Lettres de Paris #27

Marie, agricultrice, et son choix de ne pas se moderniser

Hoje não há fotografias, só uma de uma placa à entrada do portão do 105 (que é também o 101, onde se encontrava a placa) Boulevard Raspail, onde fica a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Por momentos e por ignorância pensei que a placa dissesse respeito exatamente aos estudos das ciências sociais, de um tempo passado e agradou-me logo aquilo dos ‘êtres organisés’. Claro que depois reparei melhor na placa e já não me pareceu tanto que tivesse a ver com as ciências sociais. Tem e não tem, afinal. Parece que antes de ser criada, em França, na Sorbonne, em 1888*, a ‘chaire’ se iria chamar Philosophie Biologique, mas por razões de designações científicas acabou por se chamar Évolution des Êtres Organisés e, claro, diz mais respeito às chamadas ciências da vida. Mas já não estamos em 1888 e sabemos já que embora sejamos êtres organisés biologiquement, somos igualmente êtres organisés socialment e que as duas dimensões, pelo menos, se entrecruzam de maneiras intrincadas e difíceis de separar.
 
Estava diante da placa ainda não eram 10 da manhã, imagine-se. Levantei-me antes das 8 e meia na Rue Suger. Porque tinha de estar na EHESS às 10 da manhã exatamente. Mas também porque aparentemente vão fazer obras no prédio em frente, e a rua é demasiado estreita, e hoje os homens a montarem os andaimes, parece que estavam dentro do meu estúdio. Impossível dormir portanto, de manhã. Adivinho já dias turbulentos, se as obras durarem muito. Seja como for, ali estava eu, hoje de manhã diante da placa da ‘Chaire’ de ‘Évolution des Êtres Organisés’. Fui assistir a um dos seminários ‘Ruralités Contemporaines’, organizados na EHESS por um grupo de cientistas sociais ‘ruralistes’ franceses. O seminário de hoje consistia na apresentação de um filme-documentário – ‘Marie, un engagement paysan’** – e da discussão em torno do que ele nos mostra. Os realizadores, Daniel Blanvillain et Alain Barthot, estavam presentes, assim como Marie, a pequena agricultora e produtora de queijo (especialmente de ovelha), com 4 vacas e 40 ovelhas, da região do Bourbonnais. As vacas e as ovelhas não estavam presentes, naturalmente. Estava lá também ‘du monde’, quero dizer umas 40 pessoas quase, todas mais velhas que eu, à exceção de uns 5 ou 6 estudantes. Estava lá um monte de gente de quem li muitas coisas: Bernadette Lizet, encantadora, Françoise Dubost, Aline Brochot (claro)… e uns quantos mais… um mundo de gente, portanto.
 

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O Público e os empatas

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Na primeira página do Público, podemos ler aquilo que está na imagem. Como sabemos, empatar na política ainda é mais feio do que no futebol ou na vida íntima de outros.

Se lermos apenas este título, que é o que fazemos muitas vezes, é evidente que a imagem da esquerda não ficará em bom estado, porque, aparentemente, não quer resolver determinados assuntos. Se a esquerda merece ter bom ou má imagem, poderemos discutir noutra altura, se não vos importais.

Se se quiser, apesar de tudo, pensar um bocadinho, levantar uma dúvida, poderemos perguntar-nos se este título será uma referência a toda a esquerda, PS incluído, ou se haverá algumas divisões.

Ao fazer essa coisa raríssima que é ler a reportagem, ficamos a saber que o PS recusou as propostas dos partidos de esquerda acerca da limitação dos salários dos reguladores, que o PS, ao contrário dos (outros) partidos de esquerda, quer diminuir paulatinamente o número de alunos por turma, que o PS não quer fazer alterações no mapa das freguesias antes das próximas eleições autárquicas, que o PS não quer resolver já muitas questões relacionadas com o sistema bancário ou com os offshores, que o PSD e o PCP não viabilizarão de imediato algumas medidas contra os maus tratos a animais, que há uma proposta do CDS acerca do envelhecimento activo que tarda em ser aprovada, que o PS anda a adiar uma resolução sobre o uso da produção nacional e regional nas cantinas públicas, e, enfim, que há um grupo de trabalho que tem a seu cargo dois diplomas do PCP e do BE acerca do regime jurídico da partilha de dados informáticos e dos direitos de autor. [Read more…]

Uma metáfora para Portugal

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Lisboa, Doca de Santo Amaro – (c) jml

Bilhete do Canadá – O que eles dizem

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PASSOS COELHO (a propósito da CGD) acusa governo de despudor, indignidade e total falta de ética. Esqueceu-se do imenso pudor com que se conduziu na Tecnoforma, na falta de pagamento de impostos por anos e na promoção escandalosa de Miguel Relvas. Anda tão esquecido que parece ter Alzheimer. Coitado, tão novo.

CRISTAS diz que “primeiro ministro não se pode esconder mais atrás de ministros e secretários de estado”. A rapariga anda a precisar de óculos. Quem se esconde, e atrás dela que tem farta saia, é o Portas caixeiro viajante pago ao quilómetro, o tal que diz que a ideologia mata os negócios. O Costa, com aquela largura toda, não tem onde se esconda. [Read more…]

Uma espécie de lista de passageiros com bilhete de ida e volta

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Pretender que um blog político precisa de ter políticos entre os seus autores, ou para melhor dizer,  “nomes do poder do costume que o jovem escriba já viu na televisão“, como refere o Paulo Guinote, é como dizer que um jornal só existe em papel. Quem rabisca em “jornais sem papel” deveria estar atento ao paradoxo.

O fim (não) está próximo

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A Geringonça, qualquer pessoa de bem sabia, não chegaria a acordo para o primeiro orçamento de Estado. Não duraria um mês um ano. Nunca se entenderia para um segundo orçamento. A implosão era inevitável. O drama, a tragédia e o horror espreitavam ao virar da esquina.

Portugal, que até ia ser uma das 10 economias mais competitivas do mundo se seguisse o caminho traçado por Passos, não tinha outra alternativa que não fosse apostar nos baixos salários. Na reversão de direitos laborais. Porém, sem que ninguém o pudesse antecipar, os custos do trabalho subiram mas o desemprego desceu. E continua a descer. E o salário mínimo continuará a aumentar.  [Read more…]

Imprensa portuguesa, esse antro de esquerdalhos

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Segunda a propaganda do velho regime, a imprensa portuguesa é de esquerda. Um antro marxista-leninista de interesses obscuros com vista à sovietização do país. Porém, no seio dessa imprensa de esquerda, da qual jornais como o Público são considerados autênticos baluartes, uma notícia que no tempo do outro senhor nunca passaria sem heróicas e emocionadas capas passou ao lado dos destaques da esmagadora maioria da imprensa nacional. Assistimos àquilo a que a página Os truques da imprensa portuguesa designa de Apagão Informativo. E porque é que isto acontece? Porque a imprensa é de esquerda, claro está.

Imagem via Os truques da imprensa portuguesa

Portugal, na liderança da segunda divisão europeia

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Profecias da desgraça e manipulações informativas à parte, o Orçamento de Estado para 2017 foi aprovado no Parlamento, pela tal geringonça que não duraria um mês, e recebeu posteriormente luz verde de Bruxelas, que até enfiou as sanções das quais já não nos livrávamos numa gaveta. E o Diabo que insiste em fazer a vida negra a Pedro Passos Coelho. [Read more…]

Lettres de Paris #26

«Paris a mon coeur…

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dès mon enfance. Je ne suis français que par cette grande cité. Grande surtout et incomparable en variété. La gloire de la France est l’un des plus nobles ornements du monde*» escreveu Montaigne.
Paris não tem o meu coração desde a minha infância. Mesmo porque a primeira vez que vi Paris já tinha mais de 20 anos. Mas é como se Paris tivesse o meu coração desde a minha infância. Pelo menos, neste momento, tem o meu coração desde que aqui cheguei há 26 dias. O tempo passa a correr e, na verdade, sinto que aproveitei pouco. É certo que estou aqui para trabalhar, mas não se trabalha 16 horas por dia (bom, às vezes sim, como é evidente) e, portanto, penso que poderia ter aproveitado (ainda) mais estes 26 dias que já passei aqui e estes 26 dias em que Paris tem o meu coração, como se fosse desde a minha infância.

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Nem a Volkswagen se mete com o Diabo. A Autoeuropa pode respirar de alívio

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A Volkswagen prepara-se para despedir 30 mil funcionários. Se os delírios da confusa e transtornada direita tivessem qualquer tipo de adesão à realidade, a decisão do grupo alemão teria forçosamente impacto na operação de Palmela. Se, como afirmou em tempos o apagado líder da oposição, investidor algum estivesse disposto a pôr o seu dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas, seria de esperar que a VW se preocupasse em reduzir o investimento nesta república soviética e que Autoeuropa fosse um dos alvos da anunciada reestruturação. Infelizmente, para os seguidores do culto profético da desgraça, claro, a Autoeuropa não será afectada pelos despedimentos que o gigante automóvel prepara. Aliás, o plano para recrutar entre 800 e 1300 novos trabalhadores mantém-se inalterado. Só pode ser coisa do Diabo.

Foto@Autoviva

O surrealismo da loucura na Caixa

PSD quer ver “o acordo” do Governo com a Caixa
O prazo dado pelo PSD já terminou. Agora o líder da bancada laranja acredita que existe mesmo um entendimento escrito entre o executivo e a administração da Caixa Geral de Depósitos.

CGD: Governo garante que não há documento que dispense declaração de rendimento
Governo garante à TSF que não existe um documento escrito que dispense a equipa de gestão de António Domingues de apresentar a declaração de rendimentos e património no Tribunal Constitucional.

Ultimatos e garantias. A Caixa Geral de Depósitos tornou-se num autêntico campo de batalha, com os guerrilheiros do PSD entrincheirados na única frente que lhes resta para fazer os estragos que o diabo não trouxe.

Mas se o governo está a conduzir este processo da nomeação de uma maneira completamente desastrosa, alguém em perfeito juízo acredita que esta forma de fazer oposição trará votos? A situação do banco público não é boa e a actuação da oposição tem por objectivo ainda a piorar mais. É a continuação da única estratégia que Passos Coelho teve enquanto líder da oposição, tanto no tempo de Sócrates, como agora com Costa: esperar que o pior chegue, para lhe abrir o caminho do poder.

Lettres de Paris #25

Un combat perdu

lembram-se de há uns dias ter dito que em frente ao Collège de France, nas escadas que se sobem a partir da Rue des Écoles estava escrito no chão ‘la sociologie est un sport de combat’? Nunca mais tinha passado naquele sítio desde esse dia. Hoje passei e olhando para o chão, vejo em frente a ‘combat’ a palavra ‘perdu’, a vermelho, seguida de vários pontos de exclamação. Fiquei a olhar para aquilo até que me resolvi a tirar uma fotografia. Fui até à esquina com a Rue Jean de Beauvais e depois subi a pequena Rue de Lanneau a pensar na palavra que acrecentaram á frase de Pierre Bourdieu. ‘Perdu!!!’. ‘Un combat perdu’, três pontos de exclamação. Creio que o autor da palavra a vermelho não estaria exatamente a pensar na sociologia, como área científica, mas no que ela permite revelar e no que os decisores podem (ou não podem) fazer com aquilo que o sociólogo revela. Aí darei razão ao autor do acrescento. A maior parte das vezes, apesar de tudo, também me parece que esse combate está perdido. Basta ver o que se passa à nossa volta, onde quer que nos encontremos. Nas grandes cidades, principalmente. Paris, como grande cidade que é, ou como conjunto de cidades que é, está cheia de mendigos e sem-abrigo. Já o disse de outras vezes, mas reparo cada vez mais neles ou serão eles que são cada vez mais.
 

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Quantos professores são necessários?

daviddinisDavid Dinis dá, hoje, professoralmente, as suas notas a agentes políticos, classificando com nota negativa o ministro da Educação, abaixo ainda de Passos Coelho.

Se Nuno Crato foi uma enorme desilusão, Tiago Rodrigues é apenas uma grande ilusão, sobretudo para muitos que são de esquerda. O facto de não estar a pensar rever medidas verdadeiramente danosas para a Educação é prova disso, mas o meu objectivo, agora, é escrever sobre  outros ilusionistas.

David Dinis, como qualquer neoliberóide-ignorante-atrevido, usa o seu desconhecimento e o fascínio pelas médias, para insinuar que não serão necessários mais professores. A linhagem a que pertence o actual director do Público gosta de dizer que o Ministério da Educação não tem de ser uma agência de empregos que garanta a contratação de todos os que possam e queiram ser professores.

Sendo isso um truísmo, a verdade é que o Ministério da Educação, com destaque para Nuno Crato, tem sido uma agência de desemprego ou, na melhor das hipóteses, um centro de ocupação para professores precários. Os últimos ministros que ocuparam a pasta não foram da Educação e sim do orçamento ou, mais propriamente, foram (e continuam a ser) agentes liquidatários de um sistema público fundamental num país civilizado. [Read more…]

Onde vai o Governo arranjar 6 euros para aumentar as pensões mínimas?

… Enquanto isso, o Governo anda aflito.
Onde é que irá buscar essa enormidade, esses 10 milhões de euros, que lhe permitirão aumentar de forma brutal as pensões mínimas em 6 euros?
Beneficiários de pensões mínimas, esses privilegiados que já foram aumentados na Legislatura anterior.
Obrigado PCP!

A Fenprof não aderiu?

A Função Pública hoje está a fazer greve

O rei vai nu – denuncia Piketty

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É posta deste modo a nu por Piketty a esquizofrenia e hipocrisia dos “tratados de comércio livre”, com especial referência ao CETA :

“Não deveriam ser assinados mais acordos internacionais que reduzam os direitos aduaneiros e outras barreiras comerciais sem que sejam incluídas medidas quantificadas e vinculativas para combater o dumping fiscal e climático nesses mesmos tratados. Por exemplo, poderiam conter taxas mínimas comuns de imposto sobre as sociedades e metas para as emissões de carbono que possam ser verificadas e sancionadas. Não é possível continuar a negociar tratados de comércio livre sem nada em troca. Deste ponto de vista, o CETA, o acordo de comércio livre UE-Canadá, deve ser rejeitado. É um tratado que pertence a outra era. Este tratado estritamente comercial não contém absolutamente nenhuma medida restritiva em matéria fiscal ou climática. Faz, porém, considerável referência à “protecção dos investidores”, permitindo às multinacionais processarem os estados em tribunais de arbitragem privados, contornando os tribunais públicos disponíveis para todos “.

Os nossos governos andam a brincar aos samurais contra o aquecimento global na cimeira do clima em Marraquexe, fazendo de conta que não notam – e atirando-nos muita areia para os olhos – que com os seus acordos de “comércio livre” promovem exactamente o oposto; e, da mesma assentada, fazem-nos reféns do grande capital. Como de parvos nos fazem!

Vale a pena saber como os deputados portugueses no Parlamento Europeu vão votar em relação ao CETA. Peça-lhes para votarem contra, aqui : https://www.nao-ao-ttip.pt/ceta-check/

Ficaremos assim também a saber qual é o conceito de democracia dos nossos eurodeputados, indicado pelo facto de responderem, ou não, aos cidadãos que legitimam a sua presença no PE.

O meu vencimento obsceno é melhor que o teu

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho (E), acompanhado pelo secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Monteiro, durante a visita à Associação Empresarial do Baixo Ave na Trofa, 31 Janeiro 2015. ESTELA SILVA / LUSA

Pois é, Jorge. O pessoal da telha envidraçada e a sua infinita cara-de-pau. Já quase ninguém se lembra dele. E sabes bem que passar despercebido é um talento valioso que poderá explicar em parte o salário que ganha. Que não é assim tão diferente daquilo que irá (?) auferir António Domingues mas que tem o condão de não levantar grandes discussões. Pelo menos mediáticas. Contudo, e apesar de pouco se saber sobre a venda do Novo Banco, Sérgio Monteiro já se encontra em funções desde Novembro do ano passado. Um ano. E, segundo noticia o Expresso, ficará pelo menos mais três meses até “concluir a venda”. A ver se desta é que é.

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Carta do Canadá – O Albertino

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Naquele tempo o Ti Xico Porto era o tesoureiro do Comando Geral da PSP, na Avenida António Augusto de Aguiar, e uma vez por semana eu ia almoçar com ele. Geralmente à sexta-feira e a seguir ao almoço íamos para Tomar gozar o fim-de-semana. Eram almoços reinadios, na messe, e tomávamos café um pouco acima, na mesma rua, mesmo em frente a um chalet arte nova, na esquina da Luís Bívar, se bem recordo, que exibia uma placa explicando que ali tinha vivido António José de Almeida, grande figura da 1ª República. Volta e meia aparecia o Albertino,   construtor civil feito a poder de baldes de cimento desde os 12 anos, porque o país era o que era e a vida é o que é. Gostava muito do Ti Xico e vinha quase sempre só para o ver  e se regalar no café com os amigos dele. Todos achavam piada ao Albertino e puxavam por ele, que era um meia leca magrote, esturricado, olhinhos matreiros de rato. E muito rico. Podre de rico. Abria a boca e dizia coisas espantosas. Inesquecíveis. Sentenciava, por exemplo, que os alquitetos mandam mais que os inginheiros.  Devia saber disso, porque era um gaioleiro desembaraçado que cirandava pela câmara e pelas ruas de Lisboa a impingir projectos, a fazer e vender casas. Tinha ideias claras. Os pretos, dizia, era para estarem em África e porrada neles que eram uma cambada de malandros. Uma ocasião, naquele café manhoso da Avenida Conde Valbom, que era o quartel-general dos empreiteiros, leu num jornal que a Inglaterra se propunha legalizar as uniões de homossexuais  e não esteve com modas: meteu-se num avião  para Londres,  onde o filho estudava, e obrigou-o a regressar a casa sob pena de o pôr fora de casa se não obedecesse.  Sobre mulheres, era definitivo: quando inquirido de qual discurso tinha gostado mais nas festas regionais, nem pestanejava ao declarar que “dos discursos o que eu gostei mais foi das pernas das gajas”, que ele observava palitando os dentes enquanto os oradores  palravam. [Read more…]

Lettres de Paris #24

Isto não é uma carta, é um telegrama e um desabafo

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Não se passou nada de especial, hoje. Fui para o trabalho pelas ruas do costume. Fiquei um momento a admirar as cores e os pombos na cabeça das estátuas. Particularmente na de Claude Bernard. Em, frente ao Collège de France. Voltei do trabalho pelas mesmas ruas. Estava pouca gente no Ladyss hoje. E a sala de trabalho estava fria como uma estátua, depois do fim de semana sem o aquecimento ligado.
 
Tive saudades da comida portuguesa. Sobretudo depois de falar ao telefone com os meus pais. A minha vida às vezes é um atraso. E a culpa não e minha. Fiquei zangada com as prioridades alheias. Tive fome. E comi no sítio do costume. Comi bem, por sinal. Confit de canard (outra vez). Depois vim para casa. Estava quentinho e trabalhei um bocadinho. Muitas vezes perco tempo com ninharias, com assuntos e pessoas que não deveriam merecer mais que um segundo da minha atenção. Depois fico triste comigo mesma. Mas Paris não é, não pode ser, lugar para tristeza.
 
Entrei numa livraria bonita, queria comprar um livro* que saiu recentemente sobre Paris visto e vivido pelos escritores. Mas estava esgotado. A senhora encomendou-o. Estou com vontade de viver Paris como os escritores a viveram. Ou melhor, ter a ilusão de viver Paris como a viveram Sartre, Beauvoir, Hemingway, Prévert, Aragon, Céline, Baudelaire, Modiano… evidentemente os tempos são outros. O mundo mudou substancialmente e, seguramente, também Paris. E de qualquer modo, eu não vivo em Paris. Se calhar nem eles viveram Paris. Viveram a Paris deles, como eu viverei a minha, por pouco tempo que seja, por mais que perca tempo com ninharias e coisas que não (me) interessam. Ou que certamente me interessam muito menos do que a literatura e do que Paris.
 
*Informações sobre o livro, aqui

A arte da mentira

Rui Naldinho

Após a eleição de Donald Trump muito se tem falado das razões mais profundas que estiveram na origem da sua vitória. Teoriza-se sobre tudo sem se ter a certeza de nada. Analisam-se as motivações para tantas mentiras  do republicano vitorioso nesta eleição. E como o povo americano se deixou seduzir por elas.

Ferreira Fernandes fala no Diário de Noticias da “pós-verdade”, como a palavra do ano. “Uma homenagem ao Brexit e a Trump. É um adjectivo que define uma sociedade pasmada com a realidade. Espero que passe a substantivo, já. É que, se a verdade é dura, a pós-verdade, que é uma mentira, pode distinguir-se talvez melhor, pois é mole.”

Se tudo isso está em conformidade com o pensamento dominante, há questões que, no entanto, não podem deixar de se colocar. [Read more…]

A Ponte de Blackfriars

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Parabéns Passos Coelho, parabéns direita

O primeiro-ministro no exílio conseguiu a sua primeira grande vitória. A Caixa está pior agora, graças ao caso diariamente repescado na imprensa amiga. O salário do sujeito é pornográfico e tudo à volta da declaração de rendimentos é obsceno? É, sem dúvida. Falta saber, minto, sabemos, porque é que, no entanto, os telhados de vidro de quem atira pedras estão intactos. O país ficou melhor? Não, mas o governo ficou pior. É este o fiel das lutas que a direita escolhe. Parabéns, conseguiram.

Respeitinho, se faz favor

Eis quando ao faltoso nada acontece, sendo quem o acusa que é punido. Vergonhoso.

Reality check às políticas para a Educação

Santana Castilho*

Ao completarem-se 30 anos sobre a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, este poderia ser o momento adequado para fazermos um balanço rigoroso dos caminhos que a Educação trilhou em democracia e, sobretudo, para definirmos o que queremos para o futuro.
Ao optar hoje, neste contexto, por um reality check, passe o estrangeirismo, às políticas do PS para a Educação, o meu objectivo não é opor-lhes certezas (que as tenho) mas antes confrontá-las com as interrogações e as perplexidades que suscitam. Com efeito, são as perguntas que podem ser feitas que mostram que as coisas vão acontecendo de modo imprudente, mais por reacção ao fundamentalismo de Crato que por ponderação da oportunidade, da qualidade e da justeza das políticas. Tudo beneficiando de um caudal de águas mornas de aceitação dos problemas mal resolvidos pela impreparação de Tiago Rodrigues e pelos excessos de Alexandra Leitão. [Read more…]

Mas afinal, o que é tão problemático no CETA?

Perguntava-me há dias um colega: mas afinal o que é que ainda há de tão problemático no CETA, já que, à última hora e à pressão, foram anexadas importantes especificações às 1.600 páginas do acordo?

Assinatura do CETA

Da esquerda para a direita, Jean-Claude Juncker, Justin Trudeau, Donald Tusk e Robert Fico (primeiro-ministro da Eslováquia e detentor da presidência rotativa do Conselho da EU) durante a cerimónia de assinatura do CETA. Foto: EU

O instrumento interpretativo conjunto, as declarações unilaterais e os textos da declaração da Bélgica que foram alinhavados ao texto do acordo para possibilitar a sua assinatura, deram alguma contribuição para a clarificação de conceitos difusos incluídos no texto do CETA mas, como não se lhe sobrepõem, o seu valor jurídico é muito limitado.

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O fiscalizador que fiscaliza mas não é alvo de (boa) fiscalização

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Estamos nós no auge do polémico caso da nova administração da CGD que não quer entregar as suas declarações de rendimentos no Tribunal Constitucional, e eis que somos confrontados com novos factos, de requintada ironia. Então não é que dois juízes do TC, que por estes dias exigiram oficialmente que a equipa de António Domingues entregasse as suas declarações, “não cumprem as exigências de transparência que a lei determina” relativamente às suas próprias declarações de rendimentos? É sem dúvida um belo exemplo, este que nos chega de cima. [Read more…]

Há alternativa – a TIA correu com a TINA

Para variar, esta semana está a ser rica em boas notícias, mas quem não as procurar activamente nem nelas repara.

Jornal da Noite, SIC, 16/11/2016

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Lettres de Paris #23

‘Vous êtes du quartier?’

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perguntou-me uma senhora, não sem antes dizer ‘bonjour, madame’, quando eu estava na esplanada do Saint-André – depois da Julie me ter cumprimentado com um ‘bonjour Elisabete!’ quase cantado – a beber o meu café e o meu copo de água do costume. Disse-lhe que não, à senhora, que não era ‘du quartier’, mas fiquei a pensar que tinha pena de não ser deste bairro e poder dar à senhora a informação que ela precisava.
Depois do café, desci as escadas do metro ali mesmo em frente. O passar a ferro de ontem, fez alguns estragos nas minhas pernas. Algumas horas de pé e é uma lástima. Por isso há que poupá-las, quer dizer, o mais possível, se bem que – como disse ontem – no metro de Paris se ande muito, sobretudo se temos, como é frequentemente o meu caso, que mudar de linha. Apanhei a única linha de metro que passa em Saint-Michel (também passa o Rer C e o Rer B) a linha 4, para Chatelêt, onde mudei para a linha 1 em direção a La Défense. Começo a ser perita no metro de Paris. Na verdade não tem nada que saber. Nem este, nem até ver, nenhum metro em que tenha andado seja lá onde for. Antigamente perdia-me mais do que agora, é verdade. Devo ter aprendido a prestar mais atenção.

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Bilhete do Canadá – Olha quem ele é

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O PSD, pela voz tronitruante de Carlos Abreu Amorim, pediu explicações sobre o novo cargo da ministra da Justiça como juíza do Supremo. Serena e educada, Francisca van Dunem explicou a situação. O paquidérmico Amorim deve andar a encher-se de vento com o trampismo americano.  Nada racista, como se sabe. A fazer pendant com o passado extrema direita do deputado.

Em contraponto, está o chefe do partido, o Passos Coelho: sempre azedo, sempre casmurro, sempre de trombas, a tartamudear desgraças que aí vêm, a pôr defeitos a tudo. Não há pachorra para aturar estes mecos.

É o discurso da direita  que agiganta a Geringonça

Rui Naldinho

A nossa direitinha Tuga apostou forte no desconchave da geringonça, mas o raio da maquineta não há meio de se estatelar!

Ilustração: Hélder Oliveira / Expresso

Nunca conseguiram digerir o seu afastamento do Poder. E com isso foram cavando um túnel entre a realidade e os seus traumas. À medida que o tempo passava foram desenvolvendo uma retórica derrotista, de tal forma penosa, que até conseguiram transformar em pouco tempo uma coligação que tinha todas as condições para sofrer abalos vários, fruto das suas diferentes formas de abordar a UE, a NATO e o Tratado Orçamental, numa máquina sincronizada. [Read more…]