Mentalidade de Cristiano Ronaldo

Luís Montenegro, o surpreendente primeiro-ministro português, explicou aos portugueses, na sua mensagem de Natal, que devemos ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo, a fim de ajudar o país. Procurando reforçar o serviço público, deixo aqui algumas ligações.

Cristiano Ronaldo sobre Trump: «Desejo conhecê-lo um dia para me sentar com ele, é uma das pessoas de que gosto mesmo porque acho que ele consegue fazer as coisas acontecer e eu gosto de pessoas assim.»;  Ronaldo agradece a Trump o jantar na Casa Branca.

Cristiano Ronaldo sobre Georgina: «Cuida de mim, o que é muito importante, da família, da casa, o que implica muito trabalho. Se fosse o oposto, eu não conseguiria. Os homens não são capazes, honestamente. »

O patrão de Cristiano Ronaldo: «Só este ano, a Arábia Saudita executou 340 pessoas.»; «Cristiano Ronaldo volta a dar voz a campanha internacional da Arábia Saudita»

Talvez o problema de Portugal seja a mentalidade de Cristiano Ronaldo. Adapto um provérbio, a propósito da escolha de Luís Montenegro: diz-me quem elogias, dir-te-eis quem és.

Leitão Amaro, a Anita dos tempos modernos

Está para breve a colecção Leitão Amaro, concorrente da dos livros da Anita, que aprendia a nadar, que tomava conta de crianças, que ia à escola.

Aproveito para anunciar que já é possível publicar, pelo menos, quatro livros.

Poderíamos começar por Leitão Amaro proíbe a Legionella. Nesta aventura, o jovem suíno integra um grupo de super-heróis que consegue o milagre de proibir a acção de uma bactéria. A expressão Medicina Legal passa, assim, a designar um conceito completamente diferente e não será de estranhar que possamos assistir à condenação e prisão de doenças, que poderão sair em liberdade condicional desde que não infectem ninguém. Os investigadores de laboratório serão substituídos por investigadores da Polícia Judiciária e por juízes de instrução. Leitão irá mesmo lançar a campanha justiceira “Vamos tratar da saúde às doenças!” [Read more…]

A economia do ano

O portuguesinho pela-se pelo elogio estrangeiro, vem à tona do orgulho pátrio respirar se lhe elogiam o pastel de nata ou uma das dez praias mais belas do mundo.

A The Economist considerou Portugal «a economia do ano», um título entre muitos outros que resultam de uma espécie de erotismo dos campeonatos. Pelo que vou lendo e ouvindo, fico com a impressão de que se mantém o hábito da masturbação enquanto se olha para revistas, tal tem sido o entusiasmo provocado pela distinção de que a nossa economia foi alvo.

Luís Montenegro, também a olhar para a revista, exultou, claro, em nome do governo, talvez da nação, reclamando méritos.

Entretanto, os ordenados continuam baixos, as casas, caríssimas, a legislação laboral a caminho da valorização da precariedade. O que vale é que Portugal é a economia do ano. Como diria o mesmo Montenegro, os portugueses não estão melhores, embora o país esteja muito melhor.

Estamos todos um bocadinho cansados

A ministra do Trabalho, na sua qualidade de representante dos exploradores contumazes, declarou que «estamos todos um bocadinho cansados de greves por razões políticas».

A dita criatura faz parte de um grupo alargado de pessoas que usa a expressão somos-a-favor-do-direito-à-greve-mas, porque, na realidade, detestam o direito à greve e nem sequer apreciam verdadeiramente os direitos.

Nesse grupo alargado inclui-se aquele partido que é de esquerda quando não governa, metendo imediatamente a esquerda na gaveta quando chega ao governo. O PS não é, portanto, um partido de centro-esquerda, é, na verdade, um partido de esquerda-direita, de esquerda, em teoria, de direita, na prática, amigos dos trabalhadores, nas conversas com amigos, exploradores da classe operária, nos gabinetes ministeriais. Imagino as dores que isso deve causar nos adutores ditos socialistas.

Montenegro e companhia, na esteira do cavaquismo-passismo-portismo, tem menos problemas musculares, porque faz menos esforço ao percorrer o caminho de regresso ao mundo em que os trabalhadores são apenas proletários. [Read more…]

É assim que se dá votos ao Ventura

Os vários venturólogos têm explicado de que maneira é que se alimenta André Ventura, o que quer dizer que todos sabem como é que Ventura teria sido impedido de ter alcançado o sucesso que alcançou até agora.

Há, parece-me, um aspecto comum a todas as facções da venturologia: o sucesso de Ventura deve-se sobretudo ou exclusivamente aos erros dos adversários, porque mandam calar, porque mandam falar, porque falam, porque calam, porque provocam, porque não perguntam.

Recentemente, Miguel Morgado, um dos mais conhecidos venturólogos, declarou que José Alberto Carvalho provocou André Ventura, quando, no início do debate com Catarina Martins, lhe pediu que comentasse a notícia do possível envolvimento de agentes da autoridade na exploração de migrantes, acrescentando que isso favorece André Ventura.

Parece-me, no entanto, que Ventura está sempre favorecido, devido a um fascínio generalizado por forcados amadores que gritam por touros imaginários, os mesmos que, aliás, apagam fogos imaginários. O sucesso dos populistas está nos populares.

Salazar é o maior bandido da História de Portugal

O populista-mor da actual república e entrevistado semanal das televisões portuguesas afirmou que são precisos, não um, mas três Salazares para combater a «corrupção», a «impunidade» e a «bandidagem» do país.

Faz parte do manual do populista propagar a ideia de que há caos, as papas e os bolos com que se deixam enganar os tolos.

O Salazar elogiado pelo autoproclamado combatente da corrupção e da bandidagem governou Portugal durante 36 anos e 82 dias, entre 1932 e 1968, até bater tardiamente com a cabeça.

Durante o seu governo, distribuiu cunhas e favores, criou e alimentou uma polícia política, contribuiu para a miséria geral de um país descalço, colaborou com pedófilos, atirou o país para uma guerra colonial que tirou vidas mesmo a quem não morreu nela, falsificou eleições, alguém que foi, enfim, um mafioso que mandou num país (governar um país é outra coisa). Portugal foi roubado e torturado durante quase trinta anos por um bandido chamado Salazar – não há nenhum bandido que tenha actuado durante tanto tempo, com a vantagem de mandar na polícia.

Quando alguém vê nesta figura sinistra virtudes de governante não merece consideração, como não merece consideração quem vota nele. É gente que gosta de bandidos no poder, mesmo que não tenha consciência disso. É realmente importante combater esta bandidagem.

Diário de um chegano (4)

Diário másculo e viril

 

O almirante Gouveia e Melo, ainda e vergonhosamente candidato a Presidente da República, insinuou que os portugueses não têm um gene especial, como se houvesse alguma coisa portuguesa que não fosse especial também geneticamente.

Como este diário não serve para propagar propaganda enganosa, aqui deixo alguns ensinamentos, mesmo sabendo que o nosso André irá ganhar as eleições presidenciais com 600 % dos votos expressos.

O português, como toda a gente sabe, descende directamente dos lusitanos, um povo que vivia para os lados de Folgosinho e comia com frequência no restaurante Albertino, para descansar das cargas de porrada que dava aos romanos, às duas e três vezes por semana nos Montes Hermínios.

Alguns esquerdalhos apaneleirados tentam convencer-nos de que passaram por aqui demasiados povos para que tenhamos genes bem definidos. É não saber o que é um lusitano. Um lusitano não andava metido com malucas de outras raças, um lusitano só tinha relações com lusitanas, que não tinham nada de malucas, eram umas senhoras. É verdade que passaram por aqui gajas de outras raças, sempre desejosas da potência lendária dos lusitanos, mas o lusitano sempre foi forte, ciente da necessidade de manter a pureza da raça, um lusitano não se mistura, não desperdiça a sua semente. [Read more…]

Diário de um chegano (3)

Querido diário com eles no sítio

 

Anda a esquerdalhada flotilhesca toda excitada com a saída do Gabriel Mithá Ribeiro, que, ainda por cima, anda a dizer mal do nosso André.

É preciso analisar a situação com testosterona e voz grossa. Começo por dizer que nunca gostei muito do dito Gabriel, porque Ribeiro ainda vá, mas Mithá é mesmo nome de quem quer violar as nossas mulheres e dançar mapiko, porque é preciso não esquecer que o Gabriel nasceu em Moçambique.

É verdade que, quando nasceu, Moçambique ainda pertencia ao país certo, mas depois resolveu sair do império português, para desgraça de todos os criados que tinham a sorte de servir os portugueses em África. O próprio Gabriel teve o desplante de estudar e de tirar um curso em vez de ficar para mainato.

Além disso, o Mithá (para mim, deixou de ser Ribeiro e está quase a deixar de ser Gabriel) não é certo: primeiro, o racismo tinha acabado; depois, disse que o racismo tinha voltado. Durante algum tempo, dizia que o nosso André era o maior, agora diz que é tóxico e narcísico, como os esquerdalhados costumam dizer, tudo palavras que até fazem um gajo começar a cantar músicas da Gloria Gaynor, não é como o nosso André, que amava tão masculinamente a sua coelha Acácia.

Diário de um chegano (2)

Diário macho

 

Foi com a alegria de um membro da Mocidade Portuguesa que pude ver o nosso André a regozijar-se com um jovem que, com ardor lusitano, mostrava o seu ódio aos estrangeiros que vêm para o nosso país preguiçar, violar as nossas mulheres e que recebem um subsídio mal saem do mar, depois de virem a nado desde Bombaim. Quando uma criança grita que é preciso mandar embora os estrangeiros, ergo as mãos e canto graças, porque está no bom caminho: quando acabar os trabalhos de casa (primeiro, os trabalhos de casa), irá cuspir em pretos e bater em homossexuais ou vice-versa, desde que cuspa e bata.

Foi também com enorme gáudio que vi a nossa Ritinha a divertir-se na presença de jovens que chamavam “gatuno” a Luís Montenegro. A minha cunhada, que é da corja esquerdalha e até nem gosta do Montenegro, veio dizer que não se pode andar assim a insultar pessoas, mas nós, no nosso partido, não temos medo das palavras, não queremos palavras que escondam. É por isso que nosso André fala em “bandidagem”, que é para toda a gente entender. Há quem diga que só se passa a ser “gatuno” quando isso é provado em tribunal, mas nós sabemos bem que os tribunais fazem parte do sistema corrupto que protege sempre os mesmos há 50 anos.

Além disso, só complicam – quando mandarmos nisto, nem vamos precisar de tribunais. Perguntamos ao nosso André, que é um perdigueiro de bandidos. Mostramos-lhe uma pessoa e ele dá logo a sentença e manda aplicar a pena. Mais: só não vê um gatuno quem não quer ver. É tão simples: ou tem a pele escura ou não é do Chega.

Isto da pele escura, a propósito, faz-me pensar que é perigoso uma pessoa ir de férias. O meu vizinho foi daqui branquinho e, quando voltou, todo bronzeado, via-se mesmo que era um gatuno, pronto a vender tapetes, a violar as nossas mulheres e a fritar chamuças ao mesmo tempo, porque os monhés, por causa daquela deusa com muitos braços, conseguem fazer tudo ao mesmo tempo.

Já me disseram que falo muito de os imigras violarem as nossas mulheres, mas eu bem vejo que a minha tem muitas saudades do Sandokan, que era um preto claro que batia nos brancos e andava metido com uma loura. Depois digam que não tenho razão.

Diário de um chegano (1)

Diário de raça lusa (“querido diário” é coisa de paneleiragem rafeira, não da raça pura lusitana)

 

Fiquei com o sangue a ferver de fervor patriótico, quando o nosso venturoso líder lembrou, e bem, que até pode haver problemas em Gaza, mas que aqui na Moita as pessoas também passam muito mal. Até pode ser que haja por lá milhares de mortos, mas o que é nós temos a ver com isso? Além disso, enquanto morrem não imigram para cá, para nos roubar os empregos, violar as nossas mulheres e obrigar-nos a comer carneiro com bedum. Nós somos lusitanos e machos e, se é para violar as nossas mulheres, estamos cá nós, nunca precisámos que viessem substituir-nos. Quanto ao emprego, o meu é tão mau que até devia ser dado a um imigra.

Se eles vierem, ainda sou capaz de lhes dar a morada da minha cunhada, que é uma esquerdalha comuna, que está sempre a falar em empatia e a dizer-me que eu devia ter vergonha de ser um grunho, porque até tirei um curso. Está sempre a dizer-me que vou todos os domingos à missa, mas que de cristão não tenho nada, como se eu não soubesse que o primeiro dever de um cristão é aviar mouros, pretos e paneleiros, gente que nem um touro sabe pegar. E toda a gente sabe que Deus escolheu o Trump e o Ventura, que assim podem trabalhar por turnos.

As outras da flotilha foram meter-se no meio da confusão e, como é costume nas gajas de esquerda, estavam mesmo a pedi-las. Agora, queixam-se de maus tratos, quando toda a gente sabe que estavam financiadas por terroristas que mataram e matam milhares de pessoas, não é como o exército israelita, que também mata milhares de pessoas, mas são pessoas que merecem ser mortas.

Agora vou dar sangue, que é para poderem fazer transfusões, a ver se a raça portuguesa fica forte como o Pichardo ou o Nader, lusitanos puros.

Jane Goodall e André Ventura

Podemos escolher várias palavras e expressões para designar a morte de alguém. Podemos dizer que morreu, que foi para o outro mundo, que dorme o sono eterno, podemos dizer que nos deixou. Jane Goodall deixou-nos.

Quando morre alguém que deu exemplo de tanta generosidade e dedicação, que olhou para diferentes como semelhantes ou para semelhantes como iguais, ficamos abandonados à sorte de uma humanidade que continua a revelar-se animalesca, verificando-se, nos últimos tempos, uma  revalorização do ódio, uma perseguição do outro, a obsessão da identidade nacional como desculpa para a agressão.

Jane Goodall deixou-nos sozinhos diante de uma multidão que vive maravilhada com símios que descobriram que mostrar constantemente os caninos dá votos.

Receção e recepção: a aproximação ortográfica

Consultar o magnífico Dicionário de Luís de Camões é um prazer e um sofrimento, além de uma necessidade. O sofrimento deve-se ao facto de estar contaminado pelo chamado acordo ortográfico (AO90).

Entrar na letra R acaba por nos proporcionar um divertimento amargo.

Encontramos aí vários verbetes dedicados à recepção da obra de Camões em diferentes países.

Os textos escritos por estudiosos portugueses começam pela palavra-coisa “Receção”. Já o brasileiro Gilberto Mendonça Teles assina o verbete “Recepção de Camões na Literatura Brasileira”.

O chamado acordo ortográfico, se bem se lembram, servia para exterminar ou esbater as diferenças ortográficas.

Refaçamos uma síntese. Com o AO90:

1 – palavras com diferentes grafias passaram a escrever-se da mesma maneira;

2 – palavras com diferentes grafias mantiveram diferentes grafias;

3 – palavras com a mesma grafia passaram a escrever-se de maneira diferente (como é o caso de receção, em Portugal, e recepção, no Brasil);

4 – apareceram duplas grafias quando só havia uma (nós, portugueses, por exemplo, podemos escrever “expetativas” e “expectativas”).

Sobre o primeiro ponto, muito haverá a dizer, mas os outros três deixam tudo dito acerca da comédia que é o AO90.

O governo que diz que ouviu dizer que há certas e determinadas pessoas

Maria do Rosário Palma Ramalho, alegada ministra do Trabalho, disse que havia alguns abusos da licença de amamentação, o que daria razão ao governo para alterar a lei.

A alegada ministra não adiantou números.

Entretanto, soube-se que a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) «desconhece casos de trabalhadoras que tenham usado ilegalmente a licença de amamentação nos últimos cinco anos, mas identificou 23 situações de abuso por parte das empresas.»

Mota Soares, há uns anos, enlameou cristãmente alguns beneficiários do Rendimento Social de Inserção, tal como Paulo Portas, antes dele.

Este caminho que implica referir (ou inventar) excepções para justificar novas regras faz parte de uma estratégia cultivada por PS e por PSD e aprofundada pelo cheganismo. O que é preciso é dizer coisas que ficam ditas – os desmentidos nunca chegam verdadeiramente a fazer efeito e o trabalho sujo está garantido.

Se houvesse jornalismo (ainda há jornalistas), a alegada ministra teria de ser confrontada com o que disse. Houve, no mínimo, algum pedido de esclarecimento?

Chamar xenófobo e racista a um xenófobo e racista é um insulto?

Segundo parece houve, recentemente, até na direita democrática,

(temos de acreditar na possibilidade de que há uma direita democrática)

um certo regozijo porque André Ventura terá arrasado Filipe Costa Santos numa entrevista conjunta na CNN.

Na realidade, André Ventura fugiu a duas perguntas incómodas, limitando-se a criticar o comentador, tendo este considerado que o líder do Chega é xenófobo e racista. Ventura, especialista em demagogia, considerou que essas duas classificações constituem insultos ao partido e aos eleitores do partido.

Vamos por partes.

  1. Se se considerar que alguém é racista e xenófobo, não há eufemismo que lhe valha.
  2. “Racista” e “xenófobo” poderão ser usados como insultos, mas apenas no caso de os visados não serem racistas nem xenófobos.
  3. O facto de o Chega ser o segundo maior partido não serve para provar que não é xenófobo nem racista.
  4. O mesmo facto referido no ponto anterior pode levar-nos a pensar na possibilidade de que, em Portugal, há, pelo menos, um milhão e meio de xenófobos e de racistas.
  5. O Chega, os seus militantes e os seus eleitores poderão, se quiserem, tentar provar que não são racistas nem xenófobos.
  6. Também poderão não querer provar nada disso ou o contrário ou poderão, em muitos casos, querer confirmar que são isso tudo, porque os portugueses e o sangue e a história e as naus e o cristianismo.
  7. Ventura, no debate, limitou-se, repita-se, a não responder a duas perguntas e a fazer barulho, algo que lhe trouxe muita popularidade e muitos votos. É, portanto, natural, que os seus eleitores e outros nas proximidades tenham gostado do seu desempenho.

O controlo da imigração descontrolada

Como algumas pessoas sabem, até há poucos dias havia em Portugal uma imigração completamente descontrolada, com a velha ponte que liga Valença a Tui (neste caso, Tui a Valença) a ameaçar ruir sob o peso dos imigrantes naturalmente descontrolados. Também descontrolados, entravam outros imigrantes em Elvas, em magotes saídos de Badajoz. Mais abaixo, em braçadas descontroladas, imigrantes saltavam para o Guadiana em Aiamonte e desaguavam em Vila Real de Santo António.

Em muitos cafés, portugueses passaram a desconfiar uns dos outros. Numa certa adega minhota, alguém disse:

  • Acho que o Joaquim da Zeza é imigrante.
  • Porra, a que propósito?

  • Então, o gajo bebeu uns copos e ficou descontrolado. Como os imigrantes.

O que vale é que, do dia para a noite, isso acabou, porque o governo de Luís Montenegro disse que acabou. E todos sabemos que, quando Luís Montenegro diz uma coisa, a coisa passa a ser verdade: ainda há dias se descobriu que o verdadeiro autor dos Cadernos de Lanzarote é Sophia de Mello Breyner, descendente de imigrantes ainda não descontrolados, que irá receber, a título póstumo, o Nobel da Literatura de 1998, o que levou Pilar del Rio, outra imigrante outrora descontrolada, a assumir a paternidade de Miguel Sousa Tavares.

Venturoso país este que, num ápice, num ai, no sopro de um decreto, acaba com a imigração descontrolada. Venturoso país.

«Leva-os para tua casa!»

Quando alguém se manifesta contra o modo como o problema das construções ilegais em Loures (não) foi resolvido, há uma multidão de fanfarrões que grita em todos os cantos das redes sociais “Leva-os para tua casa!”

Ora, a questão não é bem essa, boa gente!  Criticar, com mais ou menos razão, a decisão do presidente da câmara de Loures implica defender uma sociedade que se organize para defender ou ajudar os desfavorecidos, sem pôr em causa a lei ou a segurança e sem distinguir seres humanos com base na cor ou na nacionalidade.

A resolução de problemas desta natureza não pode, portanto, depender da boa vontade individual, numa espécie de mercado livre da caridade.

É verdade que há uma apreciável quantidade de eleitores que gosta de um certo marialvismo, eleitores que, aliás, na sua maioria, são capazes de falar em valores, especial e estranhamente valores cristãos.

Esse cristianismo, no entanto, será aquele sucedâneo que foi e é fonte de violência, o cristianismo das cruzadas e da Inquisição, assente num nacionalismo que é apenas uma forma de desumanização, um tribalismo troglodita. O meu cristianismo, mesmo não sendo crente, é outro e não se compadece com grunhidos e rosnados.

A questão, portanto, não está em trazer ninguém para minha casa, está em transformar países em casas.

Bugalho confirma: PSD aliou-se ao Chega

«Não foi o PSD que preferiu aliar-se ao Chega…»

Como inventar percepções

Chega aproveitou ranking manipulável para prometer limpar ‘gueto de Lisboa’.

A invenção da grande vaga de crimes

Todos já incorremos no disparate de confundir uma experiência pessoal com um dado sociológico alargado. É o “Isto só a mim!” ou o “Este país é uma vergonha!” decorrentes de termos sido vítimas de um carteirista.

Em conversa de café mais ou menos alcoolizada, podemos chegar a defender a pena de morte, a tortura ou a condenação a ver jogos do Futebol Clube do Porto da última época no caso de o criminoso ser portista. Depois, o processo civilizacional a que vamos sendo sujeitos faz efeito e passa-nos.

O populista que chega ao poder (executivo, legislativo ou outro) é um bêbedo numa tasca que tem solução preferencialmente violenta para tudo. Para isso, conta com a ajuda das redes sociais necessariamente desreguladas e com uma comunicação social reduzida tantas vezes a caixa de ressonância.

André Ventura e o seu agente Luís Montenegro alimentam-se de uma insegurança que apregoam, com a ajuda das manchetes que eles próprios geram: o  crime, a insegurança, as violações, os “nossos” valores, a imigração, a nacionalidade.

Note-se: é preciso que haja muita gente crédula e ignorante para engolir falsas percepções. Sim, sim, podemos dizer mal dos eleitores. Podemos, podemos.

A imagem é da primeira página do Diário de Notícias de hoje. A notícia é esta.

Salário e paracetamol

 

Colaborador – Ó senhor doutor, ando aqui muito insatisfeito.

CEO – Ai sim? Temos de ver isso. Então porque anda insatisfeito?

Colaborador – É que não ganho o suficiente para pagar as minhas contas todos os meses.

CEO – Homem, o dinheiro não compra tudo.

Colaborador – Ó senhor doutor, mas eu não quero comprar tudo.

CEO – Então o que é quer?

Colaborador – Queria só pagar as minhas contas todos os meses.

CEO – Mas o que é que acha que deveríamos fazer?

Colaborador – Se o senhor doutor me pudesse aumentar… [Read more…]

25 de Abril para todos

Homo sum: nihil humani a me alienum puto.
Terêncio
‘Sou homem: considero que tudo o que é humano me diz respeito.’

No dia 12 de Março, Kilmar Abrego Garcia foi detido em Baltimore. No dia 15, foi enviado para El Salvador, de onde tinha fugido em 2011. Abrego Garcia foi enviado para o país de origem, para o Centro de Confinamento do Terrorismo, uma prisão em que estão 40000 reclusos,  com base em acusações que não estão provadas, o que, numa sociedade civilizada, quer dizer que é inocente.

De um lado, está Trump, com o discurso musculado dos cobardes poderosos, praticantes de um marialvismo bacoco que fascina os que acreditam que as vítimas serão sempre os outros. Do outro lado, está Nayib Bukele, presidente de El Salvador e lambe-cu de Trump, não necessariamente por esta ordem, que já decidiu, sem necessidade de tribunais, que Abrego Garcia é um terrorista que, portanto, não pode ser devolvido aos Estados Unidos, mesmo que, repita-se, não haja nenhuma condenação em tribunal.

O mundo sempre foi dirigido por bestas que se comportam como qualquer um de nós, que somos capazes de decidir que alguém é culpado de alguma coisa porque tem mesmo cara de ser culpado dessa coisa. A História, no fundo, é esta contínua luta contra a barbárie em que nos espojamos, uma luta contra os nossos caninos sedentos do sangue de iguais. As leis, a civilização e a decência atrapalham-nos muito. [Read more…]

O que separa a IL do Chega?

Números, apenas números.

 

Aguiar-Branco-sujo

Na minha vastíssima ignorância também sobre tonalidades, tenho ouvido falar, por vezes, de branco-sujo, que me parece, à partida, tão pouco branco, que nem branco seria, mas temos de aceitar que brancuras e branqueamentos há muitos.

Recentemente, José Pedro Aguiar-Branco afirmou que Pedro Nuno Santos «fez pior à democracia em seis dias» do que Ventura em seis anos, o que é surpreendente, porque ficamos a saber que o Presidente da Assembleia da República considera que André Ventura fez mal à democracia.

Por outro lado, tendo em conta que Aguiar-Branco raramente censurou Ventura ou o Chega, talvez possamos concluir que a qualidade da democracia não faz parte das suas preocupações. Aguiar-Branco, portanto, branqueou os ataques que Ventura fez à democracia, sujando-se. Efectivamente, branquear suja.

Subscrevendo as palavras do nosso José Mário Teixeira, direi, no entanto, que é importante confirmar que é habitual que uma certa direita recorra com muita facilidade ao equívoco das falsas equivalências, mantendo aberta a possibilidade de alianças com o Chega. Ao despir, em público, a pele de Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco exerce o seu direito a sujar-se e a sujar o cargo que representa. Para cúmulo, despir-se em público pode considerar-se atentado ao pudor.

Um ladrão, um bêbedo e um pedófilo entram num partido

Uma morte resultante de um crime é uma morte que não deveria ter acontecido. Quando, em Dezembro, houve um homicídio no Palácio do Gelo, em Viseu, André Ventura transformou uma morte que não deveria ter acontecido numa «onda de violência».

Calculo que a língua portuguesa, em casa do presidente do Chega, seja usada de maneira diferente. Quando se entorna um líquido, fala-se em inundação; quando batem à porta, chama-se a unidade de minas e armadilhas; os cinco minutos que dura acto sexual começam à sexta à noite e só terminam na segunda de manhã, havendo necessidade de chamar o 112 para acudir à esposa venturosa, que fica alegadamente incapacitada de reunir os joelhos.

O que têm, entretanto, em comum o homicida e André Ventura? A falta de decência. O primeiro usou uma arma para dar vazão à animalidade que o levou a matar um semelhante ; o segundo usou uma morte para atiçar a animalidade grupal.

Acontece que os moralistas, especialmente se marialvas, são peixes que morrem pela boca. Se um homicídio em Viseu faz parte de uma onda, o que diria Ventura de outro partido em que se descobrisse um ladrão de malas, um homem a conduzir com falta de sangue no álcool e um outro a quem aconteceram um ou mais actos de pedofilia? Tsunami, maremoto, ciclone, apocalipse, o Juízo Final?

Quantas greves são greves a mais?

Marques Mendes, no seu espaço de intoxicação alimentar, declarou que, nas escolas públicas, há greves a mais, há baixas por doença a mais e os sindicatos exageram (ouvir a partir dos 12 minutos e qualquer coisa).

Como é que se sabe se uma classe profissional faz greves a mais? Haverá um banco de horas de greve? Haverá um gestor de conta que negue um levantamento de horas de greve porque já se gastou o limite de crédito e agora só para o ano? Deveria existir o cargo de provedor do grevista?

Não sabemos, mas Marques Mendes sabe. Marques Mendes também sabe que, nas escolas públicas, há baixas por doença a mais e sabe que toda a gente acha o mesmo. Como é que Marques Mendes sabe? Acha que há. E também acha que os sindicatos exageram.

Marques Mendes é uma pessoa que acha muito e, por isso, tem opiniões. Só lhe faltam fundamentos e é por não fundamentar o que afirma que chegou a comentador televisivo.

Governo não queria poupar dez mil euros por mês

Até há dois ou três dias, o governo considerava fundamental gastar 16 000 euros mensais com Hélder Rosalino. Depois da desistência deste, o cargo de secretário-geral do executivo será ocupado por Carlos Costa Neves, que ficará cerca de dez mil euros mais barato por mês.

No mundo da alegada meritocracia que faz corresponder o volume salarial à competência, poderemos dizer que Carlos Costa Neves é dez mil euros menos competente que Hélder Rosalino? Isso não será demasiada competência a menos? Ao contratar uma pessoa tão barata, não estará, ainda, o governo a prescindir de uma grande quantidade de competência, pondo em risco o desempenho de um cargo que, com certeza, será considerado fundamental? Entretanto, o que aconteceu para que, só passado quase um ano, um governo tenha descoberto que é fundamental criar este cargo?

Se, afinal, era possível gastar bastante menos, não será que o governo anda a brincar com dinheiros públicos? Mas há governo?

Auto do Rosalino

Personagens: Montenegro, Rosalino, Voz da Decência

Montenegro: Rosi, venho convidar-te para secretário-geral, porque é preciso organizar melhor as coisas da administração pública.

Rosalino: Ou seja, acabar com a administração pública, não é, Monte?

Montenegro: É por isso que eu sabia que eras o homem ideal para o cargo.

Rosalino: Pois, ó Monte, mas há um problema.

Montenegro: Os problemas resolvem-se, Rosi. Fala.

Rosalino: É que não posso passar a ganhar um terço do que ganhava.

Montenegro: Tens toda a razão. Isso de cortar salários é inadmissível!

(Riem-se ambos, a ponto de quase chorarem)

Montenegro (recuperando o fôlego com dificuldade): Vou ligar ao Centeno, ele continua a pagar-te e pronto.

(Montenegro pega no telemóvel, caminha um pouco e desliga irritado)

Montenegro: Este gajo veio-me lá com um paleio qualquer de regras ou o carago!

Rosalino: Monte, já te disse, assim não posso. Aquele dinheiro faz-me falta.

Montenegro: Rosi, não te preocupes, a malta arranja aqui uma leizita só para ti e ficas a ganhar o mesmo.

Rosalino: Pronto, assim, já fico.

(Ouve-se a notícia de que há partidos que querem fiscalizar a lei)

Rosalino: Olha, afinal, já não fico.

Montenegro: Nunca gostei do Centeno e agora também não gosto. Tenho pena, pá, porque não estou a ver mais ninguém para fazer cortes como tu fazes. Os teus cortes são os melhores que já vi.

Rosalino: Olha, não se perde tudo: continuo a ganhar o mesmo, que é o mais importante.

Montenegro: Olha lá uma coisa!

Rosalino: O que é?

Montenegro: Não era para entrar também a Voz da Decência nesta peça?

Rosalino: Pois era, mas não ouvi nada, Monte.

Montenegro: Pois, nem eu.

Rosalino: Deixa lá. Ficas a dever-me um almoço.

Leitão adulto

O meu avô tinha dois apelidos e um deles era Leitão. No Carnaval, havia sempre um anónimo que lhe ligava para casa, perguntando à pessoa que tinha a sorte ou o azar de atender:

– Estou? É de casa do senhor Leitão?

– É, sim.

– Podia dizer-me quando é que chega a porco?

E pronto, era uma diversão.

Não herdei o saboroso apelido do meu avô, fiquei-me por um Nabais que, felizmente, me tem valido alguns trocadilhos que divertem e confirmam a minha geral inabilidade.

O ministro António Leitão Amaro, em declarações recentes, insinuou que há acidentes ferroviários que se devem ao facto de haver maquinistas a conduzir alcoolizados.

Será injusto, mas o porco é um animal muitas vezes associado a falta de higiene e a falta de respeito – ora, o respeito é extremamente higiénico.

A afirmação do ministro desrespeita uma classe profissional inteira, ao mesmo tempo que desresponsabiliza o governo da obrigação de contribuir para a resolução dos acidentes ferroviários.

Já há uns anos, o tão católico Mota Soares espalhou lama sobre os beneficiários do rendimento mínimo – a generalização é a arma habitual dos porcos que refocilam na política como se fosse uma pocilga, se é que me são permitidas as metáforas.

O meu avô viveu mais de 80 anos e não cresceu além do apelido. Leitão Amaro já chegou à idade adulta.

O cravo das mãos do povo

A maior parte do território que é a minha alma está ocupada por um imenso oceano de cinismo, em que os políticos são todos demasiado parecidos, a humanidade é essencialmente desagradável e o futuro é tão provavelmente mau que a felicidade é constituída por pequenas ilhas onde habitam hojes prazenteiros que convém aproveitar, porque os amanhãs até poderão cantar, mas há sempre o risco de desafinarem.

Esse cinismo afasta-me frequentemente do orgulho ou do sentimentalismo, mas há excepções. Lembrar-me da alegria do 25 de Abril e ouvir a “Grândola” deixam-me sempre arrepiado e perto da lágrima feliz.

Por estes dias, morreu Celeste Caeiro, lembrada pelo João Mendes. E eu, avesso a trompas épicas, impedido pela minha personalidade de ser bairrista, de ser saudosista ou de acreditar desmesuradamente em qualquer ideologia, sorrio, enternecido, quando me lembro que o símbolo de uma das revoluções mais bonitas da História saiu das mãos de uma mulher do povo, do mesmo povo que o monstro do salazarismo pisou durante quase 50 anos.

É por isso que, todos os anos, faço um pequeno intervalo no meu cinismo e pego num cravo. Muito obrigado, Celeste Caeiro.

Como combater uma ditadura

Se bem entendo alguns comentários à morte de Camilo Mortágua, uma ditadura deverá combater-se com conversas educadas, participando em debates durante os quais os opositores deverão tentar, civilizadamente, explicar ao ditador, ou a quem o representa, que deve ser um democrata. Como se sabe, os ditadores são pessoas sempre disponíveis para prescindir do poder ou para convocarem eleições livres se lhes falarem com jeitinho.
Revolucionários, ainda por cima, barbudos, que usam de violência para combater a opressão não passam de terroristas, pessoas que, no fundo, só provocam os ditadores.
Felizmente, Portugal tem gente como Cavaco Silva, que soube, por exemplo, recusar uma pensão a Salgueiro Maia, esse homenzinho horrível que passou o dia 25 de Abril de 1974 a incomodar pessoas de bem, desde militares do regime até ao senhor presidente do Conselho.
Aprendei: não é com vinagre que se apanham moscas. E as ditaduras são moscas como as outras. Mel, muito mel. Basta estudar História.