempre muito fofo da parte de um partido que se lembra de pensionistas e de agricultores em anos de eleições.

Pergunto-me o que leva as vítimas de sucessivos assaltos a dar maioria absoluta aos assaltantes, essa sim, uma geringonça com mais de quarenta anos.

Pedro, lobo e o país sem plano de emergência

Evolução da tempestade Leslie [fonte: IPMA clicar na imagem para ampliar]

Em diversos locais do distrito de Coimbra, tais como Soure e Figueira da Foz, há um apagão eléctrico generalizado. Não é novidade. Em 2013 Soure teve uma situação semelhante e esteve 4 dias sem electricidade. Vamos ver quanto tempo demorará a entrar em acção um plano de emergência – ou a constatarmos que, passados 5 anos, nada mudou.

Entretanto, o Presidente da Câmara Municipal de Soure, Mário Jorge Nunes, vai decretar estado de calamidade pública no concelho. A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), num ponto de situação às 09:00, deu a dimensão da catástrofe.

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A guerra dos mundos

Sandro Morais

Antes da missa da manhã deste Domingo, várias árvores tombadas pelo vento e dezenas de horas consecutivas de reportagem televisiva, com o depoimento em directo de inúmeros especialistas em ventanias e chuva verdadeiramente torrencial e molhada, caindo do céu aos trambolhões como canivetes, repórteres entrevistando as ondas do mar, o monstro de Loch Ness e duas ou três telhas voando do cimo das casas como pássaros insanos, fizeram de Leslie, esse mortífero cataclismo tropical, o mais eloquente retrato de um país sitiado, não pelo Outono, que na Terra já não há estações, mas pela mais pungente e dolorosa imbecilidade, jamais vista, aliás, neste cruel mundo de Deus.

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Costa e Negrão à porrada

via Expresso

À porrada com cartas, que é mais civilizado e tem aquele aroma a século XIX. Costa não admite ataques de carácter a Negrão, Negrão pede a Costa que não se faça de vítima. Chique a valer!

Ignorância, ódio e instrumentalização do medo: Bolsonaro, o Messias da violência

A Vice arriscou-se pelos covis do fascismo que alimentam a ascensão do próximo ditador da América Latina.

O elogio da tortura e a exaltação da violência, o fundamentalismo religioso acéfalo (passo a redundância), a cultura da ignorância e da desinformação e o ódio contra minorias e instituições democráticas atravessam os 25 minutos deste curto, mas esclarecedor documentário. [Read more…]

E daquela vez em que Bolsonaro afirmou que Hugo Chávez era uma esperança para a América Latina?

Alguns bolsonazis sentir-se-ão tentados a afirmar que a imagem em cima é uma montagem, um pérfido exemplo das mais odiosas fake news à la Trump. Outros sentir-se-ão deprimidos, já que o único argumento que lhes resta é o “Então e a Venezuela?”. Mas Bolsonaro, não vai muito tempo, achava que Chávez era uma esperança para a América Latina e gostava que a filosofia chavista chegasse ao Brasil. Definia-o como “ímpar” e queria ir à Venezuela conhecê-lo. E isto tem que doer aos milhões de fanáticos fascistas que o seguem como uma divindade messiânica.

Aguentou-se à defesa até aqui

Azeredo Lopes abandonou a cadeira de ministro. Já quanto ao cargo, mais parece ter ficado abandonado há muito.

Mar-a-Lago School of Diplomacy

Fotografia via Jornal Económico

A meio da semana, vi Trump afirmar perante a imprensa norte-americana que a sua filha Ivanka seria uma excelente sucessora de Nikki Hailey, a representante demissionária dos EUA na ONU. Nas suas palavras, Ivanka seria “dinamite”, o que de resto faz todo o sentido. E, claro, Trump fez questão de sublinhar que tal decisão nada teria a ver com nepotismo, até porque, afirmou, não há no mundo alguém mais competente do que a sua filha. Nem com nepotismo, nem com diplomacia. Felizmente, Ivanka teve o bom senso de se demarcar de mais um anúncio estapafúrdio do presidente-palhaço. Até ver. [Read more…]

E o valor foi zero

Com Pedro Passos Coelho aprendi o valor e preço da verdade na política.” Para que não restem dúvidas sobre o que é que Teresa Morais aprendeu, lembremos o seguinte clássico.

Haja memória, s.f.f.

 

O Bolsonazi é tão, mas tão mau

que a própria extrema-direita não o suporta.

Robot Atlas a fazer parkour

O software de controlo usa todo o corpo, incluindo pernas, braços e torso, para acumular energia e força para saltar sobre o tronco e subir degraus sem quebrar o seu ritmo.

As palas

Para um conjunto de pessoas, a ascensão do facho que faz a preferência dos brasileiros deve-se a Lula e ao PT. João Miguel Tavares faz parte da trupe, afirmando que “Bolsonaro é uma erva daninha que foi diariamente regada por um PT profundamente corrupto, que os brasileiros (à excepção dos nordestinos) querem hoje ver para trás das costas.”

Para esta gente, o golpe de Estado que depôs Dilma, para colocar no seu lugar um corrupto de todo o tamanho não é chamado para estas contas. A ausência de um partido credível que possa servir de alternância não interessa.

A conclusão do ilustre cronista é que a corrupção é de esquerda, assim podemos inferir.

Bolsonaro é uma erva daninha que foi diariamente regada por um PT profundamente corrupto, que os brasileiros (à excepção dos nordestinos) querem hoje ver para trás das costas. A esquerda brasileira demorou muito tempo a perceber isso. A portuguesa ainda não percebeu. A corrupção mata os regimes democráticos. Está a acontecer no Brasil. Era bom que não viesse a acontecer em Portugal. [JMT]

Sai um par de orelhas ali para o canto, s.f.f.

Quem quiser que acredite

Lamento, mas não compro a narrativa sobre a demissão de Paulo Dentinho. Nem por sombras. Já há muito que me surpreendia a tolerância que parecia haver, por parte do director de informação, à vertiginosa descida da RTP no que respeita a uma equidade mínima na informação, no modo como ia fenecendo o sentido ético e deontológico que ainda por lá restava. E falo de surpresa porque, apesar de tudo, não considero Dentinho dos piores, longe disso.

Situações que vão ocorrendo, tratadas de modo inqualificável pela estação – as eleições brasileiras, por exemplo – , provavelmente terão levado ao limite o sentido de decência que resta a Paulo Dentinho. As pressões devem ser tremendas e a malta do Observador vai afiando o dente, já que não lhe chega o Dentinho. As explicações públicas tresandam a arranjo patrocinado pela entidade patronal. Quem quiser que acredite.

Cristãos Violentos

Eu já li a Bíblia inteira muitas vezes. Tudo que aprendi sobre Jesus foi lendo sobre ele.

Em uma das passagens sobre Jesus, um dos seguidores (Pedro) pega uma espada e fere um homem que estava lá para pegá-lo.

A violência foi relatada nos quatro Evangelhos (João 18:10-11, Mateus 26:51; Marcos 14:47 e Lucas 22:49-51)

Os detalhes são vários pontos de vista mas em todos Jesus cura o homem ferido. No livro de Mateus a versão que mais admirei:

52 – “Então Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que tomam a espada, morrerão à espada”.

Hoje nas eleições brasileiras vejo “cristãos” fazendo o símbolo da arma como símbolo de intenção de voto e decretando a morte alheia. Respiro fundo e penso naquele Jesus.

Bolsominions sadomasoquistas

A esmagadora maioria dos imigrantes brasileiros em Portugal votou no candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

A esmagadora maioria dos imigrantes brasileiros em Portugal, sujeitos a décadas de violentos insultos, preconceito e estereotipação, votou num tipo que se refere a migrantes de países pobres como “escória do mundo”.

Será que eles compreendem que, caso Portugal caísse no erro de eleger um troglodita como Bolsonaro, o risco de serem quase todos perseguidos e/ou corridos daqui disparava de forma vertiginosa?

Ou será que a propaganda do fascista lhes esvaziou o cérebro?

Em todo o caso, seria boa ideia espreitarem as simpáticas mensagens que o PNR lhes vai dedicando. Assim, já ficam a perceber com o que contam e no que votaram.

Desorientação sexual

Há, com certeza, razões ancestrais para que as pessoas se preocupem tanto com a vida sexual das outras pessoas ou com a vida sexual mesmo sem pessoas: o medo do animal que vive em certas partes do corpo, o medo do corpo que vive em certas partes do animal, o medo de que outro corpo leve o corpo de que gostamos, o medo de não sabermos tudo sobre a vida dos outros, o medo de que a vida dos outros seja melhor do que a nossa, o medo da infelicidade dos outros. [Read more…]

Fazer mossa sem aleijar

Por enquanto, rimo-nos dos outros. Um dia estaremos nós no vídeo. Entretanto, rir vai fazendo mossa no facho, sem o aleijar, no entanto.

Bolsonaro bolça

O extraordinário conselheiro Acácio, uma vacuidade do tamanho de Cavaco Silva, nunca empregava palavras vulgares, o que o levava a substituir “vomitar” por “restituir”.

Nós, nos dias que correm disfémicos, usamos palavras ainda piores que “vomitar”, que o léxico está cheio de brutalidades e o humor não pode ser apenas inteligente e refinado.

Todas as palavras e expressões que se referem a funções excretórias mais ou menos voluntárias têm servido de metáfora para designar actos ou palavras dignos de compaixão ou de repulsa moral. Lembre-se, por exemplo, uma frase como “Já fiz merda!”, que não se refere ao acto de defecar.

Nos últimos dias, a propósito de afirmações de Jair Bolsonaro, muitas delas infelizes, para usar um larguíssimo eufemismo, as redes sociais têm recorrido à metáfora “bolçar”, a propósito do conteúdo do discurso. Demasiadas vezes, a ortografia tem fugido para um “bolsar” homófono mas errado, como poderão confirmar os que seguirem as ligações.

É certo que Bolsonaro só diz merda, vomita pus, mas não é caso para esconder o cê e a cedilha, sem a qual o caçador não poderia ir à caça, antes indo à procura daquilo que sai da boca do, pelos vistos, futuro Presidente do Brasil.

Trump e Bolsonaro: as provas vivas de que o capitalismo selvagem detesta a democracia

Imagem via Blog de Pablo Reis

A eleição de Trump, o anti-herói que alguns palermas ainda acreditam não representar os mais imorais interesses económicos, foi apresentado ao mundo como aquele que vinha para romper com o establishment e acabar com os poderes ocultos que nos conduziam para uma ditadura globalista. Não só não o fez como não há stock de Gout de Diamants que resista ao clima de celebração em que vivem os piratas de Wall Street, desde que o anormal foi eleito.

Com Bolsonaro sucede exactamente a mesma coisa. Aldrabado que está grande parte do povo, com uma campanha milionária totalmente focada nas redes sociais e na desinformação, largos milhões de ingénuos (ou imbecis) acreditam que Bolsonaro não representa a elite abastada do país. E a elite abastada do país já esfrega as mãos com o que aí vem. Porque a supressão de direitos e liberdades é sempre boa para o negócio, até porque pagar salários justos e dar condições aos trabalhadores é sempre uma maçada e o helicóptero não se mantém sozinho. Que o diga a bolsa de São Paulo, em contraciclo com o resto do mundo.

Na mouche

Lula e Haddad.

Cá se fazem…

O Presidente da República classificou esta segunda-feira de “falta de senso e falta de gosto” o veto governamental, em 1992, da candidatura da obra de José Saramago O Evangelho segundo Jesus Cristo ao Prémio Literário Europeu. [Público]

Cavaco afirmou, entretanto, que não iria comentar por estar na hora de ir nanar. Mesmo assim, ainda referiu que não lê jornais e que quer é que o deixem trabalhar.

Fazer regressar a poesia ao Brasil

Rui Correia

Escutava com muita atenção hoje na tsf um homem a perorar contra a esquerda do Brasil. Dizia que foi a esquerda quem levou o país à ruína. Falou de corrupção.

Não foi, não.

O que fez e faz com que tantos países adiram agora aos extremismos ultranacionalistas de direita (SVP na Suiça, o PPD dinamarquês, o Finns da Finlândia, Norbert Hofer na Áustria, Geert Wilders na Holanda, Le Pen, Mateusz Morawiecki na Polónia, Orban na Hungria, Trump, Bolsonaro…) não é, nunca foi, a corrupção.

Foi algo muito mais potente do que a corrupção.

O que põe o Brasil nas mãos de um alucinado é a aflição de não haver esperança num futuro melhor. A poesia como espécie em extinção.

Sempre existiu uma forma simples de esmagar o ultranacionalismo como impostura vigarista e barata que sempre foi e é.

A solução esteve sempre em saber escutar com atenção aqueles que agora chamamos “descontentes”, eufemismo horrível.

A única forma de parar com os “descontentes”, é perceber o que põe “descontentes” os “descontentes”. E o que os põe “descontentes” é – será sempre – o mesmo de sempre. [Read more…]

Boa sorte, Brasil!

 
Hoje, Alexandre Frota, que protagonizou vários filmes de pornografia gay, foi eleito deputado federal pelo PSL, o partido do mesmo Bolsonaro que anda há anos a demonizar os homossexuais. Do mesmo Bolsonaro que prefere ver o filho gay morto.

Incêndio em directo

Fotografia: Pedro Nunes/Lusa@Expresso

Eram 04:30h, mais coisa, menos coisa, e vários canais continuavam a transmitir imagens do incêndio que lavrava na Serra de Sintra. Havia câmaras entre mangueiras, coadjuvadas por jornalistas esbaforidos, e relatos emocionantes sobre a proveniência dos meios de combate. Porque a exploração mediática do negócio dos incêndios não tem limites. É showbiz.

Preocupações com a estrema-direita

Le Pen, Áustria, Bolsonaro, só para enumerar três. Muitas preocupações, justas, com que se tem passado e com o que pode vir a acontecer. Mas observo amiúde que há muitos olhos que se fecham perante o que se passa na América. A extrema-direita está no poder numa das nações mais importantes do mundo. Trump é o fascista, ou lá o que lhe queiram chamar, que chegou ao poder. Fica a lembrança, para que não se vista a cara de estadista preocupado num lado e se faça de conta que nada se passa no outro.

Crónica de um protesto cidadão vigoroso com desfecho vitorioso

Foto: dpa/Christophe Gateau

  • A empresa energética alemã RWE estava determinada a destruir, nos próximos meses, o pouco que resta (10%) da floresta milenar de Hambach, situada perto de Colónia, a fim de expandir a sua mina de extracção de lignito – contando para isso com o apoio dos governos federal e regional e baseando-se numa autorização legal para a exploração, atribuída há décadas.
  • Para bloquear essa destruição e expansão, há já seis anos que activistas ambientais ocuparam essa área, construindo 60 cabanas no alto das árvores.
  • Há cerca de três semanas, a polícia começou a desalojar à força os activistas, enquanto os protestos ganhavam cada vez mais força, com manifestações em que a luta contra a destruição da floresta se tornou um símbolo da resistência contra a extracção de lignito e por um melhor clima.
  • Tragicamente, há duas semanas um jornalista morreu, ao passar de uma das cabanas para a outra. As acções de evacuação foram interrompidas, mas recomeçaram poucos dias depois, com a RWE a alegar que o desmatamento era imperioso para garantir a produção de energia – isto, enquanto a recém-criada pelo governo “Comissão do Carvão” inicia os trabalhos para definir as linhas de uma estratégia energética para o país.
  • O movimento cidadão, porém, não baixou os braços e anunciou uma concentração com dezenas de milhares de pessoas para hoje, sábado.
  • Há dois dias, a polícia comunicou que a manifestação seria proibida por não poder garantir a segurança dos acessos.
  • Ontem, sexta-feira, as boas notícias:

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Mais uma vez, Cristiano Ronaldo violou as redes

Hoje foi em Udine.

Girl with a ballon e uma guilhotina

Há um cume de ironia quando uma obra recusada pelo poder estabelecido se auto-destrói depois de vendida num leilão. Consigo imaginar a eventual enorme risada do autor perante as caras de pânico no final do vídeo.

“There is always hope” Fonte: Dominic Robinson, CC BY-SA 2.0, via Flickr