Refeição Social Prato

Quando entrei para a primária era ainda cedo para não alimentar a ilusão de que todos os miúdos tinham uma vida mais ou menos parecida comigo, que, não sendo perfeita, era decente. Logo nos primeiros dias, a chamemos-lhe Paula quis saber o que eu tinha comido no fim-de-semana. Eu disse, ela quis saber detalhes. E ficou estupefacta.

– Tu comes uma fêvera inteira?!

Ela não comia, nunca tinha comido, nem conhecia quem, com a sua idade, o fizesse. Seis anos/  uma fêvera, um rácio que ela nunca se tinha atrevido a imaginar.

Depois dessa, houve muitas. Eu tomava pacotes de leite chocolatado, comia bolas de Berlim, cerejas no tempo delas. Era, eu e metade da turma, um exemplo de privilégio, sem dúvida, naquela pobre escola da zona oriental do Porto.

Nunca se sabe o que nos ficará na memória. Constato que a história da fêvera, já lá vão mais de 30 anos, ainda cá está. E foi nela que pensei quando li este artigo, no Jornal Universitário do Porto, assinado pelo Miguel Heleno. [Read more…]

Mais uma fábula desmentida pelos factos

Do Expresso desta semana retive esta peça. Não batia certo com qualquer coisa que tinha lido, embora coincida com a minha memória pessoal:

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Hoje ocorreu-me, era isto: [Read more…]

Até nas desculpas são incompetentes

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Nuno Crato garante que no próximo ano lectivo não haverá “experimentalismos”. Portanto, deduz-se que este ano lectivo foi preparado em cima do joelho. Isto é no que dá ter mortos-vivos a usurpar o lugar de ministros.

Entretanto o grande objectivo de transformar as escolas em centro de nomeações políticas continua. MLR criou as bases, com o conceito dos directores que carecem de aprovação ministerial, e Crato dá a estocada final.

Foi ainda adiantado pela equipa ministerial que, a partir da próxima semana, serão os directores das escolas TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) e com contrato de autonomia que chamarão os professores em falta. [P]

Para completar o circo só falta o cavalheiro da fraca memória que deambula por Belém vir falar da qualidade de não sei quê.

Não tenho certezas e raramente acerto

cavacoO presidente juntou hoje umas frases sobre o concurso dos professores e confirmou, mais uma vez, que é “um génio da banalidade”, como dizia José Saramago.

Primeiro, afirmou que é preciso fazer uma “reflexão séria sobre o modelo de colocação de professores”. Todos sabemos que não há nada pior do que uma reflexão que não seja séria, como algumas que andam para aí perdidas e vão com qualquer um.

Depois, com a argúcia vácua que o distingue, declarou que “as coisas não correram bem na colocação dos professores.” Não há palavra mais reveladora do rigor de alguém do que “coisa”. No fundo, é o descanso do ignorante: Houve ali uns problemas na colocação dos professores: deve ter sido uma daquelas coisas que correm mal. Se as pessoas, ao menos, tentassem arranjar coisas que correm bem, mas não…

“Parece que está em vias de resolver-se o problema, mas até este momento já houve atrasos nas aulas e, portanto, os alunos foram prejudicados.” silvou, a seguir. Parece-me que não há como o verbo “parecer” para exprimir certezas e para mostrar que se está dentro de um assunto. [Read more…]

Dinamarca 0–1 Portugal

Selecção venceu (0-1) em Copenhaga com golo no período de compensação“. Efectivamente: Selecção.

#BringBackOurGirls

Seis meses depois, 219 meninas nigerianas continuam em cativeiro. Que resta da campanha mediática mundial?

Uma atitude louvável

Com as mãos sujas, do BPN a toda uma presidência ao serviço dos interesses de uma classe, Cavaco Silva recusa-se a manchar as mãos limpas de um trabalhador distraído. É de aplaudir a preocupação com a higiene alheia.

Gonçalo Ribeiro Telles

Os capitalenses podiam ter votado num movimento cívico? podiam, mas ficavam sem cheias, perdia a piada toda.

Prós e contras

 

Ontem liguei a televisão mesmo a tempo de apanhar, no “Prós e Contras” dedicado ao caso BES, a Fátima Campos Ferreira a lançar a pergunta “Acha que os portugueses estão muitos entretidos a sobreviver?”

E de repente pareceu-me obsceno que alguém que junta na mesma frase entretenimento e sobrevivência possa conduzir um programa informativo.

Mas nenhum dos presentes pareceu ficar incomodado com a pergunta e eu, vencida pelo dia ou pelo sono ou pela impotência, desliguei a televisão e fiquei a remoer o sentimento de que este país já não é para pessoas.

Cavaco: entre o delírio e a inspiração divina

Cavaco desfocado

A minha dúvida relativamente a Cavaco Silva é se existe algum tipo de estratégia por trás de declarações deste nível de inconseguimento  ou se se trata apenas de perda progressiva de lucidez. Apesar de ambas as opções me parecerem válidas, estou mais inclinado para a segunda, até porque momentos de falta de lucidez são coisa a que o senhor Aníbal nos vêm habituando. Claro que, entre o batalhão de assessores e restantes membros da sua dispendiosa corte, alguém o deveria ter avisado que o Passos e Maria Luís já tinham informado o país sobre a inevitabilidade do efeito BPN sobre os contribuintes. A menos que Nossa Senhora de Fátima lhe tenha aparecido e revelado que estaria pronta para inspirar uma solução alternativa. Não seria a primeira vez que a sua inspiração intercedia por nós. Afinal de contas, ontem foi 13 de Outubro

Percebem, ó curdos?

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Funcionário turco mostra pão a crianças arménias esfaimadas. 1915.

Já é presidencial: concursos de professores é com cunha, trabalhar tem de ser tacho

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De manhã o camarada José Espada avançou com o mote e Cavaco logo soltou a redondilha: colocação de professores é escola a escola, cunha a cunha, município a município, e lá chegaremos ao gestor privado, o grande sonho da ora condenada e sempre visionária Rodrigues.

Alguns directores já devem ter posto o espumante no frigorífico: o dia em que a escola será quase sua aproxima-se, o dia em que a prima da prima ocupará o lugar daquele chato que no Pedagógico me passa a vida a atazanar o juízo já se vê ao fundo do túnel.

Privatize-se, estado que é estado começa por colocar nas mãos dos governantes a gestão dos recursos humanos, expressão moderna equivalente ao clássico domesticação de quem trabalha.

Entretanto fiquei a saber como ocorreu o caso da senhora que hoje fez as gordas em alguns jornais: foi a um estabelecimento privado, havia ameaça, cuspiram-na de transporte público para um hospital, e devem ter ido a correr desinfectar o atendimento.

O problema não é um vírus como o ébola, como nunca foi a colocação de professores de forma objectiva e quantificável com decência e sem canalhices: é mesmo o privado. Fosse no colégio, que teria feito o mesmo a um aluno, seja na saúde: servir o cidadão, preocupar-se com um possível contágio pelo caminho, não interessa para nada. O lucro, apenas e a todo o preço o lucro.

Natação obrigatória

Dedicado aos meus conterrâneos lisboetas, que vivem hoje o resultado da má gestão camarária. Após o desastre das primeiras chuvadas, que terão surpreendido muita gente, os escoamentos permanecem por limpar, com o resultado que se vê.

Algum dia teremos de começar

a construir uma sociedade democrática para o século XXI. Um colóquio dá contributos. Já depois de amanhã, em Coimbra.
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O abraço fraterno de Soares e Isaltino

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(foto: Expresso)

Segundo Mário Soares, Isaltino Morais foi injustiçado, algo que se compreende se considerarmos que, dos iniciais sete anos a que foi condenado por branqueamento de capitais, fraude fiscal, corrupção passiva e abuso de poder, o simpático ex-autarca acabou por ser condenado a apenas dois, tendo permanecido enjaulado por apenas 14 meses, período esse que, segundo o seu advogado, terá sido ilegal. É realmente muita injustiça junta. E Soares, esse pólo aglutinador das esquerdas da Aula Magna, apreciador de Contos Proibidos e um dos rostos da renovação liderada por António Costa não podia deixar de dar um abraço fraterno a esse ícone do boa gestão autárquica, que nem da gestão dos seus discursos se esqueceu. Todo o bloco central num só abraço.

Tempo de Cratos

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Quantas vezes o nosso riso é uma substituição para a agressão pura e simples. Quantas vezes a ironia ou o humor sublimam a violência que nos vai na alma. Já o fiz aqui muitas vezes e sobre este mesmo tema. Não hoje.

Hoje quero outro modo. Visita que sou do canal AR, tenho visto momentos que arrastam para a lama o que devia ser dignificado a todo o custo, a casa da Democracia. Não me refiro à maior ou menor dureza dos debates. Penso, até, que há por ali almas demasiado sensíveis à crítica, como se fossem mais insuportáveis as palavras ditas que os actos que as motivam. Mas Nuno Crato, com a seu número bufo dos tempos verbais, produziu um dos momentos mais canalhas e estúpidos que jamais vi naquele lugar. Não, não me estou a esquecer das absurdas cenas da União Nacional que nos narravam os impagáveis “Factos e Documentos” da Seara Nova. Não me lembro de alguma intervenção que tanto desconsiderasse os destinatários, que em tão pouca conta tivesse a inteligência e o sentido de decência dos seus ouvintes. Um marco na história do nojo político.

Não canto porque sonho


Noiserv  [tema de Fausto Bordalo Dias – com José Afonso -, do álbum P’ró que der e vier, 1974]
Letra de Eugénio de Andrade

Lembra-me um sonho lindo


Fausto Bordalo Dias, do álbum Por este rio acima (1982, 1984 em CD)

Quantas pessoas são “pouquíssimas centenas”?

papagaio010803Ser político é uma das várias maneiras de os seres humanos poderem integrar a simpática classe dos Psitacídeos. Entre um deputado e um papagaio, as diferenças não serão, portanto, muitas, porque, no fundo, um bom fato é outro tipo de plumagem, um assento na Assembleia é um poleiro e basta repetir palavras pensadas por outros. Para além disso, todos sabemos que não há piratas sem papagaio em cima do ombro.

Carlos Abreu Amorim (CAA), por várias razões, tem-se feito notar, desde que integrou a bancada do PSD, nomeadamente quando perdeu as eleições para a Câmara de Vila Nova de Gaia. Tendo escolhido a função de papagaio, é natural que tenha perdido, também, qualquer sentido de decência. Por isso, comentando os recentes e contínuos problemas na colocação de professores, declarou, num debate com Marcos Perestrello: “Temos problemas com pouquíssimas centenas de professores.”

Em primeiro lugar, não sei a quem corresponde a primeira pessoa do plural. Será o governo? Será o partido? Será o país?

Mesmo admitindo qualquer uma das hipóteses, a frase pode levar-nos a pensar que os professores são um problema. No entanto, são as “pouquíssimas centenas” de professores, entre outras pessoas, que têm problemas. [Read more…]

Não pirilamparás o orçamento do vizinho

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Que é como quem diz, não produzirás orçamentos inconstitucionais.

Errar é humano, errar três vezes é intenção. Com o truque de apresentar orçamentos inconstitucionais, propositadamente, este governo conseguiu nos três orçamentos sacar mais dinheiro do que aquele que a lei lhe permitira. BPN, BPP, Swapps, BES, PPP, etc., agradeceram.

Será que é preciso a véspera de eleições para este governo sair da ilegalidade? A ver vamos se haverá mais fogo de artifício para além de manter a sobre-taxa do IRS em 2.5%, em vez dos 3.5% (nota aos mestres do spin: não há baixa no IRS mas sim manutenção de uma sobre-taxa).

Tempos verbais

Nuno Crato visita uma escola. Numa sala, fala às crianças. Pergunta, sobre tempos verbais: “fui um grande ministro, é passado; sou um grande ministro, é…?… – Mentira!” – responderam as crianças em coro.

Mouras

Somos um país de mouras encantadas, o que é bonito. Infelizmente somos também o país de Manuela Moura Guedes. ” A moral não é uma coisa que me preocupe muito”, diz ela em entrevista ao DN, com chamada de capa. Já tínhamos reparado, digo eu.

A foda começa bem

Os preliminares ocorrem com modéstia e humildade, sem traços de preciosismo na chupação ou excesso de manipulação anal.
Falta cadência no meter. Uma foda medíocre que, como comédia, não diverte e, como drama,  não emociona.

França — Portugal

Selecção. Selecção? Oui, évidemment, bien sûr: Selecção.

Diálogo sobre a intervenção directa no processo de avaliação

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© 2006 La MaMa production (http://bit.ly/toothofcrime1)

Hoss: How could this happen?
— Sam Shepard, The Tooth Of Crime

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– Explique-me, por favor: quem é que intervém directamente na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL?

– É muito simples. Na avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL, intervêm directamente quer o Avaliado, quer…

– O Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho?

– Sim, o Avaliado intervém directamente na avaliação do desempenho. Leia o Regulamento de avaliação do desempenho dos docentes do ISCTE-IUL e perceberá: “Intervêm directamente no processo de avaliação do desempenho: a) O Avaliado; b) O Diretor do Departamento…”…

– O Diretor?

– Exactamente: o Diretor.

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– Está a insinuar que o Diretor do Departamento intervém directamente na avaliação do desempenho? O Diretor intervém directamente? Desde quando é que um Diretor intervém directamente? Qualquer dia, temos [Read more…]

Uma questão de escolha…

Dá para perceber. Descer impostos significa mais dinheiro nos bolsos das pessoas. O Estado Social também é um pretexto que tem servido durante décadas para os partidos empregarem os seus militantes, familiares e amigos…

Quantos bancos há em Portugal?

Já estamos a pagar três. Não há carteira que aguente.

O esterco que cobre a europa política

“A Comissão Europeia mentiu de forma descarada sobre o processo de notificação europeia que antecedeu a resolução do BES no dia 3 de Agosto na reacção à manchete do Diário Económico de ontem.” [DE]

Cosmos

cosmos

O astrónomo Carl Sagan leva-nos numa visita guiada envolvente dos vários elementos e teorias cosmológicas do universo. Introdução por Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, com quem produziu, em 1980, a série de TV  “Cosmos”, composta por 13 episódios. As legendas podem ser activadas onde, na imagem, está representado o rato.

Água: bem público, não privatizável?

PSD e CDS não querem. Texto integral da petição ontem chumbada na AR aqui.