Monti, de fato

«O RIGOR? ONDE ESTÁ O RIGOR?»

– Pedro Santana Lopes, 23/11/2007

Dei-me ao trabalho de avisar Pedro Santana Lopes. O jornal Sol teve a amabilidade de publicar o aviso na edição imediatamente seguinte à do “‘facto’ é igual a fato (de roupa)”. Poucas semanas depois, voltei  à carga. Esta é a terceira vez que me dou a tal trabalho.

Os meus agradecimentos a Glória Saraiva pela chamada de atenção (em Nota no Facebook de Madalena Homem Cardoso) para este lamentável e persistente… fato.

Correcção (30/03/2019): supressão de “(e última)”.

Saudades do futuro

Francisco José Viegas, talvez deslumbrado com o facto de ser entrevistado pelo Le Monde, aproveitou a oportunidade para tentar ser profundo e acabou por ser involuntariamente lúcido.

Servindo-se de psicologia barata e usando frases de literatura comercial, explica que Portugal não consegue ser feliz com a Europa porque “uma parte essencial das nossas raízes continua em África e no Brasil…”. No fundo, Viegas tenta justificar, aqui, o seu velho entusiasmo pela lusofonia, essa espécie de conceito que serve, sobretudo, para que políticos e universitários garantam uns tachos e o direito a molhar o pé nas águas tropicais, quando devia servir para que livros e ideias circulassem. [Read more…]

Que giro! Tão pequeno e já fala chinês!

Vinte e três meninos entre os 4 e os 5 anos do Colégio Saint Daniel Brottier ainda não sabem ler nem escrever (português), mas já reconhecem caracteres chineses, o que já começa a ser «natural»!?

Tão moderno e com visão de futuro quer ser este Colégio, criando um projeto pioneiro, que relega para segundo plano a língua portuguesa…

Penso que esta situação é bem mais preocupante que o cumprimento ou não do novo Acordo Ortográfico, assunto que tem vindo a preencher páginas e páginas de artigos e criando divisão entre aqueles que de um lado ou do outro amam a nossa língua.

A minha Ministra da Educação

Vídeo originalmente publicado aqui.

Ligeira espreguiça ortográfica

Enquanto me vou divertindo com a raiva seven-up que se despeja sobre a minudência conhecida por acordo ortográfico, feita na maior parte dos casos por quem não tem a mínima ideia do tempo em que vive e se pensa ainda aristocrático dono da escrita, e me mantenho preguiçosamente com um único artiguito aqui deixado sobre a reforma ortográfica que há-de vir, recolhi este carta de um leitor que o Público publicou por estes dias, maltratada no título, e guardada no canto onde por ali se despeja o bom senso:

Acordo Ortográfico devia ter simplificado mais

Intriga-me a sanha anti-Acordo Ortográfico (AO) que o Público não se cansa de difundir. Também sou contra, mas não pelas razões apresentadas que se fundam essencialmente na tradição, no saudosismo, na etimologia.

Tentam ridicularizar a eliminação das consoantes mudas que ajudam a abrir a vogal anterior. Ora há numerosas palavras em que tal não se verifica (actriz, actual, actividade, etc.). Acabo de ler a carta de um leitor alarmado com e eliminação da consoante muda em “ótica” por poder ocasionar confusões que levem a operar aos ouvidos quem sofre de cataratas… [Read more…]

A etimologia, o latim, o futuro

Com dedicatória ao meu amigo Fernando Nabais e suas declinações ortográficas.

Letra O – Ônibus

O Acordo Brasileiro da Língua Portuguesa já entrou em força nas escolas primárias…
E como explica um pai a um filho que “ônibus” não existe, é uma palavra de outro país? 

Todos Contra Todos

Não Fui Eu Quem Propôs? Sou Contra!
Somos Um Povo de Rezingões
Ao longo dos dias, das semanas e dos meses, variadíssimas pessoas do governo, da oposição, das sociedades civis, anónimos cidadãos e outros menos anónimos, foram fazendo propostas para que eventualmente se melhore este ou aquele aspecto da nossa vida.
Por cada um que o faça, milhares de outros se manifestam contra.
Por cada medida que se implemente, milhares de pessoas, agrupadas ou sozinhas, dizem que não concordam, que é uma estupidez, que tudo vai ficar pior, que não pode ser feito assim, e as mais diversas opiniões e conselhos e exigências e ameaças são feitas por causa disso.
Por cada medida que se anuncie, uma greve é proposta. Por cada greve que se efective no actual estado económico do País, o País empobrece. [Read more…]

Vasco Graça Moura, o Acordo Ortográfico e um país de lunáticos

Vasco Graça Moura, novo presidente do Centro Cultural de Belém, mandou retirar todos os conversores ortográficos dos computadores do CCB e determinou que fosse utilizada a antiga ortografia. Se Graça Moura, o poeta e escritor, pode ter uma posição pessoal sobre o assunto, é duvidoso que Graça Moura, o funcionário, possa impor essa visão aos trabalhadores subordinados apostados em cumprir a lei.

Este aspecto, assim comentado, ignora no entanto a fundamentação exposta por VGM:

“o Acordo Ortográfico não está nem pode estar em vigor”, já que, diz, na ordem jurídica portuguesa, “a vigência de uma convenção internacional depende, antes de mais, da sua entrada em vigor na ordem jurídica internacional”. Refere-se ao facto de Angola e Moçambique ainda não terem ratificado o AO, de que são subscritores, recusando os efeitos do “segundo protocolo modificativo”, assinado em 2004, que prevê que o AO entre em vigor desde que três países o ratifiquem. O ex-eurodeputado do PSD lembra ainda que o próprio AO exige que, antes da sua entrada em vigor, os Estados signatários assegurem a elaboração de “um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa”, algo que, alega, nunca foi feito. E defende que o acordo “viola os artigos da Constituição que protegem a língua portuguesa, não apenas como factor de identidade nacional mas também enquanto valor cultural em si mesmo”.

Não sei se, à luz do direito, assim é, mas, segundo o mesmo artigo do jornal Público, esta discussão surge “num momento em que crescem, dentro do próprio PSD, as vozes que se opõem ao acordo”.

Ora, aqui é que a porca torce o rabo: [Read more…]

A Xoxota

Não confirmo mas acredito que o cartaz apenso esteja escrito em “português do brasil”, uma língua diferente do “português de portugal” que os alguns burocratas querem fazer crer que é a mesma língua. Se fosse a mesma língua, eu não precisaria de ajuda na tradução. Desde já agradeço.

 

O Acordo Ortográfico faz mal a quem?

Falta exatamente uma semana para este poste que aqui escrevi fazer um ano. Confesso que não fui sempre coerente com ele e, dada a incomodidade (não o escândalo, aversão, posição de princípio, etc.) de escrever algumas palavras segundo a nova grafia – incomodidade provocada por mero conservadorismo preguiçoso – fui, pouco a pouco, regressando à ortografia até agora vigente já que, purismo por purismo, recuar a outras formas anteriores do português se tornava ainda mais incómodo.

Não entro aqui em considerações de fonética vs. etimologia, mas dava-me um ataque nervoso escrever como nos séc XIII e XIV (passe o facto de alguns carateres e acentos terem sido atualizados):

Era esta dona muy fermosa e muy bem feita em todo o seu corpo, saluando que auia h~uu pee forcado, como pee de cabra. E viueram gram tempo e ouueram dous filhos.

Acho que também me faria muita comichão e desenvolveria algum eczema grave se tivesse de escrever como há apenas cento e cinquenta anos se fazia no Diário de Notícias:

…novidades politicas, scientificas, litterarias, commerciaes, industriaes (…) às allusões deshonestas (…) e ainda a nossa visinha Hespanha, publicações que teem atrahido consideravel numero de sympatias e subscriptores.

Tão pouco me apetece agora ir ao theatro ouvir phrases de um aucthor (o que aqui vai de consoantes seguidas) cujo estylo, rhetorica e assignatura me causam damno. Mas, damno por damno, antes no theatro do que na pharmácia.

E prompto, de facto, por caírem umas consoantes e uns acentos não cai a língua e quem a fala.

A resprivada.

Não sou linguista.
Não apoio o Acordo Ortográfico.
Passo a explicar. Como cidadão crítico e informado não aceito que, a nível ético, seja obrigado a fazer algo que não compreenda. O Estado, essa entidade abstracta gerida por sisudos técnicos e burrocráticos amanuenses que veneram contas, gráficos e quadros, não me pode obrigar a executar funções que não me são devidamente explicadas.
Como cidadão letrado e minimamente informado também sei que o Acordo Ortográfico na sua essência teórica está mal explicado. Que vem quase 20 anos depois de ter começado a ser delineado, que a sua utilidade educacional é quase nula e que no seu teor existem inúmeras contradições ao nível da linguagem e da gramática. Mas nem vou por aí. De resto há opiniões mais abalizadas que a minha para discutir estas questões científicas.
Mas o que irrita verdadeiramente é que coisas como a Língua, a Saúde, a Educação, a gestão do Território e do Tesouro público sejam alvo de decreto sem que os cidadãos sejam ouvidos. Num referendo, por exemplo. [Read more…]

leva tracinho…

Acordo ortográfico – a opinião de Mia Couto

Muito interessante a entrevista de Mia Couto ao i. Destaco, aqui, a resposta a uma pergunta sobre o acordo ortográfico:

Não sou um militante contra o acordo. Não me reconheci em algumas da razões que foram invocadas para chegar a este acordo, como por exemplo que este acordo facilitaria um melhor entendimento entre a língua. Sempre li livros do Brasil e com o maior prazer, pelo facto de eles terem uma grafia ligeiramente diferente. Os meus livros e os de Saramago são publicados com a grafia original e nunca ninguém se queixou. Acho inclusivamente que há uma diferença na grafia que só traz valor. Mas não faço guerra ao acordo. As nossas guerras são outras, é perceber porque é que nós, países de língua portuguesa como Portugal ou Moçambique, estamos tão distantes do Brasil, porque é que o Brasil está tão distante de nós. Por que razão é que um filme português no Brasil tem de ser legendado. Porque é que quando eu chego ao Brasil e digo que sou de Moçambique, ninguém sabe onde é ou o que é Moçambique.

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Acordo Ortográfico: e se José Saramago fosse brasileiro?

Antes de ter alcançado o Olimpo da literatura mundial, Saramago dedicou-se a várias actividades, entre as quais, a de tradutor. Descobri, cá por casa, uma dessas traduções, a Arte do Ocidente. A Idade Média românica e gótica (a primeira edição é de 1978), e resolvi fazer uma experiência: como poderia ser esta mesma tradução, em Portugal e no Brasil, com base no próximo Acordo Ortográfico? Já se sabe que estamos no campo das suposições e que podemos sempre argumentar que Saramago poderia, hoje, ter traduzido de maneira diferente, mas não deixa de ser curioso ver se a desejável uniformização poderia ser alcançada através de uma suposta unificação ortográfica.

Leia-se, então, em primeiro lugar, uma parte do primeiro parágrafo da Introdução do livro acima referido, de acordo com a tradução de Saramago:

“Cada um dos capítulos da nossa civilização tem o seu suporte geográfico e a sua paisagem. Acordam-se e iluminam-se sucessivamente, como os diversos aspectos dum grande sítio percorrido pela luz. A Antiguidade Clássica deu ao Sul da Europa a substância e o contorno da sua humanidade. Foi em redor do Mediterrâneo que a Grécia e Roma conceberam e fizeram prevalecer princípios políticos, uma perspectiva do pensamento e uma imagem do homem que adquiriram um valor universal. As origens do cristianismo são orientais e mediterrânicas: teve primeiro o tom da cultura helenística, depois o das comunidades da Ásia.”

Vejamos, agora, que modificações seriam introduzidas pelo Acordo Ortográfico, numa edição portuguesa: [Read more…]

Acordo Ortográfico – a opinião de Durão Barroso

Para além do que sugere o vizinho Fernando Nabais, o acordo ortográfico trará mais que a unificação da escrita; ele trará – como aqui exemplifica um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, ex-primeiro ministro de Portugal e actual presidente da Comissão Europeia – uma unificação fonética e semântica. “Taça do Mundo” não mais será taça do mundo, será copa do mundo. Resta saber de que tamanho.

Acordo ortográfico – a opinião de Scolari

De acordo com a base IV do Acordo Ortográfico, em Portugal e no Brasil passará a escrever-se “ótimo”, tendo em conta que o p de “óptimo” é mudo. Temos, efectivamente, aqui, um exemplo de unificação ortográfica. Pormenores como este são usados por alguns que defendem que o Acordo contribuirá para uma unificação da língua – como se a língua se reduzisse à ortografia –, com consequências positivas, como o aumento da circulação de livros portugueses no Brasil. Para além desta brilhante argumentação de Desidério Murcho, será interessante recordar um vídeo em que Luiz Felipe Scolari demonstra que continuará a haver muitas diferenças entre o Português falado na Europa e na América do Sul, por muito que se mexa na ortografia.

 

Acordo ortográfico: um desacordo

Segundo esta notícia, o Acordo Ortográfico irá ser aplicado nas escolas, a partir do próximo ano lectivo. O tema merece ser debatido, mesmo sabendo que se trata de uma discussão tantas vezes obscurecida pela contínua referência à circunstância de ser um facto consumado.

Deixo, para já, algumas notas breves, pondo absolutamente de lado qualquer obsessão nacionalista, que não é para aqui chamada.

Em primeiro lugar, é importante que nos informemos. Nada melhor do que começar por consultar, por exemplo, o texto do Acordo.

Para além disso, também não é má ideia ler as opiniões de especialistas que colocam reservas ao acordo, como são os casos de João Andrade Peres e de Francisco Miguel Valada.

Finalmente, um exemplo: será que se pode chamar acordo ortográfico a um acordo que se baseia, por exemplo, em desacordos fonéticos? Para que serve um acordo que poderá manter, por exemplo, “recepção” no Brasil e cria “receção” em Portugal, ou, pior, que admita a opção individual entre as duas alternativas, tendo em conta a pronúncia do falante? Para que serve um acordo ortográfico?

Novo Acordo Ortográfico Europeu (versão Inglesa)

COMO SE FORA UM CONTO

The European Commission has just announced an agreement whereby English will be the official language of the European Union rather than German, which was the other possibility.

As part of the negotiations, the British Government conceded that English spelling had some room for improvement and has accepted a 5-year phase-in plan that would become known as “Euro-English”. [Read more…]

Porquê reinventar a roda? – A reintegração do Galego no universo da Lusofonia (Memória discursiva)

Numa sessão organizada pela Associação Galega da Língua, realizou-se em Santiago de Compostela, no dia 27 de Janeiro passado, o lançamento do livro “Jaboc”, do escritor brasileiro Otto L. Winck, prémio da Academia de Letras da Baía. A obra, cujo título é um anagrama de Jacob, o autor aborda o processo criativo e a tortuosa relação arte-literatura/literatura-arte, relação inserida num contexto social específico, pois, como o autor reconhece, existe algo de autobiográfico na construção da personagem central do livro. Uma das minhas fontes, foi o Portal Galego da Língua onde se publicou uma reportagem sobre este evento.

Contudo, não é do romance de Winck que me vou ocupar hoje, mas sim do que foi dito nesta animada sessão de lançamento, com vigorosas intervenções do autor e apaixonadas réplicas vindas do público. Presidindo e intervindo estava junto a Winck o intelectual galego Carlos Quiroga. Foi bolseiro de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian e do ICALP, actual Instituto Camões. Actualmente é professor titular da cátedra de Literaturas Lusófonas na Universidade de Santiago.

Falou-se sobretudo da cultura galega e da sua inserção no universo lusófono. Diga-se que Otto Winck está a preparar a sua tese de doutoramento com um tema muito interessante – «a construção da identidade nacional galega», estando por isso muito identificado com os problemas culturais da Galiza. O vídeo é uma pequena amostra do que se passou nessa sessão tão vivamente participada:

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LOL para todos

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A chamada telefónica estava a meio. Um dos interlocutores, ao meu lado, percebendo que tinha acabado de dizer um disparate no meio da conversa, sorri e diz “LOL”. Uma simples palavra, dirigida a quem estava do outro lado da comunicação. LOL. Assim mesmo, em voz alta. Como se estivesse a comunicar através de programas de mensagens instantâneas na Internet ou através de SMS.

O “LOL”, assim dito, tornou-se estranho. Todos aqueles que utilizam as ditas aplicações num ou noutro momento já utilizaram o LOL (do inglês ‘Laughing Out Loud’, que se pode traduzir por ‘rir às gargalhadas’). Mas assim, de viva voz, soa estranho. Perante a reacção de estranheza dos colegas, vem a explicação: “Sou jovem…”.

Como se todos os jovens falassem assim, pensei mais tarde. Não falam, mas não andam longe. Mais hoje que no passado, usa-se e abusa-se das abreviaturas. É a lei do mínimo esforço. Mesmo que algumas delas não façam sentido. Para dizerem ‘porque’ escrevem ‘pk’, quando poderiam escrever ‘pq’. O ‘que’ vê-se transformado num espantoso ‘k’ e não num simples ‘q’. É uma letrinha apenas, na mesma, então pk – perdão, porquê -, esta mudança? Para já não falar dos imensos ‘x’ que encontramos nestas trocas de mensagens. Algumas são tão fechadas no seu significado que os não iniciados nestas técnicas ficam à nora, sem perceber patavina do que lá está.

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Acordo Ortográfico: concorde-se ou não

A propósito do novo Acordo Ortográfico, e independentemente de se concordar ou não com o dito, atente-se para algumas mudanças e outras tantas continuidades.

Um “facto” irá continuar a ser um “facto”, tal como o “compacto”, o “convicto”, o “inepto” e o “rapto”. Porque as consoantes “c” e “p” quando pronunciadas, permanecem na palavra. Já quando são mudas, elas desaparecem, e por isso passamos a ter “ação”, “ato”, “batismo”, “adoção”, entre outros.

Quando o “p” desaparece”, porque não pronunciado, e atrás de si vinha um “m”, este passa a “n”, e, assim, teremos “perentório”. Uma vez saída a letra “p”, já não se aplica a famosa regra “antes de “p” ou “b”, escreve-se “m””, e assim lá vem o “n” em substituição.

Os acentos, nos ditongos “oi” ou “ei” da sílaba tónica das palavras graves, desaparecem. Pelo que a “jibóia” e o “intróito” mudam para “jiboia” e “introito”, e o “paranóico” fica como já era: “paranóico”.

Já os acentos agudos usados para distinguir palavras graves homógrafas, desaparecem, e por isso “pára” e “para”, pêlo” e “pelo” escrevem-se da mesma forma: “para” e “pelo”, respectivamente.

Outras coisas mudam, outras continuam.

Em conclusão: o facto é que o que é compacto, convicto ou inepto, não muda. E um rapto continua a ser rapto. Mas muda a acção ação, não importa o acto ato, seja ele baptismo batismo ou adopção adoção. Nisto a regra é peremptória perentória. E se a jibóia jiboia perde o acento, o intróito introito não fica melhor. Quem continua na mesma, e compreende-se, é mesmo o paranóico.
Pelos vistos, nada pára para esta mudança, nem para o bem nem para o mal, seja pelo que for, nem que nos erice o pêlo pelo todo.

O acordo ortográfico cantado

Saltar para o segundo 30. Vozes da Rádio cantam o acordo. E o galego? Cadê?

Como Se Fora Um Conto – Acordo Ortográfico, para que nos serve?

O ACORDO ORTOGRÁFICO E OS SMS

Hoje já ninguém sabe escrever.

Os SMS, forma de escrita usada pala maior parte da população activa, vieram empobrecer a escrita. As abreviaturas, os «kapas», e a limitação do número de caracteres passíveis de serem utilizados numa dessas mensagens, vieram desvirtuar tudo.

Antigamente, foi há bem poucos anos mas parece já ter passado uma eternidade, escreviam-se cartas, algumas, deva dizer-se, de fino trato literário. Uma declaração de amor, escrita, era por vezes um tratado de bem escrever. Uma mentira era escrita com um cuidado extremo, escolhendo muito bem as palavras empregues. O saber de novas e informar das que se sabem, obedecia a uma forma escrita correcta e agradável.

Hoje, os correios já pouco trabalham na entrega desse tipo de missivas. O telefone, primeiro, o correio electrónico, mais tarde, e depois, de novo o telefone na sua versão portátil, com a possibilidade de enviar mensagens curtas, acabaram com essa forma de comunicação.

Escrevi milhares de cartas. Aos poucos, e à medida que a idade ia avançando, escolhia com mais cuidado as palavras empregues, o papel em que as escrevia, e até a esferográfica ou a caneta de tinta permanente que utilizava.

Como toda a gente, cada vez escrevo menos cartas. O correio electrónico e a conversa pelo telefone, vieram substituir na sua maior parte a minha maneira de contactar. Mas continua a existir em mim a paixão pela escrita em papel, preferencialmente feita com caneta de tinta permanente.

Hoje já ninguém sabe escrever. Já não é preciso, dizem os mais novos que na sua maior parte têm uma caligrafia ininteligível. O vocabulário da maior parte dos Portugueses com menos de trinta e cinco anos está reduzido a um mínimo, e o ensino vigente parece apoiar essa redução e aquelas letras que mais parecem hieróglifos.

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O (Des)acordo Ortográfico

Encarado nas estritas perspectivas histórica e cultural, não haverá muita argumentação em favor do Acordo Ortográfico.

Recordo o modo como há dezenas de anos que Jorge Amado é apreciado em Portugal e como este autor brasileiro afirmou que como escritor devia muito a Ferreira de Castro. Portanto, ao longo dos tempos a apreciação da literatura de ambos os países é mútua, sem necessidade de codificação comum, e isso parece-me inegável.

Eu não preciso do Acordo Ortográfico para ler autores de língua portuguesa, seja qual for a nacionalidade. Nem vejo qual o ganho com a uniformização. Aliás, em matéria cultural, a uniformização não é sinónimo de maior riqueza, bem pelo contrário.

Acredito, sim, que se trata de um acordo que facilita o mercado editorial/livreiro, que expande mercados, e que congrega e dá maior sentido à CPLP – porque a matéria anda a ser sempre debatida como se fosse uma questão Portugal/Brasil, mas há que lembrar que também há países africanos envolvidos, bem como Timor-Leste.

O Acordo Ortográfico, será, pois, apenas uma questão económica. Tanto mais face ao crescimento exponencial do Brasil que, sendo o único país de toda a América Latina a falar português, consegue, por exemplo, ser líder do Mercosul e a referência de crescimento económico daquele continente.

O Acordo Ortográfico parece-me ser um instrumento económico, ajustado à tendência da emergência de novas potências económicas (China, Índia, Brasil, etc.), e, eventualmente, dará maior congregação e significado á existência da CPLP . Se não for nesta perspectiva, não vislumbro qualquer interesse em tal Acordo, bem pelo contrário: na cultura a uniformização é redutora, logo incompatível com os pressupostos de pluralidade e de riqueza em que deve assentar a evolução cultural.

Não ao novo acordo ortográfico


Não concordo com o acordo ortográfico. Os erros científicos são imensos e de tradução pouco objectiva, então em Biologia é flagrante. Além disso, no dicionário Brasileiro não vejo esforço nenhum de introdução de vocabulário Português.
Mais um aspecto: a preguiça intelectual em Portugal em traduzir textos ou o individualismo ou não sei bem qual o problema Nacional, mas os Brasileiros estão atentos a muitos peritos e autores de Ecologia e Ambientalismo internacionais e passam-nos a perna porque há sempre alguma entrevista, há sempre um texto, bastante actual, sobre esses autores, mas escritos em Português (Bras).
E isso, em termos de interrede (internet ) via Brasil já é cultural e saltam logo para o Google. Mea culpa portanto. Salvem-se os blogueiros e alguns jornalistas Portugueses que fazem um esforço extra-humano, de tradução, como é o meu caso, mas é incomparável ao elevado volume de traduções Brasileiras.

Texto integral do Acordo Ortográfico

OUTRAS OBJECÇÕES

Da indicação da hiperligação anterior do AO, descobri o blogue da Priberam e eles próprios apresentam um série de objecções deste acordo, tais como eu tenho, sobretudo quanto à escrita de palavras hifenizadas. Porque o texto é longo deixo aqui a crítica publicada por Cláudia Pinto

João Soares – Bioterra

Acordo ortográfico? preparem-se para uma reforma ortográfica

Esta estória do acordo ortográfico devia servir para se pensar na história da nossa língua escrita. Quando os documentos se copiavam à mão as abreviaturas e a ausência de pontuação levavam fermento e saiam a granel das mãos inchadas dos escribas. A imprensa veio pôr alguma ordem bem pouco natural nas coisas, mas a nossa primeira norma ortográfica  é de 1911, sim a normalização ortográfica foi uma conquista de Outubro e viva a República, a que tirou o ph às pharmácias e levou com a objecção de consciência dos que tinham aprendido a escrever antes como vai suceder agora.

Acontece que pela primeira vez na História temos uma massificação do acto de escrever, e através de teclas, que não são nem esferográficas nem as caixas das tipografias. Começámos por ensinar o povo a ler, os países mais vanguardistas vai para 100 anos, e ainda lhes metemos instrumentos de comunicação também escrita nas mãos. Estão à espera que se mantenha a lentidão das normas, de que este acordo é um exemplo de arrastamento? Claro que a norma da língua escrita vai ter de aprender a mexer-se asinha, ai se vai. É aqui que me preocupa a gente que se juntou contra o acordo, que pouco ou nada simplifica das aberrações etimológicas sem sentido herdadas da mania do greco-latim.

A língua portuguesa nem existe: existiu a língua portuguesa do séc. XIV, levou com a do XVII, e a do XIX que ainda cá anda não vai durar sempre.

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A opinião de Luis de Camões sobre o acordo ortográfico

Como em qualquer polémica há argumentos para todos os gostos. Os argumentos idiotas, de um lado ou do outro, irritam-me. Na imagem temos a ortografia de Luís de Camões, ou para ser exacto das primeiras edições impressas da sua obra que o manuscrito não chegou aos nossos dias, demonstrando o ridículo deste argumento:

Uma banda de infiéis à obra-prima que possuímos, a nossa bela língua portuguesa, tal como a praticavam Eça, Camões, Pessoa, Camilo, Aquilino, Miguel Torga e tantos e tantos outros, (…)

E não é  que de todos os autores citados apenas o otorrinolaringologista terá publicado em vida com as actuais normas ortográficas?  Chama-se desonestidade, a invocação da nossa língua como sendo o que sempre foi neste caso no capítulo da grafia, mas também se pode chamar ignorância, ou nacional-parvoísmo, que é a mesma coisa.

O acordo pode ser mais ou menos?

Esta questão coloca-se muitas vezes na nossa vida corrente. Mantenho a minha vida confortável, o cantinho, os livros, os filmes, as viagens, enfim, o que conheço, ou largo tudo e vou atrás de uma paixão ?

No acordo, deixo-me estar a fazer o que conheço, mal ou bem, assim-assim, escrevo como sempre escrevi ou largo essa segurança e lanço-me na aventura de conhecer, analisar, escolher, descobrir?

Peço desculpa por não estar no tom solene que o assunto exige, mas a verdade é que cá para mim, este acordo serve, mais ou menos, para pôr algum padrão, alguma ordem, nas muitas e diversas formas que a vida, a real das pessoas, foi introduzindo na escrita e na fala e que vai continuar a pôr, quer os senhores doutores queiram ou não.

Mas se há palavras que apetece mesmo mudar, torná-las mais simples, há outras que não dá jeito nenhum andar a mudá-las. Por exemplo, Baptista! Dá mesmo vontade fazer desaparecer de vez com o “p” e tornar a coisa num Batista, bem mais legível. Mas, ao contrário, o que se fará com “facto” ? Passa a “fato” ? Eu apontei esse “fato” como importante para a discussão ! Qual, o azul?

Pelas razões apontadas ando muito desorientado e ansioso à espera dos conselhos ( o concelho também muda? estão a ver a confusão) dos “experts” (pecado! ) “connaisseurs ” (pior), académicos para me dizerem o que o povo deverá falar e escrever.

E voltando à imagem inicial, não é possível manter os cantinhos todos e arranjar uma namorada ?

Isto é, um acordo mais ou menos?

A língua portuguesa e os acordos ortográficos

1 de Janeiro deste ano de 2010 era a data prevista para a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. No entanto, nada de concreto foi ainda avançado. Isabel Alçada, ministra da Educação, limitou-se a dizer que, no sistema de Ensino, o Acordo vigoraria no «início de um ano lectivo». Em que ano? Adiantou também que há adaptações a fazer, no plano técnico e no humano. Que adaptações? Reina, pois a indecisão. Enquanto esperamos, falemos um pouco sobre a fixação do idioma e na história dos Acordos Ortográficos.

O único documento que nos ficou do português proto-histórico, no que se refere à linguagem não literária, é um texto notarial, a «notícia de torto». Mais ou menos pela mesma época, em 1214, foi redigido o testamento de D. Afonso II que utilizou pela primeira vez o português em detrimento do habitual latim. No que respeita à linguagem literária, existem mais pistas. Carolina de Michaëlis datou de 1199 a cantiga «Ay eu, coitada, como vivo» que a investigadora atribuiu a D. Sancho I (1185.1211). No entanto, não existe consenso quanto a esta atribuição, há quem indique como autor Afonso IX de Leão (1188-1230) ou mesmo Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela (1252-1284). Como se sabe, a língua literária, por excelência, da corte leonesa era o galego-português. [Read more…]