Muito bem, Bloco de Esquerda

Segundo o Observador, o Bloco de Esquerda “recusa-se a participar em receção“. Se me enviassem um convite para participar numa ‘receção’, também recusaria, por um motivo muito simples: não sei o que significa. Aliás, não estou sozinho. Além de mim e de outros falantes e escreventes de português europeu, também os falantes e escreventes de português do Brasil desconhecem o significado de ‘receção’. Efectivamente, não nos esqueçamos do objectivo: “conseguir chegar a uma ortografia comum”.

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© NASA via Gazeta Wyborcza (http://bit.ly/1Jixop6)

Depois do PS, do PSD e do CDS: eis o Bloco de Esquerda

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Efectivamente, depois dos “sectores transacionáveis” do PS e da “perspetiva prospetiva” da coligação PSD/CDS, chegam as “linhas gerais da proposta económica do Bloco para as legislativas“.

Vejamos alguns (só alguns) dos aspectos mais importantes do documento:

“efeitos recessivos da política de austeridade se fizeram sentir na actividade económica” (p. 3);

“dividendos e mais-valias resultantes de atividades no exterior” (p. 13);

aspectos elementares do nosso ordenamento constitucional” (p. 6);

“outros aspetos da reforma” (p. 13);

“Não há só uma forma de atingir estes objectivos” (p. 8);

“exige clareza nos objetivos e flexibilidade nas soluções” (p.8);

“tributação  indirecta  na  carga  fiscal” (p. 10);

“tributação  indireta  na  carga  fiscal” (p. 10);

“conceito de sede efectiva” (p. 11);

“têm beneficiado das taxas efetivas” (p. 13);

“mecanismo de correcção” (p. 6);

“o artigo 3.º do Tratado Orçamental, no seu ponto 2 dispõe que: “As Partes Contratantes instituem, a nível nacional, o mecanismo de correção (…)” (p. 6);

“ultrapassados for força da acção do BCE” (p. 15);

“não pode sobre elas exercer ações de fiscalização intrusiva” (p. 17).

Continuação de uma óptima semana.

Os voluntários por António Costa

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Parece que este ano as campanhas eleitorais se mudam com armas e bagagens para o Facebook (e em fórmula cérebro reduzido a uma sms para o Twitter). Natural, portanto, que surjam páginas com a função de distribuir propaganda, nada contra, tendo-me hoje cruzado com uma designada Voluntários por António Costa.

Começaram por vender o seu programa económico numa série a que se poderia dar o título Diz-me quem o elogia e dir-te-ei o que é.

Esgotado aí, e ganho por KO técnico, o combate para o lado direito, viraram-se para a esquerda. E sai isto: [Read more…]

Bloco contra coligação de interesses em Angola

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O Bloco apresentou hoje na Assembleia da República uma proposta para solicitar às autoridades judiciais angolanas a libertação e anulação do julgamento do jornalista Rafael Marques. Uma proposta corajosa que dignifica qualquer democracia  e que toca na questão central do Charlie Hebdo. Liberdade de expressão, lembram-se? Apenas o Bloco e 5 deputados do PS (Isabel Santos, Eduardo Cabrita, Bravo Nico, Carlos Enes e António Cardoso) votaram a favor. PS, PSD, CDS, PCP e Verdes votaram todos contra. Tenho a certeza que a esmagadora maioria de militantes e simpatizantes do PCP e PS reprovam e não compreendem a posição do respectivo partido.

70 anos depois da libertação de Auschwitz, 50 anos depois da marcha entre Selma e Montegomery, depois de décadas de combate a ditaduras criminosas, a governos corruptos e a quem com eles compactuou, eis que em 2015 a cobardia, o lambe-botismo e os interesses económicos mais sujos disseram presente com toda a força na Assembleia da República. Uma vergonha. Hoje as águas ficaram bem separadas no parlamento.

O Expresso e os “erros de alemão”

Efectivamente, a notícia em que o Expresso denuncia “erros de alemão” num cartaz do Bloco de Esquerda tem *deustcher. Como sabemos, *deustcher não existe. De facto, *deustcher é erro. Como diria o meu amigo Rainer, wir sind vom Regen in die Traufe gekommen.

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Portugiesisch für Anfänger

BE wer im Glashaus sitzt soll nicht mit Steinen werfen

via Catarina Martins @catarina_mar http://bit.ly/1Aoy4ZH

Um cartaz do Bloco de Esquerda com “erros de alemão“, und dann brach die Hölle los.

É verdade que falta uma vírgula antes do pronome relativo. É verdade que os adjectivos não são grafados com maiúscula inicial. É verdade que só comete erros destes quem não sabe alemão e se esquece de pedir a alguém que saiba para escrever (ou rever) a frase. Tudo isto é verdade.

A ironia é “erros de alemão” serem notícia num jornal português que escreve “temos de enfrentar o fato“, “contatado pelo Expresso”, “o Expresso tentou contatar“, “Seguro desdobra-se em contatos“.

A ironia é “erros de alemão” serem notícia num jornal português que escreve *eletric (sim, é inglês).

Como dizia o meu amigo Rainer Euler, wer im Glashaus sitzt soll nicht mit Steinen werfen.

AvançAR

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Ao contrário do que afirma Ana Drago nesta entrevista recente à SIC Notícias, a chamada plataforma cidadã Tempo de Avançar não é, infelizmente, uma coisa nova. E não é nova porque lhe falta massa cidadã, justamente, isto é, uma participação inequivocamente emanada dos cidadãos, e dos cidadãos indistintamente considerados, ou seja, cidadãos não-afectos ao Bloco de Esquerda, por exemplo sob a forma de simpatizantes (e basta consultar a lista de primeiros aderentes – entretanto organizados em Conselho de candidatos efectivos – para ver a que ponto ela está capturada por esses simpatizantes e amigos mais ou menos próximos do BE).

Não vejo nenhum problema em ser-se simpatizante ou amigo do BE, era o que mais faltava. Já votei no BE – ah pois foi. Mas já vejo um problema em verificar a que ponto se está disposto a lançar mão de exemplos bem sucedidos ocorridos noutros países (o Syriza, o Podemos) para tentar construir, com evidente artificialidade, o que em Portugal não há (ainda): a emergência de um movimento de cidadãos ou de uma coligação de pequenos partidos reunidos em torno de um programa anti-austeridade, de defesa dos interesses democráticos e nacionais, e aptos (i.e., prontos e preparados) para governar – o povo do País e junto da UE. E essa demagogia, enunciada ainda no adro, entristece quem, como eu, está atento à marcha da procissão dos aflitos e descontentes com os partidos, e muito especialmente os da Esquerda.

Levado pela mão de figuras todas elas emanadas do Bloco de Esquerda – dissidentes de dissidências várias, como são os casos de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira –, o movimento Tempo de Avançar não parece, assim, ser substantivamente diferente do que ainda há semanas foi tentado por uma outra dupla de também dissidentes do BE: Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida, fundadores do Juntos Podemos, ao que se sabe entretanto já dissolvido por novas (ou renovadas) dissidências. [Read more…]

Uma rádio portuguesa, com certeza

TSF

Segundo uma rádio portuguesa, a página do Bloco de Esquerda publicou a carta aberta escrita por Alexis Tsipras, traduzida por um “blogue português”. Ora, para quem não souber, o “blogue português” referido pela rádio portuguesa é o AVENTAR. A-V-E-N-T-A-R. Exactamente: o Aventar.

Não percebo o motivo de a rádio portuguesa não ter dito que a página de um “partido português” tinha publicado uma tradução de um “blogue português”. Ou somos todos portugueses, ou há moralidade.

Agora, vamos ao *Handesblatt.

Em primeiro lugar, não é Handesblatt, é Handelsblatt. H-A-N-D-E-L-S-B-L-A-T-T. Se, na rádio portuguesa, lerem com atenção a tradução feita pelo “blogue português”, perceberão.

Cito:

A maior parte de vós, caros leitores do Handelsblatt.

Em segundo lugar, registo o facto de a rádio portuguesa referir — sem grande êxito, como se percebeu — o nome do jornal alemão e de não mencionar o nome do “blogue português”.

Como não sou mal-educado, ficai a saber que a rádio portuguesa que não menciona o nome do “blogue português” é a TSF.

Lamentável, lamentável, lamentável.

Vergonhoso, vergonhoso, vergonhoso.

Actualização (31/01/2015): Entretanto, a TSF retractou-se. Causa finita est.

tsf retractação

Troika para o Bloco já!

Juntem Pedro Filipe Soares a João Semedo e Catarina Martins e está ultrapassado o impasse: uma liderança tricéfala! No Bloco, cabem todos…

Paulo Portas e o Bloco de Esquerda

Portas

© ANDRE KOSTERS/LUSA (http://bit.ly/1x6xXwm)

Segundo o Expresso, Paulo Portas terá dito o seguinte:

porque há pessoas que têm que projetar as casas, construí-las, equipá-las, produzir materiais e fazer a produção, reabilitação, recuperação e venda.

Ora bem, quem ouviu as palavras de Paulo Portas terá detectado algumas falhas nesta citação.

Concentremo-nos na mais grave.

Exactamente: projectar. Porque, em português europeu, projetar nada significa. Como é sabido, projetar [pɾuʒɨˈtaɾ] ≠ projectar [pɾuʒɛˈtaɾ] — como coação [kwɐˈsɐ̃ũ̯] ≠ coacção [kwaˈsɐ̃ũ̯] ou corretor [kuʀɨˈtoɾ] ≠ corrector [kuʀɛˈtoɾ]. Contudo, ‘coação’ e ‘corretor’ têm uma grande vantagem em relação a projetar.

Existem.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana

Problemas de memória com o Muro de má-memória: 4 notas de Rui Bebiano

Esta manhã publiquei um parágrafo retirado de um texto que Rui Bebiano escreveu e publicou no seu A Terceira Noite. Reedito agora este post e, com a autorização do autor, publico o texto na íntegra, para que o contexto em que esse parágrafo se insere não se perca. Em favor, também, de um debate urgentíssimo para as esquerdas, que o texto de Rui Bebiano, que não é um homem de direita, suscita. [S.A., 14:00]

Quatro notas sobre a queda do Muro

Rui Bebiano

1. Vinte e cinco anos após a derrocada do Muro de Berlim, boa parte do seu cenário permanece na nossa memória partilhada. Mais que uma incomum fronteira física, ele constituía uma metáfora, e as metáforas não se apagam a meros golpes de vontade e picareta. Do lado ocidental, uma pesada vedação de 155 quilómetros contornava todo o perímetro da parte da cidade que não fora ocupada pelo Exército Vermelho. Era possível tocar o betão que lhe dava solidez, sobre ele podiam pintar-se palavras de ordem, escalando até uma posição confortável conseguia observar-se de longe o hermético «Leste». Do lado oriental, o Muro era cinzento e deprimente, eriçado de arame farpado, ladeado por uma terra de ninguém minada e perigosa para qualquer leste-alemão que tentasse uma mera aproximação ao carcinoma do capitalismo. Em cada metade de Berlim, viva-se uma existência esquizofrénica que concebia a realidade a partir de duas escalas que simultaneamente se olhavam e ignoravam. Como se uma não pudesse viver sem a outra, aceitando-se na certeza de que a proximidade se materializava numa distância que condenava cada modelo à inflexível clausura. O Muro representava a metáfora suprema da simetria que a Guerra Fria impunha. [Read more…]

Qual piropo?

Parece-me que anda por aí uma certa confusão, não exclusivamente masculina, quanto ao que significam “piropo” e “assédio sexual verbal”. Um piropo pode ser poético, pode arrancar um sorriso, porventura até pode ser o princípio de uma bela história de amor.

“Fodia-te toda”, babujado por um desconhecido aos ouvidos da mulher com quem se cruza na rua, não é um piropo, é uma agressão.

Dito isto, e quanto à criminalização do “assédio sexual verbal”, a minha mãezinha ensinou-me, através do seu enérgico exemplo, que duas chapadas bem dadas sabem muito melhor do que uma queixa na polícia.

Piropos (II)

Ó João, de que loja de brinquedos saíste, boneco?

Piropos (I)

Ó Catarina,  o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim.

O complexo anti-PS e a divisão da esquerda

dialogoRui Curado Silva concorda que «enfrentamos uma crise», apesar de a dimensão dessa «crise» ressaltar bastante pequena no seu texto, focado nas coisas domésticas do Bloco de Esquerda (que interessam pouco a generalidade dos votantes à esquerda, quer-me parecer) e na afirmação derrotista de uma alegada impossibilidade que dá força ao que supostamente pretende combater.

Pessoalmente, interessa-me pouco se foi mais ou menos bonita a maneira como alguns militantes do BE abandonaram esse barquinho – um pouco-mais-que-dóri que já foi quase um lugre, diga-se de passagem, capaz de transportar mais gentes, deputados, vontades, anseios. Os partidos têm sido assim: cheios de abandonos e traições de gente que diz estimar-se entre si. Assim é também com as famílias – Shakespeare, para citar o nome de um grande especialista, debruçou-se longamente sobre estas coisas humanas. [Read more…]

The bomb will bring us together

Rui Curado Silva

explosão nuclear no atol de Bikini

A forma como a Associação Fórum Manifesto saiu do Bloco não foi bonita, aquilo não se faz nem numa associação de jogo de berlinde. Tenho muita estima por diversas pessoas da associação por isso preferi sair da Manifesto do que levantar conflitos com questões processuais que são secundárias perante a crise que enfrentamos.

Na última convenção do Bloco apresentei um texto intitulado “A desunião não faz a força”, onde lamentava a falta da união necessária da esquerda em Portugal e na Europa para combater a finança e a austeridade. Nessa convenção integrei a moção B, uma moção de oposição à direção, onde militavam alguns dos aderentes que viriam a sair do Bloco. Desde então essa moção B transformou-se em Plataforma 2014 que tem apoiado o diálogo à esquerda com Livre, 3D, etc., tentando combater o estigma do sectarismo de dentro do BE. Temos conseguido crescer e influenciar uma parte da moção maioritária onde não são poucos que também defendem essa abertura. Tomámos parte na defesa de alguns dos camaradas que saíram do Bloco, sendo frequentemente criticados por esse facto. É por isso desconcertante para todos nós que dentro do Bloco temos tomado estas posições a operação da Manifesto. Mas pior ainda foi esta saída ter alimentado a ideia de que só restam sectários dentro do BE. Essa não é nada justa. Com todos os seus problemas, o Bloco é um partido onde todos se podem exprimir livremente (lembram-se da Ruptura-FER?), bem diferente do PCP ou do PS que expulsou esta semana uma centena de militantes honestos e mantém a filiação de militantes condenados por corrupção. [Read more…]

Falem por si

Ana Drago, dizem, vai abandonar o Bloco de Esquerda. Nada tenho com isso e muito menos com as razões que alega. Não sou comentador televisivo e não me apraz a especulação gratuita nem os julgamentos sumários que tanto agradam à maior parte dos nossos jornalistas. Mas há um ponto que, por ser coisa recorrente em crises de todos os partidos, importa relevar: a frequência com que os que saem fazem questão de arvorar a representação de um grupo ou organização que dê relevo – e, talvez, prestígio – à sua dissidência.

Reparem que não discuto aqui – era o que faltava – as razões ou convicções que levam alguém a abandonar um partido. Muitas pessoas o fizeram com dignidade e discrição sem alardear um ego sobre-dimensionado. Outros portaram-se como ratos num barco que pensam em risco. Há de tudo. Até os que mudam de partido e mantêm o seu lugar no Parlamento, atacando, em nome do seu novo amor, o partido a que pertenceram (não é, José Magalhães?). Outros há que vão tratar da vidinha. Há ainda quem sofra uma epifania e faça uma volta de 180º, passando a servir o Senhor ( e os senhores…não é Zita?). Mas o que me traz aqui é, como escrevi acima, a batota da falsa representatividade que alguns dissidentes alegam, por iniciativa própria ou embalados por uma comunicação social rapace e tendenciosa.

É a vez de Ana Drago. Por que diabo não desmente publicamente as notícias que proclamam que consigo toda uma corrente sai do BE? Por que diabo é para aqui chamado o Fórum ou a Política XXI e, pior ainda, porque se usa despudoradamente o nome de Miguel Portas? Não tendo nada com o BE – mas nele não me faltando amigos e companheiros de luta de tempos mais difíceis – a minha reacção decorre da náusea de já ter visto este número muitas vezes – incluindo no meu partido – e sempre com argumento semelhante, só mudando os actores. Por que diabo não se mantêm na sua dimensão e falam por si? Se alguém os quer acompanhar, tem voz e cérebro próprios.

O estranho caso da cisão que antes do ser já o era

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A saída da Política XXI que agora se chama Forum Manifesto do Bloco de Esquerda é uma anedota à portuguesa. A dita associação era simultaneamente uma das tendências do BE, chamem-lhe corrente, e espaço de intervenção política onde estão, por exemplo, Daniel Oliveira e Rui Tavares. Este exemplo sui generis de um partido que tem uma corrente onde estão militantes de outro partido tem agora o seu fim: a maioria dos presentes numa Assembleia decidiu sair depois de alguns dos presentes já o terem feito, conseguindo assim a assinalável proeza de saírem duas vezes. É obra. Acrescente-se que chamar a isto o segundo funeral de Miguel Portas não é descabido de todo.

Não tenho muito  a acrescentar ao que aqui escrevi quando Daniel Oliveira saiu, sozinho. Tem para mim o detalhe de agora incluir gente que muito prezo (caso do Nuno Serra que tantas vezes concordou comigo em críticas ao funcionamento interno e também por isso não incluo no leque dos que só se começaram a queixar quando lhes tocou) e apresenta-se como mais um episódio da decadência do Bloco, o que é discutível, o peso público de quem sai é muito superior ao que tem internamente. [Read more…]

sem surpresas (mas com um certo ar de alarme)

pela primeira vez desde que tenho consciência cívica e política (desde os meus 11\12 anos) decidi não assistir a uma noite eleitoral. deixei o professor marcelo a pregar aos incautos, o dr. karamba marques mendes a adivinhar o número exacto dos próximos cortes orçamentais, a Judite de Sousa (sem ou com Montenegro; com ou sem equívoco na pessoa) num saco do Pingo Doce e a televisão desligada de forma a poupar energia e pagar menos à China Three Gorges. encontrei-me com a minha princesinha AMF e fomos ao cinema ver Grace of Monaco de Olivier Dahan. apesar da história ser batida, o filme de Dahan acaba por ser bastante interesse e, no plano técnico, é simplesmente fantástico. desde os planos à direcção das cenas, passando pelo límpido som de voz nos diálogos entre personagens.

a campanha foi degredante. do surfer rosa (bem que queria ir ver os pixies para a semana ao primavera sound mas mas todo o argent é escasso nos dias que correm) nos currículos escolares aos vírus despesistas. de reminiscências do holocausto que não foi vivido em verso à governação socratina. Até o filósofo (cientista política, teorético político) teve que se meter na querela e vir a público lavar roupa suja. Sócrates himself, teve ali uns 7 orgasmos seguidos durante os 3 episódios em que pode comentar a campanha. discutiu-se tudo excepto política europeia. discutiu-se tudo excepto os problemas que neste momento precisam de ser resolvidos na europa bem como os que estão a rebentar. como a deflação. o partido socialista ainda tentou lançar a discussão sobre a mutualização da dívida na fórmula desusada de eurobonds mas… com tamanha babugem estavam à espera que a malta andasse informada e estivesse minimamente ciente dos projectos europeus defendidos pelos candidatos?

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Surf? E a lerpa?

A candidata do BE às eleições europeias defende a inclusão do surf nos currículos escolares. Como disse?

Grande aposta! Cavaco fala do mar, Rangel idem, e agora é a vez de Marisa Matias. Surf nos currículos escolares?

E já agora porque não a lerpa? E o pião? E a macaca?

Que triste sina!

Recusas

A recusa do diálogo com a Troyka. A higiene. O mimo. O tau-tau. O eu-choro.

BE Vai à Paula

O Anarca Senil sugere umas coisas desbocadas e o pessoal espontâneo ao milímetro do BE lembra-se «Ah e tal é pra vaiar.»

Muito bem, João Semedo!

DANIEL ROCHA

© Daniel Rocha/PÚBLICO (http://bit.ly/1dYfCKr)

Ao contrário da Portugal Telecom, o coordenador do Bloco de Esquerda não brinca em serviço e escreve impecavelmente expectativas e percepção, demonstrando que a ortografia portuguesa europeia é imune a expedientes desagregadores.

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A especificidade e complexidade das autárquicas ou a cegueira no Bloco de Esquerda

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Consistentemente a descer nas sondagens desde Janeiro, é preciso ter uma grande lata para vir falar em dificuldades nas autárquicas, 25 anos de atraso, blábláblá.

O caso do BE é muito simples: por mais que as extingam e agrupem continua a ser uma coligação de tendências centralizada em Lisboa.  O que foi novo cresceu mas o que nasce torto nunca se endireita. E agora mingua, mirra, encolhe, numa altura em que todas as circunstâncias políticas lhe permitiam voltar a crescer.

Como já estou a ver as cenas do próximo capítulo, europeias, e é sabido como as derrotas fazem de uma organização um saco de gatos, o pior ainda está para vir. Nem quero ver.

(touradas à parte, festejei o regresso à normalidade em Salvaterra de Magos: em política não se admitem barrigas de aluguer)

Fonte do gráfico: Pedro Magalhães

Camaradas, parece que isto é azia, pá…*

Adoro, que adoro, volto a repetir: adoro, os meus camaradas que argumentam sistematicamente com ‘quem não participa activamente nas campanhas’ não percebe nada e deve estar de boquinha bem caladinha e não dizer nada de nada acerca de coisa nenhuma. É uma vergonha pá, não participar nas campanhas e isso e depois andar para aí a dizer isto e aquilo, pá. Porque eles, os ‘verdadeiros adesivos’ (ai, aderentes… adesivos… pá… coiso, pronto) é que sabem, porque colaram cartazes e tiveram de falar com as pessoas e tal durante umas semanas e pronto. Eles é que sabem tudo sobre todas as coisas, portanto, e eles é que compreendem sempre tudo muito bem, aliás, reformulo, compreendem tudo muito melhor, compreendem tudo, mesmo tudo, ponto, muito melhor e muito mais além do que o resto das pessoas que, basicamente, são estúpidas e desinteressadas e coiso. O facto de essas outras pessoas fazerem o seu trabalho de adesivos (quer dizer, aderentes… autocolantes… ai… adesivos… coiso, pronto) noutros contextos (e não, não estou a falar do facebook), que o fazem, não interessa nada. 

O facto de haver muitas maneiras de militar (ai, pá, coiso, ser adesivo, autocolante… pá, pronto, isso…) num partido, incluindo querer discutir esse mesmo partido séria e transparentemente… isso não interessa nada…

Queéqueessamerdainteressamesmo?

O facto de se esbarrar constantemente em discursos dos ‘verdadeiros, dos que-sabem-mesmo-tudo-acerca-de-todas-as-coisas-porque-carregam-os-baldes-da-cola-e-tal-como-se-os-outros-nunca-os-tivessem-carregado-na-vida) que constantemente argumentam com a sua infinita sabedoria de pacotilha, de chapa 4 dos discursos já gastos, esfarrapados, em que já ninguém (pronto, ok, 5 ou 6 adesivos, dos novos e assim mesmo…) embarca… isso não interessa nada. Nem isso nem o desagradável que é para mim, por exemplo, como adesiva-aderente-autocolante-coiso-isso-pá-pronto, ter passado os últimos dois dias a tentar responder (e a conseguir mais ou menos, com alguma elevação e coiso, vá, que eu apesar de não participar activamente no carrego dos baldes de cola, não sou estúpida, nem nunca fui, ainda que possa fingir que sou, à vontade, se quiserem e se eu quiser, principalmente) a montes de gente que me pergunta: ‘oh pá, então e o teu bloco, pá, que é que vos aconteceu?’ 

Na verdade eu consigo responder-lhes, e garanto que não uso a chuva, nem a comunicação social, nem a abstenção, nem a austeridade. Mas gostava, como aderente-adesiva-militante e como alguém que faz a sua aderência como pode e sabe e quer e paga quotas, que me respondessem a mim, sinceramente, transparentemente, sem a chuva, a abstenção, a comunicação social… ou isso: ‘oh pá, então e o bloco, pá, o que é que nos aconteceu?’. E não relativamente ao último mês, mas relativamente, digamos, à última década. gostava mesmo. Talvez a minha aderência fosse maior. De certeza, camaradas, que a minha militância seria infinitamente maior. A minha e a de bastantes outros.

 

*Sou militante (aderente-adesivo-autocolante-coiso-pá-isso) do Bloco de Esquerda e disseram-me agora mesmo que o que eu tenho é azia. Desculpem lá vir para aqui descarregar a bílis e tal.

a paixão, a vergonha, a culpa…

eu tinha 18 anos quando participei a sério, apaixonadamente, cheia de entusiasmo numa campanha partidária. a colar cartazes, a distribuir panfletos na rua e a falar com as pessoas, a vender autocolantes… o cavaco ganhou as eleições. e eu passei a noite inteira a chorar, numa sala escura da sede das palmeiras. mas a chorar a sério, com a mesma paixão e entusiasmo com que participei na campanha. de vez em quando entravam camaradas para me consolar naquela sala, mas o meu desânimo foi tão grande com aquele resultado que nunca mais me esqueci nem da sala, nem dos camaradas que me consolaram. isto foi há 28 anos. e eu nunca mais me esqueci daquela noite. duvido que me venha a esquecer daquela noite e da miúda que então era. e da sede das palmeiras e dos meus camaradas do psr.

ontem não chorei. apesar de ainda ser, de muitas maneiras, a mesma miúda chorona. não chorei. mas pensei que, se calhar, àquela hora havia outros putos que participaram apaixonada e entusiasticamente numa campanha pela primeira vez, a chorar. e se calhar houve outros camaradas que os consolaram. a mim, servir-me-ia de consolo hoje, apesar de não ter chorado ontem, que alguém me dissesse que estes resultados foram uma derrota e que é preciso repensar o que andamos a fazer nos últimos anos. que alguém me dissesse das más escolhas, da falta de critérios sérios na escolha de candidatos, na falta de criatividade em quase toda a parte no modo de chegar às pessoas, das associações à direita que se fizeram, por exemplo, na única ‘vitória’ que se obteve numa coligação que (me) envergonha.

Esta derrota não fragiliza nem derrota o governo*. continuamos na mesma, basicamente no que diz respeito ao essencial. não foi vitória nenhuma contra a troika, nem contra o memorando, nem contra a austeridade. em que país vivem os meus camaradas? deve ser noutro muito diverso do meu. 

eu não sou ninguém, nem sequer me sinto ‘aderente’, pelo menos não seguramente do mesmo modo apaixonado que há 28 anos. mas eu ando a dizer isto (não só no facebook, ou na blogosfera, antes que me venham acusar de o fazer apenas neste contexto, como já antes fizeram) há bastante tempo.

um partido que culpa a chuva, a abstenção ou a comunicação social pelo seu desastre político, não é o mesmo de há 28 anos. é outro. muito diferente. que reage aos desastres como se a culpa fosse dos outros. que não parece ter já capacidade de reflectir sobre si mesmo. enquanto for assim, enquanto continuarmos a por a arrogância e a defesa cega das nossas posições, que evidentemente não resultam, continuaremos sempre a ser outro partido. um partido em que ninguém vota. e olhem, camaradas, aderentes, militantes apaixonados ou não: a culpa não foi da chuva, nem da abstenção, nem da comunicação social, nem da troika, nem da austeridade. foi nossa. 

*derrota da direita foi brutal, dizem os meus camaradas. já eu, que tenho juízo,  não digo o mesmo.

O travestismo político em António Marinho Pinto

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Decidiu o bastonário dedicar a sua crónica no JN ao dandismo político. Alvo? o Bloco de Esquerda em geral e a candidatura independente Cidadãos por Coimbra em particular.  Traça um retrato impiedoso: “O dândi ou janota intelectual é uma pessoa que ostenta em regra um discurso intrinsecamente muito coerente.” e remata com esta descoberta brilhante: “Esse movimento ao serviço do BE mais não pretende do que criar dificuldades eleitorais à CDU e, sobretudo, impedir a eleição do socialista Manuel Machado, único candidato de esquerda com possibilidades efetivas de (re)conquistar a presidência da Câmara Municipal à direita.” Isto recorda-me o clássico ao serviço de Moscovo, e é capaz de irritar um bocado aqueles que como eu não participariam num “movimento comandado pelos dândis do BE na cidade“, nem se sentem “politicamente à deriva.”

Ora, e com toda a consideração pessoal que não deixo de ter pelo Marinho da Anop, estou em crer que algo lhe turva a memória. A memória de quem denunciou o caso dos CTT e agora vê em Manuel Machado esquerda, o mesmo Manuel Machado que não pode contar na sua equipa com Luís Vilar porque um tribunal o condenou a 4 anos de pensa suspensa e “à pena acessória de proibição do exercício de funções como titular de cargo político“, precisamente por envolvimento no caso dos CTT enquanto vereador de Manuel Machado, o homem que entregou a câmara de Coimbra ao PSD.

O António Marinho Pinto que nos primórdios do Bloco se prontificou a encabeçar a sua lista para o Parlamento Europeu (coisa de que me recordo tão perfeitamente como a sua recusa em ocupar outro lugar), e fiquemos por aqui, terá mudado de vestes mas suponho que não mudou de género. Só é pena que ande agora, feito travesti, à deriva pela amnésia conimbricense.

Rui Machete não mentiu

Ao contrário do que andam por aí a escrever, Rui Machete jamais garantiu nunca ter sido “sócio ou acionista” da Sociedade Lusa de Negócios.

Segundo carta divulgada pelo Expresso e pelo Bloco de Esquerda, aquilo que Machete escreveu foi

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Sócio ou accionista. Exactamente: accionista. Portanto, aquilo que andam a espalhar («Rui Machete enviou uma carta a Luís Fazenda, garantindo que nunca tinha sido “sócio ou acionista [sic]” da Sociedade Lusa de Negócios») é uma falsidade.

Em princípio, também me oponho ao Orçamento do Estado para 2014

Segundo a Lusa, o Bloco de Esquerda deverá votar contra o Orçamento do Estado para 2014 (OE2014), pois prevê que este irá seguir a mesma linha dos anteriores (OE2012 e OE2013). Sendo esse o caso, apoio a iniciativa do Bloco de Esquerda: não me parece que “o terceiro OE de Pedro Passos Coelho vá ser diferente dos anteriores” e, lembro-me bem, até cheguei a recomendar o chumbo quer do OE2012, quer do OE2013.

Por seu turno, Marco António Costa lamenta que o secretário-geral do Partido Socialista ameace votar “contra um orçamento que ainda nem sequer conhece”, apelando “a que, em sede parlamentar, e depois de conhecido o texto concreto do OE [2014], o PS possa definir a sua posição”.

Aceito o desafio, em forma de apelo, lançado por Costa e garanto que, se o OE2014 respeitar o estipulado na lei, ou seja, o preceituado quer no Decreto n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945, quer no Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, com o concomitante abandono da vergonhosa anarquia causada pela inacção de quem manda (para juntar ao rol, no Diário da República de ontem, lá vinham “documentos comprovativos dos fatos indicados no currículo” e duas ocorrências de “contato telefónico”, no de hoje, de novo, os “fatos indicados no currículo”), aí, sim, já terei condições para reflectir acerca de uma revisão da minha posição.

Em Setembro

Estar de acordo com escritos do Daniel Oliveira é corrente, em desacordo também. os social-democratas são meus aliados, não são meus inimigos.

Agora, e de rajada, com um sobre o Bloco de Esquerda e a deriva fascista de Elvas (um detalhe: o meu dedo que adivinha e ter passado por Elvas há uns 8 anos mandam-me apostar em mais um daqueles típicos casos em que se corre com a esquerda trocando-a por imbecis, caso de toda a lista que deixou isto chegar onde chegou) , e outro sobre o PCP e a Festa do Avante (pese que nunca a ajudei a erguer  mesmo sendo verdade na minha última passagem por ali bem me ter arrependido da recusa ao convite de lá ter chegado uns dias antes), nunca fui militante do PCP, mas não me sinto menos comunista por isso; dois assim, de seguida, é raro, e também por isso sugiro a sua leitura.

©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽda