Chá das divorciadas

“There’s always free cheddar in a mousetrap, baby” – Tom Waits

Se acreditam na felicidade conjugal vêm cá um dia e isso passa-vos num instante. Quando quiserem, é melhor não terem pressa, a gente deve acreditar nas coisas enquanto pode. A esta hora chegam as ex-mulheres dos jogadores de futebol, entretanto trocadas por uma modelo de pernas compridas e 15 anos a menos, as empresárias que saem do escritório ao início da tarde para uma reunião e já não regressam, as reformadas, as amantes. Olham de alto a baixo umas para as outras mas por hábito, já sem espírito competitivo. Folheiam revistas para arranjar ideias para o próximo corte de cabelo ou para a próxima cor de verniz – “olha, esta é gira, tenho um vestido desta cor”.

A esta hora, com o sol em declínio a pousar-lhes no tom acobreado do cabelo, as unhas cor-de-rosa e a blusa de renda negra, tanto podem ser contabilistas como donas de um bordel. Mas o que impressiona, de verdade, é a descrença nos homens. [Read more…]

A iliteracia vista por uma princesa

“Um em cada cinco europeus tem dificuldade em ler o mundo. Frase escolhida para título de um relatório sobre literacia na União Europeia. E a princesa Laurentien da Holanda, que liderou os peritos, não se conforma. “É preciso agir já”, diz. Os europeus de que se fala têm 15 anos (Público).

Transcrevo um excerto das declarações da Princesa ao jornal Público:  ” (…) a Europa se ter deixado chegar a estes níveis “inesperados” de iliteracia. (…) O mesmo se passa com quem não sabe ler ou lê mal. Tem vergonha, esconde-se, torna-se insegura e desconfiada. Não quero isso para ninguém.”

Ela tem razão e há que agir no sentido de elevar os níveis de literacia, mas conheço homens e mulheres que não puderam aprender a ler e a escrever e que, ao contrário do que diz a princesa, não são nada inseguros, desconfiados ou envergonhados… pelo contrário, e têm muito para contar! A sua leitura do mundo devia ser mais ouvida. Mostra-me até que sou ignorante.

Ler o mundo” –  é difícil ler este mundo. Não há literacia que nos valha.

A jogadora

Vemo-las sempre juntas. A viúva do senhor Correia – que há-de ter outro nome, mas que será sempre a viúva do senhor Correia, que morreu já ninguém se lembra há quanto tempo – e a Elisa. A viúva anda já um pouco vergada mas ainda se aguenta nas pernas magras; a Elisa caminha muito devagar, com os passinhos miúdos que as pernas curtas lhe permitem, mas com uma ligeireza que não mostra o quanto lhe custa cada passo. Saem à rua todos os dias, faça o tempo que fizer. A viúva do senhor Correia com um saia-casaco impecável, um risco trémulo à volta dos olhos e o cabelo bem apanhado. A Elisa já não tem o viço de antes, já saciou a curiosidade que tinha do mundo ou este deixou de surpreendê-la. Cansa-se muito, quase sempre tem de regressar a casa ao colo da viúva do senhor Correia. [Read more…]

«Publique finalmente o seu livro»

Quem nunca desejou escrever um livro?

Depois de escrito, ninguém o quer numa gaveta. Ninguém escreve só para si. Procura-se uma editora interessada, mas é preciso investir bastante dinheiro.

Agora está na moda o self-publishing. Vivemos a «época de sucesso» da auto-publicação. Não faltam editoras online, que surgem como cogumelos na net, atractivas, como a Bubok.pt ou a Sítio do Livro. São irresistíveis os seus slogans: «Quer publicar um livro?», «Realiza um sonho. Publicque finalmente o seu livro».

E. L. James é um fenómeno editoral. Já vendeu mais de 40 milhões em todo o mundo. A escritora britânica, de romance erótico, começou sem editor, recorrendo à auto-publicação.

Na Feira do Livro de Frankfurt, último dia, James é tema de conversa. Neste certame, encontram-se à venda muitos livros de autores que fizeram sucesso no self-publishing.

Não deixe de sonhar em escrever um livro. Agora é mais fácil: existem todos os meios para a auto-publicação e promoção do seu livro.

Não estou a ser irónica. Eu mesma estou a pensar, seriamente, em auto-publicar…

O gramonofe

Pode um gramonofe fazer um post?

Pode uma coisa que não existe dar num post?

A palavra não me sai da cabeça, desde que a vi e li (e reli) pela primeira vez na página 100 (mas que pontaria) de Os Funerais da Mamã Grande (1962) de Gabriel García Márquez, numa tradução de Luís Nazaré e com revisão de Susana Baeta, Dom Quixote.

– Vamos lá, sê honesta com os leitores do Aventar… Sabes muito bem que foi apenas uma troca de letras. A revisora deixou passar «gramofone» não, enganei-me, «gramonofe» por «gramofone»:

Arriscou-se a olhá-la no instante em que dava corda ao gramonofe. (…) Dava corda ao gramofone, mas a sua vida estava fixa nele.

Um autor e o leitor deviam pedir uma indemnização por cada letra fora do seu lugar!

Mais à frente, agora mais atenta às pedras do caminho, outra calinada (página 106): [Read more…]

Que se lixe a troika – Manifestação cultural no Porto

Há mais, sim senhor!

Porto – Sábado, 13 de outubro, às 17h na Praça D. João I (em frente ao Rivoli).

Com base no FACE, o cartaz está em actualização permanente.

Dou por mim muitas vezes a pensar o que, dos nossos dias, vai ficar nos livros de história. Daqui a 500 anos o que vão dizer os livros sobre os primeiros anos do século XXI?

Gosto de pensar que vão falar de cultura, essa coisa supérflua  que a TROIKA me quer roubar. E como acredito nisso, porque sou um trabalhador da CULTURA, Não vou deixar que esse roubo aconteça!

postal de uma cidade que poderia ser Coimbra

Catalogamos as coisas pelo pouco que vimos delas, ou pelo que intuímos. Por isso, para mim, e embora nada tenha a ver com o que dela se conta, Coimbra é uma cidade exótica e descarada. Imagino que estes homens de pele tão morena que vieram abrir uma mercearia nestas ruelas podem ser descendentes dos mercadores de Samarkanda, a cidade onde até a morte se passeia pelo mercado. Ruelas de mercearias que podiam ser bazares, a transbordar laranjas e tecidos para a rua. Largo da Maracha, rua das Azeiteiras, rua do Almoxarife, beco dos Esteireiros, travessa dos Gatos.

Um senhorio velhote, invariavelmente chamado sr. Marques, conduz-nos pelo labirinto de ruas até ao prédio em ruínas que o seu pai lhe deixou, para mostrar-nos a casa sombria, com lixo amontado aos cantos, portadas de madeira carunchosas na janela, uma cama onde morreram gerações, uma banheira onde corre um rio de cobre.  Tem orgulho na casa e pede um bom dinheiro por ela. Que ninguém lhe diga que a casa é velha e suja, que a humidade alastra nas paredes e que há um cheiro a bafio que nos deixa nauseados.  Para os senhorios de Coimbra, os tais homens chamados Sr. Marques, que têm montado um “escritório de papelada” ou se dedicam à venda de atoalhados, nenhuma casa se compara à que têm para alugar e nenhuma cidade supera Coimbra. [Read more…]

É o que dá fecharem os manicómios

Alice Vieira no Facebook:

Estou a pensar que gostava muito de saber quem são os energúmenos que escolhem os livros para o Plano Nacional de Leitura!!! Acabei de ver que o meu livro de poesia (poesia de amor, PARA ADULTOS!!!!) chamado “O Que Dói às Aves” está aconselhado para…o 2º ano!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Que é que eu, como autora, posso fazer? Retirar o livro do mercado? Dizer que proíbo? Mas essa gente leu alguma coisa do livro para lá do título? Será que pensam que são histórias de pintainhos?????

Tomemos esta valsa

                                                     Foto: Nuno Ferreira Santos

Por estes dias, quase nos sentimos obrigados a pedir desculpa quando vimos falar do prazer. Em tempos difíceis, há um olhar severo (muitas vezes o nosso) sobre aqueles que escolhem falar de coisas tão etéreas como canções. Mas os nossos corações não pulsam ao compasso histérico dos mercados, e aos nossos corpos não basta o feijão com arroz da sobrevivência. E é, afinal, nos tempos de sombra que fazem mais falta os faróis, por muito escassa que se revele a sua cintilação.

Tudo isto – como a gente se sente obrigada a justificar-se – para dizer que, ontem à noite, um trovador antigo, um profeta irónico, um monge zen, um homem do mundo, chamado Leonard Cohen esteve em Lisboa. Já escrevi outras vezes sobre ele, trago versos seus nos meus bolsos, como se fossem fragmentos de mapas, e por vezes até tenho a ilusão de que sou eu, com tantos outros como eu, que o mantemos vivo e que o alentamos na sua luminosa velhice, para que fique um pouco mais connosco. [Read more…]

Património na sucata

Leio no Público de hoje o que é tipicamente português: o abandono do património.

Estão abandonadas seis máquinas (locomotivas a vapor) na estação de Gaia: há 40 an0s expostas aos elementos.

Estes veículos fizeram história. Duas delas, dos anos 20, foram entregues a Portugal como indemnização da I Grande Guerra. Outra foi construída na Suiça em 1916 e circulou em praticamente todas as linhas de Portugal. Estes 3 exemplares arriscam-se a “rumar à sucata”.

Ou temos que esperar que venham mais uma vez os holandeses para nos restaurar as locomotivas? Em 2010 recuperaram o Comboio Real para o exibir com toda a admiração em Utreque, tendo sido vedeta no respectivo museu ferroviário numa exposição que decorreu em Setembro daquele ano e onde se puderam apreciar carruagens reais de toda a Europa.

Um país sem língua

O texto de Inês Pedrosa já tem uns dias, mas o Latim tem mais tempo e não perde importância por causa disso.

Tal como os programas de Português estão gizados, é possível à maioria dos alunos percorrer doze anos de escolaridade e ficar sem conhecer marcos fundamentais da cultura ocidental (com tudo o que contém de oriental, é preciso não esquecê-lo). Assim, não é aceitável que os jovens portugueses desconheçam a existência de Cícero, de Marcial ou de Santo Agostinho. [Read more…]

Fotógrafos portugueses

 

Luís Pavão [Sugira outros nos comentários]

Arquitectura e Música

Hoje celebra-se não só o Dia Mundial da Música, como também o Dia Mundial da Arquitectura (este celebrado anualmente a cada primeira segunda-feira de Outubro). (A Norte, Outubro é novamente o mês da arquitectura.)

Música e Arquitectura juntas. Uma coincidência?

Goëthe, Santo Agostinho e outros não as viam unidas por acaso. É do primeiro a célebre frase “a arquitectura é música congelada” e, quanto ao Bispo de Hipona, considerava-as artes irmãs, porque ambas são «filhas» dos números.

Raul Lino (1879-1974), tido um dos arquitectos portugueses mais musicais, foi buscar inspiração aos autores que referi. Em 1947 escreveu um pequeno estudo que intitulou de Quatro Palavras Sobre Arquitectura e Música e onde é evidente o seu amor pela arte dos sons. Foi a partir deste parentesco ou das relações e analogias entre Arquitectura e Música na História da Arte (tema interessantíssimo) que me nasceu a ideia de fazer um trabalho de investigação no âmbito do curso de mestrado.

A tese está editada pela FAUP e pode ser adquirida na Fnac: Arquitectura, Música e Acústica no Portugal Contemporâneo (2011).

Dia Mundial da Música

Sou suspeita…

A Música é minha companheira desde os seis ou sete anos. Não me lembro de a ter antes. Num piano de cauda de brincar feito de plástico e pernas de madeira que a minha mãe tinha à venda na mercearia, eu tocava os primeiros sons. De tanto uso, conquistei o Piano: a minha mãe não o vendeu. Hoje, procuro que a música seja também a companheira para a vida dos meninos e meninas que aprendem Piano comigo.

A Música é uma excelente companhia, seja ouvindo, seja fazendo-a.

Mas está demonstrado que, para além do prazer que se tira, a Música contribui para o nosso bem-estar físico: “mexe com a totalidade do ser humano”.  Um determinado trecho musical pode, ao nível físico, “alterar o ritmo cardíaco e respiratório, a pressão sanguínea, a produção hormonal, as ondas cerebrais, tendo até resultados sobre o sistema cognitivo”.  [Read more…]

Outubro

October and the trees are stripped bare
Of all they wear.
What do I care?

October and kingdoms rise
And kingdoms fall
But you go on
And on.

byU2

Assembleia da República cercada

Dezenas de soldadinhos de chumbo estão a ser colados no chão e em pequenos rádios ouvem-se crianças a falar de sonhos, em frente à Assembleia da República. Obra do Colectivo Negativo, a Arte também na Rua.

Imagem e notícia roubadas no Facebook

O blasfemo e o herege

Vamos lá ver se eu percebo isto…

No próximo dia 30, pelos vistos, alguns ou muitos irão reclamar o direito à blasfémia.

Um deles é, seguramente, Salman Rushdie, “homem sem fé, blasfemo aos olhos do Islão, reclama para si o «direito à blasfémia»”. Volta a entrar em cena com o lançamento do seu novo livro, autobiográfico, Joseph Anton.

O blasfemo diz blasfémias. A blasfémia, por seu turno, é “toda a palavra ou atitude injuriosa contra Deus, a Santíssima Trindade ou os Santos; atribuição de defeitos a Deus ou negação de qualquer dos Seus atributos”.

Algumas blasfémias para o Islão: representar o profeta, associar o profeta ao demónio, tornando-o seu emissário, “como acontece em Os Versículos Satânicos“, entre outras.

Ora o herege é “o cristão baptizado que, de modo pertinaz, nega ou põe em dúvida algumas das verdades da fé católica”.

Ora o meu dicionário de Sinónimos diz que blasfemo e herege são sinónimos… Estou a ficar confusa.

Na minha humilde opinião, o herege – teimoso, obstinado, tenaz – parece-me (parece-me) mais confiável. Digo isto pensando em Nicolau Copérnico, por exemplo. [Read more…]

É amanhã

Sábado, 29 Setembro 2012, às 15H na Rua do Ferraz 22 – Porto, pelo José Magalhães

O Acordo Ortográfico através do monóculo

Ega entalara vivamente o monóculo para examinar esse lendário tio do Dâmaso…

– Eça, Os Maias

A edição de Outubro da revista internacional Monocle foi amplamente divulgada pela comunicação social portuguesa. Segundo a Fugas, trata-se duma “publicação mensal de culto para muitos e a marcar tendências em todo o mundo desde 2007 “. Confesso que nunca tinha comprado esta revista e só o tema de capa me levaria a adquiri-la. Como esta edição estava à venda no quiosque do Parlamento Europeu, acabou por vir para casa.

Vejamos com atenção aquilo que nesta publicação a marcar tendências em todo o mundo desde 2007 se pensa sobre Portugal, no contexto da língua portuguesa e do Acordo Ortográfico de 1990.

Aguardemos igualmente por uma reacção de Carlos Reis, pois é evidente que o senhor Steve Bloomfield, além de  “uma concepção da Língua Portuguesa como património exclusivo dos portugueses”, tem “um complexo”, “traumas por resolver” e “o medo das ‘cedências’”. Obviamente que as leituras de artigos do Dr. Santana Lopes e de entrevistas do Dr. Pinto Ribeiro terão ajudado ao arranque em falso. O Dr. Carlos Reis que explique, quando reagir ao artigo.

Once upon a time, the Portuguese spelt the word “fact” F-A-C-T-O. The Brazilian spelt it F-A-T-O. It was one of many words that had changed in the journey across the Atlantic.
Yet the influence of Brazilian popular culture has become so pervasive from Porto to Lisbon that most young people use some form of Brazilian Portuguese – and now it has become formalized. An orthographic agreement between the two countries has seen Portugal accept a whole raft of Brazilian spellings.
There are many ways to highlight Portugal’s relative decline and the meteoric rise of Brazil and, to a certain extent, Angola. Hundreds of thousands of Portuguese have moved to to other Lusophone countries (see page 037); Angola is now investing billions of oil-fuelled dollars in Portugal. But few factors sum it up as perfectly as the language changes. Imagine the UK agreeing to spell “centre” the American way

– Steve Bloomfield, “Something in common”, Monocle, Issue 57 , volume 06 , October 2012, p. 33

A cultura também se exporta

Em meados de Julho passado, foi levada a cena na Casa do Vinhal, em Vila Nova de Famalicão, uma peça de teatro dedicada a José de Azevedo e Menezes, ilustre famalicense cuja vida e obra tive oportunidade de estudar para redigir a dramaturgia.

A peça foi representada pelo grupo de teatro “O Andaime” que é composto por jovens estudantes e dirigido por Fernando Silvestre (direcção, encenação e voz-off), com música duma orquestra da “Arteduca” dirigida por Gil Teixeira,  tendo a produção, no âmbito do projecto “Viver Famalicão”, ficado a cargo da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, entidade promotora da iniciativa que, espera-se, irá repetir por outras ilustres casas famalicenses. É, também, por todos os envolvidos, um belo exemplo do que se pode fazer com amor e paixão à arte.

Ora, da peça de teatro, faz parte uma curta-metragem com os personagens José de Azevedo e Menezes, Vicente Pinheiro (da Casa de Pindela) e Bernardino Machado, cuja acção decorre durante as suas juventudes (1868). Foi realizada por Paulo Lima, que este ano foi estudar cinema para Barcelona e cujos trabalhos, como aquele de ora falo e outros (que aqui voltarei para falar), demonstram já o quanto promete. Aqui está ela:

À atenção do ministro Álvaro


O design da Pastelaria Semi-Industrial Portuguesa

via Tiago do 5 Dias

A revista Colóquio agora online

Colóquio, Revista de Artes e Letras disponível online a partir de dia 24 Set 2012

A partir de hoje, a Colóquio, Revista de Artes e Letras (1959-1970) editada pela F.C.G., está acessível a todos em versão digital.

Uma boa notícia no dia em que  se inicia uma semana de luta pela Cultura, uma organização do Movimento de Defesa da Cultura.

Acorrei que matam a Cultura

Vai haver «peixeirada» ou insulto, porque é este o estado a que a Cultura chegou em Portugal, dizem os organizadores desta semana que se pretende de luta pelo sector.

Destinar 1% do Orçamento de Estado para a Cultura é um insulto e isso não se percebe num país civilizado, ou que se espera civilizado, disse Pedro Penilo à Antena 2 esta manhã.

O Manifesto em Defesa da Cultura, redigido pelo Movimento em Defesa da Cultura, é um documento contra  as medidas impostas pela “troika” e para exigir aumento do investimento público no sector.

Não aceitam o discurso da crise. Vão fazer uma semana de luta pela cultura, a Cultura que em Portugal já nem merece Ministro nem lugar na mesa das decisões políticas.

Gabriel perdeu-se

É difícil aceitar. Já tinha ouvido qualquer coisa sobre o assunto. Como é possível?

Gabriel García Márquez não voltará a escrever

Um homem que viveu da e pela escrita…

Está vivo mas não escreve. É já a morte

Demência, disse o irmão, «mais um caso na família».

García Márquez perdeu a memória. O que teria escrito ainda?

Os leitores de Gabriel sofrem com ele.

Como eu o admiro.Ainda bem que escreveu, e como o fez, Gabriel. Nos seus livros encontramos a sua memória, a sua inteligência, tudo.

Abraço.

P.S.- Ironia: “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la”, lê-se na primeira página de Viver para contá-la (2002)

O medo entranhado na cabeça

Herta Müller (1953), Nobel da Literatura há 3 anos, passou por Lisboa para o lançamento do seu romance Já Então a Raposa Era o Caçador. A escritora romena que foi interrogada pela polícia secreta de Ceausescu, que foi ameaçada, que não gosta de fotografias porque estas a transportam para esse tempo terrível dos interrogatórios de muitas horas e com uma luz apontada à cara…

No romance referido, Herta tece “uma alegoria trágica de uma sociedade insana, manobrada e controlada pelos sábios mecanismos do medo por parte de um regime totalitário”.

Herta coloca bem algumas das nossas questões, como “O que vale a minha vida?”

Sobre o medo que a maioria de nós sente – nesta época, ainda mais e, neste país, sem dúvida – Herta testemunha:

Temos que conseguir lidar com o medo e cada um fá-lo à sua maneira, não conseguimos abandoná-lo (…) esse medo está em tudo o que faz parte da vida, tornou-se omnipresente e não se pode fugir dele.

Eu se me chamasse Rui Ramos pintava a cara de preto

Como cidadão pode ser o que quiser e entender, mas como historiador tem de seguir uma linha metodológica científica, mesmo na arte da divulgação. A menos que entenda que a História não é uma Ciência que procura a objectividade, mas uma pura ficção subjectiva que pode ser – utilizando as suas palavras – de “direita” ou de “esquerda”.

Reis Torgal sobre Rui Ramos, a ler o artigo completo, suave e absolutamente demolidor.

Movi.Kanti.Revo

A Google e o Cirquedusolei deram as mãos para uma criação única. Imperdível!

História de um rio

Quero contar-vos a história de um rio.
Era um rio novo, cheio de energia, capaz e mais que capaz de cavar olas no fundo de cada socalco fragoso. Era um rio límpido e cheio de vida, capaz e mais que capaz de distribuir águas a uso. Era um rio ativo, capaz e mais que capaz de se juntar a outros e fazer um rio maior, tão novo, tão límpido e tão ativo como todos os que lhe deram o ser.
Vem mover-me!, pediu a mó do moinho.

O rio disse que não. Que as suas águas não haveriam ser retidas por paredes de pedra, conduzidas por canais apertados e mais que isso, ceder a força das suas águas a umas pás de roda que não eram de sua natureza.
E nesta recusa seguiu o seu caminho cavando terras, polindo saltadoiros, lavando lajes escoando-se aqui e ali por agueiras e regueiros mínimos, desvios vários e sangradouros um pouco mais notados. Foi sugado por mangueiras e condutas ocasionais, ora aqui, ora ali, discretamente e sem aleijar, à medida de ir abastecendo canais e redes, na certeza e convicção da mais pura liberdade e de nunca ser um rio conduzido a um fim ou propósito.E de que se esqueceu este rio?

De que as suas águas, depois de se envolverem na certeza útil do movimento assinalado pelo som da “tramela” regressariam à antiga liberdade, tão enérgicas, límpidas e ativas com o já o eram.

A carta de Pedro Dias ao governo

Sendo um péssimo discípulo do Mestre, como entre alunos e antes de existirem mestrados o tratávamos, sempre tive muito orgulho em ter aprendido com Pedro Dias. Politicamente é outro filme, muito embora conheça o seu percurso político, da oposição antes de 74 ao PPD pouco depois. Homem honrado sempre o conheci:

Exmo. Senhor Doutor Rui Pereira

Muito Ilustre Chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Cultura

Venho, por este meio, manifestar a V. Exa. o meu desconforto pela situação que me foi criada, com os sucessivos adiamentos da minha saída da direcção da Biblioteca Nacional. Ficou claro, quando do surpreendente convite que me foi feito, que só o aceitaria, pelo período necessário que decorresse até à reabertura ao público da Biblioteca Nacional de Portugal. Acaba de passar um ano sobre essa data, em que, todo o espólio da instituição, fisicamente ou através de meios informáticos, voltou a estar disponível. Apesar dos meus apelos, e da minha renúncia formal, em 28 de Dezembro passado, não fui dispensado, acrescendo que, desde 1 de Abril último, por motivo da entrada em vigor da nova Lei Orgânica, me encontro em gestão corrente. Os prejuízos pessoais e familiares para mim são grandes, e do ponto de vista de saúde ainda pior.

Mais ainda, não só não me revejo na politica do Senhor Primeiro Ministro, como estou completamente contra ela, e não reconheço legitimidade ao Governo para se manter em funções, por ter renegado todas as promessas feitas ao eleitorado, e que constituem a base da sua legitimidade democrática.

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O Sacro e Pontifical Soares Falou Outra Vez

O monolítico burguês Mário Soares, o grande empedernido de todas as gulas, a grande caricatura da caricatura do socialismo, grande desgraça e pai de muitas, voltou a falar. Falara já ontem. E amanhã falará com o peso e a importância de um peido solene. [Pacheco Pereira, falhado e tortuoso político em quem ninguém votaria, é outro que de vez em quando também emite raivosamente]. Mas Soares tem mais peçonha. Décadas e décadas de boa vida só agora ameaçadas determinam que emita sinais de fumo e odores a corno queimado.

A sua tristeza e irresponsabilidade pronunciativas não poderiam ser maiores. Daí o passar para as palavras todo o anquilosamento moral acumulado nas carnes laicas. É como se agora nos quisesse descolonizar outra vez. Parasitariamente, para ele o dinheiro da Troyka aparece sempre. Por isso berra com a delicadeza, o sentido de Estado e a ponderação com que descolonizou África. Para que lhe fazem perguntas, meu Deus?! O inquieto e túrbido Soares está somente atormentado consigo mesmo nos proventos ameaçados e com a Fundação sujeita a um corte de 30% por parte do Governo Passos.

Mário, Vossa Antiguidade não consegue sofismá-lo. Vossa Autoridade aparece agora tão castigadoramente a pronunciar-se sobre o Governo Passos como se o Passado não pesasse. Como é que Vossa Sujidade só aparece agora como soberaníssimo desdenhador de uma governação? Como é que Vossa Pontifical Vestustade só anatemiza a Troyka e o Passos, com frases cortantes só dedicáveis a canalhas, a ditadores e a assassinos?!

A nossa obtusidade deve ser incomensurável para não perceber os rótulos que todos os dias comummente e burguesmente Vossa Anquilosada Senilidade apõe a este Governo afinal herdeiro de um outro, esse, sim, repleto de ladrões, de glutões, de incompetentes e comissionistas, como aliás foi e é Vossa Inefabilidade Furtiva. Mexe-se num privilégio de Vossa Endestésica Senhoria e logo sente por dentro mais fúria que a dos gatos por fora, quando lhes amarram campainhas ao rabo. Vossa Voracidade não tem uma palavrinha para qualificar os roubos e as devastações perpetrados pelos recentes anos socratistas-socialistas?! [Read more…]