Com tanta consanguinidade no governo…

… é natural que as medidas sejam deficientes.

Rui Pinto, vilão ou herói?

As minhas costelas benfiquistas poderão levar a que leitores mais apressados vejam nesta minha breve opinião a defesa de um clube. Apesar de saber que isso vai ser ignorado, desejo deixar claro que sou adepto do Benfica durante os 90 minutos que dura um jogo, que não encontro nenhuma superioridade moral no meu clube, que não me espantaria que houvesse ou que haja muitos esquemas mafiosos associados directa ou indirectamente ao Benfica, o que quiserem, assim fique provado em tribunal, mesmo sabendo que pode haver uma grande distância entre tribunais e Justiça.

Ora, parafraseando Churchill, a propósito da democracia, é forçoso reconhecer que o nosso sistema de Justiça é o pior que há, à excepção de todos os outros. Por isso, enquanto Luís Filipe Vieira, o Benfica ou o diabo a quatro não forem condenados, serão inocentes, por muito que nos custe.

Rui Pinto, para quem não gosta de futebol ou para quem não gosta do Benfica, dois sentimentos respeitáveis e compreensíveis, é um herói. Se da sua actividade resultar a condenação de criminosos, óptimo, independentemente da cor clubística, partidária ou da roupa interior. [Read more…]

Educação ou o campo de minas

No que se refere à Educação, esquerda e direita não têm pensamentos, têm tiques e reacções. O ideólogo de serviço, neste momento, é João Costa. Atacado por um vago esquerdismo que aparenta pensar nos mais desfavorecidos, já glosou a habitual treta da escola que deve preparar para a vida, apareceu, ainda, a combater a “acumulação de saberes” e inventou a Cidadania e Nova Inclusão.

A reflexão sobre a cidadania sempre foi inevitavelmente transversal, porque qualquer área do saber a implica. João Costa, no entanto, como todos os que desprezam os professores e as escolas, sentiu que era necessário impor uma disciplina, ao mesmo tempo que desvaloriza os saberes, especialmente os ligados às Humanidades. Por causa de mais uma criação desnecessária, as disciplinas de História e de Geografia estão a perder horas em algumas escolas. Não sei como é que a acumulação de ignorância e e o cultivo de generalidades formam cidadãos.

Cada vez mais, no entanto, dou por mim a pensar que a culpa, em parte, é dos professores e das escolas, que aderem entusiasmados às modas que equipas ministeriais vão impondo aos sabores das mudanças eleitorais, sempre de acordo com tiques e convencidos de que tiveram ideias brilhantes. Deus nos livre de quem se julga brilhante!

Ferraz da Costa com a barriga encostada ao balcão

Nos cafés e nas tascas, os amigos reúnem-se, bebem uns copos e, de uma penada, resolvem todos os problemas do mundo com base em nada. É a informação que não passa cá para fora, mas eu tenho um primo que, é o eu sei que os funcionários públicos são quase todos tarados sexuais porque conheço um que, é um estudo publicado no facebook que diz que, é o a mim não me enganam que eu não ando aqui a ver passar os navios.

Daqui virá pouco mal ao mundo, porque os disparates que dizemos entre amigos morrem no café ou na tasca e esfumam-se mal desencostamos a barriga do balcão, ficando a camisa cheia de nódoas e de falsos argumentos. Um pouco de alienação, no entanto, não faz mal a ninguém.

Ferraz da Costa deu uma entrevista. Mesmo perfumado e sentado num sofá dos mais caros, debitou um discurso tão vácuo como o dos nossos amigos ébrios que explicam tudo, que isto é muito simples.

Diz o alegre conviva o seguinte:

Não estou a dizer que os salários devem ser altos ou baixos. Acho que para muitas pessoas até são mais altos do que deviam, pois não deviam ser tão altos para os que apresentam maior absentismo ou para os que não se importam com o que se passa ou para os que ficaram em casa.

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Zero à esquerda e à direita

Com um raciocínio maquiavélico, Marcelo pergunta aos professores se dois é mais do que zero. A questão não é assim tão simples, como poderá saber quem queira saber (lendo, por exemplo, um texto do Paulo Guinote): a solução escolhida pelo governo, para além de sonegar aos professores o pagamento de uma dívida, acrescenta injustiças ao provocar ultrapassagens na carreira. Marcelo, embora simpático, é o criado que atira uma moeda aos alperces da pobre hortaliceira de Cesário: “Se te convém, despacha; não converses./ Eu não dou mais.”

O PSD, pela voz igualmente maquiavélica de David Justino, declara que não cairá na armadilha do Bloco de Esquerda, fazendo de conta que está do lado dos professores e fingindo que está contra o governo, alegando, ainda, que repor o tempo de serviço por via legislativa poderá ser considerado inconstitucional. O PSD, como se sabe, tem um passado recente de respeito cego pela Constituição.

Entretanto, a Plataforma Sindical prepara já a organização da habitual vigília, da costumeira manifestação e da usual luta que fechará para férias. Os inimigos dos professores e da Educação são, assim, o governo, os sindicatos, a maioria dos partidos e uma grande parte (a maioria?) dos professores.

Não estou optimista e, o que é pior, já começo a não estar preocupado. Se for só eu, talvez não seja mau sinal. Sinto-me a regressar aos tempos infantis em que deixava a outra equipa meter golo, quando havia um contra-ataque, porque os mamões dos meus colegas ficavam quietos lá à frente.

Nossa Senhora da Censura

Fotografia Fecebook/Gate 7

Devido à intervenção da Igreja, o cortejo do Carnaval de Torres Vedras vai ficar privado da imagem de Nossa Senhora da Bola, criação satírica de Bruno Melo. Ou seja, quem se mete com a Igreja continua a levar. [Read more…]

David Justino é simpatiquíssimo

David Justino diz que Marques Mendes às vezes também faz papel de idiota

Oportunidade de negócio para a rolha portuguesa

Bill Gates diz que os gases das vacas são dos principais inimigos do clima

Os rankings e o colaboracionismo dos professores

Copio do facebook do José Gabriel, com uma vénia demorada, um excerto que corresponde àquilo que penso sobre a publicação dos rankings, ou melhor, sobre o modo como os rankings são interpretados: «Esta fraude estatística, destinada, inicialmente, a acalmar os ardores hormonais das direcções do Público – e, como é costume, a sangrar o erário público a favor das empresas privadas -, transformou-se numa anedota de efeitos nefastos e pasto fácil de comentários analfabetos.»

Não me espanta, portanto, que os ignorantes atrevidos e mal-intencionados continuem a transformar este rito anual num momento de propagação da ideia de que os rankings são um instrumento de avaliação do trabalho das escolas.

Também já não me espanta, por ser habitual, que, ao fim destes anos todos, directores de escolas e professores se tenham deixado contaminar por esta febre, ao ponto de comemorarem subidas em rankings ou de transformarem descidas em momentos de pura depressão, aceitando méritos ou culpas que não lhes cabem completamente, contribuindo para que a Educação não seja verdadeiramente discutida, aceitando o pensamento simplista de que o sucesso dos alunos depende apenas das escolas ou a ideia de que as escolas devem assumir uma atitude de concorrência empresarial, desvirtuando, afinal, a sua função.

Um dos problemas da Educação – que são muitos – consiste, cada vez mais, no facto de que os professores interiorizam – ou normalizam, como está na moda – os disparates proferidos e impostos por ignorantes e vendedores de banha da cobra com poder político e/ou mediático. Quando, numa área de actividade, os profissionais agem contra a própria área, a esperança é cada vez menor. Hoje, é dia de rankings: não faltarão patetices.

Odorico Paraguaçu é o Secretário de Estado da Energia

Odorico Paraguaçu é uma personagem aparentemente ficcional (porque é a realidade que, de tão absurda, parece verdadeira ficção). Odorico ganhou as eleições para a prefeitura de Sucupira, graças ao seu verbo e à promessa de criar um cemitério. Este espaço, depois de inaugurado, ficou às moscas, porque as pessoas insistiam em não morrer, para raiva e desgosto do prefeito.

João Galamba, uma criação socrática reciclada por António Costa, deslocou-se ao concelho da Guarda, na qualidade de Secretário de Estado da Energia, e, anunciando investimentos na região de uma empresa chinesa conhecida por EDP, levantou o queixo na direcção dos munícipes, exigindo-lhes que consumam mais, quase anunciando que, caso não o façam, serão mal agradecidos. Se coubesse ao Estado abrir bordéis, sendo Galamba secretário de Estado da prostituição, imagino o que estaria a exigir, neste momento, aos habitantes da Guarda.

Já se imagina, entretanto, nos lares egitanienses, as reprimendas que os pais passarão a dirigir aos filhos: “Então tu, minha besta quadrada, vens para a sala e apagas a luz da cozinha? Tu queres a ruína da Three Gorges, queres que o senhor Mexia tenha menos uma gravata  e que o senhor Galamba receba um puxão de orelhas do senhor primeiro-ministro? Vá lá acender a luz e aproveita e liga dois aquecedores, já! O que é que disseste?! Estamos no Verão? Ó rapaz, tu até me tiras do sério, pá! Vais já de castigo para o teu quarto e ligas o computador, a televisão e a playstation! Eu que veja que está escuro, meu animal!”

Dias Gomes está às voltas na tumba, triste por descobrir que, afinal, a realidade é um guionista verdadeiramente genial: Galamba será menos tétrico, mas não fica atrás de Odorico.

As reivindicações dos enfermeiros são justas?

Esta é a pergunta cuja resposta interessa verdadeiramente conhecer. O problema, no entanto, está no muito ruído que é gerado à volta das greves.

António Costa considerou que a greve dos enfermeiros é “ilegal” e “selvagem”. O primeiro-ministro tem direito à sua opinião, embora o segundo adjectivo seja demasiado sensacionalista para que possa ser usado de modo leviano. Sendo licenciado em Direito, estará obrigado também a usar com parcimónia um termo como “ilegal”.

Os políticos, quando estão no poder têm, sobre greves, o mesmo discurso redondo: não está em causa o direito à greve, mas ou é injusta (mesmo selvagem) ou as reivindicações não poderão ser satisfeitas, porque o défice iria ser agravado, ou não é a altura ideal para se fazer greve. Os mesmos políticos, na oposição, são a favor das justas reivindicações dos trabalhadores e fazem de conta que não são igualmente culpados da destruição do sistema.

A Comunicação Social, nestas alturas, prefere o óbvio e entrevista os utentes que estão a ser prejudicados pela greve, como se houvesse greves sem incómodos. Há, com frequência, histórias de alguém que se tinha levantado de madrugada para ter uma consulta por que esperava há meses. Curiosamente, a Comunicação Social perde muito menos tempo a investigar os milhares de casos de pessoas que precisam de madrugar nos Centros de Saúde ou de consultas que só têm lugar muito tempo depois de serem marcadas. [Read more…]

E se forem todos culpados?

“Sou contra achar-se que todos os que passaram pela CGD são culpados” – Paulo Macedo

Com a Saúde brinca-se

Concorrência, meritocracia, eficiência e outros chavões aparentemente virtuosos foram o cavalo de Tróia que permitiu que os privados deitassem a mão a áreas essenciais da sociedade, como a Saúde ou a Educação. O empresarialês é a linguagem que tudo explica, disfarçando o que não é mais do que a sede de lucro. O gestor-economista-empreendedor-consultor é o guru da boa nova, a luz que guiará os ignaros.

Marcelo Rebelo de Sousa defende a existência de consensos no que se refere ao Serviço Nacional de Saúde, deixando a ameaça vetar o projecto de Lei de Bases da Saúde, caso não conte com voto favorável do PSD. Há pouco tempo, Luís Filipe Pereira, economista, claro!, e antigo ministro da Saúde de Passos Coelho, defendeu que deve haver mais parcerias público-privadas (PPP) na Saúde.

O desinvestimento nos hospitais públicos é mau para a saúde dos portugueses. As PPP são más para a saúde de Portugal. Tudo isto, no entanto, é bom para Luís Filipe Pereira e para Marcelo Rebelo de Sousa.

Jamaica

Pessoa amiga disse-me, há uns anos, depois de dar aulas a criancinhas de um bairro problemático, que nunca pensou ser possível odiar criancinhas de oito anos. Terão sido momentos, mas esses momentos em que o comportamento é todo bairro, já família, impõem a selvajaria na sala de aula, numa agressividade incontrolável, seja contra quem for. Coube a essa pessoa, irrepreensível, manter-se no seu posto, cumprindo um dever profissional e social, porque é a Escola que, tantas vezes, faz pelas crianças aquilo que família e sociedade não fazem, uns porque não sabem, outros porque não querem.

Imagino o que será a raiva reprimida de um polícia sério obrigado a lidar diariamente com gente agressiva que a sociedade mantém na pobreza e no crime ou com gente agressiva que se mantém na pobreza e no crime, que um pronome pode fazer diferença quanto às causas, mas não apaga a realidade. Explicar as razões de um crime não é, evidentemente, razão para perdoar um crime: se um polícia for agredido por um pobre ou por um negro, o pobre ou o negro continuam a ser criminosos, por muito que a vida lhes seja madrasta ou guarda prisional. [Read more…]

Inclusão, o fetiche da moda na Educação

O Ministério da Educação é uma secretaria menor do Ministério das Finanças e serve, especialmente desde 2005, para aumentar ou confirmar cortes na despesa, actos diferentes de poupar.

As diferenças entre os sucessivos governos, na área da Educação, são, assim, meramente folclóricas e superficiais, evitando tocar nos pontos verdadeiramente importantes. Entre outras leviandades, vem a Direita e confunde exames com exigência, chega a Esquerda e corta exames em nome da igualdade, mais coisa menos coisa, sem que o poder legislativo perca verdadeiramente tempo a pensar, até porque os deputados estão ao serviço dos partidos e não dos constituintes, o que quer dizer a Educação não é uma prioridade na Assembleia da República. [Read more…]

A fealdade das feministas

O mundo tem tanto de perigoso como de cómico ou é cómico por ser perigoso ou é o perigo que pode ser cómico.

Em 2015, ainda na qualidade de pastora, Damares Alves, actual ministra brasileira dos Direitos Humanos , da Família e da Mulher, explicou que as feministas não gostam de homens e que isso se deve a serem feias e, portanto, incapazes de atrair membros do sexo oposto. Na plateia, dezenas ou centenas de mulheres lindas aplaudiam.

Dou por mim, muitas vezes, a irritar-me com alguns exageros das feministas, mas sinto-me, ainda, obrigado a perceber que o mundo está muito atrasado no que se refere aos direitos das mulheres, bastando lembrar que, na Europa, a luta das sufragistas, por exemplo, foi há coisa de um século, ou seja, ainda ontem.

A piada machista de que as mulheres que defendem os seus direitos são uns coirões que ficaram para tias, no entanto, será uma das opiniões menos relevantes da antiga pastora. Preocupante será a ideia de que a igreja evangélica perdeu espaço nas escolas, acrescentando que não deveria ter permitido que a ciência ficasse entregue aos cientistas e muitas outras que a globalização vai espalhando.

O ministério terá afirmado que as opiniões da pastora não servirão de base à actuação da ministra, numa cisão interior eventualmente brutal. Uma pessoa, contudo, pergunta-se: não terão sido as ideias da pastora a causa para ser convidada para ministra?

A vida de um sapador-bombeiro vale 700 euros

Num mundo cujos mandantes odeiam o dia 1 de Maio de 1886 e todas as datas daí decorrentes, é natural que se queira pagar uma ninharia (738 euros de salário-base, o que inclui 120 euros de subsídio de risco e 140 de disponibilidade permanente) a quem corre riscos de vida para salvar a dos outros.

Num mundo em que o défice de um país é mais importante do que os cidadãos ou em que o Estado entrega dinheiros públicos a parasitas como as PPP ou os bancos, é absolutamente previsível que se queira passar para os 60 anos a idade de reforma de profissionais que têm de carregar com equipamento que pesa 30 quilos.

Entretanto, o portuguesinho, enganado por governantes e crescentemente explorado por patrões sem rédea, dedica-se à maledicência das profissões alheias e a defender, também votando, quem o suga. Tenho, ainda assim, alguma curiosidade em saber se aparecerá por aqui algum daqueles comentadores que poderá dizer que até conhece um sapador que não faz nenhum ou que os sapadores até têm sorte em ganhar mais do que o salário mínimo.

Dial C for Cristina

Um caso de James Marlowe, Chico Nelo para os inimigos.

O telefone tocou. Suspirei. Um caso, finalmente, o primeiro desde Fátima. Uma voz rouca, sensual, lenta perguntou-me se já tinha almoçado. Respondi, irritado:

– Mãe, já lhe disse que não me ligasse para o emprego!

A voz rouca, sensual insistia na necessidade de que me alimentasse convenientemente, acrescentando que eu não tinha propriamente emprego. Despedi-me o menos educadamente possível, tendo chegado a deitar a língua de fora ao bucal, de modo a que não se ouvisse.

Alguém mais atento poderia notar a inverosimilhança da ausência de um telemóvel, como se fosse possível um detective anacrónico usar objectos crónicos.

O telefone voltou a tocar:

– Mãe, outra vez?!

Claro que não era a minha mãe e não vale a pena insistirem no telemóvel que me permitiria saber quem me estava a ligar.

Do outro lado, estava uma voz tão inconfundível como a da minha mãe, ainda que menos sensual: era aquele que, doravante, por razões de segurança, passaremos a designar pelo nome de código “Presidente da República”.

– Estou a ligar-lhe confidencialmente para lhe pedir que, de modo discreto, me arranje o número de telefone do novo programa da senhora Cristina Ferreira, aquela da SIC. É para um amigo. [Read more…]

Da subserviência ao Brasil

Ao arrepio da tradição, Marcelo Rebelo de Sousa esteve presente na tomada de posse de Jair Bolsonaro, o que já é mau sinal, independentemente de quem chegou à presidência do Brasil. Sinal de subserviência, que é uma maneira de encolher um país.

As declarações do presidente português confirmaram o provincianismo de um país que vive de joelhos: ao falar com o repórter, abrasileirou a pronúncia; diante do desprestígio que foi o pouco tempo de audiência com Bolsonaro, inventou a história de que os irmãos precisam de pouco tempo para comunicar; não perdeu a oportunidade para falar da importância do Brasil nessa central de maus negócios que é a CPLP.

Já Eça fazia referência ao provincianismo de um país que importava tudo, até vocabulário, de França. Mais recentemente, vamos engolindo neoliberalismos vários porque vêm de Bruxelas e palavreado economês em inglês americano, cheio de timings e de feedbacks. O Brasil, eterna potencial potência, é o deslumbramento de políticos sempre ansiosos por transformar Portugal na rémora do tubarão, porque os negócios e as empresas e as oportunidades, num desfile de inanidades que afectam inclusivamente o supremo magistrado da nação, com representantes prontos a vender até a ortografia, em nome de uma falsa união que é só parolice.

Note-se que a cultura de muitos portugueses, incluindo este vosso criado, é devedora de muito Brasil, da literatura à música, passando pela televisão e pelo cinema, mas não se confunda admiração com genuflexão. O problema, nesta e em muitas histórias com políticos portugueses, é que a vergonha não é alheia.

As críticas às greves ou a distracção dos democratas

Entre os professores, há um ou vários cismas que não nasceram ontem e que se vão prolongando na paz podre em que aceitam viver há vários anos, acatando tudo aquilo que, desde 2005, é atirado para cima das escolas.

O episódio mais recente correspondeu à greve às avaliações, em que pudemos verificar a existência de, no mínimo, três trincheiras. Numa, esteve (e está) um governo irredutível que rejeita repor o tempo de serviço a que os professores têm direito. Numa outra, estiveram a maioria dos sindicatos e muitos professores que, reivindicando a dita reposição, acabaram por, conscientemente ou não, terminar uma luta que decorria serenamente, inventando várias desculpas esfarrapadas. Finalmente, um sindicato jovem e uma quantidade apreciável de professores que estiveram dispostos a prosseguir uma luta que, ainda assim, continua aquém do fundamental. Pelo meio, a oposição fingiu estar ao lado dos professores.

Acrescente-se que a greve às avaliações foi feita rotativamente, através da criação de fundos de greve, porque – deixemo-nos de lirismos – não é possível um profissional por conta de outrem fazer uma greve prolongada de outra maneira.

Fiz parte do último grupo, sem heroísmos nem arroubos épicos, apenas porque sou incapaz de ambos e porque, de qualquer maneira, as palavras de ordem me parecem, cada vez mais, ruído vazio. [Read more…]

Um novo recurso para a Educação

Aquilo que se considera novo é, muitas vezes, antigo. As calças à boca de sino reaparecem espantosamente novas e os discos de vinil são, desde há uns anos, uma descoberta surpreendente. Em Educação, passa-se algo semelhante, com ideias velhas anunciadas como invenções recentes, havendo, até, quem pense que o século XXI, que atingiu a maioridade legal este ano, é já gente crescida.

É por saber isso que acredito que um certo recurso educativo será reciclado dentro de alguns anos e anunciado ao mundo como um mar nunca dantes navegado. [Read more…]

Educação: o preço do chumbo

As retenções/reprovações/chumbos constituem um tema que, ciclicamente, regressa às parangonas dos jornais, à boleia de estudos. As críticas incluem sempre despesas astronómicas e referem-se sempre ao facto de que os alunos não melhoram com a reprovação.

Desta vez, até há uma diferença suficientemente abissal para que possa haver títulos sensacionalistas: um aluno retido/reprovado/chumbado custa 6 000 euros; ensinar a estudar implica um gasto de apenas 87 euros. O simplismo noticioso e político deixa clara, portanto, a ideia de que um aluno que chumba é um aluno que não foi ensinado a estudar.

Respigo, da reportagem do Público, dois excertos, vá lá, delirantes:

Ensinar a estudar, dando feedback aos alunos sobre o seu desempenho em relação aos objectivos de aprendizagem estabelecidos, é a medida que tem um efeito mais positivo.

Uma pessoa lê e pergunta-se como é que não há ninguém nas escolas que perceba isto. Nas escolas, ninguém ensina a estudar e ninguém informa os alunos (ou dá feedback, pronto) acerca do seu desempenho? Se sim, é vergonhoso! Ou então, estamos a falar, mais uma vez, do habitual fenómeno da “invenção da pólvora”.

Para a presidente do CNE, que considera a retenção uma medida “cara e inútil”, há um “facilitismo” associado ao acto de chumbar. De facto, “dá mais trabalho se formos ver onde estão as dificuldades, que outras maneiras existem de organizar as escolas e a aprendizagem”, comenta. “Reduzir as retenções obriga-nos a repensar a maneira de intervir.” 

O comentário de Maria Emília Brederode dos Santos faz parte das falácias do costume: chumbar é consequência do facilitismo dos professores. Infelizmente, a presidente do CNE, à semelhança dos muitos nefelibatas da Educação, não tem sustentação para fazer esta afirmação ou a contrária, mas esta é mais simples. No fundo, esta gente lê umas estatísticas estrangeiras e, longe da realidade das escolas, manda uns bitaites, atribuindo as culpas de uma questão social complexa aos professores e às escolas.

Em nenhum momento, estes alegados estudos se debruçam sobre os vários problemas que perturbam a actividade dos professores e das escolas, em prejuízo das aprendizagens dos alunos. Nada disso: basta dizer que as reprovações ficam muito caras e que se devem às insuficiências ou ao facilitismo de quem está no terreno. [Read more…]

Miguel Sousa Tavares, o criador de fake news

Antigamente, dizia-se boato, desinformação ou mentira, conforme o emissor ou o emissário; agora, em pleno trumpismo, parece que é fake news. Seja.

Miguel Sousa Tavares (MST), que olha para as redes sociais e para os blogues como a Inquisição olhava para os judeus, escreveu, a propósito da greve dos professores e no último Expresso, o seguinte:

(…) nenhum professor trabalha mais de 35 horas: teoricamente, têm 22 horas de horário ‘lectivo’ (mas só alguns e algumas vezes) e 13 horas ocupadas em coisas de definição ampla, como ‘reuniões’, ‘preparação de aulas’ e ‘formação’

Outra coisa que MST odeia: professores. Está no seu direito. O facto de ser cronista num semanário – segundo dizem – de referência e de ter sido jornalista deveria levá-lo a investigar e a provar aquilo que afirma. Por exemplo:

1 – como é que sabe que nenhum professor trabalha mais de 35 horas? Ou menos? Ou só 35? Como é que sabe?

2 – se alguns têm 22 horas lectivas, quantos são e porquê?

3 – os que têm 22 horas lectivas só têm essas horas “algumas vezes”? E nas outras vezes, quantas horas terão?

4 – um homem tão frontal como MST terá usado um eufemismo? A expressão “definição ampla” quererá dizer “mentira”? Os professores não passarão tempo a reunir, a preparar aulas ou a receber formação ou outras actividades de “definição ampla” como ‘corrigir testes’? MST será daqueles que faz aspas com as mãos, abrindo muito os olhos para explicar que está a ser irónico? E como provará, então, que os professores estão a mentir? [Read more…]

Que país?

 

“Se o governo estivesse mais liberto do peso da esquerda o país ganharia.” – António Saraiva, presidente da CIP (2018)

“A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor.” – Luís Montenegro, PSD (2014)

É a justiça ineficaz…

… que abre caminho aos bolsonaros – BPN: Seis mil milhões de prejuízo, zero presos

Espera lá! E a direita não tem culpa?

Durante milhares de anos, poucos homens exploraram muitos sem que os explorados tivessem verdadeiramente à sua disposição instrumentos mentais, morais ou intelectuais que lhes permitissem perceber que estavam a ser escravizados, que a exploração era uma realidade. Pelo meio, claro, houve revoltas, houve Espártaco, houve jacqueries, houve Galileu e muitos outros que chegaram a mártires, mas foi preciso esperar por tempos mais recentes para que alguns filósofos, independentemente da sua condição burguesa, dessem aos explorados meios para, finalmente, pensar sobre a sua condição. Foi então que os oprimidos começaram a estrebuchar, a incomodar, a exigir, para espanto das classes altas, que, invariavelmente, reagiram com brutalidade, até que, em muitos casos, foram obrigadas, para sobreviver, a aceitar a democracia, sendo que, ainda assim, nunca deixaram nem deixarão de a minar.

O poder, ao longo de milhares de anos, encontrou sempre maneiras de se legitimar, legitimando a opressão que exercia, com a ajuda, entre outras, da religião. No caso da nossa Europa, basta lembrar que o rei era ungido (o mesmo que se disse, por exemplo, do Bolsonaro e já fora dito acerca de Salazar), o que lhe dava direito, na prática, a algo semelhante à impunidade. O equilíbrio de poderes era um equilíbrio entre poderosos (reis, papas, duques e outros) e não entre patrões e servos. [Read more…]

Manicura São Bento, arranjamos unhas no Parlamento

Já acompanhei alunos em visitas à Assembleia da República. De uma maneira geral, ficam espantados com o comportamento de alguns deputados que, enquanto alguém está a discursar, passeiam pelas bancadas, lêem o jornal ou conversam em pequenos grupos de costas para o púlpito. Numa dessas ocasiões, um aluno chegou a dizer-me: “Se nós fizéssemos o mesmo, o professor marcava-nos falta disciplinar.”

Na sala de aula, já, por várias vezes, fui obrigado a censurar comportamentos, o que faz parte do ofício, como é evidente. Entre outros, dei por mim espantado com uma aluna a pôr creme nas mãos de uma colega, acto que foi interrompido prontamente, ainda que com algum espanto por parte das minhas vítimas.

Isabel Moreira foi fotografada a pintar as unhas durante o debate do Orçamento. Não me parece pior do que estar a conversar enquanto outra pessoa fala. Parece-me igualmente mau. Entretanto, alguém defendeu a deputada, afirmando que há deputados que lêem o jornal no Parlamento. O problema está, evidentemente, em ter defendido o comportamento da deputada.

É demasiado fácil dizer mal dos deputados e desprezar a importância do seu trabalho – o que os torna estranhamente próximos dos professores -, mas a verdade é que estamos a falar de pessoas que foram eleitas pelo povo e que devem encarar a sua presença no Parlamento tendo em conta que são observados e que, portanto, servem de exemplo. Se um dia alguém estiver a pintar as unhas numa aula, serei obrigado a dizer qualquer coisa como “Mas já chegámos ao Parlamento?!”

Os bufos: a propósito de Ana Caroline Campagnolo

No dia em que Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil, a deputada estadual Ana Caroline Campagnolo publicou a abjecção que se pode ver mais acima e que está ao nível dos delatores da Inquisição ou dos “bufos” da PIDE: o medo, a delação anónima que pode nascer de motivações pessoais, a imoralidade (mesmo que legal) de filmar às escondidas, enfim, um conjunto de circunstâncias que não podem fazer parte de uma democracia civilizada. [Read more…]

Deputado do PSD elogia António Costa

De uma assentada, Duarte Marques, uma das musas de alguns aventadores, consegue, num único tweet, dizer que, afinal, António Costa não foi assim tão mau, que Passos Coelho estava errado quando temeu o diabo e que, portanto, Bolsonaro talvez não seja tão mau como prometeu, o que pode querer dizer que, no fundo, Costa, Passos e Bolsonaro estão todos ao mesmo nível e que há a possibilidade de que o brasileiro venha a ser melhor do Passos e Costa, sendo que o actual primeiro-ministro português leva alguma vantagem, por ter sido desdiabolizado. Bolsonaro poderá estar, assim, a caminho da desdiabolização. Para Passos Coelho é que parece não haver grande esperança, coitado. Ditosa pátria, que tais analistas políticos dá ao Twitter.

Antes Cristas que Bolsonaro

O título deste texto é inspirado num comentário escrito no facebook por um amigo meu que é comunista dos sete costados, numa polémica em que desafia um centrista a pronunciar-se sobre a opinião de Assunção Cristas.

A líder do CDS, instada a escolher entre Bolsonaro e Haddad, numa hipotética situação em que seria eleitora brasileira, declarou que votaria em branco (na verdade, declarou que não votaria), colocando ambos os candidatos no mesmo nível, quando se sabe que Bolsonaro defende abertamente a ditadura, com direito a tortura, censura e outros mimos, elogiando, pelo meio, Brilhante Ustra. Haddad, independentemente de todos os defeitos ou erros do PT, faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo.

O argumento usado para não votar em Haddad é extraordinário: “A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura.” É extraordinário porque admite que ainda não se chegou à ditadura. Entre um que não admite senão a ditadura e outro que ainda não chegou à ditadura, Cristas encolhe os ombros.

Entretanto, não defendendo a corrupção, o salto que chega daí à ditadura é um vazio argumentativo. Por outro lado, tenta deixar, implicitamente, a ideia de que a corrupção, no Brasil, é toda de esquerda.

Na verdade, Assunção Cristas, ao colocar ao mesmo nível dois candidatos tão diversos, põe-se ao lado da ditadura, mas terá vergonha de o confessar. As redes sociais, no entanto, estão cheias de gente declaradamente saudosa de Salazar e que suspira por bolsonaros, gentinha perigosa que mina a democracia muito mais do que a corrupção.