Milionários estrangeiros fazem fila para pagar novo imposto sobre o património

cascais

Depois da tragédia na Comporta, eis que uma nova tragédia paira sobre este país, outrora governado por gente austera e disciplinada, hoje palco da mais atroz sovietização de que há memória desde os tempos do PREC. Segundo avança o folhetim marxista-leninista do camarada Balsemão, existe uma longa fila de espera para comprar casas de luxo em Cascais. Como é óbvio, estamos perante um conjunto de milionários iludidos pela propaganda estalinista da Geringonça totalitária, que ignoram que serão espoliados de todos os seus bens através do novo imposto sobre o património, que terá ainda, como efeito colateral, a destruição absoluta da classe média e dos colégios privados com contrato de associação. O drama, a tragédia, o horror. A austeridade de esquerda que nos engolirá a todos.

Foto: João Carlos Santos@Expresso

Contra o Orçamento do Estado para 2017

gaudencio

© Rui Gaudêncio (http://bit.ly/2dhUUdi)

Well I keep seeing this stuff and it just comes a-rolling in
And you know it blows right through me like a ball and chain

— Robert Allen Zimmerman, “Brownsville Girl

***

Eis um Governo que sorri e encolhe os ombros, enquanto “aguarda serenamente“, mas depois é apanhado a entregar documentos de duvidosa qualidade técnica. Aliás, na senda daquilo que aconteceu com o OE2012, o OE2013, o OE2014, o OE2015 e o OE2016.

Antes de passarmos ao Relatório do Orçamento do Estado de 2017, debrucemo-nos muito rapidamente sobre exemplos da Proposta de Lei: [Read more…]

Cenários irrealistas

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Pedro Passos Coelho acusou o governo de apresentar um cenário muito irrealista. Sim, o mesmo Pedro Passos Coelho que, há pouco mais de um ano, prometia colocar Portugal entre as 10 economias mais competitivas do mundo, entre outras promessas de metas igualmente realistas, ou não estivéssemos nós em plena campanha eleitoral. Apostar na falta de memória dos portugueses dá nisto. Não admira que as camadas jovens façam propaganda tão fraquinha.

Fotomontagem: Uma Página Numa Rede Social

O CETA no Tribunal Constitucional

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Foram cinco – duas das quais, em conjunto, subscritas por mais de 200.000 cidadãos – as queixas de inconstitucionalidade da aplicação provisória do acordo de livre comércio entre a UE e o Canadá (CETA) que foram ontem rejeitadas pelo Tribunal Constitucional de Karlsruhe – embora impondo condições. E qual a justificação para esta decisão? Os oito juízes constitucionais consideraram que o bloqueio do CETA, mesmo que temporário, iria interferir substancialmente na ampla “liberdade do governo na definição da política externa e económica”, bem como nas relações externas da UE. Os previsíveis danos no que concerne à fiabilidade da Alemanha e da UE iriam, a longo prazo, limitar a capacidade de manobra e de decisão de todos os atores europeus na configuração das relações comerciais globais.

Foi exactamente essa a ameaça, que, qual Cassandra, o ministro das finanças alemão, Sigmar Gabriel, brandiu durante o seu depoimento na sessão do tribunal: os danos, no caso de uma decisão contra o CETA, seriam “gigantescos” e representariam “uma catástrofe” para a Europa. Evidentemente que se declarou muito satisfeito com o resultado da decisão do tribunal, já que vai permitir, no próximo dia 18 de Outubro, aquando da reunião dos ministros do comércio europeus, o sim da Alemanha à entrada em vigor das partes do CETA que são da exclusiva competência da União Europeia. Fica assim livre o caminho para a assinatura do acordo na cimeira UE-Canadá, agendada para 27 de Outubro. [Read more…]

Fiscalidade mais amiga da esmagadora maioria

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O Orçamento de Estado para 2017 ainda não foi apresentado mas, como vem sendo habitual, as fugas de informação já nos permitem saber, através da comunicação social, muito daquilo que será apresentado na generalidade. O fim da sobretaxa, um dos muitos impostos introduzidos pela coligação além-Troika, que nos impôs, é bom não esquecer, o maior aumento de impostos de que há memória neste país, acontecerá de forma faseada, ao contrário daquilo que estaria previsto. E a direita já esperneia violentamente com esta possibilidade, apesar do embuste pré-eleitoral com que Passos, Maria Luís e restantes compinchas enganaram os portugueses. Para quando nova palermice da JSD em formato vídeo? [Read more…]

Enquanto dormia, David Dinis observadorizou o PÚBLICO

público observador

Com a entrada em funções de David Dinis como director do PÚBLICO, passei a receber um email diário titulado “Enquanto dormia”. Ao lê-lo pela primeira vez, senti uma sensação estranha, sem que a tenha conseguido identificar. Entretanto, percebi que se devia à expressão de alguém fazer qualquer coisa nas nossas costas enquanto dormimos. Algo que aconteça sem nosso controlo.

O título é, na minha opinião, um pouco infeliz, mas hoje constato que tem também alguma substância.

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Ainda o Nobel

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(Jean-Baptiste Auguste Leloir: Homer, 1841.)

Devo dizer que discordo de Francisca Prieto aqui no Delito. “A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.”  Este foi um argumento que vi replicado em vários sítios. Mas não creio que seja de todo assim. Até ao século XVII na Europa, os livros eram lidos em voz alta para uma sala de pessoas (na corte, por exemplo). A literatura não era tanto lida como era ouvida e como era um exercício colectivo. As cantigas de amigo que são a base de qualquer programa de literatura portuguesa, eram originalmente cantadas.

Mais importante: Homero – a ter existido – não sabia ler nem escrever e os seus épicos sobreviveram por via oral até alguém os decidir fixar em escrita. Não podemos dizer simplesmente que Homero já não é relevante pois viveu há muito tempo. Homero é a base de toda a literatura ocidental e quem pensa em literatura e no que ela é hoje não o deve perder de vista.

Hoje em dia, em África e na Índia a oralidade continua a ser uma forma de contar histórias que não têm certamente menos valor do que as ocidentais histórias escritas.

No caso de Dylan, nem sequer estamos a falar na ausência total de um texto porque ele existe sendo “apenas” cantado.

Tudo isto para dizer que a nossa visão de literatura como algo ligado obrigatoriamente a um texto que tem de ser lido individualmente é muito recente.  Eu nem estou necessariamente a favor do Nobel a Dylan. Preferia que o prémio tivesse ido para outros possíveis candidatos. Mas parece-me salutar que a Academia tenha uma visão lata do que é Literatura, uma visão lata da importância da Palavra, seja ela escrita ou oral, e especialmente, uma visão que obviamente sabe de onde tudo isto veio.

José Gomes Ferreira arrependeu-se

Rui Naldinho

Todos já sabemos que o subdiretor da SIC Noticias tem sido um verdadeiro “Spin doctor” dos partidos da oposição e das confederações patronais, no canal de televisão do grupo IMPRESA.

José Gomes Ferreira, Fevereiro de 2014

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Novas expressões poéticas

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© Ted  Russel/Polaris

Marco Faria

Não que as letras de Bob Dylan sejam uma arte menor. Muito pelo contrário, uma letra musical pode ter a qualidade de um poema ou de um romance. Mas a decisão da Academia sueca é discutível. Desde logo, o problema maior está em encaixar letras de música num reconhecimento por razões de Literatura.
Há claramente uma interpretação extensiva ao encaixar Bob Dylan no reino dos laureados. Química é Química, Física é Física e Literatura deveria ser Literatura. Se a Academia queria atribuir o Nobel a Dylan teria de criar um prémio para a Música ou a Composição Musical. Anunciar que é-lhe atribuído o Nobel da Literatura «por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana» evidencia um descuido: é referida a palavra “canção”, não obstante a referência a “expressões poéticas”. A canção em Bob Dylan, como na generalidade desta arte, só existe porque há uma combinação entre escrita, sons provocados por instrumentos musicais, voz humana, pausas e uma infinidade de coisas.
Seja como for, abriu-se um novo capítulo. Não tão surpreendente como seria atribuir o Nobel da Física a Ronaldo, quando ele tenta contrariar a lei da gravidade; ou da Medicina, quando faz fintas, pondo as cabeças dos adversários viradas do avesso; ou ainda da Literatura, porque um golo pode ser um momento estético ou, no dizer do Nobel, uma “expressão poética”. Não se engane na estante quando for às compras; Dylan está mais na secção musical…
A Academia sueca decidiu e está decidido.

“Eu quero ficar sozinho”

José Mário Branco fala, canta e escreve a minha língua nativa.
Nada contra Dylan, tudo pelo lusofonia. Prémio Camões já ontem, já.

“O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!”

Efectivamente

#RuiReininho2017

O Nobel

A ideia de que o Nobel da literatura premeia alguém que é o melhor de todos é um bocado ingénua para não dizer impossível (o melhor de todos é o Tolstoy e já não lhe podemos dar um prémio).
O que o Nobel premeia é alguém que é muito bom de uma forma consistente e que a maior parte das vezes o merece verdadeiramente. Não é a questão de ser o melhor de todos mas é sim de ser muito bom e de ser premiado em resultado disso. Se formos a pensar no Nobel em termos competitivos enlouquecemos.
É óbvio que há pessoas que o receberam e que não mereciam e pessoas que não receberam e que mereciam. Mas o Nobel premiou, ao mesmo tempo, pessoas como Thomas Mann, Saramago, Garcia Marquez, Toni Morrison, Gunter Grass ou Neruda . Ou seja, o desprezo que muitos sentem em relação ao Nobel da literatura pode ser compreensível mas simultaneamente parece-me de mau gosto rejeitá-lo e reduzi-lo a um prémio atribuído por razões políticas. Por muitos génios que não foram reconhecidos, muitos outros foram.

Tradução para português europeu, sff

farturas

Foto: Família Sequeira (http://bit.ly/2easZOl)

Και τώρα τι θα γένουμε χωρίς βαρβάρους.
Οι άνθρωποι αυτοί ήσαν μια κάποια λύσις.
Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

(E agora que vai ser de nós sem bárbaros/ Esta gente era alguma solução)

***

Não se percebe: «já tem uma das mais elevadas faturas de pensões no orçamento»? Em português europeu, sff: «já tem uma das mais elevadas facturas de pensões no orçamento». Exactamente, um pouco mais de rigor, sff. Obrigado, Público.

Quanto ao sítio do costume, não há novidades:

dre13102016

Ao contrário daquilo que o Nobel da Literatura nos diz/canta/escreve, things haven’t changed.

Nótula: Texto revisto e muito ampliado, cerca de uma hora depois da publicação.

Conversa da treta de uns, o silêncio de outros

A albufeira do rio Tua está a subir. Com isso desaparece todo um ecossistema ribeirinho, e um bocado de todos nós. Sobre este crime (construção da barragem do Tua),  temos conversa da treta que lava mais branco,  o silêncio cúmplice de uns (PS/Sócrates/PSD/Passos Coelho/Francisco José Viegas/CDS-PP/Paulo Portas e Assunção Cristas) e o silêncio ensurdecedor de outros (PCP, BE, Partido Os Verdes e PAN).

Conhecer o outro lado, numa reportagem sobre os condutores da Uber em LA 

As empresas da “economia da partilha” como a Uber transferem o risco do negócio das empresas para os trabalhadores, destroem os direitos do trabalho e afundam os salários.

Num artigo traduzido por Ricardo Moreira têm voz diversos condutores da Uber. Relatam as condições de trabalho num ambiente onde a empresa decide unilateralmente o custo das viagens, para impedir a concorrência, reduzindo drasticamente a margem de lucro do condutor. A este sobra-lhe fazer mais horas e mais quilómetros para pagar o investimento no carro, numa opção sem escolha que leva, também, ao desgaste mais rápido desse carro e da saúde do condutor.

Nem tudo são rosas neste modelo de negócio onde os trabalhadores são designados por “motoristas-parceiros”. A empresa pode a qualquer momento despedir o trabalhador (desactivá-lo, na gíria da Uber), o que acontece se este tiver uma avaliação inferior a 4.7 em 5. Por isso, os trabalhadores sorrirem e dizem bem da empresa aos clientes, em vez de serem honestos quando lhes perguntam como é trabalhar para a Uber.

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I want my money back

O Trump show soma e segue. Ou será que subtrai?

Maria de Lurdes, a mulher que está presa por ter chamado psicopata a Maria José Morgado

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Maria de Lurdes teve azar. Nasceu sem papas na língua e não hesitou quando, contra ela, foi cometida uma injustiça enorme por causa de uma bolsa de estudo. Acusou o ministro Manuel Maria Carrilho (esse mesmo!) e, no seguimento do processo, uma série de sectores da Justiça que, no seu entender, fazem parte de uma corja da pior espécie. A corja da Justiça.
Foi intimada a parar com esse palavreado, caso contrário ia presa. Não parou. Entre outros elogios, chamou psicopata a Maria José Morgado pela forma como sorriu para ela. A pena suspensa transformou-se em definitiva e, três anos depois e por mero acaso, acabou por ser detida e transportada até Tires.
E agora, temos alguém preso porque chamou psicopata a Maria José Morgado. Não matou ninguém. Não se deixou corromper. Não roubou um Banco. Nunca foi Dona Disto Tudo. Apenas chamou psicopata a Maria José Morgado.
Parece que Maria de Lurdes não pode sequer queixar-se ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, porque deixou passar o prazo. Foi presa por delito de opinião e ficará enclausurada durante três anos, como se fosse uma criminosa.
E como se esta choldra de país fosse uma Coreia do Norte qualquer…

CDS-PP Açores: um apelo ao voto com confirmação via mensagem privada

cds

As eleições regionais nos Açores estão à porta e, no Caldas açoreano, contam-se espingardas. Mas Ana Afonso, candidata do CDS-PP, não se limita a apelar ao voto dos açorianos. Ela precisa que lhe confirmem, através de mensagem privada, que o vão fazer. Porque de boas intenções está o inferno cheio, ou se está com Ana Afonso, e nesse caso há que confirmar por escrito, ou não venham depois pedir favores à senhora. Qualquer dia, selam-se intenções de voto com pactos de sangue. Ou cuspe, que com tanta doença que por aí anda, não convém muito arriscar.

Copos de água a 10 cêntimos na Segurança Social de Sintra

Mau por si só, mas ainda pior num local onde quem frequenta está em débil situação financeira, como desempregados e reformados.

Será que passam factura? Como se sabe, é obrigatório.

Uma crónica a ouvir pelo actor Guilherme Leite, no seu canal Saloia TV.

JSD. What else?

politics

Já não me ria tanto com uma parvoíce oriunda da JSD desde que tentaram colar o acordo entre PS, PCP/PEV e BE à tomada de Berlim pelas tropas russas. Na altura, a coisa foi de tal forma parva que, inconscientemente (ou talvez não), acabaram por se colar, eles próprios, ao regime nazi, quiçá antevendo a deriva radical em que a casa-mãe embarcou e de onde mais não voltou. Até ao momento. [Read more…]

Falemos sobre perseguição fiscal

Ora aqui está um belo vídeo para os jotinhas visualizarem antes de voltarem a fazer figuras tristes. Para a direita radical e respectivo exército comentador reflectir enquanto digere o sapo. Foram 78 aumentos de impostos, no espaço de quatro anos e meio, que representaram o mais violento aumento de impostos de que há memória neste país. Pela mão de quem afirmava, em campanha, que não ia aumentar impostos para cumprir o seu programa. Terá sido nisto que tantos portugueses votaram há em 2011? Quer-me parecer que não. Mas isso sou eu que sou um esquerdalho. Que o Dr. Jovem Conservador de Direita tenha piedade de mim e salve a minha alma.

Video: Luís Vargas@Geringonça

Uma sugestão para a playlist de Eduardo Vítor Rodrigues

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Na hora do almoço, enquanto conduzia, dei por mim a ouvir a playlist de Eduardo Vítor Rodrigues, autarca de Vila Nova da Gaia, na TSF. Devo confessar que fiquei bastante surpreso, não pela escolha musical, que até me pareceu bastante agradável, mas pela ausência de uma dedicatória a Marco António Costa, esse grande obreiro da catástrofe financeira na CM da Gaia. [Read more…]

A minha está em baixo

… a bateria.

Marcelo Rebelo de Sousa, o infiel, e os trogloditas

mrs

Em novo video de propaganda do Daesh, ou de um tolinho qualquer que gosta de brincar aos grunhos fundamentalistas, Marcelo Rebelo de Sousa – o infiel – surge a condecorar o rei de Marrocos – o muçulmano sem vergonha. Com este conteúdo, presume-se que os trogloditas pretendam mostrar a outros trogloditas que os jovens trogloditas são bem formados, bem preparados e com uma “moral superior à dos jovens dos países árabes e islâmicos “corruptos”. Isto apesar dos seus carros ocidentais, das suas armas ocidentais, das suas drogas ocidentais ou dos seus infames e imorais relógios ocidentais, que fazem Maomé corar de vergonha alheia com tanto troglodita imbecil e desmiolado. E ainda há trogloditas, com acesso à informação, que abandonam este país para combater as guerras destes charlatões. Ainda bem que nasci infiel. Antes infiel do que troglodita.

Foto@Público

O Malabarismo das Palavras

Rui Naldinho
Cartoon: Zé Dalmeida

Cartoon: Zé Dalmeida

Diz o nosso comentador que para ele “a coerência é uma coisa inestimável”.

Digo eu, “a realidade é que deve ser incoerente”. Caso contrário, aquilo que a Geringonça defende, e ele agora crítica, na prática é o mesmo que ele defendeu no passado, mas agora dito por outras pessoas.
Marques Mendes é useiro e vezeiro no malabarismo dos números e das palavras, tentando dar ao mesmo assunto um tratamento distinto, para que aquilo que é igual pareça diferente. [Read more…]

Se eu tivesse um sonho de merda…

… faria hoje um ano que morreu o JJ. Um ano redondo. Em rigor, mais um dia. Morreu, pois foi. Morreu. Ah, e se ele estivesse aqui, o que diria? Diria, olha, cá estou, morri! E di-lo-ia até morrer de secura. Diluía, pois. Era uma estragação de café e de whisky. Mas se não dissesse, era o mesmo. “O círculo aperta-se, primeiro fulano, depois beltrano, agora sicrano. Não sei porquê mas cheira-me”, até já o tinha dito e muito antes. E é verdade que ela agora fede como nunca. Até no cheiro dos meus colhões a sinto. E se fosse vivo? Ah, se fosse vivo… Se fosse vivo, fingia-se de morto e ela passava por ele como cão por vinha vindimada. Bem, a verdade é que ele não o faria. Chamá-la-ia armado em parvo, como se pudesse dar-lhe a volta ou insultá-la. Arrasá-la-ia no Aventar ou no Endrominus, como se o sonho comandasse a vida. E cairia no último momento – como sempre se cai! – depois de dar cabo dela, fodendo-a bem outra vez. Se eu tivesse um sonho de merda, seria assim.

Ao João

jjc
Sabes, ia escrever umas coisas sobre ti. Mas ao começar, li o post do Nabais e, com o meu velho complexo de inferioridade, decidi não escrever nada. Perante aquele poema, simplesmente não valia a pena.
Nunca te disse, mas era como me sentia sempre à tua beira: inferior. Falávamos todos os dias, várias vezes por dia, por SMS e por mail. A correspondência que trocámos era capaz de dar para publicar um livro.
Mas nas 2 ou 3 vezes por ano em que nos víamos ao vivo, calava-me. Não sabia o que te dizer. Se calhar nunca reparaste, éramos sempre muitos e nunca faltava com quem falar. Mas tu eras tu, eras o João José Cardoso, eu era apenas eu. Podia nascer 10 vezes que não chegaria ao teu nível, como é que havia de sentir-me ao teu lado?
E afinal, passado um ano, cá estou eu. Sobrevivi-te. É natural, mais 12 anos de boémia em cima fazem uma certa diferença.
Tenho pensado muito em ti neste último ano. No dia em que te conheci no 007 – Licença para Comer. No abraço que me deste, já bem bebido que estavas, na primeira vez que fomos almoçar ao Casino da Urca. Na noite em que me puseste a dormir no chão, mais a Noémia e a pequena Leonor, porque te esqueceste de ir buscar um colchão ao sótão e porque a cama da tua mãe, apesar de vazia, era sagrada. No dia em que alteraste os planos e mais uma vez propuseste o Casino da Urca, sabendo que eu queria ir ao Portugal dos Pequenitos com as miúdas. Na última vez em que nos encontrámos, na Estação de S. Bento onde tomámos café e na Serrana que nunca te mostrei.
Costumo dizer que não me arrependo de nada. Engraçado, há uns dias um amigo comum recordou-me um post terrível que em tempos escrevi e do qual me arrependo profundamente. Quanto a ti, também me arrependo. De nunca ter realmente conversado contigo. De nunca te ter olhado nos olhos para dizer que gostava de ti. Que te admirava. Que gostaria, um dia, de ser brilhante como tu eras. Chamei-te amigo, quase no fim, mas já estavas demasiado doente para responder.
Não faz mal. A tua ausência, no último ano, serviu-me de resposta. E a falta que me fazes também.

João José Cardoso (1959-2015)

Os 4052 posts do JJC.

O verdadeiro debate – Dueto Trump – Hillary

Transcrições completas dos dois debates presidenciais Clinton-Trump

1.º debate: 26 Set. 2016
2.º debate: 10 Out. 2016