Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 5 – Pedro Homem de Mello


«Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!…
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?…
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira…
Que triste e rouca a voz dos mercadores!…
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores…
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade…
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas…
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!…»

Pedro Homem de Mello, Poesias Escolhidas

Outros textos:
1 – Francisco José Viegas
2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
4 – Miguel Torga

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Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 4 – Miguel Torga


«S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977

O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».
Miguel Torga, Diário XII

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2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
 

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Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 3 – Eça de Queirós


«Em 1880, em Fevereiro, n’uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas»―me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha Nini deixára um espartilho embrulhado no Jornal dos Debates, censurei severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a flôr do meu Saber Juridico. Depois n’um Post-Scriptum elle accrescentava―«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis [20]annos que casámos, temos cá o abbade e o Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio, entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral. [Read more…]

Aquela janela

adão cruz

Abri a janela de par em par e o sol encheu a sala. Respirei fundo e o ar fresco daquela manhã inundou os pulmões. O sangue como que adormeceu na quietude do pensamento. O magnífico impressionismo de Monet desdobrado pelas amplas salas do Grand Palais deixara-me a alma cheia.

Sentei-me numa cadeira com os braços apoiados no parapeito da janela, a olhar o mundo e os tectos cinzentos da grande cidade que se estendiam para lá do fundo da rua. Devo ter semi-cerrado os olhos pois não dei pela veloz queda do seu corpo frente à minha janela, apenas o estrondo no solo me fez levantar.

Ela vivia no andar de cima, na Rue Mouffetard, e a sua janela era mesmo por cima da minha. Há uma semana atrás, quando tomávamos um esporádico café, segredara-me que a vida já nada lhe dizia.  Falámos de homossexualidade e homofobia, tema que não me interessava particularmente.  A ela parecia dizer-lhe muito, pois ia aos arames com a cara e o ar das pessoas do bar em frente á nossa porta, quando a viam com a mulher com quem vivia. E logo em Paris, ainda se fosse na sua aldeia transmontana! [Read more…]

Entrevista de Umberto Eco – 80 anos de futuro

Nos últimos dias do ano passado, a revista Brasileira Época, do Universo da Globo, publicou uma Entrevista com Umberto Eco, onde, entre outras coisas, o autor e pensador reflecte sobre a Internet e o seu papel como instrumento pedagógico:

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco completa 80 anos nesta semana. Ele está escrevendo sua autobiografia intelectual (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis

“A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes. “

Leitura obrigatória.

Hoje dá na net: História do Dia

Para os pais que estejam cansados de ler ou para crianças que estejam cansadas de esperar pelos pais, na página História do Dia, é possível ler ou ler e ouvir um pequeno conto todos os dias. Na barra lateral, há recursos relacionados, sendo de realçar o Arquivo, com as histórias publicadas ao longo de um ano, ou o Glossário, onde poderão ser encontrados os significados das palavras menos conhecidas. Boas leituras e boas audições.

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 2 – Guilherme Felgueiras


«O povo, inclinado ao romance e à poesia e dotado de espírito imaginoso (por vezes pueril mas quase sempre devaneador), bordou a sorrir esta fantasiosa anedota de carácter parabólico, sobre os três rios que nascem nas serranias de Espanha – o Guadiana, o Tejo
e o Douro:
– Em tempos vagos, quando o mundo era ainda jovem e todos os elementos da natureza falavam, estes rios irmãos estiraçaram-se em seus “leitos”, dispostos a dormir. Combinaram que, mal acordassem, abalariam por caminhos diferentes em direcção ao mar.
O primeiro a despertar foi o Guadiana. Placidamente foi serpenteando, escolhendo chãs e vales aprazíveis, por entre meandros charnequeiros alentejanos e divagantes planuras algarvias.
O Tejo, acordou em seguida. Indo no encalço do irmão, apressou a marcha através de outeiros, sulcando as terras do centro, até encontrar vastas campinas e fartas lezírias, onde placidamente se espraia.
Estremunhado, o Douro acordou por fim, ciclópico e arrogante. Não vendo os irmãos, galgou com ímpeto erosivo, cavando seu leito em terras nortenhas, por ente muralhas petrificadas e estranguladas gargantas, rumorejando através de fraguedos bravios e cachoando em “gualgueiros” e sorvedoiros perigosos, vencendo a escabrosidade do trajecto.»

Guilherme Felgueiras, O Rio Douro Lendário (1973)

Outros textos:

1 – Francisco José Viegas

Francisco José Viegas

PORQUE NÃO SE DEVE ATENTAR CONTRA A HONRA DAS PESSOAS LEVIANAMENTE:

Francisco José Viegas

Porque reconheço em Francisco José Viegas uma enorme integridade, não posso deixar de reagir a alguns posts que aqui no Aventar têm sido publicados, nomeadamente, este escrito pelo Ricardo Santos Pinto.

Todos temos direito a opiniões próprias. E quase todas as opiniões devem ser respeitadas. Agora fazer extrapolações de alguns factos reais para, expressa e literalmente, se pôr em causa o carácter de um Homem bom, sério e competente, é algo que nos deve inquietar. Assim:

1.- No ajuste directo em causa, a empresa adjudicatária denomina-se “Ideias e Conteúdos – Produções em Comunicação – Sociedade Unipessoal, Lda”., que, como a própria firma diz, tem apenas um sócio que se chama Ana Paula de Sousa Bulhosa (informação pública disponibilizável em qualquer Conservatória do Registo Comercial).

2.- O montante do ajuste, obviamente, que não foi entregue a FJV, mas sim à empresa adjudicatária que, presumo, com ele deve ter pago os necessários custos de produção (estudos, projecto, deslocações, filmagens, staff, etc.), bem como, garantido a sua legítima margem de lucro.

3.- Sinceramente, não sei nem posso asseverar que 138.600,00€ são ou não exagerados para pagar a produção de 7 documentários (para TV e DVD) de aproximadamente 1 hora cada. O que sei é que, na minha confessada ignorância, o valor em causa não me sugere, sem mais, quaisquer suspeitas.

4.- FJV foi a pessoa escolhida para coordenar e apresentar os referidos documentários. Como não disponho de quaisquer informações privilegiadas, presumo, novamente, que deva ter recebido honorários por tais serviços. O que é natural, normal e legítimo.

5.- Em defesa da verdade, o ajuste foi efectuado pela Direcção Regional de Cultura do Norte e não pela Secretaria de Estado da Cultura ou pelo Ministério da Cultura de então.

6.- O pagamento do montante da adjudicação teve o co-financiamento do Programa Operacional Regional do Norte, da Fundação EDP, da RTPN e das autarquias de Mesão Frio, Peso da Régua, Lamego, Sabrosa, Sernancelhe, Moimenta da Beira, Tabuaço, Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta.

7.- A opinião dominante aponta no sentido dos referidos documentários além de possuírem qualidade, proporcionaram à região retorno económico (como resulta de breve procura na net).

8.- Por último, mas de maneira nenhuma menos importante, a decisão de fazer os documentários através da referida empresa estava tomada pela DRCN em Janeiro de 2009; Elísio Costa Santos Summavielle só se tornou Secretário de Estado da Cultura em 31 de Outubro desse ano.

A Beleza

adão cruz

A mais bonita de todas a mais bonita da festa a mais bela do mundo.

Uma estrela que caiu lá de cima e rolou por ali abaixo percorrendo as ruas da cidade a luzir e a cantar de uma forma quase imaterial quase sonhada quase santificada.

Há muito que a beleza me não enchia de tanta poesia há muito que os olhos se não molhavam desta forma há muito que eu não sabia dizer coisas assim com tanta verdade.

Os rios correm para o mar mas tu és um rio que nasce no mar e avanças sobre mim afogando-me nas tuas ondas.

Parecendo às vezes um lago tranquilo de um qualquer paraíso entras em mim como um tornado revolves tudo até ao fim de mim mesmo e quando a tua força acalma restituis-me sob a forma de um verso ou de um beijo a minha própria identidade nua e crua. [Read more…]

Ciência e poesia

adão cruz

Encontrava-me num café de Paris na Place de Contrescarpe onde Edith Piaf un petit oiseau iniciara a sua carreira como cantora de rua.

Eu sonhava…

Nessa altura não era proibido sonhar.

Pelo contrário era obrigatório sonhar.

À medida que a luz da manhã crescia insubstancial e fria eu descia a Rue Mouffetard. [Read more…]

25% de ilusão

adão cruz

Não te zangues porque ninguém se enamora de alguém com público carimbo na cara.

Quem de nós sente a liberdade ou a prisão de um devaneio com alguma elegância de formas tece as malhas de uma afeição.

Vinte e cinco por cento de ilusão neutraliza a depressão faz dormir que nem um justo e as coisas são o que são nem surpresa nem desdobramentos de personalidade nem pensamentos duplos nem amargos de lágrimas.

Como é bom conversar contigo ó ilusão assim calado e mudo vazio da minha posse e do meu abrigo.

Sempre nos perdemos naquele instante que começa a dominar mas é uma fraca ideia pensar ir longe e sem ir querer ter a sorte de voltar.

Deste mundo à real intimidade vai um passo inevitável cerimonioso sonhador penetrante mas sem tacto e sem cor.

Vinte e cinco por cento de ilusão impede de adormecer às três e acordar às cinco não desonra amigos e inimigos nem dá ares de inocência falsa.

Surpreende apenas o delírio escondendo o vivo interesse da inconsequência que é ensejo de todos nós.

Surpreendem as razões inquietas das pessoas equivocadas que gemem angústias no conspurcar dos seus intentos.

Vinte e cinco por cento de ilusão é sentimento que garante provas positivas.

Não acreditando nele acredito agora com nobre intenção voz clara e firme sem mostras de arrependimento sem buscas de coerência nem condições de entender porque o idiota é crer no poder do entendimento.

Poesia trovadoresca: património imaterial da portugalidade

Cantigas medievais galego-portuguesas

Nos últimos anos, graças a interesses empresariais que vogam entre a comunicação social e o turismo, tem havido alguma visibilidade para alguns elementos do património português, o que redundou em iniciativas como as dedicadas às sete maravilhas naturais ou às delícias gastronómicas, para além de ter levado à classificação do Fado como Património Imaterial da Humanidade. Ainda assim, estamos perante momentos de festa e não na presença de políticas de património, como é fácil confirmar pelo atentado da construção da barragem do Tua, entre muitos disparates quotidianos praticados por municípios que desrespeitam ou alteram PDMs conforme as necessidades. [Read more…]

A Razão

adão cruz

A razão

tamanho de todos os céus no silêncio de sonho-menino os olhos cheios de serenas manhãs na frouxa luz do fim da tarde.

 A razão

palavra que se prende por entre as folhas dos álamos a doce margem de um regato no sobressalto do pensamento.

 A razão

saber se o tempo vai se o tempo vem no calendário do sonho não dar contas ao tempo de um tempo que se não tem.

 A razão

semente branca da vida no fruto maduro da tarde a esperança dos olhos frios na quente ilusão de outro dia.

 A razão

três lágrimas vertidas na corrente do alto rio um redemoinho de pedra e água brincando à beira do abismo.

 A razão

coração bem apertado nos braços da solidão a felicidade cantada sem voz nova na garganta.

 A razão

a firmeza do vento no rio que não volta atrás …ou a leveza do luar nas margens da sombra.

 A razão

coração cravado na erva espantalho de emoções longos braços de palha entrelaçados de ilusões.

O Tempo

adão cruz

O Tempo

caminho da razão no ventre das horas vazias o sonho de não serem horas todas as horas sem tempo.

O tempo

uma sinfonia de sonhos nascidos entre as asas e os dedos pintando as cores da razão por entre sombras e medos.

O tempo

a força do abrigo das mãos dadas com a haste frágil do trigo caminho incerto sobre abismos de gestos e palavras sem regresso.

O tempo

prisão de chegadas e partidas sem horas de liberdade um poema crucificado nos labirintos da verdade.

O tempo

uma guitarra chorando nos dedos da Primavera um beijo sempre à espera entre os lábios do Verão.

O tempo

horas de tudo e de nada na inquietude da mente a liberdade acorrentada entre as velas e o vento.

O tempo

uma paveia de esperanças nos braços da ilusão um poema abandonado entre o sonho e a razão.

Hoje dá na net: Ler Ebooks

Não sendo o Hoje dá na net apenas uma série de cinemas e seus parentes chegados, vinha aqui hoje sugerir um livro disponível quando me lembrei que na vizinhança  há um blogue especializado no assunto. No Ler Ebooks podem começar por esta listagem de 50 sítios com ebooks gratuitos.

Como o património literário livre de direitos de autor é muito superior a todos os outros à medida que vão sendo digitalizados tendem a formar a maior biblioteca de sempre, o sonho de qualquer leitor.

Noutros dias aqui voltaremos sugerindo livros, porque acima de tudo há livros que se amam, mas para já visitem o Ler Ebooks, e boas leituras.

Um bramido de raiva

adão cruz

 

 

Senti um frio arrepiante e um buraco negro nas entranhas tão fundo como a silhueta daquele maldito comboio da inglória velocidade rebentando a dor direito à morte que está em pé na berma do cais pela mão de uma criança.

O pai nos braços de um escombro deste mundo sem sol nem lua destino bárbaro e cruel da perda total de mão dada com o filho contra a majestade de um gélido cadafalso de ferro parido pela força de um desumano progresso contra o qual se esmagam os pobres e desamparados que vivem em contra-mão.

Meu menino sonâmbulo de olhos negros e pálida doçura quase luminosa firme terna inocente confiante na verdade desfeita em sangue pela mentira das mãos fatalistas de uma sociedade podre.

Podia ser um menino nascido no berço do lado ao colo de um pai ou de um avô trabalhador-milionário desiludido porque a sua fortuna não havia atingido o limiar do absurdo o que não deixava de ser triste mas a vida filha da puta meu menino pobre nada mais te deu do que um pai sem nada sem prendas sem força nem entreactos que te enxergassem melhor sorte do que a morte.

O monstruoso comboio entra na tua boca a toda a brida o ar louco sai em turbilhão do teu pequenino peito sem eco a vida estilhaça-se em ruidoso estrondo e o teu corpo frágil cai em pedaços sobre os bonecos das tuas meias no pavoroso silêncio dos teus olhitos redondos.

E o mundo continua como se nada tivesse acontecido.

Quando vi que eras tu o menino que estava no curto caminho da morte pela mão de um pai que não dominava a fome e não tinha dinheiro para te comprar uma bola um pai que não sorria nem cantava para ti porque a alma se perdeu na praça do medo com o sol congelado na boca senti um bramido de raiva e uma louca vontade de pedir contas a Deus.

 

Na palma da mão

adão cruz

Na palma da mão tenho sonhos de liberdade e silêncio para enfrentar a morte.

A música treme na palma da mão como incerteza de paisagem e futuro.

Quem dera adivinhar a cor desta canção cinzenta que se dissolve no ar que respiro.

Neste verão diferente do outro eu quero vestir-te de primavera sem medo dos tiranos e da moral burguesa.

Quero escolher as palavras do poema que fazem chorar teus olhos azuis e abrir o sonho à luz do meio-dia.

Quero renascer dos versos que dentro de mim acendem as estrelas e clamam por outros seres e outros mundos.

Quero seguir quem me chama para outros mares onde o sol sempre nasce e ilumina.

Creio que a terra é minha e de espirais de estrelas o meu regresso.

O sol arde nas nuvens e o mar verde leva-me para habitar contigo onde quer que estejas.

Não sei aprender a morrer fora das linhas desta mão incerta onde as flores de verão deixaram raízes no inverno e hão-de desabrochar na manhã de sol em que partirei.

Canções antigas

adão cruz

Na recordação das canções antigas veste-se meu coração das verdes folhas do desejo e entoa na fragrância dos campos a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.

Na sombra da figueira diz-me adeus o sol em acenos de azul e violeta por entre os ramos e os sons de uma flauta de lábios doces que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.

As primeiras chuvas do verão humedecem como lágrimas as palavras ditas e não ditas no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.

E nada se reconhece na lembrança muda das tardes que para sempre morreram mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras onde outrora floriram mil risos de criança.

Que fez de mim este crepúsculo azul como flecha espetada no vento ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?

Onde está a pedra que se fez montanha o regato que se fez rio a tripla chama infinita da vida luz e verdade que se apagou na alma nua quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta quiseram que fosse santa?

Meu coração peregrino de seu perdido tesouro entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo em pálido reflexo de ouro para ser criança na hora de partir.

O meu poema azul

adão cruz

Não sei fazer uma rosa nem me interessa não sei descer à cidade cantando nem é grande a pena minha.

 Não sei comer do prato dos outros nem quero não sei parar o fluir dos dias e das noites nem isso me apoquenta.

 Não sei recriar o brilho do poema azul…e isso dá-me vontade de morrer.

 Procuro para além das sílabas e dos versos a voz poderosa mais vizinha do silêncio o meu poema azul…o suspiro de Outono onde a brisa se aninha no breve silêncio do perfume do alecrim lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto junto ao rio dos teus olhos onde a vida se faz poema e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia.

 Procuro para lá das sílabas e dos versos encontrar meu barco à entrada do mar onde repousa teu corpo entre algas e maresia meu amor perdido num campo de violetas.

 O meu poema é tudo isto que me vive que me ilude que me prende ao lugar azul que procuro dia e noite por entre os versos do meu ser.

 O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu não tem asas nem olhos nem sentimento que o traga um dia o vento se vento houver que a saudade o encontre onde ele estiver.

 Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera mas tão alto não chego mais à mão molho a minha camisa primaveril no regato cristalino que vai correndo por entre os dedos num solo de cores e violino.

 Não sei colher uma rosa nem sei descer à cidade cantando sou apenas aquele que ontem dormia sobre um poema azul e das asas da ilusão se desprendia.

 Sou aquele que ontem se despia nos braços do poema que vivia sou aquele que ontem habitava em silêncio o poema azul que acontecia sou aquele que ontem sonhou em vão…com o poema azul de mais um dia.

A Rainha

adão cruz

Dizem que toda a vida sonhara em ser Rainha. Rainha de qualquer coisa, já que não podia ser Rainha a sério. Por isso, no bairro, todos lhe chamam Rainha. A Rainha para aqui, a Rainha para ali.

Não que haja, em bairro tão pobre, qualquer tipo de estatuto, hierarquia ou respeito especial. Não é um bairro onde os respeitos tenham degraus. No entanto, a Rainha, talvez pela idade, é assim uma espécie de pessoa honoris causa, uma espécie de Rainha-Mãe. [Read more…]

D. Dinis e as flores de verde pinho

Em ano dionisino, aqui fica uma leitura do texto mais conhecido do trovador que reinou entre 1279 e 1325.

-Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
     Ai Deus, e u é?

Ai, flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
     Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pos comigo!
     Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado
aquel que mentiu do que mi ha jurado!
     Ai Deus, e u é?

-Vós me preguntades polo voss’amigo,
e eu ben vos digo que é san’e vivo.
     Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado,
e eu ben vos digo que é viv’e sano.
     Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.
     Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv’e sano
e seerá vosc’ant’o prazo passado.
     Ai Deus, e u é?
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D. Dinis – já ouviram falar?

Há 750 anos, nasceu um dos maiores poetas portugueses. Os pais chamaram-lhe Dinis e, para além de poeta, foi rei de Portugal, marido de uma santa e fundador da Universidade em Portugal. Hoje, graças à constante revolução curricular em que vive a Educação, é possível a qualquer cidadão português passar por uma escolaridade de 12 anos e não ler um único poema de D. Dinis, para além de ser muito provável não saber sequer quem foi D. Dinis.

O Nobel da Literatura e Alberto João Jardim

Aqui está um texto sobre Tomas Tranströmer, o Nobel da Literatura de 2011. No final do artigo, temos direito a um poema intitulado “Funchal”, da autoria do poeta sueco agora nobelizado. Alberto João Jardim já manifestou a sua indignação pelo facto de a Academia Sueca estar a querer imiscuir-se na campanha eleitoral, tendo criticado especialmente a parte em se pode ler “todos falam, fervorosos, na língua /estranha“, o que terá sido entendido como uma referência menos elogiosa ao sotaque madeirense. Como retaliação, os madeirenses estão proibidos de importar móveis da IKEA.

Prémio Nobel da Literatura para o poeta Tomas Transtromer

A Academia Nobel decidiu premiar o poeta Tomas Transtromer com o prémio Nobel da Literatura 2011. Praticamente desconhecido em Portugal, com apenas alguns poemas traduzidos e dispersos (alguns a partir do castelhano), Tomas Transtromer é, curiosamente, um conhecedor de Portugal, como descobri aqui. Com a devida vénia a Sylvia Beirute e ao poeta e tradutor Luis Costa, eis um poema significativamente intitulado “Lisboa”

LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
“aqui sentam-se os políticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

Joseba Sarrionandia, liberdade

Joseba Sarrionandia ganhou um prémio literário e para o receber teria de voltar para a cadeia. Confuso? estamos no País Basco, governado pelo PSOE.

Descobri Joseba Sarrionandia no excelentíssimo Do trapézio sem rede. Depois de ler isto:

Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel? [Read more…]

Um Meninico Como Outro Qualquer – Como Se Fora Um Conto

No segundo ano da segunda metade do século passado, em pleno estio, o meu avô Júlio recebeu em sua casa o sétimo neto dos nove que acabaria por ter. O pimpolho que mais tarde acabaria por vir a ser este vosso escriba, recebeu loas de toda a família e de mais quem fosse. Minha avó, mulher para quem os filhos e os netos eram tão-somente os melhores do mundo e arredores, fez uma propaganda enorme no que à beleza do menino dizia respeito. Afinal era o primeiro, e acabaria por ser o único a poder continuar o nome da família.

Naquela altura, muito embora já sem a força de outros tempos, meu avô era ainda uma das figuras importantes da vila. O terceiro da hierarquia lá do sítio.

Solicitador encartado, fazia o papel de advogado em muitas situações, já que por aquelas bandas não havia profissionais daquele ofício. Tinha escritório em cinco comarcas em redor, e diziam as más-línguas, que casa montada em cada uma delas. Afilhados eram mais que muitos, e todos traziam consigo o nome de meu avô. Havia até quem dissesse que o apadrinhamento os fazia serem muito parecidos com ele. Tinha sido fundador dos Bombeiros da Vila e o seu primeiro Presidente, e era muito bem considerado por toda a gente. Amigo de bem comer e conhecido também pela sua bondade e largueza de mãos, cedo delapidou toda a fortuna amealhada ao longo de uma vida de trabalho, por via dos pedidos que constantemente lhe faziam, que sem excepção sempre satisfazia, fossem eles de dinheiro, de terras, de árvores ou de animais.

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Querida Mamã

imagem de mãe

 Ensaio de Etnologia da Infância

o que meu próximo neto, que deve nascer a 13 de Agosto, diria a sua mãe, minha filha Camila Iturra de Isley

Querida mamã

Ensaio de Etnologia da Infância

o que meu próximo neto, que deve nascer a 13 de Agosto, diria a sua mãe, minha filha Camila Iturra de Isley

Raúl Iturra

1. Nascimento·
Sou teu. Tiveste-me no teu corpo. Sou teu. Desde dentro de ti, ouvia. Ouvia e sentia. Ouvia as palavras, os murmúrios, as conversas. A [Read more…]

Aventar e Cervantes

aventar e dom quixote

Há dias e dias. Mudam os nomes, como muda também o nosso humor conforme a vida se vai desenrolando. Hoje, a nossa vida, dava para escrever outro Dom Quijote (Dom Quixote, em língua lusa). Cervantes não se limita a narrar, emite juízos de valor, condena a sociedade do seu tempo, vira as classes sociais do avesso, tenta ser justo e

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Os livros e o prazer de os ter para ler e não o fazer

Gosto pouco de respostas, mas por solicitação do João Delgado e da Daniela Major, seguem as minhas ao coiso deste verão.

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Existem géneros. A poesia ou se decora, ou se lê e relê, ou não presta.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Todos os que tenho tentado ler nos últimos anos, mas levo uma longa experiência na matéria, iniciada com os Lusíadas, agravada com as Viagens na terra do abominável Almeida, leitura obrigatória de que me escapei com alguma dificuldade, e um caso curioso de insucesso: dúzias de tentativas para virar as primeiras páginas do Outono em Pequim, até ter chegado ao fim do 1º capítulo. O resto foi devorado nessa mesma noite, a obra completa de grande Boris Vian foi logo a seguir.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

É um problema que não se coloca porque deixei de ler livros com mais de 125 gr. Se tivesse mesmo de ser qualquer um do Manuel Bernardes servia, porque cada frase se mastiga sem dentes. [Read more…]