
Hoje dá na net: Literatura – Fernando Pessoa
Dia Internacional da Mulher
Não ficaria bem comigo mesma, se, no dia da Mulher, não escrevesse uma única linha aqui no Aventar!
Ao pensar neste post, lembrei-me das mulheres que foram «primeiras»…
Artemisia (séc. XVII), a primeira mulher pintora a tornar-se membro da Academia de Arte do Desenho em Florença, de Hildegard de Bingen (séc. XII) a primeira compositora que se conhece e Francesca Caccini (séc. XVII) que escreveu a primeira ópera no feminino, Aphra Behn (séc. XVII), a primeira a viver só da escrita e Concépcion Pardo Bazan (séc. XIX), a primeira espanhola a estudar numa universidade.
Não me esqueci das portuguesas. Recordo apenas duas nascidas, curiosamente, no mesmo ano e ambas médicas e feministas: Carolina B. Ângelo (1871-1911), que não morreu sem antes dizer-se a primeira portuguesa a votar (1911) e Domitila de Carvalho (1871-1966) que dá nome a uma rua da minha cidade (Santa Maria da Feira). Domitila, a primeira a frequentar a Universidade de Coimbra e uma das 3 primeiras deputadas eleitas em Portugal! O que terá dito Domitila e as outras duas mulheres em voz alta, perante tantos homens? Vou procurar saber!!
Mas há tantas outras, maravilhosas, como cada uma de nós, simples mortais!!
Acrescentem nomes a esta pequena lista!
Zulmiro
Diziam que ele tinha o diabo no corpo mas não tinha. Pelo menos assim o afirmava a sua prima, sabida que era em coisas de mau-olhado e almas penadas. O diabo no corpo era outra coisa. O que ele tinha era uma comichão dos diabos que o atormentava dia e noite, obrigando-o a coçar-se até se arranhar e fazer sangue.
Mas a Senhora quem é?
Passei frente à loja onde se deu o crime e lembrei-me…
Mataram o meu filho, Sr. dr., e ele está aí.
Isto dizia a voz rouca do outro lado da linha.
Pousei o telefone e desci imediatamente à urgência que ficava no rés-do-chão. A primeira maca que vi no corredor tinha um corpo coberto com um lençol. Levantei a ponta do lençol e vi logo que era ele, o filho do Sr. José. Tinha um botão de sangue coalhado acima da clavícula, na parte esquerda da base do pescoço. [Read more…]
Já fui poeta da luz
(Poemas de mãos dadas)
Já fui poeta da luz quando a palavra alumiava o infinito e o sol nascia dentro de mim.
Quando a vida alumiava o infinito eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com melros e rouxinóis e saltitei com os pardais.
Quando me vesti de sol e me despi de luar e estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Quando meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino. [Read more…]
Maruja
Furioso, João entrou na livraria e só lá dentro se deu conta de que era uma livraria gay, de literatura erótica. Não tinha disposição para nada, muito menos para aquilo. Deu duas voltas à sala, cumprimentou e saiu. Madrid estava fria como o seu coração, e sentia uma lagrimeta no canto dos olhos. Atirou-se para a cadeira de uma esplanada em frente e pediu uma fabada asturiana. [Read more…]
Laila
Laila nunca fora feliz. Nem muito nem pouco. A felicidade não engraçara com ela, talvez por ser feia. Feia não era. Até era muito bonita por fora, o que não acontecia por dentro. Tinha sempre a alma do avesso e os sentimentos fora do corpo. Nunca atravessava a rua pela passadeira, entrava nas portas sempre às arrecuas e não beijava o Senhor na visita do compasso. Puxava o manto do Senhor dos passos na procissão da Paixão e fazia caretas às zeladoras do Coração de Jesus. Assistia à missa de costas para o padre. Não rezava nem comungava. A bruxa já havia dito que algum mau-olhado caíra sobre ela quando era criança ou que o diabo lhe cravara as garras na gola do casaco. [Read more…]
O homem que gostava das mulheres

As minhas férias acabaram há uns dias. E para gastar os últimos cartuchos passei as últimas três semanas a ler os livros do Stieg Larsson, a saga Millennium. Li, nesse espaço de tempo, cerca de 1900 páginas. Normalmente não critico livros. Mas a verdade é que nos últimos dias a minha vida revolveu à volta desta colecção. E tenho sem dúvida algumas coisas a dizer.
Os livros de Stieg Larsson não são seguramente literatura da primeira linha, uma obra de genialidade como as que saem da pena de Garcia Marquez ou Thomas Mann. Sublinho isto porque já sei que os intelectuais do costume gostam de olhar para este tipo de livros com o sobrolho franzido e com ar de “estás a ler isso? Com a tua idade lia Dostoievski!”. Ou o sexto melhor poeta bielorrusso. Descansem. Stieg Larsson não é um génio da História da Literatura. Mas se tivesse que descrever a obra dele há uma expressão que me parece muito apropriada: São francamente bons. Estão bem escritos, bem construídos e extremamente bem pensados. Estão bem relacionados. Quem escreve ou já tentou escrever ficção, sabe que uma das coisas mais difíceis de conseguir fazer é estabelecer ligações, ou seja, fazer com que tudo bata certo, com que tudo faça sentido. Larsson faz isso na perfeição. É óbvio que há um ou outro pormenor que escapa, uma ou outra coisa que seria muito difícil de acontecer na vida real. Mas mesmo assim, para a quantidade de personagens que são criadas, para os vários enredos que coexistem é fantástica a maneira como ele consegue conjugar tudo isto. Este é um dos muitos factores que explicam o sucesso desta colecção.
Desilusão
Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso.
Minha voz de gravador que outros ouvem só eu não tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.
Sonho de amor invisível e ateu.
Pela escada fantasma do falso destino destino essencial quem subia ou descia afinal…era eu. [Read more…]
Hoje dá na net: O futuro da humanidade: uma palestra por Isaac Asimov
Há algum tempo encontrei uma interessante palestra «The Future of Humanity» (O futuro da humanidade; tradução Google), dada por Asimov. Mostra o lado de pés na terra, com uma dose de polémica, de um prolífico autor de ficção científica cheia de viagens espaciais. Aproveito para deixar duas entrevistas (detalhes sobre datas, local e entrevistador):
- Entrevista completa, cerca de 27 minutos, formato mp3, 4.9 Mb
Asimov fala da sua vida, robótica, o cérebro positrónico, a pisco-história e a ficção cientifica. - Entrevista completa, cerca de 25 minutos, formato mp3, 4.8 Mb
Asimov fala do seu estilo de escrita e das mudanças que a ficção científica tem seguido.
Uma história antiga
Há muitos anos, João andava na Faculdade. Encontrava-se no velho Café a estudar umas coisas de embriologia, a estúpida abordagem da embriologia de então, que nada tem a ver com as maravilhosas lições de Richard Dawkins. Estava sentado numa daquelas pequenas mesas quadradas, mesmo junto à porta. [Read more…]
Tu vens
Tu vens
eu acredito que vens
neste céu de cabelos soltos
e seios ao vento
nesta fome de corpo e pensamento. [Read more…]
Mel de caju
A Isabel nunca andara na Faculdade, para falar tão bem nas traseiras do sentimento, mas foi criada de servir em Bissau, o que, numa aldeia do mato, era um curso superior. Isabel era uma mulher muito bonita, daquelas que são sempre futuro, ainda que a pele se engelhe. As suas formas afeiçoavam-se aos olhos, mais despindo a existência do que o corpo. Uma espécie de mulher à flor da pele, bem calculada por dentro. Mulheres nascidas de si mesmas, sem vida nos outros. Mulheres de além-desejo, voo de ave, caminhando fora dos passos. Isabel, um torvelinho de tonturas. [Read more…]
A luz era azul
A luz do sol era azul…lembro-me como se fosse hoje a luz azul azulava os claustros as caras e o sentir.
Imaterial pálida e fria.
As grandes janelas filtravam a luz azul que entrava dentro de nós como chuva miudinha. [Read more…]
Linda
Tinha um nome muito bonito que não vamos revelar. Contentemo-nos em chamar-lhe Linda, que também não é feio. Tinha um ar luminoso, os olhos cheios de sol. Os cabelos douravam como uma auréola o ar límpido do azul do céu à volta da sua cabeça. Abria-se em nós como romã sumarenta. Uma onda transparente de um qualquer mar de inesperado encanto embalava o olhar de quem dela não conseguia desviá-lo. Tinha quarenta anos e um provável cancro do colo do útero. Mas eu não sabia. [Read more…]
A gema de fora
Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela ele acordou acordou como sempre com pedaços do passado agarrados ao pijama às mãos e aos cabelos.
Sentou-se na beira da cama e um sonolento oh que merda soltou-se da garganta ainda seca do bagaço da véspera quando os pés palparam a falta dos chinelos.
Moldou os passos ao chão de modo a evitar a madeira fria do soalho.
Sobre a cómoda continuava a tristeza à mistura com águas-de-colónia de vários tipos. [Read more…]
A dor vestiu-se de mulher
A dor vestiu-se de mulher.
A dor vestiu-se de mulher de terra e flores e voou para lá das nuvens onde mora o vento.
A vida é um lugar muito longe lá para as bandas do sonho nas margens do silêncio na arte do encontro – desencontro na alegria de ser triste.
Nesta Galiza de poetas e água e céu e solidão onde um mar de rias baixas desagua dentro de nós pinta Jordi um rosto de mulher a ocre terra-siena e carmim.
…Que os cabelos e os jardins querem-se soltos e naturais como as aves e as manhãs.
Um homem nu toca Mussorgsky ao vivo como se Jordi pintasse Quadros de Uma Exposição.
Bem perto daqui há muito foi sonhada Nostalgia mas ninguém viu a luz vermelha fendendo as águas verdes e a dor já se vestia de terra e flores e a dor já fugia para lá dos montes onde moram mulheres de vento.
Copo de vinho
“Trabalhar um livro até à minúcia de uma palavra.
E depois um leitor engole tudo à pressa para saber «de que se trata».
Vale a pena requintar um vinho para se beber como o carrascão?”
(Vergílio Ferreira, Pensar)
Hoje dá na net: Grandes Livros – Os Maias
Documentário produzido pela RTP, com a voz de Diogo Infante numa locução impecável e com a participação de vários estudiosos da obra de Eça de Queirós. Será possível ficar a saber mais sobre Os Maias, uma das maiores e mais complexas obras da Literatura Portuguesa. Trata-se de um trabalho de grande qualidade, que merece ser visto por todos, com destaque para os alunos que estejam a frequentar o 11º ano. A abrir, poderá ficar a saber quem escreveu que o magnum opus de Eça é uma “coisa extensa e sobrecarregada”, em que apenas alguns episódios têm interesse. Mais acima, está o primeiro de cinco vídeos. Para ver os restantes quatro, basta clicar em “Continuar a ler”.
O esquizofrénico José Viegas (II): Elucubrações acerca do uso do pseudónimo António Sousa Homem, da acumulação de funções de um governante e da promiscuidade entre a política e a Comunicação Social

Francisco José Viegas, o secretário de estado da Cultura, mantém há alguns anos uma coluna de crónicas no «Correio da Manhã», onde escreve sob o psuedónimo António Sousa Homem. Continua a fazê-lo ainda hoje. Não sei se um governante pode acumular com outras funções remuneradas no sector privado nem se esta sua actuação envolve de alguma forma promiscuidade entre a política e a Comunicação Social. Mas moralmente não é ético.
Seja como for, o objectivo deste post é outro: averiguar da sanidade mental daquele a quem está entregue a pasta da Cultura no actual Governo. Recordo que a esquizofrenia é um transtorno psíquico severo que se caracteriza por alterações do pensamento, alucinações, delírios e alterações no contacto com a realidade.
A questão não é escrever sob pseudónimo – muitos o fazem. A questão é ter sido ele próprio, como Francisco José Viegas, a pôr António Sousa Homem nas «bocas do mundo». É ter inventado uma biografia completa a que não faltou a respectiva fotografia. É fazer a apresentação pública, na Bertrand, de uma obra de António de Sousa Homem e dar-se ao trabalho de dar a notícia de que o próprio estava doente das coronárias e do fluxo renal e que por isso não tinha podido comparecer. E dar-se ao trabalho de forjar uma suposta carta de António de Sousa Homem a lamentar não poder estar presente.
Este homem não é lúcido. Ou então julga-se O Meu Pipi. Não vou falar de Pessoa, seria um insulto à sua memória.
Terra e poesia
Tenho falado com alguns poetas sobre o que entendem por poesia poetas de muito nome.
Cada um deles diz-me o que sente mas ninguém me diz que a poesia nasce como nasce a água da fonte.
O homem veio consultar-me sentia sobretudo ao levantar da cama e com os esforços uma dor em barra sobre a tábua do peito que o imobilizava por completo. [Read more…]
Na altura própria
João era agora um homem velho, em paz consigo e com o mundo. Tinha um objectivo e uma ambição, suicidar-se na altura própria. Nem antes nem depois. Não queria morrer ao acaso. Não queria morrer na incerteza com que nasceu. A sua grande angústia residia no medo de não vir a reconhecer a altura própria. Ambicionava o momento exacto, e para tal se ia preparando, criando dia a dia uma espécie de protocolo que o encaminhasse progressivamente para o momento certo. [Read more…]

























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