Tudo o que é belo não é de vender.

O passado dele cruzou-se com o meu presente que agora é também ele passado. Acordes de um corredor com cantigas de quem sonhou.

Cantiga para quem sonha
Tu que tens dez réis de esp’rança e de amor
Grita bem alto que queres viver.
Compra pão e vinho, mas rouba uma flôr:
Tudo o que é belo não é de vender.
Não vendem ondas do mar,
Nem brisa ou estrelas,
Sol ou lua-cheia.
Não vendem moças de amar,
Nem certas janelas
Em dunas de areia.
Canta, canta como uma ave ou um rio,
Dá o teu braço aos que querem sonhar.
Quem trouxer mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saiba cantar.
Tu que crês num mundo maior e melhor
Grita bem alto que o céu ‘stá aqui.
Tu que vês irmãos, só irmãos, em redor
Crê que esse mundo começa por ti.
Traz uma viola, um poema,
Um passo de dança,
Um sonho maduro.
Canta glosando este tema:
Em cada criança
Há um homem puro.
Canta, canta como uma ave ou um rio,
Dá o teu braço aos que querem sonhar.
Quem trouxer mãos livres ou um assobio
Nem é preciso que saiba cantar.
[youtube http://youtu.be/iQWo1RTHe4Y?h=100]

Crê que esse mundo começa por ti.

Custe o que custar

«Roubei» por uns dias a revista das Selecções Reader’s Digest de Setembro à minha sogra (ela já sabe).

Um dos artigos que queria ler com calma é este: «Porque é que as escolas finlandesas têm tanto sucesso?, um artigo de Lynnell Hancock.

Retenho e transcrevo algumas passagens que gostaria de ter presentes no meu dia-a-dia como professora:

1- reter um aluno é “uma medida tão rara na Finlândia que é quase obsoleta”;

2-” os professores estão mandatados para fazer o que for preciso para dar uma volta à vida dos seus jovens alunos”;

3- algo parecido com «explicações privadas»/ «alunos particulares» pode resultar para alunos que revelam problemas de aprendizagem;

4-«custe o que custar» é a atitude que norteia todos os educadores da Finlãndia

5- “Muitas escolas são suficientemente pequenas para os professores conheçam todos os alunos”;

6- se um método falha, tenta-se outra coisa;

7-apreciar os desafios;

8- “a transformação no sistema de ensino finlandês começou há 40 anos, como factor-chave para a recuperação económica do país”

9- em 2000, reconheceu-se que “os jovens finlandeses eram os de melhor capacidade de leitura no Mundo” (PISA);

10- não há testes obrigatórios, à excepção de um exame no final do último ano do secundário;

11- não existem rankings (nem comparações);

12- 66% dos jovens escolhem prosseguir os seus estudos na Universidade, a mais alta taxa da UE;

13- aprender a aprender e não a respondere a exames;

14- Ligações fortes:

15- a licença de maternidade é de 3 anos ;

16- soluções criativas;

17- «se queremos ser competitivos, temos que dar educação a toda a gente»;

18- as escolas finlandesas nem sempre foram tão boas; à medida que melhorava a escola básica, melhorava também a escola secundária;

19- « Nós temos a nossa própria motivação para o sucesso porque adoramos o que fazemos;

20- «O nosso incentivo vem de dentro».

Temos obrigação de aprender com os melhores. Não falta informação (é só um clic, um link que se copia, etc.) : falta vontade de mudar para melhor.

Não obstante a crise no sector (nunca se falou tanto em professores pelos piores motivos), estes não podem desistir. Não nos resta alternativa: é olhar para a frente. Muitos dependem de nós. Os alunos estão à nossa espera e confiam nos professores.
É neles que temos que pensar. Eles também não têm vida fácil pela frente…
Que seja por eles que continuemos a ser o que somos e a levantar-nos todos os dias rumo à escola.

Resistir.

Luiz Goes, 1933 – 2012, RIP

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=NjLuqNVYl2s]

PEN Internacional condena por unanimidade o Acordo Ortográfico

Uma óptima notícia:

Foi aprovada por unanimidade no 78.º Congresso do PEN Internacional, que reuniu na Coreia delegações de 87 Centros de todo o mundo entre 9 e 15 de Setembro de 2012, uma resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos (CTDL) que manifesta uma evidente preocupação pela ameaça à língua portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO/90). Tal resolução, traduzida na íntegra a seguir, inclui anexos explicativos de todo o processo. A incredulidade manifestada pela maioria dos escritores presentes, que se interrogavam como se teria chegado a tal situação, justificou a posteriori tal inclusão.

Sim, já experimento-me

Homem Comum

Tem quase 50 anos este poema de Ferreira Gullar, tempo suficiente para sepultar uns versos ou polir-lhes o brilho. Os braços do polvo, com o mesmo ou outro nome, não mudaram e continuamos a ser muitos milhões de Homens comuns, capazes de “formar uma muralha com os nossos corpos de sonho e margaridas”.

[Read more…]

Hoje há bandarilhas – Canadá

11 de Setembro de 1973

Estava em Munique pela segunda vez para voltar a ver a fabulosa pinacoteca. Por um lado, a paixão pela pintura. Por outro, o assombro magoado com que olho para as pedras vivas do nazismo, de todas as brutalidades e crimes hediondos, sejam de direita ou de esquerda. E foi ali, numa taberna de Munique, que Hitler fez as primeiras reuniõs do que viria a ser a legião dos exterminadores. Para alem do genocídio, a grande roubalheira. As paredes do museu bem o demonstram. Ao saír, deparo com um desfile de homens e mulheres morenos, sombrios, alguns chorando, que empunhavam cartazes em alemão, língua que não entendo. Aproximo-me. Oiço que falam espanhol entre si. Pergunto: que pasa? Responde-me um rapaz: mataran a Allende, estan matando como locos, es un golpe fascista de Pinochet.

11 de Setembro de 2001

Tomava o pequeno almoço, em Toronto, olhando pela tv as notícias da manhã. Subitamente, o noticiário é interrompido para, por palavras e imagens, darem a saber que um ataque terrorista estava a atingir as Torres Gémeas em New York. Horrorizada, pensei: estão lá a Susy e o Manny (jovem casal meu amigo). New York aqui tão perto, de repente tão longe. Seguiu-se um dia inteiro de sofrimento e mágoa. Os estados maiores do Estados Unidos da América e do poder islâmico não são flor que se cheire mas, meu Deus, porque têm sempre de ser os mais pequenos e desmunidos a pagar? [Read more…]

Quem com menos faz mais…

 

Foi assim em Braga esta noite. A organização (Braga 2012 CEJ) esperava umas 20 a 30 mil pessoas. Eram os concertos (Buraka, The Gift e Mafalda Arnauth), eram oito zonas temáticas e era o terceiro momento do Festival do Norte (do TPNP) com teatro de rua. Para surpresa de todos, mesmo, foram mais de 80 mil pessoas e a Protecção Civil diz que este número é muito, mesmo muito conservador.

 

O comércio esteve aberto toda a noite e madrugada. Diversos estabelecimentos de hotelaria, situados um pouco por todo o centro histórico, tiveram de encerrar mais cedo pois tinham esgotado as refeições e o mesmo aconteceu com muitos bares e pontos de venda de bebidas com stoks esgotados. A afluência de público superou, largamente, a que se regista na noite de S. João, na Semana Santa ou mesmo na Braga Romana (e ainda por cima a chuva fez a sua tradicional aparição). Foram oito espaços temáticos envolvendo teatro, dança, música (fado, reggae, clássica, rock, pop, electrónica), multimédia e os 20 espectáculos de teatro, música e projecção multimédia do “Cidades Invisíveis” no âmbito do Festival do Norte. Foi assim, absolutamente arrasadora a Noite Branca da Capital Europeia da Juventude.

 

Uma nota final que diz muito sobre um tema que continua na agenda. Este evento único do Norte, por sinal o que mais gente juntou nas ruas, tirando o S. João do Porto, em 2012 (por agora) não contou com a presença da RTP que, segundo a mesma, não tinha ninguém na redação para fazer a cobertura. As privadas: SIC, TVI e Porto Canal, com menos de metade dos meios humanos e técnicos, estiveram presentes (já nem vou falar sobre a imprensa escrita ou as rádios, em força). Ou seja, com menos os privados fazem mais. A RTP, para não variar, com mais faz menos. Depois admiram-se com a privatização…  

 

Diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és

 Ferreira Fernandes escreveu hoje mais uma interessante crónica na revista Notícias Magazine: «A palavra mais palavra do mundo: palavra». Refere-se ao jornalista, membro do júri Goncourt e apresentador de programas de TV francês Bernard Pivot (1935), que se tornou, “durante décadas, uma das personagens mais poderosas de França”.

Num dos seus programas televisivos em que entrevistava gente famosa como Woody Allen, Pivot perguntava-lhes “qual a sua palavra preferida?”. Woody Allen, como não podia deixar de ser, respondeu: “Não posso dizer, a minha mãe pode estar a ver o programa”. Outros disseram «tendresse» (Giroud), «lumière» (Mastroianni), outro «concupiscência».

A tese de Pivot é: diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és. Revelamo-nos nas palavras que escolhemos. Não podemos resumir uma vida numa palavra, “mas buscando na memória, que está cheia de palavras, mesmo quem não quer ser escritor faz um belo livro”.

Há um ano atrás publicou-se o seu livro Les Mots de Ma Vie que, penso, não está editado para português (espero que o seja em breve).

Penso agora nos nossos políticos. Como eles se revelam naquilo que dizem… Político, diz-me as tuas palavras, dir-te-ei quem és.

E, já agora, caro leitor e leitora, qual a sua palavra preferida?

Ceuta nos primórdios da ocupação portuguesa

Ceuta 2

Vista de Ceuta a partir da Serra da Ximeira

A conquista de Ceuta em 1415 marca o início da expansão portuguesa em África e tem fortes motivações económicas e de estratégia local. Ceuta era nos inícios do século XV a grande ameaça aos navios portugueses e à costa do Algarve. Ponto estratégico para o domínio da navegação no estreito de Gibraltar, com uma situação geográfica que a tornava facilmente defensável, base da guerra de rapina de corsários e de apoio ao Reino de Granada, Ceuta era principalmente um importante entreposto comercial, que escoava para a Europa as mercadorias que chegavam do Oriente através das caravanas e “o porto da navegação que se fazia entre os dois mares”. (LOPES, 1989, pág. 10)

Para a sua conquista, D. João I utiliza uma armada de 270 navios e cerca de 30.000 homens. O ataque é cuidadosamente planeado e mantido no máximo secretismo, sendo precedido pelo envio de espiões que estudam meticulosamente as suas defesas e determinam os seus pontos fracos. “No dizer do seu cronista, Azurara, seis anos antes já D. João I se ocupava dela; mas seguramente se sabe que se trabalhava para ela desde 1412” (LOPES, 1989, pág. 5). Mas após a conquista a população abandona a cidade, e o bloqueio imposto pelo sultão de Fez inviabiliza o cultivo dos terrenos circundantes e o desvio das rotas comerciais para outros portos provoca o seu declínio.

“Ceuta tornou-se pouco mais do que uma grande e vazia cidade-fortaleza varrida pelo vento, com uma dispendiosa guarnição portuguesa que tinha que ser abastecida continuamente através do mar”. (LOPES, 1989, obra citada) [Read more…]

Finalmente fui ao arquipélago das Berlengas!

Assinalo no meu mapa de Portugal alguns dos locais visitados nestas férias: Peniche, a Berlenga, a praia da Consolação, a praia de S. Bernardino e outros.Que bem passados esses dois dias em Peniche, pequena cidade muralhada com pedras do século XVI, erguendo-se numa península onde o peixe e o vento são reis! Que o digam os surfistas que acorrem às suas praias. Peniche é, por isso, sinónimo de mar e barcos.

No Guia American Express (Portugal), descubro agora a foto do barco Cabo Avelar Pessoa que nos levou à Berlenga,12 km a poente da costa e a cerca de 30 a 40 minutos de Peniche. O nome do barco não me dizia nada até ler a placa em mármore que se encontra no Forte de S. João Baptista: “Homenagem da Escola do Exército ao Cabo António de Avelar Pessoa. Aqui neste local no ano de 1666 apenas com 28 soldados portugueses defrontou gloriosamente em luta épica a esquadra castelhana do Almirante Ibarra com 15 naus e 1500 homens. Do seu esforço valentia e patriotismo ficará eterno exemplo”.

A ilha principal, a Berlenga Grande, é irresistível. À medida que nos aproximamos (já tínhamos ganho a viagem ao ver meia dúzia de golfinhos!), avistamos o Forte mandado construir pelo rei D. João IV como posto de defesa do território português. Em 1847 foi abandonado, mas no século XX restaurou-se e reconverteu-se em pousada. Por ocasião da Revolução de Abril em 1974, de novo foi «esquecido». Graças à associação «Amigos das Berlengas», o Forte é hoje uma estalagem onde se pode pernoitar por bom preço. Imagino que é única a experiência de dormir ali: o silêncio e o bater do vento e das ondas do Atlântico!

Revejo cada foto que somos impelidos a fazer naquele encantador lugar: a pequena e deslumbrante praia do Carreiro; o descarregar do barco de bebidas, gelados, batatas e outros mantimentos para o único restaurante da Berlenga, o Mar e Sol, o farol, a gaivota em pose fotogénica entre centenas que vivem na Reserva, as coloridas tendas no Parque de Campismo, a paisagem composta pelo verde dos «chorões» e o Forte. Depois da caminhada de regresso à «aldeia dos Pescadores», recortada por breves paragens para beber um pouco de água e fotografar aquela beleza que desejámos «levar para casa», não resistimos ao banho. Soube tão bem.

Para terminar: a Ilha das Berlengas é Reserva Natural desde 1981 e a Unesco classificou-a como Reserva Mundial da Biosfera em Junho de 2011!Não adie por muito mais tempo este passeio fabuloso a uma linda ilha que é nossa!

(publicado no suplemento Fugas/Público, 8 /9/2012 e Dicas dos leitores Fugas)

 

 

 

 

Literacia não é para nós

Hoje no DN, a comissária europeia da Educação e Cultura, Androulla Vassiliou e Petra Laurentien (princesa dos Países Baixos), escrevem em conjunto sobre a Literacia (“precisamos de ser mais ambiciosos“).

Transcrevo parte do texto:

A literacia é essencial na vida moderna. Nas sociedades dominadas pela palavra escrita, é um requisito fundamental para os cidadãos de todas as idades. É crucial para a parentalidade, para conseguir e manter um emprego, ser um consumidor ativo, gerir a saúde e tirar partido do mundo digital.

Porém, quase 75 milhões de adultos não dispõem das competências básicas necessárias para funcionar plenamente em sociedade. A próxima geração não está em vias de melhorar esta situação.

(…) A situação em Portugal, embora seja melhor do que em muitos outros países da UE, não deve deixar margem para complacência.

(…) Os dados estatísticos atuais são maus augúrios para o futuro. As pessoas com um nível insuficiente de literacia têm menos probabilidades de completar os estudos, mais probabilidades de ficar desempregadas e de sofrer de problemas de saúde. As crianças cujos progenitores têm competências reduzidas nesse domínio são mais suscetíveis de ter dificuldades a nível da leitura.

(…) O investimento em serviços de educação de elevada qualidade é um dos melhores investimentos que os países podem efetuar.

(…) É necessário colmatar o fosso socioeconómico, causa principal dos problemas de literacia, garantindo serviços de educação de elevada qualidade a todos.

(…) Se existe uma mensagem importante a dirigir aos governos europeus é a de que precisamos de elevar as nossas aspirações. (…)

Isto não é para nós… não temos governos que invistam em educação como se tem visto; vivemos uma grave crise económica; e os nossos governos não aspiram a valores elevados.

Crapulices

Houve uma criatura que mentiu acerca do que Rui Ramos escreveu na “História de Portugal”. E, com base naquilo que Rui Ramos não escreveu, chamou-lhe “fascista” e outros insultos.

Margarida Bentes Penedo não identifica a criatura, não localiza onde lhe chamou fascista, nem especifica os restantes insultos.

Mente. São assim os defensores de Rui Ramos.

Tal como neste documentário da Nato sobre o Portugal  de 1956 onde aos 13m18s Salazar até vota. A ilustração perfeita do Portugal inventado por Rui Ramos e que tantos seguidores tem. Depois de mentirem cem vezes já Salazar salvou a pátria e Manuel Loff lhe chamou fascista. Ao Rui Ramos, é claro.

Via Quadro Preto Riscado a Giz

Alberto da Ponte: televisão e cerveja são produtos semelhantes

“Há uma grande proximidade entre o negócio da cerveja e o da televisão.” terá declarado Alberto da Ponte, ao tentar demonstrar que é indiferente vender cerveja ou gerir um canal público de televisão. “Em primeiro lugar, ambas podem contribuir para criar barriga e ambas estupidificam as pessoas, se consumidas em excesso. Por outro lado, o comércio de cerveja, em Portugal, é um serviço público, especialmente nas festas universitárias.”

Depois de terminar o seu mandato na RTP, e desejando dar novos usos à experiência de acabar com serviços públicos, Alberto da Ponte já terá manifestado o desejo de ser ministro da Educação, porque, segundo diz, a cerveja e a escola, no fundo, despertam-lhe a mesma vontade de engolir tudo de uma só vez.

Rui Ramos e Steven Weinberg

Não me pronunciarei sobre a polémica Manuel Loff/Rui Ramos. Ainda não li a História de Portugal de Rui Ramos, Bernardo de Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro.

Apenas assinalo, com satisfação, que o grande Steven Weinberg começa a fazer escola em Portugal. Pode ser que a doutrina pegue.

Finalmente, Fernando Rosas, quando me criticar, tente criticar-me por causa daquilo que eu escrevi e penso, não por causa daquilo que lhe dava jeito que eu escrevesse ou pensasse

Rui Ramos, no Público de hoje, p. 47.

[Read more…]

Lázaro

Há escritores, esses bons amigos, que nos abrem portas ou retiram pedras para o lado para vermos a luz, como o australiano Morris West (1916-1999), um dos romancistas “mais populares” do século XX:

Sempre me interroguei sobre Lázaro. Transpusera os portões da morte. Quereria regressar à vida? Agradeceu a Jesus Cristo por o trazer de volta? Que tipo de homem foi depois? Como foi que o mundo o viu? (Uma Visão Sublime, 1996)

(Ressureição de Lázaro, Rembrandt, 1630/31 )

A História de Rui Ramos desculpabiliza o Estado Novo?

Transcreve-se aqui um artigo de São José Almeida no Público que pode clarificar algumas coisas sobre a “polémica” do momento. Coloco aspas porque um dos lados nem um argumento utiliza: rodeado de gente das mais variadas profissões que não a de historiador do séc. XX, o contra-ataque não passa disso mesmo na forma mais baixa: Manuel Loff é acusado de ter escrito o que não escreveu. Transcrevo o artigo integralmente pela simples razão de que o Público se esquece dos seus próprios arquivos, e da pertinência de colocar online (já para não falar em republicar na edição em papel) aquilo que sem dúvida é seu. Ora nem esta edição do jornal (31-05-2010) está à venda, nem no séc. XXI faz sentido ir a uma hemeroteca procurá-lo.

A História de Rui Ramos desculpabiliza o Estado Novo?

Rui Ramos lamenta que em Portugal a História seja vista “a preto e branco, ou esquerda ou direita”. E que se conviva mal com diferentes interpretações do passado. Mas outros historiadores vêem na mais recente História de Portugal, coordenada por este autor, um discurso que desculpabiliza o Estado Novo e diaboliza a I República. Há mesmo quem fale em “legitimação” do regime de Salazar. E quem acuse esta História de ignorar a violência daqueles anos.

Por São José Almeida [Read more…]

A 25ª Hora

THE 25TH HOUR DVD ANTHONY QUINN VIRNA LISI MICHAEL REDGRAVE HENRI VERNEUIL R2 25Vinte anos depois da sua morte, reencontro A 25ª Hora (1949), a mais conhecida obra de C. Virgil Gheorghiu (1916-1992) e provavelmente indisponível nas livrarias…

O jornal The New York Times escreveu:  “who denounced Nazism and Communism in a best-selling novel, “The 25th Hour”.

Transcrevo algumas frases da edição que tenho da Difel, traduzida por Vitorino Nemésio e cujo prefácio é dedicado a Aldous Huxley!:

– Não haverá homem livre à superfície do Globo – disse Traian.

– Definharemos então, sem culpa, nas prisões? -perguntou o delegado.

(…)

Mas não aceito que outros, a não ser eu, me indiquem a maneira como devo viver – e que julgam melhor – e me obriguem a conformar-me com ela. A minha vida é minha. A minha vida não pertence nem ao kolkhose, nem à comunidade, nem ao comissário político. Portanto, tenho o direito de a viver do modo que eu próprio houver escolhido. (…) E recuso-me a viver esta vida à moda soviética. Aqui está porque me mato.

Nora pôs-se a chorar. Traian continuava a atar a corda. Nora segurava com firmeza a outra ponta. (…) A melhor ocasião para nos evadirmos há-se ser quando as sentinelas russas renderem as americanas. (…)

Às seis horas da tarde mandaram sair Traian e Nora da sua cela e meteram-nos num camião americano com outros detidos.

(…)

Em 1967 foi adaptado ao cinema por Carlo Ponti  e com a participação de Anthony Quinn e Serge Reggiani (no papel de Traian).

O cardeal que discutia com Deus

Morreu, no passado dia 31, o cardeal Carlo Maria Martini (1927-2012), arcebispo de Milão.Transcrevo um excerto do texto de António Marujo, publicado hoje no Pùblico:

Depois de discutir muitas coisas com Deus e com a própria Igreja, onde chegou a cardeal. Por exemplo, sobre alguns impasses do catolicismo: “Como bispo, perguntei frequentemente a Deus: porque não nos dás ideias melhores, porque não nos fazes mais fortes no amor, mais corajosos ao lidar com as questões actuais?” Que questões são essas? Problemas de ética e moral (divorciados, homossexualidade, preservativo e contracepção) ou de disciplina eclesiástica (ordenação de homens casados,celibato, ordenação de mulheres) mereciam do cardeal observações divergentes da doutrina — ou do tom — oficial da Igreja. Na última entrevista concedida por Martini (…) o cardeal dizia: “A Igreja está cansada. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e o aparelho burocrático alarga-se. Os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos.” Mais à frente, concretizava: “A Igreja deve admitir os seus erros e encetar uma reforma radical, começando pelo Papa e pelos bispos“. (…)

Dizia ainda que “A Igreja está atrasada 200 anos. Teremos nós medo? Medo em vez de coragem? A fé, a confiança, a coragem são os fundamentos da Igreja.” (…)  “Só o amor pode vencer a fadiga. (…) Na Igreja de hoje, vejo tantas cinzas que escondem as brasas que me sinto muitas vezes preso de um sentimento de impotência.

(…) a sua voz era respeitadíssima.

(…) Entre as dezenas de livros que publicou (…) destaca-se Em que Crê Quem Não Crê, um debate com o escritor e filósofo Umberto Eco.

Sobre a morte: “Talvez ao morrer alguém segure a minha mão. Desejo nesse momento poder rezar. Durante toda uma vida reflecti sobre Deus e sobre o além; neste momento não sei nada; a não ser que eu próprio na morte também me sinto acolhido. Isto é também a minha esperança.”

Um grande texto do grande escritor Mário de Carvalho

Mário de Carvalho, o escritor português vivo que mais habita as minhas estantes, publicou no Facebook um texto sobre a memória e sua ausência. Ali mesmo alguns comentam que isto não era nada assim. A sério. Rui Ramos tem seguidores.

Denegação por Anáfora Merencória

“Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». [Read more…]

Antigamente, as pessoas eram menos súbitas

Quando andava a estudar na Universidade (Aveiro), tinha a mania de fotocopiar as páginas mais marcantes de livros que ia descobrindo na maravilhosa biblioteca da instituição e outras municipais…

Hoje encontrei uma cópias de textos avulso. Cópias com mais de 15 anos! Partilho esta jóia de Pedro Alvim, um texto publicado, por certo, no Diário de Lisboa em 11 de Outubro de 1988. Ainda vou confirmar ou talvez o leitor (diga-me se descobrir).

Antigamente, as pessoas eram mais demoradas. Diziam as palavras sílaba a sílaba, sorriam com vírgulas, mostravam nos dentes um ponto de interrogação à laia de uma flor. Quer isto dizer que não faziam uma pergunta exigindo de imediato uma resposta. Esperavam esbeltas no tempo, os olhos isentos de qualquer desafio …

Hoje, não. Hoje não nos sabemos demorar (…) nas margens desta ou daquela situação. 

Se alguém nos acena, quase que não lhe podemos acenar. Se alguém nos mostra um objecto que o deslumbrou, só do objecto conseguimos apreender unicamente o resquício. Se alguém se lamenta de um morto querido, nem o nome do morto nós ouvimos…

(…) perdemos a noção da existência de um tempo descontínuo, de encontros vagarosos, de festa, de entendimento. Vivemos um tempo em linha recta, súbito (…)

Estamos em fuga, ultrapassamos todos os possíveis encontros – e cada vez, embora de muitas coisas acompanhados, nos sentimos mais sós uns dos outros. Sem nos apercebermos, vamos tendo o deserto à nossa frente.

Antigamente, pois, as pessoas eram menos súbitas … e porque eram a noite e o dia, e tinham dentro de si uma longa tarde, lentas se davam, lentas sorriam, e lentas (uma a uma) entardeciam.

Deste texto, descobri um excerto num só blogue.

Pedro Alvim…

Interlúdio musical

da página facebook Este Senhor

Morreu Emmanuel Nunes

Emanuel NunesMuitos não saberão quem foi, é natural.

O DN escreveu «Morreu o artista mais corajoso». Ele é (só) considerado o compositor português mais relevante da música contemporânea dos últimos 50 anos. António Pinho Vargas testemunhou: “Desapareceu um artista insigne”.

Emmanuel Nunes morreu em Paris aos 71 anos onde viveu grande parte da sua vida. Privou () com Stockhausen, Luciano Berio, Henri Pousseur e outros maiores da História da Música.

Foi um valente. Sofria de uma doença neuromotora congénita, “o que faz da sua vida e do que alcançou uma afirmação de força vital e uma permanente vitória face às adversidades genéticas”.

 «Morreu um dos maiores nomes da música erudita”. Português.

Ignorância e sabedoria

“Ninguém é tão ignorante que não tenha algo a ensinar. Ninguém é tão sábio que não tenha

algo a aprender” Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês

 

 

A Lua

Fernando Pessoa
A Lua (dizem os Ingleses)

A Lua (dizem os Ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De… não sei se é desejar.

Sim, todos os meus desejos
São de estar sentir pensando…
A Lua (dizem os Ingleses)
É azul de quando em quando.
14-11-1931
Poesias Inéditas (1930-1935).

31 de Agosto ou recomeçar de novo

Recomeçar de novo… sempre gostei desta frase.

O realizador Joachim Trier (1974) coloca-a em questão no seu filme Oslo, 31 de Agosto que deve estar a estrear por estes dias: esta é a história de um homem novo, 34 anos, que se pergunta se ainda é possível recomeçar de novo.

J.T. pergunta ainda: «Tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?»

Porque é que não somos felizes, não obstante termos vidas confortáveis?

As críticas são muitas boas. Talvez seja uma boa sugestão para Sair de casa!

Agora que acabaram as férias e voltamos ao trabalho, recomeçamos de novo, de certa forma.

Mas há outros recomeços importantes a implementar… É positivo termos este sentimento de que nos são dadas outras oportunidades…

E outra coisa: «a obrigação de sermos felizes»…

O Arredas Começa Hoje

O Folk Fest do vale do Neiva começa hoje! E pode ir de comboio!

Eu sou RTP

A “questão” RTP é comigo! Eu sou RTP!

E por isso partilho um texto que Roma de Oliveira publicou no seu Facebook:

“Faz esta semana 13 anos que trabalho na RTP. Já tive uma boa dose de lutas, e mais terei. Mas a que travamos agora, todos juntos, faz-me vir aqui partilhar o que penso. Leio e ouço muitas opiniões acerca do nosso grupo audiovisual. Grande parte delas em resultado da tremenda ignorância da nossa sociedade relativamente às inúmeras funções da RTP, enquanto serviço público.

Assim, e porque sou pragmática, vou elencar apenas algumas dessas funções. Para que se perceba porque é que a RTP é muitíssimo mais do que um canal de televisão:

A Rádio e Televisão de Portugal:

Porque amamos o nosso país

a mais bonita praia portuguesa... que eu conheçoTodas as críticas que diariamente fazemos ao que vimos, lemos, ouvimos e vivemos em consequência das erradas decisões políticas dos nossos governantes, só se explicam porque nos importamos com o nosso país.

Queremos vê-lo bem tratado, respeitado, governado por gente portuguesa de coração e não só por ter nascido em território português…

Queremos políticos que não procurem boicotar o que de melhor se faz e se tem em Portugal (às vezes parece que assim é)…

Chega de mudar, quando mudar é para pior.

Este país seria um paraíso, a “ideia acabada de uma lua-de-mel” como se lê no Guia Turístico da Europa editado pelo Touring Service da BP de 1960, se os nossos sucessivos governos não nos deixassem deprimidos como já são conhecidos os portugueses…

Esse tal Guia continua a dizer verdade sobre este “país ensolarado, com uma vegetação luxuriante, um clima único, e um charme tão poderoso que até os postais ficam aquém da verdade. (…) estradas excelentes, palácios magníficos, pessoas sempre prontas a desfrutar da vida, refeições que fazem salivar por antecipação, praias lendárias”.

Não destruam este país que amamos.

(Foto: David Gamanho, que considera aquela praia da Berlenga a mais bonita que conhece. Eu também acho…)

Mães africanas

É uma delícia…
Os filhos bem juntinho à mãe que trabalha. Muitas vezes eles dormem ao «som» do trabalho que ela faz e do ambiente que a ambos cerca, no sobe e desce do corpo de sua mãe.
Isto não é pensável no nosso continente. Mas se eu pudesse tê-los, senão às costas deste jeito enquanto são pequeninos, pelos menos debaixo do mesmo tecto para puder dar uma espreitadela e um beijo ao longo do dia!